Agradecimento
Wislawa Szymborska
Devo muito
aos que não amo.
O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.
A alegria de não ser eu
o lobo de suas ovelhas.
A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar.
Não espero por eles
andando da janela à porta.
Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdôo,
o que o amor nunca perdoaria.
Do encontro à carta
não se passa uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.
As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.
E quando nos separam
sete colinas e rios
são colinas e rios
bem conhecidos dos mapas.
É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica,
com um horizonte real porque móvel.
Eles próprios não vêem
quanto carregam nas mãos vazias.
"Não lhes devo nada" -
diria o amor
sobre essa questão aberta.
(tradução de Regina Przybycien)
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sábado, 3 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
"Morrer apenas o estritamente necessário: Elogio de Szymborska", especial para o Suplemento PERNAMBUCO
Wislawa Szymborska na cerimônia do Prêmio Nobel
Morrer apenas o estritamente necessário:
Elogio de Szymborska
especial para o Suplemento Pernambuco, fevereiro de 2012
Foi em um mesmo mês, em 1996, que travei contato com o trabalho de dois artistas poloneses que viriam a se tornar tão importantes para meu pensamento poético, ensinando-me cedo a intuir a conjunção entre estética e ética, antes mesmo de descobrir tal proposição explícita nos trabalhos de um pensador como Ludwig Wittgenstein. Foi em novembro daquele ano, creio que apenas com uma semana separando os dois acontecimentos, que a TV Cultura exibira o filme Krótki film o miłości (1988, conhecido no Brasil como Não amarás) de Krzysztof Kieślowski, e um documentário sobre a poeta Wisława Szymborska (1923 – 2012), que acabava de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, transformando-a, da noite para o dia, de discreta poeta do Leste Europeu, com uma obra bastante concisa, em celebridade literária mundial. Eu tinha 19 anos. Os filmes de Kieślowski passariam a ser refeição espiritual frequente dali por diante, mas a poesia de Szymborska, que me fascinara tanto naquele documentário a mostrar uma mulher elegante e sardônica, fumante inveterada, com vocalizações discretas mas firmes de seus poemas – e num momento em que ainda não se podia usar a Internet com a mesma facilidade de hoje –, permaneceria escondida e inacessível até o ano 2001, quando a revista carioca Inimigo Rumor publicaria uma tradução coletiva de seu poema "Autotomia", trazendo-a de volta à minha mente e iniciando minha busca por traduções de seus poemas em quaisquer línguas em que estivessem disponíveis. Até hoje, "Autotomia" segue sendo um dos meus poemas favoritos, e tão claro em suas características marcantes dentro da poética de Szymborska: "Diante do perigo, a holotúria se divide em duas: / deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo, / salvando-se com a outra metade. // Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,/ em resgate e promessa, no que foi e no que será (...)”, chegando àqueles iluminados versos "Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida. / Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou”, mas encerrando o poema com aquele ceticismo que tem sido associado à poeta, mencionado com frequência nos elogios e orações funerárias publicadas depois de sua morte, há uma semana, um ceticismo porém estranhíssimo, que parece conseguir conjugar esperança e desespero numa mesma asserção: "O abismo nos cerca."
Em seu artigo publicado no jornal Il Foglio Quotidiano (ano XVII, n. 29, pag. 2), na sexta-feira posterior à morte da autora, o crítico italiano Alfonso Berardinelli fala em “ceticismo produtivo”, citando a própria poeta, em sua declaração de que “O poeta moderno é cético e desconfiado”, segundo ela, “também – e talvez, sobretudo – nos confrontos consigo mesmo”. Mas se este ceticismo e desconfiança em relação ao poeta e à poesia no mundo contemporâneo levavam-na a uma textualidade de hesitações diante do que anteriormente, entre os poetas românticos por exemplo, seria visto como a busca de verdades ou o que mais se aproximasse destas, Wisława Szymborska nunca temeu buscar no mundo e suas ocorrências e catástrofes uma espécie de parâmetro ou balança moral e ética que, ao mesmo tempo, parece ligá-la justamente àqueles poetas românticos que viam na natureza uma manifestação do divino. Cética, sim, mas nascida em um país tão marcado pela cultura judaico-cristã como o é a Polônia, a estes parâmetros e verdade intuídos no que chamaríamos de leis (tão pouco misericordiosas) da natureza, e aí reside talvez sua diferença em relação aos poetas românticos que a precederam, como Blake ou Keats, a busca por conhecimento na poesia da polonesa parece operar-se entre o que se aprende com a natureza e o que se desaprende com a História. Em seu trabalho, conhecimento e sabedoria não parecem ser operações de adição ou acumulativas. Pelo contrário, a poeta parece dizer que é por subtração de certezas que chegamos a algumas verdades talvez ligeiramente menos instáveis. Seu poema sobre a estratégia da holotúria diante de seus predadores parece-me bastante emblemático neste aspecto. Se cedo ou tarde a existência há-de devorar-nos, Szymborska sugere que colaboremos com o que tanto tememos justamente para postergá-lo. Parece-me um pensamento de grande coragem, de uma tenacidade ética gigantesca. Em seu discurso "On Courage and Resistance", quando recebeu o Prêmio Oscar Romero, a escritora norte-americana Susan Sontag (1933 – 2004), outra escritora tão apaixonada pela fortitude ética, escreveu: "Nós somos carne. Nós podemos ser perfurados por uma baioneta, feitos em pedaços por um homem-bomba. Podemos ser esmagados por uma escavadeira, fuzilados dentro de uma catedral."
