segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Último dia em Berlim, seguido de 32 horas no Rio de Janeiro, featuring Rebello, Garcia, Chomski, Tirelli, Heringer e Freitas (in absentia)

Marília Garcia e Ricardo Domeneck num momento: "Assim deveriam ser encontros de poetas" - Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2011

Escrevo já do México, mas quero falar um pouco sobre as felicíssimas 32 horas que passei no Rio de Janeiro. Está sendo uma verdadeira maratona. Acho que não durmo uma noite completa há uma semana. Meu corpo está começando a pifar.

O último dia em Berlim foi um dos mais estressantes e intensos que já vivi, mas ao fim do dia senti como se estivesse finalmente na areia após nadar e nadar muito no alto-mar das borrascas. Mal pude me despedir de amigos, e serão dois meses longe.

Mas cheguei ao Rio de Janeiro na sexta-feira à noite com um sorriso enorme no rosto. Mal podia crer que teria apenas 32 horas ali, naquela cidade cheia de amigos tão queridos. Esta postagem é uma celebração dos reencontros e novos encontros que desfrutei nestas poucas horas.

Como foi bom ser acolhido por meu amigo Dimitri Rebello, poder conversar como se fizesse dois minutos que não nos víamos, e não dois anos! Há amizades que distância nenhuma pode esfriar. Estar ali em seu apartamento, conversando e ouvindo-o cantar foi muito revigorante para o meu miocárdio em frangalhos.

No sábado, nos encontramos com Marília Garcia (com quem estive em Bruxelas e Berlim na mesma semana) e fomos à Livraria Berinjela para que eu pudesse rever meu caríssimo Daniel Chomski, o diretor da livraria e aquele que tem sido nosso companheiro e aliado na edição das revistas impressas. Sempre tão generoso (além de possuir wit verdadeira), ganhei dele um exemplar da Poesia Reunida de Osvaldo Lamborghini (livro que queria há tempos!) e uma edição peruana linda com poemas de Francisco Alvim e Zuca Sardan traduzidos para o castelhano, estes cavalheiros tão encantadores que tive a honra de finalmente conhecer pessoalmente na Bélgica.

Em Santa Teresa, com uma câmera na mão e um poema na garganta, Dimitri filmou a leitura que Marília e eu fizemos do poema "O livro rosa do coração dos trouxas", de nossa queridíssima Angélica Freitas. Era como ter nossa amiga pelotense tão amada ali conosco.



Marília Garcia e Ricardo Domeneck leem "O livro rosa do coração dos trouxas", de Angélica Freitas,
no Rio de Janeiro. Gravado por Dimitri Rebello, 10 de dezembro de 2011.


Mais tarde, uniram-se a nós duas criaturas de quem começo a gostar muito e a quem eu, pessoalmente, considero dois dos poetas mais interessantes surgidos nestes últimos poucos anos: Ismar Tirelli Neto, a quem já conhecera no Rio em 2009, quando lancei meu Sons: Arranjo: Garganta, mas com quem não tivera ainda a chance de conversar e conviver; e Victor Heringer, que encontrei pessoalmente pela primeira vez, ainda que já conhecesse seu livro de estreia, Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), que ele tão gentilmente me havia enviado a Berlim. Vocês ouvirão mais sobre Heringer em breve, aqui neste espaço e no da Modo.

Para celebrar estes reencontros e encontros, deixo vocês com o vídeo para "Mercado negro", canção do grande Dimitri BR que ele me dedicou e que é uma de minhas canções favoritas; o vídeo das leituras de Ismar Tirelli Neto que preparamos para a Modo de Usar & Co.; e um poema de Victor Heringer do qual gosto muito. Em poucos dias, escrevo sobre os encontros maravilhosos que estou tendo aqui na Cidade do México. Beijos e abraços apertados a Marília, Dimitri, Chomski, Ismar e Victor, assim como a todos os generosos que frequentam este espaço.



