terça-feira, 2 de abril de 2019

1° de Abril: Dia da Mentira das Revoluções




Em texto no Correio Braziliense, o jornalista Luiz Carlos Azedo se entrega a uma tarefa ingrata para o curto espaço: desenovelar de alguma forma o ninho-de-gato que eram as forças políticas atuando naquele março e abril de 1964.

Uma coisa que me interessa muito aqui é algo ao qual sempre retorno: sua exposição do golpismo inscrito no DNA da República, e não só. Ele retorna até mesmo à chamada “Noite da Agonia” — 12 de novembro de 1823 — quando Dom Pedro I mandou o exército fechar “a golpes de sabre” a Assembleia Constituinte, enquanto os senadores resistiam. O resultado foram prisões e o exílio, dentre outros, de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763 — 1838).

Tudo no Brasil é sempre mais complicado. As mudanças para que tudo permaneça igual. Por mais republicano que eu seja, não é possível ignorar o movimento do alto para baixo que foi o movimento republicano no país, e sua paternidade em grande parte militar. As consequências disso. O exército vem interferindo na política nacional desde o fim da Guerra do Paraguai. Ao mesmo tempo, aprecio no texto a recuperação do nome de um militar democrata e legalista como o general Henrique Lott.

Talvez pareça exagero a alguns voltar a um passado que lhes parece distante. A mim não parece. A república começa entre golpes e renúncias. Nos jornais do fim do século XIX, Olavo Bilac e Raul Pompeia já trocavam insultos por causa do governo de Floriano Peixoto - que dera o golpe em 1891. Com a renúncia de Deodoro da Fonseca, se deveriam ter convocado novas eleições. Já no começo as desconfianças entre presidente e vice-presidente por causa da ideia maluca de desvincular a eleição de cada, por chapas diferentes e muitas vezes inimigas. Isso é central na crise de 1961 e no golpe de 1964. Golpe que havia sido frustrado em 1954 com o suicídio de Getúlio Vargas. O antipetismo de hoje. O antigetulismo de então. É provável que o Estado Novo estivesse fresco na memória de gente mais velha em 1964. Lembremo-nos das prisões de Graciliano Ramos, Dyonélio Machado e outros. Mesmo assim, NADA, absolutamente NADA justifica o golpe de 64 e os horrores que se seguiram, varios deles crimes contra a Humanidade de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção de Genebra, etc. O Brasil sempre condenado ao beabá.

Estas são as conjunções apenas nacionais. Junte-se a tudo isso a Guerra Fria, o intervencionismo norte-americano, e está armado o circo sangrento. Eu concordo ser muito importante dar o nome certo às coisas. O que ocorreu no dia 1 de abril (o aniversário é hoje, mas isso é picuinha) foi um golpe militar. Mas... tudo no Brasil é mais complicado, então me permita demonstrar como não há sempre consenso sobre qual nome dar a quebras da ordem institucional. Eu nasci e cresci no estado de São Paulo. A maior parte da vida aprendi que o que aconteceu a 24 de outubro de 1930 foi o GOLPE de 1930. O resto do país parece chamar sem problemas de REVOLUÇÃO de 1930. Não sou ingênuo. É óbvio que os paulistas tinham interesses econômicos e políticos na manutenção da Velha República. Além disso, Vargas claramente teve um efeito modernizador sobre o país, e ele descaradamente fora fraudado nas eleições de 1 de março daquele ano, que deram a vitória a Júlio Prestes. Todos concordam que 1937, no entanto, foi um golpe. A velha história: revolução para quem ganha, golpe para quem perde?
Enfim, vale a leitura e a expansão do texto. 

Eu acredito que esforços como este, por parte de escritores e jornalistas, são inestimáveis em momentos de polarização como o nosso.

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quarta-feira, 27 de março de 2019

"Contra o desperdício de poetas", seguido de uma seleção de poemas de Alberto da Costa e Silva

O poeta mineiro Adão Ventura (1946-2004)


Nós todos amamos citar pelos ensaiozinhos ou abanar em cafeterias por aí o grande livro de Roman Jakobson, A Geração que Desperdiçou Seus Poetas (1930). E lamentamos os desperdícios do passado. Mas quantos de nós fazemos algo contra os desperdícios de hoje?

Estamos certos de não estar entre os esbanjadores, certos de que não seguimos modas ou a imprensa. E como se clama por aí contra o sistema que invisibiliza escritores por questões extraliterárias, mas em geral apenas para conquistar o seu próprio espaço ao sol. Garimpar e resgatar os mortos soterrados dá trabalho demais! O que se quer é ver os próprios espirros e cólicas alçados a grande literatura pela Folha de São Paulo, O Globo, a Piauí e o Suplemento Pernambuco.

Foi uma alegria ver Hilda Hilst e Roberto Piva virarem moda, desde que sejam lidos, pois ainda que por motivos escusos podem se tornar anticorpos poéticos no sistema imunológico da língua. Me alegrou imensamente a acolhida que teve o livro de Hilda Machado, e foi bom participar com poetas de minha geração da reapreciação do trabalho desse grande poeta que é Leonardo Fróes, ainda vivo, ainda entre nós.

Mas quando vamos gritar até começarem a ler e celebrar Henriqueta Lisboa, Maria Ângela Alvim, Lúcio Cardoso, Adão Ventura, Marly de Oliveira, Carlos Pena Filho, Stela do Patrocínio, Orlando Parolini, Laís Corrêa de Araújo, Paulo Colina, Max Martins, Mariajosé de Carvalho e Arnaldo Xavier devidamente, estes mortos soterrados? E há os vivos, os que são difíceis de fazer moda.


