segunda-feira, 11 de maio de 2020

As pausas do meio-dia e da meia-noite



As pausas do meio-dia e da meia-noite

         a Frederico Nercessian

atado
ao topo desse mastro
na rota
entre Ítaca e o Atol
das Rocas

sinto-me o periscópio
de um submarino
como se o tronco
de que o mastro foi feito
fosse um metrônomo
ou rede que balouça
à beira de barrancos
e abismos

sigo atordoando
o peito
contra as ondas
nesse afogamento
que de tão lento
quiçá evolva
guelras
e barbatanas

inclino
a cabeça e o torso
para que minha espinha
dorsal
herdada de um peixe
ora retorne
a sua origem horizontal

como se estende
um tapete
para uma prece
a Meca
ou a Terra
inclina-se em eixo
de anuência ao sol

e se eu estiver perdido
entre Itaparica e Ítaca
ou entre Ártico e Antártica

não quero nem o chororô
das falsas-orcas
que erguem suas cabeças
sobre o espelho da água
e então submergem
para entoar seu réquiem

nem observar o êxtase
dos peixes-bois
que boiam no sorriso
constante duma alegria herbívora
e então emergem
para baforar seu samba-enredo

cansa-me a flor noturna do cacto
que manda carunchos ao solo
por uma única madrugada
cansa-me o campo de girassóis
que dançam com juba loira
no meio-dia do sol da meia-noite

quero contraste nos meus olhos
para a sombra que se desenha
entre luz e obstáculo
como num piquenique
no eclipse minguante
e na lua crescente

sim e sim
que em minhas gaiolas
só cantem os pássaros
que cantam
logo antes do crepúsculo
logo depois da alvorada

como ao mirarmos o sol em cheio
fechamos os olhos
e na escuridão da noite sem lua
os arregalamos

*

Berlim, abril/maio de 2020

.
.
.

sábado, 9 de maio de 2020

Do não-mistério da poesia

Algumas pessoas assumem ares misteriosos quando vão falar sobre poesia. Um certo dedo sacerdotal. Em geral, o trabalho do poeta é isso: trabalho. Adquire-se ao longo da vida uma técnica, aprende-se um truque de pônei. Ou dois, os mais sortudos. Porque os deuses, queridos, não amam igualmente. Você já deve ter percebido. Passa-se a vida se preparando para um texto que talvez não chegue. Porque o que chegou a sua cabeça uma jamanta antes do poema. Aquele que nos iludimos crendo que nos justificaria. Como diz com ar de muito cansaço naquela entrevista, “é tudo tão incerto”. É, dona Clarice.

Não me entendam mal. Não é que eu não ache que haja regiões misteriosas no trabalho poético. Mas estes são muito raros. São dádivas do duende. E o duende dá o que der, quando der, onde e se assim estiver disposto. Não adianta sintonizar a rádio nos anéis de Saturno. Não adianta estumar as musas com uma colher-de-pau. Não adianta usar estilingues para chamar a atenção dos anjos do senhor Rilke.

É que a raridade desses poemas jamais vai garantir o pão na mesa. E se precisa do pão na mesa. Então se trabalha. Pesquisa-se. Fazemos coleção de palavras. “Como se chama aquele bicho ali, em sons que ele próprio não entenderia?” Sim. Conhecer bem a fauna e a flora de sua região. Essas coisas que parecem quinquilharias para muita gente. Entender como são feitas as mais corriqueiras das coisas. Seu lençol. Você sabe como é feito seu lençol? Há milênios ali. E seu pão? Como é feito seu pão? Outros milênios, irmão.

Existe um texto de Carlos Drummond de Andrade sobre o aniversário de cinqüenta anos de Joaquim Cardozo, em que ele diz que 50 é uma boa idade para poetas. “O mel está apurado: Joaquim Cardozo completou cinquenta anos, boa idade para poetas”. Esse ano eu vou fazer 43, e estou começando a entender o que Drummondão quis dizer. Que aprendizagem longa! E queridos, se o que querem é holofote, escolheram a profissão errada. São ninharias. O mel do melhor.

