segunda-feira, 29 de julho de 2019

“Carta à mais caçula [para ser lida por Maria Eduarda Domeneck Ramos quando chegar a hora]”




Chegada nessa gravidez tardia
da irmã caçula a esse rodízio de caçulas,
na casa onde já tombaram
a goiabeira, o coqueiro e o pé-de-acerola,
donde não mais se ouve
nem o bem-te-vi nem o fogo-apagou
e mesmo alguns humanos
jazem já no Cemitério São João Batista
da Paróquia de São João Batista
para a qual teu avô leiloou tantas leitoas,
bem-vinda a esse planeta delicioso e terrível,
bebezinha qual matriosca às avessas,
na qual a versão menor esconde a maior,
tendo já em si a mulher fortíssima que serás
pois assim foram tua bisavó, tua avó e tua mãe.

Não conhecerás alguns de nós,
a Dona Rosária das cidreiras e pirões,
a Dona Concheta da romãzeira e hortelã,
tampouco Seu João, o Garganta de Ouro.
Mesmo assim, bem-vinda à família penhorada.
Há muitos de nós ainda
para tentar te defender dos tropeços
que nós mesmos demos,
conselhos que por certo ignorarás
como ignoramos os que nos foram dados.

Aqui aprenderás entre as milhares de línguas
do planeta uma única língua específica
com as intonações particulares
desse país, região, comarca e casa
das terras da Vila de São Sebastião do Bebedor
cuja gleba foi paga a prestações de porcos
e a última com um cavalo de sela arriada,
onde temos dificuldade com plurais e pronomes
pois em nós mesmos jaz uma língua-fantasma.
Dou-te o primeiro conselho,
que só um Domeneck entenderá:
Não adianta ser uma boca-de-Leandro
nessa viagem Rua Campos Salles abaixo.
Há que se lutar e amar com o miocárdio
que nos foi dado. Este que te bate.

Nesse fim-de-mundo-grande sem porteiras
começarás a aprender certas coisas
importantes para a universalidade nacional
como a maneira com que cai a renda
das famílias conforme se distancia a rua
de suas casas do Lago de Bebedouro,
e como, apesar de bonita como um parque,
te será proibido entrar na Chácara Furquim
porque é propriedade privada
assim como não poderás colher laranja alguma
dos laranjais imensos que circundarão tua infância.
Ao Horto Florestal, serás avisada
nunca ir sozinha por ser menina, por ser mulher.
Desses perigos saberás a tempo.

Mas há prazeres de graça. Verás.
Tem o bumba-meu-boi e o circuladô-de-fulô,
o carnaval e a procissão e a eleição,
a chuva e o toró, tem as canções de fossa
para as paixonites agudas.
As dores de amor gostoso virão com o exército
de cigarras-do-cafeeiro que já nem sei
se ainda infernizam as primaveras.
Muita coisa já sumiu, escafedeu-se.

Tem os doces açucaradíssimos
pois se moveu por séculos o açúcar a colônia
por que não abusarmos dele hoje?
Muito sangue derramado por café e açúcar
corre agora em teu sangue adocicado
e verás em casa como o açúcar do café
ferve-se junto já de sua água.
Tem a Nossa Senhora negra e a Iemanjá branca
e mesmo teu avô, católico apostólico romano,
não deixava de fazer suas oferendas ao mar
depois de rezar seu terço.
Mas é possível que parte da família te alerte
sobre a interdição de imagens de barro.
E o mar é longe, mas tem dezembro. Tem janeiro.
Janeira-se muito por aqui,
como janeiraste em pleno julho.

Teu avô nasceu sob Getúlio Vargas.
Tua mãe e eu, teu tio, sob Ernesto Geisel.
Um dia aprenderás estes nomes.
Eles agora não te importam
como o leite e o colo.
Estes nomes são apenas as cólicas do futuro.
Por ora deixe conosco as dores de agora.
Cuide cicatrizar na barriga o cordão-umbilical
que secará e será enterrado no quintal.
Esta será tua primeira cicatriz.
Te desejo que teu tempo te seja mais leve
do que nos foi o nosso, e em meio
a alegria muita e alergia nenhuma
cresças para descobrir
as delícias-desgraças de tua terra,
as desgraças-delícias de sermos o que somos.

