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quarta-feira, 24 de maio de 2023

Três poemas para São Sebastião


 

Dentro da iconografia cristã, a imagem de São Sebastião é uma das que mais me interessam. Há uma tradição forte em torno dela na arte em geral, e também na arte homoerótica. Reúno nesta postagem três poemas brasileiros sobre o santo. Um é já bastante conhecido, de Orides Fontela (1940-1998). Os outros dois, mais recentes, vêm dos colegas, colaboradores e amigos Frederico Nercessian e Luis Gustavo Cardoso.


SÃO SEBASTIÃO

As setas
- cruas - no corpo

as setas
no fresco sangue

as setas
na nudez jovem

as setas
- firmes - confirmando
a carne.

[Orides Fontela]

*

TIÃO

seu corpo
flecha

uma a uma
flecha

no peito no dorso nas costas da mão
pedaço da batata
arranha
flecha

arde a pontaria
dedilhos impulso
a corda
flecha

solavanco enfermo
rubro é a cor da manta antes
branca
flecha

afoga a mandíbula
prego
chinelo de dedo
arrasta a haste
disparo
flechas.

agora,
a casca da ferida.

[Frederico Nercessian]

*

NOME DO SANTO

São Sebastião nome do santo
teve coragem maior que eu, a
flecha pegou, o pau comeu, e

no entanto ele subiu as escadas
do castelo e repetiu ao chefe:
- Batei em mim, poupai os meus.

Subiu aos céus, às mãos de Deus,
seu chefe-mor: - Fora do corpus,
sem testamento, que o livro é meu!

Deram-lhe ao menos vida de rio
em que navego meu sangue ateu:
São Sebastião, poupai os meus.

[Luis Gustavo Cardoso]


*

Imagem:  Pietro Perugino, São Sebastião, 1495

.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Origens, fonte, ela

O título desta postagem, Origens, fonte, ela, é o título que eu um dia darei ao livro que quero dedicar exclusivamente ao trabalho de Orides Fontela. O que segue abaixo é um artigo em que retrabalho e reelaboro o que escrevi sobre a poeta paulista na Modo de Usar & Co., no ano passado, quando apresentei uma pequena seleção de seus poemas em nossa série "Sintonia de nossa sincronia".

Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista, em 1940. Mudou-se para São Paulo no fim da década de 60, ingressando na Faculdade de Filosofia e Letras da USP. Publicou seu primeiro livro, intitulado Transposição, em 1969, seguido de outras quatro coletâneas, compiladas em 2006 no volume Poesia Reunida 1969 - 1996, oito anos após a morte da poeta.

É costume descrever o temperamento de Orides Fontela em notas biográficas como esta, além de certa lenda que já se fixou em torno de sua biografia, para logo em seguida descartar esta mesma biografia em prol da descrição de sua poesia "enxuta", "concisa", "cristalina". Estes adjetivos fazem sentido em uma descrição da obra da poeta, assim como em seus poemas a primeira pessoa do singular parece estar consistentemente exilada dos verbos. A biografia de Orides Fontela importa pouco para a avaliação formal de seu trabalho, mas eu tenho certeza que haveria outra forma de pensar a conexão entre a obra e a vida do poeta. No caso de Fontela, não estariam ligados, a pobreza física e material de Orides Fontela e seu despojamento estilístico, o próprio desnudamento de sua poesia? Uma mulher sem casa, sem amores, talvez pudesse realmente louvar apenas o oxigênio. Pobreza material, veja bem, de uma poeta que negou o adorno e embelezamento poético até suas últimas consequências, e escreveu preferir, como trocas, "Um fruto por um / ácido / um sol por um / sigilo / o oceano por um / núcleo // o espaço por uma / fuga / a fuga por um / silêncio//- riquezas por uma / nudez."

