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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos



Há poucos dias, eu  elogiava o trabalho poético de PJ Harvey, ao ler a notícia de que ela pretende lançar uma coletânea de poemas em 2015, intitulada The Hollow of the Hand (que título!), em parceria com o cineasta e fotógrafo Seamus Murphy, criador dos filmes para seu álbum Let England Shake (2011). Repito aqui o que disse nas redes sociais: já tenho muito respeito por Polly Jean, poeta. Várias de suas letras funcionam muito bem na página, e aprendi algumas coisas com ela. Quem se interessa pela tradição oral e o trobar medieval não se espanta. Sempre apreciei nela o que chamo de tristeza raivosa, algo que busco em alguns poemas. Não choramingar, mas só deixar cair a lágrima se os dentes estiverem trancados uns nos outros. Uma coisa que me parece clara em certas canções suas é a lição de que minimalismo e concisão não precisam significar esterilidade emocional. Sente-se isso também em Lorine Niedecker ou Robert Creeley, por exemplo.

No artigo, ela diz ter muito interesse pela imagem, o que fica claro ao percebermos a força fanopaica de canções como "Is this desire?" e "Rub till it bleeds". Polly Jean foi importante para mim em dois momentos específicos. Lançou o álbum Stories from the City, Stories from the Sea (2000), com canções que me ajudaram muito em 2001. E, em 2011, o pior ano da minha vida, o ano em que escrevi Cigarros na cama, ouvi muito seu White chalk (2007). White chalk é um grande álbum, com canções que são realmente primores, como "The devil" e especialmente "Dear darkness". A força destas canções, para mim, beira o místico, como em certos poemas de Hilda Hilst, como "A Mula de Deus".

Lembrei-me deste poema escrito naquela época, em que faço duas referências veladas a PJ. Acho que depois do textinho acima ficará fácil identificar quais.

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos

Como vazio, vácuo, a sobra
seja raivosa

feito aquele que só caminha
por desertos

em secura de gelo, giz branco,
onde a ânsia

contenta-se no pus, a vingança
em separar

ao ar livre, pele ferida de pele
intacta,

apouca-se ou serve-nos morna,
cansa-se

de assoprar mil queimaduras
em graus,

cardápios da tal revanchíssima,
a arte

da farpa não é maestria difícil,
Master,

inicio sempre com os grunhidos
de ameaça

e depois me posiciono a lamber
as suturas,

THE END de joelhos, sussurros
aos favores.

Dona Escuridão, vem cobrir-nos
feito edredão, 

esquadrinha, compasso e bússola,
o caminho

da maturidade, sim? Sim, retirar
das pedras

a lição e a lesão? Hein, Master?
A Educação

pela Perda, não? Cervical, rastejo
e decúbito

me abordas com quatro ferros
nas mãos?

Fiz meu dever de casa, oh Master
de plástico,

contei com os dedos nos cálculos
e nos rins,

ofertei decréscimo à tua contagem
repressiva

e subtraí em deflação dos males
o menor,

menos valem os pássaros voando
que este

que defeca em minha mão, Master,
vim, vi,

me rendi, cresci ereto, sem bacamarte
ou funda,

sem o bom gosto de tuas artilharias,
todo alvo

hei-de demonstrar meus bons modos
ao kamikaze

e o mais que me resta, hospitalidade
na oferta,

Master, da outra, minha melhor face.

§

Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


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domingo, 30 de outubro de 2011

Das canções favoritas: "Dear Darkness", de PJ Harvey

Capa do álbum White Chalk (2007)


