Rocirda Demencock

sábado, 19 de junho de 2021

Acerca de Walmir Ayala

Walmir Ayala (1933-1991)

Na pesquisa sobre a poesia homoerótica e os poetas homossexuais da República Federativa, um nome recorrente e incontornável é o do gaúcho Walmir Ayala (1933-1991). Não conheço poeta contemporâneo que o reivindique – ou vindique. Continua uma figura que se obscurece cada vez mais desde sua morte. Certamente há um grau de homofobia nesse processo. Bastante vocal e barulhento durante a vida, foi gradualmente esquecido como figura cultural nas três décadas seguintes (são 30 anos desde sua morte). Não há justiça completa aí. Trata-se de um poeta bastante irregular, mas que deixou alguns poemas sim bastante bonitos. 

A sensibilidade homossexual, tal qual Susan Sontag buscou teorizar no ensaio "Notes on camp", tem o que os modernistas chamaram de "gosto de antiquário", ainda que não da maneira como eles usavam a expressão. E o gosto CAMPista tende ainda ao exagero, ao que chamamos de espalhafatoso. Em poetas como Sosígenes Costa, Valério Pereliéchin ou Mário Faustino, essa explosão, essa centrifugacidade, acaba contida pelas formas do soneto e da balada. As métricas fixas não têm como fazer milagres com a linguagem abstrata e algo meditabúndia de Walmir Ayala. Além da sua falta de humor, sua aparente incapacidade para a autoderrisão. Mas quando ele consegue ficar ao rés-do-chão, sua poesia voa muito mais alto. Parece-me o caso de muitos dos poemas reunidos neste livro que a Patuá lançou em 2019, 'Poemas do surf', até então inédito, e que traz um ensaio fotográfico de Alair Gomes a pedido do poeta. 

– Ricardo Domeneck

*

OS SOBREVIVENTES
Walmir Ayala
Sem as pirâmides de Atlântida,
sem as colunas de seus templos,
sem seus deuses e incensos,
sem suas lutas e arenas floridas,
eles deslizam esquecidos.
Seminus e luminosos
eles enraízam nas águas
do esquecimento.
O futuro é hoje – eles clamam
Quando o futuro for, nós saberemos.
Por enquanto navegamos sobre o nosso próprio sonho
como coisas ressurgidas.

*

Abaixo, uma resenha de Ricardo Silvestrin para o livro.



Resenha de Ricardo Silvestrin
para o livro de Walmir Ayala,
Poemas do surf (São Paulo: Patuá, 2019).
Foi lançado recentemente pela editora Patuá um livro que resgata o interesse por um poeta que teve uma trajetória breve e intensa na cultura brasileira. Walmir Ayala morreu aos 58 anos, autor de uma obra premiada e de destaque em diversos gêneros: poesia, romance, conto, crônica, diário íntimo, literatura infantil, teatro, ensaio, reportagem e tradução. Teve também uma produção marcante como crítico de arte.

Quando publicou sua Antologia Poética, foi saudado por Drummond em artigo que acentua o contraste entre “a poesia como vibração do ser inteiro”, de Ayala, em que as palavras encontram “seu ritmo e organização encantatória”, e “os gelados e vazios exercícios formalistas, amparados em muletas de teoria e vã guarda, quer escapistas, quer pretensamente participantes, que nos massacram a paciência”.

Walmir Ayala deixou ainda uma grande quantidade de livros inéditos. Entre eles, está Poemas do Surf (Editora Patuá, 2019). O volume é formado por vinte e quatro poemas e treze fotos. Os textos dialogam com o ensaio de Alair Gomes, todo com imagens de surfistas e suas pranchas na praia de Saquarema. O conjunto de fotografias foi realizado na segunda metade da década de mil novecentos e setenta, a pedido do poeta.




Não se trata, contudo, de poemas criados como legendas dos cliques ou uma releitura em palavras do conteúdo visual. As fotos ambientam a sequência de poemas. Ficamos dentro do mar de imagens e letras. Mas a poesia, no livro, se constrói de várias maneiras. Ora como observação, que se permite também a indagação, como quem tenta desvendar o sentido do que está diante dos olhos:

- Que coisa é esta que flutua
cegamente
sobre um lençol
de espuma
e corta, com sua quilha, a carne da água?

Ora como tentativa de recuperar o que ficou nas lembranças:

Procuro desenhar de memória teu percurso.
Inútil: estás sempre onde
não caem
as algemas dos meus olhos.

E mesmo a ausência é motivo para se criar do nada mais um poema:

Vejo o mar vazio.
Vejo a tarde, a última prata
da luz. E não te vejo.
Não vejo tua prancha,
nem o estrepe te ligando,
canal umbilical.

Predominam as imagens nos versos, a maioria sem rimas, mas que não abrem mão, em alguns momentos, de buscar a sonoridade interna das palavras: “Baila/em Bali/a onda bailarina.”. E mesmo a aparente leveza do tema escolhido, o surf, não descarta o peso de uma reflexão mais sombria sobre o testamento do surfista: “Sua herança é quase nada./Um sopro quebrado,/uma renda de espuma de alabastro.//Sua herança é o despojo/inútil/de um mastro.”.

