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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Leitura em Curitiba em novembro de 2019 [com Dirceu Villa] em gravação da Catatau Filmes

 


Esta filmagem de Gregório Camilo e da Catatau Filmes foi feita durante uma leitura em Curitiba, Paraná, na Mímesis Conexões Artísticas em novembro de 2019, um mês antes de eclodir na China o vírus que tornaria impossíveis noites como essa. 

Na mesma noite leram também Dirceu Villa, que me convidou para o evento e tem sua leitura também registrada no filme, e Jussara Salazar. Meu agradecimento à Catatau Filmes, que mantém seu trabalho cinematográfico bem rente dos poetas.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

Marcus Fabiano Gonçalves e Dirceu Villa no Rio de Janeiro


O poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves e o poeta paulista Dirceu Villa encontraram-se esta semana, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, antiga capital do Império e da Velha República. Os dois estão entre os poetas de minha geração que mais respeito, estão entre os melhores, mais consistentes, conscientes de seus trabalhos. São também, ao lado de Érico Nogueira, os poetas de minha geração com quem mais dialogo, debato, discuto, em diuturna concórdia-discórdia. Não publico nada de importante, de livros a ensaios, sem antes ouvir suas opiniões. Já me salvaram de alguns murros em ponta de faca. Deixo vocês com um poema de cada, que estão entre meus favoritos deste século avaro.



A máquina do fundo
Marcus Fabiano Gonçalves

a pesca escassa, o rio poluído, a cotação do dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva a ave da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.

§

O cutelo
Dirceu Villa

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha o cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.



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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Suplemento Literário de Minas Gerais - 54 poetas comentam poemas dos últimos 20 anos




Já se pode baixar o arquivo com a edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, dedicado à poesia dos últimos 20 anos. Mais de 50 poetas foram convidados a selecionar e comentar 1 poema, publicado a partir de 1990. Sugeri e comentei "O cutelo", do livro Icterofagia (São Paulo: Hedra, 20120), de Dirceu Villa. Leia este e os demais poemas baixando o arquivo em PDF, disponível no link abaixo.



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terça-feira, 20 de março de 2012

Alguns poemas brasileiros: "hymnoi", de Dirceu Villa

Chega o momento nesta série de compartilhar um poema de Dirceu Villa, convidado por minha curadoria ao Festival de Poesia de Berlim 2012, no qual terá como parceiro um de meus poetas alemães favoritos, o suábio Ulf Stolterfoht (Stuttgart, 1963), autor dos livros handapparat heslach: Quellen und Materialien (2011), ammengespräche (2010), das nomentano-manifest (2009), fachsprachen XXVIII-XXXVI (2009), holzrauch über heslach (2007), traktat vom widergang (2005), fachsprachen XIX-XXVII (2004), fachsprachen X-XVIII (2002) e seu livro de estreia, fachsprachen I-IX (1998), mesmo ano em que estreou Dirceu Villa com seu MCMXCVIII (São Paulo: Selo Badaró, 1998). Dirceu Villa é um dos poetas de minha geração que mais respeito, com quem dialogo em nossas discordâncias frutíferas. Foi uma alegria ver como sua tradução do Lustra (1918) de Ezra Pound suscitou debate e teve atenção no ano passado. Não tinha como não ser uma das grandes publicações do ano em termos de tradução e crítica, e, ao lado das traduções de André Vallias para poemas de Heinrich Heine, certamente uma das grandes lufadas de ar fresco na poesia brasileira dos últimos anos, já que está na hora de todos nós conhecermos Ezra Pound por sua poesia, além do usual disse-que-disse das leituras-por-citação interessadas de seu ensaísmo.

Meu primeiro impulso seria mais uma vez chamar a atenção para seu poema "O cutelo", incluído em Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008), um poema que é uma belezura, um dos meus favoritos na década que se encerrou. É um poema mui bem realizado, com seu ritmo anapéstico – como me chamou a atenção para o fato Ezequiel Zaidenwerg em conversa no México, durante minhas palestras sobre poesia brasileira contemporânea, em que fiz uma leitura crítica do poema –, seu uso inteligente de uma imagética expressionista, as implicações interessantíssimas que minha mente tresloucada vê no texto. Mas como pretendo reproduzir ao final desta pequena postagem o artigo que escrevi sobre seu trabalho para a Modo de Usar & Co. em 2010, no qual comento especificamente "O cutelo", achei por bem chamar a atenção dos meus queridos leitores para alguns poemas que Villa vem publicando em seu blogue nos últimos tempos, belos exemplos de poesia satírica que apenas confirmam para mim como este segue sendo um dos melhores campos de atuação dos poetas brasileiros contemporâneos, ou ao menos um dos que mais me interessam e no qual creio ver a sobrevivência intocada da necessidade do trabalho poético nos dias de hoje, sem ao menos a necessidade de hibridismo de gêneros. A poesia satírica parece-me também um trabalho que pode ajudar-nos a reflorestar a desértica arena de leitores de poesia. Dos poemas satíricos publicados por Villa nos últimos tempos, um dos meus preferidos é "hymnoi", no qual podemos ver que o poeta não se entrega a qualquer populismo ou facilidade ao voltar-se para o riso sarcástico. Ao fim, reproduzo meu artigo de 2010.


hymnoi
Dirceu Villa


aujourd’hui, ce qui ne vaut pas la peine d’être dit, on le chante
beaumarchais, le barbier de seville


I
aperta o cinto, pisa fundo
..........a boa vida passará
em 1 segundo. grande crono
..........velho corno:
antigo engodo algum
de onde píndaro
..........pendia ou implorava
..........sua paga
lavo a musa como corça
..........com faíscas e canções
de meus pneus [para o alto
..........e avante]
quem quiser ser vencedor
..........que calce minhas botas,
minha arte,
..........antes que,
é evidente,
haja mais de mim, como de um deus,
..........por toda parte.

