terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Dois poemas na revista vienense "GESTALT"
sábado, 8 de setembro de 2012
"Linguagem com Queda de Ícaro" - poema
Linguagem com Queda de Ícaro
Quanto ao sofrimento, sempre equivocados
os Velhos Mestres; como sua obsessão por simetria
e perspectiva acabava por espalhar as personagens
pelos cantos da cena, quando as pessoas em verdade
atraem-se, agrupam-se no desejo e repulsa
guiados por hormônios, coágulos
de carne, os iates e os cruzeiros costeiam a praia
demasiado próximos pois o humano exige-se
visto e cobiçado em sua alegria, nem sempre o sol
incide nas pernas a desaparecerem n´água, mas na moeda
esquecida n´areia, na garrafa de vodca vazia, na rata prenhe
entre os arbustos; como pareciam inscientes
que linguagem e visão
entremeiam-se, emaranham-se, embaraçam-se
para criar importância e hierarquia, esquecendo uns
e enaltecendo outros, ainda que tenham sido lançados
ao mar à sua revelia, à margem; na “Paisagem com Queda
de Ícaro”, por exemplo, que hoje sequer sabemos se deveras
saiu do pincel de Brueghel: como nossos olhos
caem sobre o semeador e a caravela e mal
quiçá notássemos o menino sem o anúncio
espetáculo do título, ou talvez o tomássemos
por um mergulhador feliz; tantos corpos
foram lançados ao mar sem
que merecessem mitos; quando eu,
em carnadura datada, contemplo sempre a criatura
poucas vezes mencionada, quase ao centro
da pintura, um pastor, talvez, ou alguma
espécie de peregrino que elegera por companhia
para si tão-só a alimária – porventura leal
porque seu desejo é ditado pelas estações,
ali sozinho e quase encoberto pelo semeador, e digo:
eis-me,
em ânsia expectante, obviamente olhando na direção
errada, e contudo à espera de algo fabuloso, um menino
despencando dos céus, mas nunca em meus braços.
Ricardo Domeneck, 2012. Publicado originalmente na Eutomia - Revista de Literatura e Linguística.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Entrevista e antologia mínima

Guilherme Gontijo Flores, um dos editores da página escamandro, conduziu uma pequena entrevista comigo por ocasião do lançamento do meu livrinho Cigarros na cama (Rio de Janeiro: Berinjela, 2011), acompanhada do que chamei de antologia mínima, com poemas dos meus cinco livros: Carta aos anfíbios (2005), a cadela sem Logos (2007), Sons: Arranjo: Garganta (2009), Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (no prelo). Completam a postagem cinco dos meus vídeos. A quem possa interessar:
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Algumas perguntas, ainda sobre a edição da revista "Cuardernos Hispanoamericanos" dedicada à Literatura Brasileira
Isso ficou me incomodando. Ora, ninguém quer cair na cabotinagem do elogio, nem na ingratidão da invectiva, mas certamente estes são os extremos da crítica que precisamos todos evitar, para que a crítica seja efetiva, honesta e possa funcionar. Em geral, o que ocorre é a falência da crítica, e por mais que este conceito de falência esteja tão em voga, hoje em dia considero como única verdadeira falência da crítica o silêncio.
Uma das coisas que passei os últimos dias perguntando-me é: estar incluído impede-me ou obriga-me a um comentário crítico? Talvez nenhum dos dois, mas a resposta então seria a atitude mais comum: o silêncio, ao qual geralmente me recuso, como vocês já devem ter percebido. Minha bocarra gigante.
Se no artigo anterior simplesmente comentei o número da revista em alguns de seus aspectos, gostaria de expor agora algumas perguntas no espírito do diálogo, elaborando alguns pontos do meu artigo e, em outros, até mesmo corrigindo-os. Como o próprio Jorge Henrique Bastos citou em uma mensagem, após escrever-lhe expondo algumas discordâncias, a crítica deveria ser como o que Pound chamou de "conversation between intelligent men", sem os usuais ataques de nervos e egos que tão frequentemente vemos no Brasil.
§ - Como a revista afirma dedicar o número à Literatura Brasileira hoje, ainda que eu esteja ciente de que os nomes intocáveis de Graciliano Ramos, Clarice Lispector ou Vinícius de Moraes não são, infelizmente, óbvios para um leitor espanhol, talvez houvesse sido mais condizente com o propósito do número reservar tal espaço, seja o da mera menção ou da discussão, para autores vivos, produzindo realmente hoje.
§ - Afirmei em meu último artigo que a revista parecia bem-informada. A verdade é que, tratando-se por exemplo da prosa contemporânea brasileira, eu próprio não me sinto bem informado, pois não a acompanho ou visito de forma assídua. Imagino que os nomes de João Almino, Adriana Lisboa e Frances de Pontes Peebles sejam exemplos da prosa brasileira recente que merecem estar na revista. Infelizmente, não conheço seus trabalhos, não posso afirmá-lo ou negá-lo. Portanto, não se trata de criticar exclusões, mas de sugerir que um número futuro venha a tratar de autores como Veronica Stigger, Joca Reiners Terron, João Filho, Bernardo Carvalho, Sérgio Medeiros ou Nuno Ramos, dentre os que conheço um pouco melhor. São autores muito diferentes entre si, com a característica comum de estarem produzido trabalho sério, discordemos ou não de suas escolhas ou quanto ao resultado que alcançam.
§ - Certamente a existência de traduções de livros dos autores na Espanha torna-se um fator compreensivelmente considerado por um editor, mas continua me parecendo um problema crítico muitíssimo sério no número, que um autor tão não-influente (para usar um eufemismo educado) quanto Lêdo Ivo, por ser amplamente traduzido na Espanha tenha tomado o lugar de direito de poetas muito superiores a ele, como Augusto de Campos e Leonardo Fróes. Superiores como técnicos da linguagem, além de muito mais influentes e relevantes para o debate poético contemporâneo. Imagino que algumas pessoas incluiriam ainda Manoel de Barros nesta lista.