Dimitri Rebello, ou Dimitri BR - "Mercado Negro"

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Ismar Tirelli Neto - "Preocupações épicas" e outros poemas, vídeo de Marília Garcia

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Posições desconfortáveis
Victor Heringer


cotovelo no asfalto em cotovelo cotovela.
a fila espera. estou na fila. espero também.
a fila dá a volta num quarteirão inteiro
que suspeito não ser um quadrado perfeito.
não sei o que espero. não sei se a fila sabe.
espero. não pergunto. seria ridículo, agora,
depois de tantas horas com a mesma cara
bovina. sei fazer cara bovina. muito bem.
trouxe coisas para me ocupar: um jornal;
um lápis para escrever o Tratado para a
desinvenção da penicilina, opus magnum
romantiquinha; cinco dores (uma moral).
esqueci algumas outras coisas. me ocupo
com as que ficaram longe: o mínimo
necessário (por exemplo) para aterrissar
um aeroplano num rio que parece o mar.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.
ouvi dizer que é bom, bonito, barato não sei.
ouvi dizer de esquina, assim, canto de boca,
assim um sussurro que cotovelou o quarteirão
que não é um quadrado perfeito porque aqui
é o Rio de Janeiro. aquele é aquele. olharam
para mim. meu nome deu a volta no cotovelo
dobrei meu rosto. tenho que esperar. espero.
não posso ir, agora, bovinamente, falam de mim:
aquele que nem chegou a amar aquela ali
no espaço daquele dia. o que faz logo aqui.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.


in Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011)

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vídeo com Marília Garcia e sua vocalização do texto "É uma lovestory e é sobre um acidente"

Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979)


Voo amanhã de manhã para o Rio de Janeiro, como disse, onde passo 30 e poucas horas antes de embarcar para a Cidade do México. Espero, nestas parcas horas, conseguir encontrar amigos como Dimitri Rebello e minha querida Marília Garcia, que esteve há poucos dias em Berlim após nossa passagem pela Bélgica. Aqui, gravamos o vídeo abaixo, com este lindo poema recente dela.



Marília Garcia vocaliza seu texto "é uma lovestory e é sobre um acidente", em Berlim, Alemanha,
a 6 de dezembro de 2011. Um vídeo de Ricardo Domeneck.


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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nota sobre a última leitura na Bélgica, na Librarie Quartiers Latins em Bruxelas, seguida do primeiro anúncio sobre minha conferência no México

No último dia na Bélgica, participamos de uma conversa entrecortada por leituras de poemas na Librarie Quartiers Latins, em Bruxelas. Trata-se de uma livraria especializada em literatura belga de expressão francófona. Eles têm, no entanto, uma seleção ótima de poesia e prosa estrangeiras em tradução para o francês. Fomos cumprimentados logo na bancada de entrada por uma bela edição em francês dos poemas de Ana Cristina Cesar. Em conversa com Philippe Hunt, que fez a moderação de nossa mesa de leituras e debate com o público (incrível o número de belgas que apareceram nas leituras falando português fluente), e também com Thierry Leroy, o editor da antologia bilíngue português/francês lançada pela editora Le Cormier por ocasião do Europalia, Marília Garcia e eu encontramos graças às sugestões deles alguns livros de poetas belgas contemporâneos que logo aparecerão na Modo de Usar & Co..

O debate foi muito bom, e fiquei surpreso, por exemplo, com o quanto discutimos os efeitos da ditadura militar sobre o Brasil de hoje, a relação da poesia brasileira com o período e também com suas consequências, com um público belga interessadíssimo, e que parecia conhecer bem o que discutíamos.

Passei minha última noite em Bruxelas ao lado do meu queridíssimo J.C., numa reprise linda daquelas reprises que menciono em meu poema "O acordeonista da Catedral de Bruxelas". Algumas pessoas simplesmente são capazes de revigorar nossos poros.

Estou de volta a Berlim, fazendo os últimos preparativos para minha viagem ao México, onde darei uma conferência sobre poesia contemporânea brasileira no Centro Cultural Brasil-México, entre os dias 13 e 15 de dezembro. Encerro minha primeira passagem pelo país dos grandes poetas Xavier Villaurrutia (1903 - 1950) e Salvador Novo (1904 – 1974) com uma leitura no dia 16 de dezembro na Casa Refugio Citlaltépetl, onde serei recebido e terei a honra de ler com três dos poetas mexicanos contemporâneos que mais respeito: Julián Herbert, Luís Felipe Fabre e Minerva Reynosa. Por uma coincidência que me deixou muito feliz, o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg, que também respeito tanto, estará de passagem pela Cidade do México naquela semana e participará da leitura. Devo acrescentar que tudo isso está acontecendo graças ao entusiasmo de Paula Abramo, embaixadora da poesia brasileira no México.

