Rocirda Demencock

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Homenagem ao octogenário Leonardo Fróes

Leonardo Fróes lê no Largo do Rosário, em Tiradentes, Minas Gerais,
durante o Festival Artes Vertentes, a 17 de setembro de 2014.
Foto de Cecília Santos.

Hoje, 17 de fevereiro de 2021, o grande poeta Leonardo Fróes completa oitenta anos. Na última década, contra os poréns e entretantos do sistema literário brasileiro, o senhor fluminense se tornou uma figura incontornável para as novas gerações de poetas brasileiros. Para comemorar a data, convidei alguns autores a escreverem sobre Fróes, poemas, depoimentos, traduções. Inicio com um poema de Dirceu Villa, o primeiro a me falar de Fróes, e certamente um pioneiro na valorização de seu trabalho na minha geração. Seguem então textos de autores de gerações diversas. 80 Fróes! Que venham agora os 90 e muitos livros mais. Este ano sairá sua poesia reunida pela Editora 34, editada por Cide Piquet.

DEPOIMENTO E POEMA A LEONARDO FRÓES
Dirceu Villa

Celebramos os 80 anos de um grande poeta, Leonardo Fróes, que é também um homem ímpar. Celebro além disso o amigo querido, & o autor dos versos que muito pessoalmente vêm vivos na minha estante, na minha mente & na minha vida desde o fim da minha adolescência, & que terão soprado um pouco de sua ciência na minha própria escrita.


Vida longa ao mestre. Viva Leonardo.


PETITERRA

Dirceu Villa


             a Leonardo Fróes


se propomos a subida, deus era uma flor então,

ou o animal desconhecido : árvores falam, não

em segredo, mas aos seus olhos, com raízes.

alcançar o topo para a conversa fatal? ao invés,


o silêncio nos envolve, e a água para a descida,

mãe dos nossos poros, frescor de filosofia em

jorros, corredeiras, discreto veio de vida. o sim

às sombras, nas veias o vendaval e a neblina. o


homem e a casa acontecem, sólidos sob silvos de

floresta; a rainha de raios obscuros se ergue uma 

vez mais das águas, dá à terra e ao ar seu conselho  

de som, e incha o jambo, a beterraba, de vermelho.


*

DEPOIMENTO SOBRE LEONARDO FRÓES
Reuben

A poesia dos livros, a poesia de linguagem, é apenas um convite. Hoje todos já ouviram a história do poeta que deixou a vida que levava para buscar o silêncio que lhe era próprio. Houve um tempo, algumas vidas atrás, quando fui tocado de febre por ter lido o Sibilitz, do poeta Leonardo Fróes. Hoje entendo que a emoção entre nós dois, o livro e eu, deu-se por uma grande solidariedade — o livro sabia (eu ainda não) que ainda iria precisar queimar em fogo alto para merecer a mim mesmo. Um dia, munido de ingenuidade, entusiasmo e lirismo, ao avistar o poeta, caminhando sobre as pedras lisas da cidade de Tiradentes, sapequei-lhe um vigoroso abraço. Eis tudo. Longevidade e saúde são sinais de inteireza. Pode ser um mito distante ou uma realidade encarnada. Só não precisa ser a exceção.


*


A POESIA E A MATANÇA DO AEDES AEGYPT
Rodrigo Lobo Damasceno

                          para Leonardo Fróes

Escrevo muito ao fim do dia,
   depois da tempestade 
que derruba
a energia
elétrica
e liberta
os mais jovens exemplares do Aedes Aegypti
na cidade – as cores todas se apagam
em São Paulo.
Os mosquitos zebrados
zumbem no meu ouvido – fazem zum zum
como as britadeiras que abriram o dia,
de manhã cedinho. A cada poema original
que escrevo, desfiro
uma série
de tapas na minha própria
   orelha. Fico com sangue
nos dedos. Vladimir Nabokov, pelo que sei,
caçava borboletas. Nenhuma visita
em vista. Uma pessoa passa 
lá embaixo, na rua, correndo da chuva
(que recomeça) com seu cão de raça. 
Não tenho cachorro porque vivo num apartamento.
Eu acho isso muito chato porque fico tenso.
Às vezes penso que amanhã vou acordar com dengue.

*

Escritório de Leonardo Fróes.
Petrópolis, RJ, 2018.
Foto minha.

