sexta-feira, 13 de março de 2009

Dirceu Villa & Soror Maria do Céu

Há duas semanas, em correspondência com o poeta paulistano Dirceu Villa e discutindo artigos recentes sobre o cânone, assim como nossas próprias postagens a respeito, Villa mencionou uma antologia de poesia do século XVII, em que encontrara o trabalho poético de autores esquecidos, mas interessantíssimos. Ele mencionou, em especial, a celestial senhora Soror Maria do Céu (1658 - 1753), e me enviou este poema:

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.


.
.
.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Maratona chega ao fim

Uma da matina, acabo de chegar de Leipzig, onde Sabine Scho, Daniel Falb, Pedro Sena-Lino e eu fizemos leituras para apresentar a antologia de poesia em língua alemã e portuguesa. Foram muito boas as leituras, mas eu estava um caco por causa do aniversário da Berlin Hilton na noite anterior, que foi, diga-se de passagem, excelente. Posto vídeos e fotos e relatórios em breve, mas agora eu quero cama.

Vou dormir ao som de Soap & Skin:

quarta-feira, 11 de março de 2009

Hoje à noite: parte 1


Às 19:00, na Livraria Francesa de Berlim - ZADIG - participo do evento Printemps des Poètes, com uma leitura de poemas ao lado dos autores Odile Kennel (Alemanha), Sandra Santana (Espanha) e Damien Spleeters (Bélgica).

Printemps des Poètes
4 poetas, 5 línguas:

Ricardo Domeneck (Brasil)
Odile Kennel (Alemanha)
Sandra Santana (Espanha)
Damien Spleeters (Bélgica)

Zadig
Linienstrasse 141
Berlin
19:00

Hoje à noite: parte 2


Hoje à noite comemoramos o quarto ano de existência do nosso evento semanal BERLIN HILTON, que iniciou suas atividades em fevereiro de 2005. Foram quatro anos em que tivemos a honra e o prazer de apresentar performances ou DJ sets de alguns de nossos heróis pessoais, como Planningtorock, Le Tigre, Tetine, Apparat, T.Raumschmiere, Kevin Blechdom, Stereo Total, Angie Reed, Mount Sims, CocoRosie, Cantankerous ou Hellvar, entre outros,

assim como mostrar o trabalho de novos artistas, como Barbara Panther, ou novos projetos de pessoas como Florian Puehs, hoje vocalista da banda Herpes.

Quatro anos do coletivo que surgiu em torno desta intervenção semanal, com meus colegas Viktor Neumann e Oliver Krueger aka OL!, além de todos os que colaboram conosco, como Niklas Goldbach, Philipp Sapp aka K.Jell, André Scheffler aka DJ Andre Lange, Jonas Lieder aka Shrivel, Daniel Reuter, Stefan Davids aka Alpha-Nerd, entre outros.

Para a festança de hoje, convidamos os meninos do Lo-Fi-Fnk, de Estocolmo, uma escolha perfeita para uma festa de aniversário, ora.



terça-feira, 10 de março de 2009

De volta à ex-cratera conhecida como Alemanha e ao Berlimbo

Assim que as coisas se acalmarem, faço um relatório das viagens, mas agora segue a maratona em terras alemãs.

Cheguei de Dubai há poucas horas e, hoje à noite, participo do lançamento da antologia de poesia germânica e lusófona, na qual tenho poemas incluídos, assim como os brasileiros Angélica Freitas e Paulo Henriques Britto, portugueses como Pedro Sena Lino e Ana Luísa Amaral e alemães como Monika Rinck, Sabine Scho e Daniel Falb.

A antologia é fruto do Festival de Poesia de Berlim, que em 2008 dedicou-se à poesia em língua lusa; a leitura será no Literaturwerkstatt - mais info AAQQUUII -, e leio com os alemães Sabine Scho e Daniel Falb.

A antologia será lançada no Brasil pela Editora 34 e em Portugal pela Editora Sextante.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Em Dubai

Há rumores de que a cidade toda pode descolar-se da Terra e ser catapultada para o espaço no caso de um asteróide em nosso caminho.