A poeta capixaba Marly de Oliveira (1935-2007)


Passei ontem o dia lendo um poeta que ganhou o Prêmio Camões em 2014 e mesmo assim é raramente citado: Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 1931). Que inteligência e exuberância de linguagem! Além disso, trata-se de um intelectual de peso, o autor de trabalhos seminais sobre a relação entre o Brasil e a África. Não estou acusando. Eu próprio só comecei a lê-lo com mais atenção no ano passado.



E há outros vivos dos quais precisamos formar nossa própria opinião, não apenas herdar os silêncios do passado, como o frei Bruno Palma, Olga Savary, Horácio Costa, Miriam Alves, Sérgio Sampaio ou Jomard Muniz de Britto. Dedique parte de sua energia AO TRABALHO DOS OUTROS. É comunitário o esforço. Queridos, o ecossistema da literatura brasileira é tão mais interessante do que o zoológico que é mostrado nas páginas dos jornais.


-- Ricardo Domeneck, 27 de março de 2019.

*

POEMAS DE ALBERTO DA COSTA E SILVA

A BILHA

Assim o barro, em tuas mãos pequenas
e machucadas, ergue um voo, povo:
é um ai de terra, sem nenhum tormento,
um ai de rir e flora, de macio coito
de porcos, quase asa de garça, quase
paina de jatobá, esta moringa aberta
ao frescor que há no sol, charque, avoante,
forma de prenha mulher, quartinha, pote.

Inverso estio moldas em terra e água,
cor de palha e de mel, meu povo, sem distâncias
de serras com que sonhas junto ao cacto,
mas que entorna a noite de seu bojo.

Se o colas ao rosto, vêm as brisas
dos regatos e à boca chegam barro
e ondas de um rio que são choros de parto,
breve esperar, sentido amor, memória
da meninice em tuas mãos que moldam
casa, banco, alguidar, bilros, cancela,
anjos toscos, na fome de teu corpo.

*

RITO DE INICIAÇÃO

§ meu pai dizia as mangas que enverdeçam
   para que o sal lhes dê um novo gosto
   cortava o sol em fatias o sumo o rosto
   sujava de luar de mate ou pouca
   luz que fundeia na sombra da jaqueira
   chegava à carne do fruto à rude juba
   que arma em fera a pele do caroço

§ à margem do curral mergulho aberto
   do tamarindo meu pai dizia fazes
   o desgosto compões cada segredo
   a cresciúma os ninhos nos alpendres
   o adeus com flores os ombros dos mendigos
   a sustentar a curva porta os cegos
   a cavalo e os porcos nos açougues

§ o azul é rouco e teu meu pai dizia
   este silêncio de viração furtada
   outras monções com cheiro de goiaba

§ sabor só soturno soterrado
   dá a manga o trotar o alaúde
   me pai dizia o sol é sal e o solo
   nada cultiva em nós nem a descalça
   morte rastro leve na farinha.

*

SONETO

Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro

põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro...

E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro

em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.

*
A RICARDO REIS, NO MAR DA GALILEIA

Só dizem os deuses o que logo esquecem,
mas o jogo do céu é amplo e reto,
e cada lance é um coração aberto:

nele não dorme o que se fez desperto,
o eterno é agora e em si mesmo morre,
nunca houve rumo e todo sempre é incerto.

             — Não creio, e rezo.

*

SONETO A VERA

Na relva iluminada pelos pássaros,
reclinas o teu corpo. Separada
dos dois lados da noite, quando o sol
recolhe ou desenrola as suas velas,

do touro ao meio-dia, e das fases
da lua, e do que muda e se disfarça,
e da grama e das aves que ali pastam,
respiras, te espreguiças, alinhavas

o teu ser contra o céu, enquanto passam
o chuviscar, o abrir do sol, os galgos
do verão e do inverno, as estações

da manga e do caju. E vais, deitada,
como um barco na praia, alheia ao tempo
a se bordar no bastidor da tarde.

*

A TRAVESSIA DO RIO VOLTA

concentrados e sós num ar de sumaúmas
mandiocais e córregos íamos na balsa
como quem vai para a horta como vão para o coro
meninas que louvassem a alva renda dos den
dezeiros e lavouras cruas de calor

um repouso de cana se a polpa cobrisse
de uma gordura casta essa cachaça triste
que sugamos do coco em outro dia de
lagosta e palavras algumas sobre a morte

mas agora é a magra companhia desse sujo branco
da roupa dos pobres e da lepra corrroendo
o encaixe das unhas o joelho e os lábios
mordidos num pranto de pálpebras sem espe
rança de chão sem manta e mãos de amor
para lavar o rosto de quem sozinho e rouco
e míope em nada toca

vamos num chevrolé e as longas pirogas
vão passado por nós e as folhas das mangueiras
e há quase uma recusa de beber o ar sem ser
num respirar de pranto pois tudo perdeu
essa infância sem nádegas e de umbigo herniado
(leve capim que uma boca insaciável rumina) tão pros
trada que se alimenta de um roçar com o rosto a terra
e que num gesto de cego a afinar o violino
me oferece frutas como se as colhesse
como quem recebe.

*

O AMOR AOS SESSENTA

Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.
Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos
contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas
e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.



