Rocirda Demencock

terça-feira, 4 de setembro de 2018

De um museu em chamas e um sermão ouvido na infância

Eis o país. Salve! Salve!

Uma tragédia de tristeza acachapante. O museu havia completado 200 anos há poucos meses. Parabéns, ministros da Cultura e da Educação de Michel Temer, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, e ignóbil etc. Sugiro recolhermos as cinzas para uma exposição na Arena das Dunas ou no Estádio Nacional de Brasília, rebatizando qualquer um destes elefantes brancos de ‘Novo Museu Nacional’.



Entre as 20 milhões de peças que muito provavelmente perdemos com o incêndio do Museu Nacional, no antigo Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, estava o crânio de Luzia, a mais antiga ossada humana encontrada no território. É uma destruição da história dessa terra que alcança uma dezena de milênios. No último ano, em várias performances relacionadas ao Brasil feitas na Europa, eu as iniciava dedicando-as a Luzia. Tenho toda uma série de poemas dedicados a ela, que já era só osso e agora virou cinzas. Virou algo brasil. Este poema meu é de 2015:

luzia do brasil
algo, um resto,
uma sobra,
luzia da terra,
luzia enterrada
essa migalha,
se do passado
ou futuro
não
se sabe,
mas segue-se
dando nomes
luminosos
a façanhas
e ossadas
dessa terra,
a brasa
na lama,
a luz
no fundo
da terra,
cava-se
até não
sobrar,
arranca-se
até não
restar,
e eis
que aqui
jaz
luzia, osso
ou caroço,
resíduo
ou semente,
não
se sabe,
será cálcio
ou caule
num sulco
ou túmulo,
mas ainda
luzia, luzia,
a primeira,
a primeira
que restou,
a última
que sobrou,
seus restos
os primeiros,
os últimos
do solo
que se faz
território
a que um dia
dariam outro
nome luzidio,
brasil, e luzia
que certo
não
sonharia
essa noção
de trapos
e bagaço
e lama
e detritos
e pó
que se
chamou
colônia,
império,
república,
estado
-nação,
não,
luzia
não
sonhou
brasil
nenhum,
quiçá
brasil
seja tão
o pesadelo
repetindo-se
no vão
do tempo
dentro
do crânio
de luzia

And then “these fragments” we had “shored against our ruins” went up in flames.

O luto pelo Museu Nacional ocorreu em frente à Biblioteca Nacional, que certamente está na mesma situação periclitante em que se encontrava o Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista.

O Museu do Ipiranga em São Paulo está fechado desde 2013. No Norte, colegas alertam para a situação de descaso com o Museu Emílio Goeldi. Em visita a Juiz de Fora há um par de semanas, ouvi coisas escabrosas sobre o Museu Mariano Procópio.

Enquanto isso, deve estar luzidia ao sol a Arena do Pantanal, assim como outros mamutes (feito a Usina de Belo Monte). Já os restos de Luzia viraram cinzas brasis.

Se os senhores ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, e ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, não estão agora mesmo preparando suas cartas de renúncia, espera-se que estejam mexendo seus pauzinhos para a liberação de verbas maciças para os museus do país.

Mas, em ano eleitoral, alguém ouviu alguma pergunta sobre Cultura nos debates dos “presidenciáveis”?


Curt Nimuendajú nos jardins do Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1913.

Entre os pequenos alívios em meio à catástrofe está saber que o acervo de Curt Nimuendajú havia sido digitalizado recentemente. Alguns fragmentos vão sendo encontrados para escorar as ruínas das nossas ruínas.


'A tentação' - Hugo van der Goes, 1470


Eu me lembro de um sermão ouvido quando criança. O pregador relatava sobre a Queda, e como, ao apresentar-se Deus no Jardim, Adão jogara a culpa toda em Eva que por sua vez culparia a Serpente.

Foi o que me veio à mente observando ontem os discursos dos que seriam responsáveis pela maior coleção de arte e conhecimento da América Latina, repositório ainda de muita joia imaterial, como línguas indígenas já mortas.

O senhor ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão - certamente ao ver que muitos pediam sua cabeça - foi para as redes sociais declarar que o Museu Nacional estava sob os auspícios da Universidade Federal do Rio de Janeiro e portanto sob os auspícios do Ministério da Educação. Foi também o que disse o senhor ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, acrescentando: 'Agora que aconteceu tem muita viúva chorando'. A leviandade é embasbacante. Do senhor ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, não li sequer um pio até agora. Tampouco do próprio senhor ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva.

