quarta-feira, 10 de abril de 2019
Elegia quase uma ode para Scott Walker no frio da hora de sua morte
Está completa
a obra.
Estará repleto
o trabalho?
Consumado.
Inconsútil,
inútil
para o consumo,
sitiante
citadino,
está consumado
e não consumido.
Ele, sumido
no sumidouro
de tudo,
o homem. A obra
a nós consignada.
Não mais somada.
Não mais se soma.
Não mais se.
A coscinoscopia
do mundo,
buraco da agulha.
Nós, uns camelos.
Do sial e da sima
ao resto da crosta
ruge a subtração
da sina de nunca
mais canções.
Ele. Que negou
o terceiro canto
do galo, da crista
da onda, optou
pelo fundo
no mundo,
o habitat
de sibas,
de lulas,
de polvos.
Se fosse, foste
um cefalópode.
Polvos hão-de
te consumir,
consumar-te
cantos novos
e nós, nós
quando houvermos-de
haurir pensamentos de
corpo todo.
Música, música
para as lulas,
para as chuvas,
o retorno
dos corpos
às águas,
tua voz o mais
próximos
a chegarmos
de sonares.
§
Berlim, 25 de março de 2019.
.
.
.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Canonizações e esquecimentos
Pedro Xisto - ZEN (1966)
Se me perguntassem hoje quais poetas têm sido tristemente ignorados pelos porteiros do cânone, a lista seria longa. As culpas, não tão longas: o eixo Rio-SP cuidou de umas, nossa historiografia por escolas e estilos típicos de época cuidou de outras. Unidas, eram incontornáveis. E há questões puramente político-ideológicas.
Conversava com André Capilé sobre o caso de Zila Mamede. Sua residência e ação na Paraíba a mantiveram afastada dos gerentes sudestinos. Mas lembramo-nos então de Hilda Hilst. Apesar de paulista, sua poesia era lírica, fora da gaveta organizada para a tipiquez das neovanguardas.
Zila Mamede (Paraíba, 1928–1985)
Bois dormindo
Zila Mamede
A paz dos bois dormindo era tamanha
(mas grave era a tristeza de seu sono)
e tanto era o silêncio da campina
que se ouvia nascerem açucenas.
No sono os bois seguiam tangerinos
que abandonando relhos e chicotes
tangiam-nos serenos com as cantigas
aboiadeiras e um bastão de lírios.
Os bois assim dormindo caminhavam
destino não de bois mas de meninos
libertos que vadiassem chão de feno;
e ausentes de limites e porteiras
arquitetassem sonhos (sem currais)
nessa paz outonal de bois dormindo.
*
A questão é complicada, engloba muitos fatores. Apesar de suas contribuições majestosas ao experimentalismo poético do período, Pedro Xisto, Lygia Pape (que escreveu sim poemas), Edgard Braga, Affonso Ávila, Neide Sá, Wlademir Dias-Pino e Mário Chamie são raramente citados. Além da exclusão de Arnaldo Xavier, que traz então ainda a dimensão racial da conversa. O caldo só engrossa.
Lygia Pape
Outro caso é o de Adão Ventura. Sua poesia deveria ter sido abraçada pela década de 90 com sua ênfase no geométrico e no seco. Mas eram tempos de despolitização poética e trazer a discussão racial para o trabalho garantia o exílio do autor fora das “Grandes Questões Universais”. Parece-me o mesmo caso de Paulo Colina.
*
Forja
Paulo Colina
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
*
Não se trata portanto de substituir uma tipicidade poética por outra em determinado período. Não ignoremos nem o experimentalismo das décadas de 50/60, nem a belíssima poesia lírica produzida então. Há hora para tudo, já disse o Eclesiastes. Nossa poesia é mais rica do que se vê.
*
de ‘A Fala entre Parêntesis’
Max Martins
Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas, QUEM
DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?
Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo Arfa
noturno, o olho do astro na memória
Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros
e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos
Dança indefinida
*
Não sei quanto a vocês, mas não consigo viver nem só de Augusto de Campos nem só de Adélia Prado. Dou sim graças ao Logos, a Exu, a Vāc, a Mercúrio, à coruja de Minerva e ao diabo de quatro pela existência dos dois. E de Pedro Xisto e Zila Mamede. Ana Cristina Cesar e Leonardo Fróes. Maria Ângela Alvim e Waly Salomão.
*
de “Solar de Juca Dantas”
Tarde já. Os fruitos e as crianças possuíam,
Nas primaveras frustras que então passei a ser,
Um sabor de saudade no mendigo que hoje sou,
A despeito de transunto de velhas glórias
E humanas lidas. E da caspa em desuso
Que pontilha de grisalho meus ombros chovendo,
Dando ao título de doutor de Sião
Este ar deficitário de despesa,
Que busca, na ausência de terras e de teres,
E na paciência com que suporto outros coronéis,
O sentido de sua própria escravidão.
Deste mundo não sou. E nem lhe temo a noite.
A noite com suas lenternas e seus ladrões,
Terramotos e valhacoutos.
Temo sim o dia que dela nasce,
E com ele a burra de dinheiro, agasalhada e fiel,
Cheia dos terrores noturnos de ontem,
Contendo, ensimesmadas, as mesmas manhãs,
Plásticas e portáteis de hoje,
E em que se enfeixam, de uma só vez,
O gado, a servidão de passagem, a infância,
O luto, a vida e o direito de chorar.
— Dantas Motta, in ‘Elegias do País das Gerais’ (1961)
*
Cecília Meireles — a fabulosa SALVE! SALVE! — cumpriu, creio, a função de ‘token’ feminino do Modernismo. Ela talvez seja a maior. Mas quem pensamos que somos para ignorar Henriqueta Lisboa e Adalgisa Nery? Ou, antes delas, Francisca Júlia? E, depois delas, Marly de Oliveira?