É esta mesma consciência da fragilidade de nossa existência física que parece comandar a atenção de Szymborska, exigindo e implicando talvez menos ceticismo que uma modéstia tenaz, uma modéstia que é ao mesmo tempo bravura. Em seu poema "Torturas", ela escreve: "O gesto das mão protegendo o rosto, / esse permanece o mesmo. / O corpo se enrosca, se debate, se contorce / cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas, / fica roxo, incha, baba e sangra. // Nada mudou. / Apenas o curso dos rios, / do contorno das costas, matas, desertos e geleiras. / Entre essas paisagens a pequena alma passeia, / some, volta, chega perto, voa longe, / estranha a si própria, inatingível, / ora certa, ora incerta da sua existência, / enquanto o corpo é, é, é / e não tem para onde ir”, em tradução de Regina Przybycien na bela antologia publicada no ano passado pela editora Companhia das Letras. Nosso corpo degradável e nossa dor, como bens comunitários. Parece-me uma percepção de um discernimento espiritual aterrador, lembrando-me o aviso de Orides Fontela, de que "a lucidez / alucina". E foi dialogando várias vezes com esta poeta polonesa, de quem pude conhecer o trabalho apenas em tradução, em busca desta lucidez e clareza assustadoras, consciência de tudo aquilo que sangra e incha e baba, o único que parece seguir invariável em meio às catástrofes acumulativas sob os pés do Anjo de Walter Benjamin, que eu próprio escrevi num poema que “minha reação / à temperatura é a única / invariável em minha equação / pessoal para a História”, e “se a garganta se engarrafa / e os lábios racham, não há sistema de defesa / contra os herdeiros / de Eros ou Herodes, / ilustríssimos predadores”, identificando-me no entanto mais com as mixinas do que com as holotúrias da polonesa.
Se Szymborska mantinha sua atenção sobre as coisas concretas deste mundo devastado e devastador, instintivamente parecia manter-se consciente do que Ludwig Wittgenstein formulou com as palavras: "O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas”, sabendo que tais fatos são apenas coleções de palavras, e, como o austríaco, parecia acreditar também que “mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos”. E estes problemas talvez tenham solução nenhuma. Se Szymboska parece confiar em certas lições que podem ser intuídas entre a Natureza e a História, ela não se entrega jamais a qualquer determinismo ou mera relação de causalidade, pois parece, mais uma vez recorrendo a Wittgenstein, saber que “algo pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o mais permanecer o mesmo”. Em seu poema "Por um acaso”, Szymborska escreve: "Poderia ter acontecido. / Teve que acontecer. / Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe. / Aconteceu, mas não com você. / Você foi salvo pois foi o primeiro. / Você foi salvo pois foi o último. / Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda. / Porque chovia. Por causa da sombra. / Por causa do sol. / Você teve sorte, havia uma floresta. / Você teve sorte, não havia árvores. / Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio, / um batente, uma curva, um milímetro, um instante. / Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha. / Em conseqüência, porque, no entanto, porém. / O que teria acontecido se uma mão, um pé, / a um passo, por um fio / de uma coincidência. / Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso? / Um só buraco na rede e você escapou? / Fiquei mudo de surpresa. / Escuta, / como seu coração dispara em mim.”
Neste exato momento, há torturas, guerras, catástrofes ocorrendo. Holotúrias seguem sendo devoradas. Para estes fatos, a morte de Wislawa Szymborska a 1° de fevereiro de 2012 não faz a menor diferença. Mas se ela estivesse viva, certamente haveria maior alegria no mundo para tantos de nós que a lemos com admiração e o prazer daquelas três palavras que ela celebrou: “Não morrer demais”.