*

Berlim, 25 a 28 de julho de 2019

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segunda-feira, 8 de julho de 2019

HOMENAGEM JOANINA


João Cabral de Melo Neto & João Gilberto


um dia dirão:‬
‪houve joões
‪nesse inferno
‪de tabeliães,
‪cabral e gilberto,
‪a cantar chãs
‪com a elegância ‬
dos pães.

anti-supérfluos
deram a lição:
‪antes ser cães ‬
‪ágeis a leões
de dó e dengo.
‪eis o alerta‬
‪contra o joio
e os rojões.

menos pedras
do que tijolos,
disseram:
amem o silêncio
mas não em excesso,
pois nos corpos
nua é a voz,
o barro de joões.

pau seco, bossa.
brio de candeia.
garbo de cartola.
do aleijado destro,
um útero-igreja
em ouro preto.
a pedra-pomes
à pele morta.

dos cadivéus,
a redoma de ocas.
chega! abaixo
os panteões.
filhos somos
de corujas-diabos,
urubus-reis,
gaviões-caboclos.

nada fomos
além ou aquém
do que somos:
micos de ouro
e não leões,
mas nos quais mora
a força de onças.
bicos de falcões.

*

7 de julho de 2019

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

[você tem vergonha dos vizinhos]


você tem vergonha dos vizinhos
e reclama da finura das cortinas,
nós, aqui nus em plena
tarde na cama à janela,
e explico de novo, meu querido,
que é branco o tecido
porque reflete toda a luz do sol,
tornando impenetrável aos olhos
dos vizinhos que bisbilhotam
mesmo a finura das cortinas,
puídas como nosso lençol,
então sussurro no seu ouvido:
não é bonito
que a própria luz nos esconda?


*

Berlim, junho de 2019. . . .

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Francisco Bley & Ricardo Domeneck - "Os afazeres" (vídeo de Frederico Klumb)

Com Francisco Bley no estúdio Mylo em Curitiba, janeiro de 2019

‘Os afazeres’ é uma colaboração que nasceu em 2018 quando conheci o compositor curitibano Francisco Bley em minha passagem pela capital paranaense. Bley, que já trabalhou em peças sonoras de poesia falada com poetas como Elisa Lucinda, compôs e propôs essa bela peça eletroacústica ao piano com sons processados, à qual decidi unir com minha voz o poema “Os afazeres domésticos”. Retornei a Curitiba em janeiro de 2019 e gravamos o texto no estúdio Mylo. Com a peça pronta, convidamos o carioca Frederico Klumb para a composição visual que acompanharia a colaboração, e estamos muito felizes de poder mostrar agora essa tríade entre música, texto e imagens. No entanto, trata-se de uma colaboração ainda maior: montada a partir de imagens de arquivos familiares, precisamos agradecer a todos os amigos e colegas que atenderam ao chamado e nos enviaram fotografias de suas infâncias em vários cantos do país. A estas imagens, Frederico uniu outras do arquivo histórico do país. E assim, aqui estão os afazeres. 


 –– Ricardo Domeneck, junho de 2019





Os afazeres domésticos
Ricardo Domeneck


           “Há-de nascer de novo o micondó —
            belo, imperfeito, no centro do quintal.”
                         –– Conceição Lima


É o nosso trabalho dizer agora que hão-de
renascer o capim-cidreira, o boldo e a hortelã
para os rins, os fígados, os intestinos da família
morta já pela metade, ainda que se espargira sal
sobre a terra dos quintais tomados pelo agiota,
e o dizer em ritmo propício à canção de ninar.

E que as mãos da vó quebrarão o pescoço
dos frangos caseiros para o pirão, que há-de
alimentar por dias as mulheres de resguardo
que ao dar à luz indenizaram a família por velórios,
mesmo que daquelas rugas restem só carpos
e metacarpos brancos de cálcio no jazigo do clã.

E que o vô morto voltará em sonho para ralhar
até a bandeira nacional mudar de cor
com estes desnaturados que não se cansam
de dar desgosto a seus antepassados
que cruzaram oceano não só para a desgraça
trocar de passaporte e vegetação ao fundo.

E é nosso trabalho dizer que os avós sequestrados
d’além mar hão-de alforriar-se em nossos corpos
e que os antepassados deste lado do Atlântico
hão-de reaver seus quinhões de terra preta,
e juntos, entre a hortelã, o boldo e o capim-cidreira,
de mão em mão as xícaras da saúde que nos elide.

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sexta-feira, 14 de junho de 2019

A meditation on the dimensions of our corporeality through David Schiesser's work



German artist David Schiesser and one of his murals
(photo by Yannic Poepperling)

One could possibly tell the history of our species and its relationship to the world, their reality, our reality, through a narrative accounting for the expansion of dimensions. Eyes on the horizon, three-dimensional preys and predators running, the hunt. The birth of symbolic thought on bidimensional drawings on charcoal and ochre, composed within that elusive dimension, time. But there, in the dark of caves, our most basic notions of art and reality were set in stone. Our vocabulary may have expanded, but we are still on those walls, running among aurochs and other animals, some already extinct. 

