quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

(desenho de Leonilson)


Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

Faço diligente meus autorretratos
e espero que ele erga o polegar
em público, qual um césar decida
que eu posso viver um dia a mais
na arena em que nos digladiamos.
Ao fim do mês, tabelo e analiso
a informação dos seus gostos
e desgostos, estes últimos
interpretados de seu silêncio
que é, em si, o meu desgosto:
ele não gosta deste cabelo,
ele não gosta desta pose,
ele não gosta deste rosto,
mas ele gosta deste casaco!
Talvez um dia ele desça o polegar
e gládios de estranhos
me trespassem
e não afinal a sua glande,
ou abandone de todo estes sinais
mudos, esta fumaça sem fogo,
estes pombos-correios casmurros.
Mas quem sabe, ai loteria!, ele           
até mesmo, apesar de tão jovem,
seja ensinado que o telefone
foi inventado para hábitos antigos,
conversas! imaginem! ouvir vozes!
Quando então leve ao bucal a boca,
eu saberei como pentear o cabelo,
que pose não assumir no corpo,
que rostos esconder no rosto.
E estará limpo aquele casaco.


§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 23 de novembro de 2017.

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domingo, 19 de novembro de 2017

Ao menino que chamarei de Sexta-Feira


Raro molusco não foi, nem unicórnio
o que moveu-me naquela manhã fria,
marcha nublada a manchar a sexta-feira,
mas o encaixe entre peças de montaria,
concha a mendigar ainda mais concha.
O co-mover-se em dominó dos órgãos,
empilhados acima e abaixo do coração,
de forma coordenada, rodízio de ancas
e ombros a frigir na cama para côncavos
respeitarmo-nos, ali deitados, colheres
bastantes em calor mútuo no pergelissolo
dos lençóis, frios onde nossos corpos
não os cobriam da atmosfera do quarto,
pois jamais ressentiu-se nenhuma colher
da ausência de garfos, ou sua perfurante
insistência em ferir para manejar conter
se com vinte dedos cerrados, alternando
em cada peito, um a outro abotoamo-nos.

§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 17-19 de novembro de 2017.



        a F. M.

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poema ao saber da morte de Vincent Warren

Vincent Warren & Frank O'Hara em Nova Iorque em 1960. A paixão
de Frank O'Hara pelo dançarino canadense, que ele conhece em 1959, é apontada
por críticos e biógrafos como um dos fatores que levariam a seu annus mirabilis (1959),
quando O'Hara escreveu grande parte dos poemas que o tornaram famoso,
incluindo vários dedicados a Warren, como "Having a coke with you", "Steps"
e "You are gorgeous and I'm coming". Vincent Warren faleceu a 25 de outubro deste ano.



POEMA AO SABER DA MORTE DE VINCENT WARREN
ou Texto em que o poeta lembra-se de que morrem também aqueles que ele canta

Os cafés esfriam e acabam!
As manhãs acabam e esfriam!
Deveriam ser estas as manchetes
dos jornais de amanhã, querido,
não mais guerras e golpes, não,
quando estarão enfim extintos
estes assuntos e não nosso açúcar,
nosso pó de café e nossos cigarros,
pois há tanta coisa mais importante
por discutirmos e ajeitarmos.
Calafriam-se os cafés-da-manhã!
Emboloram-se os pães de nosso açúcar!
Todos, Moço. Dessarte haveria
o mundo ou eu
- preferira que fosse eu e o mundo -
de anunciar a você a morte
de Vincent Warren
para os seus bocejos,
não de tédio e sussurros
de quem? quem?,
mas de sono em minha cama,
ainda em minha cama!
enquanto releríamos
tristes os poemas alegres
daquele Frank O'Hara,
escrito para o seu moço
pessoal, privado, intransferível,
ambos agora mortos, finados
o cantor e o cantado, mas não
a canção! nem nós! aqui vivos
numa cidade reerguida de escombros,
nessa alegria sempre temporária
dos cafés, dos açúcares, dos cigarros
e das sempre tão poucas moedas
nos bolsos de nossas calças
que escondem nossa pobreza e riqueza.
Nem por isso é menos alegria a alegria.
E então prepararíamos forte o café
e acenderíamos todos os cigarros
e açucararíamos tudo que pede açúcar
pois é nossa a goela e é nosso o bucho
e neles enfiamos o que nos apraz
em nossa ciranda de prazer e morte
e a sorte grande dos que morrem primeiro
e a sorte maior dos que morrem juntos.


                            — Berlim, 13 de novembro de 2017


§

oh god it’s wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes 
and love you so much

—Frank O’Hara (versos finais de “Steps”, poema para Vincent Warren).

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