terça-feira, 25 de abril de 2017

O cordeiro de breus

Não estivesse enfiado até o pescoço em leitura sobre a prática da Zoopoética, teria ouvido este cordeiro balindo hoje à noite?

"Ovelha e cordeiro" (1560), de Jacopo Bassano (1510-1592)

no campo bale
um cordeiro

não só
um espééécime
de Ovis aries

mas um cordeiro

um cordeiro único
um cordeiro individual
balindo sozinho
seu balido individual
seu balido único

voz reconhecível
por pai e mãe

ele o filhote
com data de nascer e morrer
de um carneiro de uma ovelha
com data de nascer e morrer

um eu-espééécie
uma espééécie de eu

um indivíduo
que bale
um corpo
que bale

é uma língua
mais
que estrangeira
ééé-me
uma língua
alienígena

é um beeerro
ou pareeece-me

um beeerro

aos meus ouvidos
à minha língua
eu
um espééécime
de Homo sapiens
um eu-espééécie
tambééém eu

e eu
queeero ouvir
e socorrer
este outro eu

separados
e unidos

nós
nos
nós

dos geeenes
com
-partilhados

ouço o cordeiro
o cordeiro único
o cordeiro individual

não o Cristo
que insiste
eeem identificar-se
com este cordeiro
eeem minha cabeça

mas este cordeiro
balindo sozinho
no campo

que beeerra
do frio
que se abate
sobre suaminha
sobre minhasua
peeele

queeem-deeera eu
pudeeesse agora
aninhar os meus pelos
contra os seus cabelos

e

beeerro eu seu beeerro
enquanto ele diz-me
beeeeeem peeeeerto!
beeeeeem peeeeerto!

§

Starnmeer, fazenda da residência artística Buitenwerkplaats, enquanto no pasto da fazenda vizinha (separado de onde estou por um canal) um cordeiro bale alto há cerca de uma hora.

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

No dia da maioridade de Ewout De Cat




Hoje, menino, você
chega à vigésima
-primeira primavera,
mas, nascido
nessa estação
aqui
no hemisfério norte,
devo acrescentar outra
à contagem? Conta-se
a estação
da qual se parte?

E é sorte isso,
chegar na primavera
como os animais
que cronometram
a sua alegria?

Nós humanos
não
aguardamos flor
no sol ou sol
na flor, muito
menos alegria,
para foder-nos
uns aos outros

e eu mesmo
cheguei ao mundo
em pleno inverno
do hemisfério sul
mas duas décadas
antes de você
e nem sequer
podia mais ser contado
entre virgens e inocentes
quando você deu
seu primeiro grito.

Em qualquer cultura
e jurisprudência,
você é agora,
como dizemos,
de maior.
Dono dos tropeços
no sono dos passos.
Muda agora
até em mim
o vocabulário,
e o menino que abre
este poema
melhor seria
moço ou rapaz.

Naquela epístola
disse o apóstolo:
Quando eu era menino, 
pensava como menino, 
sentia e falava como menino. 
Quando cheguei a homem,
deixei para trás as coisas
de menino.

Mas isso é o quê,
homem? O que
é isso,
coisa de homem,
nós que matamos
a quem fuja
às regras das coisas
de homem,
quando homem?

Estratão de Sardis
tardio,
se escrevo agora
sobre seus pés e mãos
são os pés e mãos
agora de homem
e já não se pode arquivar
as minhas erocisões
nas estantes
da Musa Puerilis.

Vou ser só mais
um cavo-cavafy,
um pseudo-pasolini,
um parvo-piva.

Mas daqui do fundo
dos meus quarenta
invernos, veja
como aprendi truques
para cantar você:

Posso tomar esta data,
24 de abril,
e dizer que você
nascido
é mais influente
em minha vidinha
do que a ascensão
de Tutmósis III
ao faraonato
da XVIII
dinastia egípcia
no Império Novo

estável é a manifestação de Ré

e o sol que brilhou
sobre Tutmósis III
agora brilha sobre você,
Ewout, para mim
o primeiro,
e faraó nenhum.

E houve a queda de Troia
e o casamento de Mary Stuart
e o início de uma guerra
e o começo de um genocídio
e um levante de Páscoa
e um tratado em Berlim
e o Canal de Suez reaberto
e a morte de Vladimir Komarov
retornando da órbita do planeta
e o lançamento do telescópio
Hubble para a mesma órbita,

tudo isso nessa data,
e tudo isso o planeta
e seus antepassados
precisaram sobreviver
para dar a você a chance
de nascer numa primavera,
como eu num inverno
do hemisfério
oposto
precisei da sobrevivência
de outros
antes do seu primeiro grito
quando eu,
com duas décadas
de invernos e primaveras
já havia perdido
as contas dos meus
mas agora podemos
ao menos
esgoelar juntos.

§

Holanda, 24 de abril de 2017, 21° aniversário de nascimento de Ewout De Cat.




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Reflexões sobre a bichice da bichice

O que une o bicho e a bicha, seria possível dizer, é, na visão humana, a concessão da bicha à bichice, ou seja, à animalidade, e, portanto, ao animalesco, enquanto por séculos invisibilizou-se a bichice nos bichos para não naturalizar o que a visão humana via como não-natural nas bichas. Assim o é para a ala humana que se fez porta-voz do divino. Pois ao humano o bicho é sempre natural, o bicho é, em si, a natureza. Aceitar a possibilidade da bichice nos bichos seria, desta feita, naturalizar a bicha ou humanizar o bicho, e ambas ações seriam uma afronta ao divino que é, por si, nem humano nem bicho - segundo certa visão humana. Da visão do divino ou da visão do bicho o que sabemos, por ora, foi o que disse o humano. O pavor humano à bichice talvez resida portanto na bichice-em-si e na bichice em si, das quais o humano quer separar-se por crer-se ou querer-se mais próximo do divino. Isto, é claro, segundo o humano que não se quer bicho, e tal humano diz em nome do divino que não convém deitar-se com bichos ou com bichas, nem fazer coisa alguma como bicho ou como bicha. Proíbe-se na bicha sua bichice e proíbe-se ao bicho a sua bichice. A bicha não é vista como humana por ser um desvio do divino, e, portanto, a bicha é diabólica por agir como bicho, enquanto ao bicho não se pode permitir a bichice porque o bicho é natural. E o natural é divino. Assim tal bichice natural perturbaria a hierarquia entre o divino, o humano e o bicho, que precisam ser mantidos em jaulas separadas para a manutenção das normas: e uma das normas é que não te deites nem com bichos nem com bichas, para que não te tornes nem bicha-bicho nem bicho-bicha. A bicha-bicho e o bicho-bicha são, dessarte, afrontas à pureza do humano-humano e do divino-divino. Porque todas as criações são divinas: os bichos e os humanos, mas não as bichas, porque as bichas são humanos que agem como bichos. Nestas jaulas separadas quer-se proteger o divino nos bichos e nos humanos, mas com elas nega-se afinal no bicho o bicho e o humano e o divino, e nega-se no humano o humano e o divino e o bicho, e, por fim, nega-se no divino o divino e o bicho e o humano.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Alexandre Eulálio- "Murilo Mendes: A Poesia em Pânico" (1977)


Alexandre Eulálio - Murilo Mendes: A Poesia em Pânico (1977)


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