Fala-se de neosimbolismo em sua poesia, por seu uso de substantivos que nos convidam a vê-los como "símbolos", freqüentes em sua poética, como "pássaros", "espelhos" e "rios" circundando o mundo. Eles convidam a isto. Mas algo muito importante separa o trabalho de Orides Fontela da poética dos neosimbolistas brasileiros, um dia reunidos em torno da revista Festa, comandada por Tasso da Silveira, dos quais hoje lemos apenas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Pois seus melhores poemas demonstram sua atenção linguística de poeta do pós-guerra, em um momento histórico que exigia, de seus símbolos, a consciência de serem signos, de uma poeta que compreendia nutrir sua simbologia pela linguagem, que a filtrava. Leia-se, por exemplo, o poema "Cisne", do livro Alba (1983):

Cisne

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
– a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e – humana –
é esplendor memória
e sangue.

E
resta
não o cisne: a
palavra

– a palavra mesmo
cisne.


Em Orides Fontela, o símbolo se faz signo, num movimento de mão dupla, em fluxo e refluxo, como se a linguagem poética, em sua capacidade múltipla de concretude e abstração, passasse a ter marés. Se Fontela está ligada por temperamento a poetas como Cecília Meireles e, por sua vez, a Cruz e Sousa, seu simbolismo "sígnico" faz Orides Fontela mais próxima, creio, da Henriqueta Lisboa de um livro como Além da Imagem (1963); não a Henriqueta Lisboa de A face lívida (1945) ou Flor da morte (1949), mas a poeta consciente dos jogos e artifícios da linguagem e dos símbolos/signos, a poeta que esta parece se tornar a partir da década de 50 (e que precisamos voltar a ler), especialmente em livros como o já citado Além da imagem ou no livro Reverberações (1976). Se pudermos aproximá-la da poesia simbolista, Fontela pareceria mais próxima de poetas com uma sensibilidade mais aguçada para a linguagem como jogo e artifício, caso de Pedro Kilkerry, o autor de poemas como "É o silêncio".

Mas este simbolismo sígnico de Orides Fontela é marca da poesia modernista do século XX, algo que também a aproxima de um poeta como Wallace Stevens, que fez da apropriação do mundo pela consciência, através da linguagem, o jogo poético por excelência. Isso viria a se tornar extremamente claro em poetas do pós-guerra como, por exemplo, Lyn Hejinian. Talvez uma aproximação possa iluminar o que tento argumentar aqui, com o poema "Anecdote of the jar", de Wallace Stevens, e "Fera", de Orides Fontela:

Anecdote of the jar
Wallace Stevens

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion every where.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.


Agora, o poema de Fontela:



Em Stevens, o mundo externo é o disforme, que a consciência humana organiza, cataloga e do qual se torna centro. Em Fontela, a linguagem passa a assumir uma posição mais ativa neste jogo entre mundo e consciência, fazendo com que a "fera", até então ausente para a percepção do que passeia na floresta, inconsciente do perigo, processe em primeiro lugar o sentido quando a fera se faz presente: a fera torna-se desta maneira o perigo de morte e também a palavra "fera". Também, se em Stevens este embate e organização do mundo pela consciência é assunto humano e apenas humano, sem sombra de transcendência, Orides Fontela manteve um fio místico em sua poesia, e seus livros possuem movimentos rotatórios, sofrendo enxugamento e pousando em concretude no chão do mundo, no poema de uma página, para logo em seguida abandonar-se em certo ambiente etéreo e simbolicamente carregado no poema da página seguinte.

Como se a poesia de Orides Fontela não se decidisse de forma definitiva entre a destruição do mundo por uma força centrípeta ou centrífuga. Seus poemas têm, em minha opinião, apesar da superfície polida de cristal, uma violência sem muitos paralelos na poesia do pós-guerra no Brasil. O mesmo tormento possa talvez ser sentido na prosa e poesia de Hilda Hilst, mas nesta outra mística a solução era o escárnio e a exuberância do dilúvio, enquanto em Orides Fontela o desértico, daquele que jamais possuiu coisa alguma, era preferível. Algo deste fluxo e refluxo, entre o concreto e o abstrato, entre o símbolo e o signo, pode ser sentido em vários poemas. Em "São Sebastião", do livro Helianto (1973), temos a concreção centrípeta do símbolo fazendo-se signo, do verbo fazendo-se carne, do mito ganhando corpo de sangue e osso.

