sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Hoje estreia em São Paulo a peça "¡Salta!", colaboração entre Verônica Veloso e Veronica Stigger.


Verônica Veloso, diretora do Coletivo Teatro Dodecafônico

Hoje estreia em São Paulo a peça ¡Salta!, com direção de Verônica Veloso e texto de Veronica Stigger, a partir dos filmes de Lucrecia Martel. O trabalho colaborativo é marca do Coletivo Teatro Dodecafônico, fundado pela diretora goiana residente em São Paulo. O figurino é de Jorge Wakabara. Recomendo a vocês com todas as forças dos meus dedos, sendo Verônica Veloso e Veronica Stigger duas das artistas de minha geração por quem mais nutro respeito e admiração crescentes.

¡Salta! 
Sesc Santo Amaro
Rua Amador Bueno, 505 – Santo Amaro
Tel.: (11) 5541-4000
Sexta às 20h; sábado e domingo às 19h
Espetáculo não recomendado para menores de 16 anos
Em cartaz até 17/2/2013


Veronica Stigger

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

(Re)Descobrindo Maria Ângela Alvim (1926 -1959)


Maria Ângela Alvim (1926 - 1959)

Ai, cânone maldito, que nos esconde belezuras de tal clareza logopaica como estas, de Maria Ângela Alvim (1926 - 1959):

DOIS POEMAS DE MARIA ÂNGELA ALVIM

Moro em mim? No meu destino, largado
partido em mil?
Moro aqui? Demoraria
sempre aqui, sem me saber - fugindo sempre
estaria?
Eis um lugar. Degredo
(de quê?). Dimensão se perseguindo
num sonho? - Sim, que me acordo.
Tudo existe circunstante
e ninguém para me crer.
Sou eu o sonho,
momento da ausência alheia (que devasso quase fria).
Morte, vida recente,
subindo em mim a resina,
ungüento de noite, amor.

As sombras e seus véus,
tantos véus - o mais sucinto
preso a meu corpo (aparente?)
me divide em dois recintos.
Um deles sendo equilíbrio
noutro posso me conter.
Avanço no sono aberto
até a altura do dia,
fria, fria,
mais fria, minha pele
filtra a aurora - neste tempo
aquela hora, seu pulso de instante e ocaso.

Eis que me encontro. Limite
de transparência e contato
entre a luz e meu retrato, na casta
parede - a louca?
Marulho d'água, caindo
dentro de mim, claridade.
Graça de mãos mais presentes,
que minhas mãos, já vazias
de sua forma, na palma.
Que gesto extenso as reteve
sempre além, configuradas?

E este azul, quase em branco
se desfazendo (na carne?).
Ah! Três retinas cortadas
de um prisma, se amanhecidas
nestes vidros, na vigília.
Ah! Três retinas pousadas
em ver, em ver contemplando
(ser, será o esquecimento
de quanto somos - pensando?).

§

Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).

Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).

Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.

Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.

Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.

Maria Ângela Alvim, in Toda Poesia (org. Max de Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002).

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domingo, 13 de janeiro de 2013

Nota sobre a revista "Gratuita", de Portugal




Chegou às minhas mãos esta semana, gentilmente enviado pela poeta brasileira Júlia de Carvalho Hansen, um exemplar do primeiro número da revista Gratuita (Lisboa: Chão da Feira, 2012) Dedicado ao gênero epistolar, o volume traz cartas entre Furio Jesi e Károly Kerényi, Antonin Artaud e Jacques Rivière, Maria Gabriela Llansol e Eduardo Prado Coelho, a Quarta das "Cartas de um retornado", de Hugo von Hoffmannsthal, assim como poemas inéditos de Laura Erber, Luca Argel, Érica Zíngano e Ana Martins Marques, traduções inéditas para poemas de W.G. Sebald, uma entrevista com Giorgio Agamben, além de várias outras preciosidades. Fiquei particularmente interessado na correspondência entre Pier Paolo Pasolini, Francesco Leonetti e Roberto Roversi, em que discutem a fundação da revista Officina, editada por eles  na década de 50. Quem tiver a oportunidade de conseguir um exemplar, deve fazê-lo. Recomendo-a vivamente.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nota pessoal sobre o Prêmio Alphonsus de Guimaraens 2012, da Fundação Biblioteca Nacional.

