Rocirda Demencock

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A reivindicação da mãe

“Eu também sou filha de Deus!”
gritava minha mãe
contra o tanque de roupas,
contra a pia de louças,
mas nenhuma legião de anjos
a acudia ou assistia.

A área de serviço era a sacristia
de si, a velha ovelha sacrificial.
Ela era um bicho para o deleite
da família,
suas doações de ovos e de leite.

Hoje tenho sua idade, vivo
no tempo das suas certeiras
precauções e profecias.

*

Berlim, 25 de março de 2020.

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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Uma fotografia com Victor Heringer



Uma foto com Victor Heringer. Que aperto no peito. Não me lembrava dessa chapa, e trombei com ela agora numa pasta velha. Sei até a data. Reconheço o lugar. Estamos na Casa Villarino, o antigo reduto de Tom Jobim e Vinicius de Moraes no centro do Rio de Janeiro. Foi após nossa performance no MAM - Museu de Arte Moderna, no dia 12 de janeiro de 2012. Foi uma noite linda. Apresentaram-se ainda Marília Garcia, Ismar Tirelli Neto, Dimitri BR & Joel Gibb (The Hidden Cameras). O arquivo diz que a fotografia é de Taddei, mas não sei ao certo. A noite só havia sido possível graças à generosidade de Marta Mestre e Carlito Azevedo. Quantas saudades do cavaleiro-cavalheiro Victor Heringer (1988-2018).

*

“No começo nosso planeta era quente, amarelento e tinha cheiro de cerveja podre. O chão era sujo de uma lama fervente e pegajosa.

Os subúrbios do Rio de Janeiro foram as primeiras coisas a aparecer no mundo, antes mesmo dos vulcões e dos cachalotes, antes de Portugal invadir, antes de o Getúlio mandar construir casas populares. O bairro do Queím, onde nasci e cresci, é um deles. Aconchegado entre o Engenho Novo e Andaraí, foi feito daquela argila primordial, que se aglutinou em diversos formatos: cães soltos, moscas e morros, uma estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e um terreno enorme reservado para o cemitério. Mas tudo ainda estava vazio: faltava gente.

Não demorou. As ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir, para varrê-las”.

— Victor Heringer, ‘O amor dos homens avulsos’

*

Não era a essa foto que eu me referia em minha elegia ao amigo do peito. Mas vale também, de certa forma. Victor tinha o jeito de direcionar o próprio cérebro ao peito do interlocutor.

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS
[Ricardo Domeneck]

1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

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sábado, 23 de maio de 2020

MANHÃ DE PASTO FARTO

Não ser o toureiro do outro
nem roto outeiro de touro.
Fiar eira e beira, o adorno
desse ouro de tolo nas rotas.
Amar o lodo pegado à bota,
na terra do quintal o broto
da erva-daninha e do boldo.
Na treva: toupeira, minhoca.
Os trevos-de-quatro-folhas!
Pescar choupas, fazer sopa,
só chamar de meu território
meus sete palmos de solo.
Eu, outro cocheiro de potros.
Meu couro é minha roupa,
cachorra aninhada na cama.
No centro da teia, a mosca
seduz com o corpo a aranha.
Ao calcanhar todas as cobras.
Cuspo da boca sua peçonha.
Onça entre os dentes da anta,
devorada anta que se onça.
Venha, alegria das ariranhas.
À mesa toda sobra das sobras
do almoço aquecido na janta.
A louca que entra em coma
pra comover aquele que ama.




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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Bilhete para o irmão que grita Silêncio

                                  a André Capilé


Irmão de cabeça,

dói-me o pescoço que a sustenta,

e entre a pipoca

e a aspirina, busco apaziguamento

daquele que mata

qualquer um e come. Na sua palha

não traz termômetro

o pai da quentura. Febre encharca

todos os lençóis.

Lázaro, sai da cova, empunha à proa

o xaxará e a lança.

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terça-feira, 19 de maio de 2020

PEQUENA ANTOLOGIA DA PRESENÇA BOVINA NA ESCRITA BRASILEIRA

"Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega esse menino
Que tem medo de careta“

canção popular

*

MUUUUUUUUUUUUUUUUUUU

com licença!
sou o boi boi boi 
boi–da-cara-preta 
não pego neném 
não faço careta
e nem como comunista

– Cuti

*

Vaca amarela
Pulou a janela
Quem falar primeiro
Come toda a bosta dela

jogo infantil

*

"Na vaca, na praia, no sal, na oração,
o Mahatma."

– Cecília Meireles


Tarsila do Amaral - 'O touro' (1928)


CRÔNICA DE 15 DE JULHO DE 1876
[Machado de Assis]

I

Não reinaram só as vozes líricas nesta quinzena última; fez-lhes concorrência o boi.

O boi, substantivo masculino, com que nós acudimos às urgências do estômago, pai do rosbife, rival da garoupa, ente pacífico e filantrópico, não é justo que viva. . . isto é, que morra obscuramente nos matadouros. De quando em quando, dá-lhe para vir perfilar-se entre as nossas preocupações, como uma sombra de Bânquo, e faz bem. Não o comemos? É justo que o discutamos.

Veio o boi quando gozávamos — com os ouvidos as vozes do tenor Gayarre, — e com os olhos a nova mutação da cena em Constantinopla; veio, estacou as pernas, agitou a cauda e olhou fixamente para a opinião pública.

II

A opinião pública detesta o boi... sem batatas fritas; e nisto, como em outras coisas, parece-se a opinião pública com o estômago. Vendo o boi a fitá-la, a opinião estremeceu; estremeceu e perguntou o que queria. Não tendo o boi o uso da palavra, olhou melancolicamente para a vaca; a vaca olhou para Minas; Minas olhou para o Paraná; o Paraná olhou para a sua questão de limites; a questão de limites olhou para o alvará de 1749; o alvará olhou para a opinião pública; a opinião olhou para o boi. O qual olhou para a vaca; a vaca olhou para Minas; e assim iríamos até a consumação dos séculos se não interviesse a vitela, em nome de seu pai e de sua mãe.

A verdade fala pela boca dos pequeninos. Verificou-se ainda uma vez esta observação, espeitorando a vitela estas reflexões, tão sensatas quanto bovinas.

 — Gênero humano! Eu li há dias no Jornal do Comércio um artigo em que se fala dos interesses do produtor, do consumidor e do intermediário; falta falar do interesse do boi, que deve pesar alguma coisa na balança da República. O interesse do produtor é vendê-lo, o do consumidor é comprá-lo, o do intermediário é impingi-lo; o do boi é justamente contrário a todos três. Ao boi importa pouco que o matem em nome de um princípio ou de outro, da livre concorrência ou do monopólio. Uma vez que o matem, ele vê nisso, não um princípio, mas um fim, e um fim de que não há meio de escapar. Gênero humano! Não zombeis esta pobre espécie. Quê! Virgílio serve-se-nos para suas comparações poéticas; os pintores não deixam de incluir-nos em seus emblemas da agricultura; e não obstante esse préstimo elevado e estético, vós trazei-nos ao matadouro, como se fôssemos simples recrutas! Que diríeis vós se, em uma república de touros, um deles se lembrasse de convidar os outros a comer os homens? Por Ceres! Poupai-nos por algum tempo!