II

dos menelaus levou
os leitos, uma virgem em suas asas
mil éguas incansáveis
e guris em pouco tempo
se atiçavam;
que virtude então teriam
antes da tumba? —
batem bola numa várzea
desgramada
nos torneios onde, após,
três dedos dão mil dribles
de mil dólares
toque rápido e
sentindo o mel
de alguns milhões
dão chapéu nesta miséria.

III


voz de esquinas e bibocas
metálica na máquina idiota:
..........bem supremo
o ser mortal
..........de tão porca melodia;
glorioso meio hino de lampejo
..........no quintal: um deus alegre
protege sua prece
..........a implorar celebridade,
matraca de concurso
..........de discurso
de jornal
..........não larga a isca que lhe deu
a mão risonha
..........em meio às nuvens:
a chave da cidade,
..........sobre um burro,
o animal.

IV

num garfo vê tridente
entre outras coisas
..........um vidente
à beira de alva praia
se confunde, “será vênus
..........ou tritão”,
uma vulva ou
..........grande arpão; dado
de aposta, sabe o vento com saliva
..........no seu dedo,
....................búzios ou brinquedos
o levam oportuno a miami
neste mau “porvir azedo”
..........um casado, outro morto
“sei dizer, quando me deito”
..........pois depois um livro inteiro
psicoimportado
..........“dois ou três, verdade mesmo,
sofrem acidente ou feio dano
..........neste ano
danado”,
..........quod scripsi, sempre a esmo.

V

do monte pó e com rajadas
soberano; glória aguda
como o morro de onde mata
..........e quer a morte amante;
belo enfeite as dez correntes
..........de ouro x quilates
reluzindo na metranca
sobre o ombro calejado.
quem o ouve diz que é como
..........júpiter à noite: caem
raios — todos falsos —
..........mas fulminam.


VI

tânatos te teve em tetas,
..........distintivo: detectando, delegavas
uma senha pro banquete
..........ou pro boquete
aquece ao sol à tarde
..........a boca rubra da sereia
que berra como louca no capô
..........a noite inteira:
éter, porre de sujeira,
..........vai com calma, coração!
cruzar dois ossos na caveira
—eloqüente, a velha lei— e
..........me passa a escarradeira.

VII

acocorada de tão
..........flamante coma
....................desdourada
grande olympia
..........se banhava: tem o cetro
de sua casa, mas colhia só galinhas
..........no espelho arredondado

que fascínio festejar?
..........que espora
...................põe o corpo a se lembrar
da antiga chipre?

olhos glaucos,
..........para homens e crianças
louça à tarde
insônia, noites frias
pratos quentes
..........e palavras
....................e palavras
como a cara
amorphophallus acabando no quintal

agora cala quando sobe
em um sorriso
..........eis adônis
.................nada mau


§


Artigo para a Modo de Usar & Co., postado a 8 de junho de 2010.


Dirceu Villa nasceu em São Paulo, em 1975. Estreou em livro com o volume MCMXCVIII (1998), seguido, neste nosso século que engatinha em meio a desastres ecológicos e econômicos, os volumes Descort (2003) e o mais recente Icterofagia (2008), no qual me concentrarei para esta postagem. Dirceu Villa é tradutor de Ezra Pound, de quem verteu e anotou, em sua íntegra, o belo Lustra (1916), que, como se poderia esperar no Brasil, permanece inédito. Seus ensaios, poemas e traduções já foram apresentados em países como o México, os Estados Unidos e o País de Gales. Por algum tempo, manteve uma excelente coluna de crítica literária na revista Germina, e escreve com frequência em seu espaço pessoal, chamado O Demônio Amarelo. Publicamos poemas seus no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., assim como um ensaio sobre o português Dom Tomás de Noronha, mais tarde reproduzido aqui na franquia eletrônica. Ele também participou dos nossos ciclos críticos dedicados a Caio Valério Catulo e Guido Cavalcanti.

Tratando-se de um poeta em produção e atividade, não tentarei esboçar arcos que abarquem, em exegese simplificadora, um trabalho que está em andamento. Através de alguns poemas específicos, de minha predileção e extraídos de um único livro, seu último, tentarei elaborar o que me parece interessante e feliz em seu trabalho, se me entendem o uso do adjetivo, em conjunção entre forma, função e contexto.

Na década de 90, sabemos que o discurso crítico hegemônico, em geral, felicitava a época pela chamada pluralidade de vozes e possibilidades do uso eclético das formas históricas, em grande parte baseado no discurso ideológico proposto por Haroldo de Campos em seu ensaio sobre o "poema pós-utópico" e o conceito de "trans-historicidade". Já questionei estes conceitos em diversos textos e não retornarei a eles aqui. Se os menciono, é porque seria tentador abordar o trabalho de Dirceu Villa pelo uso que faz das formas históricas, retornando a dicções de outros momentos poéticos, talvez como o poeta das máscaras que Pound nos propôs em Personae (1909). A mim parece que uma das maneiras mais viáveis de analisarmos o trabalho poético dos autores contemporâneos está justamente em sua relação com a historicidade da textualidade poética, sobre a qual já participei de debates largos e longos com o autor de Icterofagia, que, eu arriscaria dizer, acredita nesta historicidade como manifestação, digamos, talvez orgânica, ou auto-evidente, o que por vezes, em alguns poemas de Icterofagia, poderíamos aproximar do discurso da autonomia da linguagem poética, certa ausência do contexto para habitar uma realidade literária. No entanto, em muitos poemas, eu creio que ele estabelece uma saudável relação de pêndulo entre diacronia e sincronia, historicidade e Literatura, algo que lhe entrega seus melhores poemas, alguns dos quais buscarei reproduzir e comentar a partir daqui.

Para começar, remeteria o leitor a um pequeno poema que já comentei em um ensaio intitulado "Das fatrasies medievais a DADA, do Sapateiro ao Rilke shake", sobre a (mais que necessária) poesia satírica contemporânea, publicado em meu espaço pessoal e aqui. Trata-se do poema "Pontos-de-fuga do século XX", à página 119 do Icterofagia (2008):

Pontos-de-fuga do século XX
Dirceu Villa

Era Yeltsin
Em 1995, parecendo uma caricatura
De Russo frente às câmeras do Western
Americano, que pensava: "É nisso
Que dá o Comunismo".