São Sebastião

As setas
– cruas – no corpo

as setas
no fresco sangue

as setas
na nudez jovem

as setas
– firmes – confirmando
a carne.

A primeira vez que li este poema, estava de pé, à saída da biblioteca da Faculdade de Letras da USP, e quase tive uma vertigem. O título convida-nos à expectativa do etéreo de uma hagiografia. Nada poderia parecer mais distante de uma poética do corpóreo e do físico. As primeiras imagens ainda nos remetem à estátua do santo, do mito. Imaginamos este ser inexistente, pensamos no místico, no sacrifício impensável. No entanto, a progressão vagarosa de Orides Fontela é a de um bote de serpente, pois ela nos leva até o último verso, quando se revela não a estátua do santo, mas a carne viva do homem antes do santo. O poema parece-me de uma violência quase brutal. Sebastião deixa de ser mito e metáfora para fazer-se figura, figura como conceito da teologia cristã, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados, prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados. Aqui, a poética de Orides Fontela revela-se em toda a sua crença na historicidade de seu fazer.

Em "Clima", também do livro Alba (1983), tal via de mão dupla da linguagem se faz presente com força, abstração centrífuga, concreção centrípeta, signo, símbolo: linguagem.

Clima

Neste lugar marcado: campo onde
uma árvore única
se alteia

e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
.............................imobiliza-se

(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)

neste lugar marcado: campo
........................................imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se

- mudo eucalipto
...elástico
...e elíptico.


É neste livro, Alba, que acredito que Orides Fontela encontrou seu ângulo de equilíbrio. O livro é um ponto luminoso na década de 80 (assim como Asmas, de Ronaldo Brito, publicado em 1982). Poeta contemporânea, poeta do pós-guerra, Orides Fontela sabia escrever poesia com símbolos herdados de uma tradição milenar, mas informados em um mundo que já tivera os escritos de Saussure, Wittgenstein, Jakobson. Orides Fontela sabia que o silêncio não provinha da falta de respostas, mas de nossa incapacidade e limitação no momento de fazer as perguntas através da linguagem, cujos limites são os limites do nosso mundo, nas palavras de Wittgenstein.


Esfinge


Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.


É tentador mitificar a mulher que viveu como viveu e escreveu estes poemas, que mais parecem cubos de energia concentrada, esperando para explodir no olho do leitor. Seus poemas, à primeira vista tão simples, singelos, exigem a concentração e atenção daquele que pode sussurrar, como no poema-exórdio do livro Alba:


A um passo
do pássaro
res
piro.



Sim, a lucidez alucina. Morta em um hospital público em 1998, sem família, indigente como uma poeta, exatos cem anos depois da morte de Cruz e Sousa e o transporte de seu corpo para o Rio de Janeiro em um trem de carga, num vagão para animais, estas duas datas (1898 - 1998) encerram, para mim, o século XX da poesia brasileira.











Pensando nelas uma vez mais: duas poetas incontornáveis

Havia duas poetas entre os vivos ao fim do século passado que eu sonhava um dia conhecer quando me mudei para a cidade de São Paulo, vindo do interior do estado. Talvez não necessariamente "conhecê-las", mas pelo menos sentar-me a uma mesa de uma lanchonete qualquer, próxima da mesa em que elas tomavam seu café, liam ou simplesmente olhavam pela janela. Lembro-me da descrição de Caetano Veloso sobre como Torquato Neto seguia Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues pelas ruas do Rio de Janeiro, no fim da década de 60. Creio que era um pouco dessa mesma vontade, de olhar para os esqueletos e músculos e cabelos destas duas criaturas que me fascinavam. As duas nasceram também no interior de São Paulo, como eu, e estão entre os poetas brasileiros do pós-guerra que viriam a comandar minha atenção e ter um impacto gigantesco sobre meu trabalho e minha est-É-tica.

Falo aqui de Hilda Hilst (1930–2004) e Orides Fontela (1940–1998).