Alberto da Costa e Silva nasceu em São Paulo a 12 de maio de 1931. É um diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e atual orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi distinguido com o Prémio Camões de 2014.

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Poetas estrangeiros e sua morada no Brasil

Existem histórias ainda por ser contadas sobre as literaturas e o Brasil, como a da escrita brasileira produzida fora do país, algo conhecida, mas também a das escritas estrangeiras produzidas no território brasileiro. No primeiro caso, sabemos que muitos escritores compuseram seus livros durante suas passagens por outros países, em grande parte por conta de suas carreiras diplomáticas, como Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Clarice Lispector, ela própria uma imigrante, produziria vários livros fora do Brasil por seu casamento com um diplomata. A experiência de Érico Veríssimo nos Estados Unidos desaguaria no livro Gato preto em campo de neve (1941), e o meu poema favorito de Vinicius de Moraes, "A última elegia", foi escrito na Inglaterra.

"O ROOFS OF CHELSEA

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
                                   no anticlímax da aurora!
                                          ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
                                          uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
                                 “... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
                                 murmura adormecida
É meu nome!...
                                 sou eu, sou eu, Nabucodonosor!"

__ Vinicius de Moraes, excerto de "A última elegia", in Cinco elegias (1943).

§

Hoje em dia, poderíamos citar Zuca Sardan, que vive em Hamburgo. Ederval Fernandes vive em Lisboa, e Luca Argel, no Porto. Vivem em Londres Bruno Verner & Eliete Mejorado, do duo Tetine, assim como Karinna Alves Gulias. Barbara Marcel, Érica Zíngano (até pouco tempo) e eu vivemos em Berlim. São alguns exemplos.

Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto na Espanha


Já a produção literária de estrangeiros no país tem uma história ainda por contar e menos conhecida. É famosa, é claro, a passagem de Stefan Zweig pelo Brasil e seu suicídio em Petrópolis, o famoso-infame Brasil: País do Futuro (1941).

Também tem caráter já quase lendário o longo período da vida de Elizabeth Bishop no Rio de Janeiro, em Petrópolis e mais tarde em Ouro Preto.


Cadela rosada [Rio de Janeiro]
Elizabeth Bishop

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...!

(tradução de Paulo Henriques Britto)

A poeta estadunidense Elizabeth Bishop na entrada de seu estúdio 
na casa de Samambaia em Petrópolis, onde viveu com Lota de Macedo Soares.

E se escritores brasileiros deram seu próprio "brado do Ipiranga" no centenário do brado de Dom Pedro I, imigrantes como Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld e Paulo Rónai foram importantíssimos para a abertura da vida intelectual do país. Outro exilado germânico menos conhecido foi Herbert Caro, que fixou residência em Porto Alegre, onde traduziu vários alemães para o português. Pouco lembrados também são o mexicano Alfonso Reyes e a chilena Gabriela Mistral, que tiveram funções diplomáticas no Brasil.

Gabriela Mistral e Cecília Meireles no Rio de Janeiro, década de 1940.

Se é muito conhecida a estadia do suíço Blaise Cendrars entre nós, fazendo já parte do quase-folclore em torno do nosso Movimento Modernista, como me lembrou Rafael Cardoso é menos mencionado o caso do surrealista francês Benjamin Péret. Casado com a cantora brasileira Elsie Houston, ele viveu no Rio de Janeiro entre 1929 e 1931, quando foi preso e expulso do país por Getúlio Vargas por sua militância comunista e participação ao lado de Mário Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo no grupo Oposição de Esquerda.


Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Péret, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, 
Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira e Maximilien Gauthier.

Mario Pedrosa e Benjamin Péret eram cunhados. O filho de Péret e Houston, Geyser, havia nascido no Rio de Janeiro há poucos meses quando o casal foi obrigado a voltar à França. Péret seguiria fascinado pelo Brasil, e deixou textos pioneiros sobre o candomblé e sobre artistas brasileiros como Maria Martins.

Entre os latino-americanos, o caso mais recente e importante foi o do argentino Néstor Perlongher, que viveu exilado em São Paulo e aí escreveu praticamente toda a sua obra, de Alambres (1987) a El chorreo de las iluminaciones (1992), assim como sua pesquisa em O negócio do michê: Prostituição viril em São Paulo, publicada pela Brasiliense em 1987. Por sua vez, foi da Argentina que o galego Lorenzo Varela manteve contacto intenso com os intelectuais brasileiros das décadas de 1950 e 1960, exilado por Franco, e foi ali que Ferreira Gullar escreveu a maior parte de seu Poema Sujo (1976), exilado pela Ditadura Militar.

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Não pode ser uma questão apenas de língua e tradução o que dificulta essa história. Afinal, basta procurarmos em livrarias brasileiras os trabalhos de portugueses como Jorge de Sena e João Apolinário, da moçambicana Noémia de Sousa ou do cabo-verdiano Luís Romano, lusófonos estrangeiros que viveram no país, para percebermos como ignoramos até mesmo os autores de nossa própria língua que passaram por este país gigantesco, mais plural em suas experiências linguísticas do que costumamos papaguear por aí.

Ficha de imigração do escritor cabo-verdiano Luís Romano (Cabo Verde, 1922 – Brasil, 2010)


No ano passado, o governo de Cabo Verde condecorou a Marinha brasileira com a medalha do Mérito Cultural por contribuir no repatriamento do acervo do escritor Luís Romano às ilhas de nossa irmandade lusófona, ele que também escreveu em crioulo cabo-veridano e viveu por cinco décadas em Natal, no Rio Grande do Norte. Oxalá fosse esta uma das únicas funções das marinhas do mundo: transportar bibliotecas.