O livro de Ayala é um exercício de descentramento do poeta, daquele tipo de poeta que só olha para si mesmo, para os seus sentimentos, para as suas vivências. Aqui, ao contrário, o que importa é olhar para o outro, para refletir sobre e a partir dele. Também a eleição de um tema pouco explorado na poesia conta pontos nesses poemas do surf. Trata-se de um assunto não codificado tanto naquilo que se costuma chamar de poesia do cotidiano quanto na linha dos ditos temas mais elevados.

Essa temática e esse livro cabem perfeitamente como a realização de uma visão mais ampla de Walmir Ayala, conforme ele expôs no seu poema abaixo (extraído do livro Estado de choque, a poesia de Walmir Ayala. São Paulo: Galeria Parnaso; Massao Ohno Editores, 1980):

*
ARTE POÉTICA
Walmir Ayala
Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.
Poemas que não envelhecessem.
Aspirava os pensamentos abstratos, as ideias transcendentes,
jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.
Eu queria a estação permanente dos fatos,
aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos
em reflexos cíclicos
de uma realidade essência.
Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,
pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.
Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,
eu sei que, como todas as civilizações,
a nossa tem um fim,
e já durou demais.
Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,
adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.
Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.
Por isso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária
duração,
esta idade virtual com pés de efêmero tato.
Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver
à sua legítima história,
mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam
a vida.
Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,
quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração
oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.
Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.
*
Assim, não pode haver nada mais efêmero do que a onda. É sobre ela que o surfista tenta domar o tempo presente. É com ela que aprende a recomeçar e recomeçar: “A sabedoria de pousar num corpo/como se pousa na exatidão irrepetida/da onda.”. É o que acaba fazendo também Walmir Ayala. Cada poema do seu livro é um “tributo do instante”, o que não impediu o poeta de conquistar, como mostra esta edição vinte e oito anos depois de sua morte, mais do que a duração da onda: a perenidade do mar.

domingo, 6 de junho de 2021

Friederike Mayröcker (Áustria, 1924-2021)


 

ELEGIA QUASE UMA ODE COMO RITO FUNERÁRIO PARA FRIEDERIKE MAYRÖCKER

havia de ser assim 
também aqui nessa terra
senhora friederike mayröcker
dos rouxinóis e dos lobos
e nessa língua adotiva 
que a morte chega 
com os cartões de visita
como antes na língua 
da terra da língua natal 
onde há quase vinte anos 
também perdi a chance
de conhecer a outra outra
contemporânea tua 
sob o nome dado
à pronúncia e ao prenúncio 
senhora hilda hilst 
das mulas e dos porcos
morrem as matriarcas
as matriarcas morrem
e eu filho de úteros
e eu filho de urros
me curvo em ação 
de graças a essas mães
com o saldo de brás cubas
que nos ensinam o beabá
e também a estas mães
que nos ensinam o zeuzú
e é assim na tua língua materna
senhora friederike mayröcker
que primeiro chega a notícia
da morte no dia da tua morte 
e é na minha língua materna
que começo assim começo
essa elegia quase uma ode
na tua terra onde há tempos 
foste nomeada canonizada
a grande dama da língua
essa forma de em vida 
dar-te menos bálsamo
do que te embalsamar
com tua flora ensandecida 
a brotar da tua cabeça 
com outras pirotecnias
que verdejam então flavescem 
tílias ligustros plátanos aceres
teu gosto por metáforas 
que crescem como crescem
naturais das plantas seus nomes
ciladas para teus tradutores 
tal qual aquele wolfsmilch 
num poema todo lupino 
que certa vez me desmamou
sendo tanto leite-de-loba
quanto cabeça-de-medusa
qual afinal tua área de broca 
sempre foi um mamífero 
de dentes afiadíssimos
a amamentar uns órfãos
novos rômulos e remos
um medusário teu crânio
e nós sabemos que materna 
e madrasta é toda língua
mas neste primeiro dia
da tua ausência-morte
meus olhos vão propositais
além do parapeito da janela
aquém do umbral das montanhas 
meu horizonte de sarça
onde arde o oxigênio
e sopram a trombeta do sol
as andorinhas-dos-beirais
como jatos de vento fresco 
em suas aéreas manobras
sua defesa anti-falconiforme
e tanto as andorinhas-dos-beirais 
nas garras dos falcões-peregrinos
quanto os falcões-peregrinos
nas garras dos mochos-orelhudos
são fenômenos da natureza
e os guindastes amarelos
que ora giram como girafas
no meio da cidade de Graz
e os aviões que a sobrevoam
são fenômenos da natureza
como teus poemas faunoflorais
e a fauna de faunos em todo poema
são fenômenos da natureza
como os brotos das begônias
e os estames das tulipas
são fenômenos da natureza
como as ninhadas da codorniz
e as proles do camundongo
são fenômenos da natureza
como os gritos da criança no quintal
e ao longe as buzinas dos carros
são fenômenos da natureza
como os bolores que ora crescem 
no rosto da rosa no rosto do teu rosto
são fenômenos da natureza
são naturezas do fenômeno

*

Ricardo Domeneck, Graz, Áustria, 4-6 de junho de 2021.