Descobrira a existência de Orides Fontela quando lançou-se o seu quinto livro de poemas, Teia (São Paulo: Geração Editorial, 1996) e a situação de pobreza em que vivia a poeta chegou aos meios televisivos. Lembro-me de uma entrevista, em que ela encerrava com a leitura do poema de abertura do livro Teia, o homônimo "Teia", como era seu costume nomear seus livros por seus poemas de exórdio.



Teia

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
...................prenhe:

no
centro
a aranha espera.



Ao terminar de ler aquele "no / centro / a aranha espera", ela olhava para a câmera de um jeito que dava frio na espinha. Tratava-se de um coisismo muito diferente do que eu aprendera a admirar e respeitar em João Cabral de Melo Neto. O coisismo de Cabral é pragmático, telúrico. Em Fontela, parecia se tratar daquele "coisismo ontológico" a que Haroldo de Campos se referira em relação a um poeta como Vasco Popa. Como o de Francis Ponge? Na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, eu viria a retirar muitas vezes o volume Trevo: 1968 - 1988 (São Paulo: Duas Cidades, 1988), em que leria admirado os poemas do lindo Alba (1983), livro que me parece um milagre na década de 80, assim como Asmas (1982), de Ronaldo Brito, e, é claro, Da Morte. Odes Mínimas (1981), de nossa gigante Hilda Hilst.

Foi com muita tristeza que abri o jornal, em uma manhã de 1998, para descobrir que Orides Fontela estava morta já há uma semana, mas jornal nenhum se dignara a informar o público. A poeta morrera, praticamente como indigente, num hospital público de Campos do Jordão, a 4 de novembro de 1998. O minúsculo artigo-obituário havia sido escrito por Alcir Pécora, creio, que a conhecera pessoalmente e admirava sua poesia.

Tecnicamente, toma-se o século XX como iniciando-se em 1901, terminando no ano 2000. Historiadores usam outras datas. Em minha mente, muitas vezes, o século XX da poesia brasileira inicia-se com a morte de Cruz e Sousa em 1898, terminando em 1998 com a morte de Orides Fontela. Duas mortes indigentes. Sei que seria mais "realista", digamos, apontar as mortes de Joaquim de Sousândrade e João Cabral de Melo Neto, em 1902 e 1999, para estes limites. 1902 é ainda o ano de publicação de Os sertões. Não estou, porém, tentando criar uma hierarquia. Nem estou com isso tentando estabelecer ou impor minha própria historiografia. É apenas meu hagiológio pessoal.

Tanto Cabral como Fontela comparecem com suas mortes em meu bilhete a mim mesmo, que encerra meu primeiro livro, contra a auto-glorificação que é típica entre nós, poetas, uma tentativa de lembrar a mim mesmo que somos pó, pó, pó, e se estes morreram como morreram, por que fim melhor haveria de me esperar?

Lembrete

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
............e escamas.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a C12H18N2NaO3.

Carlos Drummond de Andrade,
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
...................................cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.


(publicado orginalmente em Carta aos anfíbios, 2005. Versão nova)

§


Descobri Hilda Hilst quando esta lançou o romance Estar Sendo. Ter Sido (São Paulo: Nankin Editorial, 1997). Lembro-me de ler trechos, em pé, numa livraria pequena da Avenida Paulista, onde ia ler de graça pois não tinha dinheiro para comprar os livros, até chegar ao poema que encerrava o volume, intitulado "Mula de Deus", com versos como "Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO / Alta, dourada, me pensei. / Não esta pardacim, o pelo fosco / Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO" ou "Há nojosos olhares sobre mim. / Um rei que passa / E cidadãos do reino, príncipes do efêmero. / Agora é só de dor o flanco trêmulo. / Há nojosos olhares. Rústicos senhores." Quando cheguei aos últimos versos do poema, aquele deslumbrante "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula / (Aunque pueda parecer / Que del poeta es locura)", quase cambaleava.


Deu a febre.

Tornei-me devoto.