Sendo assim, nesta sexta-feira voo para o Rio de Janeiro, fazendo uma passagem relâmpago de cerca de 32 horas antes de embarcar para a Cidade do México, onde fico então cerca de 10 dias, voltando depois ao Brasil para ver minha família, meus amigos amados e lançar meu novo livro de poemas, chamado Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, no prelo).

Estou cansadíssimo e entusiasmadíssimo.





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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tarde com Marília Garcia pelas ruas de Bruxelas, gravação da minha cantiga de escárnio "Quadrilha irritada" e leitura na Maison de la Poésie, em Namur

Ricardo Domeneck e Marília Garcia, editores-coruja da Modo de Usar & Co.,
na Maison de la Poésie, Namur, Bélgica. Foto de Arnaud de Schaetzen.

A manhã de sexta-feira começou com rojões, mas não era exatamente para celebrar a presença de quatro poetas brasileiros na cidade. Era a vez dos habitantes da capital oficial da Europa protestarem contra os planos de austeridade do Governo Belga, por conta e consequência das catástrofes de especuladores norte-americanos que explodiram em 2008. Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, após o café-da-manhã no hotel, saímos para as ruas para acompanhar e observar os slogans e reivindicações da população bruxelense.

Os protestos estão explodindo por toda a Europa, da Espanha à Grécia, da Inglaterra à França. Na Alemanha, que tenta equilibrar os pratos bambos da União Europeia, as coisas parecem calmas, ainda que a população comece a se perguntar se o país pode mesmo dar ordem à confusão deste novelo embaraçadíssimo. É muito esclarecedor observar o que ocorre nos países vizinhos. O Brasil e a Alemanha parecem ter-se saído com arranhões mas sãos da crise iniciada em 2008, ou será ilusão? Meus amigos e eu temos sentido na carne o aumento abusivo dos aluguéis em Berlim, do preço da comida. Berlim já não é a cidade que era quando cheguei.

Mais tarde, Marília e eu seguimos para livrarias, queríamos pesquisar poesia belga para futuras traduções e artigos na Modo de Usar & Co.. Eu queria também tentar encontrar mais livros de Gerard Reve (ver postagem anterior). Encontramos algumas coisas interessantes, mas fomos aconselhados a tentar a Librarie Quartiers Latins, onde há tudo o que se busca de prosa e poesia belgas. Como era justamente a livraria onde faríamos a leitura de Bruxelas, deixamos o resto da pesquisa para o dia seguinte.

Almoçando, Marília e eu tivemos uma ideia muito legal para um volume de ensaios, para o qual pretendemos convidar alguns poetas em breve. Mais informações assim que a coisa se concretizar.

Estamos filmando as leituras no Europalia para prepararmos um vídeo para a Modo de Usar & Co.. Como eu havia escrito em Bruxelas uma cantiga de escárnio intitulada "Quadrilha irritada", paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, Marília quis que gravássemos a porrada maysada e lupiciníaca a quente. O resultado é o vídeo abaixo:



Ricardo Domeneck - "Quadrilha irritada", cantiga de escárnio e poema satírico-paródico, gravado em Bruxelas, Bélgica, a 2 de dezembro de 2011. Vídeo de Marília Garcia.

Mais tarde, seguimos para Namur, onde lemos novamente os quatro juntos na Maison de la Poésie, numa noite que foi realmente muito legal. O vídeo das leituras seguirá em breve.