*

O BOI
[Olavo Bilac]

Quando ainda no céu não se percebe a aurora,
E ainda está molhando as árvores o orvalho,
Sai pelo campo afora
O boi, para o trabalho.
Com que calma obedece!
Caminha sem parar:
E o sol, quando aparece,
Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.
Forte e meigo animal! Que bondade serena
Tem na doce expressão da face resignada!
Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,
Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.
Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;
Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;
Porém, indiferente às dores e ao cansaço,
Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.
Lá vai pausadamente o grande boi marchando...
E, por ele puxado,
Larga e profundamente o solo retalhando,
Vai o possante arado.
Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.
Cessa a vida rural.
Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.
E o boi, para dormir, regressa ao seu curral.

*

BOI MORTO
[Manuel Bandeira]

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Divido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvore da paisagem calma,
Convosco – altas tão marginais!
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi desconhecido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

*

UM BOI VÊ OS HOMENS
[Carlos Drummond de Andrade]

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.


*

ÉCLOGAS PEQUENAS EM QUE FALA UM SÓ PASTOR
[Dantas Mota]

No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?


*

O BOI
[Murilo Mendes]



*

de INVENÇÃO DE ORFEU
[Jorge de Lima]

A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penugem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.

Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.

Escuto-lhe o mugido - era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.

Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a mamar de dois seios.

*

EL TORO DE LIDIA
[João Cabral de Melo Neto]

1.

Um toro de lidia é como um rio
na cheia. Quando se abre a porta,
que a custo o comporta, e o touro
estoura na praça, traz o touro a cabeça
alta, de onda, aquela primeira onda
alta, da cheia, que é como o rio,
na cheia, traz a cabeça de água.
Tem então o touro o mesmo atropelar
cego da água; mesmo murro de montanha
dentro de sua água; a mesma pedra
dentro da água de sua montanha: como o rio,
na cheia, tem de pedra a cabeça de água.

2.

Um todo de lidia é ainda um rio
na cheia. Quando no centro da praça,
que ele ocupa toda e invade, o touro
afinal para, que pode o toureiro navegá-lo
como água; e pode então mesmo fazê-lo
navegar, assim como, passada a cabeça
da cheia, a cheia pode ser navegada.
Tem então o touro os mesmos redemoinhos
da cheia; mas neles é possível embarcar,
até mesmo fazer com que ele embarque:
que é o que se diz do touro que o toureiro
leva e traz, faz ir e vir, como puxado.

*

P(B)A(O)I
[Vinicius de Moraes]

                      A Carlos Drummond de Andrade, 
                      que com seu só título Boitempo
                      me deu a chave deste poema 

Pai
Modorrando de tarde na cadeira
De balanço, a cabeça cai-não-cai.
Pai
Espantando o moscardo
Feito o boi faz com o rabo
Zum! iridesceu, se foi, múu.
Pai. Ah, como dói
Lembrar-te assim, pai pé-de-boi
Sentado à mesa mastigando sonhos
Boipai, entre as samambaias e avencas
Do pequeno jardim, utilinútil, ai...
Paiboi, paiboiota, boipapai
Babando amor no curral das acácias
Quebrando ferrolhos com a força
Dos cascos fendidos para não entrar mais boi
No chão de dentro, igual a mim...
Ah, como dói lembrar-te, boi
Triste, boiassim, a córnea branca
No olho trágico, ruminando o medo
Pelo novilho tresmalhado.
Pai. Boi.
Olhando do portão o chão de fora
Na noite escura, múu, à espera. Onde estou eu
Teu vitelão insone, onde?
Nas tetas de que rês? Em que pasto?
Que não o teu, e da boieira
Que também já se foi? Boipai
Paiboi.
Muge-me, boi-espaço
Da tua eternidade as cantigas
Mais lindas que soavas com teus dedos
Ungulados nas cordas da viola
Hoje partida. Geme
Boi-da-guia, tua nunca boesia
Dá-me, boi-de-corte
Um quilo de tua alcatra decomposta
Tua língua comida
Um carrinho de mão de tua bosta
Com que fertilizar minha poesia
Neste instante transposta.
Para plantar meu novo verso
Menos eu, mais canção, menos enxerto
Não posso prescindir da tua morte
Teus ossos, teu estrume
Tu bom pai, tu boipai, tu boiconsorte
Eu boiciúme.

*

POEMA TIRADO DE UMA ANTIGA CANÇÃO CARNAVALESCA
[Mário Quintana]

O meu boi morreu.
Quem me cortará agora as unhas da minha mão direita?

*

Boi-de-reis no Paço Alfândega, no Recife.

*

SEQUÊNCIA
[João Guimarães Rosa]

   Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada — o tom intenso de azamar. Ela solevava as ancas, no trote balançado e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e —para lá do rio — a terras de um major Quítérío, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão.
   No Arcanjo, onde a estrada borda o povoado, foi notada, e, vendo que era uma rês fujã, tentaram rebatê-la; se esvencilhou, feroz, e foi-se, porém. De beira dos pastos, os anus, que voavam cruzando-a, desvinham de pousar-lhe às costas. No riachinho do Gonçalves, quase findo à míngua d'água, se deteve para beber. Deram tiros no campo, caçando às codornas. Latidos, noutra parte, faziam-na entrar oculta no cerrado. Ora corriam dela umas mulheres, que andavam buscando lenha. Se encontrava cavaleiros, sabia deles se alonjar, colada ao tapume, com disfarces: sonsa curvada a pastar, no sofrido simulamento. Légua adiante, entanto, nos Antônios, desabalava em galope, espandongada, ao passar por currais, donde ouvia gente e não era ainda o seu termo. Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — "Meo fio, q'vaca qu'é essa?" — "Nhô pai, é a n'é nossa, não." Seguia, certa; por amor, não por acaso. 
    Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente.
   Soada a noticia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — "Diaba". Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o que, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou.
   Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — "É uma vaquinha pitanga?" Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada-geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste.
   Já a vaca. O avanço, que levava, não se lhe dava de o bastante. Ante o morro, a passo, breve, nem parava para os capins dos barrancos: arrancava-os, mesmo em marcha, no mesmo surdo insossego. Se subia — cabeceava, num desconjuntado trabalho de si. Se descia era beira-abismos, patas abertas, se borneando. Após, no plano, trotava. Agora, lá num campal, outras vacas se avistavam. Olhava-as: alteou-se e berrou — o berro encheu a região tristonha. O dia era grande, azul e branco, por cima de matos e poeiras. O sol inteiro.
   Já o rapaz se anorteava. Só via o horizonte e sim. Sabia o de uma vaquinha fugida: que, de alma, marca rumo e faz atalhos — querençosa. Entrequanto, ele perguntava. Davam-lhe novas da arribada. Seu caval murça se aplicava, indo noutra forma, ligeiro. Sabia que coisa era o tempo, a involuntária aventura. E esquipava. Ia o longo, longo, longo. Deu patas à fantasia. Ali, escampava. Tempo sem chuvas, terrentas campinas, os tabuleiros tão sujos, campos sem fisionomia. O rapaz ora se cansava. Desde aí, o muito descansou. Do que, após, se atormentava. Apertou.
   Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d'água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser voo. Vencia. E além se sumia a vaca vermelha, suspensa em bailado, a cauda oscilando. O inimigo já vinha perto.
   O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno. Só as encostas guardando o florir de árvores esfolhadas: seu roxo-escuro de julho as carobinhas, ipês seu amarelo de agosto. Só via os longes de um quadro. O absurdo ar. Chatos mapas. O céu de se abismar. E indagava o chão, rastreava. Agora, manchava o campo a sombra grande de uma nuvem. O rapaz lançou longe um olhar. De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. O vulto, pé de pessoa, que a cumeada do morro escalava. Ver o que diabo. Reduzida, ocupou, um instante, a lomba linha do espigão. Aí, se afundou para o de lá, e se escondeu de seus olhos. Transcendia ao que se destinava.
    O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava, perseguia a paisagem. Preparava-se uma vastidão: de manchas cinzas e amarelas. O céu também em amarelo. Pitavam extensões de campo, no virar do sol, das queimadas; altas, mais altas, azuis, as fumaças desmanchavam-se. O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — "Seja o que seja".
   Aí, subia também ao morro, de onde muito se enxergava: antes das portas do longe, as colinas convalares — e um rio, em suas baixadas, em sua várzea empalmeirada. O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava — sem som. Seriam buracos negros, as sombras perto das margens.
   Depois dos destornamentos, a vaquinha chegava à beira, às derradeiras canas-bravas. Com roubada rapidez, ia a levantar o desterro. Foi uma mexidinha figura — quase que mal os dois chifres nadando — a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha; que em setembro. Sob o céu que recebia a noite, e que as fumaças chamava.
   Outrarte o ouro esboço do crepúsculo. O rapaz, o cavalo bom, como vinham, contornando.Antes do rio não viam: as aves, que já ninhavam. A beira, na tardação, não queria desastrar-se, de nada; pensava. As pausas, parte por parte. Não ouviu sino de vésperas. Tinha de perder de ganhar? Já que sim e já que não, pensou assim, jamais, jamenos... — o filho de seo Rigério. A fatal perseguição, podia quebrar e quitar-se. Hesitou, se. Por certo não passaria, sem o que ele mesmo não sabia — a oculta, súbita saudade. Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou — de peito feito. Àquelas qüilas águas trans — às braças. Era um rio e um além. Estava, já, do outro lado.
   — "A vaca?" — e apertava o encalço — à boa espora, à rédea larga. Mas a vaca era uma malícia, precipitava-se o logro. Nisso, anoiteceu. E não é que, seu cavalo, murça, se sentia — da viagem de pelo a pelo: os joelhos bambeava, descaía, quase caia para a frente o cavaleiro. Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galo-pondo. — "Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha-se a qual destinatário?"
   Pelas vertentes, distante, e até ao cimo do monte, um campo se incendiava: faíscas — as primeiras estrelas. O andamento. O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero. O arrepio negro das árvores. O mundo entre as estrelas e os grilos. Semiluz: sós estrelas. Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares.
   Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. As luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um major Quitério.
   O rapaz e a vaca se entravam pela porteira mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar. Tanto ele era o bem-chegado! A uma roda de pessoas. As quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: — "É sua". Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
   E a vaca — vitória, em seus ondes, por seus passos.


*



ACALANTO
[Dorival Caymmi]

É tão tarde
A manhã já vem,
Todos dormem
A noite também,
Só eu velo
Por você, meu bem
Dorme, anjo
O boi pega Neném,
Lá no céu
Deixam de cantar,
Os anjinhos
Foram se deitar,
Mamãezinha
Precisa descansar
Dorme, anjo
Papai vai lhe ninar:
"Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta"

*

BOIS DORMINDO (I)
[Zila Mamede]

A paz dos bois dormindo era tamanha
(mas grave era a tristeza de seu sono)
e tanto era o silêncio da campina
que se ouvia nascerem açucenas.

No sono os bois seguiam tangerinos
que abandonando relhos e chicotes
tangiam-nos serenos com as cantigas
aboiadeiras e um bastão de lírios.

Os bois assim dormindo caminhavam
destino não de bois mas de meninos
libertos que vadiassem chão de feno;

e ausentes de limites e porteiras
arquitetassem sonhos (sem currais)
nessa paz outonal de bois dormindo.

*

ESTAVA O TOURO
[Max Martins]

Estava o touro, o touro com seu T
                                                                  de ouro
Estava a teia, a teia e seu tesouro
                                                                  mouro
Estava a flor, a flor com seu besouro
                                                                  louro
E estavas tu, tu e a tua
                                                                  palavra nua

*

de LAVRA LAVRA
[Mário Chamie]

Como caber no lavrado
o homem, a fauna, cheiro de mato?

O boi aporta. São cargas de milho vez, a quota.
A rédea alarma. São cães de faros sóis, a caça.
O canto endorme. São fêmeas de cio mor, o homem.

Como caber no pascento
o homem, a fauna, corpo de vento?

O rasgo espanta. São raios de chuva mais, a lama.
O rio esparze. São barros de amenos vis, a margem.
A sebe assoma. São húmus de linfas sais, a planta.

Como conter na colheita
o homem, a fauna, dança de festa?

O som comenta. São vozes de homem sós, as danças.
O grito alarga. São fêmeas de seios nus, as pagas.
O sexo aflora. São todos de vício vênus, a horda.

*




BOI
[João Bosco]

Boi-bumbá
O rei do congado quem vai eleger
Eh! Boi
Marcado, arriado por meu canjerê
O boi foi todo enfeitado
E passado pra trás
Boi-bumbá
Exu, boitatá, curupira
Entregando o boi,
Cobra jararaca na mata
Espreitando o boi
Que não sabe o que faz
O planalto quieto
Recorta uma loura assombração
Lançando a tocha rubra
Nos campos de algodão
O incêndio estala e cresce
Nas entranhas do sertão
Dispersa o gado morro abaixo
¾ cada um por si
Depois, o ouro baço
O boi de bruços no arraial
De beiço murcho, a junta mole
Corumbá!
E! E! boi
O canto do aboio é agouro ruim
E! boi
O gado se esquece com pouco capim
Um boi, barroso, retardo, não vai se fechar
E! E! boi
Rebenta o cercado
E guerreia por teu lugar
Ou tomba no fundo das águas de Guajará
Bumba-meu-boi-bumbá!

