Rocirda Demencock

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

DEVOÇÃO - um poema inédito de Ismar Tirelli Neto

 


DEVOÇÃO

 

Estou doce doce de condicionais

Todos os dias capacito-me de um crânio

A cultura coloca-me certo número de buracos onde meter minha devoção

Estou doce doce de diretivas

De meio a formidáveis reescrituras tenho caminhado

Caminhado com emparedamento cada vez maior

Encarregue de certo ritmo na roseira

Arrasto pelo mundo aparição e desaparição

Arrasto o triz até o tram

Quando subo

O mesmo vazio de consecução

Olhos choram contracorrentes 

Onde um assento vazio?

Na minha frase 

Onde um assento vazio?

Estou doce doce de hibridação

Para sentar às centelhas sobre o veículo já não se tem idade

Para sentar às estrelas

Para tomar café-da-manhã com as estrelas

Já não se tem idade

Não lhes parece o caso? 

Sou eu quem deve preponderar na minha frase

Não lhes parece o caso? 

Quem deve preponderar na minha frase sou 

Eu fora 

Fora todos os ouvidos

Preciso de um vagão vazio para dizer o ouvido

Um ouvido inteiro

A cultura corta um buraco redondo entre os reservados do banheiro 

Volvam volvam as vontades quebradas

Estou virado como século

Vemos um filme extremado

Tenho pelo menos a virtude de realmente existir

Trabalho por adesivos de coração

Jogo ao cisco

Ganho em urbanidade

Muro-me de Introduções Guias Manuais 

Tacanhado em cômodo com todos os quadrantes da Terra

Concateno frêmito no escroto à chegada do significado

A cultura coloca-me certo número de histórias de conversão a memorizar

Estou por assim dizer


– Ismar Tirelli Neto


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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Morticínio ancestral

"Morticínio ancestral" é um poema inédito que incluí numa seleção de poemas a ser publicada em Portugal, sob o título Canção da benzedura e outros poemas, pela Livraria Poesia Incompleta, do querido Changuito. Nesse volume, incluí poemas que venho chamando de localistas, centrados na cultura daquele lugar que vocês capitolinos chamam de Interior.


Morticínio ancestral


                   a Rosária Cardoso in memoriam


Quando minha avó torcia o pescoço 

dos frangos, não raras vezes

chegando a decapitá-los, 

e os lançava ao chão frio de cimento 

para aquela dança assustadora, 

não havia em seu rosto 

paixão, prazer, ou pena.


Na escuridão escondida dentro do meio-dia,

aqueles morticínios eram os atos 

mais honestos na violência 

daquela casa e daquela infância.


Afogando na água fervente

os cadáveres sem cabeça 

[que ficara de banda no quintal 

interrogando seu Criador],

ela passava a depená-los, ágil,

qual fosse ela um gavião-pedrês.


Como o cafuné do crânio da onça 

no crânio da capivara, 

ou o abraço anelar das garras do carcará 

ao redor do corpo todo-torso da cobra, 

nada naquela velha

era cogitado 

para além da missão simples:


alimentar a prole.


Como todo animal que não questiona

a cadeia alimentar diante da fome,

minha avó foi o bicho mais inocente 

da minha casa e da minha selva.


Mais do que os gatos e pombos,

mais do que os jabutis e coelhos,


com certeza 


era mais inocente minha avó 

do que as cachorras da casa, 

aquelas cachorras grandes e gordas

com os dentes afiados — mas inúteis,


esperando também daquela mamífera-anciã 

que manchasse ela as mãos de sangue.



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terça-feira, 23 de novembro de 2021

André Capilé - excerto de "madrugada pombagira do absoluto", do livro inédito SERENO

André Capilé, tata kanzumbi no terreiro
Omariô de Jurema (Barra Mansa RJ)
fotografado por Clara Nascimento