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sábado, 3 de dezembro de 2011

Pequena nota sobre uma tarde de quinta-feira em Antuérpia, com a minha descoberta do trabalho de Gerard Reve (1923 - 2006)

Gerard Reve (1923 - 2006)



A leitura que faríamos em Antuérpia na quinta-feira acabou sendo cancelada por alguns problemas da organização. Uma pena. No entanto, como um amigo meu alemão que vive em Amsterdã comprara já passagem de trem para vir a Antuérpia ver-me, decidi seguir de Bruxelas a Antuérpia mesmo assim e passar a tarde com ele. Meu querido Emanuel John, que deixou a Alemanha há mais de um ano para seguir seus estudos de filosofia na capital holandesa. Emanuel, que é filho de um teólogo alemão, é um oásis de diálogo para mim, com quem posso conversar sobre Simone Weil, Sören Kierkegaard, Miguel de Unamuno, sobre o misticismo em Ludwig Wittgenstein, sem que suas sobrancelhas ergam-se, como na maioria dos meus outros amigos alemães, em susto agnóstico horrorizado. Caía uma garoa fina em Antuérpia, caminhamos pelas ruas, conversando, parando em cafés, trocando leituras.

Foi nesta tarde que ele me falou de um escritor holandês que ele andava lendo após descobri-lo em Amsterdã, e me disse que acreditava que eu gostaria muito do senhor Gerard Reve (1923 - 2006), romancista e poeta. Tudo o que ele me disse sobre o escritor realmente me interessou muito. Ele tinha consigo uma cópia do livro Nader tot U (1966), algo como "Mais perto de ti", um romance epistolar que termina com uma série de poemas intitulada "Geestelijke Liederen", ou seja, canções espirituais.

Com meu alemão, que me permite arranhar a superfície do holandês, e a leitura do próprio Emanuel, sentamo-nos ao fim da tarde em um dos mil cafés que visitamos e nos lançamos a tentar traduzir algumas das "Geestelijke Liederen/Canções espirituais". Vocês verão de cara por que me apaixonei desde já pelo senhor Gerard Reve. Além disso, tudo o que pesquisei na Rede nestes dias aponta para um autor de misticismo e religiosidade extremamente carnais, que me lembram minha mestra Hilda Hilst, aquela que também misturava todos os gêneros literários no mesmo livro, assim como parecem ligá-lo ao grande Georges Bataille. Já estou procurando traduções para o alemão ou inglês para poder descobrir o universo deste que (sinto desde já) provavelmente entrará para o meu rol de obsessões, lá onde já estão Murilo Mendes, Hilda Hilst, Ludwig Wittgenstein, e outros. Abaixo, minhas traduções para algumas das "Canções espirituais" de Gerard Reve, com a assistência de Emanuel John e correções de Arnaud de Schaetzen.


POEMAS DE GERARD REVE

das Geestelijke Liederen / Canções espirituais,
incluídas ao final do romance Nader tot U (1966)


Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de trevas.

:

Drinklied

Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



§

Poema para o Doutor Trimbos

"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.

:

Gedicht voor Dokter Trimbos

"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.

§

Confissão

Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.

(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.

:

Bekentenis

Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.


§

Paraíso

Eu era um urso muito grande que era muito amável.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.

:

Paradijs

Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.



§

Para o Anjo

Se me guiaste até o fundo do poço,
Volta, peço-te, e fica com O Moço.

:

Aan de Engel

Als gij mij tot het eind toe hebt geleid,
Keer dan terug, en blijf bij Teigetje.



(Nota do tradutor: "Teigetje" era a forma com que Gerard Reve se referia a seu namorado, o estilista holandês Willem Bruno van Albada. Tomei minha liberdade transcontextualizadora de traduzir "Teigetje" por "O Moço").



Cenas de um documentário sobre Gerard Reve

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pequena nota sobre Gante, seguida de poemas de Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia

Ontem ocorreu a primeira leitura como parte do lançamento da antologia bilíngue holandês/português Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck (Gent: Poëziecentrum, 2011), um dos marcos poéticos do festival Europalia. Como escrevi, os poetas brasileiros presentes são Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, 4 dentre os 25 poetas contemporâneos brasileiros incluídos na antologia, que abre com Augusto de Campos (São Paulo, 1931) e fecha com Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979). Escreverei sobre a antologia, mencionando os outros poetas, em alguns dias.