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sexta-feira, 30 de abril de 2021

Frederico Klumb - "Mapas"


Nos últimos anos, Frederico Klumb tem sido um colaborador em textos e imagens, um correspondente com quem discuto os meandros da prosa, um interlocutor, um amigo. Vocês conhecem o vídeo dele para minha colaboração com Francisco Bley? 




Fico sempre feliz de poder ler em primeira mão alguns dos seus textos. Este, abaixo, li há pouco tempo, e pedi permissão a ele para publicar aqui, por ter gostado tanto dos ditos-e-feitos. Klumb terá um conto inédito no primeiro número impresso da revista Peixe-boi. Por ora, deixo vocês com este "Mapa". Num poema inédito que se quer um retrato de Klumb, falo sobre seu "coração de cantor de feira". Está aí, creio, também nesse poema. O poeta e prosador nasceu no Rio de Janeiro em 1990.


Mapa
Frederico Klumb

                   (p/ M.)

No meu país há essas costas 
pedregosas banhadas pela luz 
da lua de vitiligo no seu rosto.
No meu país cabelos crescem
livres de coroas (não de espinhos), 
e as estrelas são letras 
do segredo que chamamos Noite.
No meu país há animais e mentiras 
sublimes, o que os gregos 
queriam dizer com Destino: 
o choro, o cloro, o sal, os temperos, 
os gatos e uma amendoeira ordinária 
e torta. E há os xaxins, capins, cajás, 
caquis, muxoxos e ai meu Deus 
dos nossos amigos. Lá, onde o vento 
é o terceiro animal invisível, porque 
antes veio a luz, e primeiro foi o Verbo. 
País doce e terrível, onde a antiga 
estrela do Norte é um hipopótamo 
e um dragão – dois ilustres cidadãos 
da República das Manchas De Pele - 
onde se mistura Pelé com 
Kamikaze sem medo do desastre. 
Onde há brumas, brujas, livros 
velhos, senhoras argentinas
bebendo cerveja de canudinho, 
canários engaiolados, canalhas 
arrependidos e pássaros anônimos 
em todas as matas. Um país que canta 
cujo Deus maior é o Movimento. Um país 
de manhã, pronto a se perder de vista.

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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Leitura em Curitiba em novembro de 2019 [com Dirceu Villa] em gravação da Catatau Filmes

 


Esta filmagem de Gregório Camilo e da Catatau Filmes foi feita durante uma leitura em Curitiba, Paraná, na Mímesis Conexões Artísticas em novembro de 2019, um mês antes de eclodir na China o vírus que tornaria impossíveis noites como essa. 

Na mesma noite leram também Dirceu Villa, que me convidou para o evento e tem sua leitura também registrada no filme, e Jussara Salazar. Meu agradecimento à Catatau Filmes, que mantém seu trabalho cinematográfico bem rente dos poetas.

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sábado, 24 de abril de 2021

EXALÇAÇÃO DE MAXIMIN, MÁXIMO-ALFA

Há uma semana, topei com Maximin pós mais-de-ano sem ver a geringonça. Não havia mudado o contador de vantagens. E como eu sou ridícula, mal o vi e já borbulhou outra ode na boca.

EXALÇAÇÃO DE MAXIMIN, MÁXIMO-ALFA

Bem sei, Maximin, que és campeão 
em tudo, sobre todos.

Quando chegas, o peito-balão 
qual galo-de-briga, os outros 
machos 
se contorcem no salão, prontos 
à escaramuça.

Boquiaberto, assisto à violência lactante 
dos cachorros jovens.

Hermafrodisíaca e viagrátis
é a vigia desses rituais 
de recorrente eleição à chefia da matilha
e eu sou a Xerazade 
desse rodízio 
dos reis de uma-só-noite.

Levo à orelha o telescópio, 
ergo aos olhos a corneta acústica. 
À vossa santidade, Maximin, faço  
de padê minhas oferendas.

Tu então fazes o exórdio 
do épico-de-ti-mesmo,
hino das vantagens que cantas, 
encomiástico 
de tuas próprias falcatruas. 

Se não existisses, eu
teria que te inventar como te invento.

Canta-te a ti mesmo, ó grão-tão
Maximin, eu te escuto. 
Que proezas relatas hoje à Eclesia? 

Sim, é óbvio que a Chomolungma 
e o Aconcágua tu já escalaste. 
Cruzaste o Mar Cáspio e Egeu a nado, 
também o Titicaca e o Tanganica. 
Foste antes de Peary ao Polo Norte,
ao Polo Sul antes de Amundsen.

Grandes são teus feitos, Maximin.
Agora escala-me e cruza-me,
finca a haste da tua bandeira 
nos meus poros Norte e Sul.

Faz de mim sobre este colchão de molas 
a Rosa-dos-Ventos.

Sou o último Oceano e Deserto 
que sobrepões e sobrepujas,
ó Argonauta-dos-vaus-de-córrego,
ó Cantagalo, ó mentiroso-mor,
teu é meu louvor compulsório,
ainda que não me engambeles.