Deixo registrado aqui meu desacordo com a falta de temperança com que se está conduzindo a discussão sobre o Prêmio Alphonsus de Guimaraens 2012, da Fundação Biblioteca Nacional. Em especial, à falta de respeito explícita a Carlito Azevedo, homem que sempre abriu as portas de sua revista a poetas não apenas muito vivos como muito jovens, e também à falta de respeito implícita ao trabalho hercúleo de Júlio Castañon Guimarães na organização do volume em questão. Pode-se discordar com veemência das decisões do júri. Eu mesmo, pessoalmente, discordo delas. Mas veemência nenhuma tornará elegante a atitude de algumas pessoas, usando a oportunidade para se comportarem com uma violência que só seria adequada se houvessem acabado de acometer contra a Bastilha.

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Último poema escrito em 2012: "Carta aos pobres poetas jovens"


Carta aos pobres poetas jovens

E escreve-se, mais. Belo consolo, poemas.
Obrigado pela nota, a de que, pelo menos,
meu furúnculo gotejou Cigarros na cama.
Mas ele não cobre meu corpo, completo.
Ninguém percebe que mesmo Tsvetáieva
sacrificaria, talvez, o seu “Poema do fim”
por um outono a mais com Rodzevitch?
Que a Plath tanta loa futura, ao seu Ariel,
não lhe sanou, de Hughes, os hematomas?
Vejo os documentários sobre W.H. Auden,
filmes proibidos sobre Ahkmátova, textos
dramatizando todas as chagas de Pasolini,
hagiografias para Pizarnik, as mil elegias
a Maiakóvski, Max Jacob, Desnos, Sexton.
Mendiga és tu entre as mulheres, Orides.
E o que haverá agora da histeria de Hilst?
Glamoriza-se a miséria, em vários pontos
pipocam poetas adolescentes, sem aviso
da pilhéria que serão os seus dias, tontos
com a luz dos holofotes dirigida a corpos,
cadáveres de gente que tão-só empunhara
penas e penas, canetas e pragas. Púcaros,
viveram como porcos, e as muitas pérolas
tampouco leões teriam digerido, ou cisnes.
Orgânicas, mas de baixo valor nutritivo.
E não durmo, as mãos tateando os bolsos
do paletó, em busca dos últimos poemas
no corpo que se exuma, mas não o meu,
ainda não meu, e sim de Miklós Radnóti.
Bem-vindos ao Olimpo-Hades, rapazotes.
Aqueles que já morreram ora nos saúdam.
Esbanjem pujança, desperdicem a saúde.
Agora fome, depois a lenda. Belo consolo,
belo, tenho tudo o que não devo, ou veto.

Ricardo Domeneck, dezembro, 2012.

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Traduzindo meu poema favorito de Audre Lorde

Uma litania para a sobrevivência

Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:

Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.

E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo

Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A litany for survival
Audre Lorde

For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:

For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.

And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive





Audre Lorde foi uma poeta americana, nascida em Nova Iorque a 18 de fevereiro de 1934, em uma família de imigrantes do Caribe. Começou a publicar na década de 60, na revista de Langston Hughes, New Negro Poets, USA. Neste período, engajou-se nos movimentos Feminista, Anti-Guerra e dos Direitos Civis. Seu livro de estreia foi The First Cities (1968), publicado pela editora Poet´s Press e editado por Diane di Prima. Seu segundo livro, de 1970, foi Cables to rage, seguido de volumes como From a Land Where Other People Live (1973), Coal (1976), Between Our Selves (1976), The Black Unicorn (1978) e The Cancer Journals (1980). Entre 1984 e 1992, ano de sua morte, a poeta viveu e trabalhou em Berlim, Alemanha, período sobre o qual a diretora Dagmar Schultz lançou, no ano passado, o documentário Audre Lorde: The Berlin Years (1984 - 1992).