A coisa é muito séria. O mais sério dos siricuticos. Nós fazemos as mais essenciais das bugigangas, queridos concidadãos. Veja por entre meus dedos como está assustado em minha mão um tico-tico. Como explicar que às vezes o mais essencial pode parecer completamente supérfluo?

Há pouco, morreu um poeta no país, sim, um poeta que escreveu: “Acreditar na existência dourada do sol / Mesmo que em plena boca / Nos bata o açoite contínuo da noite”. Não haverá prece mais apta no meio do inferno.

Com que voz cantam? Canta-se ainda no Brasil? Porque, como disse sucintamente a senhora Orides Fontela num poema intitulado “Exemplos”, sempre muito sucinta: “Platão / fixando as formas // Heráclito / cultuando o fogo // Sócrates / fiel ao seu daimon.”

.
.
.

domingo, 25 de agosto de 2019

Witzel e os pangarés do apocalipse




Houve
Joaquim Pedro de Andrade?
Houve.

Houve
Alfredo da Rocha Vianna?
Houve.

Houve
Antônio Carlos Jobim?
Houve.

Houve
Angenor de Oliveira?
Houve.

Houve
Vinicius de Moraes?
Houve.

Houve
Machado de Assis?
Houve.

Houve
Heitor Villa-Lobos?
Houve.

Houve
Antônio Candeia?
Houve.

Houve
Cecília Meireles?
Houve.

Houve
Dolores Duran?
Houve.

Houve
Zózimo Bulbul?
Houve.

Houve
Lima Barreto?
Houve.

Houve
Clara Nunes?
Houve.

Houve
Lygia Pape?
Houve.

Houve
Márcia X?
Houve.

Etcétera.
Contudo,

há esse,
o esse

Witzel,

o ovo
choco

do frio
da Candelária,

do calor
do ônibus 174.

Desse pasmo
falso,

desse fracasso,
nasça algo.

*



A república refém, num ônibus sobre ponte de concreto, sob ameaça de ser carbonizada. Do norte, chove cinza. A república - também - executada ao vivo. A república - a mesma - que aperta o gatilho. Uma tragédia só. Não há vitória. Há uma derrota mitigada. Nós somos um fracasso com atenuantes.

Matamos. Morremos. Nos salvamos. A legítima defesa. O alívio e o velório. O bom horror. Não, “enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos”, como escreveu Clarice Lispector sobre Mineirinho.

A gasolina real. A arma de brinquedo. O governador descendo de helicóptero como num pangaré do apocalipse. Fomos salvos. Fomos mortos.

“Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça.” (CL)

*



‪Senhora entre os reféns:

___ “Precisamos acolher a mãe desse menino.”

acerca de Willian Augusto da Silva, que sequestrou o ônibus, e foi morto.

‪Parente do rapaz:

___ “Ainda bem que só a nossa família está chorando hoje.”‬

‪Como no poema de Borges: ‬essas duas pessoas, sem saber, estão salvando a República. Estão salvando o mundo.

.
.
.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Carta a André Capilé no fuzuê de um toró




Nessa cambada,
que parentesco fora do sangue
nos une, songos

que somos nessa terra grande
das mil zangas?
Zune ao redor o grão-muxoxo

de marimbondos,
enquanto nos emperiquitamos
nessa vida-a-jiló,

nossa pobreza nas quitandas,
nós, uns moleques.
Curingas em preto-e-branco.

E algum antepassado
meu terá ferido ancestral teu,
pele, couro e pelouro?

Bagunça o cochilo essa ideia,
me sinto qual titica
a pensar em crimes que herdei.

Ou jamais hemos nós
de saber em que parte da carne
carregamos o algoz?