*
Frutescência
Henriqueta Lisboa
Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.
Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.
Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.
Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.
Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.
*
Arnaldo Xavier
Que estruturas seguem invisibilizando o trabalho de poetas como Adão Ventura, Paulo Colina e Arnaldo Xavier, já mortos? Ou os vivos Miriam Alves e Sebastião Nunes? Porque eram e são negros, ou tratam da existência negra no Brasil? As duas questões?
Arnaldo Xavier, Abelardo Rodrigues, Oswaldo de Camargo e Paulo Colina
(fotografia de Norma Santos, Revista Afinal, 13.01.1987)
São Pálido
Arnaldo Xavier
um dia no rio
tietê correu sangue
como correu no rio volga
como correu nos esgotos de varsóvia como correu nos vales de áfricas
(e suas veias
borbulhavam gemidos)
lá pras bandas de são miguel paulista
correu sangue
e o sangue foi confundido com leite
e as mamadeiras percorreram os corpos deitados
sobre os trilhos
enquanto as locomotivas
não vinham (cheias
de vidas)
sangue confundido
com leite
no vice-versa de putas cabras que amamentavam a radial leste de a
feto
*
Fumaça
Miriam Alves
Estou a toque de máquina
corro, louca, voo, suo
a fumaça sou eu
Estou a toque de nada
vivo, ando
como a comida envenenada
e o comido sou eu
estou a toque de selva
os ferros torcidos, sacudidos
dentro de uma marmita
e a marmita sou eu
Nego, mas vivo dizendo
Sim
a tudo que me dói na cabeça
e o doido sou eu
Paro, mas estou sempre correndo
doem as pernas, os pés
e este corpo é o meu
Amanhã me encontra acordada
como a noite deixou
e o insone sou eu
Indago, mas não estou escutando
a pergunta anda solta
e ninguém explicou
que a resposta sou eu
*
Por que não lemos, no Sul e Sudeste, o paraense Max Martins, o pernambucano Carlos Pena Filho, a paraibana Zila Mamede e o potiguar Moacy Cirne?
E descubra a obra de Moacy Cirne:
http://revistamododeusar.blogspot.com/2014/01/moacy-cirne-1943-2014.html
*
Não há respostas simples. É um emaranhado de coisas. Afinal de contas, até pouco tempo estavam soterrados os paulistas Roberto Piva e Hilda Hilst. O paulista Orlando Parolini continua soterrado. Ainda não ocuparam seus lugares devidos as obras do fluminense Leonardo Fróes, da mineira Laís Corrêa de Araújo e do capixaba Sérgio Blank.
O império das formigas
Leonardo Fróes
O império das formigas. A vaca
olha de longe o efêmero passante.
Os passarinhos atravessam
a estrada estreita, quieta e sinuosa
que segue o rio pelo vale.
O silêncio aglutina as criaturas
e os menores ruídos.
Vê-se a proliferação das espécies
nos menores meandros.
Mundos inimagináveis se criam.
Mundos desaparecem
nas bocadas da vaca no capim generoso.
*
Sangue Corsário (1980)
curta de Carlos Reichenbach com o poeta Orlando Parolini
Descrição da Praça da República para a amada que mora no interior
Orlando Parolini
os lagos de tão rasos
não permitem afogamentos:
se temos fomes
não há que nos alimente
– os peixes
vivem
(de excrementos)
os pombos não nos pertencem
roubá-los será inútil por enquanto
e que valem os pombos para a fome de uma geração inteira?
sedentos
a sede aplacaremos com coca-cola
no bar mais próximo
algumas pontes o contacto estabelecem
entre o vazio e o vazio
sugerindo paisagens que não vivemos
ao meio-dia
se debruçarmos sobre as ferragens
esperando a volta para os estábulos de ar condicionado
nos chamarão de pederastas
estátuas há
que olham para as árvores
contemplando as estátuas
no grande parque infantil
de arame rodeado
crianças são treinadas
como cães de apartamento
a beber nas horas certas
urinar nos w.c.
sem sujar o uniforme
na parte mais baixa se repararmos
sem muita preocupação
agências de turismo aveludadas
casas bancárias de velhas tradições
restaurantes e cafés
lojas de créditos
rodeiam o que mais se salienta no local:
o mictório público
moralmente dividido
para homens e senhoras
não importa a condição
*
E o que fazer com aquele esquisitíssimo jovem suicida gaúcho, sobrinho do presidente João Goulart, chamado Henrique do Valle? E aquele outro sulista esquisito, o sr. Manoel Carlos Karam? Só desperdiçamos. E se for necessário repensar nossa visão de literatura para não perdermos Stela do Patrocínio mais do que já perdemos, ora, que se repense.
*
Pois, apesar de gritarmos tanto contra a falta de atenção do público, feche os olhos e responda: por que você odeia e é condescendente com os poetas realmente populares, como Cora Coralina e Mário Quintana? E os popularíssimos vivos?
Leia, sem antolhos e biquinho-de-adorno o que Cora Coralina é capaz de fazer em seus melhores momentos. Quem pensamos que somos para ser condescendentes com esta mulher, que nos melhores momentos demonstra precisão localista de sua linguagem. Ela faz o que quer fazer, meus filhos. Não finge viver em Nova Iorque. Nem em Berlim. Que bom ser assim a poesia moderna brasileira: com a potência cosmopolita-viajante de um Murilo Mendes e a força localista-ficante de uma Cora Coralina.
Todas as vidas
Cora Coralina
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço.
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo.
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
Enxerto de terra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada.
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras.
Decidimos que não seria relevante para nossas conversas a poesia de Gerardo Mello Mourão porque sua poesia não seria esteticamente relevante? Por questões políticas da sua atuação em determinados momentos históricos? Porque era cearense? São realmente bem informadas nossas decisões? Essas são as questões que chamei de puramente político-ideológicas. As obras de Rachel de Queiroz e Adonias Filho realmente tornaram-se esteticamente menos relevantes, ou a posição destes e outros intelectuais antigetulistas durante o Golpe de 1964 os torna imperdoáveis?
