Vida longa à poesia pura
Escuta aqui, nós, poetas aguados,
caminhamos hoje
por entre plantas de nomes
mui bem catalogados,
mas os quais desconhecemos,
e assim confundimos muito
bem-me-queres e amores-dos-homens,
chamamos de taráxaco a calêndula,
e colhemos com frequência
a amargosa por malmequer.
Eu, por mim, preferiria
saber distinguir entre a hortelã
e a cidreira, esta e a camomila,
para salvar-me de ressacas quiçá
vindo de buracos e valas malsãs,
onde meninos esguios, longilíneos
feito enguias, seguram os limões
nada luminosos
de uma ex-caipirinha ou tequila.
Eis aqui minha ação
de graças,
poetas laureados, queridos
antepassados cosmopolitas
do último século,
vossa pureza de linguagem
salvou-nos
desses incômodos detalhes,
chegamos enfim ao universal,
e sabiá, busardo ou melro,
cantamos agora
apenas o pássaro
abstrato no galho
de uma árvore
que não sabemos nomear.
.
.
.
whole lotta love. apesar de estar numa fase coentro.
ResponderExcluirAssim vc me esculhamba, seu Ricardo, eheheheh Eu sou um poeta da "poèsie pure", brincadeira. Eu adoro a poesia pura de um Jorge Guillén, mas captei conteúdo-msg-e-forma. Este seu poema é uma "ars poetica", e muito bom!!! Uma provocação ou constatação, não sei: há um elemento (lado) de sua "militância" est-É-tica que se coaduna com o encontrado na poesia pura: a função espiritual, o pão para ao espírito alimentando o leitor, que se agarra ao poema e "salva-se", sua série aqui no blog Poemas que continuam salvando minha vida, seria um exemplo disso. Por sinal, adoro essa série. É um tema que desejo ainda desenvolver, apenas o constatei aqui.Se ainda estiver em Portugal beba um bagacinho por mim.
ResponderExcluirBeijos,
cara, que poema! bateu na veia.
ResponderExcluirPara mim é, de longe, a melhor poesia escrita (que li) deste século...
ResponderExcluirMárcio
cheguei aqui no seu blog através do blog da angélica freitas.
ResponderExcluirsurpreendido com seus poemas, parabéns.
abraço.
ric, te fode.
ResponderExcluirObrigada, Márcio. É bom respirar certos ares.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQueridos,
ResponderExcluiragradeço as palavras, os elogios exagerados, e, principalmente, a leitura pura e simples.
Lembro aos amigos que eu próprio já esposei veleidades de "poésie pure", pratiquei-a canhestramente, basta ler a primeira parte do meu livro "Carta aos anfíbios". Deixo-os com um exemplo, poeminha de que gosto muitinho ainda.
Os materiais, a lição: cinco variações
I.
pés úmidos em terra seca:
montar um cavalo morto
enregela-nos o movimento.
(beijo ao caminho, à poeira)
o fértil
revolve os olhos
e mal contém-se
em coice:
pata impressa
em ervas.
II.
conglomerado sem esforço,
o corpo reunido vinga-se
do ar, dispersão contínua.
(e despenca-me em chuva)
o úmido
opõe ao vento
o núcleo
do seu aposento:
o corpo persevera
no extenso.
III.
escalar-se em chamas,
deitar no próprio corpo
como na última cama.
(prefiro o consumo do outro)
nosso palpável
peito unido
lambe o milagre
da carne única:
a trindade
opera-se grávida.
IV.
fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.
(o líquido modela o copo)
o sangue
procura deter-se
num trecho de pele
um instante:
toque do anátema,
farol, ex-amante.
V.
consciência purgada na falta
que ama: enfim, só se é cauto
em sins de olhos fechados.
(fé do absurdo no obstáculo)
o cavaleiro
executa
no escuro
o movimento.
sem aposta de páscoa:
um cavalo, um moinho, um vento.