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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo



Texto em que o poeta surpreende-se com a morte
de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque
da qual não discerne a fronteira entre parte e todo



Maria Schneider,
deve ser dura
a morte
em meio a ciclones
na Austrália, revoluções
na Tunísia e no Egito,
assassinatos políticos
na América,
fraudes e bancarrotas,
quando tudo
o que de si ofertou-se
décadas atrás ao mundo
limita-se a uma graça,
sim, mesmo que rara,
de fazer do errado o certo.
Mas, ao final das contas,
quando foi que o mundo
fez um minuto de silêncio
para que alguém contasse
seus saldos e débitos?
Brás Cubas emitiu seu extrato
post-mortem.
Maria Schneider, temo
que seus bicos e beiços
talvez horripilassem,
se estivesse vivo,
o velho Stanislavski.
O que dizer de sua juba
estropiada em caracóis,
menos digna da Vogue
que de uma Górgona?
Em Paris, só as gárgulas
lembram-se da sua cara
e imagino que o Google
acabe inundado
hoje
por buscas
tais como “Who the fuck was
Maria Schneider?
”,
enquanto velhotes e rapazes
chegam a páginas
onde seus mamilos
ainda estão firmes
nos seus peitos
e logo abaixo
seu coração acelerado.
O seu cu de manteiga,
esta noite, será objeto
da fantasia de novos
machos-alfa,
enquanto sua morte,
ao mesmo tempo,
precipita no Ocidente
um maremoto de crises
de meia-idade
nos gigolôs trotskistas
da tal geração de 68.
E eu, Maria Schneider,
alimento uma tristeza
bem autofocada,
como se eu fosse,
repentino, a polaróide
dum oboé
ou filme disponível
apenas em vídeo
cassete, qualquer coisa
obsoletíssima,
ficção científica
que não previu
futuro nem horóscopo,
não pariu
novo contexto
ou soteriologia.
Eu me quedo
aqui, à procura
de uma rima
ou um ícone
que isomorfise
o tempus fugit
e a tal fama de 15
minutos, que diga:
“Porra, Maria
Schneider, nem o Fuji
é eterno, nem Hokusai,
César ou Virgílio.”
O que dizer de Warhol
e, agora, de seus caracóis
que pareciam ter dezenove
anos para sempre?
Nada, no fundo,
importa muito,
Maria Schneider.
Em duzentos anos,
quando o acúmulo
de notas-de-rodapé
para esse meu texto
exceder o número
de caracteres
do próprio
para que possa
ser compreendido,
eu também serei
punhado e opróbrio
de pó e ossos
como você.
Perdoe-me
este egoísmo
típico
dos homens
insistindo
em lembrar-se
da própria mortalidade
perante a morte alheia.
Mas digo com um carinho
que talvez seja mera
autoesperança
pelo próprio destino
que a quem ama
aquela graça
de errar no certo,
acertar no errado,
você, Maria Schneider,
será por mais décadas
o chinchafóis de Hollywood,
quiçá rainha duma Bizâncio
nossa, de plástico,
mas onde caracóis
estabeleçam os parâmetros
para o liso.
Com sorte,
2012,
com seu apocalipse
prometido,
fará dos cetáceos
os próximos
leitores de Shakespeare
pois nós, Silvas e Smiths,
Domenecks e Schneiders,
seremos tão-só História
em quebra-cabeças
para os futuros visitantes
alienígenas deste planeta.


Ricardo Domeneck. Berlim, 3 e 4 de fevereiro de 2011.


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

1. Artigo de Érico Nogueira na Terra Magazine sobre meu trabalho | 2. Max Hattler na Hilda Magazine | 3. A morte de Maria Schneider

1. Artigo de Érico Nogueira na Terra Magazine sobre meu trabalho.


O poeta paulista Érico Nogueira, autor de O Livro de Scardanelli (2008) e Dois (2010), iniciou hoje uma série de "Perfis" de poetas contemporâneos em sua coluna de poesia na revista do provedor Terra, dirigida por Bob Fernandes. Trata-se de um artigo generoso, e deixo com os leitores a conclusão se ele está ou não certo sobre as asserções que ali faz. De qualquer forma, não posto o link para o artigo aqui apenas porque ele inicia a série com a minha poesia, mas porque me parece também muito interessante que um poeta como ele, versado nos clássicos e que, até há pouco, usava o espaço da coluna para discutir autores como Horácio e Leopardi, volte-se agora também para a poesia contemporânea. É muito bom para o debate, para as trocas, para os diálogos. No ano passado ele escreveu sobre alguns poetas em seu blogue e imagino que ele retornará aos nomes que já discutiu, mas espero também que ele nos surpreenda com novos nomes.

No artigo, Érico reproduz meu poema "Enfim aurora-me na cachola", uma de minhas odes mezzo pornográficas, mas também minha grande pledge of allegiance à poética de Caio Valério Catulo, um dos quatro pilares clássicos para o meu pensamento crítico e poético. Os outros três são os gregos Safo de Lesbos e Calímaco de Cirene, e o latino Marco Valério Marcial, poetas que figuram lá no topo do meu paideuma pessoal.


Perfis: Ricardo Domeneck, por Érico Nogueira


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2. Max Hattler na Hilda Magazine.


Já mencionei o trabalho do artista visual Max Hattler aqui. Esta semana, alguns de seus vídeos estão no topo da página principal da Hilda Magazine. Aos que não o conhecem, recomendo muito o trabalho deste alemão radicado em Londres, que consegue conjugar o abstrato e o figurativo em animações de alta carga política.


Max Hattler na Hilda Magazine

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3. A morte de Maria Schneider


A atriz francesa Maria Schneider morreu hoje em Paris. Como homenagem à moça de cara redonda e juba encaracolada, fui à locadora do bairro e aluguei dois de meus filmes prediletos protagonizados por ela: Last Tango in Paris (Bernardo Bertolucci, 1972) e The Passenger (Michelangelo Antonioni, 1975) --- (Nota mental: escrever algum dia um artigo sobre o monólogo da personagem de Marlon Brando no quarto em que jazia sua mulher morta - aquela cena é simplesmente magistral, assim como sobre a famosa cena da manteiga e suas blasfêmias contra a família católica).

O Último Tango em Paris é, em minha opinão, a melhor coisa que Bernardo Bertolucci fez em sua vida. O filme não envelheceu e continua potentíssimo quase 40 anos depois. Bertolucci tem, obviamente, outros filmes bons e competentes. Mas é difícil imaginar que se trata do mesmo diretor que fez The Dreamers (2003), que para mim vale mais ou apenas pela beleza verazmente onírica dos três atores principais, Michael Pitt, Louis Garrel e Eva Green. Enfim, não estamos falando de Bertolucci, mas daquela que emprestou sua beleza enlouquecida para Bertolucci no gigantesco e maravilhoso Último Tango em Paris e a Antonioni no também excelente The Passenger. Descanse em paz, moça.



Trailer para Last Tango In Paris (1972)


Trailer para The Passenger (1975)


Só uma pergunta me ocorreu: quantos homens heterossexuais adentraram ou tiveram uma recaída em sua crise de meia-idade hoje, no exato segundo em que ouviram sobre a morte de Maria Schneider.

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