sábado, 31 de dezembro de 2016

Cadeira-de-balanço do fim-de-ano


Foi o ano em que todos nós morremos
um pouco, claro que pouco a pouco
morríamos todos e olhávamos
                    já com cuidado
   uns para os outros,
e passamos a perguntar:
                   “será você
o próximo?
                     serei eu?”

pela manhã contávamos os vivos
pois já era mais fácil do que contar os mortos,
tirávamos do caminho
                  uns dos outros
as pedras, as cascas de bananas,
apontávamos escadas íngremes e degraus longos
e nos agasalhávamos com um pouco mais de afinco

por estas épocas foi que começamos
a nos lembrar com nostalgia
de um tempo
                     mais simples
     quando não tínhamos
jamais usado palavras como vindima
ou verbos como devir,
              não sabíamos
o que era um Dalai Lama
e ambição era poder comprar colchão mole
em vez de duro no açougue,

todas as vacas e frangos e porcos eram felizes,

           rinocerontes havíamos visto
só por fotos
                     e extintos estavam só os fogos
na mata e os dinossauros,
        mas há tanto tempo
que não os contávamos mais
para a economia doméstica.

Tivemos afinal aquelas primeiras lições
                    da fauna caseira,
as lagartixas perambulando pelas paredes
enquanto a família ouvia Cid Moreira
           relatar as desgraças da República,
e pais e mães e filhos descansavam
de vez em quando a atenção das notícias
com a caça das lagartixas
aos mosquitos e às varejeiras.

Entendia-se a cadeia
                alimentar, a família
           torcia
pelos répteis como pelo Corinthians
e quando a lagartixa abocanhava a mosca
            sentiam alívio até as panelas na mesa:
o resto da janta esfriando na cozinha
podia ser requentado
sem sobressaltos para o almoço.

Mesmo assim assistia-se à matança
            com um pouco de inveja
ressentida das moscas, tinham asas,
        escapavam mais fácil
do que nós. Não era hierarquia
                        de classes,
alguns dos insetos
                         e alguns dos mamíferos
   da casa dividiam as colheitas,
com as formigas em marcha por cantos
e quinas firmara-se um tratado de paz
desde que não surrupiassem o açúcar
e mantivessem suas patas longe do mel,
tão caros,

e se aos camundongos
              reservava-se o veneno, convivia-se
com os grilos, e os bem-te-vis bicavam os abius
e as goiabas no quintal, os cães matavam, é verdade,
muitas minhocas em suas escavações arqueológicas
       mas sempre sobrava para os primatas
suficiente para vitamina, doce e suco.

      Nos domingos de chuva, alisava-se o cão e o gato,
guiava-se o sapo
até o bueiro com a mangueira,
               com a vassoura só se alguma briga
por dinheiro tivesse perturbado a paz das paredes
da casa com suas manchas, fazendo aflorar
nossa crueldade escrita nas espirais dos genes,
aquela que levava os meninos da rua
a saírem com varas de pescar no asfalto,
agitando-as rapidíssimas para confundir os radares
dos morcegos, matando-os.

     O macho-alfa dos primatas
era amado e respeitado por todos, ainda que também temido,
           mas generoso olhava o dilúvio
minúsculo das cidades do interior, mastigava
        seu macarrão.
Jesus estava vivo, Iemanjá doava o que podia,
                   estavam vivas as avós,
o Brasil era nosso,
eram puros e infindáveis o petróleo e a água.

            Tudo seguia uma lei e uma teia
de alianças, a fauna caseira aguava
                na estiagem a flora, os cães
dependiam dos primatas, atraíam as moscas
todos os bichos peludos da casa, da mãe ao cão,
e sempre torcia-se pelas lagartixas
         em caça às moscas e em fuga dos gatos.

Tudo dava cria:
os primatas, os cães, os gatos, os morcegos, os sapos, as lagartixas e as moscas

repondo o que se perdia numa sucessão que nos iludia,
idiotas da fartura eterna como se questão de tempo apenas
para que os mortos voltassem todos na pele de filhotes nossos,

    pois morria-se e matava-se aos poucos,
éramos todos felizes, não havia
    Dalai Lama, rinocerontes ou dinossauros
nas redondezas, nos espantávamos com fenômemos
simples como aquele dia em que uma legião
de tanajuras
invadiu o céu da cidade, havia vagalumes
            no campo
e pescar tinha uma coisa de vida ou morte,
cercados que éramos por sucuris e piranhas.

Respeitava-se a cadeia, não se tentava
a pirâmide a provar que era séria e eficiente.

Mas sabemos hoje que tínhamos passado os olhos
rápidos demais sobre os desastres da República,
 que Cid Moreria selecionava os lutos
     e custava muito às moscas alimentar
nossas lagartixas, o bife no prato sofrera
   do parto da vaca ao matadouro
     que a República
tinha sido desde o começo e antes
e que morrer e matar aos poucos
era já morrer e matar demais.

Hoje, depois,
        sabemos que sobre famílias
apropriado seria escrever a carvão,
garatujas sobre a pele esticada e ressequida
das vacas e frangos e porcos
        que cederam suas carnes
para a sucessão de almoços e jantas
que nutriram esta coletânea de fotos
       tão dignas de notas-de-rodapé
quanto a sucessão de presidentes e ministros.

Mas as alegrias continuaram em verdade simples
mesmo que nossos parâmetros nunca se convençam
entre elevar-se ou rebaixar-se, e no fundo as bolsas
             que temos medo que caiam
são apenas aquelas que podem revelar
            algum segredo pessoal ou familiar
nas calçadas da avenida ou do passeio público,

           e ouvimos por fim uma mulher
tão experiente nos desastres da República
    como Elza Soares
cantar que cantaria até o fim, então erguemos
                  as vozes roucas
e prometemos o mesmo, cantar até o fim

             e as baleias responderam longe, longe,
também elas cantarão até o fim,
    e as abelhas zuniram em sua queda populacional,
                       os pés de muitos sim machucados
na avenida, cães e primatas sem casa,
     os estandartes confundindo-se com faixas
porque o samba-enredo não muda, entra ano sai ano,
é um pedido confuso,

            dá-nos Jesus e dá-nos Barrabás

com os dois debateremos que antes de Deus e César
queríamos dar ao filho, ao amigo, ao vizinho,
rezando apenas que esta balança que pende sempre para um lado
    torne-se um balanço em que nos empurraríamos
                   uns aos outros
nos ares dum parque de diversões gigante
           e que Nero não precisa incendiar Roma
pois nós mesmos já estamos com os fósforos nas mãos
e batucamos na caixinha enquanto seguimos
      cantando até o fim do mundo
com as baleias e os cães
e nossos irmãos e nossos primos entre os primatas.

