Ao chegar a meu apartamento depois de um encontro tão difícil, sabia que não podia escutar "Pedaço de mim" ou "Trocando em miúdos", de Chico Buarque; também sabia que nem podia chegar perto de "Feelings" na voz de Nina Simone; não podia sequer cantarolar "Rising" da Lhasa de Sela; muito menos cair na besteira de assoviar "Ne me quitte pas", imaginando-me uma Maysa em frangalhos; não, seria o abismo. Então pensei: "Cais", "Cais", "Cais", com aquele texto luminoso e cheio da coragem da lucidez viva, aquele pedregulho de simplicidade de Ronaldo Bastos; pensei imediatamente na interpretação maravilhosa de Elis Regina e ainda noutra de Nana Caymmi com o próprio Milton Nascimento, que musicou e tão justamente vocalizou o texto, sabia que era este poema que me mostraria o caminho daquela sensação que rima com "Cais".
Cais Ronaldo Bastos
Para quem quer Se soltar Invento o cais Invento mais Que a solidão me dá Invento lua nova A clarear Invento o amor E sei a dor De encontrar Eu queria ser feliz Invento o mar Invento em mim O sonhador Para quem quer Me seguir Eu quero mais Tenho o caminho Do que sempre quis E um saveiro pronto Pra partir Invento o cais E sei a vez De me lançar
Elis Regina vocaliza o poema "Cais".
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Nana Caymmi vocaliza "Cais" com Milton Nascimento.
Andei revendo vários filmes de Almodóvar na companhia de Ivánova. Primeiro vimos Hable con ella (2002); algumas noites mais tarde, Todo sobre mi madre (1999); hoje à noite, Carne trémula (1997). Estes três filmes foram muito importantes para mim. Eu os vejo como uma trilogia. Talvez pudéssemos chamá-la de O Touro Ensandecido Não Investe Contra O Vermelho Mas Contra A Genitália Do Toureiro A Chacoalhar-se, ou talvez Como A Criança Que Espera Que A Boneca A Ame De Volta Já Dizia Rilke, ou, por fim, Das Dificuldades De Buscar Financiamento Para A Cura Da Epidemia De Si Próprio.
Etc, Etc, Etc.
Escrevi certa vez num poema em inglês e português:
"I am the exception of your etc."
ou
"Eu, a exceção de teu et cetera."
Melhor disse Drummond, sobre aquela "sede tão vária / e esse cavalo solto pela cama / a passear o peito de quem ama."
Depois destes filmes, Almodóvar continuou fazendo trabalhos muitíssimo competentes, lindos até, mas a tensão espiritual (não sei chamar de outra coisa) que o afinava como um violino estressado naqueles três filmes não mais se repetiu, em minha opinião. Como poderia? Ninguém pode viver por muito tempo naquele estado.
Saio de filmes como este meio transtornado, e mal posso me recompor com as migalhas que sobram de mim no chão. Ah! O dia em que nem só de migalhas viverá o homem.
A água no peito, os pelos eretos, me ponho então a ler Hilda Hilst, Wislawa Szymborska, Diane di Prima. A escutar Dolores Duran, Maysa, Elis Regina, Ângela Ro Ro, Chavela Vargas. Como se isso pudesse acalmar alguém!
Assim deixo vocês, com algumas destas vontades, queridos. Que nos trema a carne todos os dias de nossa vida.
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Cantiga para Nenê-X, por nascer Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck
Benzinho quando rasgar-me por dentro você encontrará aqui uma poeta não exatamente algo dos sonhos.
Não hei de prometer que jamais conhecerá a fome ou a depressão neste globo de vácuo aos pedaços
Mas posso apresentar-lhe nenê o bastante que amar para partir-lhe o peito pelos séculos
(tradução de Diane di Prima)
Song for Baby-O, Unborn: Sweetheart / when you break thru / you´ll find / a poet here / not quite what one would choose. // I won´t promise / you´ll never go hungry / or that you won´t be sad / on this gutted / breaking / globe // but I can show you / baby / enough to love / to break your heart / forever
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Fragmentos de um discurso ao FBI Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck
Ai vocês de borsalino ou impermeável dão testemunho Dos dias fugidios, data & horário? As viagens de metrô a amantes esquecidos (Vocês em verdade os têm para sempre, identidade & 3x4?) Os velhos números de telefone, cujo ritmo não mais Canta por nós, descrições de carros há muito mortos? Ai ternos cronistas de nossas vidas irisadas Benditos obreiros no arquivo labiríntico Querubins gravadores que relegarão ao fogo Identidade & formulário, papéis e corpo enquanto nós Ascendemos em cânticos acima das árvores
(tradução de Ricardo Domeneck)
Fragmented Address to the FBI: O do you in fedora or trenchcoat bear record / Of the elusive days, date & hour / The subway journeys to forgotten loves / (Do you indeed have them forever, name & picture) / The old phone numbers, whose rhythm no longer / Sings for us, descriptions of long dead cars? / O gentle chroniclers of our rainbow lives / Blessed laborers in the labyrinthine archive / Recording angels who will consign to fire / Name & form, body & papers while we / Rise singing above the trees
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Pequena Nota sobre a Dispersão da Língua Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck
uau cara eu disse quando você inclinou meu queixo e nutriu de cabeça em cuspe a libação de minha língua em fluidos
e uau cara eu disse quando caímos nos trapos e espuma e uau era a aurora: nós fervemos os cafezais numa panela batida
uau cara eu disse o dia em que caí de sua graça (apenas o tom foi outro) uau cara uai uau eu colhi meu pente e meus dois livros e sumi e pronto e acabou
Short Note on the Sparseness of the Language: wow man I said / when you tipped my chin and fed / on headlong spit my tongue´s libation fluid // and wow I said when we hit the mattressrags / and wow was the dawn: we boiled the coffeegrounds / in an unkempt pot // wow man I said the day you put me down / (only the tone was different) / wow man oh wow I took my comb / and my two books and cut and that was that
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Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada.
(Hilda Hilst, Do desejo, 1998)
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Amor à primeira vista Wislawa Szymborska, tradução de Júlio Sousa Gomes
Ambos estão convencidos que os uniu uma paixão súbita. É bela esta certeza, mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes, nada entre eles nunca ainda se passara. E que diriam as ruas, as escadas, os corredores onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar se não se lembram — talvez nas portas giratórias, um dia, face a face? algum “desculpe” num grande aperto de gente? uma voz de que “é engano” ao telefone? — mas sei o que respondem. Não, não se lembram.
Muito os admiraria saber que desde há muito se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado para se transformar em destino para eles, aproximou-os e afastou-os, barrou-lhes o caminho e, abafando as gargalhadas, lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais, que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos ou terça-feira passada, certa folhinha esvoaçante de um braço a outro braço. Algo que se perdeu e encontrou? Quem sabe se já uma bola nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas onde a seu tempo o toque de uma mão tocou o outro toque. As malas lado a lado no depósito. Talvez acaso até um mesmo sonho que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início é só continuação, e o livro das ocorrências está sempre aberto ao meio.