*

Fotografia de Araquém Alcântara, 2020.

*

MEMÓRIAS DO BOI SERAPIÃO
[Carlos Pena Filho]

Este campo,
vasto e cinzento,
não tem começo nem fim,
nem de leve desconfia
das coisas que vão em mim.

Deve conhecer, apenas
(porque são pecados nossos)
o pó que cega meus olhos
e a sede que rói meus ossos.

No verão, quando não há
capim na terra
e milho no paiol
solenemente mastigo
areia, pedras e sol.

Às vezes, nas longas tardes
do quieto mês de dezembro
vou a uma serra que sei
e as coisas da infância lembro:

instante azul em meus olhos
vazios de luz e fé
contemplando a festa rude
que a infância dos bichos é …

No lugar onde eu nasci
havia um rio ligeiro
e um campo verde e mais verde
de um janeiro a outro janeiro

havia um homem deitado
na rede azul do terraço
e as filhas dentro do rio
diminuindo o mormaço.

Não tinha as coisas daqui:
homens secos e compridos
e estas mulheres que guardam
o sol na cor dos vestidos

nem estas crianças feitas
de farinha e jerimum
e a grande sede que mora
no abismo de cada um.

Havia este céu de sempre
e, além disto, pouco mais
que as ondas nas superfícies
dos verdes canaviais.

Mas, os homens que moravam
na língua do litoral
falavam se desmanchando
das terras gordas e grossas
daquele canavial

e raras vezes guardavam
suas lembranças mofinas
as fumaças que sujavam
os claros céus que cobriam
as chaminés das usinas.

Às vezes, entre iguarias,
um comentário isolado:
a crônica triste e curta
de um engenho assassinado.

Mas logo à mesa voltavam
que a fome bem pouco espera
e os seus olhos descansavam
em porcelanas da China
e cristais da Baviera.

Naquelas terras da mata
bem poucos amigos fiz,
ou porque não me quiseram
ou então porque eu não quis.

Lembro apenas um boi triste
num lençol de margaridas
que era o encanto do menino
que alegre o tangia para
as colinas coloridas.

Um dia, naquelas terras
foi encontrado um boi morto
e os outros logo disseram
que o seu dono era o homem torto

que em vez de contar as coisas
daqueles canaviais
vivia de mexericos
“entre estas índias de leste
e as Índias Ocidentais”.

A verde flora da mata
(que é azul por ser da infância)
habita: os meus olhos com
serenidade e constância.

Este campo,
vasto e cinzento,
é onde às vezes me escondo
e envolto nestas lembranças
durmo o meu sono redondo,

que o que há de bom por aqui
na terra do não chover
é que não se espera a morte
pois se está sempre a morrer:

Em cada poço que seca
em cada árvore morta
em cada sol que penetra
na frincha de cada porta

em cada passo avançado
no leito de cada rio
por todo tempo em que fica
despido, seco, vazio.

Quando o sol doer nas coisas
da terra e no céu azul
e os homens forem em busca
dos verdes mares do sul,

só eu ficarei aqui
para morrer por completo,
para dar a carne à terra
e ao sol meu branco esqueleto,

nem ao menos tentarei
voltar ao canavial,
pra depois me dividir
entre a fábrica de couro
e o terrível matadouro
municipal.

E pensar que já houve um tempo
em que estes homens compridos
falavam de nós assim:
o meu boi morreu,
que será de mim?

Este campo,
vasto e cinzento,
não tem entrar nem sair
e nem de longe imagina
as coisas que estão por vir,

e enquanto o tempo não vem
nem chega o milho ao paiol
solenemente mastigo
areia, pedras e sol.

*

OLHAR DE VACA
[Leonardo Fróes]

O império das formigas. A vaca
olha de longe o efêmero passante.
Os passarinhos atravessam
a estrada estreita, quieta e sinuosa
que segue o rio pelo vale.
O silêncio aglutina as criaturas
e os menores ruídos.
Vê-se a proliferação das espécies
nos menores meandros.
Mundos inimagináveis se criam.
Mundos desaparecem
nas bocadas da vaca no capim generoso.

*

O bisonte de Altamira

             
O BISONTE DE ALTAMIRA
[Marcus Fabiano Gonçalves]

A fera fornida de uma locomotiva herbívora: potestade e butim de proteínas. gozando dos reais arrimos da caça exclusiva, o bisonte lambe no córrego a chaga aberta pela flecha cega. acompanha o homem da pólvora à pedra. vão suas peles sobre corpos e frestas, despojos sob neves de inúmeras eras. de faro bufante e olhos gélidos, ele enxerga cheiros até na relva mais úmida. aos cercos da caça nem sempre sucumbe. ouve ao longe o passo oculto que o espreita e desconfia ruminando gravetos: ossos que ele pisoteia sob as cotas da lã feita de sua juba. o bisonte foi o leão bovino das tundras. em sua bolha de couro e sangue, o bisonte entre manadas de carcaças. de suas omoplatas surgiram machados. o Minotauro e o Ápis foram seus melhores disfarces, bem como os troféus dos taxidermistas mais hábeis. o apojo de seu leite consagrou a primeira libação à tauromaquia. quem o bebe em seus cornos inventa o copo e a xícara. sua ossatura é inteiramente granítica: quartzo, feldspato e mica. quando estático, armazena-se em fúria e porfia. zaino, um bisonte em seu próprio sangue se pinta. no touro do holocausto, no búfalo do arado ou na bossa do zebu no pasto, a longa estirpe do bisonte, a prima letra de todo nome: o áleph, o alif e o alfa. semítico, grego ou fenício, em carne e osso o bisonte é começo e princípio de um “A” já sempre escrito desapercebido, domesticado e dócil, mugindo como a mansa vaca de um sítio. mas ocultando a dura passagem do vulto ao signo, nosso estreito de Bering entre a caverna e o livro.



*

VACA
[Adélia Prado]

Está em seu ruminar,
                     em seus chifres,
                     em suas malhas,
subitamente colhida para a composição:
                     A Senhora, os
                     pastores e ela
arquejando o ventre para aquecer o Menino.
Até os cornos tocada de presença.
Transcendental o tamanho dos olhos
pela primeira vez pousados
na mais bela das coisas, o Homem.
Ah! o discurso de Deus, velado e sem ruídos:
                                            a vaca na planície.

*

TOURO
[Maria Lúcia Alvim]

Negra é a sorte
meigo bisonte.
Sequer a morte
tão informal

vem surpreender-te
na solidão.
(Saber morrer
plasticamente,

dura lição).
Ajaezado
ornamental

teu vivo sangue
o velo insonte
cobre. Final.