*
[Estou e não me respondo]
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
*
Historiograficamente: o que fazer com Lúcio Cardoso, nascido em 1912, prosador e poeta difícil de encaixar em nossos periodismos? Sua poesia não se alinha espirtiualmente ao misticismo de manifestação imagético de Murilo Mendes e Jorge de Lima? Seu romance Crônica da casa assassinada (1959) não está entre os catataus geniais do modernismo nacional?
A casa do solteiro
Lúcio Cardoso
A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,
muros escorrem como verdes contornos
e colunas de mármore frio guardam seus limites.
Há quatro anjos sentados no teto solene e casto
e com luzes vermelhas, entre ciprestes,
sondam os anjos – guardiões – os fundamentos
que se apóiam com gemidos nos porões e adegas,
no rio escuro e na água morta
de correntes que foram vencidas – despedaçadas.
A casa do solteiro é cor de chama,
de silêncio aflito e aurora sem contemplação.
São pedras de crime e de agonia,
são negras pedras de delírio e de remorso.
São duras estacas de alumínio e febre,
são traves de cristais e de luxúria.
Há um descampado em torno: nostálgicos,
cemitérios se evaporam no crepúsculo
e ruínas de azul e ópio cintilam,
entre guitarras e navalhas abandonadas.
Há flores quentes e de carne, flores mesmas,
cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes
quentes de sofrimento e decomposição.
A casa do solteiro é o sol posto,
quando perdemos a fé e o amor se foi,
o começo da noite quando não há horizonte,
a quilha partida e a lança sem gume.
A casa do solteiro se abre como a música,
é triste e macia, fechada como a do príncipe,
fechada, entre janelas longas de ferro,
enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.
Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,
tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,
os móveis andam, e nos olhares estranhos,
como róseos desmaios e garras de ultraje.
Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,
abraçando manequins de aço, corpos de rampas
em madrugadas de rompimento e viagens.
Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,
olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.
E estão quietas: jogam as cartas verdes
e suspiram impossíveis paisagens de mar.
Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,
com quatro rosas voltadas para o mar,
a mais escura é que os guia. Rosas frias,
de pétalas aguçadas e de mortal traição.
A casa do solteiro é que eles elegeram,
ilha, jangada no silêncio do céu,
vasto navio abandonado e cheio de tormenta,
escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua
e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,
chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,
tudo – neste silêncio único onde existe
como uma grande alma sozinha batendo
na infindável noite que não se acaba
e nem se acabará NUNCA,
A CASA DO SOLTEIRO.
Quanto a Manoel de Barros, este poeta nascido em 1916, a que geração pertence? Tem que pertencer a uma geração ou escola para adentrar nossa história literária? Três anos mais novo do que Vinicius de Moraes e quatro mais velho do que João Cabral de Melo Neto, publicando desde a década de 1930, já era importante antes da década de 1990 ou passou a ser bom quando descoberto em escala nacional?
A casa do solteiro
Lúcio Cardoso
A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,
muros escorrem como verdes contornos
e colunas de mármore frio guardam seus limites.
Há quatro anjos sentados no teto solene e casto
e com luzes vermelhas, entre ciprestes,
sondam os anjos – guardiões – os fundamentos
que se apóiam com gemidos nos porões e adegas,
no rio escuro e na água morta
de correntes que foram vencidas – despedaçadas.
A casa do solteiro é cor de chama,
de silêncio aflito e aurora sem contemplação.
São pedras de crime e de agonia,
são negras pedras de delírio e de remorso.
São duras estacas de alumínio e febre,
são traves de cristais e de luxúria.
Há um descampado em torno: nostálgicos,
cemitérios se evaporam no crepúsculo
e ruínas de azul e ópio cintilam,
entre guitarras e navalhas abandonadas.
Há flores quentes e de carne, flores mesmas,
cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes
quentes de sofrimento e decomposição.
A casa do solteiro é o sol posto,
quando perdemos a fé e o amor se foi,
o começo da noite quando não há horizonte,
a quilha partida e a lança sem gume.
A casa do solteiro se abre como a música,
é triste e macia, fechada como a do príncipe,
fechada, entre janelas longas de ferro,
enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.
Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,
tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,
os móveis andam, e nos olhares estranhos,
como róseos desmaios e garras de ultraje.
Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,
abraçando manequins de aço, corpos de rampas
em madrugadas de rompimento e viagens.
Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,
olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.
E estão quietas: jogam as cartas verdes
e suspiram impossíveis paisagens de mar.
Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,
com quatro rosas voltadas para o mar,
a mais escura é que os guia. Rosas frias,
de pétalas aguçadas e de mortal traição.
A casa do solteiro é que eles elegeram,
ilha, jangada no silêncio do céu,
vasto navio abandonado e cheio de tormenta,
escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua
e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,
chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,
tudo – neste silêncio único onde existe
como uma grande alma sozinha batendo
na infindável noite que não se acaba
e nem se acabará NUNCA,
A CASA DO SOLTEIRO.
Quanto a Manoel de Barros, este poeta nascido em 1916, a que geração pertence? Tem que pertencer a uma geração ou escola para adentrar nossa história literária? Três anos mais novo do que Vinicius de Moraes e quatro mais velho do que João Cabral de Melo Neto, publicando desde a década de 1930, já era importante antes da década de 1990 ou passou a ser bom quando descoberto em escala nacional?
Tratado geral das grandezas do ínfimo
Manoel de Barros
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
*
E o problema engloba a prosa. Apesar da FLIP 2018 com ênfase em Hilda Hilst ter lançado luz nacional sobre o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, vi pouca movimentação para resgatá-lo. Eu ainda não consegui ler. Difícil de achar. Mas consegui ler o paraense Haroldo Maranhão.