O algoz-pai que agua
a nossa tinta, o dendê na ginga?
Dóem pés-na-bunda,

chafurdar qual minhoca na farofa
da dor nacional.
Doar nosso fubá, nossa canjica,

as babas do quiabo nas bibocas.
Nenhum cafuné
exigimos de cidadãos, só aluguel

para o cafofo pago, paz na roça.
O abuso da cachaça,
já sabemos, é culpa toda nossa.

Seguimos. Ninamos
traumas como a filhos que um dia
enfim se emancipem.

Examinamos sem dedo e aliança
o campo comum
da batalha, maxixe do cangaço.

Por ti às vezes me candomblo,
macotas no toró
de línguas-fantasma sem plural.

Nesse nosso dengue anti-capanga,
capenga, o samba nosso.
Parentes, até o beleléu, sem igual.

*

Berlim, 02 de agosto de 2019. Retrato de André Capilé por Vinicius Vargas.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

“Carta à mais caçula [para ser lida por Maria Eduarda Domeneck Ramos quando chegar a hora]”




Chegada nessa gravidez tardia
da irmã caçula a esse rodízio de caçulas,
na casa onde já tombaram
a goiabeira, o coqueiro e o pé-de-acerola,
donde não mais se ouve
nem o bem-te-vi nem o fogo-apagou
e mesmo alguns humanos
jazem já no Cemitério São João Batista
da Paróquia de São João Batista
para a qual teu avô leiloou tantas leitoas,
bem-vinda a esse planeta delicioso e terrível,
bebezinha qual matriosca às avessas,
na qual a versão menor esconde a maior,
tendo já em si a mulher fortíssima que serás
pois assim foram tua bisavó, tua avó e tua mãe.

Não conhecerás alguns de nós,
a Dona Rosária das cidreiras e pirões,
a Dona Concheta da romãzeira e hortelã,
tampouco Seu João, o Garganta de Ouro.
Mesmo assim, bem-vinda à família penhorada.
Há muitos de nós ainda
para tentar te defender dos tropeços
que nós mesmos demos,
conselhos que por certo ignorarás
como ignoramos os que nos foram dados.

Aqui aprenderás entre as milhares de línguas
do planeta uma única língua específica
com as intonações particulares
desse país, região, comarca e casa
das terras da Vila de São Sebastião do Bebedor
cuja gleba foi paga a prestações de porcos
e a última com um cavalo de sela arriada,
onde temos dificuldade com plurais e pronomes
pois em nós mesmos jaz uma língua-fantasma.
Dou-te o primeiro conselho,
que só um Domeneck entenderá:
Não adianta ser uma boca-de-Leandro
nessa viagem Rua Campos Salles abaixo.
Há que se lutar e amar com o miocárdio
que nos foi dado. Este que te bate.

Nesse fim-de-mundo-grande sem porteiras
começarás a aprender certas coisas
importantes para a universalidade nacional
como a maneira com que cai a renda
das famílias conforme se distancia a rua
de suas casas do Lago de Bebedouro,
e como, apesar de bonita como um parque,
te será proibido entrar na Chácara Furquim
porque é propriedade privada
assim como não poderás colher laranja alguma
dos laranjais imensos que circundarão tua infância.
Ao Horto Florestal, serás avisada
nunca ir sozinha por ser menina, por ser mulher.
Desses perigos saberás a tempo.

Mas há prazeres de graça. Verás.
Tem o bumba-meu-boi e o circuladô-de-fulô,
o carnaval e a procissão e a eleição,
a chuva e o toró, tem as canções de fossa
para as paixonites agudas.
As dores de amor gostoso virão com o exército
de cigarras-do-cafeeiro que já nem sei
se ainda infernizam as primaveras.
Muita coisa já sumiu, escafedeu-se.