Quem é o responsável, afinal? Um par de amigos estrangeiros me perguntou: mas ainda não rolou uma cabeça sequer?

Enquanto isso, o senhor presidente da República, Michel Temer - também conhecido como o Vampiro do Jaburu - lamenta o ocorrido.

Neste país, permite-se que rios morram (refiro-me tanto ao Rio Doce como ao Xingu), e museus queimem. Estamos passando por uma crise verdadeiramente política, não no sentido que tal palavra assumiu no país, onde se confunde o “político” com o “partidário”. É uma crise da pólis,

da co-vivência.

O rio Doce. O Xingu.
O Rio de Janeiro.
O rio Museu Nacional.
O RIO de DENTRO

como João Cabral de Melo Neto escreveu sobre aquele rito de Murilo Mendes: “nos rios, / cortejava o Rio, / o que, sem lembrar, / temos dentro.”

Talvez porque nossos avós e pais e nós mesmos aceitamos por tempo demais essa ‘guerra de exaustão civil’ que é esta República. Essa rês pública na qual todos queremos mamar. Vamos precisar de um fôlego de maratonista, porque só os ingênuos acreditam que a eleição presidencial deste ano nos tirará deste buraco.

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(Texto recolhido de várias publicações nas redes sociais)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

No sítio da terra pequena


                          a Leonardo Fróes

Jamais pensei um dia entre capivaras
e coatis descobrir a costela-de-adão,
ereta às vésperas do enfolhamento.
Que monstra deliciosa! Fazia sombra
alta o amansa-senhor, suas flores
vermelhas e seu chá antigo, sonífero
que espera os buchos dos condes
e barões do Rio de Janeiro de hoje.
Como se para mim, o manacá florescia
às bordas do caminho, para mim!
eu que os conhecia apenas da pintura
de Tarsila do Amaral. E quanto
cresceu o guapuruvu, pau-de-tamanco,
desde minha chegada a este sítio?
Ao redor aninhavam-se outros bichos
nas rochas da Serra dos Órgãos.
A cerração baixa deixava o ar ruço.
Não longe, calva como outras pedras
enormes dessa terra, erguia-se
a Maria Comprida em gnaisse-granito,
que outro poeta escalou para ser-lhe
permitido escrever sobre todos
os animais de montanha:
“agora tem de aprender a descer.”
Eu, que perco o fôlego nas escadarias
dos prédios de novos condes e barões
com seus elevadores sociais
e de serviço, cosmopolitinha-caipirão,
perguntava que pássaros
eram aqueles que lembravam faisões.
Jacus! Jacus. Ali estava eu, menos
Adão com o poder de nomear
do que tataraneto mestiço de colonos
e nativos entremeados na morte
das línguas, perguntando cabisbaixo:
será tarde, ao zunir dos mosquitos
da febre-amarela, para fugir pela mata,
irmão de lobos-guarás e vira-latas,
das cinzas e brasas dos paus-brasis?

*

Petrópolis — Rio de Janeiro, 24 a 29 de agosto de 2018.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Pedra da Maria Comprida e um poema de Leonardo Fróes


Tive o prazer de rever o poeta Leonardo Fróes neste último fim-de-semana, desta vez em Petrópolis, e então seguir com ele e sua esposa, a fotógrafa Regina D'Olne, para o já lendário sítio do poeta nos arredores de Secretário, onde passei com eles alguns dias. Esta postagem é uma das memórias desta viagem.



A Pedra da Maria Comprida é um grande monolito de gnaisse-granito (como o Pão de Açúcar e outras das nossas pedras calvas), com 1.926 metros de altura, situada no território do município de Araras, no estado do Rio de Janeiro. 

A foto acima, que não faz jus à pedra e seu nome, foi feita ao longe por mim enquanto o poeta me dizia que foi escalando esta montanha que lhe surgiu talvez seu mais famoso poema.

Introdução à arte das montanhas

Um animal passeia nas montanhas.
Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede,
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima, o animal é um ímã,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu os seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.


— Leonardo Fróes, in Argumentos Invisíveis (1995).