A leitura foi no Poëziecentrum, um espaço dedicado à poesia na cidade de Gante (Gent/Ghent), com uma excelente biblioteca que conta com praticamente tudo o que é e foi publicado em poesia em holandês, seja esta a língua original ou a de tradução dos poemas. Trata-se do lindo prédio que vocês podem ver na pequena foto que abre a postagem, uma instituição totalmente voltada para a divulgação e publicação de poesia em flamengo, dirigida pela entusiasta generosíssima que é Sieglinde Vanhaezebrouck, a quem deixo aqui meus agradecimentos sinceros pela linda, linda noite que ela organizou. A sala de leitura era no último andar, com cerca de duas dezenas de belgas flamengos interessados, respeitosos, muito generosos, vários deles falando português por paixão pela língua, outros apenas interessados em poesia, seja ela de onde for. Entre as leituras, o violonista Daniel Miranda tocou clássicos de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Dilermando Reis e Tom Jobim. Foi uma noite muito bonita. Deixo vocês com um poema de cada um dos meus companheiros de leituras, Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia, dentre os incluídos na antologia, assim como posto uma vez mais meu "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que Flora Süssekind decidiu incluir na antologia, deixando-me muito contente de o ler em plena Bélgica, após tê-lo escrito aqui. Encerro com a linda composição de Dilermando Reis que Daniel Miranda tocou ontem à noite. Está sendo um prazer passar estes dias com minha companheira Marília Garcia, conhecer e privar da companhia de Francisco Alvim, rever Lu Menezes após um brevíssimo encontro no Rio de Janeiro em 2009, poder conversar com eles com paz e respeito tamanhos.


QUATRO POEMAS, QUATRO POETAS
incluídos na antologia Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck
(Gent: Poëziecentrum, 2011)


Escolho
Francisco Alvim

Parado

Na plataforma superior

Entre as pernas
no chão
as compras no plástico

Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão

Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua

Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavra, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento

Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas
duas doenças)

Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fugo do enredo?
da escolha?


§


onde o céu descasca
Lu Menezes

No interior
da pizzaria pintada de azul com nuvens
um ponto
onde descola a tinta, onde o céu descasca
denuncia
o sórdido teto anterior

descor
de burro quando surge

E é só
o que delicia certo solitário comensal
– esse ponto no qual
extramolduras
o apetite de um Magritte por superfícies
genuína companhia lhe faz

Genuína companhia...
num simulacro de céu, tal ninharia?
Yes!, no mínimo mais
que a fatia no prato,
o pedaço de teto nu e cru
– amostra menor do limbo,
do franco, fiel, frio limbo –
duraria, oh sim, duraria


§


Le pays n´est pas la carte,
Marília Garcia

I

pensa bem mas
se tivesse as ruas quadradas
teria ido a outro café, teria dito tudo de
outro modo e visto de
cima a cidade em vez de se
perder toda vez
na saída do metro, não é desagradável
estar aqui, é apenas
demasiado real
diz com cílios erguidos
procurando um mapa



II


não é o avião em rasante sobre
a água e nem o corpo
na janela semi-aberta
vendo o desenho
dos carros embaixo — não comenta nada
porque prefere armar planos
em silêncio
(estaria sonhando
com colinas?)



III


de lá manda longas
cartas descrevendo o país,
os terremotos e a forma da cidade.
pode me dizer que nunca se
espanta mas não percebe que
caminha perguntando:
é de plástico a cabine? é sua voz
na gravação? é um navio no
horizonte? pode ser apenas
uma margem de erro mas
não pensa nisso
com frequência

(pode ser apenas a janela
aberta que carrega os papéis)


§


O acordeonista da Catedral de Bruxelas
Ricardo Domeneck

De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tato
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.


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Dilermando Reis - "Se ela perguntar", composição que foi tocada por Daniel Miranda no Poëziecentrum ontem à noite.

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A caminho da Bélgica para as últimas leituras no Europalia


Embarco dentro de poucas horas para a Bélgica, onde faço minhas últimas leituras dentro do Festival Europalia. Estarei acompanhado em cada uma das quatro leituras por Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia. As cidades em que lemos são Gante (Gent/Ghent), Antuérpia, Namur e Bruxelas. Tentarei escrever um pouco sobre as leituras por lá.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Vai, meu filho, sacode em cima e dá a volta na poeira, pois teu nucleus accumbens já está com teia-de-aranha", diz-me Rocirda cantando Azealia Banks