§



E há também descobertas por fazer, algumas complicadas sim pela questão da tradução. Em 2014 soube através do meu amigo, o poeta e romancista ucraniano Andriy Lyubka, que Wira Wowk, uma das mais importantes poetas ucranianas do século XX vivia no Rio de Janeiro há décadas. Escrevi sobre um encontro com ela, ao lado de Lyubka, em uma crônica para a DW.

Os ucranianos Wira Wowk e Andriy Lyubka no Rio de Janeiro em 2014


A última descoberta, no meu caso, foi o russo Valery Pereleshin (Irkutsk, Rússia, 1913 – Rio de Janeiro, Brasil, 1992). Nascido na Sibéria, ele emigrou primeiramente para a China, onde começou sua obra, e em 1952 veio com a mãe para o Brasil, onde produziu a maior parte de sua poesia. Em um ensaio, seu tradutor americano Simon Karlinsky escreveria que o poeta se considerava "poeta brasileiro que escreve em russo".

O poeta russo naturalizado brasileiro Valery Pereleshin
(década de 1970)

Mas Pereleshin escreveu também em português. Luci Ramos Mendes me informou que sua obra lusófona será lançada em breve pela Editora Dybukk. Foi ela quem me enviou o poema abaixo. Espero que a poesia russa do autor seja também traduzida e lançada em algum momento. Com certeza incluirei seu trabalho na antologia homoerótica internacional que estou organizando.

Poema homoerótico lusófono de Valery Pereleshin


§

Essa história não acabou, é claro. Há/houve ainda os casos do argentino Aníbal Cristobo, da alemã Sabine Scho, da estadunidense Farnoosh Fathi, das portuguesas Matilde Campilho e Alexandra Lucas Coelho, dos britânicos Sarah Rebecca Kersley e Rob Packer, da suíça Prisca Agustoni. Um tema bastante interessante para uma pesquisa. Há com certeza quem já esteja se dedicando a ela.

E também para uma discussão saudável sobre a ideia de "nacional" que ainda rege nossa historiografia literária, apagando até mesmo autores nascidos no Brasil por não se adequarem a certas narrativas e dificultando nosso conhecimento e aprendizado também dos orikis de matriz africana e da poesia ameríndia do território.

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Um par de coisas ao redor de Ederval Fernandes

Ederval Fernandes (retrato por Igor Fernandes)


Em 2014 estive pela segunda vez na vida em Salvador, ministrando uma oficina de escrita na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi uma viagem importante para mim como crítico e como poeta por ter me colocado em contato com algumas das figuras que vêm trabalhando na cidade, como Milena Britto e Sarah Rebecca Kersley – que viriam a fundar a Livraria Boto Cor-de-Rosa e a editora Paralelo 13S mais tarde – assim como Alex Simões e James Martins. Fiz uma pequena homenagem aos poetas do estado naquela semana, com uma seleção na postagem Alguns poetas baianos.

Foi nessa oficina também que conheci o jovem poeta Ederval Fernandes, ainda inédito à época. Como viria a escrever mais tarde neste espaço na postagem "Dois poemas recentes de Ederval Fernandes":

          "Ederval Fernandes é crítico e poeta de mão firme, especialmente quando usa o corte ágil. Tem, além disso, um dos trabalhos mais interessantes, que li nos últimos tempos, na pesquisa dialetal e de léxico local, como no poema 'O cobrador da van disse' e, de outra maneira, em outro poema seu recente, 'A cabeça do preto', publicado por ele nas redes sociais, poema também de força política diante de nosso racismo sistêmico. "


Já comentei o poema dialetal de Ederval Fernandes em algumas postagens. Foi o poema que me levou a querer prestar atenção ao desenvolvimento de sua poesia.


O cobrador da van disse
Ederval Fernandes

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

(Fernandes, Ederval. Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes. Salvador. Paralelo 13S. 2018.)


Naquele momento, quando o ouvi da própria boca do poeta em 2014,  ele vinha ao encontro de certas preocupações minhas, pois havia também começado a trabalhar com alguns textos dialetais a partir da linguagem interiorana de minha avó, como em "Texto em que o poeta apaixonado pensa n'O Moço e regride até na linguagem", de 2013. Lembro-me de termos conversado sobre isso à época.

O Brasil gerou certos experimentos com a poesia dialetal. No modernismo do Sudeste, com Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado e – talvez o caso mais notório – Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, melhor conhecido por todos como Juó Bananère. No Nordeste, poderíamos pensar nessas escolhas linguísticas no trabalho de Catulo da Paixão Cearense, Solano Trindade ou num poema tão belo de Humberto Teixeira como é "Assum preto", imortalizado pela voz e sanfona de Luiz Gonzaga. Há no Sul ainda o caso excepcional e tão pouco conhecido da poesia cantada de Jayme Caetano Braun (1924—1999). Na poesia contemporânea, eu diria que o caso mais paradigmático seria o de Douglas Diegues. Na língua alemã, foi um aspecto forte na poesia do Grupo de Viena, especialmente na de H. C. Artmann (1921-2000).