Yes, since then, string theory has postulated the existence of at least 7 more dimensions, most of them beyond our perception. Because they were not needed for our survival, our evolution? Or are they perceived in some other way, mysterious, yet palpable? Three dimensions for five senses. Length, width, and height. And time, time, the elusive fourth which causes so much transformation in the length, width and height of our own bodies. Sight, vision. Hearing, audition. Taste, gustation. Smell, olfaction. And touch, somatosensation. Does time not wear these senses out? Do you see what I mean? Our vocabulary expands. Or should I say, do you hear me, as you touch this page? These are our sensory modalities. And are these not senses then, our perceptions of temperature (thermoception), movement (proprioception), pain (nociception), balance (equilibrioception) and vibration (mechanoreception)? Some go as far as to include internal sensations, such as our senses of hunger and thirst, in our list of tools towards conceiving the world.



But we are still on those cave walls, eyes scanning the horizon for meat. Scanning the street for the arrival of the body of the beloved. There must be an integral pleasure in being a human and drawing. We keep on counting. 1, 2, 3. This dimensional game comes into play in our bodies themselves, on which the largest organ strikes us as bidimensional: our skin. And yet it covers our length, width, and height. In some cultures, it can be stretched into bidimensionality, as in Japan's black market for tattooed human skin. It is this dimensionality that seems to be in constant operation in David Schiesser’s work, from our oldest practices with charcoal to the latest programs in photography. This operation of length, width, and height translating themselves into lines drawn on a canvas, or on the skin of humans who offer their four-dimensionality for David Schiesser's drawings, his work as a tattoo artist on bodies that will be ravaged by time.



In Peter Greenaway's film 'The Pillow Book' (1996), the writer Nagiko, played by Vivian Wu, says: “The smell of white paper is like the scent of skin of a new lover who has just paid a surprise visit out of a rainy garden. And the black ink is like lacquered hair. And the quill? Well, the quill is like that instrument of pleasure whose purpose is never in doubt but whose surprising efficiency one always, always forgets.” The film references Sei Shonagon's classic diary 'The Pillow Book' [ 枕草子 Makura no Sōshi ], completed in the year 1002, in which she lists among unsuitable things, “Ugly handwriting on red paper”, because there is an erotica of lines on planes, an erotica of drawing. It is our engagement with the world.

In his treatise on the Vampyroteuthis infernalis, comparing the evolution of vampire squids and humans, Vilém Flusser writers: “We have been exiled to the surfaces of the continents. There we have managed to walk upright – to erect ourselves – and now we loom into the third dimension, into space (heavenward, if you will). It [the vampire squid] has been exiled into the depths. There it has managed to erect itself and now it touches the seabed like an open palm. In so doing, its palm is analogous to ours, but it is not concerned simply with feeling the third dimension, as we are, but rather with feeling multidimensionality.”




As humans, arrested in our three dimensions (plus time, time the elusive), we may all be as in the tale of the blind men describing an elephant through just one sense. It could that art is this attempt: to reach the unperceived realities of string theory through our lacking senses. But even in our industrial design, objects try to shape themselves to serve our bodies, as I seem to infer from David Schiesser's collection of chairs in which his practices attempt to morph into one: the drawing, the tattooing, the skin and the canvas. Our relationship to the world of lines and planes is here, in a body that calculates the heights, lengths and widths so as to climb a staircase safely. The folding of lines and planes of a body that sits down. And if we have brought evolution into this, it is clear why the various species of flatfish seem to obsess Mr. Schiesser. The flatfish that has cheated the cage of three dimensions for safety and survival.




Let me close this attempt at a meditation. Writers are often summoned to make sense of the work of visual artists, though we do not share in the proceeds of this sense-making process. I could have saved your time by simply stating: the pleasure I derive from David Schiesser's work is first of all immediate, direct, and wholly available to my primitive senses already ravaged by time. If I were to attempt a list of pleasurable things, in the style of Sei Shonagon, I would included David Schiesser's lines on planes, yes, that abstract two-dimensional surface with indeterminate width and length, zero thickness and zero curvature, on the curvature of my thick eyes.