212
Azealia Banks

Hey, I can be the answer
I’m ready to dance when they vamp up
And when they hit that dip get your camera
You can see when that bitch sets the pamper
And get in that young sister beacon
The bitch who wants to compete and
I can freakin fit that pump with the peep in
And you know what your bitch become when her weaved in
I just wanna sip that punch with your peeps and
Sit in that lunch if your treating
Kick it with your bitch who come from...
You knows where to get mine from in the season
Unless you wanna lick my plum in the evening
And flick that tongue, tongue d-deep in
I guess that cunt getting eaten
I guess that cunt getting eaten
I guess that cunt getting eaten
I guess that cunt getting eaten
I guess that cunt getting eaten

I was in the 212 on the uptown
Hey nigga nigger, you know what's up or don’t you?
Wonder who made ya
I’ma rude bitch nigga nigger, what are you made up of
I’ma eat your food up, boo
I could bust your 8, I’ma do one too
Fuck it
When you do make bucks
I’ma look right, nigga nigger, I bet you do want to fuck
Fuck 'em like you do want to come
...you discovered I'm a 212
Cock-a-licking in the water...
Caught the warm goo and you do right too son
Nigga Nigger, you’re a cooler dude
Plus your bitch might lick it
Wonder who let you come 212, what do you...son
Fuck are you in to, huh?
Niggas Niggers better do run run
You could get shot homie if you do want to
Put your guns up
Tell your crew don't front
I'm a hoodlum nigga nigger
You know you were too once
Bitch about to blew up to
I’m the one today
I’m the new shit too
Yeah I’m Rapunzel
Who are you bitch, new lunch?
I’ma ruin you cunt!
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I’ma ruin you cunt!
I’ma ruin you cunt!
I’ma ruin you cunt!

Ayo, ayo
I heard you’re riding with the same tall, tall tale
Tell him I made some, made some
Saying you’re grinding but you ain’t going nowhere, nowhere!
Why procrastinate girl?
You gotta lie, but you just waste all yourself
They'll forget your name soon, name soon
And want nobody be the same as yourself, yeah

What you gonna do when I ain't up there
W-when I premier
Bitch the end of their lives are there
This ship ain’t mine, mine!
What you gonna do when I ain't up there
W-when I premier
Bitch the end of their lives are there
This ship ain’t mine, mine!

Bitch I’m in the 212
With the fifth cock nigga nigger
Its the 212
Fuck your gun, dude!
When your goons sprayed up
Bet his bitch won't get him
Betcha you won't do much
See, even if you do want to bust
Your bitch ... and touch your crew up to pop
You’re playing with your butter like you do want to cock the gun too
Where did you eat too, hun?
And fuck him with your cutie-cue ...
What’s your dick like homie?
What are you into?
What’s the run dude?
Where do you wake up?
Tell your bitch, "Keep hating"
I'm a new one too, huh
See I remember you when you were the young new face
But you do like to slumber don't you
Now you blew up too hun
I’ma ruin you cunt!
I’ma ruin you cunt!
I’ma ruin you cunt!

What you gonna do when I ain't up there
W-when I premier
Bitch the end of their lives are there
This ship ain’t mine, mine!
What you gonna do when I ain't up there
W-when I premier
Bitch the end of their lives are there
This ship ain’t mine, mine!



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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Entrevista e antologia mínima


Guilherme Gontijo Flores, um dos editores da página escamandro, conduziu uma pequena entrevista comigo por ocasião do lançamento do meu livrinho Cigarros na cama (Rio de Janeiro: Berinjela, 2011), acompanhada do que chamei de antologia mínima, com poemas dos meus cinco livros: Carta aos anfíbios (2005), a cadela sem Logos (2007), Sons: Arranjo: Garganta (2009), Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (no prelo). Completam a postagem cinco dos meus vídeos. A quem possa interessar:




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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Traduções para dois poemas do austríaco H.C. Artmann (1921 - 2000)

Hans Carl Artmann, mais conhecido como H.C. Artmann, está entre os poetas germânicos do pós-guerra que eu mais amo. Bastante conhecido no âmbito de língua alemã, creio que tenha sido pouco traduzido, talvez por sua linguagem tão específica, muito marcada pelo dialeto vienense, escrita vocalizável, sua poesia parece por vezes conseguir a façanha de operar uma espécie de experimentalismo coloquial. Os dois poemas abaixo estão entre meus favoritos. Traduzi-os há alguns anos, a partir da minha ideia de transcontextualização, já que muito da poeticidade do texto vem de um jogo muito sutil de linguagem, bastante marcado pelo contexto histórico e cultural do poeta. Tentei recriar alguns dos jogos linguísticos em português, mas num português muito pessoal, o do interior de São Paulo onde cresci. Espero que vocês tenham algum prazer com minhas traduções/contextualizações e que elas os ajudem a descobrir um pouco sobre este poeta vienense fenomenal, H.C. Artmann.