Ninguém te cultua como a ti cultuo.
Ninguém me cutuca como a mim cutucas.

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

[fragmento]

 creem-se órfãs
a calicarpa e a grandiúva
ou chamam mãe
ao pássaro que no bucho
carregou a grã
-semente de suas frutas?

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terça-feira, 20 de abril de 2021

Frederico Nercessian - "Curtume"

Vídeo e vocalização de Frederico Nercessian para seu poema “Curtume”. Publicado originalmente na revista digital escamandro, o texto terá sua primeira publicação impressa na Peixe-boi, minha nova revista a ser lançada em parceria com a Edições Jabuticaba, ao lado de outros inéditos do paulistano.

Partindo de um ditado armênio, “a vaca vermelha não muda o couro” [língua que o autor estuda e da qual traduz, tendo nascido no seio da comunidade armênia de São Paulo], o texto opera um rodízio de percepções entre o concreto e o abstrato, de um boi individual tão presente na poesia brasileira, à espécie e sua intrincada relação com a nossa própria espécie.




CURTUME
Frederico Nercessian

         կարմիր կովը կաշին չի փոխում
         (karmir kovê kashin tchi pokhum:
         a vaca vermelha não muda o couro)
               – ditado armênio

boi vermelho couro veste. se não vestisse, apenas boi, boi não-identificado. boi, uma vez que boi, boi veste couro. couro muda, mas boi que veste um couro não muda, corte o rabo, vista a sela, ponha pra pasto ou corte, vermelho que couro veste assim o é, gado. gado azul, couro também veste, mas isso é coisa outra. não é vermelho, é azul. no todo, dois bois, um vermelho outro azul. boi ideia, boi sensível, gado.

gado de sela, gado de pasto, gado de leite, um gado. mas boi, o que é? o que não é, sei, vermelho ou azul, pecuarista, de corte. boi é boi. boi, se vermelho couro veste, pasta, muge. bois de couros bois, tantos bois, e o vermelho apenas couro veste. boi come, arrebenta a cerca, foge da sela, coiceia a ceia, boi cansado de couro, muge ao ser chamado do que está sendo: gado. boi, é preciso que o diga, é boi. gado é outra história.

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domingo, 21 de março de 2021

BICHANO




O jaguar não torna supérflua a suçuarana
que não torna supérflua a jaguatirica
que não torna supérfluo o jaguarundi
que não torna supérfluo o maracajá.

Outra opinião a respeito 
têm com certeza têm
as antas e capivaras,
os veados e cutias,
todas as queixadas
do mundo-mundo.

Nem qualquer um deles torna 
dispensável ou prescindível
esse bichano doméstico
aninhado no seu colo,

como se dentre suas pernas
fosse dar um bote algo vivo,
algo feroz, algo volitivo.

Nos desenhos animados
da infância aprendemos
que o cão é a razão de 
ser do gato que é 
a razão de ser 
do rato.

Alimentar é o nome dessa cadeia. 
Social é o nome dessa pirâmide.

Aquele amor de 2019 não tornou supérfluo 
aquele amor de 2012 não tornou supérfluo 
aquele amor de 2007 não tornou supérfluo 
aquele amor do ano 2000.

Não me diga não que a suçuarana 
é o puma, o cougar, a onça-parda.
Deixemos esquecidos os amores 
de outro milênio, as suçuaranas,
sua predação, suas queixadas.

Caminhe até mim e arreganhe
suas garras e mandíbulas,
sua boca e sua língua,
sua úvula e garganta,
esôfago e buchada.

Um peixe enorme
já serviu de hotel
a um profeta, que 
um gato grande
seja a quitinete
de um poeta.

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Berlim, 15/16 de março de 2021.

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Homenagem ao octogenário Leonardo Fróes

Leonardo Fróes lê no Largo do Rosário, em Tiradentes, Minas Gerais,
durante o Festival Artes Vertentes, a 17 de setembro de 2014.
Foto de Cecília Santos.

Hoje, 17 de fevereiro de 2021, o grande poeta Leonardo Fróes completa oitenta anos. Na última década, contra os poréns e entretantos do sistema literário brasileiro, o senhor fluminense se tornou uma figura incontornável para as novas gerações de poetas brasileiros. Para comemorar a data, convidei alguns autores a escreverem sobre Fróes, poemas, depoimentos, traduções. Inicio com um poema de Dirceu Villa, o primeiro a me falar de Fróes, e certamente um pioneiro na valorização de seu trabalho na minha geração. Seguem então textos de autores de gerações diversas. 80 Fróes! Que venham agora os 90 e muitos livros mais. Este ano sairá sua poesia reunida pela Editora 34, editada por Cide Piquet.

DEPOIMENTO E POEMA A LEONARDO FRÓES
Dirceu Villa

Celebramos os 80 anos de um grande poeta, Leonardo Fróes, que é também um homem ímpar. Celebro além disso o amigo querido, & o autor dos versos que muito pessoalmente vêm vivos na minha estante, na minha mente & na minha vida desde o fim da minha adolescência, & que terão soprado um pouco de sua ciência na minha própria escrita.