*

TIRADEIRA DE LEITE
[Everardo Norões]

entre os dedos
o fulgor do leite
filtra a desordem solar
o curral aprisiona
o sossego dos bichos
o negro viscoso do olho
a refletir vasilhas
o ramo da árvore
a sombra do regaço
cedo a manhã cheira
e tudo se acorda
na precisão do mato
ou do alento
que chega do açude
no remanso das entranhas
dessas nuvens lentas
lentas
lentas
lentas

*

QUEM TÁ GEMENDO
[Solano Trindade]

Quem tá gemendo
Negro ou carro de boi?

Carro de boi geme quando quer
Negro não
Negro geme porque apanha
Apanha pra não gemer

Gemido de negro é cantiga
Gemido de negro é poema

Geme na minh'alma,
A alma do Congo,
Do Níger da Guiné,
De toda África enfim
A alma da América
A alma universal

Quem tá gemendo
Negro ou carro de boi?

*


Bumba-meu-boi em São Luís do Maranhão


*

BOI DE GUIA
[Cora Coralina]

  O menino tinha nascido e se criado em Ituverava, da banda de Minas. O pai era um carreiro de confiança, muito procurado para serviços e colheitas. Tinha seu carro antigo, de boa mesa rejuntada, fueirama firme, esteirado de couro cru, roda maciça de cabiúna ferrada, bem provido o berrante de azeite e com seu eixo de cocão cantador que a gente ouvia com distância de légua. Desses que antigamente alegravam o sertão e que os moradores, ouvindo o rechinado, davam logo a pinta do carreiro.
        O pai tinha o carro e tinha as juntas redobradas em parelhas certas, caprichadas, bois arados, retacos, manteúdos, de grandes aspas e pelagem limpa. Era só que possuía. O canto empastado onde morava, família grande, meninada se formando e sua ferramenta de trabalho – os bois de carro.
        Trabalhava para os fazendeiros de roda, principalmente na colheita de café e mantimentos, meses a fio, enchendo tulhas e paióis vazios. Quando acabava o café, era a cana, do canavial para os engenhos, onde as tachas ferviam noite e dia e purgavam as grandes formas de açúcar, cobertas de barro.
        O candeeiro era ele, pirralho franzino, esmirrado, de cinco anos.
        Os pais antigos eram duros e criavam os filhos na lei da disciplina. Na roça, criança não tinha infância. Firmava-se nas pernas, entendia algum mandado, já tinha servicinho esperando.
        Aos quatro anos montava em pelo, cabresteava potranquinha, trazia bezerro do pasto, levava leite na cidade e entregava na freguesia.
        Era botado em riba do selote, não alcançava estribo. Se descesse, não subia mais. Punha o litro nas janelas.
        O cavalo em que montava era velho, arrasado manso e sabido. Subia nas calçadas, encostava nos alpendres, conhecia as ruas, desviava-se das buzinas e parava certo nos fregueses.
         Quando de volta, recolhendo a garrafa vazia, gritava desesperadamente:
        -- Garrafa do leite...garrafa vaziiia! ...
        Um da casa, atordoado com a gritaria, se apressava logo a entregar o litro requerido.
        Ajudava o pai. Desde que nasceu, contava ele. Nunca se lembra de ter vadiado como os meninos de agora. Quando começou a entender o pai, a mãe, os irmãos, o cachorro e o mundo do terreiro, já foi fazendo servicinho. Catava lenha fina, garrancheira para o fogão, caçava pela saroba os ninhos das botadeiras, ia atrás dos peruzinhos e já quebrava xerém às chocas de pinto. Do pasto trazia os bois de serviço. Seu gosto era vir pendurado no chifre do guia barroso – tão grande, tão forte, tão manso – sempre remoendo seus bolos de capim, nem percebia, também não se importava, não dava mostras.
        Acostumou-se com os bois e os bois com ele. Sabia o nome de todos e os particulares de cada um. Chamava pra mangueira. O pai erguia os braços possantes e passava as grande cangas lustrosas; encorreiava os canzis debaixo das barbelas, enganchava o cambão, encostava o coice, prendia a cambota. Passava mão na vara, chamava. As argolinhas retiniam e o carro com sua boiada arrancavam o caminho das roças.
        Com cinco anos, era mestre-de-guia, com sua varinha argolada.
        Às vezes, o serviço era dentro de roças novas, de primeira derrubada, cheia e tocos, tranqueirada de paulama, mal-encoivaradas, ainda mais com seus muitos buracos de tatu.
        O carreador, mal-amanhado, só dava o tantinho das rodas. Os bois que aguentassem o repuxado, e o menino, esse, ninguém reparava nele. Aí era que o carro vinha de caculo. A colheita no meio da roça. Chuvas se encordoando de norte a sul ameaçando o ar do tempo mudado e o fazendeiro arrochando pressa.
        A boiada tinha de romper a pulso. O aguilheiro na frente, pequeno, descalço, seu chapeuzinho de palha, seu porte franzino, dando o que tinha.
        Sentia nas costas o bafo quente do guia. Sentia no pano da camisa a baba grossa do boi. O pai atrás, gritando os nomes, sacudindo o ferrão. A boiada, briosa e traquejada, não queria ferrão no couro, a criança atrapalhava. Aí, o guia barroso dava um meneio de cabeça, baixava a aspa possante e passava a criança pra um lado.
        O menino tornava à frente. Outra vez a baba do boi na camisa, o grito do carreiro afobado, o tinido das argolinhas e a grande aspa passando a criança pra um lado.
        O pai gritou frenisado:
        -- Quem já viu aguiero chamá boi de banda...Passa pra frente porquera...
        -- Nhô pai, é o boi que me arreda...
        -- Passa pra frente, covarde. Deixa de invenção, inzoneiro...
        O menino enfrentou de novo. O homem sacudiu a vara e pondo reparo. A argola retiniu, as juntas arrancaram. O barroso alcançou a criança. Ia pisar, ia esmagar com sua pata enorme e pesada.
        Não pisou, não esmagou. Virou o guampaço num jeito e passou a criança pra um lado sem magoar. Aí o velho carreiro viu...viu o boi pela primeira vez...
        Sentiu uma gastura e pela primeira vez uma coisa nova inchando seu coração no peito e limpou uma turvação da vista na manga da camisa.

