sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Texto em que o poeta medita sobre os custos da beleza do menino-garçom do outro lado do balcão no Café La Pompe em Bruxelas
Teus olhos puxados de gato
e o nariz curvado de águia
escancaram desmascaram
a teia
de heranças que compartilhas
com felinos e aves
em nossos genes que sabem
modelar urdir fabricar tecer
nossas roupas feitas
de pelos penas escamas
mas que seguem
a planta arquitetônica
a técnica de alfaiataria
o manual de instruções
escrito em meio a catástrofes
as climáticas as vulcânicas
as meteóricas as viróticas
que extinguiram uns felinos
e levaram outras aves
a se lançarem às águas
ai a estratégia dos pinguins!
e fizeram de guaxinins
golfinhos
e de certos dinossauros
galinhas
e pergunto que fuzarca
genocida homosapiense
terá doado a ti
menino-garçom
estes olhos felinos
este nariz aquilino
ora que mulheres pagaram
com o útero pelas invasões
sucessivas nesse continente
que hímens rasgados à força
custearam
tuas formas texturas e cores
garçom-menino
é cara a beleza
custa sim caro
a beleza herdada
por tantas violências
as expansionistas
as emancipatórias
sem notas de rodapé
nos livros de história
eu me pergunto
aqui em Bruxelas
Capital da Desunião
que gauleses e romanos
hoje esquecidos
que francos e normandos
hoje escondidos
nesses olhos e nariz
espiam-me espiar-te
resta-me só esta
excitação ovulante:
compartilhar a luz
com tuas pupilas
compartilhar o oxigênio
com tuas narinas
mesmo que o gás carbônico
que produzo
seja rejeitado
pelos teus pulmões
assim visitamo-nos
um ao outro
assim entramos
um no outro
assim contribuímos
com essa teia
que os dois coabitamos
com gatos e águias
e as outras cobaias
felinamente aquilinos
aquilinamente felinos
.
.
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Leite
Já não adianta
chorar pelo leite
mamado, querido,
seu cálcio
está agora nos ossos
que suportam
a geringonça
pelas calçadas.
Cheguei a esta idade
em que se tira o suéter
e dobra-se-o diligente
para agasalhar
a gaveta. Deixar
em ordem as reações
passíveis e possíveis
ao clima desordenado
contra o meu armário
de órgãos falíveis.
Que se dissolva
este calor
que foi da sol,
coletado por plantas,
então de herbívoros
e a mim chegou-me,
dádiva de empréstimo.
Tomo
a água e aguo
o copo.
Cozo a couve
e lavo a louça.
A casa está agora
limpa sempre
caso chegue, hóspede.
O desejado. O indesejado.
Puídos estão os lençóis
mas sem sinais de infecções.
Ainda que seja chegado
esse tempo, essa idade,
esse clima imprevisível
em que tão bem se sabe
que ao deus-dará
jamais foi ou será
promessa de holerite
em dia fixo do mês.
§
Berlim, 24 de dezembro de 2017
(ou o Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)
.
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terça-feira, 19 de dezembro de 2017
Pricísu tidizê
apesar de tudo
e todos a pesar
apesar de nada
peso o abusar
ai meu zizus
sê
essa coisa
esse trem
brasileiroa
falaresse
iorubantuportujês
ser-se o cerceio
di-si-i-d'ôtro
qui desgraça
qui delícia
entre bigatos
e os caquis
ai desdiliça
ui deligraça
nascer aquiaí
é-se
filhadaputice
duma disgrama
de azedoce
§
No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517,
Berlim, 20 de dezembro.
§
.
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e todos a pesar
apesar de nada
peso o abusar
ai meu zizus
sê
essa coisa
esse trem
brasileiroa
falaresse
iorubantuportujês
ser-se o cerceio
di-si-i-d'ôtro
qui desgraça
qui delícia
entre bigatos
e os caquis
ai desdiliça
ui deligraça
nascer aquiaí
é-se
filhadaputice
duma disgrama
de azedoce
§
No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517,
Berlim, 20 de dezembro.