"Dear Darkness" é uma das canções mais belas e tristes de um dos álbuns mais belos e tristes de Polly Jean Harvey (Dorset, sul da Inglaterra, 1969), intitulado White Chalk (2007). Eu sou admirador declarado da escrita e música da trobairitz inglesa. Conheço poucos capazes de tamanha agressividade em sua tristeza. Ela foi certamente uma influência sobre mim. Mas, se em canções da década de 90 como "Rid of me" ou "Rub till it bleeds", ela esposava uma melancolia raivosa sem muitos paralelos em sua concisão pontiaguda, em várias entrevistas após o lançamento de White Chalk (penso nas implicações de depuração e míngua deste título), PJ Harvey comentou alguns dos infernos pessoais que levaram à escrita de canções como esta "Dear Darkness" ou "The Devil". A simplicidade aqui não é mero estilo, não é o deserto estiloso dos epígonos de Cabral. É o deserto vivido e legítimo do próprio Cabral, como também penso na incisão (mais que concisão) dos textos de Emily Dickinson ou Lorine Niedecker, se pensarmos na língua inglesa, ou em Orides Fontela dentro da poesia brasileira. O texto me pega já em seu título, que se transforma nos primeiros versos: há algo de vulnerabilidade extrema nas palavras "dear darkness", sem mencionar os versos finais, que me parecem uma coisa de tirar o fôlego: "Dear darkness / Now it's your time to look after us / 'Cause we kept you clothed / We kept you in business / When everyone else was having good luck // So now it's your time / Time to pay / To pay me and the one I love / With the worldly goods you've stashed away / With all the things you / Took from us". Pelo menos, tiram o meu. Cito esta canção em um poema do meu próximo livro. Foi inevitável roubar de Polly Jean.






Dear Darkness
Polly Jean Harvey

Dear darkness
Dear darkness
Won't you cover, cover
Me again?


Dear darkness
Dear
I've been your friend
For many years

Won't you do this for me?
Dearest darkness
And cover me from the sun

And the words tightening
The words are tightening
Around my throat

And
And


Around the throat
Of the one I love

Tightening

Dear darkness
Dear darkness
Now it's your time
To look after us

'Cause we kept you clothed
We kept you in business
When everyone else was having good luck

So now it's your time
Time to pay
To pay me and the one I love
With the worldly goods you've stashed away
With all the things you
Took from us


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domingo, 10 de abril de 2011

Das canções favoritas: "Is this desire" e outras canções de Polly Jean Harvey



É muito difícil escolher uma canção favorita dentre as compostas por P.J. Harvey. Ela é muito fundamental na minha vida, mesmo em meu trabalho como poeta. Sempre considerei seus textos muito bons, exemplo de uma songwriter que mantém uma consciência textual. Além disso, seus momentos de minimalismo jamais foram marcados por qualquer esterilidade emocional, como entre os poetas cabralistas dos últimos 25 anos, que, para evitarem o sentimentalismo precisavam obliterar a emoção. Poucos poetas vocais expressam o que chamo de tristeza raivosa como ela. Um poeta-escritor pode aprender uma coisa ou outra com seus poemas vocais. Quero falar sobre algumas de suas canções e seus textos, os que tiveram maior impacto sobre mim.

Para começar, escolhi uma canção menos discutida, mas que me parece maravilhosa: trata-se de "Is this desire", que está justamente no álbum de P.J. Harvey chamado Is This Desire?, lançado em 1998, seu quarto trabalho. O texto poderia ser visto como um poema narrativo extremamente elíptico, mesmo assim de uma eficiência fanopaica incrível, algo que vemos também em uma canção como "This charming man", de Morrissey com os Smiths.



PJ Harvey vocaliza seu "Is this desire".


Is This Desire

Joseph walked on and on The sunset
Went down and down Coldness
Cooled their desire And Dawn said
"Let's build a fire"

The sun dressed the trees in green
And Joe said
"Dawn I feel like a king"
And Dawn's neck and her feet were bare
Sweetness in her golden hair

Said "I'm not scared"
Turned to her and smiled
Secrets in his eyes
Sweetness of desire

Is this desire, enough enough
To lift us higher, to lift above ?

Hour long
By hour, may we two stand
When we're dead, between these lands
The sun set behind his eyes
And Joe said : "Is this desire"

Is this desire, enough enough
To lift us higher, to lift above ?

Is this desire, enough enough
Enough inside, is this desire ?



O texto une novamente de forma eficiente a velha junção entre Eros e Tânatos. Ousa rimar sexy com eerie. A canção me parece assustadora, marcada por nosso desejo desesperado de transcendência. Nosso desespero entre o hedonismo e a ascese.

PJ Harvey tem outras canções que me ensinaram muito sobre tom, sobre ironia, sobre self-deprecation, sobre a tristeza raivosa. Quantos textos dos últimos 20 anos alcançam tal carga emotiva como "Rid of me"? Esta canção - tudo, seu texto, sua música, a voz de Harvey - me parece uma coisa deslumbrante. A encarnação de Medeia. Esta canção teve uma influência muito grande sobre minha personalidade, minha vida, minha poesia.