O que Hobsbawn chamou
"Capitalismo de Estado": onde
Deus & Mammon dão lugar
Aos Canalhas do Partido: tudo
Em maiúsculas, ou uniforme militar.



Rimar "Yeltsin" com "Western" parece-me um dos momentos mais inteligentes da poesia satírica contemporânea. Aqui, se levarmos em conta a definição de Pound para o "épico", ou seja, "um poema incluindo a História", Villa produz um texto que é, ao mesmo tempo, épico e satírico, o que talvez irrite quem associa o "épico" apenas com a ideia de "poema longo". Poderíamos remeter esta poética, não a Pound primordialmente, mas ao mestre eleito por Dirceu Villa para si, o maranhense Joaquim de Sousândrade (1833 - 1902), em especial no "Tatuturema" e na sequência que ficou conhecida como "O Inferno de Wall Street". Em outro bom momento de poesia satírica no livro, isso se torna ainda mais claro:

Angst Brazileira I
Dirceu Villa


Anacreonte
tangia uma lira de onde
pingavam sonetos
poeirentos:


fingimento
era apenas - não a arte
- mais uma forma
de sustento.

Ceci tinha só
o sêmen de orvalho
do pistilo que passava em Peri
por caralho,

quando Pedro II
atendeu a Graham Bell
pra dizer, que profundo,
o dito de papel:


To be or not to be,
ou o tolo grude
do tupi que
tange o alaúde.

Dá no mesmo,
saúde.



Aqui, percebemos a boa poesia em que as funções da linguagem se entrelaçam, se usarmos as definições de Jakobson, como a função poética e a função referencial (mas não só), sem cancelamento mútuo como alguns equivocadamente defendem, mas uma relação de textualidade em que o poema funciona, como insisto, na fronteira entre transparência e não-transparência do signo. Assim, não se trata de buscar o texto-fantasma que seria a exegese do poema, nem a dissolução da palavra por sua referencialidade, para atingir alguma espécie idealizada de "realidade" fora da linguagem. Isso estava claro, eu creio, em vanguardas históricas como a dos dadaístas ou dos expressionistas. É nesta capacidade de criar uma espécie de fluxo e refluxo entre significado e significante, como nos expressionistas germânicos ou em seu exímio contemporâneo Augusto dos Anjos, que eu penso ao ler um texto tão bom como este, abaixo, publicado pela primeira vez na Modo de Usar & Co. impressa, que eu chamaria aqui, se me permitem um neologismo, de expressinoir, remetendo tanto a Gottfried Benn, Jakob van Hoddis e Augusto dos Anjos, como a filmes de uma espécie de terror-thriller:

O cutelo
Dirceu Villa

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha o cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.



Na pequena antologia de Vasco Popa traduzida por Aleksandar Jovanovic, publicada na coleção "Signos", da Perspectiva, há um pequeno poema intitulado "O porco", em que Popa, praticando o que Haroldo de Campos chamou de "coisismo ontológico", parece transportar-nos para dentro de um porco a correr feliz para um portão, sem saber que este o separava de seu abate. Neste "O cutelo", de Villa, é como se estivéssemos dentro da vertigem agônica deste porco, em uma escrita permutacional que parece querer desestabilizar-nos o aparelho vestibular, dando-nos quase tonteira-desequilíbrio, em um jogo de linguagem que parece imitar o de uma câmera em filmagem giratória, ou, talvez, por um segundo, o que adentra os olhos do porco, fixados em sua cabeça, que cai após ser cortada. Trata-se de escrita altamente substantiva, mas não como a dos poetas cabralinos da década de 90 e meados dos 2000, que se obcecavam com pedras e desertos e securas; os sustantivos aqui são secreções e massa orgânica, numa poética bastante corpórea. Há rimas internas e aliterações em abundância, como em "Ou o branco, mas branco embebido de rosa, / o sangue no sonho de tripas, / sonha o açougueiro: que empunha o cutelo", girando e reposicionando palavras, quase uma dança entre algoz e vítima, sem deixar de ter conotações perturbadoramente eróticas.

Em outros momentos, de delicadeza lírico-amorosa e o que já chamamos aqui de "coisismo ontológico", Villa usa algo desta escrita para nos doar poemas como este gentil "Coisas que se quebram":

Coisas que se quebram
Dirceu Villa

mecanismo de relógio:
manejo a pinça
& cuidado,
patas de inseto: cílios
com pegadas;
pequeno, tudo parte
& corre risco, coisas
que se quebram.
& como, tão
quebrados & partidos
não contamos
os resquícios, apegar-se
a todo vício de
viver:
o que sei o
que amo, frágeis
elos de cadeia, mí
nimos confortos
de uma ideia & tão
no entanto
humanas
coisas que se
quebram,
que se não se sabem
ou se respeitam
pactos
como esses, micros-
cópicos, não
germina amor nem
nada bom
deriva disso, tão minús-
culo impreciso de-
licado
ajuste.



Alguns dos cortes, se isomorfizam em ícone, como Augusto de Campos costuma pesquisar, as quebras e partidas, são também precisamente posicionados, coisa de relojoeiro, gerando vocábulos novos e totalmente pertinentes, como em "minús/culos", ou "micros/cópicos", além de ser um texto que se baseia numa linguagem que me parece a meio caminho entre a metáfora e a metonímia, algo que aprecio muito.