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Descanse em paz, querida Wislawa
Há poetas que tiveram papéis tão importantes na minha vida mental, que suas mortes, mesmo jamais os tendo conhecido, me deixam de luto verdadeiro, tristeza gigante. Foi assim quando Hilda Hilst morreu, em 2004, ou Robert Creeley, em 2005. Há dois dias, sucumbiu a um câncer no pulmão (ela, famosa chain smoker) a poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923 - 2012), em sua Cracóvia de eleição. Como homenagem a esta mulher que me ajudou literalmente a manter a sanidade em alguns momentos, reproduzo aqui duas postagens que dediquei ao trabalho de Szymborska, entre tantas outras nais quais ela compareceu como personagem importante. Obrigado por tudo, mulher fantástica e generosa.
§
As holotúrias dos poetas
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Em 2001, que geralmente chamo, com os lábios sobrevoando xícaras de café e copos de vinho tinto, de "um dos piores anos da minha vida", sofrendo como um camelo por uma daquelas hemostasias vagarosas de uma sangria desatada, quando ainda não sabia que (sim) se sobrevive a certa amputação de ilusões, houve alguns poemas que me acompanharam nas calçadas de São Paulo, como tubos de oxigênio ligados a um lugar-nenhum, cartografado sob um sol imaginário qualquer, provendo luz, ainda que artificial.
De poemas que nos mantêm vivos, a gente nunca esquece.
Há aquele início tenebroso do poema de Robert Creeley, que eu ainda repito em momentos de sufoco: "If night´s the darker / closer time, / days come", para culminar na luminosidade do trecho:
"let light
as air
be relief."
E, se a garganta se engarrafava e os lábios rachavam, era sempre possível recorrer àquele
"...e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."
de Carlos Drummond de Andrade. Havia a lição de Bishop: "Lose something everyday. Accept the fluster...", nos ensinando a fingir, a fingir.
"Faz de conta, minha filha. Faz de conta." - JGR.
Um dos poemas que mais forneceram oxigênio à minha cabeça naquele ano foi "Autotomia", de Wislawa Szymborska, que eu lera no número 10 da revista Inimigo Rumor, e que me serviu algumas vezes de kit-sobrevivência para terminar o dia.
Autotomia
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)
Poemas podem ter as causas, os efeitos mais diversos. Não é todo dia que se quer passar uma temporada no Inferno; ou em Duíno; ou mesmo em Pasárgada, ou no País das Maravilhas. De um lado o sertão, de outro o mar. Seja Lear (1812 - 1888) no absurdo em riso, ou Lear (1603 - 1606) no absurdo de todas as perdas, a cada instante seu malheur, seu bonheur. O do poema na gargalhada e o poema do franzir de todos os cenhos.
"Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar."
Recentemente, lendo a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914 - 1945, editada por Jerome Rothenberg, li um poema de Kenneth Rexroth em que ele também recorre à holotúria (ou pepino-do-mar), usando quase o mesmo fraseado de Szymborska, levando-me a perguntar se seria uma colagem ou fragmento de que Szymborska e Rexroth se apropriaram a partir de alguma enciclopédia. O poema de Rexroth chama-se "Fundamental disagreement with two contemporaries", um texto longo de cerca de 6 páginas e várias partes, no qual se encontra o seguinte fragmento em prosa e entre aspas:
"The sea cucumber when in danger of being eaten, eviscerates itself, shooting out its soft internal organs as a sop to the enemy while the body wall escapes and is able to regenerate a new set of viscera."
Pensando no texto de Szymborska, li outras páginas sobre estas holotúrias que já se enroscaram em minha mente, encontrando textos parecidos:
"When threatened, some sea cucumbers discharge sticky threads to ensnare their enemies. Others can mutilate their own bodies as a defense mechanism. They violently contract their muscles and jettison some of their internal organs out of their anus. The missing body parts are quickly regenerated.
ou
"A remarkable feature of these animals is the catch collagen that forms their body wall. This can be loosened and tightened at will and if the animal wants to squeeze through a small gap it can essentially liquefy its body and pout into the space. To keep itself safe in these crevices and cracks the sea cucumber hooks up all its collagen fibres to make its body firm again.[3]
Some species of coral-reef sea cucumbers within the order Aspidochirotida can defend themselves by expelling their sticky cuvierian tubules (enlargements of the respiratory tree that float freely in the coelom) to entangle potential predators. When startled, these cucumbers may expel some of them through a tear in the wall of the cloaca in an autotomic process known as evisceration."
§
Mutilar-se como sistema de defesa contra ilustríssimo predador. Expelir certos órgãos supérfluos em dissimulação, baile de máscaras de uma sexta-feira em filmes de medo, medo. Plano de fuga: ejetar-me as vísceras. Que holothuroidea formidável.