Rid Of Me
PJ Harvey

Tie yourself to me
No one else
No, you're not rid of me
Hmm you're not rid of me

Night and day I breathe
Ah hah ay
Hey, you're not rid of me
Yeah, you're not rid of me
No, you're not rid of me

I beg you, my darling
Don't leave me, I'm hurting

Lick my legs I'm on fire
Lick my legs of desire

I'll tie your legs
Keep you against my chest
Oh, you're not rid of me
Yeah, you're not rid of me
I'll make you lick my injuries
I'm gonna twist your head off, see

Till you say don't you wish you never never met her?
Don't you don't you wish you never never met her?
Don't you don't you wish you never never met her?
Don't you don't you wish you never never met her?

I beg you my darling
Don't leave me, I'm hurting
Big lonely above everything
Above everyday, I'm hurting

Lick my legs, I'm on fire
Lick my legs of desire
Yeah, you're not rid of me
I'll make you lick my injuries
I'm gonna twist your head off, see

Till you say don't you wish you never never met her
Don't you don't you wish you never never met her

Lick my legs I'm on fire
Lick my legs of desire



"Rid of me" está no álbum de mesmo nome, lançado em 1993, seu segundo. O álbum é excelente. Nele há outra canção também marcada pela tristeza raivosa de Medeia que marca a textualidade vocal de PJ Harvey. Trata-se de "Rub till it bleeds":





Rub 'Til It Bleeds
PJ Harvey

Speak, I'm listening
Baby, I'm your sweet thing
Believe what I'm saying
God's truth, I'm not lying

I lie steady
Rest your head on me
I'll smooth it nicely
Rub it better 'till it bleeds

And you'll believe me
Caught out again
I'm calling you weak
Getting even

And I, I was joking
Sweet babe, let me stroke it
Take, I'm giving
God's truth, I'm not lying

And you'll believe me
I, I, I'm calling you in
And I'll make it better
I'll rub 'till it bleeds



PJ Harvey encerraria a década e o século com um álbum muito bom, chamado Stories from the City, Stories from the Sea (2000). Na década passada, PJ Harvey produziu bem menos. Após lançar um álbum regular como Uh Huh Her (2004), voltou com o deslumbrante White Chalk (2007), um álbum intimista, maduro, com canções de textos maravilhosos, pungentes, tristes. Minha canção favorita é "Dear Darkness".





Dear Darkness
PJ Harvey

Dear darkness
Dear darkness
Won't you cover, cover
Me again?

Dear darkness
Dear
I've been your friend
For many years

Won't you do this for me?
Dearest darkness
And cover me from the sun

And the words tightening
The words are tightening
Around my throat

And, and...

Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening
Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening

Dear darkness
Now it's your time to look after us
'Cause we kept you clothed
We kept you in business
When everyone else was having good luck

So now it's your time
Time to pay
To pay me and the one I love
With the worldly goods
You've stashed away
With all the things you
Took from us



Este ano, PJ Harvey abriu a década voltando com outra coisa bonita, madura: o seu novo álbum Let England Shake (2011). PJ Harvey vem também compartilhando na Rede uma série de curtas feitos por Seamus Murphy para as canções, e mencionou Harold Pinter e T.S. Eliot como influências para os textos. Creio que minha favorita é "The Words That Maketh Murder".





The Words That Maketh Murder
PJ Harvey

I've seen and done things I want to forget;
I've seen soldiers fall like lumps of meat,
Blown and shot out beyond belief.
Arms and legs were in the trees.

I've seen and done things I want to forget;
coming from an unearthly place,
Longing to see a woman's face,
Instead of the words that gather pace,
The words that maketh murder.

These, these, these are the words-
The words that maketh murder.
These, these, these are the words-
The words that maketh murder.
These, these, these are the words-
Murder...

These, these, these are the words-
The words that maketh murder.

I've seen and done things I want to forget;
I've seen a corporal whose nerves were shot
Climbing behind the fierce, gone sun,
I've seen flies swarming everyone,
Soldiers fell like lumps of meat.

These are the words, the words are these.
death lingering, stunk,
Flies swarming everyone,
Over the whole summit peak,
Flesh quivering in the heat.
This was something else again.
I fear it cannot be explained.
The words that make, the words that make
Murder.

What if I take my problem to the United Nations?



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