§

Berlim, 28 a 31 de dezembro de 2016

.
.
.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

7 poemas publicados nos anos 90, lidos nos 90, e formativos para mim

Esta postagem é apenas uma homenagem a estes poemas, publicados nos anos 90. Eu os descobri entre meados e fim da década. Eles fizeram muito por mim. Não estou dizendo que são os melhores da década, nem estou sugerindo que sejam leitura obrigatória da FUVEST. Não os estou chamando de nada além de poemas que foram formativos para mim, de acordo com o que eu estava procurando naquele momento. Não estão incluídos, por exemplo, grandes poemas da década que eu só vim a descobrir mais tarde. Eu saúdo os poemas e seus autores aqui.

SETE POEMAS PUBLICADOS NOS ANOS 90
(que me enlouqueceram em terra de sãos)

Mula de Deus

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.

Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.

Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura)

--- Hilda Hilst, in Estar sendo. Ter sido (1996)

§

Ode a minha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?

Se já não tenho
por que dançar.

Se já não pretendo
ir a parte alguma.

Pernas?
Basta uma.

2

Desço
         que                      subo
               desço         que
                        subo
                       camas
                      imensas.

Aonde me levas
todas as noites
         pé morto
         pé morto?

Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
     a
     i
     n
     a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

         Por que me deixaste
                             pé morto
                             pé morto
          a sangrar no meio
          de tão grande sertão?

                               não
                               n ã o
                               N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.

Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
     assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
     latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
     os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda     direita
esquerda     direita
                       direita
                       direita

    Nenhuma perna
    é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.


--- José Paulo Paes, in Prosas seguidas de odes mínimas (1992).

§

Do fundo do quintal

1. Lírio e urze do meu deserto jardim
ei-la venuta al punto della rota
sem sequer entender por que a escolha feita
resultou nesse impasse
que a levou a partir, a ir-se embora,
deixando-nos à míngua, sem aquela
esperada eclosão da semente, da eclosão,
força do tigre na floresta solto,
corpo suave entre a dobras do lençol,
a cabeça encostada no meu peito,
o coração ardendo, o coração, e a luz
nos olhos sempre erguidos
na sua direção

... dela que está à espera de que alguma coisa
a surpreenda, mas se alguma coisa não for
o que esperamos, como estar a seu lado nesse instante
em que ninguém sabe ninguém
se essa espera ao menos pode ser a espera
que alguém quer alguém quis,
sem ao menos saber se algum dia

... a espera num mundo que no entanto nos permite
que se guarde a ternura colhida
em qualquer parte, mesmo aqui,
no objeto de uso mais cotidiano:
chávena chave cave cama
carta papéis antigos mapas
que orientam no escuro este vazio
escavado no meu peito
um poço um fosso
sem fundo.

Em Lisboa onde estás onde estou
o pensamento o tempo todo o calor
cada vez mais insuportável,
da janela vê-se o mar:
que paisagem esta do Rio,
dizem todos, que paisagem,
e eu com o pensamento neste quarto de hotel
onde estás à espera sem saber
e tão-só...
entre nós o oceano entre nós
o medo o medo um segredo
que aos poucos nos destrói, sou
um destroço uma coisa
jogada à areia fina, uma coisa.

De alguma forma eu talvez soubesse
e não adiantava, alta a árvore
crescia crescia e não adiantava
que soubesses que eu talvez sabia
que era inútil tentar alguma coisa;
a luz do fogo te atraía a luz do fogo
aceso na cozinha.

De algum forma todos nos queimamos algum dia;
de alguma forma mesmo sem fogo sob o frio sob a chuva
que não passa o calor é terrível
no Rio de Janeiro, quem diria,
quando morei aqui na tua idade
não era assim, agora todos sofrem,
todos dizem que calor infernal
que calor dizem todos e é tudo
muito estranho tudo...

Sou um canteiro onde floresces
e nem sabes, sou o caule
indeciso do teu intenso modo de querer,
a linha reta que jamais se alcança,
a hipotenusa de um triângulo qualquer,
o bule sobre a mesa, a música de Bach,
o pássaro pousado na videira
do fundo de um quintal ou de um jardim
onde ninguém sabe, ninguém jamais ficou sabendo,
que este canteiro existe,
que este canteiro não obstante existe.


--- Marly de Oliveira, in O mar de permeio (1997)

§

Fábrica do poema

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite da pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

         pois a questão chave é:
         sob que máscara retornará?



--- Waly Salomão, in Algavarias (1996)

§


Q'el bixo s'esgueirando assume ô tempo

Quando cheguei ao
sanatório
em Correas com 
uma horrível
maleta
cor-de-abóbora e vi
os canteiros de
crista-de-galo
e me disse parecem
de fato cristas
de galo
isso foi
num relance que
eu estava mesmo
era com medo de morrer

semanas mais
tarde na
varanda
do quarto (na
doce luz 
da manhã) debruçado
olhando os
canteiros vi um galo
no meio das
cristas-de-
galo e me disse 
o quê? um galo? não
deve ser é só
porque aquele dia
pensei que essas
plantas se parecem com
cristas mas aí
o galo andou e saiu de entre as plantas.


--- Ferreira Gullar, in Muitas vozes (1999)

§

Teia

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
               prenhe:

no
centro
a aranha espera.


--- Orides Fontela, in Teia (1996)

§

Os deslimites da palavra

Dia Um 

1.1 

Ontem choveu no futuro. 
Águas molharam meus pejos 
Meus apetrechos de dormir 
Meu vasilhame de comer. 
Vogo no alto da enchente à imagem de uma rolha. 
Minha canoa é leve como um selo. 
Estas águas não têm lado de lá. 
Daqui só enxergo a fronteira do céu. 
(Um urubu fez precisão em mim?) 
Estou anivelado com a copa das árvores . 
Pacus comem frutas de carandá nos cachos. 

1.2 

Eu hei de nome Apuleio. 
Esse cujo eu ganhei por sacramento. 
Os nomes já vêm com unha? 
Meu vulgo é Seo Adejunto - de dantes cabo-adjunto por
servimentos em quartéis. 
Não tenho proporções para apuleios. 
Meu asno não é de ouro. 
Ninguém que tenha natureza de pessoa pode esconder as suas
natências. 
Não fui fabricado de pé. 
Sou o passado obscuro destas águas?