Ricardo Domeneck
Berlin, March 15th –– 21st, 2019

(Written originally for David Schiesser's solo exhibition
Die 3 Achsen unserer Leiblichkeit
at Blake and Vargas in Berlin)




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quinta-feira, 13 de junho de 2019

NOSSO DESNATURADO HABITAT


Somos assim, bichos
na primavera dos polos
opostos da Terra,
nos climas inclementes
cortejamos o desastre,
convidamos extremos,
amadores em toda arte,
qual urso polar no Saara
ou no Pantanal, camelo.
Pobres, mendicantes,
excedemo-nos na pechincha
com cupidos, bichos-preguiça
a implorar misericórdia
entre os dentes da onça.
É esse constante desequilíbrio,
desencaixe entre o parafuso
e a arruela e a porca,
porque na sede tamanha
levamos à boca a concha
pelante de quente da sopa.
Somos uns glutões, glutões.
É esse o desconforto de velhos
que insistem na roupa
dos tempos de adolescência,
é uma convalescença longa.
Só torcemos pelo empate,
querido co-bobo da corte,
mas herdamos encalhe,
descarrilamento, disparate,
somos assim, uns pinguins
apaixonados por porcos.
Eu te olho, reolho, desolho
e peço apenas que pingues
tuas proteínas nos meus poros,
faças uma poça no meu umbigo
para que dela me alimente
como no gelo extremo focas
cavam buracos para a fuga
de sua gordura inocente,
e para oxigênio, as belugas.


§

Berlim, 13 de junho de 2019

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quarta-feira, 12 de junho de 2019

"Frangalhos de um discurso, amoreco" ou "A paixonite segundo R.D."


Nan Goldin - "Empty Beds, Boston," 1979

Neste Dia dos Namorados no Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2019, para os que os têm e os que não os têm, seguem abaixo poemas de minha lírica amorosa, extraídos de nove livros, da minha estreia – Carta aos anfíbios (2005) – ao mais recente – Odes a Maximin (2018). É a atualização de uma postagem de 2010. Incluí também dois poemas de um livro inédito, intitulado O sol ao meio-dia e meia.


O pão partido

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.


[de Carta aos anfíbios, 2005]

§

A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça

1.

esta perturbação inicial, garfo
que não encaixa na boca
e a comida cai, num prato
assustado; o copo
d’água vai de encontro
ao dente. A garganta
estende as palmas
de vontade.

2.

O algodão úmido
na testa eriça-me
o quebranto; o soluço
acelera o ritmo.

Visto o casaco alheio
e me perco no cheiro,
um instante,
um instante.

O flagrante
do dono
perturba-me
o sono.

3.

Timidez
de pés

em casa
estranha,

que ao
ensaio

da distribuição nova
do peso descobrem

a levitação.

4.

O chão é um convite
recorrente, constante; algo em nós espera
o reencontro. Até que o vento.


[de Carta aos anfíbios, 2005]

§

digo ao telefone
meu nome querendo
dizer sou eu
no tom
de voz de quem
diz estou chegando
na escala de dentição
da intimidade
e ele interroga
quem querendo
dizer apenas você
como quem
questiona qual
o seu direito
em ter um
nome ambos
comércio e
sexo sua
ofegância repetitiva
prometem a mecânica
a cruzar o divisor
que separa o conhecimento
dos objetos
prováveis antes
do sono
prega etiquetas nas
coisas cama
na cama criado
-mudo no criado-mudo
amante no amante
ausente


[de a cadela sem Logos, 2007]

§

em minha boca ele
alcança o meio-dia
mas a intermitência o
apreende como em
qualquer música
cúmplice do acaso a
pessoa começa a
afastar-se desde que
se aproxima a distância
existe entre pele e
pele cada imagem
dobrando a esquina
não configura
sua chegada
ele
só chega quando seu
corpo chega carregado
pelas próprias pernas
e jamais falha que
eu o reconheça
de imediato
como dono de
certos lábios voz
nome e um modo
de apresentar-se
ele
chega o mundo
assume uma nova
forma: a do
equilíbrio precário do
mundo


[de a cadela sem Logos, 2007]

§

Autorretrato para agência de acasalamento

a-
pós
a noite
em claro com
Antonioni / Plath / Radiohead
você pergunta-me
pela vida humorosa?
(cf. O. de A.)
autodevastar-se
a única
art we master,
só nos entendendo
via subtração,
nossos encontros
fantásticos!, cavalheiros,
como anseio
por ele
que piora tudo;
horas
para arrumar-se
e no fim
estes trapos?
ornam,
combinam,
caem
tão bem;
aguardo o dia
em que tudo
o que disser-me
o ventríloquo
seja a citação
de alguém algures,
como desaparecer
completamente;
nosso amor durou
quinze hematomas
e a incubação
da escabiose,
minha herança!;
quando acordei,
cada coisa em seu
lugar onde
eu, eu, eu
deixara;
ah! amar é
inter-
ferir,
salvar
se de si


[de Sons: Arranjo: Garganta, 2009]

§

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais do que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.


[de Cigarros na cama, 2011]

§

Os amigos sugerem passatempos
e festas, acquaintance com anatomias
inéditas, corpos novos. Como? Quem
se compara aos seus côncavos
e convexos?
Por ora, moço,
você ainda defeca
ouro.


