sábado, 30 de junho de 2018

Minha amiga, a gravidade


Os amigos reclamam que a chuva
repentina estragou seus planos.
Cancela-se a festa. Posterga-se
o piquenique. Adia-se o casamento.
Todos, em uníssono, imprecam
contra os céus. Que bom vê-los,
ouvi-los finalmente em concórdia!
Já não eu. Aceito a chuva indiferente
às festas se condensou-se a água.
Seja terra e água e ar o planeta
onde lhe cabe ou apraz
ser terra, água, ar. Corro do fogo
sem o culpar. Anoto sem litígios
o início das estações no calendário.
Não me coube aprovar de antemão
os elementos, suas relações. Chove?
Que chova. Nada quis a água, ela
desejou nada. Que inveja,
que inveja hoje da chuva. Nada
sequer lhe apraz. Fez o que faz
à temperatura dada, que de outras
relações dependeu, tumultuosas
tão-só para nossos termômetros,
nossos anemômetros e barômetros.
Que bom só olhar essas relações.
Não as medir, nem as tabelar.
A calma da água arremessada
pelo vento contra a terra
que a aceita – tanto quanto esta água
aceita que nela se infiltre. Essa teia
sem aranhas e sem horizontes.
Condensa-se, evapora-se. São sim
separações, mas também uniões alhures.
O ar que em ventos destrói apenas
pela pressa de chegar a outro lugar
que dele necessita. Essa balança
de pressões. Fazer o que se é. Ser
o que se faz. Invejo isso. E enquanto
isso, é meu o cansaço. A fome e a sede.
Minha carne esfomeada, que alimentaria
ela mesma por dias uma alcateia. Rel-
aciono-me, então. Piso o chão e ele
me segura, sei que há-de me abraçar
a água se a pisar. Aceito não
ter contrato com o ar para que sustente
minha massa se já infla
meus pulmões. Foi o meu povo
que se adaptou a terra, água e ar.
Não há como mudar agora os termos.
Esperar deles que se ajustem
a minhas vontades e desejos.
Mas tenta-se. Conter o que apenas é.
Termômetro e aquecedor. Veja
como estão fechadas à chuva
agora as minhas janelas.
E eu quisera querer apenas
esse fazer-ser como a água:
juntar-me aos meus se faz frio,
distanciar-me se faz calor.
Imprecar contra o que se precipita?
Não me foi dada esta língua
para imprecar. Nem mais faz
sentido louvar. Só separar-me dos meus
para ascender. Cair de novo à terra
quando sobrepuja-me inocente
esse peso, que é minha rel-
ação a todo o resto que me foi dado.

.
.
.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O planeta do mundo


De longe é todo azul, de muito perto
terá outra cor, mas não a esmo. Reações
de átomos, essas coisas pequenas. É a certa
meia-distância (mas entre o que e o quê?)
que as cores multiplicam-se. O palco
que está dentro do teatro sem o ser.
Quem me dera ver o mundo a partir
da Lua e ver o planeta de dentro
da estação de metrô da Consolação.
Na Muralha da China ver a Estação
Espacial Internacional e desta ver a Muralha
da China. Já não sei distinguir entre as árvores
que morreram para doar a madeira
ao palco dos atores e às cadeiras da plateia.
Todos corpos, as árvores dos assentos
e as do tablado, das vigas que suportam o teto
sobre a gente da performance
e do público. Esses corpos a esmo.
Que escolhem onde sentar-se
para melhor ver o espetáculo
ou para estar ao lado de um corpo
que foi eleito a melhor festa
da cidade. Colisões. Coalizões. Que não
seja uma guerra. Interagir sem interferir.
A equidistância ideal e por ideal jamais
com sua própria estação ferroviária.
Sinto falta é dos lanterninhas dos cinemas.
Do sinal de ternura dos cães-guia.
De ler uma história para que durma
o ainda-não-alfabetizado. Avante, infante!
Façamos dinheiro então para hospitais
e rodas-gigantes se há o necessário
e há o imprescindível, ninguém
quer escolher entre o pão e o circo.
Nada é causa e tudo é consequência,
e acontece o que acontece quando acontece:
o pôr-do-sol na Praça do Pôr-Do-Sol
e os cânceres no Instituto do Câncer.
Até as células enlouquecem sozinhas,
decidem desviar-se de seu manual de instruções.
Por que não eu que as chamo de minhas?
Não foi a erros de cópia que devemos
esses pássaros de cores loucas,
esses mamíferos d'água como se peixes,
esses primatas pelados que amamos na cama
a cada cama, acarinhando seus pelos
restantes e finos? Somos tão peludos
quanto chimpanzés e bonobos,
essa primaiada toda, querido, são
apenas menores e mais frágeis as fibras
dessa roupa nossa nascida e dada
à qual acrescentamos o necessário, o imprescindível.
O mundo no planeta e o planeta fora do mundo,
mas não acaba a peça se queima até o chão o teatro?
Não se ilumina por diligência as saídas de emergência?
Quantas mortes não ocorrem em cena.
Todas. Nenhuma. Esse mundo, que mundo,
que planeta ocorrível e aconteçoso,
esse vulcão que não se extingue até que se extinga,
esse mar que martela a praia constante,
mais abaixo, mais acima, como quem apalpa
o que dói, para dizer: ‘Aqui dói. Dói aqui.’
Dizer ah! e oh!, como uma criança
dizer a alguém que é protetor e progenitor:
'óia eu! óia eu!', essas vogais da descoberta
de si e do outro, a alegria
de que alguns de nós já nasçam
sem os dentes do ciso, sem marfim
já nasçam elefantes. Tudo é causa
e nada é consequência, e pede-se apenas
que se assista ao circo e que se assista o pão.
Que se ilumine o corredor
para os que chegam agora ao filme
que é trailer do trailer do curta-metragem
sobre um pôr-do-sol e um câncer.
Agasalhe-se, é por vezes inclemente o clima.
Acordou, querido? Acorde, querido.
Está com sede o cão-guia.


.
.
.

Arquivo do blog