Hoje, às 18:00 - hora local - leio meus poemas nesta que me parece uma colônia humana pós-apocalíptica na Lua ou em Marte.

Escrevo mais sobre esta experiência surreal quando voltar ao Berlimbo e terminar a maratona.

Por enquanto, na companhia interessantíssima de Tomaž Šalamun (Eslovênia), Matthew Sweeney (Irlanda), Rebecca Horn (Alemanha), Ilma Rakusa (Suíça), Breyten Breytenbach (África do Sul) e Wole Soyinka (Nigéria), alem de jovens como o esloveno Ales Šteger e a italiana Elisa Biagini.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dando largada à maratona

Às vezes são semanas sem um convite para ler meus poemas ou apresentar-me como DJ, e então, de repente, um zilhão de eventos ao mesmo tempo. Começa hoje minha maratona como poeta e DJ:

4 de março, hoje à noite, quarta-feira, como toda quarta-feira, apresento-me como DJ Kate Boss na Berlin Hilton; corro para casa, durmo algumas horas e tomo um vôo para Bruxelas, onde amanhã à noite,

5 de março, leio meus poemas nas Soirées Babel - mais info AAQQUUII -, parte do Festival OFF, evento paralelo à Feira do Livro da capital belga; feliz por ler na mesma noite que o meu querido Eduard Escoffet; passo a noite por lá e no dia seguinte, pela tarde,

6 de março, retorno a Berlim, onde me apresento à noite mais uma vez como DJ Kate Boss no clube Schwuz, até as 5 ou 6 da matina; corro para casa, durmo algumas horas, chispo para o aeroporto mais uma vez e tomo um vôo, com escala em Frankfurt, a

7 de março, para Dubai, nos Emirados Árabes, onde passo três dias e leio meus poemas na noite de 9 de março no primeiro Festival Internacional de Poesia de Dubai - mais info AAQQUUII



onde também lêem o nobel Wole Soyinka, meu querido Tomaž Šalamun e a maravilhosa Rebecca Horn --- creio que sou o mais jovem entre os "ocidentais"; então, na manhã do dia

10 de março, parto de Dubai de volta a Berlim, onde à noite participo do lançamento da antologia de poesia germânica e lusófona, na qual tenho poemas incluídos, assim como Angélica Freitas e Paulo Henriques Britto, parte do Festival de Poesia de Berlim; a leitura será no Literaturwerkstatt - mais info AAQQUUII -, e leio com os alemães Sabine Scho e Daniel Falb; no dia seguinte,

11 de março, dois eventos, um como poeta e outro como DJ: às 20 horas, uma leitura de meus poemas na livraria francesa de Berlim - Zadiq - com a alemã Odile Kennel, a espanhola Sandra Santana e o belga Damien Spleeters; às 23:00, celebramos na Berlin Hilton nosso quarto aniversário, com uma performance festiva e aniversárica do duo sueco Lo-Fi-Fnk; corro para casa, durmo algumas horas, e então no dia

12 de março, pego um ônibus e viajo para Leipzig, onde leio poemas na Leipziger Buchmesse (Feira do Livro de Leipzig), voltando para Berlim no mesmo dia, se houver sobrevivido a todas as leituras, todas as festas, todos os vôos e todos os copos de vinho.

Se sumir por uns dias, já sabem.

Patchen, ainda.


Encontrei ontem na biblioteca aqui no Berlimbo (a mesma em que os anjos de Wim Wenders ainda caminham, na minha imaginação) um volume interessante de Kenneth Patchen, intitulado We Meet (2008), também publicado pela New Directions (a lendária editora de James Laughlin, que manteve tantos modernistas americanos in print, quando isto ainda exigia coragem).