Tem os doces açucaradíssimos
pois se moveu por séculos o açúcar a colônia
por que não abusarmos dele hoje?
Muito sangue derramado por café e açúcar
corre agora em teu sangue adocicado
e verás em casa como o açúcar do café
ferve-se junto já de sua água.
Tem a Nossa Senhora negra e a Iemanjá branca
e mesmo teu avô, católico apostólico romano,
não deixava de fazer suas oferendas ao mar
depois de rezar seu terço.
Mas é possível que parte da família te alerte
sobre a interdição de imagens de barro.
E o mar é longe, mas tem dezembro. Tem janeiro.
Janeira-se muito por aqui,
como janeiraste em pleno julho.

Teu avô nasceu sob Getúlio Vargas.
Tua mãe e eu, teu tio, sob Ernesto Geisel.
Um dia aprenderás estes nomes.
Eles agora não te importam
como o leite e o colo.
Estes nomes são apenas as cólicas do futuro.
Por ora deixe conosco as dores de agora.
Cuide cicatrizar na barriga o cordão-umbilical
que secará e será enterrado no quintal.
Esta será tua primeira cicatriz.
Te desejo que teu tempo te seja mais leve
do que nos foi o nosso, e em meio
a alegria muita e alergia nenhuma
cresças para descobrir
as delícias-desgraças de tua terra,
as desgraças-delícias de sermos o que somos.

*

Berlim, 25 a 28 de julho de 2019

.
.
.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

HOMENAGEM JOANINA


João Cabral de Melo Neto & João Gilberto


um dia dirão:‬
‪houve joões
‪nesse inferno
‪de tabeliães,
‪cabral e gilberto,
‪a cantar chãs
‪com a elegância ‬
dos pães.

anti-supérfluos
deram a lição:
‪antes ser cães ‬
‪ágeis a leões
de dó e dengo.
‪eis o alerta‬
‪contra o joio
e os rojões.

menos pedras
do que tijolos,
disseram:
amem o silêncio
mas não em excesso,
pois nos corpos
nua é a voz,
o barro de joões.

pau seco, bossa.
brio de candeia.
garbo de cartola.
do aleijado destro,
um útero-igreja
em ouro preto.
a pedra-pomes
à pele morta.

dos cadivéus,
a redoma de ocas.
chega! abaixo
os panteões.
filhos somos
de corujas-diabos,
urubus-reis,
gaviões-caboclos.

nada fomos
além ou aquém
do que somos:
micos de ouro
e não leões,
mas nos quais mora
a força de onças.
bicos de falcões.

*

7 de julho de 2019

.
.
.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Francisco Bley & Ricardo Domeneck - "Os afazeres" (vídeo de Frederico Klumb)

Com Francisco Bley no estúdio Mylo em Curitiba, janeiro de 2019

‘Os afazeres’ é uma colaboração que nasceu em 2018 quando conheci o compositor curitibano Francisco Bley em minha passagem pela capital paranaense. Bley, que já trabalhou em peças sonoras de poesia falada com poetas como Elisa Lucinda, compôs e propôs essa bela peça eletroacústica ao piano com sons processados, à qual decidi unir com minha voz o poema “Os afazeres domésticos”. Retornei a Curitiba em janeiro de 2019 e gravamos o texto no estúdio Mylo. Com a peça pronta, convidamos o carioca Frederico Klumb para a composição visual que acompanharia a colaboração, e estamos muito felizes de poder mostrar agora essa tríade entre música, texto e imagens. No entanto, trata-se de uma colaboração ainda maior: montada a partir de imagens de arquivos familiares, precisamos agradecer a todos os amigos e colegas que atenderam ao chamado e nos enviaram fotografias de suas infâncias em vários cantos do país. A estas imagens, Frederico uniu outras do arquivo histórico do país. E assim, aqui estão os afazeres. 


 –– Ricardo Domeneck, junho de 2019





Os afazeres domésticos
Ricardo Domeneck


           “Há-de nascer de novo o micondó —
            belo, imperfeito, no centro do quintal.”
                         –– Conceição Lima


É o nosso trabalho dizer agora que hão-de
renascer o capim-cidreira, o boldo e a hortelã
para os rins, os fígados, os intestinos da família
morta já pela metade, ainda que se espargira sal
sobre a terra dos quintais tomados pelo agiota,
e o dizer em ritmo propício à canção de ninar.

