segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Morticínio ancestral

"Morticínio ancestral" é um poema inédito que incluí numa seleção a ser publicada em Portugal, sob o título Canção da benzedura e outros poemas, pela Livraria Poesia Incompleta, do querido Changuito. Nesse volume, incluí poemas que venho chamando de localistas, centrados na cultura interiorana da minha infância.



Morticínio ancestral


                   a Rosária Cardoso in memoriam


Quando minha avó torcia o pescoço 

dos frangos, não raras vezes

chegando a decapitá-los, 

e os lançava ao chão frio de cimento 

para aquela dança assustadora, 

não havia em seu rosto 

paixão, prazer, ou pena.


Na escuridão escondida dentro do meio-dia,

aqueles morticínios eram os atos 

mais honestos na violência 

daquela casa e daquela infância.


Afogando na água fervente

os cadáveres sem cabeça 

[que ficara de banda no quintal 

interrogando seu Criador],

ela passava a depená-los, ágil,

qual fosse ela um gavião-pedrês.


Como o cafuné do crânio da onça 

no crânio da capivara, 

ou o abraço anelar das garras do carcará 

ao redor do corpo todo-torso da cobra, 

nada naquela velha

era cogitado 

para além da missão simples:


alimentar a prole.


Como todo animal que não questiona

a cadeia alimentar diante da fome,

minha avó foi o bicho mais inocente 

da minha casa e da minha selva.


Mais do que os gatos e pombos,

mais do que os jabutis e coelhos,


com certeza 


era mais inocente minha avó 

do que as cachorras da casa, 

aquelas cachorras grandes e gordas

com os dentes afiados — mas inúteis,


esperando também daquela mamífera-anciã 

que manchasse ela as mãos de sangue.



.

.

.






Arquivo do blog