*

HOMENAGEM FEITA EM CASA
Érica Zíngano

li um poema de po chü-i 

na língua do leonardo fróes 

é um poema que eu adoro 

“maluco cantando nas montanhas” 

é o nome do poema 

baseado em po chü-i 

ele escreveu isso

entre parêntesis 

no começo do poema 

no final do poema 

tem uma nota de rodapé 

com uma indicação de um livro 

em inglês one hundred and seventy 

chinese poems org. por arthur waley 

esse sinólogo inglês descobri depois 

nascido no séc. xix tem várias 

publicações interessantes

achei na internet o epub do livro 

com a versão do poema em inglês 

“madly singing in the mountains” 

ainda não procurei em chinês 


vão fazer uma homenagem 

pro leonardo fróes agora em fevereiro 

é seu aniversário 

pediram pra enviarmos alguma coisa 

até o dia quinze 

resolvi fazer uma versão da versão 

da versão da versão (imagino) 

desse poema de que gosto 

porque gosto do leonardo fróes 

dos poemas do leonardo fróes 

e desse poema em especial 

pensei que ele poderia ficar feliz

com essa homenagem 

homenagem feita em casa 

e o po chü-i também 


:


TEM SEMPRE ALGUÉM MAIS MALUCO AINDA 

Érica Zíngano


                      a Leonardo Fróes


quando nós pensamos que já vimos 

de tudo nessa vida 

tem sempre alguém mais maluco ainda 

diante de uma mão cortando o tempo 

contando os grãos de arroz 

num formato de montanha crescendo 

crescendo sobre a mesa      poderia ainda 

a poesia      ser considerada uma fraqueza? 

por mais lírico que tudo isso seja 

mãos   montanhas   poesia — nosso ponto 

fraco — sejamos francos: eram mais de 

mil espectadores online assistindo 

acompanhando a montanha crescer 

crescer em movimento ascensional 

até desaparecer a unidade menor 

se tornando uma unidade maior 

uma pequena pequena grande 

montanha branca de arroz 

de grãos de arroz empilhados 

delicadamente um sobre o outro 

o preço do arroz aumentou mais de 

60% durante a pandemia 

quem vai querer comprar?

quem vai poder?


eu quase nunca penso na paciência 

mas tenho agora algumas moedas de troca 

nas mãos essa montanha solitária como modelo     

rodeada de milhares de testemunhas online 

vigilantes  quem vai?

a alegria é bem mais imprevisível           

é tudo tão explosivo    é bom poder encontrar 

um cachorro vivo abanando o rabo 



*


DENTRO DE UMA CASA EM CHAMAS: UM PERCURSO

João Gabriel Madeira Pontes



                    a Leornardo Fróes



a) “If prose is a house, poetry is a man on fire

running quite fast through it.” (Carson)


Dentro de uma casa em chamas, hipóteses


Dentro de uma casa em chamas, hereges

herdeiros, heróis – mas, sobretudo, hereges


Dentro de uma casa em chamas, linhas

mortas, línguas domesticadas pelo tempo

livros, tempos mortos, listas incompletas




b) “e eu mesmo sendo dissolvido também

nessa casa alagada, não me acho

enquanto solidez: vou flutuando

como onda inconstante na correnteza.” (Fróes)


Dentro de uma casa em chamas, bebe-se

à casa em chamas, às suas beiras, aos seus

becos, bebe-se a quem pôs fogo na casa

aos seus berros, bebe-se a quem ficou


Dentro de uma casa em chamas, bebemos

a casa, os seus bichos, as suas bifurcações

estes bocejos, estes boatos, aquela baía

Dentro de uma casa em chamas, bebemos 

quem ficou, bebemos quem berrou primeiro


Dentro de uma casa em chamas, cevados

pelo silêncio, torcemos por algum milagre

Do lado de fora, o boi dá sentido à cerca

o céu legitima as nossas poucas certezas

mas, quando cresce a tarde, o céu dissolve

toda certeza, e o boi, enfim, rompe a cerca




c) “Water and fire succeed

The town, the pasture and the weed.” (Eliot)


Dentro de uma casa em chamas, não há

metrópole, norma, nome ou rua navegável

Suas janelas, suas portas e paredes nuas

negociam a chegada de novos janeiros

Insinua-se a casa em chamas, viva ainda

embora disposta a nos ensinar a morrer

(Pastos sem norte, noite sem eventos)