O que rege e nubla nossa recepção destes trabalhos está além dos problemas de hegemonia do eixo Rio-São Paulo, ainda que nossa miopia seja muito agravada por ela. Eu creio que o problema seja ainda o de hegemonia da cultura urbana e das capitais sobre o rural e o interiorano. O asfalto é imperialista. O supostamente culto em nossa terra de bacharéis. E isso acaba gerando entre eixos de pixe a nossa historiografia literária com suas escolas e agrupamentos questionáveis e com conceitos, entre outros, que mais atrapalham do que ajudam. Como o Regionalismo que, se faz justiça aos grandes romancistas da década de 1930 no Nordeste, por vezes esconde sulistas como o gaúcho Simões Lopes Neto (1865-1916), nortistas como o paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979) ou até mesmo um paulista como Valdomiro Silveira (1873-1941). Estes autores, junto de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rêgo fazem parte da ala de nossa Modernidade que se desdobra sob o influxo do realismo de Machado de Assis.

§

Mas o dialetal talvez seja apenas incidental à poesia de Ederval Fernandes. O que a rege é principalmente o minimalismo que guia muito da nossa poesia contemporânea a partir dos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos, assim como na influência do norte-americano Robert Creeley entre nós na década de 1990.



Para a orelha para seu segundo livro, Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes (Salvador: Paralelo 13S, 2018), eu tentaria exprimir isso da seguinte forma, dizendo que o poema:

"concentra em si o movimento interessante na poesia de Ederval Fernandes entre uma textualidade centrípeta e centrífuga. Explico-me: se em grande parte da poesia lírica acredita-se que o movimento da voz é sempre o pessoal que se expande para o público, do centro do eu para as margens da comunidade, aqui é o público que se concentra em pessoal. O comum que retorna ao seio individual do poeta. O externo que se internaliza para novamente externalizar-se. É poesia conceitual, que tem sua raiz nos desvios contextuais dos textos de um poeta como Oswald de Andrade, ao mesmo tempo que honra a atenção ao particular. Conceitual e dialetal. Ideia e carne. Lírico e político. Outro lado desta moeda encontra-se em [poema que dá título ao título ao livro] 'Novas ofertas de emprego para Ederval Fernandes', formado pela justaposição e colagem de trechos extraídos de um caderno de classificados. Os usos do corpo no corpo político. Estes dois textos são como as faces da mesma moeda. Além das moedas que nos compram e vendem, nas várias imagens de caráter econômico que perpassam o livro. Se vemos neste livro o minimalismo  que caracterizou uma porção da boa poesia brasileira a partir do final da década de 1990, em especial sob o influxo de João Cabral de Melo Neto e Robert Creeley, o que diferencia o trabalho de Ederval Fernandes está na subordinação do imagético ao sonoro, ligando seu trabalho ao de mestres vivos como Augusto de Campos e Ricardo Aleixo. É o minimalismo de uma voz que diz e mostra o mínimo múltiplo comum das experiências, muitas vezes traumáticas, do nosso próprio corpo ao contato de outro corpo, e em negociação com todos os corpos da comunidade. Os vivos. Os mortos. As vozes deles todos."

– Ricardo Domeneck, Texto de orelha para a primeira edição de Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes (Salvador: Paralelo 13S, 2018).

§

Novas ofertas de emprego para Ederval Fernandes

Precisa-se de trolha com experiência
para França.
Pintor à pistola em Viana
do Castelo.
Ajudante familiar
em regime interno
na zona das estrelas, em Lisboa.
Gestor de Stocks; Business
Analyst; Comprador.
Pasteleiro e ajudante
de pasteleiro – URGENTE! –
em Ponte de Lima.
Procura-se ajudante familiar
cuja carta de condução
leve-a até Bruxelas.
Externa, de segunda à sexta,
das 9:30 às 20:00, Carnaxide.
Care Assistant (UK).
Precisa-se de serralheiro.
Administrador Share Point.
Procura-se advogado
para o Timor Leste. Account
Manager.
Técnico de controlo de qualidade
de indústria de detergência.
Precisa-se de cabeleireiro
em Paços de Ferreira.
Account New Business, LX;
Stylist Assistant;
Pai Natal (em São João
da Madeira).
Professores de Português em Oeiras.


É difícil saber o que leva alguns poetas a serem primordialmente imagéticos, outros a terem ouvido atento aos aspectos sonoros. A preocupação de Ederval Fernandes com a importância da oralidade em nossa cultura talvez fique clara ainda mais em seu trabalho crítico, como no importante ciclo de ensaios sobre o rap brasileiro que preparou para a revista Modo de Usar & Co., com ensaios sobre Nega Gizza, Sabotage, Mano Brown e outros.

Em sua própria poesia, isso se demonstra em textos diversos, como "Magia" e "A voz":

Magia
Ederval Fernandes

TEU poder
vem do som

SIETE actos
exactos

JUEGO de los
signos altos

AND it comes
from your eyes

BULLET sound e mais
o teu chamado

MA non
puedo explicar
o que já foi explicado

MÁS
eres blanco impuro
umbigo obscuro

ERES um feixe
um furo
a fish
on a clear water
sem muro

TEU poder
vem do sol
do som

LIKE desert
profundo

E me saravá
dos pecados
DEL mondo

§


A voz
Ederval Fernandes

verde, ser
de
sopro.
vento lento,
mundo
oco.
se tudo É
como É?
o vento, o sopro
o tempo morto
e o engodo...

águia voa febril
no branco, comigo.
à sorte,
amigo. a morte
é o lance tardio.

o jogo É
assim.
se isto É
tudo (o fim),

meu espelho
conservo
convexo neste
verso.

dentro,
dentro
do mistério,
escrevo.
escravo,
escavo o minério:

gravo a voz
em vós.