MADRUGADA POMBAGIRA DO ABSOLUTO

vocabulário do ódio é o que resta na boca / violenta, a malta só ruge -- estila sua baba louca / já não me sobra mais nada na presa lisa da víbora / se a vida te levar a pulso, o soldo da sorte é a mirra


ei, Mumm-Ra 
chega e vê 
a ira do mar que vem
sinistra
procela 
a surra do céu também 
se cair
lá não vai
sobrar ninguém pra contar
que a paz
quem tomou
foi quem bebeu da guerra


a pira da bilha do porco, na boca larga da fome, / a fera fixa o hálito, o espanto lá no horizonte, / espana o espantalho as gralhas, / o cheiro do mijo, paura, / em sua entranha o expurgo do monstro que sonha alturas

vinha lá de cima a mais braba, mas coisas que a vida macumba / girava na barra da saia, na ponta da faca ela estuda / a rua medida a seus pés, em cada canino era fúria / linhas de soco no peito, seu nome era a dura recusa


temporal
chega e vê
a ira do céu que vem
sinistra
de ventar
nuvens de peso explodem
se cair
lá não vai
sobrar ninguém pra contar
que a paz
quem tomou
foi quem bebeu da guerra

se eu vir chegar a manhã 
há chance até de viver

tambores avisam que o conta-giros
não vai ceder, não vai ceder

– André Capilé

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domingo, 7 de novembro de 2021

CARTOGRAFIA DO FUNDO DO POÇO


1- 

País solitário, 
de um só 
habitante 
só,
fronteiriço
aos fundos 
dos poços 
de todos 
os outros.

2- 

Feito o último exemplar 
de uma espécie:
um rinoceronte 
velho e reumático,
um dodô dodói,
um neandertal 
com dor de dente.

3- 

Até planetas acabam presos 
num travamento gravitacional,
a rotação capturada,
um mesmo e único hemisfério 
encarando sua estrela,
e o outro, numa noite eterna.

4- 

Todas as marés 
aqui
são baixas.

5-

Conheço palmo a palmo
este chão 
de arranha-céus do avesso,
seco — onde os olhos
labutam, incessantes,
para doar-lhe um mar.

6-

Os mais antigos, escolados 
nos despenhadeiros,
haviam alertado para a necessidade 
do equipamento de montanhismo.

Arqueólogo dos próprios barrancos,
eu trouxe ao fundo do poço 
apenas o equipamento de escavações.

Das pás, fazer asas.
Das tripas, cipó e escada.

7-

Recomendam todos
que eu vá ao encontro 
daqueles cavaleiros,
não da Távola Redonda
mas da Tabula Rasa.

Gosto dessa companhia,
a dos que nada mais têm
a perder.

8-

É costume erguer-se,
dizer o próprio nome,
e confessar 
limpezas e sujidades.

Levanto a carcaça 
desse trono da nulidade,
e digo:

“Este sou eu,
Sísifo-Dido,
o limpo-sujo,
o sujo-limpo.”

9- 

Esta é a minha tribo,
estes felizes 
que se desiludiram
mesmo de si.

10-

Este não é seu país de origem.
Este não é seu país de destino.
Também aqui aplica-se 
a lei da usucapião?

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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

"Regresso ao agreste", um poema-canção de Makely Ka

Makely Ka é um trovador contemporâneo brasileiro, nascido em Valença do Piauí, em 1975.

REGRESSO AO AGRESTE Regresso ao agreste Esse reverso de floresta E do pouco que ainda resta Esse progresso ao revés Regresso ao agreste Do eucalipto ao cipreste Entre a transgênica semente E a hidrelétrica da vez E hoje a meta-resposta É talvez Um deserto, essa réstia De través Hoje tudo que pasta É a rês E um trator que arrasta Tudo ao rés Nessa terra de xerife Onde tudo se decide Na base do cassetete Não duvide O sujeito te agride Um sozinho contra sete Você pensa no revide E arremete DDT e neocide Com a monsanto quem compete Com o imposto que incide Quem resiste Qual o custo desse bife Qual o lucro dessa thread Isso tudo é muito triste E só regride Regresso ao agreste Seguindo por essa reta Onde aponta uma seta Leio a placa em português Regresso ao agreste Onde a commodity reveste Todo lucro que se investe Do que vende-se ao chinês E hoje a meta-resposta É talvez Um deserto, essa réstia De través Hoje tudo que pasta É a rês E um trator que arrasta
Tudo ao rés 

 
 

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

Seminário de Poesia Contemporânea na UFPR e a homenagem à poeta pernambucana Tereza Tenório

DESTA VEZ, AQUI, AGORA: VOZES DA POESIA CONTEMPORÂNEA.