Dentro de uma casa em chamas, ouço

passos no corredor, oráculos, orgasmos

Dentro de uma casa em chamas, entre

ouriços-cacheiros e obituários, ouço-lhe

dizer que prefere um deus sem opiniões

um deus de ombros baixos, um deus-boi

de “olhar estúpido”, que possa ruminar

o orgulho: origem e ocaso de toda cidade




d) “Some say the world will end in fire,

Some say in ice.” (Frost)


Dentro de uma casa em chamas, fogo

mas também fome e fé: fome de figo

e febre para acreditar que não existe

no mundo inteiro fogo capaz de engolir

a figueira do quintal, a figueira que está

de pé desde antes do teu primeiro feito

da tua primeira febre, talvez desde antes

da descoberta do fogo, da fé, da fome

a figueira que dá figo com gosto de brasa


Dentro de uma casa em chamas, neve

                                             [pelo chão





*

A POESIA E A MATANÇA DOS MOSQUITOS [EM QUADRINHOS]
Patrícia Lino








*

[UM SILÊNCIO É PRA SEMPRE DO FRACASSO]
Guilherme Gontijo Flores

             a Leonardo Fróes

um silêncio é pra sempre do fracasso
                o vento invade as frestas
que nem a mata 
                invade a vista
e a ideia de deus suprime
o tempo descambado
noutras contemplações

(as pulgas mordem entre os pelos
        e as patas se confundem
entre coceira e passo 
donde a tenebra espessa
apressa o dia
                que não vemos)

daí que a linha reta seja sempre
        falsa medida
onde curar feridas e o sol
não nos contempla mais do que outra estrela
        qualquer no breu das eras
estamos nós na escuridão
como um reflexo fraco
                do cristalino opaco
na meia-noite

(mutucas comem carne 
        e traças pousam no papel
a luz é fraca e a cidade
                estalará por fora
feito lonjura irremediável
por dentro feito uma fuga
no peito do concreto)

anote-se a deriva de um ruído
que da ruína dele nascerá
— feito berne na nuca feito 
        o nunca do tempo inventado
                feito afeto invertido 
a marcação do olvido numa bênção
que pulsa e estala e sulca a nossa pele

(batistérios do amor incógnito
ou salmodia das ranhuras
se caminhamos dispersivos
na bruma até brotar um olho-d’água)

*

O INCONTROLÁVEL CORAÇÃO DE LEONARDO FRÓES

Leonardo Marona


estou cansado e forte e penso no meu xará

com alma confuciana e canelas esdrúxulas,

um samurai, inclusive, com olhos puxados

e um milhão de anos na carcaça de um pã

que nunca, em tempo algum, pude encontrar,

enquanto anos a fio sonhei com a ideia

de ter qualquer espécie de sábio guru

sem breguice e que pudesse me dizer

leonardo faça isso, leonardo vá por aqui,

e que sobe em árvores crespas e explica

cada órgão de cada filho verde de deus

como, enfim, o sonho de uma criança

também de olhos puxados e aquariano,

também uma tentativa, com mais medo,

de entender maneira de frear o que é ruim

e amar os mais novos conforme a tartaruga

pode amar suas centenas de ovos, um a um,

e enfrentar a maior travessia da sua vida,

rumo a destino incerto, sinuoso desfecho,

um animal antigo que ama o suficiente

para fazer o que não é possível e por isso

completa a jornada como um pai, um filho,

como um ciclo vivo de carne e muito osso,

mandala refletida em dentes e compaixão,

um que sabe que nos sonhos não se dorme,

que o mal acontece e todos podemos ver,

mas dentro do órgão de cada fruta ele vem,

inquieto, uma criança de um milhão de anos,

com quem se aprender que quase sempre

a estrondosa derrota é verde como o perdão.


*


FRUTAFRÓES
uma série de desenhos de Matheus Chiaratti












*

CACHORROS DE ÁGUA, MONTANHAS, TUDO QUE A VISTA ALCANÇA

Frederico Klumb


                      para Leonardo Froés


Bastaria dizer que há no mundo 

uma abelha chamada carpinteira azul.

Bastaria dizer seu nome vulgar –

ao alcance da ciência das mãos.

Dizer que ao olhar o maciço

de pedras naquela manhã

de janeiro, as nuvens cobriam

as copas das árvores

mais altas, e desenhavam assim

um cão gigante no céu.

