sábado, 17 de dezembro de 2016
Passar a cada copo pela imigração, uma alfândega
“Vamos voltar para a água."
Murilo Mendes
a Guilherme Gontijo Flores
A cada copo d'água
que ergo à boca
herdada de peixes,
saúdo o oceano
que deixei no período
chamado Siluriano
para colonizar a terra,
colonos nós todos,
cada um, um imigrante,
há mais de quatrocentos
milhões de anos
obrigados várias vezes
ao dia a portar e mostrar
nosso passaporte verdadeiro
aos agentes
de imigração e alfândega
da secura da terra:
este copo d'água
que ergo
à boca de peixe
herdada,
esse traço genético
de cidadania e parentesco
a antepassados
hoje fósseis
em museus de geologia,
um copo d'água várias
vezes ao dia, a cada dia
por mais de quatrocentos
milhões de anos longe
do oceano, a cada
copo d'água
a lembrança
de ser estrangeiro
sobre qualquer terra,
há quatrocentos milhões
de anos incapaz
de naturalizar-me
em qualquer país
feito só de terra,
impedido de abandonar
de vez a água,
um estrangeiro há
quatrocentos milhões
de anos, a cada copo
d'água a certeza
de ser impossível escapar
do país primeiro,
o oceano,
que saúdo outra vez,
agora,
com este copo d'água,
meu passaporte,
chegando a minha boca
herdada de um peixe.
Berlim, 10 de dezembro de 2016.
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