Vida longa ao mestre. Viva Leonardo.


PETITERRA

Dirceu Villa


             a Leonardo Fróes


se propomos a subida, deus era uma flor então,

ou o animal desconhecido : árvores falam, não

em segredo, mas aos seus olhos, com raízes.

alcançar o topo para a conversa fatal? ao invés,


o silêncio nos envolve, e a água para a descida,

mãe dos nossos poros, frescor de filosofia em

jorros, corredeiras, discreto veio de vida. o sim

às sombras, nas veias o vendaval e a neblina. o


homem e a casa acontecem, sólidos sob silvos de

floresta; a rainha de raios obscuros se ergue uma 

vez mais das águas, dá à terra e ao ar seu conselho  

de som, e incha o jambo, a beterraba, de vermelho.


*

DEPOIMENTO SOBRE LEONARDO FRÓES
Reuben

A poesia dos livros, a poesia de linguagem, é apenas um convite. Hoje todos já ouviram a história do poeta que deixou a vida que levava para buscar o silêncio que lhe era próprio. Houve um tempo, algumas vidas atrás, quando fui tocado de febre por ter lido o Sibilitz, do poeta Leonardo Fróes. Hoje entendo que a emoção entre nós dois, o livro e eu, deu-se por uma grande solidariedade — o livro sabia (eu ainda não) que ainda iria precisar queimar em fogo alto para merecer a mim mesmo. Um dia, munido de ingenuidade, entusiasmo e lirismo, ao avistar o poeta, caminhando sobre as pedras lisas da cidade de Tiradentes, sapequei-lhe um vigoroso abraço. Eis tudo. Longevidade e saúde são sinais de inteireza. Pode ser um mito distante ou uma realidade encarnada. Só não precisa ser a exceção.


*


A POESIA E A MATANÇA DO AEDES AEGYPT
Rodrigo Lobo Damasceno

                          para Leonardo Fróes

Escrevo muito ao fim do dia,
   depois da tempestade 
que derruba
a energia
elétrica
e liberta
os mais jovens exemplares do Aedes Aegypti
na cidade – as cores todas se apagam
em São Paulo.
Os mosquitos zebrados
zumbem no meu ouvido – fazem zum zum
como as britadeiras que abriram o dia,
de manhã cedinho. A cada poema original
que escrevo, desfiro
uma série
de tapas na minha própria
   orelha. Fico com sangue
nos dedos. Vladimir Nabokov, pelo que sei,
caçava borboletas. Nenhuma visita
em vista. Uma pessoa passa 
lá embaixo, na rua, correndo da chuva
(que recomeça) com seu cão de raça. 
Não tenho cachorro porque vivo num apartamento.
Eu acho isso muito chato porque fico tenso.
Às vezes penso que amanhã vou acordar com dengue.

*

Escritório de Leonardo Fróes.
Petrópolis, RJ, 2018.
Foto minha.

*

HOMENAGEM FEITA EM CASA
Érica Zíngano

li um poema de po chü-i 

na língua do leonardo fróes 

é um poema que eu adoro 

“maluco cantando nas montanhas” 

é o nome do poema 

baseado em po chü-i 

ele escreveu isso

entre parêntesis 

no começo do poema 

no final do poema 

tem uma nota de rodapé 

com uma indicação de um livro 

em inglês one hundred and seventy 

chinese poems org. por arthur waley 

esse sinólogo inglês descobri depois 

nascido no séc. xix tem várias 

publicações interessantes

achei na internet o epub do livro 

com a versão do poema em inglês 

“madly singing in the mountains” 

ainda não procurei em chinês 


vão fazer uma homenagem 

pro leonardo fróes agora em fevereiro 

é seu aniversário 

pediram pra enviarmos alguma coisa 

até o dia quinze 

resolvi fazer uma versão da versão 

da versão da versão (imagino) 

desse poema de que gosto 

porque gosto do leonardo fróes 

dos poemas do leonardo fróes 

e desse poema em especial 

pensei que ele poderia ficar feliz

com essa homenagem 

homenagem feita em casa 

e o po chü-i também 


:


TEM SEMPRE ALGUÉM MAIS MALUCO AINDA 

Érica Zíngano


                      a Leonardo Fróes


quando nós pensamos que já vimos 

de tudo nessa vida 

tem sempre alguém mais maluco ainda 

diante de uma mão cortando o tempo 

contando os grãos de arroz 

num formato de montanha crescendo 

crescendo sobre a mesa      poderia ainda 

a poesia      ser considerada uma fraqueza? 

por mais lírico que tudo isso seja 

mãos   montanhas   poesia — nosso ponto 

fraco — sejamos francos: eram mais de 

mil espectadores online assistindo 

acompanhando a montanha crescer 

crescer em movimento ascensional 

até desaparecer a unidade menor 

se tornando uma unidade maior 

uma pequena pequena grande 

montanha branca de arroz 

de grãos de arroz empilhados 

delicadamente um sobre o outro 

o preço do arroz aumentou mais de 

60% durante a pandemia 

quem vai querer comprar?