§ Não posso criticar a inclusão de Nélida Piñon por não conhecer seu trabalho. Sei que seu romance A República dos Sonhos (1984) é respeitado por certos setores da intelligentsia nacional. Lamento apenas que Márcia Denser, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Sérgio Sant´Anna não tenham encontrado acolhida na revista, não como substitutos, mas ao menos como companheiros, autores certamente mais influentes entre os prosadores mais jovens. Poderíamos mencionar ainda Raduan Nassar, mesmo que ele já não produza hoje. De qualquer forma, o lamento quer, na verdade, servir como sugestão para publicações futuras da revista.
§ Entende-se que a revista quisesse concentrar-se em autores vivos, mas a morte prematura e recente de autores como Haroldo de Campos e Hilda Hilst não impede que eles estejam extremamente vivos e muito mais presentes no debate contemporâneo que autores como Lêdo Ivo, por exemplo.
§ A parte mais difícil de comentar é justamente aquela em que estou incluído, intitulada "Antología de la poesía actual brasileña", com organização e introdução de Jorge Henrique Bastos e traduções de Vicente Araguas.
O trabalho de qualquer antologista me parece sempre árduo, cheio de armadilhas incontornáveis e de recepção quase invariavelmente ingrata. A literatura e a poesia contemporâneas de um país são sempre campos minados com e por debates est-É-ticos em andamento e nunca realmente resolvidos, releituras e reformulações críticas, teias comportando-se como correntes, raios e margens ansiando pelo centro e núcleo. Não é à toa que a maior parte da crítica escolhe o caminho do retrospectivo e não do prospectivo, para usar as hábeis expressões de Dirceu Villa. É muito mais fácil olhar para o passado, escrever sobre o que já está estabelecido como bom e relevante. É um trabalho crítico necessário e importantíssimo para a saúde de uma literatura, que pode envolver muita criatividade e inteligência para os que não querem simplesmente inchar a bibliografia crítica sobre os autores, mas realmente debater aspectos muitas vezes despercebidos por outros críticos, contemporâneos ou não. No melhor dos casos, tal crítica consegue ser retrospectiva e prospectiva ao mesmo tempo. Basta pensarmos nas leituras de Walter Benjamin ou, no Brasil, as de Haroldo de Campos e Augusto de Campos dedicadas a Joaquim de Sousândrade e Oswald de Andrade; a que Flora Süssekind dedicou a Sapateiro Silva; ou os trabalhos editorial e crítico de James Amado e João Adolfo Hansen com a obra de Gregório de Matos. É claro que não vamos mencionar aqui os nomes dos preguiçosos que simplesmente acreditam poder ganhar o prêmio ao apostarem no cavalo vencedor depois que este já cruzou a linha de chegada, ou os que meramente regurgitam o que já foi dito por bons autores sobre bons autores, em paráfrases engenhosas e esbanjando embasamento acadêmico universitário, com longas listas de bibliografia especializada dando ar de autoridade a suas defesas do engessado, estes agentes do status quo, bandeirantes de quintal.
Como Dirceu Villa expôs em seu último artigo ("Retomando a conversa", in O Demônio Amarelo, terça-feira, 11 de outubro de 2011) – com a elegância que já lhe é conhecida, a única crise hoje no Brasil é a ausência de uma crítica forte e preparada que se disponha a ler a poesia e a literatura do presente sem antolhos, sem atitudes iracundas por vezes dignas de adolescentes (o que mais parece abundar hoje no Brasil é a ala do enfant terrible na casa dos 50 anos de idade - so embarrassing and unbecoming - , e há revistas que até se especializam neste nicho), tendo achaques feito sereias da catástrofe porque os autores de seu tempo não estão seguindo os caminhos que gostaria que seguissem, ou porque não estão emulando os seus mestres eleitos. Por vezes, tenho a impressão de que o problema de tais críticos é não entender muito bem a relação entre poesia e crítica, ou seja, confundem qual das duas é o cavalo e qual a carroça. Quero voltar ao artigo de Dirceu Villa em outro momento, pois ele discute o Nobel a Tranströmer e outras questões que me interessam, mas por ora retorno à nossa discussão, que não está, porém, distante da que ele empreendeu ali.
Pois eu discutia o trabalho do antologista. Se a palavra antologia, a partir do grego, nos leva à ideia do colhimento e arranjo de flores – daí a palavra florilégio em português; e se a palavra crítica, também a partir do grego, nos leva à ideia de separar, discernir, fica patente que uma antologia de poetas/poemas é, em primeiro lugar, um trabalho de crítica autoral, talvez antes mesmo de ser um livro de poemas, pois passa a estar condicionado por esta ação que se quer discernente, fazendo do antologista-crítico uma espécie de apanhador no campo, não de centeio, mas de joio e trigo. E aí começam os grandes problemas que nos vão levar com tanta frequência à discussão sobre a subjetividade inescapável e a objetividade possível no ato de antologiar.
Talvez tudo isso pudesse ser resolvido com o cuidado rigoroso na hora de intitular antologias. Ao intitular o recolho de poemas na revista "Antología de la poesía actual brasileña", Jorge Henrique Bastos talvez tenha aberto portas a discordâncias que não teriam lugar na discussão se os poetas/poemas ali apresentados não acabassem tendo que operar como representativos. Trata-se de um risco sempre presente em antologias de caráter nacional. Convida tanto aos rancores regionais como a pelejas est-É-ticas. O espaço reduzido, permitindo tão-só um poema de cada um dos 6 poetas (dois no caso de Damázio, sem mencionar os outros quatro autores e seus poemas mencionados no ensaio), acaba inevitavelmente sujeito à insuficiência. É algo a ser pensado, por exemplo, a decisão dos editores em optar pela publicação de poemas inéditos, quando talvez houvesse sido melhor a publicação do que cada autor tem de melhor em sua obra, já que são todos jovens e não têm livros editados na Espanha. Mas, com espaço para apenas um poema, seria difícil representar até mesmo o trabalho de cada poeta, quem dirá o de todo o Brasil. São problemas muitas vezes incontornáveis, mas que não precisam embargar o projeto.
