Hoje é quarta-feira, segunda semana de pausa do nosso evento semanal aqui no Berlimbo. Mais tarde, encontro-me com os donos do clube onde desde 2005 organizamos as performances, concertos, instalações e DJ sets seguidos de celebração festeira, para discutirmos a reabertura no novo local.
Nos últimos dias, subi fotos antigas acumuladas para a página oficial, e, fuçando em meus arquivos, encontrei alguns vídeos de performances já digitalizados mas que eu ainda não havia editado e disponibilizado na Rede. Ontem editei dois deles: da performance da americana Angie Reed, em 2006, e a do duo israelense TV Buddhas, em 2009. Foi uma combinação engraçada, pois não poderia imaginar artistas mais diferentes em seus temperamentos.
Angie Reed é uma multiinstrumentista e poeta-vocalista satírica. O vídeo mostra sua performance para sua canção mais conhecida, chamada "Hustle A Hustler", que é, creio, do álbum XYZ Frequency (2005). Angie Reed nasceu em 1976, e vive em Berlim há muitos anos, onde começou a carreira como baixista e segunda vocalista da banda Stereo Total. Em 2003, lançou seu primeiro álbum solo, o conceitual Angie Reed Presents the Best of Barbara Brockhaus (2003), produzido por Patrick Catani. Sua performance em nosso evento, que eu adoro dizer ser our own private Cabaret Voltaire, deu-se em 2006, creio que em novembro. Sua performance me faz pensar na poesia cantada dos trovadores do trobar leu, de poetas satíricos da Idade Média como os Goliardos, coisa que me atinge por vezes na performance de poetas vocais contemporâneos, como quando me apresentei com o catalão Albert Pla em um festival de poesia de Madri. Vê-lo sobre o palco, rodeado pelo público, cantando suas canções, interrompendo-as para vociferar imprecações contra o governo e a igreja, fez-me sentir-me no coração da idolatrada salve salve tradição poética medieval. Senti o mesmo nas duas vezes em que tive a sorte maravilhosa de assistir a performances do grupo Tiger Lillies, por exemplo, com o fenomenal poeta-vocalista satírico Martyn Jacques à frente.
Abaixo, o trobar leu de Angie Reed.
Angie Reed vocaliza sua "Hustle A Hustler" em nosso evento semanal, em novembro de 2006.
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O segundo vídeo é do duo TV Buddhas, de Israel. Creiam-me, eu não uso o adjetivo "xamânico" com frequência, sou leitor apaixonado de Eliade e acho que esta tradição é abusada por muitos charlatães, especialmente no Brasil. Nem acho que este vídeo vá ser capaz de dar a ver o que estas duas criaturas fizeram no meio da nossa pista de dança por cerca de 45 minutos. Eu fiquei impressionadíssimo. Entre os artistas trabalhando com música hoje no mundo, nos últimos tempos tive esta experiência apenas com os criadores de persona, como Fever Ray e Planningtorock. Mas, nesta noite em questão, capturada mal mas registrada no vídeo abaixo, eu realmente senti nestes dois seres humanos o poder do xamânico. Com vocês, um excerto de uma experiência verdadeira, a performance dos TV Buddhas no nosso evento, em 2009.
TV Buddhas em nosso evento semanal, em setembro de 2009.
(Lotte Lenya, esposa de Kurt Weill, cantando a famosa "Seeräuber Jenny", da Ópera dos Três Vinténs (1931), do duo Weill/Brecht, aqui em cena da adaptação cinematográfica de G.W. Pabst)
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Um dos prazeres de organizar, todas as quartas-feiras, o evento que chamamos de Berlin Hilton (ironia pop guiando mais que a escolha deste nome), e que eu às vezes gosto de chamar de my own private Cabaret Voltaire, é a oportunidade de conhecer e trabalhar com algumas das criaturas mais interessantes do Berlimbo, sejam berlinenses nativos ou metecos como eu. Berlim teve seus momentos mais interessantes do século XX quando se fez Meca para estrangeiros, em busca de sua vida nortuna e liberdade sexual, como nos anos 20, uma das eras mais liberais da história da Alemanha com a República de Weimar (1918 - 1933), quando os cabarés da cidade abrigavam Kurt Weill, os poetas dadaístas de Berlim, como Raoul Hausmann, e ainda poetas como Bertolt Brecht, críticos como Walter Benjamin ou estrangeiros como W.H. Auden e Christopher Isherwood.
Obviamente, a vida pós-Grande Guerra não era nada fácil, como podemos ler em livros como Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, ou em filmes como O ovo da serpente (1977), de Ingmar Bergman.
Outro momento semelhante ocorreria na década de 70, com o movimento punk-industrial, trazendo à cidade estrangeiros como David Bowie ou Iggy Pop, onde lançariam, respectivamente, os antológicos Low e Lust for life, ambos em 1977. Sem estar na cidade, Lou Reed lança a ópera-rock Berlin (1973), considerado, ao lado de Transformer (1972), um de seus melhores álbuns. Foi também, é claro, a década da Facção do Exército Vermelho, da conversão de uma escritora e jornalista pacifista como Ulrike Meinhof em uma das líderes do grupo terrorista, tempo dos filmes de Alexander Kluge e Rainer Werner Fassbinder. Um filme perfeito para compreender a Berlim e a Alemanha de então é justamente o filme coletivo Deutschland im Herbst (Alemanha no outono), de 1978, do qual participam tanto Fassbinder como Kluge.