Feira de Santana, Bahia, cidade natal de Ederval Fernandes, aí nascido em 1985.

Certamente, o que aprecio no minimalismo de Ederval Fernandes – como em outro baiano de sua geração, Rodrigo Lobo Damasceno – é que ele jamais se torna desculpa para esterilidade emocional. É a melhor lição que deveríamos ter tomado de Robert Creeley naqueles idos de transição dos milênios, lição que já aparecia em poemas de Ferreira Gullar, Mário Chamie, Augusto de Campos, Adão Ventura e Paulo Colina.


No bolso as moedas
Ederval Fernandes

perder o amor
não é perder o lápis
o relógio
de preguiça perder o poema
ou o comboio o elétrico 15E
sentido algés
por 6 minutos
a mais na cama
nas contas a serem
pagas nas culpas
nunca suturadas
perder o calor
do café
o amor perdê-lo não é
como precisar ir
mas ficar
andar e não correr
atrás disso
que fácil e lento passa
em frente à porta (ouvir
Dylan para entender
o uso deste sample)
perdê-lo o amor não é
como ir à praia sem querer
ir embora
e descobrir depois:
o melhor era ficar
perdê-lo o amor
é impossível
no bolso as moedas
se escondem
mas não
desaparecem


Por estes motivos, sigo querendo acompanhar o trabalho de Ederval Fernandes, hoje amigo e colega em correspondência constante sobre poesia, a nossa e a de outros. E é por isso que encerro com este poema meu, incluído na edição especial e limitada de Doze cartas, lançada juntamente com meu último livro, Odes a Maximin (Rio de Janeiro: Garupa, 2018).


Texto em que o poeta medita sobre fronteiras como cercas e pontes ao lado de Ederval Fernandes em Lisboa
Ricardo Domeneck

Na manhã em que acordei de um pesadelo
comprido e detalhado, hollywoodiano,
de grande produção e parco elenco,
no qual meus irmãos tentavam roubar
a herança que não tenho
e enquanto seguia entretido
com o apocalipse que denuncia
em mim o terror velho
de me saber menos
Jacó do que Esaú,
sob esse teto em Portugal
beberico café importado do Brasil.
A carne, moída
de um sono suado
e sem reabastecimentos.

Pela janela, vê-se a Torre
de Belém e não a de Babel,
uma espécie de árvore
de natal sólida, permanente,
ou versão da Árvore do Bem
e do Mal, suas mais de cinquenta
cruzes dela pendem
como se pejada de frutos,
e ela finca suas raízes
nas águas do Tejo.
Em algum ponto, sua foz
desagua no Atlântico,
onde nossa desgraça desemboca.

Na cafeteria, olho o rosto mestiço
de Ederval Fernandes, vejo
minha mão mestiça
tomar a xícara donde o vapor
sobe dessa bebida inexistente
nestas plagas
antes do descobrimento da catástrofe,
aquela que no entanto fez possíveis
o rosto mestiço de Ederval Fernandes
e as mesmas mãos mestiças minhas.

Cá estamos, baiano e paulista,
enquanto nossos compatriotas
digladiam-se
pelos espólios dos portugueses
do outro lado do Atlântico,
baiano também estrangeiro para o paulista,
paulista também estrangeiro para o baiano,
ambos estrangeiros para os portugueses
que nos cercam, e bebemos todos
nossos cafés, calados.

Enquanto isso, as águas do Tejo e do Atlântico
deslizam indiferentes às dores e às delícias
de sermos portugueses, baianos ou paulistas.

Não há volta no tempo, não há conserto,
mas esperamos, balbuciando
nessa língua comum, familiar e estrangeira,
que se torne viável
algum concerto. Alguma concórdia.


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sábado, 9 de fevereiro de 2019

As formigas do mel comum




bichos com pote:
as formigas-de-mel,
casta de expertas
rotundas, repletas

em bojos coletam,
armazenam, engolem
açúcares do planeta
até que os abdomes

se inchem e encham,
unjam-se enormes
e as outras, na fome,
desta viva despensa

extraiam sua sobre
-vivência, em ceias
nos tempos da seca.
as obreiras imóveis

agarram-se no sótão,
aguardam pacientes
no deserto sua função:
cevar a comuna toda.

não são como abelhas
nem se alam, vespas,
são tão-só elas próprias
os favos, figos, fornos.

se em verão ou inverno
subnutre-se a terra,
soldados e operários
cariciam suas antenas

e os potes se abrem,
comportas, ambrosia
no porão de aborígines:
o sótão das formigas

que nutrem até homens
na corrente das fomes
que unem as espécies,
o fado de boquiabertos.

saciar-se a si ao nutrir:
armazém e quitanda
de outros, seus quindins!
adiar fins, apocalipses.

mas nossos estômagos
são só de nós próprios
usina de açúcar, indústria
de egos, usura, nunca

a ucharia e as viandas
do comum, da república.

*

Ricardo Domeneck, Berlim, 6-8 de fevereiro de 2019.

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Paraopeba e os rios largos de dentro


Oswaldo Goeldi. "Peixe Vermelho". 1950. xilogravura em cores.  21 x 27,5 cm.