O ativismo feminista de Audre Lorde foi importante e polêmico, ao acusar o Movimento Feminista norte-americano, dominado por ensaístas e ativistas brancas, de ignorar a questão racial do problema, e por focar-se nas experiências de mulheres brancas da classe média. Audre Lorde insistiu que questões de raça, sexualidade, idade, classe e até mesmo saúde influíam e definiam as experiências particulares de cada mulher, e precisavam, portanto, ser abordadas de formas específicas. Suas ideias influíram sobre o conceito de interseccionalidade nos estudos políticos da opressão contra minorias. No documentário A Litany for Survival: The Life and Work of Audre Lorde, de Ada Gay Griffin e Michelle Parkerson, Lorde diz:

"Let me tell you first about what it was like being a Black woman poet in the ‘60s, from jump. It meant being invisible. It meant being really invisible. It meant being doubly invisible as a Black feminist woman and it meant being triply invisible as a Black lesbian and feminist."


Lutando contra o câncer desde 1978, primeiro o câncer de mama (o que exigiria uma mastectomia), e depois no fígado, Audre Lorde morreu a 17 de novembro de 1992.


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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Edad de oro: antología de poesía mexicana actual" (UNAM, 2013), com organização e prefácio de Luis Felipe Fabre



O grande Luis Felipe Fabre organizou e prefaciou o volume Edad de Oro: Antología de Poesía Mexicana Actual, lançada agora pela Universidad Nacional Autónoma de México - UNAM, não apenas com alguns dos melhores poetas mexicanos nascidos nos anos 70 e 80, mas alguns dos melhores poetas que conheço em minha geração e na seguinte, incluindo a arqueologopaica Paula Abramo, o maestro métrico Óscar de Pablo, o manual de passos de dança para o intelecto conhecido como Daniel Saldaña París, e o melômano genial Alejandro Albarrán, assim como Rodrigo Flores Sánchez, Maricela Guerrero, Minerva Reynosa, Inti García Santamaría e Yaxkin Melchy. Hipérboles são a única reação apropriada para o acontecimento. UNAM-se.

--- Ricardo Domeneck

§





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domingo, 6 de janeiro de 2013

Quatro poemas de António Barahona (Lisboa, 1939)


Poemas de António Barahona (Lisboa, 1939)

Cadáver esquisito heterodoxo com João Rodrigues no Café Gelo em 1961

Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.

§

No aniversário da diva

Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas

Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:

somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida

§

Calmaria

Clepsydra do Khalifa a lume da memória:
gotas d´água a cair no Poema Final
em um Livro pequeno, mas Grande Vitória,
de Camillo Pessanha, o Guerreiro Abismal.

E leio. E releio. E respiro vocal

este tempo medido em cascatas às cores,
em Flautas Incesssantes e em Barcos de Flores.

§

Remember

Lembro, em primeiro plano,
tua estatura de planta
e recomeço a esculpir-te
em miolo de pão, pétala a pétala.




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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Traduzindo Jürgen Becker



Postagem publicada originalmente na Modo de Usar & Co.

Jürgen Becker é um poeta, prosador e dramaturgo alemão, nascido na cidade de Colônia, a 10 de julho de 1932. O poeta cresceu em Erfurt, retornando a sua cidade natal para seus estudos de nível colegial. Entre 1959 e 1964, trabalhou na Westdeutschen Rundfunk (Radiodifusora Alemã Ocidental), e, entre 1964 e 1966, na editora Rowohlt. Em 1967, foi convidado a ler e então premiado pelo então-influente Grupo 47. 

A partir de 1968, dedica-se exclusivamente à escrita. Jürgen Becker é membro do grupo P.E.N. alemão, da Academia das Artes de Berlim (Akademie der Künste Berlin) e da Academia Alemã para Língua e Poesia (Deutschen Akademie für Sprache und Dichtung), e recebeu ainda alguns dos prêmios  mais prestigiosos da língua, como o Prêmio Peter Huchel (Peter-Huchel-Preis, 1994) e o Prêmio Heinrich Böll (Heinrich-Böll-Preis, 1995). O poeta vive nos arredores de Colônia.

Os três poemas abaixo foram traduzidos a pedido da Oficina de Literatura de Berlim (Literaturwerkstatt Berlin), para sua página de poesia vocalizada.


--- Ricardo Domeneck





§


POEMAS DE JÜRGEN BECKER

O que há por ser alcançado

A hora seguinte. Como se alguém fosse esperar. Mas
as obrigações não param, sobre os dejetos não queremos
nem falar.

Lá fora está claro bastante. Não se exigem
requisições nenhum assunto para o editorial; eu direi tudo
com bastante antecedência.

