quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Desanuviai-vos

 Gostaria de pedir a vocês alguns minutos para que se detenham e admirem a beleza do verbo DESANUVIAR.

de.sa.nu.vi.ar

(des- + anuviar)

verbo transitivo e pronominal

1. Limpar(-se) de nuvens.

2. [Figurado]  Libertar do que causa sensação ou sentimento negativo ou opressor; fazer perder ou perder o sentimento de preocupação; tranquilizar(-se); serenar(-se). = DESASSOMBRAR

3. Desenrugar o cenho.

Tanto que alguém pode chamar esta manhã de “manhã desanuviada”, essa característica tão bonita das manhãs, seu caráter desanuviador. Alguém talvez diga nesse exato instante, por exemplo, "Maria, precisamos desanuviar um pouco", ou "Dei uma desanuviada", ou “finalmente DESANUVIEI.”

Despejar-se de nuvens, o céu antes pejado, e, ora, meu caríssimo Fernando Pessoa, se teu "coração é um balde despejado", posso entender hoje, talvez, que você tenha então se desanuviado? É da natureza intrínseca do balde pejar-se e despejar-se. Para isso foi criado, e se despejou-se, cumpriu sua missão. Triste é só despejar o balde no destino errado de seus conteúdos. A isso chamamos: desperdício. “O leite derramado” X “O meu cálice transborda”.

Despejar não é despojar.

Pois despejamos as coisas porque elas se pejam e pesam, nós mesmos nos pejamos, e eu quero desanuviar. Despejar-me. Baldar os pejamentos. Tirar as rugas (voluntárias) do cenho, da testa, dos cantos da boca. 

Só espantam os maus espíritos as carrancas de madeira nos barcos de madeira, não a sua carranca de carne na sua carne de borco. Desenrugar a senha da alegria, até a difícil. Fazer a prova dos nove e dos novelos. Olhar as manhãs dos nossos setembros mas também as dos nossos marços com suas águas. As águas despejadas a balde das nuvens que se despojam para que o céu finalmente venha a desanuviar-se.

Que eu então despeje o coração. Como um balde ou como o céu, mas desanuvie.

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