quem vai poder?


eu quase nunca penso na paciência 

mas tenho agora algumas moedas de troca 

nas mãos essa montanha solitária como modelo     

rodeada de milhares de testemunhas online 

vigilantes  quem vai?

a alegria é bem mais imprevisível           

é tudo tão explosivo    é bom poder encontrar 

um cachorro vivo abanando o rabo 



*


DENTRO DE UMA CASA EM CHAMAS: UM PERCURSO

João Gabriel Madeira Pontes



                    a Leornardo Fróes



a) “If prose is a house, poetry is a man on fire

running quite fast through it.” (Carson)


Dentro de uma casa em chamas, hipóteses


Dentro de uma casa em chamas, hereges

herdeiros, heróis – mas, sobretudo, hereges


Dentro de uma casa em chamas, linhas

mortas, línguas domesticadas pelo tempo

livros, tempos mortos, listas incompletas




b) “e eu mesmo sendo dissolvido também

nessa casa alagada, não me acho

enquanto solidez: vou flutuando

como onda inconstante na correnteza.” (Fróes)


Dentro de uma casa em chamas, bebe-se

à casa em chamas, às suas beiras, aos seus

becos, bebe-se a quem pôs fogo na casa

aos seus berros, bebe-se a quem ficou


Dentro de uma casa em chamas, bebemos

a casa, os seus bichos, as suas bifurcações

estes bocejos, estes boatos, aquela baía

Dentro de uma casa em chamas, bebemos 

quem ficou, bebemos quem berrou primeiro


Dentro de uma casa em chamas, cevados

pelo silêncio, torcemos por algum milagre

Do lado de fora, o boi dá sentido à cerca

o céu legitima as nossas poucas certezas

mas, quando cresce a tarde, o céu dissolve

toda certeza, e o boi, enfim, rompe a cerca




c) “Water and fire succeed

The town, the pasture and the weed.” (Eliot)


Dentro de uma casa em chamas, não há

metrópole, norma, nome ou rua navegável

Suas janelas, suas portas e paredes nuas

negociam a chegada de novos janeiros

Insinua-se a casa em chamas, viva ainda

embora disposta a nos ensinar a morrer

(Pastos sem norte, noite sem eventos)


Dentro de uma casa em chamas, ouço

passos no corredor, oráculos, orgasmos

Dentro de uma casa em chamas, entre

ouriços-cacheiros e obituários, ouço-lhe

dizer que prefere um deus sem opiniões

um deus de ombros baixos, um deus-boi

de “olhar estúpido”, que possa ruminar

o orgulho: origem e ocaso de toda cidade




d) “Some say the world will end in fire,

Some say in ice.” (Frost)


Dentro de uma casa em chamas, fogo

mas também fome e fé: fome de figo

e febre para acreditar que não existe

no mundo inteiro fogo capaz de engolir

a figueira do quintal, a figueira que está

de pé desde antes do teu primeiro feito

da tua primeira febre, talvez desde antes

da descoberta do fogo, da fé, da fome

a figueira que dá figo com gosto de brasa


Dentro de uma casa em chamas, neve

                                             [pelo chão





*

A POESIA E A MATANÇA DOS MOSQUITOS [EM QUADRINHOS]
Patrícia Lino








*

[UM SILÊNCIO É PRA SEMPRE DO FRACASSO]
Guilherme Gontijo Flores

             a Leonardo Fróes

um silêncio é pra sempre do fracasso
                o vento invade as frestas
que nem a mata 
                invade a vista
e a ideia de deus suprime
o tempo descambado
noutras contemplações

(as pulgas mordem entre os pelos
        e as patas se confundem
entre coceira e passo 
donde a tenebra espessa
apressa o dia
                que não vemos)

daí que a linha reta seja sempre
        falsa medida
onde curar feridas e o sol
não nos contempla mais do que outra estrela
        qualquer no breu das eras
estamos nós na escuridão
como um reflexo fraco
                do cristalino opaco
na meia-noite

(mutucas comem carne 
        e traças pousam no papel
a luz é fraca e a cidade
                estalará por fora
feito lonjura irremediável
por dentro feito uma fuga
no peito do concreto)

anote-se a deriva de um ruído
que da ruína dele nascerá
— feito berne na nuca feito 
        o nunca do tempo inventado
                feito afeto invertido 
a marcação do olvido numa bênção
que pulsa e estala e sulca a nossa pele

(batistérios do amor incógnito
ou salmodia das ranhuras
se caminhamos dispersivos
na bruma até brotar um olho-d’água)