1.3 

Eu vim pra cá sem coleira, meu amo. 
Do meu destino eu mesmo desidero. 
Não uso alumínio na cara. 
Quando cheguei neste lugar - 
Só batelão e boi de sela trafegavam. 
Aqui só dava maxixo e capivara. 
Mosquito usava pua de 3/4 . 
Falo sem desagero. 
Desculpe a delicadeza. 
Meu olho tem aguamentos. 
(Fui urinado pelas ovelhas do Senhor?) 

1.4 

Insetos cegam meu sol. 
Há um azul em abuso de beleza. 
Lagarto curimpãpã se agarrou no meu remo. 
Os bichos tremem na popa. 
Aqui até cobra eremisa, usa touca, urina na fralda. 
Na frente do perigo bugio bebe gemada. 
Periquitos conversam baixo. 
................................................................ 
Sou puxado por ventos e palavras.
(Palestrar com formigas é lindeiro da insânia?) 

1.5 

Eu sei das iluminações do ovo . 
Não tremulam por mim os estandartes. 
Não organizo rutilâncias 
Nem venho de nobrementes . 
Maior que o infinito é o incolor. 
Eu sou meu estandarte pessoal. 
Preciso do desperdício das palavras para conter-me. 
O meu vazio é cheio de inerências. 
Sou muito comum com pedras. 
.......................................... 
(O que está longe de mim é preclaro ou escuro?) 

1.6 

Tenho o ombro a convite das garças. 
............................. 
............................. 
(Tirei as tripas de uma palavra?) 
................................... 
A chuva atravessou um pato pelo meio. 
................................... 
Eu tenho faculdade pra dementes? 
................................... 
A chuva deformou a cor das horas. 
................................... 
A placidez já põe a mão nas águas.

1.7 

Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças. 
Não assento aparelhos para escuta 
E nem levanto ventos com alavanca. 
(Minha boca me derrama?) 
Desculpem-me a falta de ignorãças. 
Não uso de brasonar. 
Meu ser se abre como um lábio para moscas. 
Não tenho competências pra morrer. 
O alheamento do luar na água é maior do que o meu. 
O céu tem mais inseto do que eu? 

Segundo Dia

2.1 

Não oblitero moscas com palavras. 
Uma espécie de canto me ocasiona. 
Respeito as oralidades. 
Eu escrevo o rumor das palavras. 
Não sou sandeu de gramáticas. 
Só sei o nada aumentado . 
Eu sou culpado de mim. 
Vou nunca mais ter nascido em agosto. 
No chão de minha voz tem um outono. 
Sobre meu rosto vem dormir a noite. 

2.2 

Lugar sem comportamento é o coração. 
Ando em vias de ser compartilhado. 
Ajeito as nuvens no olho. 
A luz das horas me desproporciona. 
Sou qualquer coisa judiada de ventos. 
Meu fanal e um poente com andorinhas. 
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra. 
Repousa uma garoa sobre a noite. 
Aceito no meu fado o escurecer. 
No fim da treva uma coruja entrava. 

2.3 

Escuto a cor dos peixes. 
Essa vegetação de ventos me inclementa. 
(Propendo para estúrdio?) 
O escuro enfraquece meu olho. 
Ó solidão, opulência da alma! 
No ermo o silêncio encorpa-se. 
A noite me diminui. 
Agora biguás prediletam bagres. 
Confesso meus bestamentos. 
Tenho vanglória de niquices. 
............................. 
(Dou necedade às palavras?) 

2.4 

Um besouro se agita no sangue do poente. 
Estou irresponsável de meu rumo. 
Me parece que a hora está mais cega. 
Um fim de mar colore os horizontes . 
Cheiroso som de asas vem do sul. 
Eis varado de abril um martim-pescador! 
(Sou pessoa aprovada para nadas?) 
Quero apalpar meu ego até gozar em mim. 
Ó açucenas arregaçadas. 
Estou só e socó. 

2.5 

Ando muito completo de vazios. 
Meu órgão de morrer me predomina. 
Estou sem eternidades. 
Não posso mais saber quando amanheço ontem. 
Está rengo de mim o amanhecer. 
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha. 
Atrás do ocaso fervem os insetos. 
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino. 
Essas coisas me mudam para cisco. 
A minha independência tem algemas.

2.6 

As sujidades deram cor em mim. 
Estou deitado em compostura de águas. 
Na posição de múmia me acomodo. 
Não uso morrimentos de teatro. 
Minha luta não é por frontispícios . 
O desenho do céu me indetermina. 
O viço de um jacinto me engalana. 
O fim do dia aumenta meu desolo. 
Às vezes passo por desfolhamentos. 
Vou desmorrer de pedra como um frade

2.7 

O ocaso me ampliou para formiga. 
Aqui no ermo estrela bota ovo. 
Melhoro com meu olho o formato de um peixe. 
Uma ave me aprende para inútil. 
A luz de um vagalume se reslumbra. 
Quero apalpar o som das violetas. 
Ajeito os ombros para entardecer. 
Vou encher de intumências meu deserto. 
Sou melhor preparado para osga. 
O infinito do escuro me perena. 

Terceiro Dia 

3.1 

Passa um galho de pau movido a borboletas: 
Com elas celebro meu órgão de ver. 
Inclino a fala para uma oração . 
Tem um cheiro de malva esta manhã. 
Hão de nascer tomilhos em meus sinos. 
(Existe um tom de mim no anteceder?) 
Não tenho mecanismos para santo . 
Palavra que eu uso me inclui nela. 
Este horizonte usa um tom de paz. 
Aqui a aranha não denigre o orvalho. 

3.2 

Espremida de garças vai a tarde. 
O dia está celeste de garrinchas. 
A cor de uma esperança me garrincha. 
Engastado em meu verbo está seu ninho. 
O ninho está febril de epifanias. 
(Com a minha fala desnaturo os pássaros?). 
Um tordo atrasa o amanhecer em mim. 
Quero haver a umidez de uma fala de rã. 
Quero enxergar as coisas sem feitio. 
Minha voz inaugura os sussurros. 

3.3 

Este ermo não tem nem cachorro de noite. 
É tudo tão repleto de nadeiras. 
Só escuto as paisagens há mil anos. 
Chegam aromas de amanhã em mim. 
Só penso coisas com efeitos de antes. 
Nas minhas memórias enterradas 
Vão achar muitas conchas ressoando. . . 
Seria o areal de um mar extinto 
Este lugar onde se encostam cágados? 
Deste lado de mim parou o limo 
E de outro lado uma andorinha benta. 
Eu sou beato nesse passarinho. 