Continuo acreditando que este número da revista Cuadernos Hispanoamericanos, dedicado a escritores brasileiros, deveria ser visto com alegria, mesmo com seus pontos questionáveis e de discordância possível. Imagino que alguém mais cínico dirá que acredito nisso apenas por ter meu trabalho mencionado. Ora, quanto a um leitor que pense desta maneira sobre mim, fico apenas pasmo que ele perca tempo lendo meu blogue. Exponho estas perguntas porque meu senso crítico e de honestidade realmente me levaram a ver o último artigo como insuficiente e falho.
Agradeço a Jorge Henrique Bastos, assim como a Benjamín Prado e Juan Malpartida, o respeito com que claramente conduziram seu trabalho. Exponho aqui estas perguntas no espírito das palavras de Pound que Bastos citou em nosso debate particular: como conversation between intelligent men – conversa que me dá prazer ter, com ele, os editores da revista e os leitores e leitoras deste espaço.
Nascido em 1964 em Belém do Pará, com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa, onde organizou a antologia Poesia Brasileira do Século XX - dos modernistas à actualidade (Lisboa: Antígona, 2002), Jorge Henrique Bastos tem um trabalho jornalístico, editorial e crítico sérios, colaborador em revistas e jornais tais como Diário de Lisboa, Independente, LER, Colóquio-Letras e Camões, sendo responsável ainda, por exemplo, pela primeira edição portuguesa de Macunaíma - o herói sem nenhum caráter (Lisboa: Antígona, 1998) e pela primeira edição brasileira do poeta Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA (São Paulo: Iluminuras, 2000).
Quanto ao editor Benjamín Prado, meu respeito, junto com o dos outros três editores da Modo de Usar & Co., está já estampado tanto em nosso primeiro número impresso, com vários poemas do espanhol, quanto em nossa franquia eletrônica.
Abraço a todos os homens e mulheres inteligentes que passam por este espaço,
aqui despeço-me,
Ricardo Domeneck – passando frio em Berlim.
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terça-feira, 18 de outubro de 2011
"Cuadernos Hispanoamericanos", revista espanhola dirigida por Benjamín Prado, dedica seu número 735, de setembro de 2011, à Literatura Brasileira Hoje
Recebi este fim-de-semana meu exemplar do número 735 da revista espanhola Cuadernos Hispanoamericanos, que tem como diretor o poeta e romancista Benjamín Prado, e Juan Malpartida como redator-chefe. Este número é o primeiro a ser lançado em edição bilíngue espanhol-português, inteiramente dedicado à chamada Literatura Brasileira Hoje, com atenção especial à poesia, em minha impressão pessoal.É sempre estranho escrever criticamente sobre um volume no qual seu próprio trabalho comparece. Jorge Henrique Bastos, que escreve um ensaio sobre a atual poesia brasileira e que busca evitar qualquer partidarismo, menciona meu trabalho e inclui um poema inédito meu na mini-antologia da revista. O ensaio, intitulado "Poesia brasileira recente: bicho de sete cabeças", discute certos aspectos e parâmetros visíveis em alguns jovens poetas surgidos neste século, e comenta, além do meu trabalho, o de Eduardo Sterzi, Tarso de Melo, Angélica Freitas, Marília Garcia, Micheliny Verunschk, Dirceu Villa, Reynaldo Damázio, Rodrigo Garcia Lopes e Mariana Ianelli. Pareceu-me uma tentativa honesta de abordagem crítica, e consciente da própria impossibilidade do ensaio panorâmico da poesia em um país de proporções continentais. É claro que sempre será possível discordar-se dos nomes incluídos. Serão representativos estes poetas? O título do número da revista talvez convide a este tipo de crítica. Sou obrigado a me abster de comentar demais, pois estar incluído me impede. Não sei se a revista chegará ao Brasil, mas seria frutífero se fosse lida criticamente por outros. De qualquer maneira, publicamente ou não, tenho certeza que haverá quem se descontente com a seleção. A minha própria teria sido outra, mas isto tão facilmente cai no afã ocioso de simplesmente atacar listas incompletas com outras listas incompletas. É um campo minado, o da organização de antologias. O que seria interessante: analisar criticamente as inclusões, o que, como já disse, estou impedido de fazer por estar entre elas. Esta mini-mostra de poesia atual traz cinco poemas inéditos de Ferreira Gullar, e ainda os poemas "Memorando", de Mariana Ianelli; "Cefalópode", de Dirceu Villa; "E pur si muove" e "Cosmogonia", de Reynaldo Damázio; "Cerco", de Micheliny Verunschk; "El duende", de Rodrigo Garcia Lopes"; e encerra-se com meu poema intitulado "Eu", inédito em livro. As traduções para o espanhol ficaram a cargo de Vicente Araguas.
Ferreira Gullar é o grande homenageado da revista, com poemas, ensaio crítico e uma pequena entrevista. Sua presença no mercado editorial espanhol tem sido constante nos últimos anos, e diz-se que a tradução de seu Poema Sujo (1975) teve "impacto" no país ibérico, o qual ele parece ter visitado nos últimos anos para leituras de seus poemas. Podemos discordar de praticamente tudo o que Gullar hoje diz na imprensa brasileira, assim como podemos ter visões conflituosas sobre a qualidade verdadeira e real de sua poesia, certamente irregular, mas seria difícil negar a influência de seu trabalho sobre vários poetas.
