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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

"Maria Lúcia Alvim e o desperdício dos poetas", Rio de Janeiro, 'O Globo', 15.02.2021

 O jornal carioca O Globo publicou nesta segunda-feira, 21 de fevereiro de 2021, um artigo meu no qual detalho o processo de descoberta e edição do trabalho de Maria Lúcia Alvim (1932-2021), mas também no qual tomo a liberdade de propor o fim da necrofilia literária no país.


Leia-o aqui.



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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

MARIA LÚCIA ALVIM VIAJA PARA A TERRA SEM MALES

Maria Lúcia Alvim, Hotel São Luiz, Juiz de Fora, Minas Gerais, 2013.


MARIA LÚCIA ALVIM VIAJA PARA A TERRA SEM MALES

Maria da terra de várias Marias,
aparecidas e desaparecidas,
Maria da casa de outra Maria,
que apareceu mais cedo
e mais cedo desapareceu

às vezes nem quero saber
se o grande poeta estava certo
sobre os gregos antigos
e sua recusa de necrológios,
só o inquérito por sua paixão,
a paixão do recém-morto,
a paixão do há-pouco-vivo,
tinha?

nem
nosso costume da guarnição
do cadáver para eventual ressurreição,
os velórios herdados dos ibéricos,
a península do palimpsesto abraâmico

nem
se meus mortos
tornam-se guardiães
ao redor do terreiro e sua terra,
se metamorformoseiam-se
em espectros alados,
se migram para um reino
inimigo do reino dos vivos

o que importa
a você agora um
Ave, Maria
se por anos o que ocupou
sua visão e garganta
foram os garnizés
e o Pavão
agora também morto

difícil dizer
o que dizem de nós
nossos ritos
à hora da morte

arqueólogos
estudam por décadas
para depreender de restos
a vida de espécies extintas,
de crânios e úmeros,
de fêmures e tíbias,
de minúsculos carpos e metacarpos,
ou diálogos amorosos
inferidos
de um fragílimo osso hioide,
e leem neles sinais como a búzios

aqui uma ferramenta
depositada no túmulo,
ali a cor do ocre
tingindo rubra o branco do cálcio,
e a insinuação do afeto pelo morto,
dos vivos
agora também extintos

mas me comociona ao extremo
quando ouço num documentário
um desses velhos arqueólogos
que ainda se excitam com o pó
de onde viemos e ao qual voltamos,
dizer:

olhem, notem
esse osso
com uma fratura calcificada,
esse esqueleto em frangalhos,
notem essa peça quebrada
mas remendada,
percebam esse doente
tratado há milênios,
alguém dele fez-se
de enfermeiro,
por ele também se caçou
mastodontes,
também dele foi o usufruto
da coleta cuidadosa
de frutas comestíveis

é assim, Maria,
milênios mais tarde
depreendemos
de ossos
fraturados e remendados
a existência de algum amor
entre gente morta
há milênios

talvez um dia
meu próprio esqueleto
seja analisado
e outra cultura
ou outra espécie
veja minha ulna
fraturada e remendada
durante minha adolescência
e alguém diga:

vejam,
notem,
não eram tão egoístas
aqueles antigos
que viveram durante as pragas
e a sexta grande extinção,
este aqui foi alimentado
enquanto remendava-se
a sua ulna fraturada
para que sobrevivesse

sempre foram estranhos
nossos ritos
com os doentes de amor
e os mortos das mil moléstias:

aquela mulher congelada no Altai
e enterrada com seis cavalos,
aquele homem na Escócia
enterrado dentro de um barco
pesadíssimo
que teve que ser arrastado
desde as águas

ou você agora
cremada
como se incineram as matas
da Zona da Mata
onde os bacorinhos
ainda são feridos
de morte
para alimentar a República
que deu as costas a você
enquanto você respondia
com canções
de fazer ninar
os morcegos
e os pombos
e os pavões

mas sabemos bem,
Maria das Marias
aparecidas,
desaparecidas,
que nossas palavras
mesmo se cantadas
a plenos pulmões,
não se fossilizam,
e, no entanto,
cá estamos,
cantando,
do centro
do coração
das taquaras
recheadas
de som.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Maria Lúcia Alvim (1932-2021)