O Paraopeba e os rios largos de dentro

Os afluentes todos do rio
engasgam sem milagre
de peixes. Em cada asfixia
morremos com os bagres.
Surubins. Piaus. Traíras.
Nós, o povo biodegradável.
Mesmo em nome, Minas
Gerais urrava essa profecia
do fim de toda piracema.
Que a Cuba vá Prosérpina.
Nos brônquios, queima
a falta de ar qual no menino
fraco que fui, o enfermiço
da casa, bronquite perpétua,
pulmões a chiar estreitos.
Abro boca, narinas e o peito
ao pensar naqueles peixes
boquiabertos em seu pânico,
lançando-se fora das três
margens do rio. Nos jazigos
do lamaçal, as meninas.
Tornou-se tijolo o pedreiro.
Os sermões do oxigênio
que nos agrega aos vivos
e em falta nos desatrela.
Nas orlas da boca, a língua
resseca. Eu inspiro, expiro.
Nas cozinhas todas trinca-se
o barro de filtros e moringas.

*

Berlim, 28 de janeiro de 2019, com Brumadinho e o Rio Paraopeba na cabeça e no peito.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Numa tarde chuvosa em São Paulo, pequena crônica

Chove em São Paulo. Um pé d’água, um toró. À saída da estação de metrô da Consolação, uma jovem deixa cair seus livros na rua onde já se formavam poças. Imediatamente, uma senhora mais velha acudiu, um rapaz também abaixou-se para pegar livros, e uma outra moça começou a mover compras de uma sacola de plástico a outra para que uma delas se esvaziasse e ela pudesse cedê-la à moça dos livros agora molhados, que agradecia, agradecia, obrigado, obrigado, obrigado. Se o leitor considerar isso relevante, o grupo era formado por duas moças de ascendência europeia, um rapaz de ascendência africana e uma senhora de ascendência asiática.

Não era uma catástrofe a queda dos livros, não mudava os rumos da República, não deteve o trânsito. Mas era uma urgência, e as três pessoas ao redor da moça — dos livros nas poças de chuva — agiram com a presteza e a rapidez que pedia a situação. Rápido!, os livros se molham, não foram feitos para molhar-se os livros. Não sei nem sabiam eles em quem os outros votaram nas últimas eleições, o que pensam sobre qualquer questão que talvez os levasse a se ofender mutuamente nas redes sociais. Não importava naquela urgência das coisas que se estragam. Os livros molhavam-se, a moça tinha as mãos presas, agiram rápido, sem pensar, era o outro na chuva com suas coisas relevantes, irrelevantes. Agradeceram-se e partiram sob a chuva.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

As mangas e os bois




Jamais rasguei no dente
o coração de um boi
para saber se a consistência
é a mesma entre as carnes
da manga e do mamífero.
Sei que foi destinada a meus dentes
a polpa da fruta
para chegar às sementes,
desnudá-las e espalhá-las
entre bois que adubem o chão
da sua frutificação.
Percebo que o coração de boi
e a coração-de-boi
são imagem e semelhança
assim como a crista-de-galo
e o galo e sua crista.
Dizer porém o quê
da espada-de-são-jorge
e a espada de São Jorge?
Da costela de Adão
e a costela-de-adão?
Ontem, à mesa de um bar,
o amigo nomeou seu destino
nos próximos meses,
disse “Cabeça do Cachorro”,
causou susto, interrogatório.
Tudo tem provas, um mundo
cartografado com cuidado,
é isso que nos legaram
os antepassados, mortos
entre os polos Norte e Sul.
O amigo logo mostrou-nos
no mapa digital, invocável
pela voz, a região
no extremo noroeste
do país, no estado
do Amazonas, na fronteira
com Colômbia e Venezuela.
Como é possível jamais
soubesse que a terra possuía
uma cabeça de cachorro?
Nunca olhei tão longe?
Vivo nos seus intestinos.
Ora, parece-se mesmo
com a cabeça de um cachorro,
latindo, latindo, enraivecido,
pensei eu, enterrando os dentes
no coração dos bois
e na coração-de-boi,
com a minha cabeça de cão,
minhas costelas de Eva e Adão.
Talvez seja hora apenas
de aceitar o calor que colore
as mangas, esse dezembro
em que derretemos
mas, ao menos, juntos,
de amar com igual suculência
o próximo e o distante,
planejar viagens curtas e longas
ao Lago das Garças e a Chã de Alegria,
a Anta Gorda e à Cabeça do Cachorro.
Amar o nativo e o enxertado,
assim como talvez-quiçá amarmos
a nós mesmos, há tanto enxertados
como as mangas e os bovinos,
que já nos tratamos por nativos.

— São Paulo, 16 de dezembro de 2018.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As ternuras brutas