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sábado, 30 de junho de 2018

Minha amiga, a gravidade


Os amigos reclamam que a chuva
repentina estragou seus planos.
Cancela-se a festa. Posterga-se
o piquenique. Adia-se o casamento.
Todos, em uníssono, imprecam
contra os céus. Que bom vê-los,
ouvi-los finalmente em concórdia!
Já não eu. Aceito a chuva indiferente
às festas se condensou-se a água.
Seja terra e água e ar o planeta
onde lhe cabe ou apraz
ser terra, água, ar. Corro do fogo
sem o culpar. Anoto sem litígios
o início das estações no calendário.
Não me coube aprovar de antemão
os elementos, suas relações. Chove?
Que chova. Nada quis a água, ela
desejou nada. Que inveja,
que inveja hoje da chuva. Nada
sequer lhe apraz. Fez o que faz
à temperatura dada, que de outras
relações dependeu, tumultuosas
tão-só para nossos termômetros,
nossos anemômetros e barômetros.
Que bom só olhar essas relações.
Não as medir, nem as tabelar.
A calma da água arremessada
pelo vento contra a terra
que a aceita – tanto quanto esta água
aceita que nela se infiltre. Essa teia
sem aranhas e sem horizontes.
Condensa-se, evapora-se. São sim
separações, mas também uniões alhures.
O ar que em ventos destrói apenas
pela pressa de chegar a outro lugar
que dele necessita. Essa balança
de pressões. Fazer o que se é. Ser
o que se faz. Invejo isso. E enquanto
isso, é meu o cansaço. A fome e a sede.
Minha carne esfomeada, que alimentaria
ela mesma por dias uma alcateia. Rel-
aciono-me, então. Piso o chão e ele
me segura, sei que há-de me abraçar
a água se a pisar. Aceito não
ter contrato com o ar para que sustente
minha massa se já infla
meus pulmões. Foi o meu povo
que se adaptou a terra, água e ar.
Não há como mudar agora os termos.
Esperar deles que se ajustem
a minhas vontades e desejos.
Mas tenta-se. Conter o que apenas é.
Termômetro e aquecedor. Veja
como estão fechadas à chuva
agora as minhas janelas.
E eu quisera querer apenas
esse fazer-ser como a água:
juntar-me aos meus se faz frio,
distanciar-me se faz calor.
Imprecar contra o que se precipita?
Não me foi dada esta língua
para imprecar. Nem mais faz
sentido louvar. Só separar-me dos meus
para ascender. Cair de novo à terra
quando sobrepuja-me inocente
esse peso, que é minha rel-
ação a todo o resto que me foi dado.

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sexta-feira, 1 de junho de 2018

O planeta do mundo


De longe é todo azul, de muito perto
terá outra cor, mas não a esmo. Reações
de átomos, essas coisas pequenas. É a certa
meia-distância (mas entre o que e o quê?)
que as cores multiplicam-se. O palco
que está dentro do teatro sem o ser.
Quem me dera ver o mundo a partir
da Lua e ver o planeta de dentro
da estação de metrô da Consolação.
Na Muralha da China ver a Estação
Espacial Internacional e desta ver a Muralha
da China. Já não sei distinguir entre as árvores
que morreram para doar a madeira
ao palco dos atores e às cadeiras da plateia.
Todos corpos, as árvores dos assentos
e as do tablado, das vigas que suportam o teto
sobre a gente da performance
e do público. Esses corpos a esmo.
Que escolhem onde sentar-se
para melhor ver o espetáculo
ou para estar ao lado de um corpo
que foi eleito a melhor festa
da cidade. Colisões. Coalizões. Que não
seja uma guerra. Interagir sem interferir.
A equidistância ideal e por ideal jamais
com sua própria estação ferroviária.
Sinto falta é dos lanterninhas dos cinemas.
Do sinal de ternura dos cães-guia.
De ler uma história para que durma
o ainda-não-alfabetizado. Avante, infante!
Façamos dinheiro então para hospitais
e rodas-gigantes se há o necessário
e há o imprescindível, ninguém
quer escolher entre o pão e o circo.
Nada é causa e tudo é consequência,
e acontece o que acontece quando acontece:
o pôr-do-sol na Praça do Pôr-Do-Sol
e os cânceres no Instituto do Câncer.
Até as células enlouquecem sozinhas,
decidem desviar-se de seu manual de instruções.
Por que não eu que as chamo de minhas?
Não foi a erros de cópia que devemos
esses pássaros de cores loucas,
esses mamíferos d'água como se peixes,
esses primatas pelados que amamos na cama
a cada cama, acarinhando seus pelos
restantes e finos? Somos tão peludos
quanto chimpanzés e bonobos,
essa primaiada toda, querido, são
apenas menores e mais frágeis as fibras
dessa roupa nossa nascida e dada
à qual acrescentamos o necessário, o imprescindível.
O mundo no planeta e o planeta fora do mundo,
mas não acaba a peça se queima até o chão o teatro?
Não se ilumina por diligência as saídas de emergência?
Quantas mortes não ocorrem em cena.
Todas. Nenhuma. Esse mundo, que mundo,
que planeta ocorrível e aconteçoso,
esse vulcão que não se extingue até que se extinga,
esse mar que martela a praia constante,
mais abaixo, mais acima, como quem apalpa
o que dói, para dizer: ‘Aqui dói. Dói aqui.’
Dizer ah! e oh!, como uma criança
dizer a alguém que é protetor e progenitor:
'óia eu! óia eu!', essas vogais da descoberta
de si e do outro, a alegria
de que alguns de nós já nasçam
sem os dentes do ciso, sem marfim
já nasçam elefantes. Tudo é causa
e nada é consequência, e pede-se apenas
que se assista ao circo e que se assista o pão.
Que se ilumine o corredor
para os que chegam agora ao filme
que é trailer do trailer do curta-metragem
sobre um pôr-do-sol e um câncer.
Agasalhe-se, é por vezes inclemente o clima.
Acordou, querido? Acorde, querido.
Está com sede o cão-guia.