Pequenos pedaçoilos de moi-même em tupperwares ao honorável monsenhor predador, a tapar o ar que desperdiço do seu ambiente.
Meu Jack the ripper, com os cascos sobre o meu crânio, permaneça sempiterno no andar de cima da cadeia alimentar, enquanto a sustento com meus ombros e outras partes de minha anatomia renovável.
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Poemas que continuam salvando minha vida: "Autotomia", de Wislawa Szymborska
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:
São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.
Autotomia
Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)
§
Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.

Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.
Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.

Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".
Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.
Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008
§
§
PEQUENA ANTOLOGIA DE POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA
A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
(tradução de Regina Przybycien)
§
Gente na ponte
Estranho planeta e nele essa gente estranha.
Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas pinturas assim como esta:
Nada especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma canoa forçando seu curso contra a corrente.
Vê-se uma ponte sobre a água e vê-se gente na ponte.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.
A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A canoa navega sem se mover.
A gente na ponte corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.
É difícil passar sem um comentário:
Esse não é de modo algum um quadro inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.
Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.
Por causa de um rebelde
um tal Hiroshige Utagawa
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.
Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:
Tem sido de bom-tom há gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.
Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a ponte e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.
(tradução de Regina Przybycien)
§
Abaixo, poemas em tradução de Júlio Sousa Gomes
Amor à primeira vista
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
§§§
Estação
Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
§§§
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
§§§
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
§§§
Gente na ponte
Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:
Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.
O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.
É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.
Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.
Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:
Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.
Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.
Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
.
.
.
§
As holotúrias dos poetas
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Em 2001, que geralmente chamo, com os lábios sobrevoando xícaras de café e copos de vinho tinto, de "um dos piores anos da minha vida", sofrendo como um camelo por uma daquelas hemostasias vagarosas de uma sangria desatada, quando ainda não sabia que (sim) se sobrevive a certa amputação de ilusões, houve alguns poemas que me acompanharam nas calçadas de São Paulo, como tubos de oxigênio ligados a um lugar-nenhum, cartografado sob um sol imaginário qualquer, provendo luz, ainda que artificial.
De poemas que nos mantêm vivos, a gente nunca esquece.
Há aquele início tenebroso do poema de Robert Creeley, que eu ainda repito em momentos de sufoco: "If night´s the darker / closer time, / days come", para culminar na luminosidade do trecho:
"let light
as air
be relief."
E, se a garganta se engarrafava e os lábios rachavam, era sempre possível recorrer àquele
"...e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."
de Carlos Drummond de Andrade. Havia a lição de Bishop: "Lose something everyday. Accept the fluster...", nos ensinando a fingir, a fingir.
"Faz de conta, minha filha. Faz de conta." - JGR.
Um dos poemas que mais forneceram oxigênio à minha cabeça naquele ano foi "Autotomia", de Wislawa Szymborska, que eu lera no número 10 da revista Inimigo Rumor, e que me serviu algumas vezes de kit-sobrevivência para terminar o dia.
Autotomia
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)
Poemas podem ter as causas, os efeitos mais diversos. Não é todo dia que se quer passar uma temporada no Inferno; ou em Duíno; ou mesmo em Pasárgada, ou no País das Maravilhas. De um lado o sertão, de outro o mar. Seja Lear (1812 - 1888) no absurdo em riso, ou Lear (1603 - 1606) no absurdo de todas as perdas, a cada instante seu malheur, seu bonheur. O do poema na gargalhada e o poema do franzir de todos os cenhos.
"Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar."
Recentemente, lendo a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914 - 1945, editada por Jerome Rothenberg, li um poema de Kenneth Rexroth em que ele também recorre à holotúria (ou pepino-do-mar), usando quase o mesmo fraseado de Szymborska, levando-me a perguntar se seria uma colagem ou fragmento de que Szymborska e Rexroth se apropriaram a partir de alguma enciclopédia. O poema de Rexroth chama-se "Fundamental disagreement with two contemporaries", um texto longo de cerca de 6 páginas e várias partes, no qual se encontra o seguinte fragmento em prosa e entre aspas:
"The sea cucumber when in danger of being eaten, eviscerates itself, shooting out its soft internal organs as a sop to the enemy while the body wall escapes and is able to regenerate a new set of viscera."