[de Cigarros na cama, 2011]

§

Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos

a Jannis Birsner

Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Pinguins, ao redor do mundo,
e porcos,
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.


[de Ciclo do amante substituível, 2012]

§

As canções como álibis

A culpa não
é minha, querido. O mau
exemplo foi de Maysa,
quase lançando-se, Brasília
azul e tudo, da Rio
-Niterói abaixo.
Por tanto,
esta minha falta
de pose,
esta minha recusa
a respeitar mãos
únicas, a gravidade.

Tenho meus álibis, moço.
Que esperava, se Ângela
Rô Rô
tampouco me ensinou
a aceitar o horror
do copo só, testa
contra o balcão, prática
da primeira pessoa
do singular?

Que você atire
a primeira
pedra, Dolores
Duran. Curta
é sempre a vida
quando se habita
a letra
da fossa, ou se fala
com a língua no oco
a língua do sim.

Carpe diem,
diziam os árcades,
hoje nem reconhecíveis
por suas arcadas
dentárias.
Prefiro carpir ou cuspir
meus dentes
a deixar de chocá-los
com os seus.

Moço, quisera fôssemos
como dois corpos
de água,
a que basta
um toque
para que se tornem
o único e o mesmo.
Você gargalha
enquanto pesquiso
em sua glote
o dicionário
do riso
e eu aguardo sua voz
para guardá-la num cofre
forte como uma noz.


[de Ciclo do amante substituível, 2012]

§

Receita de estropício ao molho caipira

Eu me encolho, enfolho feito alcachofra
se a tua boca não lambe o abracadabra.
De novo manhãs de toró que açucaravas,
abrir tão-só minha braguilha é monótono,
vem, já me cansei das mil e uma moitas.
Ando de banda, todo aguado, borocoxô
nesse meu baião-de-um, essa gororoba
sem sal, a minha vidinha tão mequetrefe
quando me esculhambas, negas cafuné.
Eu sou uma bugiganga jogada às traças,
um zé-ninguém nesse angu de caroço,
chulo, sem o teu dendê, bobó de bobo.
Prometo, querido, tirar baba do quiabo,
proteger as osgas, aguar samambaias.
Volta logo, bate à porta, já gora o ovo.


[de Medir com a próprias mãos a febre, 2015]

§

Texto em que o poeta dispara sua última torrente de elogios, neste que oxalá seja o último poema para O Moço

Cavalinho de desequilíbrio, geringonça desastrada,
espargidor no meu carpete dos cafés sucessivos,
peixe de lago constante, camundongo do mato,
coisa alta, ninfo palidíssimo para novos poetas
decadentes, filhote albino de tigre, loa de sertã,
guia da trilha ao descampado de meu bosque,
enguia-de-muco, alface-de-cão, dente-de-leão,
insistência heróica na busca dos sobreviventes
de mim, aquele que transporta o meu cale-se,
arquivista de minhas enumerações caóticas,
com esta minha cachoeirinha de atributos
ao teu tórax e cóccix, eu juro que juro
que esta é a última vez que te canto.


[de Medir com a próprias mãos a febre, 2015]

§

Maximin, o servo e a princesa abássida

"Eu contive o nome do meu amor       e o repetia sozinha, calada.
Como anseio por espaços abertos     onde o possa ouvir gritado."
--- ‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825), poeta e princesa do Califado Abássida.


Escondo de todos teu nome, Maximin,
tal qual ‘Ulayya bint al-Mahdī, proibida
de sequer dizer o nome de Ṭall, o khādim
que amava, silenciou do al-Baqarah
numa leitura o versículo que continha
a palavra. Ṭall, que é também orvalho.
Onde estará agora o generoso califa
que ao ouvir sobre tal zelo de beata
profana, comoveu-se de seu embargo
e a ‘Ulayya doou seu amado khādim?
Quem há-de me conceder meu Maximin
por esta minha concupiscência calada,
mas, em permuta, fazendo de mim
servo, de Maximin príncipe abássida?


[de Odes a Maximin, 2018]

§

Maximin nosso que estás na terra

Quantas vezes pedi a orixás e santos,
Maximin, fazer de mim todo ânus
quando de pé te vejo, ou em decúbito
seja ventral ou dorsal, ventríloquo
que és do teu pau. O teu corpo todo
é só chão sob obelisco, do chuço
madeira que apoia a ponta-de-lança,
em oito quinas tu me fazes cubo.
Quisera em teu tanquinho ralar a pança.
Que o guindaste erga-se! Eu flutuo.
Não sou eu só invólucro de um cu
e boca? Entra. Que jamais descanses.
Não espano, porca do teu parafuso.
Maximin, cruza enfim o Arco do Triunfo!