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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Epístola dos dragões aos sãos


"São Jorge e o Dragão", Hans von Kulmbach (circa 1510).


Enviaram-nos,
os narradores e publicitários,
the spin doctors das doutrinas,
em expedição a uma guerra santa -
diziam pelos alto-falantes:
que se mate o dragão
ou se mate o soldado,
são generosas com seus Sãos
as milícias inanes da sanidade,
e nós, mamífero e réptil,
já não sabemos ao certo
o quem e o que,
desde então há só esse balé,
esse tango, esse quebra-nozes
de quebrados nós, essa paixão
de fogo e lança, queimaduras
de terceiro grau e penetração,
esse amor-ódio
entre mim e o dragão,
o medo mútuo e o terror recíproco
de vencer a batalha
e derrotar quem nos dá razão
de viver, e dessarte tornarmo-nos
supérfluos, sós ao sol,
virar efígie! balela de baleia branca,
romance de unicórnios
e pinóquios, moeda de troca,
não! não ser história
para boi e vaca e bezerro
dormirem se não dormimos
nós mesmos
há tanto tempo de martírio,
enrodilhados um no outro
já não sabemos
quem é quem,
São Dragão e Jorge!
quem, quem
ao contemplar nossa iconografia
poderá veramente dizer
se nos digladiamos
ou fazemos amor,
quando a esta baixeza
da civilização
risível desses que exigem de nós
que cumpramos nossos papeis na trama,
ninguém mais vê a diferença
entre as comédias românticas e os filmes de terror,
o amoroso garfo e o amoroso lança-chamas
aqui e acolá seguimos, abraçados
por metros de tela e litros de óleo
nessa batalha para edificação
da canalha, nessa cama sublunar
sofrendo a cada século
mais incisiva nossa crise de identidade
tão particular, meu nome, nosso nome,
que nome,
São Drão,
São Drorge,
São Jorgão,
mamífero e réptil,
homem e lagarto
sãos.

§

Berlim, abril de 2018.

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domingo, 18 de março de 2018

Psicopatologia de vera cruz


Doentes.
Nós, todos

doentes. Há tanto
doentes

todos. Nós,
forcas.

Pungidos, conquanto
impunes.

Não,
não impunes.
Não

se constrói impune
a casa

sobre covas.
Não se ergue

o prédio
em grão-cemitério.

Não
sem

velados e lavados

carinhosos
e doridos

os ossos
e os dentes.

Não ungidos.
Untados.

Não impunes.
Doentes

de cada gota
derramada.

Por nós
ou avós.

Os parentes
doentes
em cada gota

que circula,
corrente.

A casa

abala-se. O sangue
embebe

os alicerces.
A mola

mestre afrouxa.
O reboco

despenca.
Não

se constrói
república impune

nas costas
de gente, escravos

e depois se mente
impune,

finge-se fraterno,

diz irmão,
irmã.

Não sente
na pele,

não cose
as costas,

não pede
perdão

e bença
a irmão, a irmã

pela construção.
Impune.