Pensando no texto de Szymborska, li outras páginas sobre estas holotúrias que já se enroscaram em minha mente, encontrando textos parecidos:
"When threatened, some sea cucumbers discharge sticky threads to ensnare their enemies. Others can mutilate their own bodies as a defense mechanism. They violently contract their muscles and jettison some of their internal organs out of their anus. The missing body parts are quickly regenerated.
ou
"A remarkable feature of these animals is the catch collagen that forms their body wall. This can be loosened and tightened at will and if the animal wants to squeeze through a small gap it can essentially liquefy its body and pout into the space. To keep itself safe in these crevices and cracks the sea cucumber hooks up all its collagen fibres to make its body firm again.[3]
Some species of coral-reef sea cucumbers within the order Aspidochirotida can defend themselves by expelling their sticky cuvierian tubules (enlargements of the respiratory tree that float freely in the coelom) to entangle potential predators. When startled, these cucumbers may expel some of them through a tear in the wall of the cloaca in an autotomic process known as evisceration."
§
Mutilar-se como sistema de defesa contra ilustríssimo predador. Expelir certos órgãos supérfluos em dissimulação, baile de máscaras de uma sexta-feira em filmes de medo, medo. Plano de fuga: ejetar-me as vísceras. Que holothuroidea formidável.
Pequenos pedaçoilos de moi-même em tupperwares ao honorável monsenhor predador, a tapar o ar que desperdiço do seu ambiente.
Meu Jack the ripper, com os cascos sobre o meu crânio, permaneça sempiterno no andar de cima da cadeia alimentar, enquanto a sustento com meus ombros e outras partes de minha anatomia renovável.
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Poemas que continuam salvando minha vida: "Autotomia", de Wislawa Szymborska
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:
"Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."
São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.
Autotomia
Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)
§
Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.
Em novembro de 2008, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem sobre a poeta polonesa, ganhadora do Nobel em 1996 (quando a descobri), para a Modo de Usar & Co., da qual vocês podem ler o artigo introdutório abaixo.
WISLAWA SZYMBORSKA
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.

Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".
Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008
§
§
PEQUENA ANTOLOGIA DE POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA
A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
(tradução de Regina Przybycien)
§
Gente na ponte
Estranho planeta e nele essa gente estranha.
Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas pinturas assim como esta:
Nada especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma canoa forçando seu curso contra a corrente.
Vê-se uma ponte sobre a água e vê-se gente na ponte.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.
A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A canoa navega sem se mover.
A gente na ponte corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.
É difícil passar sem um comentário:
Esse não é de modo algum um quadro inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.
Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.
Por causa de um rebelde
um tal Hiroshige Utagawa
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.
Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:
Tem sido de bom-tom há gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.
Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a ponte e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.
(tradução de Regina Przybycien)
§
Abaixo, poemas em tradução de Júlio Sousa Gomes
Amor à primeira vista
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
§§§
Estação
Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
§§§
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
§§§
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
§§§
Gente na ponte
Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:
Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.
O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.
É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.
Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.
Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:
Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.
Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.
Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Poemas que continuam salvando minha vida: "Autotomia", de Wislawa Szymborska
Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:
São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.
Autotomia
Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)
§
Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.

Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.
Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.

Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".
Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.
Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008
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"Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."
São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.
Autotomia
Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)
§
Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.
Em novembro de 2008, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem sobre a poeta polonesa, ganhadora do Nobel em 1996 (quando a descobri), para a Modo de Usar & Co., da qual vocês podem ler o artigo introdutório abaixo.
WISLAWA SZYMBORSKA
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.

Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".
Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O frio e os poemas traduzidos que nos sustêm
A temperatura no Berlimbo, este fim-de-semana, oscilou entre -15 e -20°C. O aquecimento a carvão não torna a vida muito fácil. Passei o tempo entre o porão, enchendo o balde de carvão, o forno do quarto e as cobertas, lendo ensaios de Georges Battaille e de Fredric Jameson. Quando os dedos endurecem, glamourizo a situação, pensando nas histórias sobre Pound em Londres, num quarto-cubículo, morrendo de frio lá pelos idos de 1912, ou Beckett em Paris, lá pelos idos de 1938, na mesma situação. Sortuda era Gertrude Stein, que era rica.
Essa manhã, antes de usar a "estratégia cebola", que consiste em cobrir-me com o maior número de camadas possíveis de malhas e lãs, tomei a primeira xícara de café do dia na cozinha, lendo o chileno Enrique Lihn (1929 - 1988) e traduções para o inglês dos poemas finais do poeta tcheco Miroslav Holub (1923 - 1998). Em certo poema, Lihn escreve:
“Todas las lenguas extranjeras
me inspiran un sagrado rencor”
Como acabava de ler traduções de poemas tchecos, sabendo que jamais poderei ler aqueles textos no original, pensei imediatamente em todos estes territórios desconhecidos, que permanecerão desconhecidos. É claro que Lihn fala aqui como poeta, mas naquele momento, à mesa da cozinha, com o livro de Holub ao lado, pensei primeiramente nas consequências disso como leitor e só então como poeta.
