segunda-feira, 24 de abril de 2017

No dia da maioridade de Ewout De Cat




Hoje, menino, você
chega à vigésima
-primeira primavera,
mas, nascido
nessa estação
aqui
no hemisfério norte,
devo acrescentar outra
à contagem? Conta-se
a estação
da qual se parte?

E é sorte isso,
chegar na primavera
como os animais
que cronometram
a sua alegria?

Nós humanos
não
aguardamos flor
no sol ou sol
na flor, muito
menos alegria,
para foder-nos
uns aos outros

e eu mesmo
cheguei ao mundo
em pleno inverno
do hemisfério sul
mas duas décadas
antes de você
e nem sequer
podia mais ser contado
entre virgens e inocentes
quando você deu
seu primeiro grito.

Em qualquer cultura
e jurisprudência,
você é agora,
como dizemos,
de maior.
Dono dos tropeços
no sono dos passos.
Muda agora
até em mim
o vocabulário,
e o menino que abre
este poema
melhor seria
moço ou rapaz.

Naquela epístola
disse o apóstolo:
Quando eu era menino, 
pensava como menino, 
sentia e falava como menino. 
Quando cheguei a homem,
deixei para trás as coisas
de menino.

Mas isso é o quê,
homem? O que
é isso,
coisa de homem,
nós que matamos
a quem fuja
às regras das coisas
de homem,
quando homem?

Estratão de Sardis
tardio,
se escrevo agora
sobre seus pés e mãos
são os pés e mãos
agora de homem
e já não se pode arquivar
as minhas erocisões
nas estantes
da Musa Puerilis.

Vou ser só mais
um cavo-cavafy,
um pseudo-pasolini,
um parvo-piva.

Mas daqui do fundo
dos meus quarenta
invernos, veja
como aprendi truques
para cantar você:

Posso tomar esta data,
24 de abril,
e dizer que você
nascido
é mais influente
em minha vidinha
do que a ascensão
de Tutmósis III
ao faraonato
da XVIII
dinastia egípcia
no Império Novo

estável é a manifestação de Ré

e o sol que brilhou
sobre Tutmósis III
agora brilha sobre você,
Ewout, para mim
o primeiro,
e faraó nenhum.

E houve a queda de Troia
e o casamento de Mary Stuart
e o início de uma guerra
e o começo de um genocídio
e um levante de Páscoa
e um tratado em Berlim
e o Canal de Suez reaberto
e a morte de Vladimir Komarov
retornando da órbita do planeta
e o lançamento do telescópio
Hubble para a mesma órbita,

tudo isso nessa data,
e tudo isso o planeta
e seus antepassados
precisaram sobreviver
para dar a você a chance
de nascer numa primavera,
como eu no hemisfério
oposto
precisei da sobrevivência
de outros
antes do seu primeiro grito
quando eu,
com duas décadas
de invernos e primaveras
já havia perdido
as contas dos meus
mas agora podemos
ao menos
esgoelar juntos.

§

Holanda, 24 de abril de 2017, 21° aniversário de nascimento de Ewout De Cat.




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Reflexões sobre a bichice da bichice

O que une o bicho e a bicha, seria possível dizer, é, na visão humana, a concessão da bicha à bichice, ou seja, à animalidade, e, portanto, ao animalesco, enquanto por séculos invisibilizou-se a bichice nos bichos para não naturalizar o que a visão humana via como não-natural nas bichas. Assim o é para a ala humana que se fez porta-voz do divino. Pois ao humano o bicho é sempre natural, o bicho é, em si, a natureza. Aceitar a possibilidade da bichice nos bichos seria, desta feita, naturalizar a bicha ou humanizar o bicho, e ambas ações seriam uma afronta ao divino que é, por si, nem humano nem bicho - segundo certa visão humana. Da visão do divino ou da visão do bicho o que sabemos, por ora, foi o que disse o humano. O pavor humano à bichice talvez resida portanto na bichice-em-si e na bichice em si, das quais o humano quer separar-se por crer-se ou querer-se mais próximo do divino. Isto, é claro, segundo o humano que não se quer bicho, e tal humano diz em nome do divino que não convém deitar-se com bichos ou com bichas, nem fazer coisa alguma como bicho ou como bicha. Proíbe-se na bicha sua bichice e proíbe-se ao bicho a sua bichice. A bicha não é vista como humana por ser um desvio do divino, e, portanto, a bicha é diabólica por agir como bicho, enquanto ao bicho não se pode permitir a bichice porque o bicho é natural. E o natural é divino. Assim tal bichice natural perturbaria a hierarquia entre o divino, o humano e o bicho, que precisam ser mantidos em jaulas separadas para a manutenção das normas: e uma das normas é que não te deites nem com bichos nem com bichas, para que não te tornes nem bicha-bicho nem bicho-bicha. A bicha-bicho e o bicho-bicha são, dessarte, afrontas à pureza do humano-humano e do divino-divino. Porque todas as criações são divinas: os bichos e os humanos, mas não as bichas, porque as bichas são humanos que agem como bichos. Nestas jaulas separadas quer-se proteger o divino nos bichos e nos humanos, mas com elas nega-se afinal no bicho o bicho e o humano e o divino, e nega-se no humano o humano e o divino e o bicho, e, por fim, nega-se no divino o divino e o bicho e o humano.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Alexandre Eulálio- "Murilo Mendes: A Poesia em Pânico" (1977)


Alexandre Eulálio - Murilo Mendes: A Poesia em Pânico (1977)


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