Da casa
sobre suas covas,

do prédio
sobre suas costas

em frangalhos.

Nem carneiro
nem cão.

Concidadão.

Até os bois, as balas
são

mais sagrados.

Punidos
não fomos,

mas não

estamos impunes.
Estamos doentes.

Nossas costas
destrinchadas.

Entre
trincheiras

do café-da-manhã
à janta.

Nossas casas
ensangüentadas.

E o Omo
não lava.

Os ossos.
E o sangue.
O Omo
não lava.

SOS
SOS

tele-
grafam os ossos.

Doentes. De cada
mãe
de pele colorada.

De rubro, de negro.

Cada mãe
roubada,

sequestrada,
violentada.

E morta. O Omo
não lava

os sequestros,
o Omo não desmancha
as matanças.

De mães. De filhos
doentes.

As manchas
que a família merece.

Refeições temperadas
a coloral.

Não urucum. Granulado
de nódoas

que secam no asfalto.

Todos
nós, uns doentes

de beber
sangue e comer
carne,

nós que moemos
gente.

Todos nós
uns Pôncios Pilatos

nesta Jerusalém
infernal.

Não há Cristo
que baste.

Não há Cristo
que lave

com sangue o sangue.

Basta de lavar
o sangue com sangue.

Basta.

Doentes.
Basta a doença

já sangrada,
diagnosticada

e sem bula.

Doentes
pilhamos, pilhados,

dormentes.

E a aula de Pilates
não cura

os doentes,

e a aula de Yoga
não cura

os doentes,

e os ovos
orgânicos

não pagam
os ossos

orgânicos

ainda
que em cálcio.

E os docentes
não adoçam

o amargo
em

nós com aulas
do passado.

Cauterizados,
nós
calcificados.

SOS SOS
tele
-grafam os ossos.

A nós,
uns doentes,
nós,
os doentes.

*

[in memoriam Marielle Franco]

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quinta-feira, 8 de março de 2018

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS


1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

§

Berlim, 7 e 8 de março de 2018, triste até o caroço.

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CONVERSA SOBRE ENSAÍSMO (parte 3)


Comecei nas redes sociais uma conversa sobre o "ensaio" como gênero independente, insinuando minha impressão de que não o praticamos da mesma forma aberta e por vezes híbrida como, por exemplo, os norte-americanos. Vários colegas comentaram, dando exemplos de trabalhos que poderiam ser discutidos nesta conversa:

* os ensaios biográficos de Paulo Leminski (mencionado por Ricardo Corona); 

* o "jornalismo literário" de Antonio Callado em 'Esqueleto na Lagoa Verde' (mencionado por Matheus de Souza Almeida); 

* os ensaios de Lélia Gonzalez (mencionada por Matheus Marçal); 

* a própria discussão sobre o ensaio feita por Antonio Candido (mencionado por Celia Pedrosa) ou os trabalhos de Candido e de Gilberto Freyre (mencionados por Marcia Denser); 

* os artigos de Carlos Drummond de Andrade em 'Passeios na Ilha' e 'Confissões de Minas' (mencionados por Marcelo Ferreira de Oliveira);

* a discussão de Luis Augusto Fisher sobre os textos de Nelson Rodrigues que, como disse Eduardo Sterzi (que mencionou o livro), possuem uma densidade que os afastam da crônica para se aproximarem do ensaio;

* os textos de Jessé de Souza, José Guilherme Merquior e Glauber Rocha foram mencionados por Bruno Gaudêncio;

* os textos de 'Ó', do Nuno Ramos, foram mencionados por Eduardo Sterzi e por Paulo Caetano, que também mencionou José Paulo Paes;

* Roberto Schwaz e Paulo Arantes foram mencionados por José Rodrigo Rodriguez;

* os textos de Waly Salomão em 'Armarinho de Miudezas' e os de Caetano Veloso em 'Alegria, Alegria' foram mencionados por Diogo Cardoso.

* por fim, creio, houve a menção a Antonio Risério por Reuben da Rocha;

Continuo pensando nisso, por ter um interesse gigante pelo gênero, tal como ele é praticado em certos lugares. Marco Catalão argumentou que talvez se trate de uma questão de denominação. Como disse em meu texto inicial, é possível que estejamos nesta conversa em meio a nossas idiossincrasias catalográficas.