Pensei em quantos poetas tiveram impacto sobre minha vida e sobre a minha escrita, mas através de traduções. Penso, por exemplo, em Constantino Cavafy (1863 - 1933), o grego (gigante delicado) que li pela primeira vez nas traduções de José Paulo Paes e passei, mais tarde, a ler em todos as línguas que podia. Auden chegou a escrever que uma das características mais impressionantes de Cavafy é como sua poesia apodera-se de qualquer língua em que seja traduzido. Ele afirma que se pode reconhecer a linguagem do poeta grego em qualquer língua. Creio que Auden insinuava, não que os poemas de Cavafy fossem traduzidos para línguas estrangeiras, mas que as línguas estrangeiras é que eram traduzidas para os poemas de Cavafy.
O espelho da entrada
Constantino Cavafy
À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.
Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.
Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.
Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.
Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.
(tradução de José Paulo Paes)
Durante algum tempo nutri a vontade e esperança de aprender polonês, por causa do impacto que alguns poetas daquela língua tiveram sobre mim quando lidos em tradução. Na verdade, esperava passar alguns anos em Berlim e seguir mais tarde para Varsóvia ou Cracóvia, para aprender a língua em que escreveram poetas como Zbigniew Herbert, Wislawa Szymborska e Tadeusz Różewicz. Confesso não me interessar muito pelo mais famoso deles, Czesław Miłosz. No entanto, Herbert e Szymborska, principalmente, são poetas que leio sempre e muito, com um prazer imenso, e que tiveram um verdadeiro impacto sobre mim. Já escrevi aqui sobre o poema "Autotomia", o poema da holotúria, de Szymborska. Tenho a obra completa de Zbigniew Herbert em tradução para o inglês, além do impressionante livro Pan Cogito (Senhor Cogito), em tradução para o alemão. É uma tragédia que sua poesia não seja traduzida no Brasil, com exceção de alguns poemas, traduzidos por Aleksandar Jovanović e publicados no importante Céu vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996). Foi ali que li, por exemplo, o incrível "Relato de uma cidade sitiada", de Herbert. O professor Jovanović traduziu ainda uma bela antologia de Vasco Popa, publicada pela editora Perspectiva. Há ali alguns belos ciclos, como o que dá nome à antologia, "Osso a osso", assim como aqueles poemas que Haroldo de Campos viria a chamar de exemplos de um "coisismo ontológico", que ligaria Popa mais a Ponge que a Cabral ou Williams.
Trepadeira
Vasco Popa
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
(tradução: Aleksandar Jovanovic)
É justamente esse "coisismo ontológico" que me parece uma característica fascinante e que sinto flagrar em muitos poetas do Leste Europeu. O poema da holotúria, de Szymborska é um exemplo muito bom. Em tudo o que contemplam, é como se vissem sempre o destino que "a coisa" compartilha com os homens. Na Berlim que é porta entre o Leste e o Oeste do continente, Bertolt Brecht viria a escrever em seu "Psalm", ao contemplar os animais, sobre nosso destino comum, vendo "esses que vão morrer também".
Como se o vale da sombra da morte não fosse paisagem, mas multidão e companhia.
Alguns veriam isso como o vício de antropomorfizar tudo a nosso redor, ou a crença romântica de que a natureza teria lições de moral a ensinar.
Seja o que for, alguns poetas do Leste europe parecem-me mestres nessa prática. No volume de Miroslav Holub que estava lendo essa manhã, há um belíssimo poema chamado "Universe of the mouse", em tradução de David Young:
Universe of the mouse
Miroslav Holub
Amphora of darkness, Hittite grain
still fertile, black background music
of the earth. Cathedral marked by urine.
Memorial droppings like elementary particles.
The heart beats from fright to fright.
Inside, small armoured worms
and mutations of the chromosome 11.
Well above the chorus of bats,
some Jupiter, four-legged, foggy,
the cogwheel of certitude.
He will not suffer our delicate fur to shed,
He will not suffer our spines to snap.
And when our Gracious Lady teeth
grind in the negligible second
of our death
and our small sooty eye, like
the dull eyeball of a crucified man,
mirrors Primeval Sludge, Eternal Dormition,
in a solemn voice He will answer a question
that nobody asked.
(translation by David Young)
Provavelmente, jamais poderei ler esses poemas no original, o que torna o trabalho de tradutores competentes algo imprescindível, essencial, maravilhoso, a quem sou grato, grato, grato.
