sábado, 24 de setembro de 2011
Especial lisboeta para a série d´Os poemas que continuam salvando minha vida: "De profundis amamus", de Mário Cesariny
Em Lisboa pela primeira vez, caminhando da Alfama à Graça, desta ao Chiado, a Baixa e o Bairro Alto, a luz intensa desta cidade atordoando meus olhos acostumados há anos com o chiaroscuro frequente do Berlimbo, no peito um só nome e na cabeça, para aliviar o engarrafamento nos alvéolos, um poema do mestre Cesariny.
De profundis amamus
Mário Cesariny
Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
.
.
.

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