sexta-feira, 28 de julho de 2017

Descoberta tardia no meio da novela


Sempre detestei aquela personagem
de filmes, livros e novelas: o bêbado penitente,
seu papel tragicômico na trama,
suas juras de corvo de nunca mais,
suas dancinhas à beira do abismão,
seu samba e capoeira na corda-bamba,
seus arrependimentos com soluços,
suas reincindências cronometradas,
seus pedidos de misericórdia a qualquer deus de plantão,
seus apelos à Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Eu sou o bêbado penitente.


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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Retrato em vídeo

O retrato em vídeo abaixo foi produzido pelo Literarisches Colloquium Berlin e pelo Literaturport, em seu projeto de mapear a cena literária de língua estrangeira na capital alemã.



Você pode assistir aos outros aqui.

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terça-feira, 11 de julho de 2017

Aproxime-se e me aborde




Até mesmo os continentes afastam-se,
colidem, formam cordilheiras e oceanos,
detêm correntes de ar, mobilizam monções,
separam membros da mesma espécie
que se adaptam, mutações de azar e sorte.

Por que não seria assim conosco, tão mais
bruscos em nossos joelhos e cotovelos,
tão mais destrutivos em nossas erupções
pelas fendas deste corpo no qual a pele
dobra-se úmida, anunciando as crateras?

Em nós também contam apenas as quinas
e buracos. Montanhas, fiordes, precipícios.
Felizes as bactérias inquilinas de nossa pele,
como cegos que apalpassem um elefante,
só parte do planeta doente em que vivem.

E já nem sei se maldito ou bendito esse mar
de lava sobre o qual dançam nossos pés,
as erosões e tremores que expõem fósseis
onde buscamos pelo elo perdido da espécie,
aclare a desgraça de cambalearmos bípedes.

Eu culpo o eixo torto da Terra, as estações
incansáveis, essa rotina do brota-e-murcha,
a neve, seu despenca-e-derrete, eito e horto
da boca que troveja quando queria ensolarar,
une ríspida os dentes e morde ao mal lamber.


--- Munique, 9/7 - Berlim, 11/7

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