Sabemos que a visão da poesia de um país estrangeiro está sempre marcada por sua presença através de traduções, que nem sempre refletem a posição de um poeta em seu próprio país. Por exemplo, algum dia ainda pretendo escrever sobre a posição de Paul Celan dentro da poesia germânica: imagino que um brasileiro, sabendo que Celan é um dos poetas mais traduzidos e celebrados da língua alemã no pós-guerra (no estrangeiro), imaginará que sua poesia é central dentro da tradição poética germânica. Pois tal leitor brasileiro se surpreenderia com a maneira como é ilhada a influência de Celan na poesia alemã do pós-guerra. Muito conflui para isso, mas me parece um exemplo interessante. Portanto, a publicação de antologias poéticas de Gullar na Espanha, assim como a de seu Poema Sucio, explicam seu grande vulto na revista, que não me parece injusto. A revista, imagino, quis dedicar-se apenas a poetas vivos, o que talvez explique a ausência completa de Haroldo de Campos em suas páginas, já que nos últimos anos a Espanha viu vir a lume tanto a belíssima antologia organizada por Andrés Fischer sob o título Hambre de Forma: Antología Poética (Madri: Vientisieteletras, 2009), como ainda, com tradução e prólogo de Andrés Sanchez Robayna, a publicação de Crisantiempo (Barcelona: Acantilado, 2006).
Aqui, porém, alguém poderia reclamar o lugar de direito que deveria ter sido reservado à obra de Augusto de Campos dentro do número de uma revista dedicado à literatura brasileira de hoje. Uma explicação possível, mas certamente não uma justificativa, talvez venha do fato de Augusto de Campos não ter ainda sido tão traduzido na Espanha como seu irmão. Mesmo a inserção de Haroldo de Campos no circuito de traduções parece ter-se dado apenas após sua morte, o que nos deixa um tanto deprimidos. Porém, a ausência de Augusto de Campos torna-se muito mais alarmante quando percebemos quem é o segundo poeta brasileiro com maior espaço na revista: Ledo Ivo. Imagino que um leitor brasileiro agora pare e pasme, mas a verdade é que Ledo Ivo é hoje um dos poetas brasileiros mais traduzidos na Espanha, ao lado de poetas como os já mencionados Ferreira Gullar e Haroldo de Campos, além de Armando Freitas Filho. Esta presença de Ledo Ivo em certos países europeus sempre me assusta. Já me perguntei se sua completa insignificância, como já escrevi recentemente, dentro do debate poético contemporâneo brasileiro se dê por preconceitos vanguardistas nossos, herdados da década de 50, que nos fazem por em xeque a poesia brasileira da década de 40. Pois bem, após uma viagem à Espanha em que encontrei vários livros de Ledo Ivo em livrarias, resolvi verificar se eu havia deixado algo passar por minha atenção. No entanto, a mim a poesia de Ledo Ivo segue parecendo um caso claro de frouxidão de linguagem, de um lirismo que beira no máximo o pseudofilosófico. Qualquer poema de Augusto de Campos ou Leonardo Fróes demonstra maior consciência tanto da materialidade como da opacidade necessárias da linguagem poética. Completamente distanciada dos questionamentos mais interessantes no debate poético brasileiro, o trabalho de alguém como Ledo Ivo talvez gere ressonância dentro da poesia espanhola principal que, com exceções, muitas vezes assemelha-se à do Grupo de 45. O único outro caso na revista que talvez pareça estranho a um brasileiro é a eminência de Nélida Piñon entre os prosadores. Não conheço o trabalho da ex-presidente da ABL, jamais li um de seus livros. Sei que ele é respeitado no âmbito hispânico. No Brasil, não sei quanta ressonância ou influência tem.
No entanto, excetuando as aparições controversas de Ledo Ivo e Nélida Piñon, o número da revista pareceu-me bem informado, apenas enfrentando a dificuldade praticamente intransponível de dar a conhecer a literatura de um país como o Brasil, tentando incluir tanto poetas e prosadores do pós-guerra imediato como as vozes recentes do século XXI. O ensaio de Vicente Araguas refere os leitores espanhóis a figuras importantes do entreguerras e do pós-guerra, como Tom Jobim, Oscar Niemeyer, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, Carlos Drummond de Andrade. A nós estes nomes podem parecer óbvios, mas não o são na Espanha, infelizmente. Assim como a gigantesca e incontornável Clarice Lispector parece ser um vulto sobre toda a revista, como deveria ser, mencionada em alguns artigos. João Almino e Adriana Lisboa comparecem como prosadores contemporâneos. Ronaldo Correia de Brito escreve sobre o também gigantesco Graciliano Ramos, este que foi um dos maiores acontecimentos de linguagem no Brasil. Para mim, um romance como Angústia (1934) segue parecendo melhor do que qualquer coisa que eu tenha lido de Steinbeck e Camus, por exemplo. Ou mesmo de Hemingway, para dizer a verdade.
Em novembro, o Brasil é o homenageado no Europália. Em 2013, na Feira do Livro de Frankfurt. Espero que seja o início do processo que fará de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst e outros, finalmente, os household names que deveriam ser na Europa, para que os europeus finalmente mereçam por completo sua reputação de cultos.
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Nota: Marília Garcia lembrou-me que Haroldo de Campos ainda estava vivo quando foi lançada na França, em tradução de Inês Oseki-Dépré, o volume Galaxies (La Souterraine: La main courante, 1998).
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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
1. Artigo de Érico Nogueira na Terra Magazine sobre meu trabalho | 2. Max Hattler na Hilda Magazine | 3. A morte de Maria Schneider
O poeta paulista Érico Nogueira, autor de O Livro de Scardanelli (2008) e Dois (2010), iniciou hoje uma série de "Perfis" de poetas contemporâneos em sua coluna de poesia na revista do provedor Terra, dirigida por Bob Fernandes. Trata-se de um artigo generoso, e deixo com os leitores a conclusão se ele está ou não certo sobre as asserções que ali faz. De qualquer forma, não posto o link para o artigo aqui apenas porque ele inicia a série com a minha poesia, mas porque me parece também muito interessante que um poeta como ele, versado nos clássicos e que, até há pouco, usava o espaço da coluna para discutir autores como Horácio e Leopardi, volte-se agora também para a poesia contemporânea. É muito bom para o debate, para as trocas, para os diálogos. No ano passado ele escreveu sobre alguns poetas em seu blogue e imagino que ele retornará aos nomes que já discutiu, mas espero também que ele nos surpreenda com novos nomes.