É realmente muito simples. De costas para a parede,
para a janela, para a tela, para a porta. Não traga nada,
agora a mesa ficará vazia.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Was zu erreichen ist

Die nächste Stunde. Als würde man warten. Aber
die Beschäftigungen gehen weiter, von den Altlasten wollen wir
gar nicht erst reden.

Hell genug ist es draußen. Es bedarf keiner
Aufforderung kein Motiv für den Leitartikel; ich sag dir
alles früh genug.

Es ist wirklich ganz einfach. Mit dem Rücken zur Wand,
zum Fenster, zum Bildschirm, zur Tür. Nichts mitbringen,
der Tisch bleibt jetzt leer.


§

Chuva de verão. Noite negra. No canto

{à memória de Donald Barthelme}

Chuva de verão. Noite negra. No canto
de um obituário as datas disponíveis rabiscadas
que deram andamento à entrevista, a lembrança
de encontros de sonho, dos quais
nos prometêramos mais futuro.

A nova edição da New Yorker fica aberta.
O que significa futuro, quando a última conversa
deixa-se repetir eternamente na fita rotatória
e um necrológio fica dez anos em arquivo.
Verão de seca. A noite tão clara.

Uma viagem espera os preparativos. Tem-se
que atravessar o nevoeiro, do qual o branco
é tão branco quanto o luto chinês. Sem citações,
por favor. Assunto encerrado. Os campos de cevada
vazios, e lê-se que complicadas são as cidades.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

[Sommerregen. Schwarzer Abend. An den Rand]

In memoriam Donald Barthelme

Sommerregen. Schwarzer Abend. An den Rand
einer Todesmeldung gekritzelt die verfügbaren Daten,
die das Interview in Gang setzen, die Erinnerung
an entrückte Begegnungen, von denen
wir uns mehr Zukunft versprochen hatten.

Der neue New Yorker bleibt offen liegen.
Was heißt Zukunft, wenn sich das letzte Gespräch
per Bandschleife endlos wiederholen läßt
und ein Nachruf zehn Jahre liegt im Archiv.
Trockener Sommer. Der Abend ist hell.

Eine Reise ist vorzubereiten. Man muß
durch eine Nebelfront, deren Weiß so weiß
wie chinesische Trauer ist. Bitte keine Zitate.
Thema vom Tisch. Die Gerstenfelder sind leer,
und man liest, kompliziert sind die Städte.


§

Anel Viário

Ergo os olhos, a formação de grous
troca a base do seu V, a direção
do voo segue a mesma, a velocidade
não muda, alguns gritam, então gritam
outros, a formação distancia-se entre
as cidades que estão em silêncio no ar.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Autobahnring

Hochblickend, die Kette der Kraniche,
sie wechselt gerade die Keilspitze aus,
die Flugrichtung bleibt, die Geschwindigkeit
ändert sich nicht, einige schreien, dann
schreien andere, die Kette entfernt sich zwischen
den Städten, die still sind in der Luft.


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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Livros em 2012 - algumas recomendações

Esta postagem não pretende apontar os melhores livros de 2012, pois para isso eu teria que haver lido tudo ou quase tudo que foi lançado no Brasil e no mundo no ano passado. Morando fora do país, é mais difícil manter-me informado, mas procuro acompanhar o trabalho de meus contemporâneos, assim como muita coisa me chega através da pesquisa que faço constantemente para a Modo de Usar & Co.

A lista abaixo é formada por alguns livros que li neste ano que se encerrou e que eu gostaria de recomendar. Não sei se são os melhores. Alguns me despertaram entusiasmo, outros provaram o respeito que já nutria pelos poetas, alguns foram surpresas, de poetas que não conhecia. É muito provável que eu esteja me esquecendo, por ora, de livros que li no começo do ano e agora me fugiram à mente. A lista provavelmente crescerá nos próximos dias. Estes são alguns poetas que acompanho, também, com interesse especial. São todos livros que eu gostaria de ter resenhado quando os li, mas acabei não podendo por falta de tempo. 2012 foi um ano bastante cheio, de festivais e outras obrigações que me mantiveram um pouco afastado do debate crítico, se comparado com outros anos.