Bastaria falar, talvez,

os nomes de tudo o que a vista

alcança, e encontrar neles

uma justificação do homem.

Mas o homem da montanha

procura a justificação

de Deus. Os sentimentos

atômicos, a partícula do vento,

da fala nas bocas humanas,

dos cascos dos burrinhos

subindo a ravina. “O passado –

que não existe – é talvez

minha única invenção gloriosa”.

Baudelaire dizia que os chineses

vêem as horas nos olhos dos gatos

E o homem da montanha,

nos olhos de um cão danado?

No corpo de um sapo achatado

sob o pneu do carro?

Esperamos sempre. Uma hora, 

uma carta. Mas é quando não espero

que descubro isso que chamam

de alma, e posso oferecer

a alguém uma coisa.


*

 DEPOIMENTO
André Luiz Costa

Descobri a poesia do Leonardo Fróes por acaso, em uma postagem da Modo de Usar & Co. que apresentava brevemente a biografia do poeta seguida por uma seleção de poemas. Lembro até hoje do efeito que "Metafísica e biscoito" teve em mim. A sucessão de imagens insones, no ritmo angustiante de um eu consciente do espaço que o cerca, cortada pelo simples ato de comer um biscoito, beber um copo de leite e fumar, me acompanha desde a primeira leitura. Alguns poemas retornam na mente sem que haja esforço de memória, e esse é um deles. Muito do que Fróes desenvolve em sua poética está contido nesse jogo entre abstrato – às vezes surreal – e cotidiano. Gosto desse aspecto porque parece inaugurar um mundo, ou uma forma de ver as coisas, sensível ao imaginar possibilidades a partir do que é estabelecido. O eu nos poemas de Fróes está em sincronia perfeita com o natural, mas também entende que há uma atmosfera desconhecida presente em tudo o que vê. A trilha que se abre nos poemas – pra utilizar outra imagem importantíssima em sua poética – parece o esforço que faz em nos mostrar como percebe esse desconhecido. Esforço que reverbera, certamente, entre a melhor poesia escrita neste país.   


*

ALI A LUZ PISCAVA
Ana Cláudia Romano Ribeiro

                a Leonardo Fróes

nos primeiros lugares, não confundir galinhas com lagartas

deixar as baleias cruzarem os oceanos bem livres até

chegarem à nossa mesa

posta

às nossas xícaras

onde 

se afogam

só assim se chega 


aos segundos lugares

de onde a vista dá para um anu branco e nuvens carregadas ao fundo

aquele acaso em que o topete de ontem se lança

até alcançar sobrevida sem asas

no cinza de hoje

felizmente venta

e se chega aos terceiros lugares


agora sim podemos

olhar nossa perna direita 

e ver a perna manchada 

a perna de veias saltadas bambas 

cicatrizes de moto contínuo

muitas picadas 

contra o mato alto crescendo 


nos quartos lugares é onde infinitamente se pensa

habitar uma casa é desalojar aranhas

a roupa é a casa do corpo

mancha é maquiagem do ido

casca é casa sapato planta

e lugares 

infinitam



*

A FLOR NÃO SABE SE CONTER

Fabrício Corsaletti


para Leonardo Fróes


nasci numa terça de Carnaval

e o mundo como sempre estava em guerra

um dia juntei minhas tralhas

e fui conhecer as montanhas

que via da janela do carro

amei a poesia chinesa

sou amigo de Fagundes Varella

pertenço à Escola dos Poetas Andarilhos

depois que aprendi a usar a enxada

minhas frases ficaram mais simples

acredito que é possível rir um pouco

até mesmo das histórias infernais


*

FÔLEGO

Flávio Morgado


          aos oitentas anos do poeta Leonardo Fróes 




oitenta anos inflam 

o pulmão do animal que observo;


a pedagogia das descidas 

educa as pernas e o

animal ofega enquanto narra. 


sísifo que aposta no delírio

                                      diante da

                                      queda

e nos entrega 

a propriedade afetiva das coisas:


o coração das bananas

o seio das beterrabas 

o caqui eleito 

                        e formas 

                        que se endireitam no ar


                                                                             

                                                                                                formigas escalam a leitura,



(Lawrence Ferlinghetti à luz de velas

traduz a utopia da renúncia 

e um neto dá nome às pedras)




- entre figueiras, 

o fôlego do poema

            traga 

um ato de concentração. 