Icterofagia, com cerca de 200 páginas, é um dos livros mais largos da poesia brasileira desta década. Quando um crítico contemporâneo não está disposto a lidar com a dificuldade de um trabalho, no Brasil de hoje, ele chama o poeta de "ambicioso". Poderíamos aplicar o adjetivo a Dirceu Villa e seu último livro? O que eu diria é que Villa demonstra acreditar na historicidade implícita do fazer poético, produzindo uma poesia lírica que, em seus melhores momentos, apresenta uma poética tesa e tensa, e o liga a poetas tão diversos quanto Sousândrade, ou, no século XX, belos poetas que deveriam ter mais público, como o mineiro Dantas Motta (1913 - 1974), e o carioca Leonardo Fróes (n. 1941). Se, em minha opinião, nem sempre pende para o lado que prefiro o prato da balança entre o vivido e o lido, ou a experiência imediata do poeta e sua cristalização por técnicas poéticas, há momentos abundantes de beleza no livro, como os que comentei aqui. Encerro com um texto recente de Dirceu Villa, que ele publicou há algumas semanas em seu espaço pessoal, O Demônio Amarelo, e que traz algumas das características que discuti neste artigo.



--- Ricardo Domeneck


§

façam suas apostas
Dirceu Villa


desbastar do crânio
toneladas de palavras:
quem cultiva o balbucio
que coma suas mil larvas;

enquanto penteio palavras
a contrapelo,
vinte inválidos palermas
contam favas;

mas trouxe maçaricos,
lança-chamas
e o belo incêndio que verão
engolirá os trapaceiros
de plantão;
“crises”, direi, “como no almoço;
coveiros literários,
sepultados com seus ossos”.

ler livros que não passam
de farrapos?
ou reunir, numa feira de acepipes,
velhos trapos?

quantos dormem
aturdidos pelo vento
— uma existência miserável?
a estátua patética e grotesca
de anhangüera bandeirante,
com merda na cabeça
em pé no trianon?

não despertarão
do sono estético de estante?
o merencório de janela, com o anestésico
que compra com a dor
de liquidação,
oscila entre o verso
ou algum outro remédio
da emoção.

“poeta bom é poeta morto”
diz o lema da crítica,
ano um.
desentoca aquela mítica
fúria, alecto velha e cancerosa
que invade venenosa
o labirinto da memória.

mas mesmo diante
dos macacos:
cego, surdo e mudo,
a poesia vive
e não requer escudo
pra batalha,
a despeito de paspalhos
e outras tralhas.

os estados unidos do brasil
gostam de remendos
na velhíssima antigualha
sociopatológica de ocasião,
por isso a inapetência
não descreve
a história dos costumes
engessados em fardão;

críticos/poetas de sala de estar:
mentes com picotes
de onde destacar.



§

OUTROS POEMAS DE DIRCEU VILLA
extraídos de Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008)

NENHUMA DAS ANTERIORES


Existem gatos e novelos de lã.

A abstração pode ser encontrada nos interstícios que ligam duas coisas sensíveis de modo a lhes conferir um significado, digo, um significado que inclua as duas coisas. Fora isso, a abstração é inútil (filosófica), brutal (política) ou insignificante (poética).
Eliot escreveu: “o correlato objetivo”. A seção áurea da poesia.
É impossível parecer um acessório num país de necessidade.
O espetáculo: promessa de renovar superficialmente tudo que é vazio até que alguém descubra ou desconfie, daí renovar de novo do nada.
A ilusão ignorante de que se está no topo da civilização.
Um dos trabalhos do poeta é tirar as coisas do lugar, isolar, ou estabelecer relações antes invisíveis e fundamentais.
Estamos imersos numa cultura de morte ou misericórdia, i.e., o circo romano, metáfora de bolso para as multidões famintas de farrapos.
Um homem sem mestre ensina a si mesmo e cumprimenta os mortos ilustres.
O progresso da inteligência: do inventivo para o instrumental.
A poesia não está morta, os poetas estiveram dormindo (Jean Cocteau).

Moralidade: se você não sorrir, seus lábios estão com defeito.


§

MEMÓRIA, A MÃE DAS MUSAS

primeiro sim foi
quando
deuses
tolheram as letras
das tuas
preciosas palavras
e acho te partiram em mil
pedaços
espalharam
teus sons
sem sentido soando
sim mas outros te ouviram
e suponho colheram
tuas sílabas
num tecido de ritmo
indecisas e belas
em fuga perpétua
do sentido
força informe
que desfez
a velha Babel
e a devolveu
num
como é mesmo
num
pequeno milagre.


§

OS CIENTISTAS
Doubt truth to be a liar

Há alguma corrosão no início
— faz parte de seu ofício;
distribuem, como os padres,
a profilaxia, que não é santa,
mas igualmente certa.

Um silêncio de murmúrio
recobre máquinas e ataduras;
aplicam por critério antecedente
prescrições e vacinas em quem
um dia vai ficar doente.

Como na Lei,
há a vantagem do microscópio,
que é por onde entra o miópico
olho da civilização: macacos gritam,
flores abrem, deuses mortos
cospem sangue verde em gargalhada.

“Nós temos a resposta para o Nada.”

§


DILUIR EM CAFEÍNA

Diluir em cafeína a conversa, as palavras;
Seus olhos, baços, as belas unhas, sujas,
Dou um dinheiro, um aviso, e daí?
Seus olhos brilhavam no primeiro sol:
O dia espalha cores fortes pelo céu
E você, o ruído e o mundo em ruínas
Não sabem nada do sol, perderam o calor,
E uma sombra suspira e os olhos suplicam:
“Café. Preto e sem açúcar. Eu estou só.”


§

LYRA ARAGONESA: REFRAM DE ABRIL

Pero mi fez e faz Amor mal
Martim Moya

Não amor não pode
mal fazer
nenhum;
ou torna o senhor escravo,
escolhe em mil a mais
gentil
e colhe a dor do cravo
no amargo
mês de abril?

[Se então tal mal me vem
eu, sábio,
o torno logo em bem:
tolice é ter em sol tão certo
deserto só
& desolação;
e se esse é o preço
que pago,
bem pouco parece:
um pequeno estrago
no brio
que bem o merece.]

Pois tal fervor demove o frio,
e traz ardor à alma;
e então a flecha erra
a calma
e põe o peito em guerra:
torna o senhor
escravo,
o gentil prazer des
terra,
o estio já desfalece,
é um pássaro sem
pio
no amargo mês
de abril.