Terceira edição. Organização de Sergio Maciel, Guilherme Delgado, Renata Mocelin e Luciane Alves. Universidade Federal do Paraná.
DIA 1 (14/09)
Wellington de Mello
Henrique Provinzano Amaral
Anelise Freitas
DIA 2 (21/09)
Paulo Henriques Britto
Diego Alves Amancio
Margarida Vale de Gato
DIA 3 (28/9)
Edimilson de Almeida Pereira
Ronald Augusto
Márcia Brito
POETA HOMENAGEADA: Tereza Tenório (Recife, 1949–2020).

*


POEMAS DE TEREZA TENÓRIO
CORPO DA TERRA Pela janela o verde nos revela o coração da mata acesa o úmido veio das aromáticas resinas dentre nossas raízes enlaçadas a destilar a essência do teu hálito em mim corpo da terra desvelado * A FACA SOBRE A ÁGUA Existe o duplo silêncio: o da flauta e do tempo (que há mundos paralelos). Há o movimento rítmico: o do pêndulo no silêncio partido do hemisfério. E foi teu último engano: a ferida rubra e sangrenta. A branca madrugada transformou-te de louca suicida em clara manhã de pássaros e fadas. Houve também a faca sobre a água com o brilho mortal das escamas rápidas e houve o encontro da terra com os astros na rota dourada do fim de tarde. * A CASA NA COLINA Quem sempre quis uma casa na colina pra que pudesse namorar as árvores Tanto sonhou o rosto de uma menina sua cabeleira a refletir as vagas Eu que amarguei a solidão da sina de uma infância sofrida além da margem de tanto amar o amor como a saudade transformei-me ao sol dessa menina Tendo na boca o gosto da menina do crescer na paisagem do silêncio degustando a palavra enquanto sina transformando o silêncio enquanto tempo em meio ao sonho que a estrela move em meio à sina que se mofe ao vento * CASO O meu primeiro amor morreu de fome O meu segundo amor não teve jeito O meu terceiro amor se fez amante recebendo-me à tarde radiante Até hoje vivemos do seu jeito como meu último amor fatal perfeito * VIRTUAL No epicentro das ondas invisíveis edifiquei mandalas para os celtas habitantes dos últimos milênios guelras de peixes e barbatanas retas Onde o mar arrastara nossas redes para morder-nos tênues fios de espera o fluir das espumas retalhou os tecidos da carne contra as pedras nos módulos lunares dissolvi toda a sombra da superfície líquida seus cardumes de tubarões-martelo entre indormidos teoremas míticos arremessei ao lume destes versos nossa imagem virtual de estranhos ritos * TRÍPODES Queimados os corações no sacrifício dos remos sobre a pedra dos oráculos reedificamos o templo Marujos noutro avatar fomos mortos ao relento entre carvalhos e trípodes no temor ao deus sangrento No corolário da lenda filha dos quatro elementos fertilizamos a terra na fenda ao sul do oriente ao fim do embate mortal a seiva do sol no zênite .
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terça-feira, 14 de setembro de 2021

Carla Diacov - "o burro trota tão lentamente"

Carla Diacov (São Bernardo do Campo, São Paulo, 1975)




[O BURRO TROTA TÃO LENTAMENTE]
o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque
é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

André Capilé - "Kuzuela"

Para mim, trata-se de um dos grandes poemas do nosso tempo. Merece um ensaio alentado, mas como o incluí no dossiê de poesia brasileira contemporânea que estou organizando para uma revista do âmbito germânico, terei que enfrentá-lo em breve. 