E que as mãos da vó quebrarão o pescoço
dos frangos caseiros para o pirão, que há-de
alimentar por dias as mulheres de resguardo
que ao dar à luz indenizaram a família por velórios,
mesmo que daquelas rugas restem só carpos
e metacarpos brancos de cálcio no jazigo do clã.

E que o vô morto voltará em sonho para ralhar
até a bandeira nacional mudar de cor
com estes desnaturados que não se cansam
de dar desgosto a seus antepassados
que cruzaram oceano não só para a desgraça
trocar de passaporte e vegetação ao fundo.

E é nosso trabalho dizer que os avós sequestrados
d’além mar hão-de alforriar-se em nossos corpos
e que os antepassados deste lado do Atlântico
hão-de reaver seus quinhões de terra preta,
e juntos, entre a hortelã, o boldo e o capim-cidreira,
de mão em mão as xícaras da saúde que nos elide.

.
.
.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

A meditation on the dimensions of our corporeality through David Schiesser's work



German artist David Schiesser and one of his murals
(photo by Yannic Poepperling)

One could possibly tell the history of our species and its relationship to the world, their reality, our reality, through a narrative accounting for the expansion of dimensions. Eyes on the horizon, three-dimensional preys and predators running, the hunt. The birth of symbolic thought on bidimensional drawings on charcoal and ochre, composed within that elusive dimension, time. But there, in the dark of caves, our most basic notions of art and reality were set in stone. Our vocabulary may have expanded, but we are still on those walls, running among aurochs and other animals, some already extinct. 

Yes, since then, string theory has postulated the existence of at least 7 more dimensions, most of them beyond our perception. Because they were not needed for our survival, our evolution? Or are they perceived in some other way, mysterious, yet palpable? Three dimensions for five senses. Length, width, and height. And time, time, the elusive fourth which causes so much transformation in the length, width and height of our own bodies. Sight, vision. Hearing, audition. Taste, gustation. Smell, olfaction. And touch, somatosensation. Does time not wear these senses out? Do you see what I mean? Our vocabulary expands. Or should I say, do you hear me, as you touch this page? These are our sensory modalities. And are these not senses then, our perceptions of temperature (thermoception), movement (proprioception), pain (nociception), balance (equilibrioception) and vibration (mechanoreception)? Some go as far as to include internal sensations, such as our senses of hunger and thirst, in our list of tools towards conceiving the world.



But we are still on those cave walls, eyes scanning the horizon for meat. Scanning the street for the arrival of the body of the beloved. There must be an integral pleasure in being a human and drawing. We keep on counting. 1, 2, 3. This dimensional game comes into play in our bodies themselves, on which the largest organ strikes us as bidimensional: our skin. And yet it covers our length, width, and height. In some cultures, it can be stretched into bidimensionality, as in Japan's black market for tattooed human skin. It is this dimensionality that seems to be in constant operation in David Schiesser’s work, from our oldest practices with charcoal to the latest programs in photography. This operation of length, width, and height translating themselves into lines drawn on a canvas, or on the skin of humans who offer their four-dimensionality for David Schiesser's drawings, his work as a tattoo artist on bodies that will be ravaged by time.



In Peter Greenaway's film 'The Pillow Book' (1996), the writer Nagiko, played by Vivian Wu, says: “The smell of white paper is like the scent of skin of a new lover who has just paid a surprise visit out of a rainy garden. And the black ink is like lacquered hair. And the quill? Well, the quill is like that instrument of pleasure whose purpose is never in doubt but whose surprising efficiency one always, always forgets.” The film references Sei Shonagon's classic diary 'The Pillow Book' [ 枕草子 Makura no Sōshi ], completed in the year 1002, in which she lists among unsuitable things, “Ugly handwriting on red paper”, because there is an erotica of lines on planes, an erotica of drawing. It is our engagement with the world.