O volume reúne os livros Because It Is, A Letter to God, Poemscapes, Hurrah for Anything (este título precioso) e ainda A Flame and Afun of Walking Faces. São poemas, em sua maioria, da década de 50 e 60, após Patchen atingir sua madurez que, em minha opinião, viera nos volumes da década de 40, como The Teeth Of The Lion (1942) e ---um dos meus favoritos--- Cloth of the Tempest (1943), quando Patchen abandona o lirismo (às vezes um pouco aguado) dos primeiros poemas, escritos na década de 30 ( sua estréia em livro ocorre em 1936, com Before the Brave, o que o faz um contemporâneo de Vinícius de Moraes e Manoel de Barros, por exemplo).

O que me chamou a atenção neste volume foi o nome de quem assina o prefácio: o poeta-músico Devendra Banhart, o que não é surpresa, já que Patchen parece ser um poeta para músicos, mais que um poeta para poetas. Parece-me um destino muito mais satisfatório. Nas palavras de Charles Mingus: "Patchen´s a real artist, you´d dig him.", ou na descrição de Allen Ginsberg para Patchen: "A senior survivor of the poetry spiritual wars."

Henry Miller (um dos heróis de minha adolescência) inicia assim seu ensaio sobre Kenneth Patchen, intitulado "A Man of Anger and Light":

THE first thing one would remark on meeting Kenneth Patchen is that he is the living symbol of protest. I remember distinctly my first impression of him when we met in New York: it was that of a powerful, sensitive being who moved on velvet pads. A sort of sincere assassin, I thought to myself, as we shook hands. This impression has never left me. True or not, I feel that it would give him supreme joy to destroy with his own hands all the tyrants and sadists of this earth together with the art, the institutions and all the machinery of every day life which sustain and glorify them. He is a fizzing human bomb ever threatening to explode in our midst. Tender and ruthless at the same time, he has the faculty of estranging the very ones who wish to help him. He is inexorable: he has no manners, no tact, no grace. He gives no quarter. Like the gangster, he follows a code of his own. He gives you the chance to put up your hands before shooting you down. Most people however, are too terrified to throw up their hands. They get mowed down.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Heróis à sua escolha

Uma das vantagens e aspectos mais interessantes para o poeta jovem que está começando a construir sua própria est-É-tica é a de poder escolher seus próprios heróis, suas próprias referências poéticas, estejam elas no cânone ou não. Geralmente, elas estão à margem, pois um poeta jovem se cansa das escolhas alheias, que já chegaram a seus becos-sem-saída quando o poeta jovem está iniciando seu trabalho.

Será que ainda se pode mamar na teta seca de João Cabral de Melo Neto, por exemplo, depois de tantos poetas terem sugado o deserto às avessas cheio de pedras e cabras das glândulas poético-mamárias do pernambucano? Até quando vamos aguentar poemas a elogiar a secura, até fazer dela a única razão para sua própria esterilidade? Um único poeta como parâmetro de qualidade? Isto não seria coisa de província, esta mania por um Grande Poeta Nacional?

Não me entendam mal, não estou apenas tentando ser "controverso", eu amo a poesia de João Cabral de Melo Neto, ainda que escolha concentrar-me em outros aspectos de seu trabalho, como sua relação com a oralidade em seus poemas-para-vozes, o metafórico poderoso de um texto como "O cão sem plumas" e a poética-da-hesitação de "Uma faca só lâmina". Mas jamais poderei compartilhar do desgosto ranzinza de Cabral pela música ou sua aversão quase patológica a qualquer sombra de lirismo. Que frescor ele próprio encontra no livro Sevilha andando (1990).

Confesso que tenho, como qualquer poeta mais jovem, um gosto especial em descobrir aqueles poetas esquecidos, negligenciados. Lembro-me do entusiasmo ao ler poetas como Orides Fontela e principalmente Hilda Hilst, antes que se tornassem mais conhecidas. Era como carregar um segredo brilhoso, solar, uma espécie de seita consigo mesmo. Espalhava os livros de Hilda Hilst entre meus amigos na USP, em 1998 e 1999, me alegrava imensamente ao ver Hilst tornando-se uma referência importante para outros jovens da minha idade, gente que eu via crescendo e se tornando artistas que eu hoje respeito.