3.4 

O azul me descortina para o dia. 
Durmo na beira da cor. 
Vejo um ovo de anu atrás do outono. 
................................... 
(Eu tenho amanhecimentos precoces?) 
................................... 
Cresce destroço em minhas aparências. 
Nesse destroço finco uma açucena. 
(É um cágado que empurra estas distâncias?) 
A chuva se engalana em arco-íris. 
Não sei mais calcular a cor das horas. 
As coisas me ampliaram para menos. 

3.5 

A lua faz silêncio para os pássaros, 
- eu escuto esse escândalo! 
Um perfume vermelho me pensou. 
(Eu contamino a luz do anoitecer?) 
Esses vazios me restritam mais. 
Alguns pedaços de mim já são desterro. 
...................................... 
(É a sensatez que aumenta os absurdos?) 
De noite bebo água de merenda. 
Me mantimento de ventos. 
Descomo sem opulências. . . 
Desculpe a delicadeza. 

3.6 

Nuvens me cruzam de arribação. 
Tenho uma dor de concha extraviada. 
Uma dor de pedaços que não voltam. 
Eu sou muitas pessoas destroçadas. 
............................... 
............................... 
Diviso ao longe um ombro de barranco. 
E encolhidos na areia uns jaburus. 
Chego mais perto e estremeço de espírito. 
Enxergo a Aldeia dos Guanás. 
Imbico numa lata enferrujada. 
Um sabiá me aleluia. 

Fim.


--- Manoel de Barros, in O livro das ignorãças (1993)

.
.
.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Poema das circunstâncias todas


          "Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
            foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
            e registro – sem saber para quem – a história do cerco"
                                                        
                                                  Zbigniew Herbert


Naquela noite uma névoa pousava como lençol limpo
no céu da rua que eu cruzava em Prenzlauer Berg
no leste antigo leste de uma Berlim nova
e havia no oeste um caminhão
desgovernado num mundo governado
ou
um caminhão
governado num mundo desgovernado
restariam para sempre
desencontradas todas as notícias
na noite do meu telefonema
"você e os seus estão bem?"
e sua resposta
"você e os seus estão bem?"
uma pergunta tão corriqueira
torna-se questão de vida ou morte
e nas conversas equivalia-se
um embaixador a um arquiduque
e eu burro tão burro tentava entender
pois estava morto ou ainda morria
em Ancara um embaixador russo
estava morto ou ainda morria
em Sarajevo um arquiduque austríaco
tudo acontecia ao mesmo tempo
nalgum lugar logo ao lado
como se uma membrana fina nos separasse
e antes que o arquiduque
desse o seu último suspiro
era derrotada Aqualtune
na Batalha de Mbwila
e invadia a Alemanha a Polônia
e morria Martin Luther King
antes de Ghandi
talvez depois ou ao mesmo tempo
todas as batalhas
eram perdidas juntas
Gettysburg
Guadalcanal
Guararapes
Simone Weil morria num sanatório
(The Grosvenor House, Bockhanger, Kent)
Daniiel Kharms morria num sanatório
(Arsenal'naya st. 9, São Petersburgo)
Arthur Bispo do Rosário morria num sanatório
(Estr. Rodrigues Caldas 340, Rio de Janeiro)
e pelas montanhas sobe desce morre ainda
Walter Benjamin em Port Bou
e a maleta a maleta dos manuscritos
sumia
como somem todos os papeis cedo ou tarde
e cedo ou tarde
morrem o menino a menina em Sarajevo
morrem o menino a menina em Itaquera
morrem o menino a menina em Alepo
hoje ontem amanhã não sei
eu queria dizer contar relatar algo do sítio
de todas as cidades
despenca Jericó não despenca Stalingrado
mas há só tempo de dizer pêsames
contar os mortos
relatar o local das bombas
o mundo urge
os boletins de ocorrência e de meteorologia
empilham-se diante da porta trancada
este sítio
de todos por todos um a um
mas vinha à mente apenas aquela noite
quando pulamos a cerca da piscina pública em Berlim
éramos vários sexos etnias crendices
íamos bêbados de champagne barata e verão
e nadamos juntos juntos de mãos dadas
e ninguém se afogou


§

Berlim, 19 e 20 de dezembro do Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2016

.
.
.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Passar a cada copo pela imigração, uma alfândega



                           
                         “Vamos voltar para a água."
                                    Murilo Mendes 

          a Guilherme Gontijo Flores

A cada copo d'água
que ergo à boca
herdada de peixes,
saúdo o oceano
que deixei no período
chamado Siluriano
para colonizar a terra,
colonos nós todos,
cada um, um imigrante,
há mais de quatrocentos
milhões de anos
obrigados várias vezes
ao dia a portar e mostrar
nosso passaporte verdadeiro
aos agentes
de imigração e alfândega
da secura da terra:
este copo d'água
que ergo
à boca de peixe
herdada,
esse traço genético
de cidadania e parentesco
a antepassados
hoje fósseis
em museus de geologia,
um copo d'água várias
vezes ao dia, a cada dia
por mais de quatrocentos
milhões de anos longe
do oceano, a cada
copo d'água
a lembrança
de ser estrangeiro
sobre qualquer terra,
há quatrocentos milhões
de anos incapaz
de naturalizar-me
em qualquer país
feito só de terra,
impedido de abandonar
de vez a água,
um estrangeiro há
quatrocentos milhões
de anos, a cada copo
d'água a certeza
de ser impossível escapar
do país primeiro,
o oceano,
que saúdo outra vez,
agora,
com este copo d'água,
meu passaporte,
chegando a minha boca
herdada de um peixe.


Berlim, 10 de dezembro de 2016.



.
.
.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Carta de um Domeneck aos Tarkóvski


O poeta russo Arseni Tarkóvski ensina o diretor Andrei Tarkóvski a nadar


Por que esta foto
de um pai
ensinando um filho
a nadar
me emociona
o caroço do coração
e as carótidas?

Não fosse o pai
um poeta
que amo e leio tanto,
não fosse o filho
um diretor
de filmes que vi
a perder a conta,
teria menos
significado
a mesma foto?

Mas que raio
de significado é este,
além de um pai
ensinando um filho
a manter-se vivo

e onde e quando
tal raio significa-se,
torna-se digno
dos livros de História,
a madame retroativa?
na premência da antetroca
de cargas elétricas
entre o solo e a nuvem?
no relâmpago-em-si?
no vácuo que esfaqueia
no ar? no trovão
que assusta os cães?