*

O INCONTROLÁVEL CORAÇÃO DE LEONARDO FRÓES

Leonardo Marona


estou cansado e forte e penso no meu xará

com alma confuciana e canelas esdrúxulas,

um samurai, inclusive, com olhos puxados

e um milhão de anos na carcaça de um pã

que nunca, em tempo algum, pude encontrar,

enquanto anos a fio sonhei com a ideia

de ter qualquer espécie de sábio guru

sem breguice e que pudesse me dizer

leonardo faça isso, leonardo vá por aqui,

e que sobe em árvores crespas e explica

cada órgão de cada filho verde de deus

como, enfim, o sonho de uma criança

também de olhos puxados e aquariano,

também uma tentativa, com mais medo,

de entender maneira de frear o que é ruim

e amar os mais novos conforme a tartaruga

pode amar suas centenas de ovos, um a um,

e enfrentar a maior travessia da sua vida,

rumo a destino incerto, sinuoso desfecho,

um animal antigo que ama o suficiente

para fazer o que não é possível e por isso

completa a jornada como um pai, um filho,

como um ciclo vivo de carne e muito osso,

mandala refletida em dentes e compaixão,

um que sabe que nos sonhos não se dorme,

que o mal acontece e todos podemos ver,

mas dentro do órgão de cada fruta ele vem,

inquieto, uma criança de um milhão de anos,

com quem se aprender que quase sempre

a estrondosa derrota é verde como o perdão.


*


FRUTAFRÓES
uma série de desenhos de Matheus Chiaratti












*

CACHORROS DE ÁGUA, MONTANHAS, TUDO QUE A VISTA ALCANÇA

Frederico Klumb


                      para Leonardo Froés


Bastaria dizer que há no mundo 

uma abelha chamada carpinteira azul.

Bastaria dizer seu nome vulgar –

ao alcance da ciência das mãos.

Dizer que ao olhar o maciço

de pedras naquela manhã

de janeiro, as nuvens cobriam

as copas das árvores

mais altas, e desenhavam assim

um cão gigante no céu.

Bastaria falar, talvez,

os nomes de tudo o que a vista

alcança, e encontrar neles

uma justificação do homem.

Mas o homem da montanha

procura a justificação

de Deus. Os sentimentos

atômicos, a partícula do vento,

da fala nas bocas humanas,

dos cascos dos burrinhos

subindo a ravina. “O passado –

que não existe – é talvez

minha única invenção gloriosa”.

Baudelaire dizia que os chineses

vêem as horas nos olhos dos gatos

E o homem da montanha,

nos olhos de um cão danado?

No corpo de um sapo achatado

sob o pneu do carro?

Esperamos sempre. Uma hora, 

uma carta. Mas é quando não espero

que descubro isso que chamam

de alma, e posso oferecer

a alguém uma coisa.


*

 DEPOIMENTO
André Luiz Costa

Descobri a poesia do Leonardo Fróes por acaso, em uma postagem da Modo de Usar & Co. que apresentava brevemente a biografia do poeta seguida por uma seleção de poemas. Lembro até hoje do efeito que "Metafísica e biscoito" teve em mim. A sucessão de imagens insones, no ritmo angustiante de um eu consciente do espaço que o cerca, cortada pelo simples ato de comer um biscoito, beber um copo de leite e fumar, me acompanha desde a primeira leitura. Alguns poemas retornam na mente sem que haja esforço de memória, e esse é um deles. Muito do que Fróes desenvolve em sua poética está contido nesse jogo entre abstrato – às vezes surreal – e cotidiano. Gosto desse aspecto porque parece inaugurar um mundo, ou uma forma de ver as coisas, sensível ao imaginar possibilidades a partir do que é estabelecido. O eu nos poemas de Fróes está em sincronia perfeita com o natural, mas também entende que há uma atmosfera desconhecida presente em tudo o que vê. A trilha que se abre nos poemas – pra utilizar outra imagem importantíssima em sua poética – parece o esforço que faz em nos mostrar como percebe esse desconhecido. Esforço que reverbera, certamente, entre a melhor poesia escrita neste país.   


*

ALI A LUZ PISCAVA
Ana Cláudia Romano Ribeiro

                a Leonardo Fróes

nos primeiros lugares, não confundir galinhas com lagartas

deixar as baleias cruzarem os oceanos bem livres até

chegarem à nossa mesa

posta

às nossas xícaras

onde 

se afogam

só assim se chega 


aos segundos lugares

de onde a vista dá para um anu branco e nuvens carregadas ao fundo

aquele acaso em que o topete de ontem se lança

até alcançar sobrevida sem asas

no cinza de hoje

felizmente venta

e se chega aos terceiros lugares


agora sim podemos

olhar nossa perna direita 

e ver a perna manchada 

a perna de veias saltadas bambas 

cicatrizes de moto contínuo

muitas picadas 

contra o mato alto crescendo 


nos quartos lugares é onde infinitamente se pensa

habitar uma casa é desalojar aranhas

a roupa é a casa do corpo

mancha é maquiagem do ido

casca é casa sapato planta

e lugares 

infinitam



*

A FLOR NÃO SABE SE CONTER

Fabrício Corsaletti


para Leonardo Fróes


nasci numa terça de Carnaval

e o mundo como sempre estava em guerra

um dia juntei minhas tralhas

e fui conhecer as montanhas

que via da janela do carro

amei a poesia chinesa

sou amigo de Fagundes Varella

pertenço à Escola dos Poetas Andarilhos

depois que aprendi a usar a enxada

minhas frases ficaram mais simples

acredito que é possível rir um pouco

até mesmo das histórias infernais


*

FÔLEGO

Flávio Morgado


          aos oitentas anos do poeta Leonardo Fróes 




oitenta anos inflam 

o pulmão do animal que observo;


a pedagogia das descidas 

educa as pernas e o

animal ofega enquanto narra. 