*
Me assusta ver o trabalho de mulheres como Patrícia Galvão, Henriqueta Lisboa, Zila Mamede, Laís Corrêa de Araújo, Neide Sá, Elisabeth Veiga, Mariajosé de Carvalho e Marly de Oliveira ignorados em escala nacional. Quando vão descobrir e defender ‘A Suave Pantera’ (1962)? É lindo aquilo. Lindo.
Com tanto furor interno,
quem a livra, quem a livra
de ser o seu próprio inferno,
de, pelo fogo da ira,
consumir-se estando quieta,
de acabrunhar-se sozinha.
Nem se diria uma fera!
Nem se diria rainha!
As patas pisando o chão
têm uma dura leveza,
os pelos brilhando de ônix,
- de si mesma prisioneira –
caminha de um lado a outro
como pelo mundo inteiro.
Há esmeraldas de silêncio
nos seus olhares acesos.
(Marly de Oliveira, ‘A suave pantera’)
*
Quando serão espalhados para as escolas e bibliotecas os livros ‘Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul’ (1970) e ‘A cor da pele’ (1981), de Adão Ventura?
Limite
Adão Ventura
e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.
e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.
e quanto a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.
e quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.
e quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.
a palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.
*
E há os vivos, esses vivos, essa gentinha incômoda que insiste em não se encaixar na visão do que se quer ou se convenciona chamar de ESCRITA CONTEMPORÂNEA, esse povo arredio que compartilha nosso oxigênio e se recusa a fazer o TÍPICO DO TEMPO, essa mania de vivos.
Algias
Elisabeth Veiga
Elegia 1
Já repeti o antigo encantamento
e só o cimento respondeu,
rastro de cinzas de maçã vencida,
desvestígio de gosto,
estanque julho que moeu vindimas
e deixou no espaço seu vinagre branco.
Onde havia um deus
os dias emboloram nuvens
de estrita agonia antepassada
que se olha no espelho
antes do adeus.
Inexiste, não soa, o que havia
fixou-se atrás da mente:
fim estalado de fotografia.
É agosto seco. É hoje e nunca houve.
Alergia 2
Já repeti o velho encantamento
e o antigo deus Xipanto não azarou
na minha gleba de piche solferina.
Peguei o convescote, as sandálias murchas
e mudei de travesseiro lírico,
para afinar meu sambão em outros infernos.
*
Ah, os vivos. Sua mania de mudar. Seus nomes esdrúxulos. Seus poemas de doidos e bruxas. Alguns chamam-se Leonardo Fróes, Lu Menezes e Alberto da Costa e Silva. Outros chamam-se Edimilson de Almeida Pereira, Adélia Prado e Olga Savary. Esses doidos, Augusto de Campos, Veronica Stigger e André Capilé. Não se domam, não se encaixam, Horácio Costa, Lívia Natália e Ismar Tirelli Neto. Falam, gritam, esperneiam, Tatiana Pequeno, Everardo Norões e Jomard Muniz de Britto. São incômodos, contra isso e aquilo, Érica Zíngano, Érico Nogueira e Marcus Fabiano Gonçalves. Estão no Sul e chamam-se Josely Vianna Baptista e Eliane Marques. Estão no norte e chamam-se Diego Vinhas e Philippe Wollney. Há quem nem more no país, como Eduardo Jorge e Ederval Fernandes. Uns estão na academia, outros no boteco. Eu os saúdo, ainda que sejam por vezes tão irritantes. Seus necessários insuportáveis. Suas greves diárias, sua recusa a produzir produtos vendáveis.
*
Aniversários
Horácio Costa
Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
*
A prosa de Márcia Denser. A poesia de Ronaldo Brito. A prosa e a poesia de Regina Célia Colônia. Talvez não façam o que você quer que façam. Mas são seus contemporâneos. Esses. Outros. Fazendo o que fazem.
faz bem você deixar coisas de fora.
pula pra dentro de uma vez, pois é
no sol mais alto. a possessão da peste,
há sempre um meio, ao meio do caminho.
serpentes não se mordem sem motivo,
Descubra por si mesmo se são relevantes. Leia-os. Não espero que todos concordem, por exemplo, que todos os nomes acima são relevantes. Espero apenas que tenhamos opiniões informadas. Para isso, é preciso ler para além do cânone e dos cadernos ilustrados. Alguns não têm perfis nas redes sociais. Sumirão por isso? Talvez outros tenham, mas vocês detestem suas ideias políticas. Sumirão, mesmo que sejam bons, talvez dentre os melhores? Ou você prefere o medíocre que defende as mesmas ideias que você? Todas essas, creio, são questões importantes.
Que país grande! Que mundo grande sem porteiras! Tanta gente viva e morta estendendo as mãos para construir. Garimpe. Vá além dos cadernos de cultura dos jornais. Há muita coisa na ‘Modo de Usar e Co.’. Há outros trabalhando em revistas vivas agora. Sua vida será melhor. Porque, como escreveu William Carlos Williams:
rehab
André Capilé
uma assombrosa selva, o teu sinteco;
onde o cupim não rói mais os jornais
do dia, e sim mantém a arara em pé.
faz bem você deixar coisas de fora.
largue a marola do vinagre agora —
o enguiço está nas malhas do alheado.
pula pra dentro de uma vez, pois é
a chance das janelas serem limpas.
enquanto criam domésticas traças,
as camisolas não vão mais quarar
no sol mais alto. a possessão da peste,
nenhuma fauna vai mascar peçonhas.
há sempre um meio, ao meio do caminho.
serpentes não se mordem sem motivo,
embora o inferno mofe com lembranças.