E esta outra, uma foto qualquer
de humanos ainda quaisqueres,
nada mais que adolescentes
ridículos como todo apaixonado,
apenas namorados
como os milhões de outros
comuns dum entreguerras

(não é todo período
de paz
um entreguerras,
se não distração
para guerras
em algum outro lugar?)

por que esta fotografia
deveria ser História
– a madame retroativa –
por serem os jovens
vocês,

Arseni Alexandrovich Tarkóvski
e Maria Ivánova Vishniákova

como se entre vocês dois
já estivessem contidos
os embriões
menos de seus filhos
Andrei e Marina,
do que de 'O Espelho'
e de 'Stalker'
e de 'Solaris'
e de 'Nostalghia'?

Eram só moço e moça,
nada mais que namorados,
coisa reles que prediz prole
nada excepcional,
e ainda não viera a guerra,
nem tinham vindo os filhos
promissores
como qualquer outra criança,
nem as primaveras, verões, outonos e invernos
sozinhos de Maria Ivánova em Iurevets
enquanto Arseni Alexandrovich lutava
com o Exército Vermelho
contra o país onde eu agora vivo.

E teria que vir a guerra
para que Tarkóvski,
o pai,
terminasse o poema
dos primeiros encontros
com Vishniákova,
a mãe futura,
com estes versos:

"Atrás de nós o destino no encalço
feito um louco agitando a navalha",

eu me pergunto.

São sempre só retroativas
as percepções desse teor,
iluminando a treva pesada
do passado
que antes parecia iluminado?

Desde aqui,
do meu entreguerras,
amo o pai, tão lindo, e o louvo,
amo o filho, tão lindo, e o louvo,
paixonite
retroativa e confessa
por dois jovens mortos

mais a mãe, a mão
do colo e do berço

e estas fotos de uma família
toda ela agora morta
e tão corriqueira
em seus afetos
as lançam no colo da História
– a madame retroativa –
pela força incomum
de suas dádivas
e de seus dons?

Compramos com poemas
e filmes nossa memorabília,
a nossa e de nossa família,
nas lojas de lembranças
da História,
essa madame retroativa,
inimiga das notas-de-rodapé?

Eu – aqui, vivo –
obceco-me por familiares mortos
nem sequer meus, mas sem ter os seus
dons e suas dádivas,
hesito, não sei, duvido
que terei a força para descrever
e lançar no colo da madame
dos efeitos retroativos
a adoração expectante
que eu anônimo sentia
quando minha própria mãe
emergia do quarto em sua camisola
– azul-marinho, pontilhada de branco –
eu que já tentei imortalizar em vocativos
– ah, prata viva! – um lambari
primeiro, pescado ao lado do meu pai,

se nós já sabemos
aqui no futuro
dos seus presentes
que são nosso passado,
quais estampas
a navalha do destino carvou
na pele dos Tarkóvski
mas ainda está em andamento
a sua xilogravura
sobre o corpo dos Domeneck

e se na emoção
das minhas carótidas
e dos meus caroços
reconheço
apenas a esclerose precoce
mas algo lúcida
de saber-me nenhum Tarkóvski
e ciente de que sequer
hão-de sair filhos das minhas coxas?

*

Berlim, 8 de dezembro em Berlim e 7 de dezembro no Rio de Janeiro do terrível 2016 (mas não para todos). Os antecedentes de um poema importam, e onde começam? Ontem postei um artigo sobre uma família que vivera perdida na Sibéria por 40 anos. Então, Tarso de Melo recomendou que eu assistisse ao documentário 'Happy people', de Werner Herzog. Ao assistir ao documentário, surge na tela por poucos minutos um caçador siberiano chamado Anatoly Tarkovsky, que Herzog anuncia em sua voz esquisita ser parente do "famoso diretor". Ao terminar o documentário, retorno a poemas de Arseni Tarkóvski e a cenas de Andrei Tarkóvski, e vou pesquisando obsessivamente na rede até cair nesta foto. Ou meu poema capenga começa no dia em que foi feita esta foto? Por esta historieta é que dedico o poema a Tarso de Melo.

O cineasta e o poeta, jogando xadrez em Moscou em 1947, quando a guerra estava ganha, a perna
do poeta já havia sido perdida, e o amor de Arseni e Maria já havia falhado.

.
.
.

"Num domingo como outro qualquer"


após um envenenamento alcoólico
porque este século anda pródigo
como o anterior em motivos
eu entrava e saía do sono
um fim-de-semana todo
e enquanto eu dormia
um atirador matava na finlândia
uma prefeita e duas jornalistas
um ambientalista vencia as eleições na áustria
contra o medo de que ganhasse o nazista
52 pessoas morriam num bombardeio na síria
a zona do euro ameaçava ruir na itália
o levante sioux em standing rock vencia
a luta contra a dakota access pipeline
em havana enterravam fidel castro
e no rio de janeiro ferreira gullar morria
mas eu dormia enquanto tudo isso
passava-se ocorria acontecia
e estas mortes e o meu sono
são a lição de que estivesse
eu na lista dos mortos
tanto faria


--- Berlim, 4 de dezembro de 2016.

.
.
.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Dear Meteor", colaboração com Nelson Bell


"Dear Meteor" (2016),  uma peça nova que fiz com o produtor alemão Nelson Bell. Abaixo, o texto e foto da nossa apresentação ontem no palco do evento vienense/berlinense Philosophy Unbound (em Berlim).


Dear Meteor

as a child i mourned
the dinosaurs
and their sad fate
at the end of a kiss
by a meteor
and i lay awake at night
fearing the meteor
fearing the virus
fearing the bomb
fearing the robot
and i thought of my sisters
thirsty in a global desert
and i thought of my brothers
freezing in a global arctic
and trembling with fear
in my pyjamas
i counted the mass extinctions
1
2
3
4
5
6
and so sad so sorry so silly
i wanted to hug
a dolphin
a bee
an orangutang
now i no longer fear
the meteor
as i realized the meteor
is my friend
no not exactly the meteor meteor
but my friend is the meteor
and my mother is the meteor
and my sister is the meteor
and everyone i love is the meteor
everyone i love and loved and will love
especially myself as i so especially love
myself
we are all the meteor
gaia mama gaia so wise
mama gets bored every once in a while
of the contraptions it spawned
and says in a yawn
LETS SHUFFLE THE CARDS
gaia mama gaia
so wise and economical
why wait for a meteor
why risk outside intervention
to shuffle the cards
so this time
mama gaia mama
came up
with a domestic solution
a homemade meteor
homo sapiens you lovely little meteor
in 7 billion pieces
i love you meteor
i love you homo sapiens
we are here to help
MAMA GAIA
SHUFFLE THE CARDS
AGAIN
turn to your side right now
and hug the meteor next to you
and call the meteor
who gave birth to you
and tell her and him
I LOVE YOU METEOR



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"Um aperto de mão e um poema de Mohan Rana"


(com Mohan Rana na Eslovênia)


Um aperto de mão e um poema de Mohan Rana

Ao despedir-se de mim em Liubliana,
Mohan Rana
toma minha mão, diz: 'tudo se abranda'.