Maria Lúcia Alvim
fotografia de Pury

 

Diz-se no interior do país, quando morre alguém que fez tanto, teve uma longa vida, que a pessoa “cumpriu sua missão”. Faz parte do nosso vocabulário do consolo para o inconsolável, como o “Não morreu, descansou”, ou o eufemismo bebedourense, onde não se diz que alguém morreu, mas que “desceu a rua Campos Salles”, ao final da qual está o cemitério da cidade.
Mas Maria Lúcia Alvim não merecia morrer dessa forma, lutando por oxigênio, brigando para respirar, isolada, sozinha. Maldito vírus, maldito governo incompetente.
Como escreveu Herberto Helder em seu citadíssimo poema, perguntando se tinha paixão o recém-morto, eu respondo a vocês que dessa mulher não se tenha qualquer dúvida quanto à resposta.
Tinha paixão.
Deixou poemas. Publicados. Inéditos. Essas coisas que tantos chamam de supérfluas. De não-essenciais. Não receberá cortejo dessa República em frangalhos. O país mal sabe o que perde.
Tive a honra de conviver com ela em presença e imagem virtual nos últimos meses. De, ao lado de Guilherme Gontijo Flores, Paulo Henriques Britto e Maíra Nassif, talvez ter proporcionado a ela uma pequena alegria.
Reli agora seu poema sobre o próprio caixão. E me pareceu tão ela-própria, em meio à acidez lúcida de sua inteligência, terminá-lo com tão bela imagem matutina: “o galo alvorescente / dourou.”
AQUELE QUE UM DIA FARÁ O MEU CAIXÃO
Maria Lúcia Alvim
Aquele que um dia fará o meu caixão
de antemão tem as medidas:
menina-carapina
surrupiando
Viu crescer, prometer, viu sazonar.
Quando o roxo dos ipês configurou-se
no horizonte
aquele que fará o meu caixão
numa cestinha depôs amor
e morte
Lasca por lasca
fava por fava
fui pedindo, fui rasgando, fui doando
lóbulo mindinho
esses rajados de pele, esses crestados
o estalido da cabiúna
O galo alvorescente
dourou
*
Batendo pasto (Belo Horizonte: Relicário Edições, 2020).

com Maria Lúcia Alvim em Juiz de Fora em fevereiro de 2020.
Foto de Luciana Oliveira.



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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Alguns comentários sobre o vocabulário e as formas de 'Batendo pasto', livro de Maria Lúcia Alvim

 

O VOCABULÁRIO BATENDO PASTO

O novo livro de Maria Lúcia Alvim lança mão de um vocabulário mais preciso do que precioso. Escrito no interior do país, ele traz uma especificidade localista, contextual. Diz o que diz porque o diz onde o diz. Ao mesmo tempo, recorre a palavras da língua que parecem balançar-se entre a simplicidade da fala quotidiana e a exuberância das raridades antigas. Comum aqui, raro ali.

Decidi compartilhar algumas luso-pepitas [bem brasileiras] com vocês, vindas do livro. Esta aparece em um dos poemas publicados pelo Suplemento Pernambuco. Nos versos:

“Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim”

Ao corrigir as provas e cotejar com o manuscrito, em vários momentos solto um “Ora, mas que diabo é _____?”. Nesse caso, um MINUANO. Minuano?

MINUANO mi·nu·a·no 
substantivo masculino

1. Denominação de uma das etnias autóctones do território brasileiro, povo indígena minuano.
2. Vento do sudoeste, seco e frigidíssimo, que se manifesta no Inverno, após as chuvas, no Sul do Brasil.