§


UMA MANEIRA DE

Aujourd’hui grand-mère est morte
a cama branca
cheira a antisséptico
os pulsos enrugados

importante: não há janela
paredes brancas
tudo é branco
glaucoma
a cegueira vem antes dos olhos
azul-cinzento leitosos
quando os olhos se viram para dentro
tudo é branco menos
quando os olhos se viram para dentro

você morre

peixes

se multiplicam
mas morrem

a maré não se move
cardumes de ventre para o alto

poder algum sobre a permanência
tempo como ordem
a espécie, a estação, um número

a morte vem antes da morte
o sangue não é a verdade
o dinheiro não é a verdade
as rugas no rosto
não são a ruína

idade não é a ruína

heranças, família,
ódios mesquinhos
uma maneira
amena
de dizer adeus?

§

VALE DO DEMÔNIO ANNO DOMINI 2003

Le pauvre monde est sujet à l’erreur.
Laurent Tailhade, “Ballade (touchant la variété des jugements humains)”


Do viaduto você divisa o vale do anhanga,
o “demônio”, com seus chifres e cauda:
um hiato sob as palmeiras de folhas amplas
que fatiam com suas lâminas o vento encanado;

no Municipal há o beijo de enlace neoclássico
de Eros e Psiquê; a belle époque dos italianos
nada anarquistas, mas talvez, oh sim, artistas,
que talvez lessem D’Annunzio com prazer;

os chafarizes onde farreiam moleques de rua
não têm nada de torpe, nem de Verlaine. Vivos
túneis do metrô, office-boys e envelopes pardos,
azulejos pichados no Largo da decadente Memória :

em 84 no Vale não era só escorraçar Figueiredo
ou outro fantoche de farda; votar mal, sobretudo;
um belo lugar pra se encher de gente e dizer:
“Chega”, ou “estamos fartos”, com a bênção

da Diana dos Bosques, rainha dos bêbados loucos
do Vale, e filha de Jean-Antoine Houdon (17 etc),
o mesmo do sorriso maroto do velho Voltaire:
“il faut cultiver nôtre jardin”— jardineiros de merda.

Pregadores cristãos na praça com línguas de fogo
— bênçãos das pombas dos Correios — dentro
de ternos surrados; ciganas te agarram e há uma luz,
diáfana, que surge ao fundo no horizonte.

As folhas das palmeiras se movem,
como seus cabelos, contra o vento
que leva embora os ruídos e a inutilidade
da sua opinião sobre as coisas deste mundo.




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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Texto de Dirceu Villa sobre o desmantelamento da universidade pública, a repressão militar no Brasil de hoje, resquícios da ditadura que permanecem

NOVO CAPÍTULO NO PLANO DE DESTRUIR A UNIVERSIDADE PÚBLICA

por Dirceu Villa
O Demônio Amarelo, 20 de novembro de 2011


"Ah, tá vendo, tinha que ser: tudo baderneiro, maconheiro, filhinho de papai".


O governo pensa: "dessa vez vai"


O velho plano de acabar com a universidade pública em São Paulo, que não conta apenas com os anos recentes de democracia mas acha suas raízes no golpe militar de 1964, está a pleno vapor.

Mas é pior, naturalmente: é o triunfo de um tipo de mentalidade regressivo, péssimo sinal.

O melhor dos mundos possíveis: o homem biônico

OU talvez se trate, por outro lado, de uma ótima notícia: significaria que o governo resolveu o problema da segurança pública e não tem nada melhor para fazer com 400 policiais militares, helicóptero & demais aparatos repressivos do que mandá-los dar distração na Universidade de São Paulo ao respeitável público dos telejornais.

E talvez haja uma saudade (sempre ouço gente saudosa daqueles tempos) da figura tutelar do ditador, que indicaria o governador, que então ostentaria o poderoso adjetivo "biônico", com a sugestão dos poderes extra-humanos do Homem de 6 Milhões de Dólares.


Imprensa livre, com sonetos & receitas


O curioso é que brigava-se por liberdade de imprensa nem faz muito tempo; a idéia é a de que a liberdade de imprensa faria com que alguma verdade circulasse.

Durante a ditadura, as verdades inconvenientes eram substituídas por receitas de bolo ou sonetos de Camões; hoje, a imprensa é chamada "livre", porque o governo sabe que não precisa de censura: os donos do poder são também os donos da notícia, e a imprensa é meramente instrumental desse mesmo poder.

Poderiam ao menos nos dar umas boas receitas de bolo ou uns sonetos quinhentistas.


Conhecimento que não serve


Mais curioso ainda é que governo & imprensa podem contar com a opinião pública, como aconteceu em 1964 também. Há uma desconfiança de qqer espécie de conhecimento, mas, sobretudo, desconfiança de um conhecimento que não serve.

Não por ser imprestável, mas porque não é servil.


"Os livros não nos dizem nada"


Quanto à desconfiança contra o conhecimento, basta assistir ao filme que Truffaut fez a partir do livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1966). Naquele futuro, obviamente distante ou impossível, se reprime o pensamento e as liberdades e as pessoas não lêem nem vivem, mas passam seu tempo como zumbis hipnotizados por programas estúpidos em telas enormes de TV na sala.

Na ficção os bombeiros não apagam incêndios, mas incineram os livros que os baderneiros e subversivos insistem em ler e guardar. A cena na qual esses bombeiros invadem a casa de uma senhora que escondia um gigantesca biblioteca nos dá, no discurso feito pelo capitão, o motivo do rancor contra o conhecimento.

Ele afirma: "Os livros não têm nada a dizer"; os romances são histórias sobre pessoas que jamais existiram, que tornam os leitores infelizes com as próprias vidas; a filosofia não dá uma resposta definitiva, e latim, por que alguém estuda latim, não é uma língua morta?

Todos têm de ser iguais, isto é, igualmente ignorantes de tudo, numa satisfação policiada, de ordem imposta, e sedativos de TV e remédios.