Nesse instante,
tudo que a língua híndi carrega em si,
Kabir, Valmiki,

Rahim e Vrind, cabem aqui em nossas
palmas unidas,
molusco protegido entre duas conchas.

Mais tarde, no aeroporto de Frankfurt
abro o seu livro
e Mohan canta só uma camisa usada,

"esta vida, possível!". Fecho os olhos
como o Gaṅgā
não se fecha, mareiam neles as dívidas,

somem brigas, e num aeroporto, lugar
tão-só trânsito,
uno palmas a poema e tudo se abranda.

§

Abaixo, posto imagens do poema de Mohan Rana a que me refiro, em tradução de Bernard O'Donoghue e Lucy Rosenstein, e no original híndi.




.
.
.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

VOCÊ, INCAUTO


Você, incauto,
não viu raiar o dia
aninhado em colchas,
embalado ao colo
gentil de Gaia,
que gira devagarzinho
para que você
não caia.

Você, incauto,
não despertou
com o barulho do moer
dos grãos
nem com o cheiro
do café
detidos pela porta
da cozinha
que fechei cuidadoso
para que você
permanecesse incauto.

Enquanto isso, os pombos
da Praça Matriz
já coloriam experimentais
a bandeira tediosa
com nossas cores
mais contumazes,
mais representativas:
o marrom da lama,
o cinza da fumaça.

Mas alguns minutos
incautos mais eu queria
dar a você
como um primeiro
presente do dia.
Poupar seu sono
das manchetes,
das polêmicas,
das piadas prontas
que nos fazem rir
nervosos e melancólicos.

E quando ambos
sentamo-nos à mesa
e bebericamos o café,
incautos éramos
sobre quais mãos
esfomeadas colheram
os grãos e de qual povo
indígena foi roubada
a terra em que brotou
o cafezal.

Incautos seguimos
que do outro lado
de nosso planeta,
no ar
extinguia-se uma espécie
de pássaro,
no mar
extinguia-se uma espécie
de cetáceo,
e na terra do cafezal
extinguia-se
uma das línguas
da terra.

Então, incautos
você e eu,
deixamos a casa
e fomos brincar
de República.


§

17 de novembro de 2016, para manter puras as palavras da tribo.

.
.
.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma resenha, duas entrevistas e um conto



Caros, nestas duas últimas semanas, saíram no Suplemento Pernambuco uma resenha de Igor Gomes da reedição do meu livro Cigarros na cama, trazendo inéditos e já disponível pela Luna Parque Edições, e uma entrevista conduzida por ele comigo.

link:

E fico muito feliz que a página da Livaria Boto Cor-de-Rosa em Salvador tenha publicado um conto inédito meu, chamado "Sem vagas", que fará parte do meu livro de contos a sair no ano que vem.

link:

Aliás, minha gratidão ao povo do Recife e de Salvador, onde tenho interlocutores tão generosos.

§

Por fim, encerro com uma entrevista em vídeo conduzida em Bruxelas durante minha residência no intituto Passa Porta - Casa Internacional de Literatura, onde passei dois meses trabalhando em meu livro de contos.



.
.
.

sábado, 5 de novembro de 2016

Dois remixes para a faixa "Little Mess" de Crooked Waves



"Little Mess" é a faixa de abertura do EP Floating, de Crooked Waves com vocais de RIN, lançado pela plataforma que dirijo em Berlim com Ellison Glenn a.k.a. Black Cracker, a Gully Havoc. Lançamos já dois remixes, um de Apogamy e outro de Oliver Si. Ouça-os abaixo. Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, com quem também colaboro no duo Bell Dome.



§



.
.
.

domingo, 30 de outubro de 2016

O filho


                                       a Ewout De Cat


Queria tanto um filho,
essa relação que dura
dezoito anos
e até compensa os gastos,
mas em casa periga
morrer de sede a samambaia.
Há também os problemas
de logística e hidráulica.
No ano passado,
comprei um cacto
mas a gente precisa de algo
que precise um pouco mais da gente.
Pedi esse ano ao Papai Noel
um periquito
que me dê o pé quando eu o peça.
Os amigos riem, dizem que passei da idade.
Com sorte, morrerei entre muitos gatos,
talvez um cão
mas estou esperando o ano
em que seja maior que a minha
a expectativa de vida
de um filhote de vira-lata.
Não gosto de separações nem de enterros.
Quando posso, evito rodoviárias.
Têm cheiro de choro.

§

--- Berlim, 30 de outubro de 2016.

.
.
.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vídeo para "Keep", do trovador austríaco Oskar May



Oskar May - "Keep" - from The Lane (Gully Havoc, 2016).
Mais informacões na postagem dedicada a seu trabalho
na Modo de Usar & Co.

.
.
.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Ewout De Cat na Praça do Velho Mercado dos Grãos" (2016)


Ewout De Cat é um jovem poeta belga de língua flamenga, 
nascido em Gante, Flandres, em 1996.

.
.
.

Quatro poemas na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo neste domingo passado




Meu pai acordava toda manhã, fervia a água para o café (com o açúcar já nela), e ia sentar-se com o copo numa mão e este jornal em outra, na sala, na área, ou no quintal se estivesse fazendo sol. Reside aí para mim a importância desta coisa aí acima. Quando secou a grana nos anos 90 e entre os primeiros cortes de despesa estava a assinatura do jornal, meu tio Douglas guardava o "Mais!" para mim aos domingos. Os mais novos não vão entender, mas morar no interior à época e querer notícias de livros era coisa complicada. Meu pai e meu tio agora já se foram  – "descansaram", diria um interiorano, ou "desceram a Campos Salles", como dizemos lá em casa, em Bebedouro, porque o cemitério municipal fica ao fim da mais longa rua da cidade, a Rua Campos Salles. Que a terra seja leve sobre eles, mais leve do que é sob nós! Mas acho que minha mãe vai ficar contente, e quem sabe até desista daquela história de querer que eu fosse o filho com "D" e "R" na frente do nome (doutor Ricardo... pode uma coisa dessas?). Pena que parte da alegria dela provavelmente vá ser estragada pelo "teor" dos poemas. "Meu filho, o que duas pessoas fazem entre quatro paredes não é da conta de ninguém... precisa ser tão aberto a respeito disso, meu filho?"

Sim, mãe. Precisa.