No artigo, Érico reproduz meu poema "Enfim aurora-me na cachola", uma de minhas odes mezzo pornográficas, mas também minha grande pledge of allegiance à poética de Caio Valério Catulo, um dos quatro pilares clássicos para o meu pensamento crítico e poético. Os outros três são os gregos Safo de Lesbos e Calímaco de Cirene, e o latino Marco Valério Marcial, poetas que figuram lá no topo do meu paideuma pessoal.
Perfis: Ricardo Domeneck, por Érico Nogueira
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2. Max Hattler na Hilda Magazine.
Já mencionei o trabalho do artista visual Max Hattler aqui. Esta semana, alguns de seus vídeos estão no topo da página principal da Hilda Magazine. Aos que não o conhecem, recomendo muito o trabalho deste alemão radicado em Londres, que consegue conjugar o abstrato e o figurativo em animações de alta carga política.
Max Hattler na Hilda Magazine
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3. A morte de Maria Schneider
A atriz francesa Maria Schneider morreu hoje em Paris. Como homenagem à moça de cara redonda e juba encaracolada, fui à locadora do bairro e aluguei dois de meus filmes prediletos protagonizados por ela: Last Tango in Paris (Bernardo Bertolucci, 1972) e The Passenger (Michelangelo Antonioni, 1975) --- (Nota mental: escrever algum dia um artigo sobre o monólogo da personagem de Marlon Brando no quarto em que jazia sua mulher morta - aquela cena é simplesmente magistral, assim como sobre a famosa cena da manteiga e suas blasfêmias contra a família católica).
O Último Tango em Paris é, em minha opinão, a melhor coisa que Bernardo Bertolucci fez em sua vida. O filme não envelheceu e continua potentíssimo quase 40 anos depois. Bertolucci tem, obviamente, outros filmes bons e competentes. Mas é difícil imaginar que se trata do mesmo diretor que fez The Dreamers (2003), que para mim vale mais ou apenas pela beleza verazmente onírica dos três atores principais, Michael Pitt, Louis Garrel e Eva Green. Enfim, não estamos falando de Bertolucci, mas daquela que emprestou sua beleza enlouquecida para Bertolucci no gigantesco e maravilhoso Último Tango em Paris e a Antonioni no também excelente The Passenger. Descanse em paz, moça.
Trailer para Last Tango In Paris (1972)
Trailer para The Passenger (1975)
Só uma pergunta me ocorreu: quantos homens heterossexuais adentraram ou tiveram uma recaída em sua crise de meia-idade hoje, no exato segundo em que ouviram sobre a morte de Maria Schneider.
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sábado, 15 de janeiro de 2011
Tenho dois poemas inéditos publicados HOJE no caderno PROSA & VERSO do jornal carioca O GLOBO
Começou em abril de 2010, com poema inédito da carioca Laura Liuzzi e uma tradução do excepcional polonês Zbigniew Herbert, um dos meus poetas favoritos de TODOS OS TEMPOS. Já publicou poetas brasileiros como Lu Menezes, Juliana Krapp e Franklin Alves Dassie, e estrangeiros como o japonês Saburô Kuroda e o israelense Yehuda Amichai.
Estou aqui do outro lado do charco atlântico no inverno berlinense, então comemoro com um tiro de tequila e um chocolate quente.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O Almanaque Lobisomem
A pedido dos editores, cedi alguns pedaços de minha anatomia para alimentar o filhote lupino que crescia, e é com prazer que vejo agora correndo em seu bojo estes pedaçoilos de mim. Em primeiro lugar, dois poemas inéditos, intitulados "Brinde" e "Texto em que o poeta percebe a impossibilidade de obedecer à segunda pessoa do singular do imperativo do verbo relaxar". Os editores também acharam por bem republicar meu poema satírico "Poetry Police".
Minha última contribuição e também a que me deixa mais feliz é o pequeno ensaio "Pensando em Leonardo Martinelli", que escrevi para acompanhar a pequena antologia dos poemas do nosso saudoso companheiro, organizada por Fabiano Calixto e por este que vos escreve.