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Essa manhã, antes de usar a "estratégia cebola", que consiste em cobrir-me com o maior número de camadas possíveis de malhas e lãs, tomei a primeira xícara de café do dia na cozinha, lendo o chileno Enrique Lihn (1929 - 1988) e traduções para o inglês dos poemas finais do poeta tcheco Miroslav Holub (1923 - 1998). Em certo poema, Lihn escreve:
“Todas las lenguas extranjeras
me inspiran un sagrado rencor”
Como acabava de ler traduções de poemas tchecos, sabendo que jamais poderei ler aqueles textos no original, pensei imediatamente em todos estes territórios desconhecidos, que permanecerão desconhecidos. É claro que Lihn fala aqui como poeta, mas naquele momento, à mesa da cozinha, com o livro de Holub ao lado, pensei primeiramente nas consequências disso como leitor e só então como poeta.
Pensei em quantos poetas tiveram impacto sobre minha vida e sobre a minha escrita, mas através de traduções. Penso, por exemplo, em Constantino Cavafy (1863 - 1933), o grego (gigante delicado) que li pela primeira vez nas traduções de José Paulo Paes e passei, mais tarde, a ler em todos as línguas que podia. Auden chegou a escrever que uma das características mais impressionantes de Cavafy é como sua poesia apodera-se de qualquer língua em que seja traduzido. Ele afirma que se pode reconhecer a linguagem do poeta grego em qualquer língua. Creio que Auden insinuava, não que os poemas de Cavafy fossem traduzidos para línguas estrangeiras, mas que as línguas estrangeiras é que eram traduzidas para os poemas de Cavafy.
O espelho da entrada
Constantino Cavafy
À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.
Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.
Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.
Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.
Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.
(tradução de José Paulo Paes)
Durante algum tempo nutri a vontade e esperança de aprender polonês, por causa do impacto que alguns poetas daquela língua tiveram sobre mim quando lidos em tradução. Na verdade, esperava passar alguns anos em Berlim e seguir mais tarde para Varsóvia ou Cracóvia, para aprender a língua em que escreveram poetas como Zbigniew Herbert, Wislawa Szymborska e Tadeusz Różewicz. Confesso não me interessar muito pelo mais famoso deles, Czesław Miłosz. No entanto, Herbert e Szymborska, principalmente, são poetas que leio sempre e muito, com um prazer imenso, e que tiveram um verdadeiro impacto sobre mim. Já escrevi aqui sobre o poema "Autotomia", o poema da holotúria, de Szymborska. Tenho a obra completa de Zbigniew Herbert em tradução para o inglês, além do impressionante livro Pan Cogito (Senhor Cogito), em tradução para o alemão. É uma tragédia que sua poesia não seja traduzida no Brasil, com exceção de alguns poemas, traduzidos por Aleksandar Jovanović e publicados no importante Céu vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996). Foi ali que li, por exemplo, o incrível "Relato de uma cidade sitiada", de Herbert. O professor Jovanović traduziu ainda uma bela antologia de Vasco Popa, publicada pela editora Perspectiva. Há ali alguns belos ciclos, como o que dá nome à antologia, "Osso a osso", assim como aqueles poemas que Haroldo de Campos viria a chamar de exemplos de um "coisismo ontológico", que ligaria Popa mais a Ponge que a Cabral ou Williams.
Trepadeira
Vasco Popa
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
(tradução: Aleksandar Jovanovic)
É justamente esse "coisismo ontológico" que me parece uma característica fascinante e que sinto flagrar em muitos poetas do Leste Europeu. O poema da holotúria, de Szymborska é um exemplo muito bom. Em tudo o que contemplam, é como se vissem sempre o destino que "a coisa" compartilha com os homens. Na Berlim que é porta entre o Leste e o Oeste do continente, Bertolt Brecht viria a escrever em seu "Psalm", ao contemplar os animais, sobre nosso destino comum, vendo "esses que vão morrer também".
Como se o vale da sombra da morte não fosse paisagem, mas multidão e companhia.
Alguns veriam isso como o vício de antropomorfizar tudo a nosso redor, ou a crença romântica de que a natureza teria lições de moral a ensinar.
Seja o que for, alguns poetas do Leste europe parecem-me mestres nessa prática. No volume de Miroslav Holub que estava lendo essa manhã, há um belíssimo poema chamado "Universe of the mouse", em tradução de David Young:
Universe of the mouse
Miroslav Holub
Amphora of darkness, Hittite grain
still fertile, black background music
of the earth. Cathedral marked by urine.
Memorial droppings like elementary particles.
The heart beats from fright to fright.
Inside, small armoured worms
and mutations of the chromosome 11.
Well above the chorus of bats,
some Jupiter, four-legged, foggy,
the cogwheel of certitude.
He will not suffer our delicate fur to shed,
He will not suffer our spines to snap.
And when our Gracious Lady teeth
grind in the negligible second
of our death
and our small sooty eye, like
the dull eyeball of a crucified man,
mirrors Primeval Sludge, Eternal Dormition,
in a solemn voice He will answer a question
that nobody asked.