O medo dela é que eu acabe como Pasolini, já que tantos de nós acabam assim. Quando penso nisso, sempre me vêm à mente as palavras de Pedro na hora de morrer como seu mestre: "Eu não sou digno que..."

4 poeminhas da nova edição do Cigarros na cama (São Paulo: Luna Parque Edições, no prelo), na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo de hoje. O livro foi originalmente publicado pela Berinjela em 2011.

Como a Folha já deu online, creio que não se importam se eu postar os poemas aqui:

QUATRO POEMAS INCLUÍDOS AGORA NO LIVRO CIGARROS NA CAMA

Eu culpo minha corcunda,
me debrucei
demais sobre você,
esse foi meu primeiro
tropeço.
E ao embalo do seu colo,
notei logo tudo encavalar-se.
Fui seu contrapeso
de gangorra,
seu cavalo-de-balanço
capenga.
Eu corria as mãos
por suas ancas
fortes e moças
e sentia já nas minhas
os sintomas
do engessamento.
Você dançava
e eu me descadeirava,
eu expectorava
e o seu peito subia e descia
calmo. Escute o meu: range
feito roda de carroça.
E quando seus olhos
vagavam para fora
da janela, era
como se eu
fosse defenestrado.
Já era ele
este outro
que você buscava
longe, fora da sala
onde meu corpo
estava tão
ao seu alcance?
Em que momento
um eu
que era um
passa a ser só outro,
outro só?

§

Antídotos matinais,
o primeiro cigarro
e xícara de café,
as pernas bambeiam,
a cabeça fica leve,
é como experimentar
o seu amor de novo
por três segundos
toda manhã.

§

Só em caso de emergência

na precisão
de um transplante
eu doaria a você
um pulmão um rim
meio fígado falido
& se no presídio
sem grana de fiança
acarretaria os custos
ou roubaria um banco
em alto estilo-bonnie
desde que você
me desclydeficou
& se feito refém
do pentágono
da al-qaeda
de aliens
da yakuza
eu em resgate
com direito a
cavalo estandarte
e mil trombetas
mas não
não tenho tempo
para o cinema
não não
tenho tempo
para um café
não não tenho
tempo
como vai
tudo bem

§

Contando os dias

1884 anos atrás, num dia deste mês de outubro, Antínoo há-de afogar-se no Nilo.
1854 anos depois, num dia deste mês de outubro, O Moço há-de nascer.

:

ou

:

1884 anos atrás,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
Antínoo
há-de morrer
entre as margens
do Nilo.

1854 anos depois,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
O Moço
há-de nascer
às margens
do Reno.

:

ou

:

Antínoo morreu hoje.
Começo a contar os 677,176 dias até o nascimento d'O Moço.

:

ou

:

Estou em Paris. Hoje é 14 de julho de 1789 e fazem muito barulho fora da janela de minha cama. Suo só. Quero apenas dormir. O Moço ainda não nasceu.

:

ou

:

Depositei hoje flores às margens do Reno. Fiz uma oração por Antínoo, a um Deus que ele não adorou.

:

ou

:

Soube que um substituto meu tornou oficial a religião dos escravos. Desaprovam as lindas estátuas de Antínoo. Quereria morrer no Nilo, mas espero às margens do Reno.

:

ou

:

Antínoo é morto. O Moço ainda não nasceu. Minha mulher queixa-se de minhas lamúrias pelos cantos. Ela chama-se Sabina. Raptem-na, por favor.

:

ou

:

___ Eclodiu a Guerra!
___ Onde?! Não façam crateras onde há-de nascer O Moço!

:

ou

:

Houvesse nascido às margens do Reno quando Antínoo ainda não singrara pelo Nilo, teria eu chamado O Moço de bárbaro? Não. Sob minhas tetas de loba, substituiria Rômulo e Remo.

.
.
.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Novo lançamento da Gully Havoc: o trovador vienense Oskar May

Gully Havoc é a plataforma fundada por Ellison Glenn e por mim em berlim para lançar música e literatura. Já foram lançados um álbum do próprio Black Cracker e o EP de estreia de Crooked Waves (o produtor alemão Nelson Bell). Em literatura, organizei uma antologia de escritores internacionais vivendo em Berlim, com autores como John Holten, Cia Rinne, Shane Anderson, Annika Henderson e as brasileiras Érica Zíngano e Adelaide Ivánova, entre outros.

Oskar May 
(foto de Anna Sophie Berger)


Nosso próximo lançamento será o EP de estreia do produtor e performer austríaco Oskar May (n. 1991), intitulado The Lane (Gully Havoc, 2016). A faixa que dá título ao EP já está disponível e pode ser ouvida abaixo.




.
.
.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Poema em várias traduções e anúncio de uma antologia de poesia brasileira contemporânea na França


Esta tradução de Patrick Quillier para o francês fará parte de uma antologia de poesia contemporânea brasileira (apenas vivos) a sair na França em breve, organizada por ele, começando com os três mais velhos: Ferreira Gullar (1930), Augusto de Campos (1931) e Zuca Sardan (1933), e seguindo por vários autores de diferentes gerações até os três mais jovens da seleção: Érica Zíngano (1980), Juliana Krapp (1980) e Reuben da Rocha (1984). São 30 poetas. A antologia chama-se Retendre la corde vocale: anthologie de poésie brésilienne vivante, e será um número especial da revista Bacchanales, editada pela Maison de la Poésie Rhône-Alpes, em Grenoble.

Este poema foi também traduzido por Hilary Kaplan para o inglês e publicado na revista americana Action Yes; para o alemão por Odile Kennel e publicado em minha antologia pela editora berlinense Verlagshaus Berlin, intitulada Körper: ein Handbuch, em 2013; por Aníbal Cristobo para o espanhol, publicado em Ciclo del amante sustituible, sua tradução integral do meu quinto livro, lançada pela Kriller71 Ediciones em 2014; e por Bart Vonck para o holandês, publicado em uma antologia holandesa dos meus poemas, intitulada Het verzamelde lichaam e lançada em Amsterdã pela Uitgeverij Perdu em 2015.

O original está em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


Rêves Hollywoodiens du poète

1

que-ce-serait-bien oh ! a script
où une armée estonienne
conspirerait pour lapider
Gertrude Stein
& moi platoonique venant la secourir
au son des Rolling Stones.

2

que-ce-serait-bien oh ! science fiction
avec Winnie-the-Pooh en pleine baise
& moi dans un acte de métissagenèse
machinanimalement j’utéruserais des automates
évitant des crampes à Sisyphe
au son de Sonic Youth.