§
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino
(desenho de Leonilson)
Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino
Faço diligente meus autorretratos
e espero que ele erga o polegar
em público, qual um césar decida
que eu posso viver um dia a mais
na arena em que nos digladiamos.
Ao fim do mês, tabelo e analiso
a informação dos seus gostos
e desgostos, estes últimos
interpretados de seu silêncio
que é, em si, o meu desgosto:
ele não gosta deste cabelo,
ele não gosta desta pose,
ele não gosta deste rosto,
mas ele gosta deste casaco!
Talvez um dia ele desça o polegar
e gládios de estranhos
me trespassem
e não afinal a sua glande,
ou abandone de todo estes sinais
mudos, esta fumaça sem fogo,
estes pombos-correios casmurros.
Mas quem sabe, ai loteria!, ele
seja ensinado que o telefone
foi inventado para hábitos antigos,
conversas! imaginem! ouvir vozes!
Quando então leve ao bucal a boca,
eu saberei como pentear o cabelo,
que pose não assumir no corpo,
que rostos esconder no rosto.
E estará limpo aquele casaco.
§
(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)
Berlim, 23 de novembro de 2017.
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terça-feira, 14 de novembro de 2017
Poema ao saber da morte de Vincent Warren
Vincent Warren & Frank O'Hara em Nova Iorque em 1960. A paixão
de Frank O'Hara pelo dançarino canadense, que ele conhece em 1959, é apontada
por críticos e biógrafos como um dos fatores que levariam a seu annus mirabilis (1959),
quando O'Hara escreveu grande parte dos poemas que o tornaram famoso,
incluindo vários dedicados a Warren, como "Having a coke with you", "Steps"
e "You are gorgeous and I'm coming". Vincent Warren faleceu a 25 de outubro deste ano.
de Frank O'Hara pelo dançarino canadense, que ele conhece em 1959, é apontada
por críticos e biógrafos como um dos fatores que levariam a seu annus mirabilis (1959),
quando O'Hara escreveu grande parte dos poemas que o tornaram famoso,
incluindo vários dedicados a Warren, como "Having a coke with you", "Steps"
e "You are gorgeous and I'm coming". Vincent Warren faleceu a 25 de outubro deste ano.
POEMA AO SABER DA MORTE DE VINCENT WARREN
ou Texto em que o poeta lembra-se de que morrem também aqueles que ele canta
Os cafés esfriam e acabam!
As manhãs acabam e esfriam!
Deveriam ser estas as manchetes
dos jornais de amanhã, querido,
não mais guerras e golpes, não,
quando estarão enfim extintos
estes assuntos e não nosso açúcar,
nosso pó de café e nossos cigarros,
pois há tanta coisa mais importante
por discutirmos e ajeitarmos.
Calafriam-se os cafés-da-manhã!
Emboloram-se os pães de nosso açúcar!
Todos, Moço. Dessarte haveria
o mundo ou eu
- preferira que fosse eu e o mundo -
de anunciar a você a morte
de Vincent Warren
para os seus bocejos,
não de tédio e sussurros
de quem? quem?,
mas de sono em minha cama,
ainda em minha cama!
enquanto releríamos
tristes os poemas alegres
daquele Frank O'Hara,
escrito para o seu moço
pessoal, privado, intransferível,
ambos agora mortos, finados
o cantor e o cantado, mas não
a canção! nem nós! aqui vivos
numa cidade reerguida de escombros,
nessa alegria sempre temporária
dos cafés, dos açúcares, dos cigarros
e das sempre tão poucas moedas
nos bolsos de nossas calças
que escondem nossa pobreza e riqueza.
Nem por isso é menos alegria a alegria.
E então prepararíamos forte o café
e acenderíamos todos os cigarros
e açucararíamos tudo que pede açúcar
pois é nossa a goela e é nosso o bucho
e neles enfiamos o que nos apraz
em nossa ciranda de prazer e morte
e a sorte grande dos que morrem primeiro
e a sorte maior dos que morrem juntos.
— Berlim, 13 de novembro de 2017
§
“oh god it’s wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes
and love you so much”
—Frank O’Hara (versos finais de “Steps”, poema para Vincent Warren).
