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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

1. Transitando entre gêneros: a poeta escocesa Leila Peacock. | 2. Lançamentos de Florian Pühs | 3. A dança de Thom Yorke

1. A poeta e videasta escocesa Leila Peacock.

Trabalhos que circulam entre gêneros estão entre os que mais me interessam, mas esta elisão a taxinomias não torna a vida de seus criadores exatamente fácil. Entendo bem a situação. Há poetas que veem meus trabalhos e dizem: "isso não é poesia, é vídeo"; há videastas que veem meus trabalhos e dizem: "isso não é videoarte, é poesia"; tudo isso não importa muito até o momento em que percebemos que os espaços de diálogo são muitas vezes dependentes dos contextos gerados pela taxinomia de gêneros artísticos. Tenho consciência clara de que minhas performances vídeo-textuais têm efeitos distintos se apresentadas em uma galeria de arte ou em um festival de poesia literária. Tudo isso me veio à mente ao preparar a mais recente publicação da Hilda Magazine, com trabalhos da escocesa Leila Peacock. Os trabalhos ali apresentados, em especial "Sing. Speak. Scream. Sigh", de 2008, podem parecer habitar vários espaços distintos. Para mim, trata-se de poesia, daquela que retém todo o seu contexto clássico e medieval, textualidade em performance. Ao mesmo tempo, o trabalho pode ser visto como body art, como vídeo e até mesmo como literatura, a partir da análise de seu texto. Mostro abaixo a peça em questão e convido os amigos a visitarem a página dedicada a Leila Peacock na Hilda Magazine para verem mais.



"Sing. Speak. Scream. Sigh" (2008), de Leila Peacock.


Sing. Speak. Scream. Sigh
Leila Peacock

Sing speak sigh scream
I'm a sunken mouth you cannot see
I am the music of your laugh
I am the gills of your every gasp

Scream sing speak sigh
Without me you can speak no I
Hewn by lips and cut by teeth
I relieve the pressure of speech

Sigh scream sing speak
From these doors of breath
Will your last breath leak
I am a pipe with out a reed
I am the crown of an upturned tree

Speak sigh scream sing
Just don't forget to keep breathing in, in ,in ,in

Orpheus had a sister, descendant of Pandora, cousin to the sirens, whose voice was so sweet that it unseamed space. Exquisite chaos followed in her wake, buildings collapsed, people went mad, snakes threw themselves into the sea. Thus was she imprisoned for the greater good in a box made of mother-of-pearl, the first music box, where she ended her days. Once those days were done the gods preserved her voice and it was divided amongst the birds, some was gifted to the wind, some dispensed among mankind where it was kept in boxes much like me. What remained was but a whisper and that haunted the seashells in memory of her own pearlescent imprisonment, thus was she forgotten by history but remembered by the sea...



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2. Novas produções do alemão Florian Pühs.


Florian Pühs é uma figura já conhecida do subterrâneo alemão, e escrevi sobre ele algumas vezes aqui. Son os holofotes primeiro como vocalista da banda punkcore Surf Nazis Must Die e mais tarde vocalista e letrista da banda synthpunk Herpes, nos últimos tempos Florian Pühs tem produzido também techno. Ele disponibilizou algumas faixas novas em sua página no portal Soundcloud. Reproduzo aqui duas de minhas favoritas.


LEVEL022 by florianpuehs



LEVEL020 by florianpuehs


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3. Thom Yorke adere ao Movimento em Prol de Poetas que Saibam Dançar.

Creio que o mundo estava preparado para tudo, menos para um vídeo novo do Radiohead em que Thom Yorke bancasse o go-go-boy. Mais um membro do Movimento em Prol de Poetas que Saibam Dançar.


"Lotus Flower", do poeta Thom Yorke, acompanhado pelo Radiohead.


Lotus Flower
Thom Yorke

I will sneak myself into your pocket
Invisible, do what you want, do what you want
I will sink and I will disappear
I will slip into the groove and cut me up and cut me up

There's an empty space inside my heart
Where the wings take root
So now I'll set you free
I'll set you free
There's an empty space inside my heart
And it won't take root
Tonight I'll set you free
I'll set you free

Slowly we unfurl
As lotus flowers
And all I want is the moon upon a stick
Dancing around the pit
Just to see what it is
I can't kick the habit
Just to feed your fast ballooning head
Listen to your heart

We will sink and be quiet as mice
While the cat is away and do what we want
Do what we want

There's an empty space inside my heart
And now it won't take root
And now I set you free
I set you free

Because all I want is the moon upon a stick
Just to see what it is
Just to see what gives
Take the lotus flowers into my room
Slowly we unfurl
As lotus flowers
All I want is the moon upon a stick
Dance around a pit
The darkness is beneath
I can't kick the habit
Just to feed my fast ballooning head
Listen to your heart


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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quem será Ata Kak? Por onde andará Ata Kak?