3

que-ce-serait-bien oh ! a cartoon
où une infection dûment estampillée
tsunamiquement dévasterait des amygdales
entre Poughkeepsie et Rangoon
& moi shaman développant le vaccin
au son de Björk & Maysa.

4

que-ce-serait-bien oh ! an epic porn
de Rob Lowe à Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de colliers en chaînes on all fours
& moi à l’envers dans un harem à la 8 ½
au son de « I´m a slave for U ».

5-

que-ce-serait-bien oh ! a western
once again awaiting barbarians
en invasions contre l’Occident
& moi en moine copy & paste
sauvant de l’oubli & Oz & Dante
au son de Portishead.

(Traduction de Patrick Quillier)

§

The Poet’s Hollywood Dreams

1-

I’d like a script
in which an Estonian army
conspires to stone
Gertrude Stein
& I plato(o)nic at salvation
to the sound of the Rolling Stones.

2-

I’d like science fiction
with Winnie-the-Pooh in coitus
& I in an act of humachine
mixegenation uterize automatons
struck with Sisyphean cramps
to the sound of Sonic Youth.

3-

I’d like a cartoon
in which a tsunamic infection
in franchises devastates amygdalas
from Poughkeepsie to Rangoon
& I shaman develop the vaccine
to the sound of Maysa & Björk.

4-

I’d like an epic porn
from Rob Lowe to Rock Hudson
all hunks and hulks of Hollywood
in rows in collars on all fours
& I’m mixed up in a harem to 8 ½
to the sound of “I’m a slave for U.”

5-

I’d like a western
once again waiting for the barbarians
to invade the Occident
& I a monk copy & paste
to save Oz & Dante from oblivion
to the sound of Portishead.

(Translation by Hilary Kaplan)

§

Sueños Hollywoodenses de Poeta

1-

¡quién pudiera oh! a script
en que un ejército estonio
conspirase para la lapidación
de Gertrude Stein
& yo platoonico al rescate
al son de los Rolling Stones.

2-

¡quién pudiera oh! science fiction
con Winnie-the-Pooh en cópula
& yo en un acto de miscegenación
magmánimo uterase autómatas
salvando de sus calambres a Sísifo
al son de Sonic Youth.

3-

¡quién pudiera oh! a cartoon
en que una infección en franquicias
tsunámica devastase amígdalas
entre Poughkeepsie y Rangoon
& yo shaman a medrar vacuna
al son de Björk & Googoosh.

4-

¡quién pudiera oh! an epic porn
de Rock Hudson a Rob Lowe
all hunks and Hulks of Hollywood
de collares en hileras on all fours
& yo del revés en un harén de 8 ½
al son de “I’m a slave for U”.

5-

¡quién pudiera oh! a western
once again awaiting barbarians
en invasiones contra el Occidente
& yo monje copy & paste
salvando del olvido a Oz & Dante
al son de Portishead.

(Traducción de Aníbal Cristobo)

§

Hollywood Träume des Dichters

1-

hätt ich nur, ach! ein Script
in dem Pierre Brice und sein Heer
die heimliche Steinigung
anstrebte von Gertrude Stein
& ich eilte platoonisch zur Hilfe
zum Klang der Rolling Stones.

2-

hätt ich nur, ach! Science fiction
mit Winnie Puuh bei der Paarung
& ich würde in einem Mischgeburt-Akt
maschinierlich Motoren gebärmuttern
entbände Sisyphus seiner Krämpfe
zum Klang der Sonic Youth.

3-

hätt ich nur, ach! ’nen cartoon
in dem eine Angina mit Lizenz zum Tsunami
alle Mandeln zerstörte in den Rachen
zwischen Poughkeepsie und Rangoon
& ich als Schamane erfände den Impfstoff
zum Klang von Maysa & Björk.

4-

hätt ich nur, ach! ’nen epic porn
von Rock Hudson bis Rob Lowe
all Hunks and Hulks of Hollywood
mit Halsband in ’ner Reihe on all fours
& ich um 8 ½ verkehrtrum im Harem
zum Klang von “I´m a slave for U”.

5-

hätt ich nur, ach! einen Western
once again awaiting barbarians
auf ihrem Feldzug gegen den Okzident
& ich copy & paste-Mönch rettete
Ochs & Ente vor dem Vergessen
zum Klang von Portishead.

(Übersetzung von Odile Kennel)

§

Hollywoodiaanse Dichtersdromen 

1.

had ik maar oh! a script
waarin een Ests leger
samenspande om Gertrude
Stein te stenigen
& ik platoonisch te hulp
op de klank van de Rolling Stones.

2.

had ik maar oh! science fiction
parend met Winnie-the-Pooh
& ik in een daad van raskruising
zou machinemoedig automaten baarmoederen
Sisyphus zijn spierkrampen besparen
op de klank van Sonic Youth.

3.

had ik maar oh! a cartoon
waarin een vrijgestelde en tsunamische
infectie keelamandelen zou verwoesten
tussen Poughkeepsie en Rangoon
& ik shaman die het vaccin ontwikkelde
op de klanken van Björk & Maysa.

4.

had ik maar oh! an epic porn
van Rob Lowe tot Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
met halsband in gelid on all fours
& ik averechts in een harem om 8½
op de klank van ‘I’m a slave for U’.

5.

had ik maar oh! a western
once again awaiting barbarians
in invasies tegen het Westen
& ik copy & paste-monnik die
Oz & Dante van vergetelheid redde
op de klank van Portishead.

(Vertaling van Bart Vonck)

§

Sonhos Hollywoodianos de Poeta

1-

quem-me-dera oh! a script
em que um exército estônio
conspirasse pelo apedrejar
de Gertrude Stein
& eu platoonico ao resgate
ao som de Rolling Stones.

2-

quem-me-dera oh! science fiction
com Winnie-the-Pooh em cópula
& eu num ato de miscigênese
maquinânimo uterasse autômatos
poupando de suas cãibras a Sísifo
ao som de Sonic Youth.

3-

quem-me-dera oh! a cartoon
em que uma infecção em franquias
tsunâmica devastasse amígdalas
entre Poughkeepsie e Rangoon
& eu shaman a medrar a vacina
ao som de Björk & Maysa.

4-

quem-me-dera oh! an epic porn
de Rob Lowe a Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de coleiras em fileiras on all fours
& eu às avessas num harém à 8 ½
ao som de “I´m a slave for U”.

5-

quem-me-dera oh! a western
once again awaiting barbarians
em invasões contra o Ocidente
& eu monge copy & paste
a salvar do olvido a Oz & Dante
ao som de Portishead.


Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


.
.
.

Arquivo do blog