H.C. Artmann nasceu em Viena, em 1921. A partir de 1947, seus textos começam a ser divulgados pelo rádio e na revista Neue Wege, além de fazer várias leituras no lendário Art Club. Em 1952, une-se aos poetas Gerhard Rühm, Konrad Bayer, Friedrich Achleitner e Oswald Wiener, todos mais jovens que ele, com quem forma o que ficou conhecido como Wiener Gruppe (Grupo de Viena). Seu trabalho com a oralidade e o dialeto vienense teria grande influência sobre os seus companheiros. Em 1958, ano em que se distancia das performances e intervenções do Grupo de Viena, Artmann publica a coletânea de poemas dialetais med ana schwoazzn dintn, que viria a se tornar um dos livros de poemas mais populares da Áustria. Poeta e prosador, H.C. Artmann traduziria ainda François Villon para o "vienense" no volume Baladn. Nas décadas que se seguem, estabelece-se como um dos poetas centrais na Áustria do pós-guerra. Teve um papel importante na revalorização da obra dos poetas germânicos de vanguarda do entre-guerras, como Hans Arp, Hugo Ball, Raoul Hausmann e Richard Huelsenbeck. Publicou, entre outros, os livros verbarium (1966), Die Anfangsbuchstaben der Flagge (1969), Das im Walde verlorene Totem (1972) e Aus meiner Botanisiertrommel (1975). O poeta recebeu o Georg-Büchner-Preis em 1997. H.C. Artmann morreu em Viena no ano 2000.



Dois poemas de H.C. Artmann
publicados no número impresso de estreia
da Modo de Usar & Co.



querida idolatrada orquídeanil prima ballerina
de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé
à senhora eu envio esta carta de amor
para que possa encaixá-la em seu lac de cygne
como um pássaro sibilante a mais a migrar
na pejada concha do céu junino da ômegabóboda
no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia
eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego
um heitor vira-copos a patinar campinas
por ousar dirigir esta carta a seu pas
de deux
mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe
que aceite as pérolas que lanço a seus corpos
todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença!
minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro
minha extraordinária orig. pat. insígniaficante
como nada mais peço-lhe que a aceite como
um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60
polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou
tou-tou tou-tou
uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo
um swing em pub & cócegas em núcleos ricos de novela
em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq.
e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu-
lanim
e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja
ainda
uma diva radiante em sua próxima performance
a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília
merda merda merda
e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de
rosas champagne
deus sobre os montes! o que deveria nem tudo
e que por certo nem tudo será minha epistolazinha
minha clara-neve
minha belíssima
minha fofa
minha tu tu
minha toda toda papoulacreponizada
via aérea par avion luftpost u.a.m.
no trajeto entre aa & bee

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

liebe verehrte orchideengrüne primaballerina
aus windsor am kamp massachusetts udssr recommandé
ich sende ihnen diesen liebesbrief
dass sie ihn in ihren lac de cygne einbauen können
als eine anmutig zischende schwalbe mehr
am perlgrauen septemberhimmel am ultimobaldachin
der neurenovierten staatsopernpassage allelujah
ich bin ein schamloser in wahrheit ein höllsakra
ein johann sebastian orth am örthersee auf rollschuhen
weil ich es wage diesen brief an ihren pas de deux zu
richten
aber ich befehle ihnen nichts ja ich bitte sie nur
meine ezzes hinzunehmen als das was sie sein wollen
alles was sie lieben gnädiges frl! prost du! servus!
mein federgeschriebener schlankerl mein weisser brief
mein ausserordentlich orig. pat. petschaftberühmter
als nichts andres bitt ich sie ihn hinzunehmen als
einen mann mit grundsätzen einen mg 59 einen jaguar 60
eine elfenixbeinerne locomotive 230 ph nach las vegas toi
toi toi
ein schlüsselfertiges badezimmer im berliner hilton
ein ballet rose auf groschenstöckeln und eine filmwohnung
in döbling im dehmelschokoladetortenstil von dipl. arch.
und stadtbaumeister woswasdardeiföwiarahastdeadschu-
schdea
und wenn das alles noch nicht genug sein soll dann sei er
noch
ein strahlendes leitstarlet über ihrem nächsten auftritt
am 23. ds. um punkt 19 uhr 30 mitteleuropäischer zeit
spuck spuck spuck
und ein applaus mit 69 vorhängen und regnenden tee-
rosen dazu
gott über den berg! was soll les nicht alles
und was wrid es nicht alles sein mein briefchen
mein crèmeweisses
mein hübsches
mein zartes
mein du du
mein durch & durch veilchencrêpegefüttertes
luftpost par avion via aerea u.a.m.
auf der strecke zwichen aa und bee