(translation by David Young)
Provavelmente, jamais poderei ler esses poemas no original, o que torna o trabalho de tradutores competentes algo imprescindível, essencial, maravilhoso, a quem sou grato, grato, grato.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
As holotúrias dos poetas

Em 2001, que geralmente chamo, com os lábios sobrevoando xícaras de café e copos de vinho tinto, de "um dos piores anos da minha vida", sofrendo como um camelo por uma daquelas hemostasias vagarosas de uma sangria desatada, quando ainda não sabia que (sim) se sobrevive a certa amputação de ilusões, houve alguns poemas que me acompanharam nas calçadas de São Paulo, como tubos de oxigênio ligados a um lugar-nenhum, cartografado sob um sol imaginário qualquer, provendo luz, ainda que artificial.
De poemas que nos mantêm vivos, a gente nunca esquece.
Há aquele início tenebroso do poema de Robert Creeley, que eu ainda repito em momentos de sufoco: "If night´s the darker / closer time, / days come", para culminar na luminosidade do trecho:
"let light
as air
be relief."
E, se a garganta se engarrafava e os lábios rachavam, era sempre possível recorrer àquele
"...e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."
de Carlos Drummond de Andrade. Havia a lição de Bishop: "Lose something everyday. Accept the fluster...", nos ensinando a fingir, a fingir.
"Faz de conta, minha filha. Faz de conta." - JGR.
Um dos poemas que mais forneceram oxigênio à minha cabeça naquele ano foi "Autotomia", de Wislawa Szymborska, que eu lera no número 10 da revista Inimigo Rumor, e que me serviu algumas vezes de kit-sobrevivência para terminar o dia.
Autotomia
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)
Poemas podem ter as causas, os efeitos mais diversos. Não é todo dia que se quer passar uma temporada no Inferno; ou em Duíno; ou mesmo em Pasárgada, ou no País das Maravilhas. De um lado o sertão, de outro o mar. Seja Lear (1812 - 1888) no absurdo em riso, ou Lear (1603 - 1606) no absurdo de todas as perdas, a cada instante seu malheur, seu bonheur. O do poema na gargalhada e o poema do franzir de todos os cenhos.
"Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar."
Recentemente, lendo a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914 - 1945, editada por Jerome Rothenberg, li um poema de Kenneth Rexroth em que ele também recorre à holotúria (ou pepino-do-mar), usando quase o mesmo fraseado de Szymborska, levando-me a perguntar se seria uma colagem ou fragmento de que Szymborska e Rexroth se apropriaram a partir de alguma enciclopédia. O poema de Rexroth chama-se "Fundamental disagreement with two contemporaries", um texto longo de cerca de 6 páginas e várias partes, no qual se encontra o seguinte fragmento em prosa e entre aspas:
"The sea cucumber when in danger of being eaten, eviscerates itself, shooting out its soft internal organs as a sop to the enemy while the body wall escapes and is able to regenerate a new set of viscera."
Pensando no texto de Szymborska, li outras páginas sobre estas holotúrias que já se enroscaram em minha mente, encontrando textos parecidos:
"When threatened, some sea cucumbers discharge sticky threads to ensnare their enemies. Others can mutilate their own bodies as a defense mechanism. They violently contract their muscles and jettison some of their internal organs out of their anus. The missing body parts are quickly regenerated.
ou
"A remarkable feature of these animals is the catch collagen that forms their body wall. This can be loosened and tightened at will and if the animal wants to squeeze through a small gap it can essentially liquefy its body and pout into the space. To keep itself safe in these crevices and cracks the sea cucumber hooks up all its collagen fibres to make its body firm again.[3]
Some species of coral-reef sea cucumbers within the order Aspidochirotida can defend themselves by expelling their sticky cuvierian tubules (enlargements of the respiratory tree that float freely in the coelom) to entangle potential predators. When startled, these cucumbers may expel some of them through a tear in the wall of the cloaca in an autotomic process known as evisceration."
§
Mutilar-se como sistema de defesa contra ilustríssimo predador. Expelir certos órgãos supérfluos em dissimulação, baile de máscaras de uma sexta-feira em filmes de medo, medo. Plano de fuga: ejetar-me as vísceras. Que holothuroidea formidável.
Pequenos pedaçoilos de moi-même em tupperwares ao honorável monsenhor predador, a tapar o ar que desperdiço do seu ambiente.
Meu Jack the ripper, com os cascos sobre o meu crânio, permaneça sempiterno no andar de cima da cadeia alimentar, enquanto a sustento com meus ombros e outras partes de minha anatomia renovável.
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