In his treatise on the Vampyroteuthis infernalis, comparing the evolution of vampire squids and humans, Vilém Flusser writers: “We have been exiled to the surfaces of the continents. There we have managed to walk upright – to erect ourselves – and now we loom into the third dimension, into space (heavenward, if you will). It [the vampire squid] has been exiled into the depths. There it has managed to erect itself and now it touches the seabed like an open palm. In so doing, its palm is analogous to ours, but it is not concerned simply with feeling the third dimension, as we are, but rather with feeling multidimensionality.”




As humans, arrested in our three dimensions (plus time, time the elusive), we may all be as in the tale of the blind men describing an elephant through just one sense. It could that art is this attempt: to reach the unperceived realities of string theory through our lacking senses. But even in our industrial design, objects try to shape themselves to serve our bodies, as I seem to infer from David Schiesser's collection of chairs in which his practices attempt to morph into one: the drawing, the tattooing, the skin and the canvas. Our relationship to the world of lines and planes is here, in a body that calculates the heights, lengths and widths so as to climb a staircase safely. The folding of lines and planes of a body that sits down. And if we have brought evolution into this, it is clear why the various species of flatfish seem to obsess Mr. Schiesser. The flatfish that has cheated the cage of three dimensions for safety and survival.




Let me close this attempt at a meditation. Writers are often summoned to make sense of the work of visual artists, though we do not share in the proceeds of this sense-making process. I could have saved your time by simply stating: the pleasure I derive from David Schiesser's work is first of all immediate, direct, and wholly available to my primitive senses already ravaged by time. If I were to attempt a list of pleasurable things, in the style of Sei Shonagon, I would included David Schiesser's lines on planes, yes, that abstract two-dimensional surface with indeterminate width and length, zero thickness and zero curvature, on the curvature of my thick eyes.



Ricardo Domeneck
Berlin, March 15th –– 21st, 2019

(Written originally for David Schiesser's solo exhibition
Die 3 Achsen unserer Leiblichkeit
at Blake and Vargas in Berlin)




.
.
.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

NOSSO DESNATURADO HABITAT


Somos assim, bichos
na primavera dos polos
opostos da Terra,
nos climas inclementes
cortejamos o desastre,
convidamos extremos,
amadores em toda arte,
qual urso polar no Saara
ou no Pantanal, camelo.
Pobres, mendicantes,
excedemo-nos na pechincha
com cupidos, bichos-preguiça
a implorar misericórdia
entre os dentes da onça.
É esse constante desequilíbrio,
desencaixe entre o parafuso
e a arruela e a porca,
porque na sede tamanha
levamos à boca a concha
pelante de quente da sopa.
Somos uns glutões, glutões.
É esse o desconforto de velhos
que insistem na roupa
dos tempos de adolescência,
é uma convalescença longa.
Só torcemos pelo empate,
querido co-bobo da corte,
mas herdamos encalhe,
descarrilamento, disparate,
somos assim, uns pinguins
apaixonados por porcos.
Eu te olho, reolho, desolho
e peço apenas que pingues
tuas proteínas nos meus poros,
faças uma poça no meu umbigo
para que dela me alimente
como no gelo extremo focas
cavam buracos para a fuga
de sua gordura inocente,
e para oxigênio, as belugas.


§

Berlim, 13 de junho de 2019

.
.
.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

"Frangalhos de um discurso, amoreco" ou "A paixonite segundo R.D."


Nan Goldin - "Empty Beds, Boston," 1979

Neste Dia dos Namorados no Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2019, para os que os têm e os que não os têm, seguem abaixo poemas de minha lírica amorosa, extraídos de nove livros, da minha estreia – Carta aos anfíbios (2005) – ao mais recente – Odes a Maximin (2018). É a atualização de uma postagem de 2010. Incluí também dois poemas de um livro inédito, intitulado O sol ao meio-dia e meia.


O pão partido

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.