Abaixo, os leitores de Rocirda Demencock podem ler a apresentação dos editores d´O Almanaque Lobisomem, assim como podem clicar no link que os levará a poder baixar a revista de mais de 300 páginas, incluindo textos de:
ADBUSTERS + ALBERTO MARTINS + ALFRED DÖBLIN + ANDRÉ FERNANDES + ANDRÉA CATRÓPA + ANNE SEXTON + ARNALDO ANTUNES + AVELINO DE ARAUJO + BANKSY + CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE + CARLOS MARIGHELLA + CHRISTIAN MORGENSTERN + CORINGA + DIEGO DE SOUSA + DIEGO VINHAS + DINIZ GONÇALVES JÚNIOR + DIRCEU VILLA + EDUARDO GALEANO + E.E. CUMMINGS + ÉRICA ZÍNGANO + FABIANO CALIXTO + FABIO CAMARNEIRO + FABRÍCIO CORSALETTI + FABRÍCIO MARQUES + FERNANDA SERRA AZUL + FLÁVIO RODRIGO PENTEADO + FLORA ASSUMPÇÃO + GABRIEL PEDROSA + HEINRICH BÖLL + HELIO NERI + HERIBERTO YÉPEZ + HERSCHEL PINKUS YERUCHAM KRUSTOFSKI + JEAN STAROBINSKI + JOHN ASHBERY + JOHN ZERZAN + JIM MORRISON + JULIANA AMATO + JULIANA MARKS + JÚLIO BARROSO + KAREN REVISITED + LAURA WITTNER + LAURIE ANDERSON + LEANDRO RODRIGUES + LEDUSHA + LEONARDO MARTINELLI + LETÍCIA COSTA + LILIAN AQUINO + MARCELLO VITORINO + MARCELO FERREIRA DE OLIVEIRA + MARCELO MONTENEGRO + MARCELO SAHEA + MÁRCIO-ANDRÉ + MARIANO MAROVATTO + MARÍLIA GARCIA + MÁRIO BORTOLOTTO + MARIO SAGAYAMA + MARCO BUTI + NICK DRAKE + NICOLAS BEHR + NÍCOLLAS RANIERI + PABLO ORTELLADO + PAULO RODRIGUES + PAULO STOCKER + PATRÍCIA AUGUSTA CORRÊA + PEDRO GALÉ + PRISCILA MANHÃES + QORPO-SANTO + RENAN NUERNBERGER + R. PONTS + RICARDO DOMENECK + RICARDO SILVEIRA + ROBERTO BOLAÑO + RODRIGO LOBO DAMASCENO + ROGÉRIO SGANZERLA + SAPATEIRO SILVA + SÉRGIO RAIMONDI + SYLVIA BEIRUTE + THAIS MONTEIRO + THE BEATLES + TIAGO PINHEIRO + TOM VIOLENCE + TOM WAITS + WILLIAM SHAKESPEARE + ZHÔ BERTHOLINI
Editorial d´O Almanaque Lobisomem:
Respeitável público,
o Excelso Pretório, doravante denominado Conselho da Licantropia, sempre chama a si a colmatagem e superação das lacunas, omissões e imperfeições da norma fundamental, isto é: no último conclave do referido Conselho, realizado a bordo da Nau Abelardo Barbosa, o Ilustríssimo Senhor Presidente da presente instituição, o Coringa, abroquelou que, com espia no referido precedente, plenamente afincado, de modo consuetudinário, por entendimento turmário iterativo e remansoso, e com amplo supedâneo na Carta Política assinada pelos demais componentes de tão idôneo Conselho, a saber: Macunaíma, Chacrinha, Woody Woodpecker, Goober, O Coringa, François Villon, Ed Wood, Adam Worth, Didi Mocó Sonrisal Nevalgino Mufungo, Lemmy Kilmister, Hélio Oiticica, Hans Arp, Allen Ginsberg, Fantomas, Nhá Barbina, Bento Carneiro, Ludwig van Beethoven, Mefistófeles, entre outros, os quais não preceituam garantia ao cotencioso nem absoluta nem ilimitada, padecendo ao revés dos temperamentos constritores limados pela dicção do legislador infraconstitucional, resulta de meridiana clareza que O ALMANAQUE LOBISOMEM finalmente estará à disposição para download no link
BAIXE AAQQUUII O ALMANAQUE LOBISOMEM
à meia-noite, ao raiar da Lua Cheia desta exordial sexta-feira 13 de agosto de 2010.
Sem mais,
Os Editores
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quinta-feira, 3 de junho de 2010
Poema inédito e entrevista
Motivo muito melhor para visitar a revista é a possibilidade de ler poemas inéditos de Érico Nogueira e da portuguesa Sylvia Beirute, além de poemas visuais de Arnaldo Antunes.
REVISTA CELUZLOSE - edição de junho de 2010. Editada por Victor Del Franco.
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sábado, 11 de julho de 2009
Poemas inéditos na revista eletrônica Sala Grumo
Os outros textos:
"Poema (para Jonas Lieder)"
"Texto em que o poeta medita sobre certas leis da física / e busca convencer-se a si e ao amante que a dor alheia / é irreproduzível e a própria irremediável"
e os 4 poemas do "Ciclo do amante substituível"
são mais recentes e fazem parte de um outro livro em que venho trabalhando, que provavelmente chamarei de phono grama para logo tipo. Estes poemas mais recentes mostram, de certa forma, a direção do meu trabalho no momento.
É possível acessar a página da Sala Grumo AAQQUUII.
Digo aqui meu Obrigado ao poeta argentino Mário Camara pelo convite.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Diário de Poesía (Buenos Aires / Rosário)
Angélica Freitas, Carlito Azevedo, Joca Reiners Terron, Juliana Krapp, Manoel Ricardo de Lima, Marcos Siscar, Marília Garcia, Renato Mazzini, Ricardo Aleixo e deste que vos digita.
São 12 páginas (o Diário de Poesía é editado em formato jornal, páginas grandes) em que Cristian De Nápoli discute o construtivismo poético que dominou a poesia brasileira no pós-guerra, as influências de João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos e Ferreira Gullar, além de Roberto Piva e Horácio Costa, chegando a nossos dias.
Esta edição traz ainda um ensaio de Eduardo Milán, em que discute de forma interessante a conexão entre Nicanor Parra e a Poesia Concreta brasileira, assim como poemas inéditos e entrevistas com a argentina Irene Gruss e o chileno Diego Maquieira.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Poemas na revista Transcript

A revista eletrônica TRANSCRIPT, uma revista bimestral em três línguas (inglês, francês e alemão) aos cuidados da Universidade de Gales, acaba de publicar as traduções para o alemão de alguns dos poetas latino-americanos que participaram do Festival Móvel de Poesia Latino-Americana em Berlim.
Dos brasileiros, a revista publicou poemas de Angélica Freitas, Douglas Diegues e meus; dentre os argentinos, de Sergio Raimondi, Fabián Casas, Washington Cucurto; e ainda da uruguaia Lalo Barubia.
Você pode acessar a página da revista
AAQQUUII: TRANSCRIPT
O editorial da revista eletrônica européia de literatura TRANSCRIPT diz o seguinte em inglês:
About Us
Transcript is a bi-monthly review of books and writing from around Europe. Its aim is to promote quality literature written in the 'smaller' languages and to give wider circulation to material from small-language literary publications through the medium of English, French and German.