*


DEPOIMENTO E TRADUÇÃO
Rob Packer 

Traduzir um grande tradutor


Conheci Leonardo Fróes em 2017. Ele foi convidado para um festival cultural em Aldeburgh, na Inglaterra, e como sua obra ainda não havia sido traduzida para o inglês, ele precisava de um tradutor. Como já havia trabalhado na tradução de alguns poemas de Thiago Ponce de Moraes no ano anterior, foi o Thiago mesmo quem nos colocou em contato.


Quando se trabalha com uma tradução, há um momento de revelação, no qual você apresenta o texto em outra língua ao seu próprio autor. Dois chavões da tradução vêm à tona nesse instante: de um lado, o clichê inglês, lost in translation; de outro, o provérbio italiano, Traduttore, traditore. De fato, não existe tradução sem perdas e sem “traições”. Mas quando se trata de uma língua como a inglesa, que é razoavelmente conhecida para muitos, sempre receio que essas perdas inevitáveis sejam percebidas como traições imperdoáveis. E quando se trata de um poeta que também é um grande tradutor do inglês, como Leonardo, esse receio aumenta um tanto mais. Mas, ao longo do processo de tradução, senti-me tão à vontade no diálogo com o Leonardo, que todo e qualquer receio se desfez: Leonardo não é só um grande tradutor do inglês, ele também é uma das pessoas mais generosas que já conheci. 

Por duas ocasiões, tive o prazer de visitar Leonardo, sua esposa Regina e família no sítio que fica na região serrana do Rio de Janeiro — um refúgio que cultivam desde os anos 1970, quando decidiram fugir do caos urbano. Foi lá, naquele lugar, que a minha experiência com a sua poesia adquiriu ainda mais profundidade. Ali revisamos algumas das traduções que fiz e fizemos também uma entrevista sobre a sua trajetória. Lembro-me que foi em meio a essa entrevista que ele, de repente, fez um gesto para uma das árvores e disse: 

Eu tenho um poema, talvez seja dos mais conhecidos, que se chama O apanhador no campo e descreve uma cena acontecida aqui, a poucos metros, aliás, de onde estamos, naquele pé de caqui – que agora está decadente, mas isso há alguns anos.

Esse grande poema, cheio de felicidade e amor, descreve um caquizeiro também na sua plenitude. Na mesma conversa, Leonardo mencionou sua primeira roça de milho que deu origem a outro de seus poemas, Mulheres de milho. Como o caquizeiro que vai cumprindo seu turno, aquela roça também se cumpriu. O poeta observa as transformações da natureza são observadas pelo poeta no sítio todo: outrora um campo de capim, hoje com suas árvores decadentes que vêm sendo substituídas por outras, novas. É dali, é daquela natureza que o envolve, que Leonardo nos dita os seus poemas, vem da natureza sua linguagem própria: fugacíssima, em transformação constante. Toda essa dinâmica da vida — diga-se: da natureza — nos é traduzida por Leonardo em algo que, talvez, seja possível compreender: a poesia. É claro que, se por um lado, toda essa dicção tão própria não torna mais fácil o exercício da tradução de seus poemas para outras línguas, por outro, é bem verdade que o torna, sim, muito mais rico.

A celebração dos 80 anos de um poeta como Leonardo, em um momento em que temos sido levados a olhar com mais cuidado para tudo aquilo que diz respeito à natureza, é mesmo motivo de grande alegria. O que seus poemas nos transmitem é algo como uma escuta fina, uma visão acurada, um estado de atenção que se cultiva, também ali, na faina diária com a terra. Algo que evidentemente nos mostra como a poesia pode expandir a nossa noção da vida/natureza, mas, sobretudo, como essa vida/natureza pode também expandir a nossa noção de poesia.


The Observer Observed


When I lose myself in thought,
because I find, in the animal
I am watching intently, a more interesting
object of study, than me and my frailties
or my immoderate joys;


and leaving aside, in the process,
any and all vestige of who I am,
memories, duties or dates
or pains that still hurt;


when, stiff, still and alert,
so as not to frighten it,
I confuse myself with the animal,
already unsure which one of us
belongs to my consciousness of myself—


—something greater establishes itself
in this lack of distinction between us:
the glory, the beauty, the relief,
matter cohering impersonally, eternity.