A especialidade brasileira continua


Durante a leitura em homenagem a Roberto Piva, dias atrás, tive de mencionar o fato de que vivemos uma época de conservadorismo patológico. A vitória desse governo, que há mais de 20 anos vem destruindo a Universidade de São Paulo, é apenas a parte mais aparente da escravização mental em curso.

A mim foi espantoso saber (não por qualquer veículo de imprensa, que covardemente não se menciona o assunto) que alunos eram revistados saindo da biblioteca.

Coisa do tipo, desse tipo de indignidade, era de quando o país estava sob uma ditadura. Estratégias nazi-fascistas de controle em pleno curso sob a nossa, ah-ham, "democracia".

Mas é muito sintomático que esse coup de grâce, esse golpe do governo, seja feito como é a especialidade brasileira: com uma invasão militar.

Mais espertos ainda: a coisa é proposta agora dentro da legalidade.

E você que achava que eles não aprendiam, é ou não é?


Contra a lavagem mental em curso


Contra a lavagem mental da imprensa sugiro, àqueles que querem saber o que de fato se passa, a aula pública que o professor de literatura brasileira da USP, João Adolfo Hansen, deu há alguns dias diante da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

A aula começa nos 2:30 min. do primeiro link do youtube, e segue pelos restantes.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Algumas perguntas, ainda sobre a edição da revista "Cuardernos Hispanoamericanos" dedicada à Literatura Brasileira

Desde que recebi e li o número 735 da revista Cuardernos Hispanoamericanos dedicado à Literatura Brasileira, e principalmente após escrever o último artigo aqui neste espaço, no qual o comento, algumas perguntas têm-me incomodado, martelado minha cabeçoila já amassada. Uma delas diz respeito a uma asserção que eu mesmo fiz: a de que, por estar incluído na seleção, sentia-me impedido de comentá-la criticamente.

Isso ficou me incomodando. Ora, ninguém quer cair na cabotinagem do elogio, nem na ingratidão da invectiva, mas certamente estes são os extremos da crítica que precisamos todos evitar, para que a crítica seja efetiva, honesta e possa funcionar. Em geral, o que ocorre é a falência da crítica, e por mais que este conceito de falência esteja tão em voga, hoje em dia considero como única verdadeira falência da crítica o silêncio.

Uma das coisas que passei os últimos dias perguntando-me é: estar incluído impede-me ou obriga-me a um comentário crítico? Talvez nenhum dos dois, mas a resposta então seria a atitude mais comum: o silêncio, ao qual geralmente me recuso, como vocês já devem ter percebido. Minha bocarra gigante.

Se no artigo anterior simplesmente comentei o número da revista em alguns de seus aspectos, gostaria de expor agora algumas perguntas no espírito do diálogo, elaborando alguns pontos do meu artigo e, em outros, até mesmo corrigindo-os. Como o próprio Jorge Henrique Bastos citou em uma mensagem, após escrever-lhe expondo algumas discordâncias, a crítica deveria ser como o que Pound chamou de "conversation between intelligent men", sem os usuais ataques de nervos e egos que tão frequentemente vemos no Brasil.

§ - Como a revista afirma dedicar o número à Literatura Brasileira hoje, ainda que eu esteja ciente de que os nomes intocáveis de Graciliano Ramos, Clarice Lispector ou Vinícius de Moraes não são, infelizmente, óbvios para um leitor espanhol, talvez houvesse sido mais condizente com o propósito do número reservar tal espaço, seja o da mera menção ou da discussão, para autores vivos, produzindo realmente hoje.

§ - Afirmei em meu último artigo que a revista parecia bem-informada. A verdade é que, tratando-se por exemplo da prosa contemporânea brasileira, eu próprio não me sinto bem informado, pois não a acompanho ou visito de forma assídua. Imagino que os nomes de João Almino, Adriana Lisboa e Frances de Pontes Peebles sejam exemplos da prosa brasileira recente que merecem estar na revista. Infelizmente, não conheço seus trabalhos, não posso afirmá-lo ou negá-lo. Portanto, não se trata de criticar exclusões, mas de sugerir que um número futuro venha a tratar de autores como Veronica Stigger, Joca Reiners Terron, João Filho, Bernardo Carvalho, Sérgio Medeiros ou Nuno Ramos, dentre os que conheço um pouco melhor. São autores muito diferentes entre si, com a característica comum de estarem produzido trabalho sério, discordemos ou não de suas escolhas ou quanto ao resultado que alcançam.

§ - Certamente a existência de traduções de livros dos autores na Espanha torna-se um fator compreensivelmente considerado por um editor, mas continua me parecendo um problema crítico muitíssimo sério no número, que um autor tão não-influente (para usar um eufemismo educado) quanto Lêdo Ivo, por ser amplamente traduzido na Espanha tenha tomado o lugar de direito de poetas muito superiores a ele, como Augusto de Campos e Leonardo Fróes. Superiores como técnicos da linguagem, além de muito mais influentes e relevantes para o debate poético contemporâneo. Imagino que algumas pessoas incluiriam ainda Manoel de Barros nesta lista.

§ Não posso criticar a inclusão de Nélida Piñon por não conhecer seu trabalho. Sei que seu romance A República dos Sonhos (1984) é respeitado por certos setores da intelligentsia nacional. Lamento apenas que Márcia Denser, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Sérgio Sant´Anna não tenham encontrado acolhida na revista, não como substitutos, mas ao menos como companheiros, autores certamente mais influentes entre os prosadores mais jovens. Poderíamos mencionar ainda Raduan Nassar, mesmo que ele já não produza hoje. De qualquer forma, o lamento quer, na verdade, servir como sugestão para publicações futuras da revista.

§ Entende-se que a revista quisesse concentrar-se em autores vivos, mas a morte prematura e recente de autores como Haroldo de Campos e Hilda Hilst não impede que eles estejam extremamente vivos e muito mais presentes no debate contemporâneo que autores como Lêdo Ivo, por exemplo.