Transcript is published by Literature Across Frontiers, the European programme for literary exchange and policy debate, with the support of the Culture 2000 programme of the European Union. Literature Across Frontiers operates through partnership with a network of literature and translation organisations. For more information, go to partners.
Editorial Directors:
Alexandra Büchler
Sioned Puw Rowlands
Ned Thomas
Editorial Team (Issue 28 onwards)
Andreas Jandl
Stéphanie Lux
Chantal Wright
Previous editors:
Chantal Wright (Issues 21-27)
Diarmuid Johnson (Issues 1-20)
Excelente revista.
http://www.transcript-review.org
terça-feira, 5 de agosto de 2008
"Poesía con P de plural", artigo de Sandra Santana na revista espanhola POESÍA DIGITAL
Sandra Santana é autora do excelente Es El Verbo Tan Frágil, publicado há poucos meses na Espanha. A revista eletrônica espanhola POESÍA DIGITAL pode ser acessada aqui:
http://www.poesiadigital.es
Poesía con p de plural
por Sandra Santana
Desde que el poeta italiano Enzo Minareli publicase el “Manifiesto de la Polipoesía” en 1987, muchos autores se han apropiado de este término que tiene la virtud de dotar de un prefijo múltiple al género poético. Entre el 29 y el 31 de mayo de 2008 se celebró en La Casa Encendida de Madrid la cuarta edición del Microfestival de Poesía y Polipoesía Yuxtaposiciones, un momento perfecto para intentar tomarle el pulso a las prácticas más heterodoxas de la lírica actual.
¿Qué tienen en común los nombres de Rui Torres, Josep Pedrals, Mark Sutherland, Nora Gomringer o Ricardo Domeneck? Todos estos autores de diversa estirpe se reunieron durante tres días en el patio de La Casa Encendida para dar forma a un festival que nos dejó soñando con un territorio en el que cada nueva propuesta poética despierta un complejo universo alimentado por las más diversas y bien digeridas tradiciones. Cada uno de ellos abordó la poesía desde un flanco distinto para demostrar que este término se puede pronunciar en lenguajes y soportes muy diversos: desde el poema-monólogo de la joven poeta suizo-alemana Nora Gomringer –que encarnó a los distintos personajes de su autobiografía-lírica mediante una hipnótica lectura–, a los vídeos del brasileño Ricardo Domeneck, en diálogo con unos versos que conservaban el ritmo breve de la respiración de su autor; desde el producto amable y humorístico ofrecido por el barcelonés Josep Pedrals y el trabajo fonético de Mark Sutherland, hasta el espectáculo de poesía electrónica en tiempo real de Eugenio Tisseli. Todo ello pasando por la conferencia de Rui Torres acerca de Telepoesis (un ambicioso proyecto destinado a recoger, clasificar y reproducir en formato electrónico los fanzines y revistas de poetas visuales y concretos de la vanguardia portuguesa de los 60), y desembocando en un poetry slam en el que pudimos observar las distintas modulaciones que este tipo de competición lírica ha adoptado en las diversas áreas donde se practica: los franceses Abd El Haq y D´de Kabal aproximándose al ritmo de rap, los alemanes Timo Brunke y Bas Böttcher más cerca de la sobria vanguardia centroeuropea y, por último, Ajo, Gonzalo Escarpa (Pimpoets) y Julio Jara, que ofrecieron la versión española de este género tan poco frecuentado en nuestro país. En resumen, muchos motivos para regresar a casa más que satisfechos al contemplar tanta variedad y tan satisfactorias aptitudes entre las polipoéticas del festival.
El término “polipoesía” viene asociado a una tradición que utiliza como carburante creativo las voces del dadaísmo, de la poesía concreta y, sobre todo, de unas segundas vanguardias que encontraron en el trabajo con el material fonético la batalla capaz de sacar a la literatura de su marasmo y ponerla en contacto directo y vivo con el público. La fórmula que ofrece Yuxtaposiciones (antes Intervocálica) tampoco es nueva. Este festival puede considerarse como el hermano pequeño de Proposta, un encuentro anual que (heredero del Festival de Polipoesía y de Viatge a la Polinesia en los años 90) llevó hasta el Centro de Cultura Contemporánea de Barcelona entre el 2000 y el 2004 a lo más selecto de la escena poética experimental internacional (Jaap Blonk, Amanda Stewart, Nobuo Kubota, Franz Mon...), prestando un especial cuidado al producto autóctono de calidad (Bartomeu Ferrando, Accidents Polipoètics, Josep Ramon Roig...). Y es que Cataluña ha sido, desde finales de los 80, el paraíso de los polipoetas en nuestro país. Esto es, de las manifestaciones performativas, sonoras, cibernéticas, audiovisuales, etc., asociadas a la poesía y que, siendo ignoradas en gran parte del territorio español, en Estados Unidos o Alemania tan plácidamente parecen convivir, sin embargo, con el resto de usos poéticos asociados al texto escrito. Por supuesto, aunque con nombre plural, la polipoesía no lo es todo, pero hoy en día el reconocimiento de esta vertiente lírica puede y debe hacernos revisar el recital poético y contemplar la escritura con ojos nuevos.
Después de pasar por el festival y ver la buena salud de la que goza esta vertiente poética en tan variadas latitudes, agradecemos a la polipoesía que nos recuerde que el nombre por el que denominamos al arte de escribir versos debe conservarse plural, abierto al contagio con otras artes y sin miedo a la exploración, al equívoco, a tantear sendas oscuras o inexploradas en el escenario. Con una tradición fuerte y consolidada de polipoetas dentro y fuera de nuestras fronteras, nada tenemos que objetar a quien escoge el libro como el soporte para su escritura: siempre que vuelva a él con la despierta conciencia de que su elección no es obligada, sino una opción más entre muchas otras (el vídeo, el blog, la performance, la poesía en soporte electrónico, la poesía sonora, el teatrema, el poema objeto...). Después de este viaje, el regreso al soporte-libro ya no puede ser el mismo. Nada podemos reprochar a quien en sus recitales reproduce un poema originalmente pensado para ser degustado en silencio por medio del papel, siempre que perciba cómo, entre sus manos, está latiendo el tiempo vivo del público que presencia su lectura. Con la certeza de esta ineludible responsabilidad deberá ofrecer una nueva obra literaria viva y desprendida ahora de las líneas del texto escrito.