Descobri há algumas semanas, por obra do generoso acaso, este vídeo contendo a canção "Daa Nyinaa", de um certo Ata Kak.


Desde então, tenho ouvido as canções do músico ganês sem parar. Esta faixa me parece particularmente luminosa.

Não encontrei muita informação sobre ele. Chamado de "O Rei do Highlife", as canções espalhadas pela Rede são de uma fita-cassete (!!!) do álbum Obaa Sima, de 1989, em que o lo-fi é clara e frutífera necessidade, não joguinho retrô de estilo.


Se você, como eu, achar o que vem a seguir uma coisa esplêndida de feliz, entre no (mui bom) Awesome Tapes From Africa, capitaneado pelo nova-iorquino Brian Shimkovitz, para baixar as outras faixas da fita-cassete.

Sem Michael Jackson, alguém precisa ir a Gana e transformar Ata Kak na maior estrela da música pop atual. Por favor.

Mais uma postagem do MPSD: Movimento Em Prol De Poetas Que Saibam Dançar.


"Daa Nyinaa", de Ata Kak, no álbum Obaa Sima (1989)


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terça-feira, 21 de abril de 2009

Movimento em prol de poetas que saibam dançar


(Foto da coreógrafa e dançarina Denise Stutz, em Ouro Preto, em 2005)

Acontece há quatro anos por aqui o festival de dança Brasil Move Berlim, no teatro Hebbel am Ufer, que já trouxe à Alemanha alguns dos melhores coreógrafos e companhias de dança do Brasil. Ontem à noite, assisti à estréia européia do trabalho "3 Solos em um Tempo", da coreógrafa mineira, radicada no Rio de janeiro, Denise Stutz, uma das fundadoras do Grupo Corpo. Trata-se do retrabalhar de três peças anteriores: "DeCor", "Absolutamente Só" e "Estudo para Impressões".

Estava na companhia de três alemães: o moço, o fotógrafo Heinz Peter Knes e a atriz Grete Gehrke, e estava muito curioso sobre a maneira como o trabalho de uma coreógrafa brasileira agiria sobre eles.

Todos nós tivemos uma experiência maravilhosa. Há tempos não presenciava alguém com tamanho poder de empatia sobre um palco. Ela nos seduziu maravilhosamente.

O trabalho estava fortemente baseado na fala, algo raro, pelo menos na maneira como ela o usou, na dança que conheço. O primeiro solo consistia basicamente da descrição dos movimentos que ela estaria fazendo. Como artista da linguagem, fiquei fascinado. Ao mesmo tempo, o trabalho era extremamente irônico, usando movimentos do balé clássico e, num segundo momento, o vocabulário já manjado da dança contemporânea, enquanto ela descrevia a nomenclatura dos movimentos. Para quem já trabalhou com dança, como fiz por dois anos em São Paulo, foi uma delícia. Ri até não poder mais. No entanto, o desnudamento a que ela estava se submetendo tornava-se cada vez mais claro, e foi apenas natural que ela terminasse o espetáculo completamente nua sobre o palco. Em seu trabalho entre linguagem e corpo, tive momentos de grande aprendizado, ontem à noite, em sua presença. Obrigado, Denise Stutz.

O trabalho tinha ainda, sobre mim, implicações est-É-ticas poderosas. Em um determinado momento, ela pede que alguém da platéia escolha onde ela deve posicionar-se no palco, em que ponto ela deveria começar sua coreografia. Ela caminha então até o ponto escolhido, dizendo:

"Porque eu, eu sempre obedeço. Eu nunca grito."

Quando ela chega ao ponto escolhido pela pessoa da platéia, ela então assume sua posição e começa a tensionar todo o seu corpo, seu rosto, assumindo a posição e musculatura tensionadas de quem estaria gritando no topo de sua voz, mas sem emitir som algum. Foi um dos momentos em que os arrepios percorreram todo o meu corpo. No final, nua sobre o palco, ela vagarosamente caminha por ele, assumindo o que pareciam ser as posições "clássicas" em que mulheres foram retratadas (por homens) ao longo dos séculos, seja em pinturas renascentistas ou revistas pornográficas. "3 Solos em um Tempo" foi uma experiência muito forte.