[de Carta aos anfíbios, 2005]

§

A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça

1.

esta perturbação inicial, garfo
que não encaixa na boca
e a comida cai, num prato
assustado; o copo
d’água vai de encontro
ao dente. A garganta
estende as palmas
de vontade.

2.

O algodão úmido
na testa eriça-me
o quebranto; o soluço
acelera o ritmo.

Visto o casaco alheio
e me perco no cheiro,
um instante,
um instante.

O flagrante
do dono
perturba-me
o sono.

3.

Timidez
de pés

em casa
estranha,

que ao
ensaio

da distribuição nova
do peso descobrem

a levitação.

4.

O chão é um convite
recorrente, constante; algo em nós espera
o reencontro. Até que o vento.


[de Carta aos anfíbios, 2005]

§

digo ao telefone
meu nome querendo
dizer sou eu
no tom
de voz de quem
diz estou chegando
na escala de dentição
da intimidade
e ele interroga
quem querendo
dizer apenas você
como quem
questiona qual
o seu direito
em ter um
nome ambos
comércio e
sexo sua
ofegância repetitiva
prometem a mecânica
a cruzar o divisor
que separa o conhecimento
dos objetos
prováveis antes
do sono
prega etiquetas nas
coisas cama
na cama criado
-mudo no criado-mudo
amante no amante
ausente


[de a cadela sem Logos, 2007]

§

em minha boca ele
alcança o meio-dia
mas a intermitência o
apreende como em
qualquer música
cúmplice do acaso a
pessoa começa a
afastar-se desde que
se aproxima a distância
existe entre pele e
pele cada imagem
dobrando a esquina
não configura
sua chegada
ele
só chega quando seu
corpo chega carregado
pelas próprias pernas
e jamais falha que
eu o reconheça
de imediato
como dono de
certos lábios voz
nome e um modo
de apresentar-se
ele
chega o mundo
assume uma nova
forma: a do
equilíbrio precário do
mundo


[de a cadela sem Logos, 2007]

§

Autorretrato para agência de acasalamento

a-
pós
a noite
em claro com
Antonioni / Plath / Radiohead
você pergunta-me
pela vida humorosa?
(cf. O. de A.)
autodevastar-se
a única
art we master,
só nos entendendo
via subtração,
nossos encontros
fantásticos!, cavalheiros,
como anseio
por ele
que piora tudo;
horas
para arrumar-se
e no fim
estes trapos?
ornam,
combinam,
caem
tão bem;
aguardo o dia
em que tudo
o que disser-me
o ventríloquo
seja a citação
de alguém algures,
como desaparecer
completamente;
nosso amor durou
quinze hematomas
e a incubação
da escabiose,
minha herança!;
quando acordei,
cada coisa em seu
lugar onde
eu, eu, eu
deixara;
ah! amar é
inter-
ferir,
salvar
se de si


[de Sons: Arranjo: Garganta, 2009]

§

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais do que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.


[de Cigarros na cama, 2011]

§

Os amigos sugerem passatempos
e festas, acquaintance com anatomias
inéditas, corpos novos. Como? Quem
se compara aos seus côncavos
e convexos?
Por ora, moço,
você ainda defeca
ouro.


[de Cigarros na cama, 2011]

§

Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos

a Jannis Birsner

Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Pinguins, ao redor do mundo,
e porcos,
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.


[de Ciclo do amante substituível, 2012]

§

As canções como álibis

A culpa não
é minha, querido. O mau
exemplo foi de Maysa,
quase lançando-se, Brasília
azul e tudo, da Rio
-Niterói abaixo.
Por tanto,
esta minha falta
de pose,
esta minha recusa
a respeitar mãos
únicas, a gravidade.

Tenho meus álibis, moço.
Que esperava, se Ângela
Rô Rô
tampouco me ensinou
a aceitar o horror
do copo só, testa
contra o balcão, prática
da primeira pessoa
do singular?

Que você atire
a primeira
pedra, Dolores
Duran. Curta
é sempre a vida
quando se habita
a letra
da fossa, ou se fala
com a língua no oco
a língua do sim.