§§§




sob uma araucária kircheriana eis que sansão
o da juba em madeixas e dalilás a violetíssima

restauram sua paixão semi-afogada em estuquoceano
fosfóreas crepitam as gramíneas no matagal em redor

e canários portam nos bicos campanuláceos
a aproveitar a ocasião para exibir emblemas

mesmo davi o da estrela e golias o arquiquelôneo
trazem hoje equilibradas oferendas de pazes

como cacetetes de látex estilingues de origami
figas generosas e revólveres de amianto

(meu caro amigo isto significa cuidado
caso gozem disparos mas nem fazem caso

sao de amianto as coisas..)
o rabino de rzeszów e pato donald a sophisticated jew

ombreiam seus empoeirados fogos de armistício
e disparam a galopes holofotes e fumações de anéis anis

marlboro gauloises philip morris de 2 – 5 reais o maço
engatilhados após o rosiclérigo matinar teletúbico

uma ou duas hosanas pela tierra del fuego da rep. chile
que tal relíquia de quarta-feira assegure um cantinho

exclusivo nos anais de sutilíssimos eventos
sob uma araucária kircheriana musgolpeiam-se na horizontal

sansão e dalilás em uma orgisséia feito peixes
a morrer pela boca de sede ao pote deitam-se dualmente

com a única diferença que dalilás a violetíssima
ao fim não há de esgoelar em asfixia ao engolir

toma oh gentle reader de flip-e-ramas dentalha teu espanto
pois nosso tempo humanizou-se após uma era de fábulas

(tradução de Ricardo Domeneck)


§


unter eine araucaria kircheriana haben samson
mit dem löwenhaar und dalilah die sehr violette

ihre fast im mörtelozean ertrunkene liebe restauriert
hellauf knistern die gräser der wildnisse rundum

und lerchen tragen glockenblumen in ihren schnäbeln
um sich aus diesem anlass mit emblemen zu zeigen

selbst david mit dem stern und goliath erzbeschuppt
bringen heute ausgewogen versöhnliche geschenke

wie keulen aus gummi schleudern aus papierschlangen
hirschlederne amulette und pistolen aus asbest

(mein lieber freund da heisst es aufpassen
wenn die einmal losgehen aber sie tun s nicht

sind aus asbest die dinger..)
der rabbi von rzeszów und donald duck a sophisticated jew

haben ihre langvergrabenen böllerrifles geschultert
und schiessen im vorbereiten ein salut blauer rauchringe

ritmeester partagas willem de tweede zwichen ös 10-18 per stück
nach den mattrosa geladenen peynetkuppeln der morgenluft

ein bis zwei hosannah für das feuerland der freien republik chile
dass diesen grossen mittwoch auf einem vorreservierten plätzchen

in den annalen für subtilere ereignisse verzeichnen wird
unter einer araucaria kircheriana liegen mooszerstörend

der samson und die dalilah in einer marathoncopulation
wie hühnchen und hähnchen am nussberg liegen sie da die zwei

nur mit dem unterschied dass dalilah die sehr violette
schliesslich doch nicht ersticken wird an dem geschluckten

toma oh gentle reader aus read im innkreis zerbeiss deine furcht
denn unsere zeit ist humaner geworden nach einer ära der fabeln

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