
Texto em que o poeta surpreende-se com a morte
de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque
da qual não discerne a fronteira entre parte e todo
Maria Schneider,
deve ser dura
a morte
em meio a ciclones
na Austrália, revoluções
na Tunísia e no Egito,
assassinatos políticos
na América,
fraudes e bancarrotas,
quando tudo
o que de si ofertou-se
décadas atrás ao mundo
limita-se a uma graça,
sim, mesmo que rara,
de fazer do errado o certo.
Mas, ao final das contas,
quando foi que o mundo
fez um minuto de silêncio
para que alguém contasse
seus saldos e débitos?
Brás Cubas emitiu seu extrato
post-mortem.
Maria Schneider, temo
que seus bicos e beiços
talvez horripilassem,
se estivesse vivo,
o velho Stanislavski.
O que dizer de sua juba
estropiada em caracóis,
menos digna da Vogue
que de uma Górgona?
Em Paris, só as gárgulas
lembram-se da sua cara
e imagino que o Google
acabe inundado
hoje
por buscas
tais como “Who the fuck was
Maria Schneider?”,
enquanto velhotes e rapazes
chegam a páginas
onde seus mamilos
ainda estão firmes
nos seus peitos
e logo abaixo
seu coração acelerado.
O seu cu de manteiga,
esta noite, será objeto
da fantasia de novos
machos-alfa,
enquanto sua morte,
ao mesmo tempo,
precipita no Ocidente
um maremoto de crises
de meia-idade
nos gigolôs trotskistas
da tal geração de 68.
E eu, Maria Schneider,
alimento uma tristeza
bem autofocada,
como se eu fosse,
repentino, a polaróide
dum oboé
ou filme disponível
apenas em vídeo
cassete, qualquer coisa
obsoletíssima,
ficção científica
que não previu
futuro nem horóscopo,
não pariu
novo contexto
ou soteriologia.
Eu me quedo
aqui, à procura
de uma rima
ou um ícone
que isomorfise
o tempus fugit
e a tal fama de 15
minutos, que diga:
“Porra, Maria
Schneider, nem o Fuji
é eterno, nem Hokusai,
César ou Virgílio.”
O que dizer de Warhol
e, agora, de seus caracóis
que pareciam ter dezenove
anos para sempre?
Nada, no fundo,
importa muito,
Maria Schneider.
Em duzentos anos,
quando o acúmulo
de notas-de-rodapé
para esse meu texto
exceder o número
de caracteres
do próprio
para que possa
ser compreendido,
eu também serei
punhado e opróbrio
de pó e ossos
como você.
Perdoe-me
este egoísmo
típico
dos homens
insistindo
em lembrar-se
da própria mortalidade
perante a morte alheia.
Mas digo com um carinho
que talvez seja mera
autoesperança
pelo próprio destino
que a quem ama
aquela graça
de errar no certo,
acertar no errado,
você, Maria Schneider,
será por mais décadas
o chinchafóis de Hollywood,
quiçá rainha duma Bizâncio
nossa, de plástico,
mas onde caracóis
estabeleçam os parâmetros
para o liso.
Com sorte,
2012,
com seu apocalipse
prometido,
fará dos cetáceos
os próximos
leitores de Shakespeare
pois nós, Silvas e Smiths,
Domenecks e Schneiders,
seremos tão-só História
em quebra-cabeças
para os futuros visitantes
alienígenas deste planeta.
Ricardo Domeneck. Berlim, 3 e 4 de fevereiro de 2011.
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