KUZUELA
André Capilé

ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero

papagaio ê!

seja bem vindo
gostamos de recebê-lo

mas não nos garantimos boas novas

os maridos ainda recusam a voz das esposas
os pais renunciam a voz de seus filhos

nossos avós saíram da raiz faz tempo
mas o tronco resiste apesar dos inventos

esta é a terra e o que se tornou

veja
estamos sempre prontos a nos repetir

viemos a esta terra
comemos desse esterco

em um mundo
que não devia ser tão espalhado
em um mundo
que se distrai por trair ser pacífico
em um mundo
que é apenas um lugar de mercado

uê papagaio uê!

será possível que se instale um vau
que se preciso atravessemos juntos?

e o que virá depois do salto, o óbvio?

de um lesa-majestade ouvi a prece
nem todos voltarão pra casa um dia

até que dê ciência a concha ao molde
é o estéril que engravida o caracol

viemos até aqui
agora chamamos de casa

ó há terra para todos

talvez devesse um elogio
que te fizesse mais feliz

ó há terra para todos

e me escutasse o que rezava
e respondesse cada reza

ó há terra para todos
é de lá meu papagaio

uê que espalha o mundo no lajedo
tão grande, tão poderoso

que não pode vencê-lo a calma
a violência de teu silêncio

quem ousar eiá eu vos digo
enxaguará as mãos pra comer terra

quem ousar eiá eu vos digo
entrará pelo duto ó cu dos céus

e quem ousar eiá que aproxime
mil e um passos contados pra trás

hoje não vou ousar ser tão rude com ele
são mais de mil passos à frente do rei

ó colorido com a tintura do açafrão
patrono dos tapetes sem tamanho

esta terra deve ser pacífica
esta terra deve ser prolífica

a terra deve ser boa pra nós
a terra deve nos favorecer

não botamos nossos ovos pra guerra
nós que somos testemunhas do luto

não merecemos castigo
não devemos ser roubados

papagaio ê!
venha ouvir nossas súplicas

papagaio ê!
prestamos homenagens ao senhor

ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero

seja bem vindo
gostamos de recebê-lo

não ouça amanhã nossos gritos
não nos garantimos boas novas

*

in Muimbu (Juiz de Fora: Macondo Edições, 2019)

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domingo, 29 de agosto de 2021

Diego Alves Amancio [poema]

 MUITOS CAMINHOS

levam
ao silêncio (1) recusar
à réplica, não
desenrolar o fio
da conversa: se
enforcar com
ele; (2) se ater
ao elementar: que horas
são? Esse ônibus
segue até a praça da
independência? Café
sem açúcar, por
favor; (3) se espelhar
na mudez das águas
que discursam
só quando
agitadas; (4) furar
os tímpanos
com cotonetes
de vidro; (5) cirurgiões
clandestinos,
bisturis oxidados
que desatem o nó górdio
das pregas vocais; (6) mas
o menos radical,
o mais comum
é encher a boca
com palavras,
mastigá-las com
dificuldade e
cuspi-las para cima
até atingir
o estado de silêncio
pelo ruído.


*


Diego Alves Amancio  é um poeta brasileiro, nascido em Londrina, estado do Paraná, em 1988. É ainda inédito em livro.


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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Allan Jonnes - "O sol não ilumina mais o olho bege de Gisele"



O SOL NÃO ILUMINA MAIS O OLHO BEGE DE GISELE
Allan Jonnes

O sol não ilumina mais o olho bege de Gisele
nem se pode saber qual dermatite
escama entre os dedos e as covas

das unhas doentinhas
quando Gisele lava os operados

não há sol no mundo que ilumine o caramelo triste
do olho de Gisele
e ela louva coberta de glaucoma

até as putas mais indiferentes destas ruas
curvam suas orelhas à porta da igreja Batista Betel
quando Gisele canta para os Lázaros às segundas

e rasga uma canção tão triste quanto uma criança
débil mental babando a cabeça descosturada de seu elefante  
de pelúcia numa cadeira de rodas na rodoviária do Recife 
quarta-feira de cinzas

outro dia sob a marquise de um café em Minas Gerais
bêbado de conhaque e manuseando imaginário
a caixa de controle do seu ex-trator
o viciado aponta na camisa a inscrição

a cabeça de Mao é o nosso sol vermelho

Gisele não sabe das revoluções camponesas
de nenhum lugar do mundo
mas vende calculadoras nos ônibus de linha
ao preço de dois reais
para a manutenção dos ídolos que reúne

*

Allan Jonnes é um poeta e performer brasileiro, nascido em Lagarto, Sergipe, em 1990. Acaba de publicar o livro Areia para engrenagens.

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