Um destes meus heróis escolhidos é o americano Kenneth Patchen. Nem tudo em seu trabalho interessa talvez ao jovem poeta contemporâneo... mas que energia em livros como The Journal of Albion Moonlight (1941), em muitos de seus poemas oralizados e escritos, em seus picture poems.

Explico o porquê em uma postagem para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co..


Você já escolheu seus heróis?

Meu mãedeuma inclui (no século XX):
Murilo Mendes,
John Cage
e Ludwig Wittgenstein,

(que me ensinaram a pensar por conta própria - e a pagar a conta)

......................bem lá no alto da lista,

mas ainda

Hans Arp, Gertrude Stein, Ghérasim Luca, Frank O´Hara, Hilda Hilst, Tristan Tzara, Clarice Lispector, Edmond Jabès, Kate Bush, Henri Chopin, Lygia Clark, Rosmarie Waldrop, Hugo Ball, Kenneth Patchen, Mircea Eliade, Ernest Becker, Susana Thénon, Jack Spicer, Patti Smith, Guy Debord, Arthur Bispo do Rosário, John Ashbery, H.C. Artmann, Orides Fontela, Louise Bourgeois, Mina Loy, Roland Barthes, Eva Hesse, José Leonilson, Björk, Nick Drake, Torquato Neto, etc, etc, etc.

§

First Will and Testament
Kenneth Patchen

I here deliver you my will and testament, in which you
will find that what I am is not at all what I would: I
make no demand that you be just in weighing it, for I
know that you will be so for your own sake; but I do
charge you by the religion of poetry itself not to sneer
at some things which may seem strange to you, for I
have burnt no house but my own and nobody will
force you to warm yourself at its heat.


Aqui entrego a vocês meu testamento, no qual
descobrirão que o que sou não é por certo o que seria: eu
não exijo que sejam justos ao ponderar sobre ele, pois eu
sei que o serão para o seu próprio bem; no entanto, eu
comando pela religião mesma da poesia que não zombem
daquilo que possa lhes parecer estranho, pois eu
não queimei casa alguma além da minha e ninguém
há-de forçar que vocês se aqueçam em seu fogo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Picture poem by Kenneth Patchen:

Happiness ainda é um warm gun


Os textos de John Lennon para as canções dos Beatles do fim da década de 60 estão entre os melhores poemas do britânico.

Também são aqueles que mais se aproximam de sua escrita, aquela que se manifesta no livros In His Own Write (1964) e A Spaniard in the Works (1965), em que Lennon claramente se une à tradição de Edward Lear e Christian Morgenstern, aquela que seria reavivada pelos poetas do Cabaret Voltaire, como Tristan Tzara e Hans Arp.

Neste poema, Lennon teria declarado usar fragmentos de textos inacabados, fazendo de "Happiness is a warm gun" um dos mais alusivos e fragmentários de sua escrita. É também um dos poemas eróticos mais interessantes de Lennon.

Happiness is a warm gun

She's not a girl who misses much
She's well acquainted with the touch of the velvet hand
Like a lizard on a window pane

The man in the crowd with the multicoloured mirrors
On his hobnail boots
Lying with his eyes while his hands are busy
Working overtime
A soap impression of his wife which he ate
And donated to the National Trust

I need a fix 'cause I'm going down
Down to the bits that I left uptown
I need a fix cause I'm going down
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun

Happiness is a warm gun
(Bang Bang Shoot Shoot)
Happiness is a warm gun, momma
(Bang Bang Shoot Shoot)
When I hold you in my arms
And when I feel my finger
on your trigger
I know nobody can do me no harm
Because happiness is a warm gun, momma
(Bang Bang Shoot Shoot)
Happiness is a warm gun
(Bang Bang Shoot Shoot)
-Yes it is, it's a warm gun!
(Bang Bang Shoot Shoot)
Happiness is a warm, yes it is...
GUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUN!

Arquivo do blog