Descubra por si mesmo se são relevantes. Leia-os. Não espero que todos concordem, por exemplo, que todos os nomes acima são relevantes. Espero apenas que tenhamos opiniões informadas. Para isso, é preciso ler para além do cânone e dos cadernos ilustrados. Alguns não têm perfis nas redes sociais. Sumirão por isso? Talvez outros tenham, mas vocês detestem suas ideias políticas. Sumirão, mesmo que sejam bons, talvez dentre os melhores? Ou você prefere o medíocre que defende as mesmas ideias que você? Todas essas, creio, são questões importantes.
O cutelo
Dirceu Villa
São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha um cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.
Que país grande! Que mundo grande sem porteiras! Tanta gente viva e morta estendendo as mãos para construir. Garimpe. Vá além dos cadernos de cultura dos jornais. Há muita coisa na ‘Modo de Usar e Co.’. Há outros trabalhando em revistas vivas agora. Sua vida será melhor. Porque, como escreveu William Carlos Williams:
It is difficult
to get the news from poems
yet men die miserably every day
for lack
of what is found there.
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terça-feira, 2 de abril de 2019
1° de Abril: Dia da Mentira das Revoluções
Em texto no Correio Braziliense, o jornalista Luiz Carlos Azedo se entrega a uma tarefa ingrata para o curto espaço: desenovelar de alguma forma o ninho-de-gato que eram as forças políticas atuando naquele março e abril de 1964.
Uma coisa que me interessa muito aqui é algo ao qual sempre retorno: sua exposição do golpismo inscrito no DNA da República, e não só. Ele retorna até mesmo à chamada “Noite da Agonia” — 12 de novembro de 1823 — quando Dom Pedro I mandou o exército fechar “a golpes de sabre” a Assembleia Constituinte, enquanto os senadores resistiam. O resultado foram prisões e o exílio, dentre outros, de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763 — 1838).
Tudo no Brasil é sempre mais complicado. As mudanças para que tudo permaneça igual. Por mais republicano que eu seja, não é possível ignorar o movimento do alto para baixo que foi o movimento republicano no país, e sua paternidade em grande parte militar. As consequências disso. O exército vem interferindo na política nacional desde o fim da Guerra do Paraguai. Ao mesmo tempo, aprecio no texto a recuperação do nome de um militar democrata e legalista como o general Henrique Lott.
Talvez pareça exagero a alguns voltar a um passado que lhes parece distante. A mim não parece. A república começa entre golpes e renúncias. Nos jornais do fim do século XIX, Olavo Bilac e Raul Pompeia já trocavam insultos por causa do governo de Floriano Peixoto - que dera o golpe em 1891. Com a renúncia de Deodoro da Fonseca, se deveriam ter convocado novas eleições. Já no começo as desconfianças entre presidente e vice-presidente por causa da ideia maluca de desvincular a eleição de cada, por chapas diferentes e muitas vezes inimigas. Isso é central na crise de 1961 e no golpe de 1964. Golpe que havia sido frustrado em 1954 com o suicídio de Getúlio Vargas. O antipetismo de hoje. O antigetulismo de então. É provável que o Estado Novo estivesse fresco na memória de gente mais velha em 1964. Lembremo-nos das prisões de Graciliano Ramos, Dyonélio Machado e outros. Mesmo assim, NADA, absolutamente NADA justifica o golpe de 64 e os horrores que se seguiram, varios deles crimes contra a Humanidade de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção de Genebra, etc. O Brasil sempre condenado ao beabá.
Estas são as conjunções apenas nacionais. Junte-se a tudo isso a Guerra Fria, o intervencionismo norte-americano, e está armado o circo sangrento. Eu concordo ser muito importante dar o nome certo às coisas. O que ocorreu no dia 1 de abril (o aniversário é hoje, mas isso é picuinha) foi um golpe militar. Mas... tudo no Brasil é mais complicado, então me permita demonstrar como não há sempre consenso sobre qual nome dar a quebras da ordem institucional. Eu nasci e cresci no estado de São Paulo. A maior parte da vida aprendi que o que aconteceu a 24 de outubro de 1930 foi o GOLPE de 1930. O resto do país parece chamar sem problemas de REVOLUÇÃO de 1930. Não sou ingênuo. É óbvio que os paulistas tinham interesses econômicos e políticos na manutenção da Velha República. Além disso, Vargas claramente teve um efeito modernizador sobre o país, e ele descaradamente fora fraudado nas eleições de 1 de março daquele ano, que deram a vitória a Júlio Prestes. Todos concordam que 1937, no entanto, foi um golpe. A velha história: revolução para quem ganha, golpe para quem perde?
Enfim, vale a leitura e a expansão do texto.
Eu acredito que esforços como este, por parte de escritores e jornalistas, são inestimáveis em momentos de polarização como o nosso.
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quarta-feira, 27 de março de 2019
"Contra o desperdício de poetas", seguido de uma seleção de poemas de Alberto da Costa e Silva
O poeta mineiro Adão Ventura (1946-2004)
Nós todos amamos citar pelos ensaiozinhos ou abanar em cafeterias por aí o grande livro de Roman Jakobson, A Geração que Desperdiçou Seus Poetas (1930). E lamentamos os desperdícios do passado. Mas quantos de nós fazemos algo contra os desperdícios de hoje?
Estamos certos de não estar entre os esbanjadores, certos de que não seguimos modas ou a imprensa. E como se clama por aí contra o sistema que invisibiliza escritores por questões extraliterárias, mas em geral apenas para conquistar o seu próprio espaço ao sol. Garimpar e resgatar os mortos soterrados dá trabalho demais! O que se quer é ver os próprios espirros e cólicas alçados a grande literatura pela Folha de São Paulo, O Globo, a Piauí e o Suplemento Pernambuco.
Foi uma alegria ver Hilda Hilst e Roberto Piva virarem moda, desde que sejam lidos, pois ainda que por motivos escusos podem se tornar anticorpos poéticos no sistema imunológico da língua. Me alegrou imensamente a acolhida que teve o livro de Hilda Machado, e foi bom participar com poetas de minha geração da reapreciação do trabalho desse grande poeta que é Leonardo Fróes, ainda vivo, ainda entre nós.