[de Odes a Maximin, 2018]

§

Narval ou louva-a-deus

Hotel Manager: Now have you thought of what animal you'd like to be if you end up alone?
Loner: Yes. A lobster.
Hotel Manager: A lobster is an excellent choice.
- Yorgos Lanthimos, roteiro do filme The Lobster (2015)


são transitivos e intransitivos
verbos demais, como nós mesmos
confundimos nossas necessidades
de complemento e sujeição
em meio a esse medo
dos meus amigos
tão estranho a mim
de serem tratados como objetos

nossa indecisão entre pastoreio
e transumância, ao mesmo tempo
pastor desgarrado e ovelha exausta

quisera pedir ao gerente-mor
na próxima estação de carne
se houver retorno à terra
volver
um dia como um narval
baleia dentada e unicórnia
ou talvez um louva-a-deus
que ao menos em minha terra
evita-se pisotear
quando não se declara pecado
pisotear tanta criatura
da espécie própria ou alheia

apenas, por favor, gerente-mor
desta loja onde tudo sempre
tem mas acabou
ser qualquer coisa, desde
que marítimo se vertebrado
e invertebrado se terreno

pois neste transumar constante
entre pastos em nossa vida comum,
ó gerente-mor, não pastei
já o suficiente
neste capim de beira-de-estrada
essa lavoura de ervas-daninhas?

não posso comer, ao menos
neste café-da-manhã
para variar
o brioche ou croassã
que o diabo amassou?

Repito, peço que anote,
gerente-mor, em seu livro
de reclamações e exigências,
que eu volte sim à terra
mas marítimo se vertebrado
ou invertebrado se terreno
pois já me cansei das bagagens,
das roupas, da biblioteca
que faz pesar tanto
as caixas de mudança,
os móveis
que acumulam pó
por cima e por baixo
e precisam ser arrastados
pela sala e quarto
fazendo sulcos no assoalho

cansei-me por fim da gravidade
lição da física do mundo nestas maçãs
e jacas que sempre despencam
sobre a cabeça de nossos cientistas
mas nunca sobre a minha

cansei-me também da outra gravidade
esta seriedade do cenho franzido
dos nossos escrivães e escrevinhadores
insistindo em lembrar-nos de que o céu
é azul, e o pássaro voa, e o sol se põe

cansei-me dessa carne que se faz verbo
não-copulativo, a conjugação recorrente
ad nauseam dessa merda diária toda
sempre em primeira pessoa
o que é, o que é:

amar, verbo intransigente


[de O sol ao meio-dia e meia, inédito]

§

A limpeza que eu mereço

Se meu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos desastrosas
Meu amor
Nem Omo lavaria


[de O sol ao meio-dia e meia, inédito]

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

A morte em parcelas


A primeira vez que eu morri,
gaguejei ao amigo se se sobrevive
a essa morte em parcelas
e o amigo, já escolado
em mortandade, respondeu: sim,
se sobrevive, se atravessa o quarto
em chamas e se emerge no jardim,
chamuscado, a musselina pegada
à pele, a própria pele qual musselina,
mas vivo, ainda, ainda mais para cá
do que para o além, quando hemos
de estar não só alfabetizados
mas psiomeguizados nesse vocabulário
das perdas crescentes como as dívidas.

Isso, isto deveria servir de consolo,
como volta a primavera de Perséfone
em férias no submundo, e voltam peixes
a rios devastados, e as baleias a mares
de plástico, e até o sol volta ao Ártico
após uma noite que dura meses.
Ainda que se sinta isso como castigo.

As alegorias mais esdrúxulas
já foram usadas para essa teimosia.
As alegrias mais estapafúrdias.
Almodóvar e o coma em meio a touros,
Duras e os brotos no solo de Hiroxima.
Notem a audácia. Se se sobrevive?
Sobrevive-se.

Rá monta de novo sua carruagem,
o Cristo ressuscita, Dom Sebastião
volta. A holotúria, o rabo da lagartixa,
o braço da estrela-do-mar, etc, etc.

E Hiroxima reconstruiu-se deveras.
Taparam-se as crateras em Berlim.
Vidas individuais, vidas coletivas
que se erguem de escombros
tanto do amor quanto da guerra.

Mesmo que maremotos salguem a terra.
Notem, notem a nossa audácia.
A teimosia dos pulmões. Do coração.

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sábado, 13 de abril de 2019

Em transe com a poesia de João Vário


João Vário (Cabo Verde, 1937–2007)


Foi totalmente por acaso que descobri a existência do cabo-verdiano João Vário (1937–2007) e sua poesia sem paralelos. Estou totalmente absorto por seu trabalho. Faz-se urgente a edição de sua poesia no Brasil.