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Em 2001, uni-me ao grupo de dança dirigido por Luzia Carion na Universidade de São Paulo, e por dois anos trabalhei com ela e com mulheres como Verônica Veloso, Paulina Caon e Lígia Borges sobre a técnicas coligidas pelo coreógrago mineiro Klauss Vianna. Foi um dos períodos mais marcantes sobre minha vida e meu trabalho. Mais tarde, quando já estava na Alemanha, o grupo (que se chamava Grupo de Pesquisa Obara) criou um espetáculo, usando poemas do meu primeiro livro, Carta aos anfíbios. Segue sendo uma das colaborações das quais mais me alegro.

Isso me fez pensar em alguns poemas do meu primeiro livro, em que essa presença corporal é fundamental, e o tempo em que trabalhei com Luzia Carion, Verônica Veloso e Lígia Borges. Estas três mulheres tiveram um grande impacto sobre minha existência. Trabalhar com elas foi muito especial. O que aprendi com Luzia sobre o trabalho e pensamento-dança de Klauss Vianna é, sem dúvida, essencial para meu trabalho poético.

Após publicar a Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005), encontrei um poema num caderno que deveria, na verdade, ter integrado o livro, mas ficou esquecido entre rascunhos. Reescrito, ele viria a ser usado por Luzia Carion no espetáculo "Fragmentos de uma carta aos anfíbios", encenado por ela, Verônica Veloso e Paulina Caon em 2005 e 2006. Ele já foi oralizado muitas vezes por Carion, mas permanece inédito no papel. Após ver o trabalho de Denise Stutz ontem à noite, pensei no meu trabalho em dança com o Grupo Obara, no espetáculo que fizeram a partir da Carta aos anfíbios, pensei em Luzia, Verônica e Lígia, quis mostrar estes três poemas que são dedicados a elas, por terem nascido de uma experiência corporal comum nossa. Mostro aqui o inédito "Articulações" (que integrará a Carta aos anfíbios, se este algum dia for reeditado), dedicado a Luzia Carion, e os poemas "O dono do corpo" e "Chão", dedicados a Verônica Veloso e Lígia Borges, respectivamente, publicados na primeira edição do livro.

TRÊS POEMAS da Carta aos anfíbios

Articulações

.............a Luzia Carion

Talvez
seja necessário
o exílio, como quem acorda
no meio
da noite na cama
de um estranho e sente
a cabeça girar de forma
diferente, todos os músculos
atentos, dores
novas no corpo, ângulos
variegados
no pescoço: e escuta,
os arcos
dos pés mais tesos,
talvez,
e toda uma outra
estrutura estabelece-se
no corpo, bicho
de Lygia Clark de
repente
manipulado por mãos
inéditas, gerando
tensões, torsões
impensadas
em músculos esquecidos,
compensando
distribuições de equilíbrio
precário, mas presente,
e apontando para linhas
no espaço ignoradas
contudo ígneas


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O dono do corpo

............a Verônica Veloso

entre veia e espinho
o diálogo é explícito

mesmo o cadafalso exige
da minha perna
a perfeição,
..........do meu passo
o preciso

à iminência do penhasco
...........é mais atento
o metacarpo
...........e o rosto encolhe
perante a navalha

..........a terra
não se furta a cobrir-me

nem hesitaria em esmagar
-me usando meu próprio

...................peso

........o refúgio
de ao menos uma única

relação justa
entre dois corpos

entre os pés e o solo
não há espaço para dúvidas

minha mão toca meu peito:

eu passo, então, a existir em dois
pontos, como se um rio fosse a soma
de uma superfície e duas margens?

meus ossos não são inquebráveis

e o júbilo
é um improviso
difícil



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Chão

..............a Lígia Borges

1.

Cada cavalo
............ montado a campo
carrega em si a possível
quebra dos meus ossos;

todo touro
............ investido na arena
contém em si uma iminente
fratura do meu crânio;

mas nem

todo peixe
está sujeito
à minha isca,

tão pouca pele
alheia estremece
ao meu toque;

entre nutrição e boca
erguem-se o úmido
e o medo.

2.

Quando a terra treme,
os joelhos
............ acompanham-lhe o ritmo
ao menos um minuto.

Quanta luz os olhos exigem
à confiança
............ do avanço no escuro?
Há no passado o mínimo.

3.

Sem chão
................. e os
......... pés livres

... cautela do que
...... em asas
atenta
à direção do vento

e ouve
onde

o pouso.


Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005)

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E segue aqui o movimento que eu gostaria de fundar. Como se chama?

"Movimento em prol de poetas que saibam dançar"

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