§ A parte mais difícil de comentar é justamente aquela em que estou incluído, intitulada "Antología de la poesía actual brasileña", com organização e introdução de Jorge Henrique Bastos e traduções de Vicente Araguas.

O trabalho de qualquer antologista me parece sempre árduo, cheio de armadilhas incontornáveis e de recepção quase invariavelmente ingrata. A literatura e a poesia contemporâneas de um país são sempre campos minados com e por debates est-É-ticos em andamento e nunca realmente resolvidos, releituras e reformulações críticas, teias comportando-se como correntes, raios e margens ansiando pelo centro e núcleo. Não é à toa que a maior parte da crítica escolhe o caminho do retrospectivo e não do prospectivo, para usar as hábeis expressões de Dirceu Villa. É muito mais fácil olhar para o passado, escrever sobre o que já está estabelecido como bom e relevante. É um trabalho crítico necessário e importantíssimo para a saúde de uma literatura, que pode envolver muita criatividade e inteligência para os que não querem simplesmente inchar a bibliografia crítica sobre os autores, mas realmente debater aspectos muitas vezes despercebidos por outros críticos, contemporâneos ou não. No melhor dos casos, tal crítica consegue ser retrospectiva e prospectiva ao mesmo tempo. Basta pensarmos nas leituras de Walter Benjamin ou, no Brasil, as de Haroldo de Campos e Augusto de Campos dedicadas a Joaquim de Sousândrade e Oswald de Andrade; a que Flora Süssekind dedicou a Sapateiro Silva; ou os trabalhos editorial e crítico de James Amado e João Adolfo Hansen com a obra de Gregório de Matos. É claro que não vamos mencionar aqui os nomes dos preguiçosos que simplesmente acreditam poder ganhar o prêmio ao apostarem no cavalo vencedor depois que este já cruzou a linha de chegada, ou os que meramente regurgitam o que já foi dito por bons autores sobre bons autores, em paráfrases engenhosas e esbanjando embasamento acadêmico universitário, com longas listas de bibliografia especializada dando ar de autoridade a suas defesas do engessado, estes agentes do status quo, bandeirantes de quintal.

Como Dirceu Villa expôs em seu último artigo ("Retomando a conversa", in O Demônio Amarelo, terça-feira, 11 de outubro de 2011) – com a elegância que já lhe é conhecida, a única crise hoje no Brasil é a ausência de uma crítica forte e preparada que se disponha a ler a poesia e a literatura do presente sem antolhos, sem atitudes iracundas por vezes dignas de adolescentes (o que mais parece abundar hoje no Brasil é a ala do enfant terrible na casa dos 50 anos de idade - so embarrassing and unbecoming - , e há revistas que até se especializam neste nicho), tendo achaques feito sereias da catástrofe porque os autores de seu tempo não estão seguindo os caminhos que gostaria que seguissem, ou porque não estão emulando os seus mestres eleitos. Por vezes, tenho a impressão de que o problema de tais críticos é não entender muito bem a relação entre poesia e crítica, ou seja, confundem qual das duas é o cavalo e qual a carroça. Quero voltar ao artigo de Dirceu Villa em outro momento, pois ele discute o Nobel a Tranströmer e outras questões que me interessam, mas por ora retorno à nossa discussão, que não está, porém, distante da que ele empreendeu ali.

Pois eu discutia o trabalho do antologista. Se a palavra antologia, a partir do grego, nos leva à ideia do colhimento e arranjo de flores – daí a palavra florilégio em português; e se a palavra crítica, também a partir do grego, nos leva à ideia de separar, discernir, fica patente que uma antologia de poetas/poemas é, em primeiro lugar, um trabalho de crítica autoral, talvez antes mesmo de ser um livro de poemas, pois passa a estar condicionado por esta ação que se quer discernente, fazendo do antologista-crítico uma espécie de apanhador no campo, não de centeio, mas de joio e trigo. E aí começam os grandes problemas que nos vão levar com tanta frequência à discussão sobre a subjetividade inescapável e a objetividade possível no ato de antologiar.

Talvez tudo isso pudesse ser resolvido com o cuidado rigoroso na hora de intitular antologias. Ao intitular o recolho de poemas na revista "Antología de la poesía actual brasileña", Jorge Henrique Bastos talvez tenha aberto portas a discordâncias que não teriam lugar na discussão se os poetas/poemas ali apresentados não acabassem tendo que operar como representativos. Trata-se de um risco sempre presente em antologias de caráter nacional. Convida tanto aos rancores regionais como a pelejas est-É-ticas. O espaço reduzido, permitindo tão-só um poema de cada um dos 6 poetas (dois no caso de Damázio, sem mencionar os outros quatro autores e seus poemas mencionados no ensaio), acaba inevitavelmente sujeito à insuficiência. É algo a ser pensado, por exemplo, a decisão dos editores em optar pela publicação de poemas inéditos, quando talvez houvesse sido melhor a publicação do que cada autor tem de melhor em sua obra, já que são todos jovens e não têm livros editados na Espanha. Mas, com espaço para apenas um poema, seria difícil representar até mesmo o trabalho de cada poeta, quem dirá o de todo o Brasil. São problemas muitas vezes incontornáveis, mas que não precisam embargar o projeto.

Continuo acreditando que este número da revista Cuadernos Hispanoamericanos, dedicado a escritores brasileiros, deveria ser visto com alegria, mesmo com seus pontos questionáveis e de discordância possível. Imagino que alguém mais cínico dirá que acredito nisso apenas por ter meu trabalho mencionado. Ora, quanto a um leitor que pense desta maneira sobre mim, fico apenas pasmo que ele perca tempo lendo meu blogue. Exponho estas perguntas porque meu senso crítico e de honestidade realmente me levaram a ver o último artigo como insuficiente e falho.

Agradeço a Jorge Henrique Bastos, assim como a Benjamín Prado e Juan Malpartida, o respeito com que claramente conduziram seu trabalho. Exponho aqui estas perguntas no espírito das palavras de Pound que Bastos citou em nosso debate particular: como conversation between intelligent men – conversa que me dá prazer ter, com ele, os editores da revista e os leitores e leitoras deste espaço.