*



CANTIGA DE BOI
[Caetano Veloso]

Meça a cabeça do boi:
Um CD colado à testa
Adornaram-no pra a festa
Do que foi. Desça à metade
Do que eternamente nasce:
Na face que é iridescente
Ó gente, dá-se a cidade

Abra a cabeça do boi:
Por trás do CD um moço
Nesse cabra uma serpente
Cobra lá dentro do osso
Posso não crer na verdade
Mas ela dobra comigo:
Abrigo em mim a cidade

Cantiga de boi é densa
Não se dança nem se entende
Doença, cura e repente
E desafio ao destino
Menino já tem saudade
Do que mal surgiu à frente:
Alma, CD, boi, cidade

Purificação do adro
O quadro produz-se ali
Luz o paralelepípedo
Límpido cristal de olhar
Grécia, Roma e Cristandade
O CD refrata o tempo
Templo-espaço da cidade


*

"Leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora da perigo é o homem, nem que seja o boi.“

– Torquato Neto

*

BOI
[Edimilson de Almeida Pereira]

Mutismo de uma cabeça de boi
no rebojo.
Deus prospera na carcaça.
Seu perfume há-de romper
calabouços
e o chamaremos flor tisana
oxigênio dos mortos.
Os nervos de deus espumando.
Cabeça de boi
na enchente
tem o efeito das primeiras palavras.

*

TRADIÇÃO E OUTRAS HISTÓRIAS
[Ascenso Ferreira]

Terraço da Casa-Grande de manhãzinha, fartura espetaculosa dos coronéis:

— Ó Zé-estribeiro! Ó Zé-estribeiro!
— Inhôôr!
— Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
— 25, seu Curuné!
— E a vaca malhada?
— 27, seu Curuné!
— E a vaca Pedrês?
— 35, seu Curuné!
— Sóó? Diabo! Os meninos hoje não têm o qui mamar!

*




CANTIGA DO BOI INCANTADO
[Elomar Figueira Mello]

Êêêê... boi encantado e aruá
Ê boi, quem haverá de pegá

Na mia vida de vaquêro vagabundo
Já nem dô conta dos perigos que infrentei
Apois qui das nação de gado qui ai no mundo
Num tem um só boi qui num peguei

Êêêê... boi encantado e aruá
Ê boi, quem haverá de pegá

Eu vim de longe, bem prá lá daquela serra
Qui fica adonde as vista num pode alcançar
Ricumendado dos vaquêro de mia terra
Pra nessas banda eles nóis representá
Alas qui viemo in dois eu e mais ventania
O mais famado dos cavalo do lugá
Meu sabaruno rei do largo e do grotão
Vê si num isquece da premessa qui nóis feiz
Naquela quadra de terra laço e moirão
Na luz da tarde os olhos dela e meu cantá
A mais bunita de brumado ao pancadão
Juremo a ela viu pegá boi aruá


Êêêê... boi encantado e aruá
Ê boi, quem haverá de pegá

De indubrasil nerol' xuite guadimá
Moura junquêro pintado nuve e alvação
Junquêro giz peduro landreis e malabá
Pintado laranja rajado lubião
Boi de gabarro banana môcho armado
De curralêro ao levantado e barbatão
De todos boi qui ai no mundo já peguei
Afora lá ele qui tem parte cum cão
O tal boi bufa cum esse nunca labutei
E o incantado que distinemo a pegá
Pra nóis levá pras terras daquela donzela
Juremo a ela viu, te pegá boi aruá

Êêêê... boi encantado e aruá
Ê boi, quem haverá de pegá.

Ê boi Nerusa Ha!

*

BUCÓLICA
[Érico Nogueira]

Embaixo da
faia, eu
via sombras
caírem da
montanha;
o ar escuro,
a coruja,
outro vale.


Intocável
hoje sob um
sol estático,
sem que recorram as
estações,
recolho formas
plenamente iluminadas,
que se entregam fáceis,
e se calam.

§

Não há faias na
América do Sul.


As que eu
quero, nem no
Mediterrâneo mais.


Estão abstratas no
poema de
Virgílio,
são refúgio da
sombra,
             desafio,
             abismo.


Olho a montanha:
minha,
alheia.
Pasta aí
um
gado insípido,
a vaca indiferente que
temos de
cobrir.

*



ARIRI VAQUEIRO [da tradição do TESTAMENTO DO BOI]
[Dona Edith do Prato {e Vozes da Purificação}]

Ariri vaqueiro
Vaqueiro prenda seu boi
Pegaram meu boi,  mataram meu boi
Esfolaram meu boi
Esse boi é pra dar
Ai ai ai esse boi é pra dar
Ariri vaqueiro Ariri vaqueiro
Vaqueiro prenda seu boi
Pegaram meu boi, mataram meu boi
Esfolaram meu boi
Esse boi é pra dar
Ai ai ai esse boi é pra dar
A tripa fina é daquela menina
Ai ai ai esse boi é pra dar
A tripa grossa é do povo da roça
Ai ai ai esse boi é pra dar
O acém eu não dou pra ninguém
Ai ai ai esse boi é pra dar
O patinho deixei pra mim
Ai ai ai esse boi é pra dar
O coração é do amigo Digão
Ai ai ai esse boi é pra dar
O mocotó é de sua avó
Ai ai ai esse boi é pra dar
A rabada é da rapaziada
Ai ai ai esse boi é pra dar
É pra dar meu bem, é pra dar
Ai ai ai esse boi é pra dar
É pra dar meu bem, é pra dar
Ai ai ai esse boi é pra dar
Ariri vaqueiro Ariri vaqueiro
Vaqueiro prenda seu boi
Pegaram meu boi, mataram meu boi
Esfolaram meu boi
Esse boi é pra dar
Ai ai ai esse boi é pra dar
A tripa fina é daquela menina
Ai ai ai esse boi é pra dar
A tripa grossa é do povo da roça
Ai ai ai esse boi é pra dar
O acém eu não dou pra ninguém
Ai ai ai esse boi é pra dar
O patinho deixei pra mim
Ai ai ai esse boi é pra dar
O filé da amiga Berré
O costão do menino João
Ai ai ai esse boi é pra dar
O coração do amigo Digão
Ai ai ai esse boi é pra dar
O mocotó é de sua avó
Ai ai ai esse boi é pra dar
A rapada é da rapaziada
Ai ai ai esse boi é pra dar
É pra dar meu bem, é pra dar

*

SOBRE VACAS E MOEDORES
[Rubem Alves]