Nascido em Mindelo, na ilha de São Vicente, a 7 de Junho de 1937, João Vário foi o principal pseudônimo de João Manuel Varela, que também assinava certos textos como Timóteo Tio Tiofe e Geuzim Té Didial. Ele foi poeta, escritor, neurocientista, cientista e professor. Estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi pesquisador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Retornou à Mindelo natal após aposentar-se, e aí morreu a 7 de Agosto de 2007.

Descobri seu trabalho ao topar com a capa da reedição de seus Exemplos pela editora portuguesa Tinta-da-China, que vem fazendo um ótimo trabalho de recuperação de poetas da língua, como há pouco tempo na edição dos Poemas quotidianos de António Reis.

O volume Exemplos de João Vário reúne os volumes Exemplo Geral (1966), Exemplo Relativo (1968), Exemplo Dúbio (1975), Exemplo Próprio (1980), Exemplo Precário (1981), Exemplo Maior (1985), Exemplo Restreint (1989), Exemplo Irréversible (1989), e Exemplo Coevo (1998). Tente conseguir um exemplar. Eu estou caçando o meu. Abaixo, alguns excertos vários de Vário. Poeta gigante da língua.




EXCERTOS DOS EXEMPLOS DE JOÃO VÁRIO

Mas hemos de acrescentar o hino ao hino,
o signo ao signo, a mó à mó
como o pão se gasta para atenuar
a vetustez do mundo. Ah dizemos bem.
Não há expectativa que invente
a medida para esta bebida
entre foice e erva, entre a multidão e o desdém,
e, contudo, a vocação
bebe onde o mundo não quer
nem predissera, porque bebe deus
e parte de seu caos, essa parte
que escapa à causalidade e à profecia.

*

E todas as coisas jazendo sobre o pavor da boca,
hoje finitas ou nossas, amanhã paralelas ao cordeiro
de deus, magníficas,
como sabemos soprar sobre estas achas enquanto velhas,
todas estas coisas que chegam e não sabem como partir,
como sabemos nós evitar o azedar do leite,
ah todas estas fábulas mesmo com o galo molhado
este pão ou este galho com o seu esperma,
tal como não sabemos como a cabeça tocará o pó,
se de leste, de oeste, se lentamente ou
despedaçando-se, rápida, sobre o passado de Édipo,
e vimos os mesmos dias mas sem os mesmos óbolos,
fugindo de tectos malignos ou de areias vis,
e, porque vamos perdendo este dom da terra,
não há melhor fidelidade em toda esta prova
qua a que vem com a simples veemência,
a desdita de ficar com a boca de outrem,
impassível entre duas chegadas,
mudando a pele dos joelhos
ou deixando o sexo abrir
essa angústia divina, esse sarcófago bento.
Somos, por certo, o que esperam as coisas todas:
nem isto nem aquilo, apenas as melhores trevas.

*

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?

Vamos pela vida arrastando essas noções
de nação, de cultura, de civilizações
- coisas estranhas, sem dúvida, à índole do mundo,
da fraternidade ou da natureza,
porém coisas talvez da ordem das coisas,
das fábulas ordinárias,
mas será que somos disto ou daquilo, que a verdade é essa,
que não escutamos senão de dois ouvidos
e há um país para a leitura
dos nossos mitos próprios
e que a alma não acende além do madeiro recebido
as parábolas que o auxílio sugere
e as volvem, quando deus morre, melhor árbitro do mundo?

*

Sabe-se que os homens são fracos, volúveis,
que esta terra é pequena e molesta,
e o bem e o mal apenas são esse tédio das euménides,
porque, em verdade, os justos não se revoltam,
as musas são imperturbáveis
e não pode haver Sodomas e Gomorras indefinidamente,
porque o homem olha e é Deus que se faz estátua.
Tal, se nos interrogamos sobre o sentido do desvelo
ou da violência, como ele as duas metades
do nosso corpo separa, dando metade
às nossas camas e a outra metade distribuindo
por estranhos como moeda pobre ou erva de Constantinopla,
o fundo tocamos de tal imprevidência e a abundância
que a vida reduz a essa conta divina: o âmago irreconhecível,
a casa, a mulher e tal dom da imaterialidade, da decifração.

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?

*

Da morte nos ficou esse dom de a pensarmos
como coisa sua, coisa por que a pensamos
e acaso não a exprime, porque a
designamos.
Bizarro não é, pois, estar morto, mas lograr
que o tempo em si consigo não aja,
e erga a mão como quem sabe que a mão é
nossa
e não exprime
o que ambos exprimem,
uma, por mão, outro, por tempo que
aprende,
exprimem e juram em redor da mesa.
Para o que há sido o modo, a qualidade
de uma infinita aparição
ou o que há de exílio no exemplo que a
dissemina,
decidem a tradição e a carência
a espécie de facilidade que rememoraremos.
Sobretudo, decidem quando devemos
morrer
para pagar
a legitimidade ou o que há sido anomalia.