Nos próximos anos passei os livros de Hilst a todos que encontrava, formando um círculo de amigos que a admiravam como eu. Em 2004, decidimos: vamos a Campinas conhecê-la. Não sabíamos que a poeta estava há semanas no hospital, após uma queda que lhe trouxera complicações. Soube, mais uma vez pelos jornais, de sua morte a 4 de fevereiro de 2004. Telefonei perplexo para os amigos com quem planejava a viagem à Casa do Sol. Não queria crer. Naquela tarde, após sair do trabalho, lembro-me de caminhar para o Parque do Ibirapuera, onde queria ver uma exposição no MAM e, descendo a pé pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, comecei a compor na mente a primeira das "Seis canções óbvias":


Sair da cama, disse,
........foi simplesmente
........uma idéia incrível
........e deliberada
De invernos frutíferos
........construíram-se
........muitos infernos na
........primavera
A cama é um inferno pessoal
........e intransferível
E a pele vestida à noite
........desprega-se para acompanhar
........outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
........com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
........e morreu
........assim como o MASP
........é ao mesmo tempo
........museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
........simples patas


(Carta aos anfíbios, 2005)


Algum dia quero escrever sobre essa viagem à Casa do Sol, esta viagem que jamais aconteceu. Não conheci Orides Fontela, não conheci Hilda Hilst. Não as vi beber café em copo, caneca ou xícara. Tenho os poemas. Volto a eles constantemente, como quem quer matar a sede infinita.

§



§



.
.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os poetas da escassez

Publiquei hoje traduções para alguns poemas de Rose Ausländer (1901 - 1988) na Modo de Usar & Co.

A poeta nasceu em Czernowitz, na Bucovina, quando esta ainda pertencia ao Império Austro-Húngaro, mesma cidade de Paul Celan, 20 anos mais moço que Ausländer. Os dois se conheceram no gueto da cidade, quando suas famílias foram aí encerradas pelos nazistas, durante a ocupação da região, em 1941. Ausländer tinha 40 anos, Celan tinha 20. Ela descreveria mais tarde a forte impressão que lhe causara o poeta adolescente. Neste momento, ela havia publicado um único livro, intitulado Der Regenbogen (O arco-íris), em 1939, ainda fortemente influenciada por expressionistas germânicos como Trakl e também por Rilke, algo que compartilhava com Celan. Os dois estariam entre os poucos judeus sobreviventes da cidade, perdendo praticamente toda a família durante os extermínios. Ausländer sobreviveria aos últimos meses da guerra, escondida em um porão.

Ainda estás aqui

Lança teu medo
aos ares

Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures

Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui

Sê o que és
Dá o que tens


--- Rose Ausländer, tradução minha.


A escassez, o parco, o mínimo, o sussurro são características comuns entre muitos dos poetas sobreviventes da catástrofe. Vemos isso em Rose Ausländer, assim como em Nelly Sachs; em muito da poesia de Paul Celan, que caminha em direção ao emudecimento; na poesia inicial de Edmond Jabès antes de entregar-se à tarefa hercúlea de resgatar a autoridade perdida d`O Livro; em Tadeusz Różewicz (Polônia), em Dan Pagis (Israel), em Miklós Radnóti (Hungria), em Raymond Federman (França). Nestes poetas, sentimos que o mínimo, o parco, o escasso não se apresentam por seguirem uma mera cartilha qualquer de qualidade literária, ditando o "conciso". Neles, o mínimo é uma necessidade intrínseca, est-É-tica. Faz, em minha opinião, uma grande diferença.

É claro que, no caso destes poetas, esta lucidez deu-se por causa de uma tragédia, da Grande Catástrofe. Para eles, o adágio tantas vezes repetido por John Cage em seus textos //// WE POSSESS NOTHING /// era uma verdade inescapável. A estes poetas, restavam apenas a voz e a linguagem. Quando Celan escreve sobre a voz e o canto dos prisioneiros nos campos de extermínio, naquele momento pungente do poema "Todesfugue", por exemplo, ele não está criando uma metáfora. A língua e seu arcabouço eram tudo o que restava a essas pessoas, deprivadas de tudo e todos. Abandonadas. Um dos grandes impactos do ciclo de filmes conhecido como Shoah, de Claude Lanzmann, está na potência desta história oral, contada pelos sobreviventes, que se inicia com um senhor, que um dia fora um menino de 13 anos, que cantava para os nazistas para sobreviver.