Um amigo tinha um sítio. Colocou nele uma vaca. A vaca lhe dava uma enorme despesa. Teve de construir um estábulo, além de comprar uma picadeira de cana para a ração. As pessoas ajuizadas da sua família tentaram trazê-lo de volta à razão. “Com as despesas todas que a vaca lhe dá, o leite dela é o mais caro da cidade! Seria mais prático comprar o leite nos saquinhos plásticos...”. Mas ele me confessava: “Eles não entendem... Eu não tenho a vaca por causa do leite. Eu tenho a vaca porque gosto de ficar olhando para ela, aqueles olhos tão mansos, aquele ar tão plácido, tão diferente das pessoas com quem lido... Tenho a vaca porque ela me faz ficar tranqüilo...” Meu amigo sabia aquilo que seus práticos familiares não sabiam: que uma vaca além de ser um objeto com vantagens práticas e econômicas, é também um objeto onírico. As vacas nos fazem sonhar... Havia, na casa do meu avô, um quadro bucólico. Era um campo com grandes paineiras floridas ao fundo e algumas vacas que mansamente pastavam. Eu, menino, gostava de ficar ali, olhando o quadro. E me imaginava assentado à sombra das paineiras, gozando da felicidade de ter como companhia apenas vacas que nada pediam de mim. Não existe nelas nenhuma ética, nenhum comando. Nada querem fazer, além de comer o capim verde. Já os cavalos provocam sonhos diferentes: criaturas selvagens, cheias de uma beleza energética, relincham num desafio para as corridas desabaladas e o vigoroso bater das patas no chão. O relinchar de um cavalo é um grito de guerra. Mas o mugido de uma vaca, apito rouco de um navio vagaroso, soa como uma oração... “de profundis...” Acho que foi por isso, por essa sabedoria filosófica, que as vacas nos fazem sonhar, que os hindus as elegeram como seres sagrados. As vacas parecem estar em paz com a vida – muito embora o seu destino possa ser trágico. Trágico, não por causa delas, mas por causa dos homens, que pouco se comovem com seus olhos mansos. Cecília Meireles colocou num verso esta condição bovina, como paradigma da condição humana: “Sede assim – qualquer coisa serena, isenta, fiel, igual ao boi que vai com inocência para a morte.” Pois bois e vacas, esvaziadas de suas belas e inúteis funções oníricas, pelos homens práticos, estão destinados ao corte. Passei pelo açougue, lugar onde se realiza o destino das vacas. Um açougue é o lugar onde a mansidão bovina é transformada em utilidade comercial. Para serem úteis elas têm de morrer. Sobre o balcão, um moderníssimo moedor de carne. O açougueiro, afiando sem parar a faca, corta as carnes que, um dia, pastaram à sombra das paineiras. Por um buraco, à direita, entram os pedaços de carne. Ligadas à máquina, giram as engrenagens invisíveis que trituram a carne. Operação necessária para que a vaca se torne útil ao homem. Em sua placidez filosófica, a vaca não é útil à ninguém, apenas a ela mesma. É preciso que a máquina a transforme em outra coisa para ser útil ao homem. Na outra extremidade do moedor elétrico há um disco cheio de orifícios. Por ele esguicha a carne moída, que vai caindo em uma bandeja. Terminada a operação, o açougueiro toma um punhado de carne e o coloca sobre um pedaço de plástico, e, por uma manipulação destra, enrola-a sob a forma de rolo, como se fosse um salame. E assim vai repetindo. Sobre o balcão os rolos vão se acumulando, todos iguais, um ao lado do outro. Tentei conversar com os rolos de carne moída. Perguntei-lhes se sentiam saudades dos pastos, dos riachos, das paineiras floridas?... Mas parece que haviam se esquecido de tudo. “Pastos, riachos, paineiras – o que é isso? Parece que a máquina de moer carne tem o poder de produzir amnésia. Perguntei-lhes então sobre os seus sonhos. E me responderam: hamburgers, Mc Donald’s, Bob’s, churrascos... Só sabiam falar da sua utilidade social. E até falavam em inglês... Meditei sobre o destino das vacas e fiquei poeta. A gente fica poeta quando olha para uma coisa e vê outra. É isto que tem o nome de metáfora. Olhei para a carne cortada, o moedor, os rolinhos e vi outra coisa: escolas! Assim são as escolas... As crianças são seres oníricos, seus pensamentos têm asas. Sonham sonhos de alegria. Querem brincar. Como as vacas de olhos mansos são belas, mais inúteis. E a sociedade não tolera a inutilidade. Tudo tem de ser transformado em lucro. Como as vacas, elas têm de passar pelo moedor de carne. Pelos discos furados, as redes curriculares, seus corpos e pensamentos vão passando. Todas são transformadas numa pasta homogênea. Estão preparadas para se tornarem socialmente úteis. E o ritual dos rolos em plástico? Formatura. Pois formatura é isto: quando todos ficam iguais, moldados pela mesma forma. Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas - que pena – não sabem sonhar...

*

de INVOCAÇÃO AO BOI
[Jamir Firmino Pinto]

Bezerro Jaguané

Bezerro

              gorro dourado, jaguané
              nasce cupim florido
              garganta de guitarras
              geme


                              lento vitelo de cabriolas
                              seus chifres chanfrados
                              de jovem núbil a bailar
                              escamas deleite do rio
                              em guelras e barbatanas

Bezerro

              berra bafejo de plumas
              de painas em surdina
              clara corrente, agrião
              prende vagidos sonoros
              seus pendões de touros
              engalfinhados de amoras


Bezerro

               garrote infante
               a tilintar em tornos
               de látegos na garupa
               suas franjas de angico
               borrifam cruzadas
               barrigas do morro
               oitão de levantes


*

KAIANGO
[André Capilé]


há-de
a que veste a búfala

dia mesu ki lufa fundanga *
montada no ctônico

ensinar o touro
o que domar de cólera

:o pombo gogó na coleira do ódio

§

* do kimbundu, língua bantu:

dia [preposição de, da, do... ]
mesu [olho, modo de olhar]
ki [algo parecido com aqui e agora]
fundanga [fogo, fogo de pólvora]

Tradução aproximada: dos olhos [modos de olhar] que aqui e agora lançam fogo [fogo de pólvora, que explodem].

dos olhos que ora lançam chamas

(tradução do editor em conversa com o autor)


Alude ao caso de Iansã ter comido as bolas de fogo que eram endereçadas a Xangô, passando a também por fogo pelos olhos e ventas. O búfalo é um dos animais relacionados a Iansã (Oyá). "Algumas passagens da história de Iansã relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de novilho ou búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transformar-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça."

*



BOI LUZEIRO (OU A PEGA DO VIOLENTO, VAIDOSO E AVOADOR)
[José Paes de Lira]

Vem rodar no meu terreiro
Boi luzeiro
Vem soltar fitas na seca
Vem tacar fogo no mundo
Violento, vaidoso e avoador

Quando o dia nascer e morrer
Seu Nananun rei

Cigarro Pai Tomás cigarro (um trago)
Incensa a tarde baforadas de verão
Os retirantes já cruzaram meio mundo

Eu fico aqui esperando outro batuque
Uma mulher com dois olhos de trovão
A nau mergulhou, meu Bumba cadê?