Insinuei também naquele texto que talvez chamemos de "artigo" o que os americanos chamam de "ensaio". Alguns argumentaram que seria a "crônica". Mas não pode ser apenas uma questão de fronteiras entre gêneros. Será?

Minha impressão, para seguir com a conversa, é que o "ensaio" jamais se estabeleceu entre nós justamente como "gênero independente". O ensaio, entre nós, parece ser um gênero a-serviço-de. Há o ensaio literário, o ensaio antropológico, o ensaio sociológico, o ensaio biográfico. Mas não há o ensaio-em-si. Livre, híbrido. Será isso? Uma hipótese. As fronteiras bem demarcadas entre gêneros? Estas terras a gente demarca...

Mas aqui toco em outra questão sobre a qual venho refletindo em relação à literatura brasileira, moderna ou contemporânea. Lá vai: nosso aparente horror crítico ao híbrido. Àquilo que não se encaixa perfeitamente na fórmula. Muito tinta crítica idiota já foi gasta por nossas confusões diante do híbrido literário. Alguns exemplos de hibridismo podem ser encontrados especialmente na minha geração, e especialmente entre mulheres: Veronica Stigger, Marília Garcia, Érica Zíngano. A nova geração, com a exceção talvez de Reuben da Rocha, parece ter voltado ao bem-comportadismo dos gêneros bem delineados. Não que não estejam produzindo algumas coisas lindíssimas dentro dos gêneros reconhecíveis. Perdoem: não seria eu se eu não fizesse uma provocaçãozinha. E dizem que é sempre bom ser-se a si mesmo, a não ser que se possa ser um unicórnio. Aí é melhor ser um unicórnio. Mas unicórnios são híbridos e já disse ter a impressão de que temos um certo horror-asco crítico ao híbrido. Talvez por isso certa defasagem ensaística de liberdade? Poderíamos parir ao menos mais ornitorrincos.

§

A parte 2 era só um murmúrio meu, dizendo que sinto muita falta da crítica impressionista.

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domingo, 25 de fevereiro de 2018

CONVERSA SOBRE ENSAÍSMO (parte 1)


Uma pergunta aos colegas brasileiros. Eu estaria certo em afirmar que o gênero “ensaio” é praticado de forma bastante específica entre nós? De uma forma que talvez se atenha demais ao gênero acadêmico-expositivo? Ou a maneira bastante livre com que os estadunidenses, por exemplo, praticam o “ensaio” esteja mais próxima do que nós chamamos de “artigos” e “memórias”?

Quais são os seus livros de ensaios preferidos no Brasil, que não sejam ensaios sobre escritores no seu caráter mais acadêmico? (Não uso “acadêmico” de forma pejorativa). Ensaio em seu caráter mais... digamos... ora, montaigneano.

Penso aqui naquela prática bastante livre e fluida de autores tão diversos quanto Walter Benjamin (‘Infância berlinense por volta de 1900’), Roman Jakobson (‘A geração que desperdiçou seus poetas’) e Joseph Brodsky (‘On Grief and Reason’), e entre os estadunidenses: James Baldwin (‘The Devil Finds Work’), Susan Sontag (‘Illness as Metaphor’), Joan Didion (‘Slouching Towards Bethlehem’), William H. Gass (‘On Being Blue’). Recentemente: Mary Ruefle (‘Madness, Rack and Honey), Ta-Nehisi Coates (‘Between the World and Me’), Rebecca Solnit (‘A Field Guide to Getting Lost’), David Foster Wallace (‘A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again’). Etc.

Em língua inglesa, o gênero teve uma explosão criativa no pós-guerra. É uma das coisas que mais amo em literatura. O prazer de observar um escritor ou escritora em liberdade, simplesmente pensando e discorrendo sobre coisas que muitas vezes nada têm a ver com literatura. É impressão minha, ou praticamos menos ou de outra maneira a liberdade do ensaio? Refiro-me ao ensaio como literatura em si e não como artigo, por mais brilhante que seja, sobre literatura. Temos grandes jornalistas, memorialistas, críticos literários. É apenas uma questão de idiossincrasias de catalogação?

Há livros que se tornaram clássicos, como ‘Itinerário de Pasárgada’, de Manuel Bandeira, ou ‘Idade do Serrote’, de Murilo Mendes, e que poderiam ser talvez enquadrados aqui nesta conversa. Mas tenho a impressão de que há uma especificidade (que considero negativa) no caso brasileiro.

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