Nascido em 1964 em Belém do Pará, com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa, onde organizou a antologia Poesia Brasileira do Século XX - dos modernistas à actualidade (Lisboa: Antígona, 2002), Jorge Henrique Bastos tem um trabalho jornalístico, editorial e crítico sérios, colaborador em revistas e jornais tais como Diário de Lisboa, Independente, LER, Colóquio-Letras e Camões, sendo responsável ainda, por exemplo, pela primeira edição portuguesa de Macunaíma - o herói sem nenhum caráter (Lisboa: Antígona, 1998) e pela primeira edição brasileira do poeta Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA (São Paulo: Iluminuras, 2000).

Quanto ao editor Benjamín Prado, meu respeito, junto com o dos outros três editores da Modo de Usar & Co., está já estampado tanto em nosso primeiro número impresso, com vários poemas do espanhol, quanto em nossa franquia eletrônica.

Abraço a todos os homens e mulheres inteligentes que passam por este espaço,

aqui despeço-me,

Ricardo Domeneck – passando frio em Berlim.


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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"O Prisma das Muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Fafe: Labirinto, 2010)



Recebi esta semana meu exemplar da antologia portuguesa O Prisma das Muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira (Fafe: Labirinto, 2010), com organização do poeta português Victor Oliveira Mateus. São muitos poetas (apenas os vivos) dos dois lados do Atlântico lusófono, de várias gerações, comparecendo com um poema cada. Entre os portugueses, vale mencionar a presença de Ana Hatherly, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral, António Ramos Rosa, Luís Filipe Cristóvão, Casimiro de Brito, E.M. de Melo e Castro, Maria Teresa Horta e valter hugo mãe; entre os brasileiros, poetas de gerações e poéticas tão diferentes quanto Dirceu Villa, Antonio Cicero, Olga Savary, Donizete Galvão, Ivan Junqueira, Renata Pallotini ou Ruy Espinheira Filho. É bastante eclética, o que sempre traz suas vantagens e seus problemas, mas descobri nela alguns poetas que não conhecia, reli outros que haviam despencado da esfera da minha atenção, pude pensar em alguns que são espécies de fantasmas na poesia contemporânea, poetas mais velhos ou poetas líricos que estrearam na década de 50 e acabaram obscurecidos pela atenção muitas vezes exclusiva dada aos poetas de vanguarda daquela década. É o caso, por exemplo, de Pallotini, que tem poemas muito bonitos, em uma linhagem por vezes de lírica pura, algo similar à de Hilda Hilst poeta, ou de Marly de Oliveira. Victor Oliveira Mateus selecionou para a antologia um poema do meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005), que é um dos meus favoritos, chamado "O pão partido" e que reproduzo abaixo.


O pão partido

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.


Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (2005).

§

QUATRO OUTROS POEMAS DA ANTOLOGIA


Lyra aragonesa: refram de abril
Dirceu Villa

"Pero mi fez e faz Amor mal"
Martim Moya

Não amor não pode
mal fazer
nenhum;
ou torna o senhor escravo,
escolhe em mil a mais
gentil
e colhe a dor do cravo
no amargo
mês de abril?

[Se então tal mal me vem
eu, sábio,
o torno logo em bem:
tolice é ter em sol tão certo
deserto só
& desolação;
e se esse é o preço
que pago,
bem pouco parece:
um pequeno estrago
no brio
que bem o merece.]

Pois tal fervor demove o frio,
e traz ardor à alma;
e então a flecha erra
a calma
e põe o peito em guerra:
torna o senhor
escravo,
o gentil prazer des
terra,
o estio já desfalece,
é um pássaro sem
pio
no amargo mês
de abril.

§


Carta de Amor Informático
Ana Hatherly

Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu processador

Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção

Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?

Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar

Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi

Troquei-o por um lap top*
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável


§

Venha a nós o vosso reino
Olga Savary

Cheios de imagens os olhos
e de silêncio os ouvidos.
Palavras: quase nada.

A cor do barro primitivo em tua pele,
terra-mãe, vinho de frutos, fogo, água,
em ti se nasce e em ti se morre.

Vais me recolhendo e recompondo
no labirinto-búzio-alto-das-coxas,
presságio de submerso jardim,

um ideal jardim em que me apresso
e tardo retardar a troca das marés
quando para ti me evado.

O que é amor senão a fome rara,
o susto no coração exposto
que com a chama ou a água devora,

é devorada, que desdenha a mente
por uma outra fome, vago pasto
água igual a fogo, fogo como lava?

Amor foi uma volta inteira de relógio mais 7 horas.
Amor: chega de gastar teu nome:
agora arde.


§


Emotional Turn
Hugo Milhanas Machado

"Ir en busca de lenguaje y regresar sin nada"
Julia Otxoa


O nosso embalo vem à direita da letra
e já vem tempo que parece ser fatal
o que no fim do dia arrepende
Temos uma toada emocional, embora fria
Disputamo-las nas pequenas imagens
truques travas e toques
de potentes linguagens que algum dia
até são nossas, e logo se nos espraiam
mas mesmo, reparo Praia e praia
Eu aqui só digo praia
Temos uma toada emocional, tão fria
como o favorito do Pessoa, e isso sim
o amor todo dobrado
também uma grande galeria
de coisas que ainda fazem chorar
como na escola as festas de fim de ano
com grupos de língua inglesa e
tremendamente enamorados
já ninguém diz

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Dirceu Villa & Soror Maria do Céu

Há duas semanas, em correspondência com o poeta paulistano Dirceu Villa e discutindo artigos recentes sobre o cânone, assim como nossas próprias postagens a respeito, Villa mencionou uma antologia de poesia do século XVII, em que encontrara o trabalho poético de autores esquecidos, mas interessantíssimos. Ele mencionou, em especial, a celestial senhora Soror Maria do Céu (1658 - 1753), e me enviou este poema:

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.


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