Mas quando vamos gritar até começarem a ler e celebrar Henriqueta Lisboa, Maria Ângela Alvim, Lúcio Cardoso, Adão Ventura, Marly de Oliveira, Carlos Pena Filho, Stela do Patrocínio, Orlando Parolini, Laís Corrêa de Araújo, Paulo Colina, Max Martins, Mariajosé de Carvalho e Arnaldo Xavier devidamente, estes mortos soterrados? E há os vivos, os que são difíceis de fazer moda.
A poeta capixaba Marly de Oliveira (1935-2007)
Passei ontem o dia lendo um poeta que ganhou o Prêmio Camões em 2014 e mesmo assim é raramente citado: Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 1931). Que inteligência e exuberância de linguagem! Além disso, trata-se de um intelectual de peso, o autor de trabalhos seminais sobre a relação entre o Brasil e a África. Não estou acusando. Eu próprio só comecei a lê-lo com mais atenção no ano passado.
E há outros vivos dos quais precisamos formar nossa própria opinião, não apenas herdar os silêncios do passado, como o frei Bruno Palma, Olga Savary, Horácio Costa, Miriam Alves, Sérgio Sampaio ou Jomard Muniz de Britto. Dedique parte de sua energia AO TRABALHO DOS OUTROS. É comunitário o esforço. Queridos, o ecossistema da literatura brasileira é tão mais interessante do que o zoológico que é mostrado nas páginas dos jornais.
-- Ricardo Domeneck, 27 de março de 2019.
*
POEMAS DE ALBERTO DA COSTA E SILVA
A BILHA
Assim o barro, em tuas mãos pequenas
e machucadas, ergue um voo, povo:
é um ai de terra, sem nenhum tormento,
um ai de rir e flora, de macio coito
de porcos, quase asa de garça, quase
paina de jatobá, esta moringa aberta
ao frescor que há no sol, charque, avoante,
forma de prenha mulher, quartinha, pote.
Inverso estio moldas em terra e água,
cor de palha e de mel, meu povo, sem distâncias
de serras com que sonhas junto ao cacto,
mas que entorna a noite de seu bojo.
Se o colas ao rosto, vêm as brisas
dos regatos e à boca chegam barro
e ondas de um rio que são choros de parto,
breve esperar, sentido amor, memória
da meninice em tuas mãos que moldam
casa, banco, alguidar, bilros, cancela,
anjos toscos, na fome de teu corpo.
*
RITO DE INICIAÇÃO
§ meu pai dizia as mangas que enverdeçam
para que o sal lhes dê um novo gosto
cortava o sol em fatias o sumo o rosto
sujava de luar de mate ou pouca
luz que fundeia na sombra da jaqueira
chegava à carne do fruto à rude juba
que arma em fera a pele do caroço
§ à margem do curral mergulho aberto
do tamarindo meu pai dizia fazes
o desgosto compões cada segredo
a cresciúma os ninhos nos alpendres
o adeus com flores os ombros dos mendigos
a sustentar a curva porta os cegos
a cavalo e os porcos nos açougues
§ o azul é rouco e teu meu pai dizia
este silêncio de viração furtada
outras monções com cheiro de goiaba
§ sabor só soturno soterrado
dá a manga o trotar o alaúde
me pai dizia o sol é sal e o solo
nada cultiva em nós nem a descalça
morte rastro leve na farinha.
*
SONETO
Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro
põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro...
E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro
em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.
*
A RICARDO REIS, NO MAR DA GALILEIA
Só dizem os deuses o que logo esquecem,
mas o jogo do céu é amplo e reto,
e cada lance é um coração aberto:
nele não dorme o que se fez desperto,
o eterno é agora e em si mesmo morre,
nunca houve rumo e todo sempre é incerto.
— Não creio, e rezo.
*
SONETO A VERA
Na relva iluminada pelos pássaros,
reclinas o teu corpo. Separada
dos dois lados da noite, quando o sol
recolhe ou desenrola as suas velas,
do touro ao meio-dia, e das fases
da lua, e do que muda e se disfarça,
e da grama e das aves que ali pastam,
respiras, te espreguiças, alinhavas
o teu ser contra o céu, enquanto passam
o chuviscar, o abrir do sol, os galgos
do verão e do inverno, as estações
da manga e do caju. E vais, deitada,
como um barco na praia, alheia ao tempo
a se bordar no bastidor da tarde.
*
A TRAVESSIA DO RIO VOLTA
concentrados e sós num ar de sumaúmas
mandiocais e córregos íamos na balsa
como quem vai para a horta como vão para o coro
meninas que louvassem a alva renda dos den
dezeiros e lavouras cruas de calor
um repouso de cana se a polpa cobrisse
de uma gordura casta essa cachaça triste
que sugamos do coco em outro dia de
lagosta e palavras algumas sobre a morte
mas agora é a magra companhia desse sujo branco
da roupa dos pobres e da lepra corrroendo
o encaixe das unhas o joelho e os lábios
mordidos num pranto de pálpebras sem espe
rança de chão sem manta e mãos de amor
para lavar o rosto de quem sozinho e rouco
e míope em nada toca
vamos num chevrolé e as longas pirogas
vão passado por nós e as folhas das mangueiras
e há quase uma recusa de beber o ar sem ser
num respirar de pranto pois tudo perdeu
essa infância sem nádegas e de umbigo herniado
(leve capim que uma boca insaciável rumina) tão pros
trada que se alimenta de um roçar com o rosto a terra
e que num gesto de cego a afinar o violino
me oferece frutas como se as colhesse
como quem recebe.
*
O AMOR AOS SESSENTA
Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.
Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos
contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas
e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.