Porque de tudo nos ficou esse donde não o sentir, de ficar com ele
só quanto seja a coisa que não tivemos.
A maturidade ou a alegoria que a tem
de outra coisa, oh a maturidade
não nega o que tememos.
O que queríamos dizer está já morto;
que poderíamos, pois, agora
acrescentar a essa alegria?
Da condição da morte, o que morre
é nosso, e, além dele, dos bens nossos.

*


E então subimos aquele grande rio
e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do pais
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

*


Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosissimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

§

Leia um artigo de Rui Guilherme Silva sobre o trabalho de João Vário e também do escritor Armênio Vieira, primeiro cabo-verdiano a ganhar o Prêmio Camões, em 2009, além de Germano Almeida no ano passado: 

de Rui Guilherme Silva.

Leia o obituário escrito por Alexandra Lucas Coelho
n'O Público quando morreu o cabo-verdiano:
"João Vário, o poeta quase secreto"

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Sobre o Parque da Redenção em Porto Alegre e uma tela de Iberê Camargo


Iberê Camargo - ‘Ciclistas’ (1989)


Não conheço Porto Alegre. As imagens que sempre tive de lá estão ligadas a três artistas brasileiros do século XX: o romancista Erico Verissimo (1905–1975), o poeta Mario Quintana (1906–1994) e o pintor Iberê Camargo (1914–1994). Dialogo e acompanho o trabalho de alguns gaúchos contemporâneos, muito diferentes entre si, como Veronica Stigger, Angélica Freitas, Fabiana Faleiros, Melissa Dullius, Eduardo Sterzi, Marcus Fabiano Gonçalves, Gustavo Jahn... mas deixaram todos eles os pampas e os capitães-rodrigos pelos frangalhos da Mata Atlântica e os sargentos-de-milícias. Eu os imagino agora, bebericando aquele horror de amargura intolerável que é o chimarrão. Uma parte de mim nunca conseguirá confiar completamente neles por realmente GOSTAR daquilo.

Enfim, isso tudo apenas para dizer o seguinte. Em 1999 houve uma retrospectiva de Iberê Camargo na Pinacoteca de São Paulo. Aquele ano foi muito marcante para minha formação em termos de arte visual: além desta, fui muito impactado então pela retrospectiva de Lygia Clark no Museu de Arte Moderna de São Paulo, de Samson Flexor na FIESP, além de grandes exposições de Arthur Bispo do Rosário e José Leonilson já não me lembro onde.

Eu caminhei pelas salas com quadros de Iberê Camargo em transe. E uma série de telas me trouxe lágrimas aos olhos, nunca me esqueci. Eram os seus “Ciclistas”. Uma delas tinha um título que era um poema em si, ‘Ciclistas no Parque da Redenção’. Aquilo era uma metáfora maravilhosa da vida, da existência de tudo! Éramos todos isso: Ciclistas no Parque da Redenção. Eu jurava que era uma metáfora. A metáfora que eu jurava ser metáfora (e é) acabou entrando num poema que dediquei a meu velho amigo e concidadão de república estudantil, Pablo Gonçalo, no meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005).

Pois esta manhã eu quase caio da cadeira em conversa com Melissa Dullius quando ela menciona o Parque da Redenção... que existe. Os ciclistas no Parque da Redenção eram ciclistas mesmo, no mui físico e localizável Parque da Redenção. Mas fazer o quê? No Brasil pode-se até pegar um ônibus da Consolação ao Paraíso.

A pêndulo, a represa

      “onde o sino triparte o maior desespero
                     ao som tríplice do teu nome.”
                                 — Christine Lavant

                        a Pablo Gonçalo

Entre o
anúncio do dilúvio e o
deserto vermelho,
nosso tempo e nosso peito;

entre o
temor e o terror,
o corredor estreito,
mas nossos pés são pequenos

“once human always an acrobat”

o fardo leve
e o jugo suave
dos ciclistas no parque da redenção:

a oeste do meio-dia
existir segue denotando
e pressupondo movimento

e o descanso é eterno
e condicional.

— Ricardo Domeneck, in Carta aos anfíbios (2005).


Vista aérea do Parque da Redenção em Porto Alegre, oficialmente Parque Farroupilha.

§

Notas:

1- “once human always an acrobat” é uma citação de Rosmarie Waldrop.
2- Leia o poema completo da austríaca Christine Lavant, do qual extraí a epígrafe,
na Modo de Usar & Co.

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