Carpe diem,
diziam os árcades,
hoje nem reconhecíveis
por suas arcadas
dentárias.
Prefiro carpir ou cuspir
meus dentes
a deixar de chocá-los
com os seus.

Moço, quisera fôssemos
como dois corpos
de água,
a que basta
um toque
para que se tornem
o único e o mesmo.
Você gargalha
enquanto pesquiso
em sua glote
o dicionário
do riso
e eu aguardo sua voz
para guardá-la num cofre
forte como uma noz.


[de Ciclo do amante substituível, 2012]

§

Receita de estropício ao molho caipira

Eu me encolho, enfolho feito alcachofra
se a tua boca não lambe o abracadabra.
De novo manhãs de toró que açucaravas,
abrir tão-só minha braguilha é monótono,
vem, já me cansei das mil e uma moitas.
Ando de banda, todo aguado, borocoxô
nesse meu baião-de-um, essa gororoba
sem sal, a minha vidinha tão mequetrefe
quando me esculhambas, negas cafuné.
Eu sou uma bugiganga jogada às traças,
um zé-ninguém nesse angu de caroço,
chulo, sem o teu dendê, bobó de bobo.
Prometo, querido, tirar baba do quiabo,
proteger as osgas, aguar samambaias.
Volta logo, bate à porta, já gora o ovo.


[de Medir com a próprias mãos a febre, 2015]

§

Texto em que o poeta dispara sua última torrente de elogios, neste que oxalá seja o último poema para O Moço

Cavalinho de desequilíbrio, geringonça desastrada,
espargidor no meu carpete dos cafés sucessivos,
peixe de lago constante, camundongo do mato,
coisa alta, ninfo palidíssimo para novos poetas
decadentes, filhote albino de tigre, loa de sertã,
guia da trilha ao descampado de meu bosque,
enguia-de-muco, alface-de-cão, dente-de-leão,
insistência heróica na busca dos sobreviventes
de mim, aquele que transporta o meu cale-se,
arquivista de minhas enumerações caóticas,
com esta minha cachoeirinha de atributos
ao teu tórax e cóccix, eu juro que juro
que esta é a última vez que te canto.


[de Medir com a próprias mãos a febre, 2015]

§

Maximin, o servo e a princesa abássida

"Eu contive o nome do meu amor       e o repetia sozinha, calada.
Como anseio por espaços abertos     onde o possa ouvir gritado."
--- ‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825), poeta e princesa do Califado Abássida.


Escondo de todos teu nome, Maximin,
tal qual ‘Ulayya bint al-Mahdī, proibida
de sequer dizer o nome de Ṭall, o khādim
que amava, silenciou do al-Baqarah
numa leitura o versículo que continha
a palavra. Ṭall, que é também orvalho.
Onde estará agora o generoso califa
que ao ouvir sobre tal zelo de beata
profana, comoveu-se de seu embargo
e a ‘Ulayya doou seu amado khādim?
Quem há-de me conceder meu Maximin
por esta minha concupiscência calada,
mas, em permuta, fazendo de mim
servo, de Maximin príncipe abássida?


[de Odes a Maximin, 2018]

§

Maximin nosso que estás na terra

Quantas vezes pedi a orixás e santos,
Maximin, fazer de mim todo ânus
quando de pé te vejo, ou em decúbito
seja ventral ou dorsal, ventríloquo
que és do teu pau. O teu corpo todo
é só chão sob obelisco, do chuço
madeira que apoia a ponta-de-lança,
em oito quinas tu me fazes cubo.
Quisera em teu tanquinho ralar a pança.
Que o guindaste erga-se! Eu flutuo.
Não sou eu só invólucro de um cu
e boca? Entra. Que jamais descanses.
Não espano, porca do teu parafuso.
Maximin, cruza enfim o Arco do Triunfo!


[de Odes a Maximin, 2018]

.
.
.


Arquivo do blog