Alberto da Costa e Silva nasceu em São Paulo a 12 de maio de 1931. É um diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e atual orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi distinguido com o Prémio Camões de 2014.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
Poetas estrangeiros e sua morada no Brasil
Existem histórias ainda por ser contadas sobre as literaturas e o Brasil, como a da escrita brasileira produzida fora do país, algo conhecida, mas também a das escritas estrangeiras produzidas no território brasileiro. No primeiro caso, sabemos que muitos escritores compuseram seus livros durante suas passagens por outros países, em grande parte por conta de suas carreiras diplomáticas, como Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Clarice Lispector, ela própria uma imigrante, produziria vários livros fora do Brasil por seu casamento com um diplomata. A experiência de Érico Veríssimo nos Estados Unidos desaguaria no livro Gato preto em campo de neve (1941), e o meu poema favorito de Vinicius de Moraes, "A última elegia", foi escrito na Inglaterra.
"O ROOFS OF CHELSEA
Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
“... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
murmura adormecida
É meu nome!...
sou eu, sou eu, Nabucodonosor!"
__ Vinicius de Moraes, excerto de "A última elegia", in Cinco elegias (1943).
§
Hoje em dia, poderíamos citar Zuca Sardan, que vive em Hamburgo. Ederval Fernandes vive em Lisboa, e Luca Argel, no Porto. Vivem em Londres Bruno Verner & Eliete Mejorado, do duo Tetine, assim como Karinna Alves Gulias. Barbara Marcel, Érica Zíngano (até pouco tempo) e eu vivemos em Berlim. São alguns exemplos.
"O ROOFS OF CHELSEA
Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
“... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
murmura adormecida
É meu nome!...
sou eu, sou eu, Nabucodonosor!"
__ Vinicius de Moraes, excerto de "A última elegia", in Cinco elegias (1943).
§
Hoje em dia, poderíamos citar Zuca Sardan, que vive em Hamburgo. Ederval Fernandes vive em Lisboa, e Luca Argel, no Porto. Vivem em Londres Bruno Verner & Eliete Mejorado, do duo Tetine, assim como Karinna Alves Gulias. Barbara Marcel, Érica Zíngano (até pouco tempo) e eu vivemos em Berlim. São alguns exemplos.
Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto na Espanha
Já a produção literária de estrangeiros no país tem uma história ainda por contar e menos conhecida. É famosa, é claro, a passagem de Stefan Zweig pelo Brasil e seu suicídio em Petrópolis, o famoso-infame Brasil: País do Futuro (1941).
Também tem caráter já quase lendário o longo período da vida de Elizabeth Bishop no Rio de Janeiro, em Petrópolis e mais tarde em Ouro Preto.
Mario Pedrosa e Benjamin Péret eram cunhados. O filho de Péret e Houston, Geyser, havia nascido no Rio de Janeiro há poucos meses quando o casal foi obrigado a voltar à França. Péret seguiria fascinado pelo Brasil, e deixou textos pioneiros sobre o candomblé e sobre artistas brasileiros como Maria Martins.
Entre os latino-americanos, o caso mais recente e importante foi o do argentino Néstor Perlongher, que viveu exilado em São Paulo e aí escreveu praticamente toda a sua obra, de Alambres (1987) a El chorreo de las iluminaciones (1992), assim como sua pesquisa em O negócio do michê: Prostituição viril em São Paulo, publicada pela Brasiliense em 1987. Por sua vez, foi da Argentina que o galego Lorenzo Varela manteve contacto intenso com os intelectuais brasileiros das décadas de 1950 e 1960, exilado por Franco, e foi ali que Ferreira Gullar escreveu a maior parte de seu Poema Sujo (1976), exilado pela Ditadura Militar.
Também tem caráter já quase lendário o longo período da vida de Elizabeth Bishop no Rio de Janeiro, em Petrópolis e mais tarde em Ouro Preto.
Cadela rosada [Rio de Janeiro]
Elizabeth Bishop
Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.
Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.
Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?
(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?
Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.
E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.
Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?
A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.
Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito
mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia
pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!
Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.
O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...!
(tradução de Paulo Henriques Britto)
A poeta estadunidense Elizabeth Bishop na entrada de seu estúdio
na casa de Samambaia em Petrópolis, onde viveu com Lota de Macedo Soares.
E se escritores brasileiros deram seu próprio "brado do Ipiranga" no centenário do brado de Dom Pedro I, imigrantes como Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld e Paulo Rónai foram importantíssimos para a abertura da vida intelectual do país. Outro exilado germânico menos conhecido foi Herbert Caro, que fixou residência em Porto Alegre, onde traduziu vários alemães para o português. Pouco lembrados também são o mexicano Alfonso Reyes e a chilena Gabriela Mistral, que tiveram funções diplomáticas no Brasil.
Se é muito conhecida a estadia do suíço Blaise Cendrars entre nós, fazendo já parte do quase-folclore em torno do nosso Movimento Modernista, como me lembrou Rafael Cardoso é menos mencionado o caso do surrealista francês Benjamin Péret. Casado com a cantora brasileira Elsie Houston, ele viveu no Rio de Janeiro entre 1929 e 1931, quando foi preso e expulso do país por Getúlio Vargas por sua militância comunista e participação ao lado de Mário Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo no grupo Oposição de Esquerda.
Gabriela Mistral e Cecília Meireles no Rio de Janeiro, década de 1940.
Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Péret, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade,
Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira e Maximilien Gauthier.
Mario Pedrosa e Benjamin Péret eram cunhados. O filho de Péret e Houston, Geyser, havia nascido no Rio de Janeiro há poucos meses quando o casal foi obrigado a voltar à França. Péret seguiria fascinado pelo Brasil, e deixou textos pioneiros sobre o candomblé e sobre artistas brasileiros como Maria Martins.