Ordem alfabética por nome do autor. Vocês verão que eu privilegiei o trabalho de meus contemporâneos, autores de minha geração, ou de uma geração imediatamente anterior ou posterior. Sei que o conceito de "geração" anda em baixa, e eu mesmo o questiono e venho há tempos querendo escrever a respeito. Por ora, uso-o aqui com parcimônia. Há casos ainda de alguns livros que não tive a chance de ter em mãos e conhecer na íntegra. São livros pelos quais, lidos parcialmente por poemas disponibilizados na Rede, entusiasmei-me o suficiente para estar à caça dos volumes. Repito: são recomendações, só isso.


Brasil. Poesia. 2012.

Angélica Freitas - Um Útero É Do Tamanho De Um Punho (São Paulo: Cosac Naify, 2012).
Luca Argelesqueci de fixar o grafite (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).
Luci Collin - Trato de silêncios (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).
Marco Catalão – Sob a Face Neutra (São Paulo: Funarte, 2012).
Marcus Fabiano GonçalvesArame Falado (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).
Marília Garcia - engano geográfico (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).
Paulo Henriques Britto - Formas do Nada (São Paulo: Companhia das Letras, 2012).
Veronica Stigger - Delírio de Damasco (Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2012). :::::::::::: Confesso conhecer apenas o longo poema "O coração dos homens", incluído neste volume. Mas basta para que todo o livro valha, e, dada a qualidade da autora em questão, tenho certeza de que os outros textos do livro são igualmente bons.

Lançados em 2011, mas lidos em 2012:

Ana Martins Marques - Da arte das armadilhas (São Paulo: Companhia das Letras, 2011).
Bruno Brum - Mastodontes na Sala de Espera (Belo Horizonte: Crisálida, 2011).
Horácio Costa - Ciclópico olho (São Paulo: Annablume, 2011).

Portugal. Poesia. 2012.

Miguel Martinsfôlego sem folga (Lisboa: Língua Morta, 2012).  :::::::::::::: O livro é, na verdade, inclassificável. Poderia facilmente ser também chamado de novela. Tudo o que posso dizer é que se trata de excelente texto. O autor lançou também a coletânea de poemas Cãibra (Lisboa: Ediresistência, 2012), que ainda não pude ler. Trata-se, em minha opinião, de um dos melhores poetas em atividade na língua.
Inês Lourenço - Câmara escura - uma antologia (Lisboa: Língua Morta, 2012).
Manuel de Freitas - Cólofon (Lisboa: Fahrenheit 451, 2012).

Brasil. Prosa. 2012.

Victor Heringer - Glória (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

Línguas Estrangeiras. Poesia. 2012.

Alejandro Albarrán - Ruido (Ciudad de México: Bonobos, 2012).
Antoine WautersCésarine de nuit (Paris: Editions Cheyne, 2012).
Black Cracker - 40oz Elephant (New York: Bowery Books, 2012).
Daniel Saldaña París - La Máquina Autobiográfica (Ciudad de México: Bonobos, 2012).
Dominique Meens - Vers (Paris: POL, 2012).
Gerhard Falkner - Pergamon Poems (Berlin: kookbooks, 2012).
Hendrik Jackson - Im Licht der Prophezeiungen (Berlin: kookbooks, 2012).
Johannes CS Frank - Remembrances of Copper Cream (Berlin: Fixpoetry, 2012).
Max CzollekDruckkammern (Berlin: Verlagshaus J. Frank, 2012).
Monika Rinck - Honigprotokolle (Berlin: kookbooks, 2012).
Paul Legault - The Emily Dickinson Reader - an English-to-English Translation 
of Emily Dickinson´s Complete Poems (McSweeney's, 2012).
Paula Abramo - Fiat Lux (Ciudad de México: Tierra Adentro, 2012).
Shane Anderson - Études des Gottnarrenmaschinen. (Berlin: Broken Dimanche Press, 2012).
Swantje Lichtenstein - Horae (Berlin: Verlagshaus J. Frank, 2012).


::::::::::::::::::: Livros que me marcaram em 2012 :::::::::::::::::::::



Adrienne Rich - What Is Found There - Notebooks on Poetry and Politics (1993).
José Revueltas - Cuentos.
Viktor Shklovsky - Zoo, or Letters Not About Love (1922).
W.G. Sebald - Die Ringe des Saturn: Eine englische Wallfahrt (1995).
William H. Gass - Cartesian Sonata (1998).


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