Seu Nananun rei
Quando o dia nascer e morrer
Boi

*

CURTUME
[Frederico Nercessian]

          կարմիր կովը կաշին չի փոխում
          (karmir kovê kashin tchi pokhum:
          a vaca vermelha não muda o couro)
                     Ditado armênio

boi vermelho couro veste. se não vestisse, apenas boi, boi não-identificado. boi, uma vez que boi, boi veste couro. couro muda, mas boi que veste um couro não muda, corte o rabo, vista a sela, ponha pra pasto ou corte, vermelho que couro veste assim o é, gado. gado azul, couro também veste, mas isso é coisa outra. não é vermelho, é azul. no todo, dois bois, um vermelho outro azul. boi ideia, boi sensível, gado.

gado de sela, gado de pasto, gado de leite, um gado. mas boi, o que é? o que não é, sei, vermelho ou azul, pecuarista, de corte. boi é boi. boi, se vermelho couro veste, pasta, muge. bois de couros bois, tantos bois, e o vermelho apenas couro veste. boi come, arrebenta a cerca, foge da sela, coiceia a ceia, boi cansado de couro, muge ao ser chamado do que está sendo: gado. boi, é preciso que o diga, é boi. gado é outra história.

*

TOURO
[Orides Fontela]

I.

No verde campo
o touro
qual noite exposta
em claro
dia

no verde chão
da irrealidade
a violência:
o sangue contido
(ainda)


II.

No verde dia
(fábula)
a morte? A
               VIDA

– tão brutalmente
VIDA
que a tememos

*

DAR NOME AOS BOIS
[Adão Ventura]

Ai de ti, ó terra, quando teu rei
é criança e quando teus príncipes
se banqueteiam ao amanhecer.
                        – Eclesiastes

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
— de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

— Isolando-os da ralé dos bois de
corte.

*

AS MOENDAS
[Narciso Durães]

Desconheço o que não seja
a presteza da mão
em qualquer estação.
Não sei a geometria
da verdura dos canaviais
embalando o açúcar
na bruteza do chão.
Sei o mascavo das tendas,
o esguicho da java,
a garapa nas bicas,
nos cochos, nas tachas,
o azorrague no boi,
os dentes vorazes
das almanjarras ferozes
do diâmetro das tardes
vermelhas de agosto:
um lamento tão doce
quanto a lâmina da foice
e a engrenagem do mel.

*



TOURO FUMAÇA
[Mano Lima]

Mal se fechava o rodeio,
e já no primeiro momento se destacou um touro fumaça
que atropelava inté o vento
Era um zebu da canela fina que a gente duvida que existe,
sempre de cabeça erguida sólito e berrando triste

E atacando o rodeio num petiço alasão tava um guri de dez anos
que era filho do patrão
Piazito criado solto no galpão como xirú,
tinha uma estranha atração por esse touro zebu
O touro saiu bufando no meio da cachorrada
dando coice e atropelando dereito fundo da invernada

Gurizito deu de rédea pois gostava do serviço mais
quando viu o touro tava já cola do petiço
Não deu tempo pra mais nada, foi uma cornada só
e ficou o guri e o petiço tapado de sangue e pó.

Antes de morrer disse o guri pro pai vendo a desgraça:
não quero que vocês matem o touro Fumaça
Levaram com dois laço pra manguera o dito touro
pra no dia seguinte venderem pro matadouro
Na manguera em frente as casa onde se dava
o velório o touro fumaça berrava no mais tristonho ofertório

Que noite triste para o cedo
Enquanto velavam o defunto o touro zebu berrava
e a cuscada uivava junto, parecia arrependido e na canga desse pecado
Ele berrava tristemente como chamando o finado
Inté a lua lá no céu com uma tristeza que encerra iluminava
mais o touro do que as outras coisas da terra

Quase de manha calmou o berro igual um trovão
e ficou o silêncio esperniando no velório do galpão
Quando clareo bem o dia alguém foi lá na manguera
e encontro o toro morto no costado da portera.

*

ANTIBOI
[Ricardo Aleixo]

a vida como, p. ex., um anti-
boi de parintins: (porque)
nada é caprichoso,
nada é

garantido

*

BOI
[Caetano Romão]


ontem te pedi um copo d’água nem era manhã
você disse nunca fui rei
mas eu não ri
fosse mais simples medir a avaria
de maio acertado em cheio as ancas
o chão marcado aos palmos
desembestaria eu moleque rumo aos currais
a dar com a fuça nos bebedouros
a saber-me o tórax regato que nem dá pé
sem fazer troça das retinas se enxutas
em rumor dente osso goela abaixo
a meada das horas que teimam
em não enfatizar seu rosto
enquanto pastoreei silêncios

bem te queria bem
rosa boi menino
de cornos que concluem o arado
de calcanhar que caminha a uva
da língua que fabrica o vinho
trançar a cama inventar o barro

costurei sutilezas no boçal das pedras
e quando franco
propus saliva o bastante
pra pronunciar teu nome sem aspas
sei a parte de sede que há no pão
o punhado de pelos que há no sal
tentativa de erguer algo honesto
como a uma vontade
nem que fosse pra ignorar
o faro enveredado sobre os cochos
a terra decantada sobre as coxas
o lombo marcado a ferro e os cascos
que as moringas ainda são de barro
e minhas costelas não


*

O BÚFALO
[Clarice Lispector]

Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar. Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa. E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido. Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido. A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos. O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera. E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.

*

MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ {excerto}
[Mário de Andrade]

Eu vejo, não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas, fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.



Bumba-meu-boi, Belém do Pará, 1938
Missão Folclórica de Mário de Andrade


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segunda-feira, 11 de maio de 2020

As pausas do meio-dia e da meia-noite



As pausas do meio-dia e da meia-noite

         a Frederico Nercessian

atado
ao topo desse mastro
na rota
entre Ítaca e o Atol
das Rocas

sinto-me o periscópio
de um submarino
como se o tronco
de que o mastro foi feito
fosse um metrônomo
ou rede que balouça
à beira de barrancos
e abismos

sigo atordoando
o peito
contra as ondas
nesse afogamento
que de tão lento
quiçá evolva
guelras
e barbatanas

inclino
a cabeça e o torso
para que minha espinha
dorsal
herdada de um peixe
ora retorne
a sua origem horizontal

como se estende
um tapete
para uma prece
a Meca
ou a Terra
inclina-se em eixo
de anuência ao sol

e se eu estiver perdido
entre Itaparica e Ítaca
ou entre Ártico e Antártica

não quero nem o chororô
das falsas-orcas
que erguem suas cabeças
sobre o espelho da água
e então submergem
para entoar seu réquiem

nem observar o êxtase
dos peixes-bois
que boiam no sorriso
constante duma alegria herbívora
e então emergem
para baforar seu samba-enredo

cansa-me a flor noturna do cacto
que manda carunchos ao solo
por uma única madrugada
cansa-me o campo de girassóis
que dançam com juba loira
no meio-dia do sol da meia-noite

quero contraste nos meus olhos
para a sombra que se desenha
entre luz e obstáculo
como num piquenique
no eclipse minguante
e na lua crescente

sim e sim
que em minhas gaiolas
só cantem os pássaros
que cantam
logo antes do crepúsculo
logo depois da alvorada

como ao mirarmos o sol em cheio
fechamos os olhos
e na escuridão da noite sem lua
os arregalamos

*

Berlim, abril/maio de 2020

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