sísifo que aposta no delírio

                                      diante da

                                      queda

e nos entrega 

a propriedade afetiva das coisas:


o coração das bananas

o seio das beterrabas 

o caqui eleito 

                        e formas 

                        que se endireitam no ar


                                                                             

                                                                                                formigas escalam a leitura,



(Lawrence Ferlinghetti à luz de velas

traduz a utopia da renúncia 

e um neto dá nome às pedras)




- entre figueiras, 

o fôlego do poema

            traga 

um ato de concentração. 



*


DEPOIMENTO E TRADUÇÃO
Rob Packer 

Traduzir um grande tradutor


Conheci Leonardo Fróes em 2017. Ele foi convidado para um festival cultural em Aldeburgh, na Inglaterra, e como sua obra ainda não havia sido traduzida para o inglês, ele precisava de um tradutor. Como já havia trabalhado na tradução de alguns poemas de Thiago Ponce de Moraes no ano anterior, foi o Thiago mesmo quem nos colocou em contato.


Quando se trabalha com uma tradução, há um momento de revelação, no qual você apresenta o texto em outra língua ao seu próprio autor. Dois chavões da tradução vêm à tona nesse instante: de um lado, o clichê inglês, lost in translation; de outro, o provérbio italiano, Traduttore, traditore. De fato, não existe tradução sem perdas e sem “traições”. Mas quando se trata de uma língua como a inglesa, que é razoavelmente conhecida para muitos, sempre receio que essas perdas inevitáveis sejam percebidas como traições imperdoáveis. E quando se trata de um poeta que também é um grande tradutor do inglês, como Leonardo, esse receio aumenta um tanto mais. Mas, ao longo do processo de tradução, senti-me tão à vontade no diálogo com o Leonardo, que todo e qualquer receio se desfez: Leonardo não é só um grande tradutor do inglês, ele também é uma das pessoas mais generosas que já conheci. 

Por duas ocasiões, tive o prazer de visitar Leonardo, sua esposa Regina e família no sítio que fica na região serrana do Rio de Janeiro — um refúgio que cultivam desde os anos 1970, quando decidiram fugir do caos urbano. Foi lá, naquele lugar, que a minha experiência com a sua poesia adquiriu ainda mais profundidade. Ali revisamos algumas das traduções que fiz e fizemos também uma entrevista sobre a sua trajetória. Lembro-me que foi em meio a essa entrevista que ele, de repente, fez um gesto para uma das árvores e disse: 

Eu tenho um poema, talvez seja dos mais conhecidos, que se chama O apanhador no campo e descreve uma cena acontecida aqui, a poucos metros, aliás, de onde estamos, naquele pé de caqui – que agora está decadente, mas isso há alguns anos.

Esse grande poema, cheio de felicidade e amor, descreve um caquizeiro também na sua plenitude. Na mesma conversa, Leonardo mencionou sua primeira roça de milho que deu origem a outro de seus poemas, Mulheres de milho. Como o caquizeiro que vai cumprindo seu turno, aquela roça também se cumpriu. O poeta observa as transformações da natureza são observadas pelo poeta no sítio todo: outrora um campo de capim, hoje com suas árvores decadentes que vêm sendo substituídas por outras, novas. É dali, é daquela natureza que o envolve, que Leonardo nos dita os seus poemas, vem da natureza sua linguagem própria: fugacíssima, em transformação constante. Toda essa dinâmica da vida — diga-se: da natureza — nos é traduzida por Leonardo em algo que, talvez, seja possível compreender: a poesia. É claro que, se por um lado, toda essa dicção tão própria não torna mais fácil o exercício da tradução de seus poemas para outras línguas, por outro, é bem verdade que o torna, sim, muito mais rico.

A celebração dos 80 anos de um poeta como Leonardo, em um momento em que temos sido levados a olhar com mais cuidado para tudo aquilo que diz respeito à natureza, é mesmo motivo de grande alegria. O que seus poemas nos transmitem é algo como uma escuta fina, uma visão acurada, um estado de atenção que se cultiva, também ali, na faina diária com a terra. Algo que evidentemente nos mostra como a poesia pode expandir a nossa noção da vida/natureza, mas, sobretudo, como essa vida/natureza pode também expandir a nossa noção de poesia.


The Observer Observed


When I lose myself in thought,
because I find, in the animal
I am watching intently, a more interesting
object of study, than me and my frailties
or my immoderate joys;


and leaving aside, in the process,
any and all vestige of who I am,
memories, duties or dates
or pains that still hurt;


when, stiff, still and alert,
so as not to frighten it,
I confuse myself with the animal,
already unsure which one of us
belongs to my consciousness of myself—


—something greater establishes itself
in this lack of distinction between us:
the glory, the beauty, the relief,
matter cohering impersonally, eternity.


LEONARDO FRÓES

Tradução ROB PACKER


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