Não tive a oportunidade de conhecer o poeta Leonardo Martinelli pessoalmente. Trocamos muitas mensagens eletrônicas, discutimos poesia, a alheia e a nossa, trocamos poemas, comentamos o trabalho do outro. Acreditava que seria um dos encontros bonitos quando finalmente passasse pelo Brasil mais uma vez. A notícia de sua morte, este fim-de-semana no Rio de Janeiro, deixou-me bastante triste. Martinelli foi uma das pessoas que me trataram com gigantesca generosidade, desde que publiquei meu primeiro livro. Considerava-o um amigo, companheiro, aliado, colaborador, cúmplice. Termino esta nota, muito triste, com um de seus poemas, talvez meu favorito entre os que escreveu antes de desaparecer.
Receitas para engolir e curar o fracasso
Origem, compra, preparo e sabor
1. Ave sertaneja
de porte médio
fibrosa, rija
de vida noturna
Preços: vinte e
sete contos o quilo
no Mercadão de
Madureira ou
trinta e sete
(ágio de dez paus)
nos açougues febris
da rede Mundial
O jeito é pegar
um 254 na madruga
ou encarar de frente
o trem da Central
2. Embrulhe o fracasso
com jornal de ontem
3. Afogue duas postas numa
panela de barro contendo
dois litros de vinho barato
Salgue e asse
em fogo alto
Enfeite o prato
com uma dúzia de
amóreas secas + 100 g
de fios de óvulos
4. Aí vai ele
numa baixela dourada
ridícula - duas
palavras
em francês fajuto
farão sorrir amarelo
o rapaz de
meia-idade e enrubescer
as bochechas
gentis suburbanas
à mesa
Rende
para uma duas três
mil pessoas
Posologia
Uma vez
hiperdosada
vai-se a bula ao
mar de bile
--- poema de Leonardo Martinelli (1971 - 2008)
Fé, Ricardo.
ResponderExcluirbjs nora
Interessante, mas não dá para engolir.
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