Aqui se percebe a maestria da simplicidade rica. A palavra “voz” no primeiro verso, por ser uma faculdade associada aos seres humanos, leva-nos a crer que Maria Lúcia Alvim está invocando o povo indígena. Mas se seguimos a rede de oposições que o poema tece, ao se referir à primavera no verso seguinte, o minuano se torna também o vento invernal. Sem qualquer pirotecnia, ela usa as duas acepções da palavra. 

Há outras coisas belas de mescla no poema, como a junção de uma linguagem de ciranda à forma do soneto, em que uma ao mesmo tempo apoia e desarma o outra. Leia o poema todo, depois siga para o Suplemento para ler os outros.


“Eu era assim no dia dos meus anos
E quando me casei, eu era assim
Eu era assim na roda dos enganos
E quando me apartei, eu era assim

Eu era assim caçula dos arcanos
E quando me sovei, eu era assim
Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim

Enquanto fui viúva, eu era assim
Enquanto fui vadia, eu era assim
E pela cor furtiva, eu era assim

No amor que tu me deste, eu era assim
E trás da lua cheia, eu era assim
E quando fui caveira, eu era assim”

*

Para a quarta-capa de Batendo pasto, o novo livro de Maria Lúcia Alvim a sair em breve pela Relicário Edições, selecionamos um poema que não é só um dos meus favoritos no volume. Há nele um verso que tem me ajudado a respirar — “o capim é minha grande reserva interior” — e que poderia ser discutido para uma compreensão de toda a poética e ética que guiam o trabalho. 

Pois não me parece tratar-se apenas da tradição lírica ou quiçá neo-árcade de um louvor do rural, de um ‘carpe diem’ que chame a atenção de nossos sentidos gastos, baços, para a beleza-simplicidade das coisas. O momento fugidio, etc.

Talvez mais até do que a importância e a dignidade das vidas menores num mundo utilitarista, a poeta aponte para a imprescindibilidade mesma dessas coisas para seguirmos sendo, para nos mantermos vivos ante a hierarquização de tudo segundo sua rentabilidade. Como um gentil recado contra a nossa húbris de colosso pobre. É o que gosto de ler nesse verso.


Manhã sem rusga
pequeno depósito de agrura na poça
exorbitei de alegria
a abóbada celeste não dá vazão
silos de silêncio
ó ser astral
o capim é minha grande reserva interior
a esperança
desleixo
 

*

O poema mais longo do Batendo pasto [Belo Horizonte: Relicário Edições, no prelo], de Maria Lúcia Alvim, intitula-se "Litania da lua e do pavão", e é também um dos mais longos de sua obra, só encontrando paralelos no seu trabalho de caráter épico no Romanceiro de Dona Beja (1979). É, ao mesmo tempo, muito diferente daqueles poemas narrativos, e uma peça única em sua poesia, na qual a inteligência eminentemente associativa do poeta se mostra em seu funcionamento. Os primeiros versos leem:


Piedade lua 
De castidade

Luva de Ismália 
Chapéu de palha

Olho propina 
Escarlatina

Primopolia 
Do todavia

Tu mastodonte 
Anacreonte


Nesse texto a poeta permite o vagar associativo da mente por sons e sentidos, num poema que me lembra dois outros exemplos de inteligência associativa na poesia brasileira. Em primeiro lugar, o poema "Isso é aquilo", de Carlos Drummond de Andrade, também longo, no qual se lê na primeira seção:


O fácil o fóssil
o míssil o físsil
a arte o infarte
o ocre o canopo
a urna o farniente
a foice o fascículo
a lex o judex
o maiô o avô
a ave o mocotó
o só o sambaqui

O outro exemplo é aquela belezura magistral de poema que Tom Jobim engendrou em "Águas de março":


É pau, é pedra, 
é o fim do caminho.
É um resto de toco, 
é um pouco sozinho.
É um caco de vidro, 
é a vida, é o sol.
É a noite, é a morte, 
é um laço, é o anzol.
É peroba-do-campo, 
é o nó da madeira.
Caingá, candeia, 
é o matinta-pereira.


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