Muitos crêem que a queda do Muro de Berlim trouxe um momento parecido, e realmente a década de 90 assemelhou-se em muitos aspectos à efervescência da década de 20 e 70, com uma explosão de clubes e o surgimento de toda a cena de música eletrônica que ainda domina a cidade. Ainda sendo uma das capitais mais baratas da Europa, a cidade passou a atrair novamente artistas estrangeiros. Muitos dos artistas visuais contemporâneos de maior renome vivem na cidade. A cena musical geraria, entre os alemães, nomes como Sasha Ring, também conhecido como Apparat, Ellen Allien, Modeselektor e outros.
(O gigantesco, imprescindível Walter Benjamin)
Entre os estrangeiros, muitos se estabeleceram na cidade, como Janine Rostron, também conhecida como Planningtorock, Jamie Lidell, Olof Dreier do duo The Knife, assim como toda uma série de artistas interessantíssimos, ainda que menos conhecidos, como Kevin Blechdom e Angie Reed.
A cidade tornou-se o centro poético do país, reunindo em bairros dos antigos Oeste e Leste alguns dos poetas jovens competentes da língua, como Monika Rinck, Daniel Falb ou Ann Cotten, assim como alguns dos enfants terribles do país, como o diretor de teatro René Pollesch ou o artista visual Jonathan Meese.
Nos quase cinco anos em que organizamos a Berlin Hilton, já tive a oportunidade de convidar algumas de minhas criaturas favoritas, incluindo três mulheres que respeito muito, três de minhas divas favoritas do Berlimbo: Kevin Blechdom (que já deixou a cidade, retornando à sua San Francisco natal), Angie Reed e Janine Rostron a.k.a. Planningtorock.
Entre os metecos de Berlim, Janine Rostron é o que mais me impressiona, uma artista interessantíssima, com um trabalho musical e visual excelente. Ela apresentou-se na Berlin Hilton no dia 4 de julho de 2007, mas infelizmente não tenho um vídeo de sua performance. Mostro abaixo sua performance na Casa das Culturas do Mundo (Haus der Kulturen der Welt), em abril deste ano.
(Janine Rostron a.k.a. Planningtorock, performance em Berlim, 2009)
Kevin Blechdom e Angie Reed apresentaram-se na Berlin Hilton em junho e novembro de 2006, respectivamente. A noite com Kevin Blechdom foi muito bonita, alugamos um piano e ela convidou o francês Mocky como baterista, algo incomum.
(Kevin Blechdom @ Berlin Hilton, 2006)
Angie Reed apresentou sua música divertidíssima, com letras inteligentes e sua presença maravilhosa no palco.
(Angie Reed @ Berlin Hilton, 2006)
Chegou o outono, com o frio insuportável de Berlim, e por esta época sempre me confronto com minha condição de meteco, pensando também em meus companheiros de condição. Tenho dois poemas em que trabalho em parte com a ideia do "poeta exilado", um deles escrito em meu primeiro ano em Berlim ("Sempre o exílio"), quando minha situação no país não era exatamente muito legal, e o outro escrito alguns anos mais tarde, quando já me sentia em casa e à vontade em minha condição de meteco. "Sempre o exílio" foi publicado em Carta aos anfíbios (2005) e "Cão são da ex-ilha" está no meu próximo livro, Sons: Arranjo: Garganta (no prelo).
Sempre o exílio
a Roberto Borges
a.
surpreso a quanta terra não me pertence, que engraçado descobrir (mais uma vez) que trocar de país não significa trocar de corpo e a mudança de língua é acompanhada pela permanência da produção da mesma saliva.
b.
esta ilegalidade do meu corpo desaloja-me a comida no estômago que permanece em ângulo suspeito, a boca arqueia-se, tesa – e o barbante frouxo dos braços a nenhum peito estreita-me, esta pele estrangeira, este cheiro novo.
c.
a certeza finalmente de que a mão é incapaz da linha reta, os ouvidos mais atentos, as pontas dos dedos mais ativas, despertas, os ombros caídos, menos por cansaço que por pesos acumulados ao longo de outros sonos; quando as noções de segurança e cidadania desaparecem e resta-nos a condição.
(Carta aos anfíbios, 2005)
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Cão são da ex-ilha
a Carlito Azevedo
o desgosto de cada passo confirmar o mapa e o diafragma contraído entende o queixo no joelho, meio-dia e meia o centro da certeza que caminha do “quero“ ao “não-quero“, palha, fênix, Joana d’Arc, como perceber que abismo e precipício não são sinônimos exatos, ou acordar no meio da noite sem energia elétrica e sussurrar com a calma do fim da força: equivalendo silêncio e escuridão, real apenas a escolha da língua, entre- tanto a memória das possibilidades morre para que o fato entre inassistido nas atas do verídico; saiu o sol, deve estar tudo bem; subiu a lua, deve estar tudo bem; trocar de pele continuamente talvez leve-me ao centro e a ausência me escame como quem diz “eu sinto a falta”