Sandra Santana
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Poemas publicados na Green Integer Review
Green Integer Review
Six Songs of Causality.
Mais ou menos de mim
Projetos Paralelos
Leituras de companheiros
- Adelaide Ivánova
- Adriana Lisboa
- Alejandro Albarrán
- Alexandra Lucas Coelho
- Amalia Gieschen
- Amina Arraf (Gay Girl in Damascus)
- Ana Porrúa
- Analogue Magazine
- André Costa
- André Simões (traduções de poetas árabes)
- Angaangaq Angakkorsuaq
- Angélica Freitas
- Ann Cotten
- Anna Hjalmarsson
- Antoine Wauters
- António Gregório (Café Centralíssimo)
- Antônio Xerxenesky
- Aníbal Cristobo
- Arkitip Magazine
- Art In America Magazine
- Baga Defente
- Boris Crack
- Breno Rotatori
- Brian Kenny (blog)
- Brian Kenny (website)
- Bruno Brum
- Bruno de Abreu
- Caco Ishak
- Carlito Azevedo
- Carlos Andrea
- Cecilia Cavalieri
- Cory Arcangel
- Craig Brown (Common Dreams)
- Cristian De Nápoli
- Cultura e barbárie
- Cus de Judas (Nuno Monteiro)
- Damien Spleeters
- Daniel Saldaña París
- Daniel von Schubhausen
- Dennis Cooper
- Dimitri Rebello
- Dirceu Villa
- Djoh Wakabara
- Dorothee Lang
- Douglas Diegues
- Douglas Messerli
- Dummy Magazine
- Eduard Escoffet
- Erico Nogueira
- Eugen Braeunig
- Ezequiel Zaidenwerg
- Fabiano Calixto
- Felipe Gutierrez
- Florian Puehs
- Flávia Cera
- Franklin Alves Dassie
- Freunde von Freunden
- Gabriel Pardal
- Girl Friday
- Gláucia Machado
- Gorilla vs. Bear
- Guilherme Semionato
- Heinz Peter Knes
- Hilda Magazine
- Homopunk
- Hugo Albuquerque
- Hugo Milhanas Machado
- Héctor Hernández Montecinos
- Idelber Avelar
- Isabel Löfgren
- Ismar Tirelli Neto
- Jan Wanggaard
- Jana Rosa
- Janaina Tschäpe
- Janine Rostron aka Planningtorock
- Jay Bernard
- Jeremy Kost
- Jerome Rothenberg
- Jill Magi
- Joca Reiners Terron
- John Perreault
- Jonas Lieder
- Jonathan William Anderson
- Joseph Ashworth
- Joseph Massey
- José Geraldo (Paranax)
- João Filho
- Juliana Amato
- Juliana Bratfisch
- Juliana Krapp
- Julián Axat
- Jörg Piringer
- K. Silem Mohammad
- Katja Hentschel
- Kenneth Goldsmith
- Kátia Borges
- Leila Peacock
- Lenka Clayton
- Leo Gonçalves
- Leonardo Martinelli
- Lucía Bianco
- Luiz Coelho
- Lúcia Delorme
- Made in Brazil
- Maicknuclear de los Santos Angeles
- Mairéad Byrne
- Marcelo Krasilcic
- Marcelo Noah
- Marcelo Sahea
- Marcos Tamamati
- Marcus Fabiano Gonçalves
- Mariana Botelho
- Marius Funk
- Marjorie Perloff
- Marley Kate
- Marília Garcia
- Matt Coupe
- Miguel Angel Petrecca
- Monika Rinck
- Mário Sagayama
- Más Poesía Menos Policía
- N + 1 Magazine
- New Wave Vomit
- Niklas Goldbach
- Nikolai Szymanski
- Nora Fortunato
- Nora Gomringer
- Odile Kennel
- Ofir Feldman
- Oliver Krueger
- Ondas Literárias - Andréa Catrópa
- Pablo Gonçalo
- Pablo León de la Barra
- Paper Cities
- Patrícia Lino
- Paul Legault
- Paula Ilabaca
- Paulo Raviere
- Pitchfork Media
- Platform Magazine
- Priscila Lopes
- Priscila Manhães
- Pádua Fernandes
- Rafael Mantovani
- Raymond Federman
- Reuben da Cunha Rocha
- Ricardo Aleixo
- Ricardo Silveira
- Rodrigo Damasceno
- Rodrigo Pinheiro
- Ron Silliman
- Ronaldo Bressane
- Ronaldo Robson
- Roxana Crisólogo
- Rui Manuel Amaral
- Ryan Kwanten
- Sandra Santana
- Sandro Ornellas
- Sascha Ring aka Apparat
- Sergio Ernesto Rios
- Sil (Exausta)
- Slava Mogutin
- Steve Roggenbuck
- Sylvia Beirute
- Synthetic Aesthetics
- Tazio Zambi
- Tetine
- The L Magazine
- The New York Review of Books
- Thiago Cestari
- This Long Century
- Thurston Moore
- Timo Berger
- Tom Beckett
- Tom Sutpen (If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats)
- Trabalhar Cansa - Blogue de Poesia
- Tracie Morris
- Tô gato?
- Uma Música Por Dia (Guilherme Semionato)
- Urbano Erbiste
- Victor Heringer
- Victor Oliveira Mateus
- Walter Gam
- We Live Young, by Nirrimi Hakanson
- Whisper
- Wir Caetano
- Wladimir Cazé
- Yang Shaobin
- Yanko González
- You Are An Object
- Zane Lowe