Há semanas não crocitam
as musas uma única linha
sequer. Que adianta gralhem,
arrulhem, se não falo grego
antigo? Nada tenho a dizer,
rádio desligado, eu, à espera
de alguns sinais idiotas
dos Anéis de Saturno,
dos Abéis de Cains.
E os bichos que me incitam
à estumação, os meninos
feito troncos, potros ou topos
de morro estão alguns
às margens do Atlântico,
ocupados com batatas-de-pernas
ou já se agasalham em camadas
várias de lã do outro lado
desse mesmo oceano.
Uns inúteis, uns inúteis.
Queria eu só excitar ou excisar
umas alegriazinhas quaisquer,
então faço meus truques
de mágica num tempo sem mágica:
como as pinhas todas,
visto as meias novas,
ouço trinta e três vezes
a canção favorita,
releio aquele livro de Adélia Prado
e aquele outro de Marly de Oliveira,
os que folheio escondido
para não irritar os porteiros
da palavra consagrada por síndicos.
O pelicano n'o mar de permeio!
E que vieram fazer vocês
nesse mundo se não gostam
ou me proíbem exclamações?
Só queria me enceterner,
me nenertecer,
digo: enternecer. Pronto, ofendo
agora com isso os gramáticos
e os policiais do miocárdio alheio.
Peço tão pouco, cambada: alegrias
chinfrins, como o pastel
junto do caldo de cana,
o café forte, a mesa limpa,
a escrita ou a leitura lacrimosas.
Em verdade em verdade
trocaria tudo isso pela permissão
de lamber com esmero
aquilo que metade de vocês esconde.
Não: melhor seria seguir agora
pelas ruas umas batatas-de-perna,
coisas esculpidas em areia e asfalto,
e com uma faca Ginsu cortá-las,
com brutalidade e ternura,
de baixo para cima e à base do osso,
para então assá-las
como picanhas ou pocãs
nas chapas do meu cérebro.
Os perônios de moços expostos.
Ah! os churrascos dessas alegrias
todas: as pinhas e as tíbias,
as canções e os perônios,
as meias novas e sob elas
as batatas-de-pernas.

*

São Paulo, 6 de novembro de 2018.

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sábado, 27 de outubro de 2018

Crônica de um domingo pré-eleitoral

Após tomar meu café neste domingo, fui convidado por meu anfitrião a acompanhá-lo à feira para dividir a dívida e o peso do carregamento. Pareceu-me justo, hospedado com conforto como estou, além de eu mesmo sentir agitar-se na barriga aquelas vontades grávidas de certas guloseimas paulistanas, ainda que não do machismo pitoresco dos feirantes da cidade.

Lá chegando, procedi a empanturrar-me de forma pantagruélica com pastéis (de bauru, aos mais curiosos) e copos de garapa (pura, pois sou purista nestas questões culinárias). Admirei-me, em primeiro lugar, da sinceridade mercantil do pasteleiro ao anunciar que o pastel de bauru trazia, por recheio, queijo, tomate e apresuntado, não presunto. Pareceu-me que seria um bom começo para a República em geral, ou seja: anunciar que é apresuntado o apresuntado e não presunto. Você estaria preparado para concordar, caro leitor?

Isto posto, percorri sorridente as vielas da feira onde fui abordado duas vezes em inglês por feirantes, algo que muito me feriu, não crendo ter voltado americanizado como cantou Carmen Miranda, nem mesmo germanizado (ah! o purismo da ‘mot juste’!), eu, euzinho ainda em plena posse do meu ziriguidum se não dos meus balangandãs.

Permiti-me um único ‘supérfluo’, que é como meu finado pai referia-se a qualquer coisa que julgasse luxo consumista quando íamos ao supermercado: comprei pinhas, aquilo que alguns de vocês chamam de atas e outros, de frutas-do-conde. Custaram-me os olhos-da-cara e quase também o olho-do-cu, mas ora, fiz-me um agrado que julguei merecido, já que, como escreveu Adília Lopes, “Deus não / me deu / um namorado / deu-me / o martírio branco / de não o ter”. Portanto, pinhas aos solteiros. Chegando à casa de meu anfitrião, taquei-as — as pinhas — para dentro do estômago já pastelizado e engarapado. Passei mal e dormi, enquanto o amigo dizia não comer frituras por causa da pança. Ora, a essa altura do campeonato erótico em que sigo perdendo de goleada, lá vou me preocupar com a própria pança?!

Querendo salvar o dia tentei ser produtivo culturalmente, essa doença paulistana, e corri para uma exposição. Dei-me mal, querido leitor. Pois mal sabia eu que toparia na Avenida Paulista com as hordas bolsonaristas festivamente preparando-se para retornar aos quintos dos infernos onde vivem. Decidi insistir. Apinhei-me no metrô, cantarolando em homenagem a meus compatriotas tão patriotas: “Se gritar ‘pega ladrão’, não fica um, meu irmão.”

Ao descer nas Clínicas fui surpreendido com maiores multidões, pois além das hostes verde-amarelas viria a se unir a nós a torcida do Palmeiras! Esqueci-me que o Estádio do Pacaembú é logo ao lado e não sou dos mais informados em assuntos primitivescos como o futebol. Logo ficaram mais verdes que amarelas as massas. Era de difícil análise o fenômeno de esverdeamento do amarelado, e não sabia eu por vezes se estava diante de um bolsonarista ou um palmeirense. É de se julgar que haja tanto bolsonaristas palmeirenses quanto palmeirenses bolsonaristas, assim como o leque de gradações entre tais polos.

Ora, o leitor me desculpe, mas há limites até para o mais convicto dos democratas. Herdei da casa paterna o cristianismo e o corinthianismo. Você, caro leitor, saberá bem que não pratico qualquer uma dessas religiões, mas mantive uma certa impressão infantil de que satanistas e palmeirenses são gente ligeiramente cafona, ainda que esteja pronto para concordar que são-paulinos podem ser piores. Os amigos satanistas e palmeirenses me perdoem, estou tentando ser uma pessoa melhor.

Assim sendo, voltei derrotado à casa do anfitrião, onde comerei pinhas e esperarei a chegada do amigo William Zeytounlian para que ao menos veja uma coisa bonita e vermelha antes que o dia acabe. Eis aqui, caro leitor e concidadão, a descrição de meu domingo neste Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2018.

§

São Paulo, 21 de outubro de 2018.

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