Entre os latino-americanos, o caso mais recente e importante foi o do argentino Néstor Perlongher, que viveu exilado em São Paulo e aí escreveu praticamente toda a sua obra, de Alambres (1987) a El chorreo de las iluminaciones (1992), assim como sua pesquisa em O negócio do michê: Prostituição viril em São Paulo, publicada pela Brasiliense em 1987. Por sua vez, foi da Argentina que o galego Lorenzo Varela manteve contacto intenso com os intelectuais brasileiros das décadas de 1950 e 1960, exilado por Franco, e foi ali que Ferreira Gullar escreveu a maior parte de seu Poema Sujo (1976), exilado pela Ditadura Militar.
§
Não pode ser uma questão apenas de língua e tradução o que dificulta essa história. Afinal, basta procurarmos em livrarias brasileiras os trabalhos de portugueses como Jorge de Sena e João Apolinário, da moçambicana Noémia de Sousa ou do cabo-verdiano Luís Romano, lusófonos estrangeiros que viveram no país, para percebermos como ignoramos até mesmo os autores de nossa própria língua que passaram por este país gigantesco, mais plural em suas experiências linguísticas do que costumamos papaguear por aí.
No ano passado, o governo de Cabo Verde condecorou a Marinha brasileira com a medalha do Mérito Cultural por contribuir no repatriamento do acervo do escritor Luís Romano às ilhas de nossa irmandade lusófona, ele que também escreveu em crioulo cabo-veridano e viveu por cinco décadas em Natal, no Rio Grande do Norte. Oxalá fosse esta uma das únicas funções das marinhas do mundo: transportar bibliotecas.
§
Não pode ser uma questão apenas de língua e tradução o que dificulta essa história. Afinal, basta procurarmos em livrarias brasileiras os trabalhos de portugueses como Jorge de Sena e João Apolinário, da moçambicana Noémia de Sousa ou do cabo-verdiano Luís Romano, lusófonos estrangeiros que viveram no país, para percebermos como ignoramos até mesmo os autores de nossa própria língua que passaram por este país gigantesco, mais plural em suas experiências linguísticas do que costumamos papaguear por aí.
Ficha de imigração do escritor cabo-verdiano Luís Romano (Cabo Verde, 1922 – Brasil, 2010)
No ano passado, o governo de Cabo Verde condecorou a Marinha brasileira com a medalha do Mérito Cultural por contribuir no repatriamento do acervo do escritor Luís Romano às ilhas de nossa irmandade lusófona, ele que também escreveu em crioulo cabo-veridano e viveu por cinco décadas em Natal, no Rio Grande do Norte. Oxalá fosse esta uma das únicas funções das marinhas do mundo: transportar bibliotecas.
§
E há também descobertas por fazer, algumas complicadas sim pela questão da tradução. Em 2014 soube através do meu amigo, o poeta e romancista ucraniano Andriy Lyubka, que Wira Wowk, uma das mais importantes poetas ucranianas do século XX vivia no Rio de Janeiro há décadas. Escrevi sobre um encontro com ela, ao lado de Lyubka, em uma crônica para a DW.
Os ucranianos Wira Wowk e Andriy Lyubka no Rio de Janeiro em 2014
A última descoberta, no meu caso, foi o russo Valery Pereleshin (Irkutsk, Rússia, 1913 – Rio de Janeiro, Brasil, 1992). Nascido na Sibéria, ele emigrou primeiramente para a China, onde começou sua obra, e em 1952 veio com a mãe para o Brasil, onde produziu a maior parte de sua poesia. Em um ensaio, seu tradutor americano Simon Karlinsky escreveria que o poeta se considerava "poeta brasileiro que escreve em russo".
Mas Pereleshin escreveu também em português. Luci Ramos Mendes me informou que sua obra lusófona será lançada em breve pela Editora Dybukk. Foi ela quem me enviou o poema abaixo. Espero que a poesia russa do autor seja também traduzida e lançada em algum momento. Com certeza incluirei seu trabalho na antologia homoerótica internacional que estou organizando.
O poeta russo naturalizado brasileiro Valery Pereleshin
(década de 1970)
Mas Pereleshin escreveu também em português. Luci Ramos Mendes me informou que sua obra lusófona será lançada em breve pela Editora Dybukk. Foi ela quem me enviou o poema abaixo. Espero que a poesia russa do autor seja também traduzida e lançada em algum momento. Com certeza incluirei seu trabalho na antologia homoerótica internacional que estou organizando.
Poema homoerótico lusófono de Valery Pereleshin
§
Essa história não acabou, é claro. Há/houve ainda os casos do argentino Aníbal Cristobo, da alemã Sabine Scho, da estadunidense Farnoosh Fathi, das portuguesas Matilde Campilho e Alexandra Lucas Coelho, dos britânicos Sarah Rebecca Kersley e Rob Packer, da suíça Prisca Agustoni. Um tema bastante interessante para uma pesquisa. Há com certeza quem já esteja se dedicando a ela.
E também para uma discussão saudável sobre a ideia de "nacional" que ainda rege nossa historiografia literária, apagando até mesmo autores nascidos no Brasil por não se adequarem a certas narrativas e dificultando nosso conhecimento e aprendizado também dos orikis de matriz africana e da poesia ameríndia do território.
Essa história não acabou, é claro. Há/houve ainda os casos do argentino Aníbal Cristobo, da alemã Sabine Scho, da estadunidense Farnoosh Fathi, das portuguesas Matilde Campilho e Alexandra Lucas Coelho, dos britânicos Sarah Rebecca Kersley e Rob Packer, da suíça Prisca Agustoni. Um tema bastante interessante para uma pesquisa. Há com certeza quem já esteja se dedicando a ela.
E também para uma discussão saudável sobre a ideia de "nacional" que ainda rege nossa historiografia literária, apagando até mesmo autores nascidos no Brasil por não se adequarem a certas narrativas e dificultando nosso conhecimento e aprendizado também dos orikis de matriz africana e da poesia ameríndia do território.
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