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sábado, 30 de setembro de 2017
Ao cu do cupido
muitas vezes pensei ser pena
que tal ilustre sociopata o cupido
em voo não seja um ícaro
em pouso não seja um joelma
não são inflamáveis suas asas de codorna?
são sempre apenas sublunares seus voos?
como jurei mil-mil vezes que o depenaria
com as próprias mãos e faria um pirão
desta galinha choca metida a anjo
mas no fim quando ele se aprochega
feito um pardal esfomeado
o idiota aqui esgoela de novo
MIRA NI MIM
MIRA NI MIM
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terça-feira, 8 de agosto de 2017
O duplo
Escrevi este poeminha esta madrugada. Não sei se o coloco no livro novo ou peço aos leitores que compraram a edição de Cigarros na cama que o copiem de próprio punho em alguma página em branco do livro.
Ninguém acredita todos me olham
como se eu estivesse louco
quando afirmo que você foi sequestrado
por alienígenas
e é agora mantido contra sua vontade
longe de mim longe do planeta
que costumávamos habitar juntos
todas aquelas suas leituras
Stanislaw Lem Philip K. Dick irmãos Strugatsky
eram proféticas seu manual de sobrevivência
como hei de resgatá-lo? como hei-de salvá-lo?
perscruto as estrelas noite a noite
uso aplicativos sinais de rádio e fumaça
ergo o indicador que não brilha como naquele filme
e sussurro ET BRING HIM HOME
todos os objetos voadores
são agora identificáveis
talvez você talvez você
e este agora pelas ruas do planeta
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
ninguém acredita todos dizem louco! louco!
quando nego enfático não é ele não é ele
é um replicante um androide um body snatcher
as provas só eu sei muito bem
comprovo empiricamente a cada encontro
desde seu sequestro numa noite qualquer
quando você foi substituído por este outro
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
a prova a prova ora que prova
olhem como ele me olha
e me trata como a um estranho
não me reconhece
não me reconhece
§
(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)
Berlim, 8 de agosto de 2017.
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sexta-feira, 28 de julho de 2017
Descoberta tardia no meio da novela
Sempre detestei aquela personagem
de filmes, livros e novelas: o bêbado penitente,
seu papel tragicômico na trama,
suas juras de corvo de nunca mais,
suas dancinhas à beira do abismão,
seu samba e capoeira na corda-bamba,
seus arrependimentos com soluços,
suas reincindências cronometradas,
seus pedidos de misericórdia a qualquer deus de plantão,
seus apelos à Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Eu sou o bêbado penitente.
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segunda-feira, 17 de julho de 2017
Retrato em vídeo
O retrato em vídeo abaixo foi produzido pelo Literarisches Colloquium Berlin e pelo Literaturport, em seu projeto de mapear a cena literária de língua estrangeira na capital alemã.
Você pode assistir aos outros aqui.
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Você pode assistir aos outros aqui.
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terça-feira, 11 de julho de 2017
Roteiro de colisões
Até mesmo os continentes afastam-se,
colidem, formam cordilheiras e oceanos,
detêm correntes de ar, mobilizam monções,
separam membros da mesma espécie
que se adaptam, mutações de azar e sorte.
Por que não seria assim conosco, tão mais
bruscos em nossos joelhos e cotovelos,
tão mais destrutivos em nossas erupções
pelas fendas deste corpo no qual a pele
dobra-se úmida, anunciando as crateras?
Em nós também contam apenas as quinas
e buracos. Montanhas, fiordes, precipícios.
Felizes as bactérias inquilinas de nossa pele,
como cegos que apalpassem um elefante,
só parte do planeta doente em que vivem.
E já nem sei se maldito ou bendito esse mar
de lava sobre o qual dançam nossos pés,
as erosões e tremores que expõem fósseis
onde buscamos pelo elo perdido da espécie,
aclare a desgraça de cambalearmos bípedes.
Eu culpo o eixo torto da Terra, as estações
incansáveis, essa rotina do brota-e-murcha,
a neve, seu despenca-e-derrete, eito e horto
da boca que troveja quando queria ensolarar,
une ríspida os dentes e morde ao mal lamber.
--- Munique, 9/7 - Berlim, 11/7
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