Essa est-é-tica da escassez pode ser sentida em outros poetas, que intuíram a catástrofe da existência humana em qualquer século, o fato de que::::: WE POSSESS NOTHING :::::::. Na poesia gnômica de Emily Dickinson, por exemplo. Aquela que escreveu: "If fame belonged to me, I could not escape her; if she did not, the longest day would pass me on the chase, and the approbation of my dog would forsake me then. My barefoot rank is better." Ainda entre norte-americanos, sentimos claramente esta tomada de posição est-É-tica em George Oppen e Lorine Niedecker. Usando algumas palavras do poema de exórdio da obra de Oppen, penso nesta poesia como "Of the world, weather-swept, with which / one shares the century."

The roots of words
Dim in the subways

There is madness in the number
Of the living
`A state of matter´

There is nobody here but us chickens

Anti-ontology

He wants to say
His life is real,
No one can say why

It is not easy to speak

A ferocious mumbling, in public
Of rootless speech


George Oppen, no livro Of Being Numerous, 1968.

Essa es-É-tica pode, no entanto, assumir sua funcionalidade nas mais variadas formas. Em Henri Chopin, ela ditava o abandono por vezes completo da palavra, e a adoção da prática de uma poética da respiração, em que o material do poeta torna-se seu próprio corpo.

Henri Chopin - "La civilisation du papier"

No Brasil, estou certo de que a magreza de João Cabral de Melo Neto era ditada pela mesma necessidade est-É-tica intrínseca. Uma poética contra a usura, contra o desperdício. Algo que sublinha até o aparentemente desmedido Ezra Pound. Poemas como "A educação pela pedra" ou "A palo seco" são claras decisoes pela tomada de posição de uma est-É-tica. O que sussurra detrás destes poemas é um :::: WE POSSESS NOTHING :::::.

Como naquela mulher tão digna, que atendia pelo nome de Orides Fontela, a poeta à beira da indigência, uma de minhas guias est-É-ticas. Como esta mulher poderia nos dar exuberâncias superficiais, barroquismos de cosmética? Ela era guiada por uma est-É-tica do parco, que se exalava de sua vida parca e pobre. Em um pequeno ensaio sobre a sua poesia, escrevi que isso funciona "como se a poesia de Orides Fontela não se decidisse de forma definitiva entre a destruição do mundo por uma força centrípeta ou centrífuga. Seus poemas têm, em minha opinião, apesar da superfície polida de cristal, uma violência sem muitos paralelos na poesia do pós-guerra no Brasil. O mesmo tormento possa talvez ser sentido na prosa de Hilda Hilst, mas nesta outra mística a solução era o escárnio e a exuberância do dilúvio, enquanto, em Orides Fontela, o desértico daquele que jamais possuiu coisa alguma era preferível."

Clima

Neste lugar marcado: campo onde
uma árvore única
se alteia

e o alongado
gesto
absorvendo
todo o silêncio - ascende e
.............................imobiliza-se

(som antes da voz
pré-vivo
ou além da voz
e vida)

neste lugar marcado: campo
........................................imoto
segredo cio cisma
o ser
celebra-se

- mudo eucalipto
...elástico
...e elíptico.



Entre os poetas brasileiros vivos, sinto essa mesma necessidade intrínseca em Ronaldo Brito, um poeta de quem precisamos reeditar a obra com urgência. Seu livro Asmas, de 1982, foi um dos pontos luminosos daquela década, assim como Alba, de Orides Fontela. Que a década perdida dos yuppies tenha abarcado estes dois livros traz-me esperança.


Fala a palavra
ignara
diz o isto
do nada
poema mudo
com critério de sono
cala a fonte
funda
o branco no papel
sem fundo
e asma, asma


Ronaldo Brito, no livro Asmas (1982).


Quando leio o axioma de qualidade que dita concisão, tão pregado na década de 90, concordo, mas sondando a lucidez de não me esquecer que

WE POSSESS NOTHING

WE POSSESS NOTHING

WE POSSESS NOTHING

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