LEONARDO FRÓES

Tradução ROB PACKER


.

.

.











terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

"Maria Lúcia Alvim e o desperdício dos poetas", Rio de Janeiro, 'O Globo', 15.02.2021

 O jornal carioca O Globo publicou nesta segunda-feira, 21 de fevereiro de 2021, um artigo meu no qual detalho o processo de descoberta e edição do trabalho de Maria Lúcia Alvim (1932-2021), mas também no qual tomo a liberdade de propor o fim da necrofilia literária no país.


Leia-o aqui.



.
.
.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

MARIA LÚCIA ALVIM VIAJA PARA A TERRA SEM MALES

Maria Lúcia Alvim, Hotel São Luiz, Juiz de Fora, Minas Gerais, 2013.


MARIA LÚCIA ALVIM VIAJA PARA A TERRA SEM MALES

Maria da terra de várias Marias,
aparecidas e desaparecidas,
Maria da casa de outra Maria,
que apareceu mais cedo
e mais cedo desapareceu

às vezes nem quero saber
se o grande poeta estava certo
sobre os gregos antigos
e sua recusa de necrológios,
só o inquérito por sua paixão,
a paixão do recém-morto,
a paixão do há-pouco-vivo,
tinha?

nem
nosso costume da guarnição
do cadáver para eventual ressurreição,
os velórios herdados dos ibéricos,
a península do palimpsesto abraâmico

nem
se meus mortos
tornam-se guardiães
ao redor do terreiro e sua terra,
se metamorformoseiam-se
em espectros alados,
se migram para um reino
inimigo do reino dos vivos

o que importa
a você agora um
Ave, Maria
se por anos o que ocupou
sua visão e garganta
foram os garnizés
e o Pavão
agora também morto

difícil dizer
o que dizem de nós
nossos ritos
à hora da morte

arqueólogos
estudam por décadas
para depreender de restos
a vida de espécies extintas,
de crânios e úmeros,
de fêmures e tíbias,
de minúsculos carpos e metacarpos,
ou diálogos amorosos
inferidos
de um fragílimo osso hioide,
e leem neles sinais como a búzios

aqui uma ferramenta
depositada no túmulo,
ali a cor do ocre
tingindo rubra o branco do cálcio,
e a insinuação do afeto pelo morto,
dos vivos
agora também extintos

mas me comociona ao extremo
quando ouço num documentário
um desses velhos arqueólogos
que ainda se excitam com o pó
de onde viemos e ao qual voltamos,
dizer:

olhem, notem
esse osso
com uma fratura calcificada,
esse esqueleto em frangalhos,
notem essa peça quebrada
mas remendada,
percebam esse doente
tratado há milênios,
alguém dele fez-se
de enfermeiro,
por ele também se caçou
mastodontes,
também dele foi o usufruto
da coleta cuidadosa
de frutas comestíveis

é assim, Maria,
milênios mais tarde
depreendemos
de ossos
fraturados e remendados
a existência de algum amor
entre gente morta
há milênios

talvez um dia
meu próprio esqueleto
seja analisado
e outra cultura
ou outra espécie
veja minha ulna
fraturada e remendada
durante minha adolescência
e alguém diga:

vejam,
notem,
não eram tão egoístas
aqueles antigos
que viveram durante as pragas
e a sexta grande extinção,
este aqui foi alimentado
enquanto remendava-se
a sua ulna fraturada
para que sobrevivesse

sempre foram estranhos
nossos ritos
com os doentes de amor
e os mortos das mil moléstias:

aquela mulher congelada no Altai
e enterrada com seis cavalos,
aquele homem na Escócia
enterrado dentro de um barco
pesadíssimo
que teve que ser arrastado
desde as águas

ou você agora
cremada
como se incineram as matas
da Zona da Mata
onde os bacorinhos
ainda são feridos
de morte
para alimentar a República
que deu as costas a você
enquanto você respondia
com canções
de fazer ninar
os morcegos
e os pombos
e os pavões

mas sabemos bem,
Maria das Marias
aparecidas,
desaparecidas,
que nossas palavras
mesmo se cantadas
a plenos pulmões,
não se fossilizam,
e, no entanto,
cá estamos,
cantando,
do centro
do coração
das taquaras
recheadas
de som.

.
.
.

Arquivo do blog