Rocirda Demencock

sábado, 13 de abril de 2019

Em transe com a poesia de João Vário


João Vário (Cabo Verde, 1937–2007)


Foi totalmente por acaso que descobri a existência do cabo-verdiano João Vário (1937–2007) e sua poesia sem paralelos. Estou totalmente absorto por seu trabalho. Faz-se urgente a edição de sua poesia no Brasil.

Nascido em Mindelo, na ilha de São Vicente, a 7 de Junho de 1937, João Vário foi o principal pseudônimo de João Manuel Varela, que também assinava certos textos como Timóteo Tio Tiofe e Geuzim Té Didial. Ele foi poeta, escritor, neurocientista, cientista e professor. Estudou medicina nas universidades de Coimbra e de Lisboa e doutorou-se na universidade de Antuérpia, na Bélgica, onde foi pesquisador e professor de neuropatologia e neurobiologia. Retornou à Mindelo natal após aposentar-se, e aí morreu a 7 de Agosto de 2007.

Descobri seu trabalho ao topar com a capa da reedição de seus Exemplos pela editora portuguesa Tinta-da-China, que vem fazendo um ótimo trabalho de recuperação de poetas da língua, como há pouco tempo na edição dos Poemas quotidianos de António Reis.

O volume Exemplos de João Vário reúne os volumes Exemplo Geral (1966), Exemplo Relativo (1968), Exemplo Dúbio (1975), Exemplo Próprio (1980), Exemplo Precário (1981), Exemplo Maior (1985), Exemplo Restreint (1989), Exemplo Irréversible (1989), e Exemplo Coevo (1998). Tente conseguir um exemplar. Eu estou caçando o meu. Abaixo, alguns excertos vários de Vário. Poeta gigante da língua.




EXCERTOS DOS EXEMPLOS DE JOÃO VÁRIO

Mas hemos de acrescentar o hino ao hino,
o signo ao signo, a mó à mó
como o pão se gasta para atenuar
a vetustez do mundo. Ah dizemos bem.
Não há expectativa que invente
a medida para esta bebida
entre foice e erva, entre a multidão e o desdém,
e, contudo, a vocação
bebe onde o mundo não quer
nem predissera, porque bebe deus
e parte de seu caos, essa parte
que escapa à causalidade e à profecia.

*

E todas as coisas jazendo sobre o pavor da boca,
hoje finitas ou nossas, amanhã paralelas ao cordeiro
de deus, magníficas,
como sabemos soprar sobre estas achas enquanto velhas,
todas estas coisas que chegam e não sabem como partir,
como sabemos nós evitar o azedar do leite,
ah todas estas fábulas mesmo com o galo molhado
este pão ou este galho com o seu esperma,
tal como não sabemos como a cabeça tocará o pó,
se de leste, de oeste, se lentamente ou
despedaçando-se, rápida, sobre o passado de Édipo,
e vimos os mesmos dias mas sem os mesmos óbolos,
fugindo de tectos malignos ou de areias vis,
e, porque vamos perdendo este dom da terra,
não há melhor fidelidade em toda esta prova
qua a que vem com a simples veemência,
a desdita de ficar com a boca de outrem,
impassível entre duas chegadas,
mudando a pele dos joelhos
ou deixando o sexo abrir
essa angústia divina, esse sarcófago bento.
Somos, por certo, o que esperam as coisas todas:
nem isto nem aquilo, apenas as melhores trevas.

*

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?

Vamos pela vida arrastando essas noções
de nação, de cultura, de civilizações
- coisas estranhas, sem dúvida, à índole do mundo,
da fraternidade ou da natureza,
porém coisas talvez da ordem das coisas,
das fábulas ordinárias,
mas será que somos disto ou daquilo, que a verdade é essa,
que não escutamos senão de dois ouvidos
e há um país para a leitura
dos nossos mitos próprios
e que a alma não acende além do madeiro recebido
as parábolas que o auxílio sugere
e as volvem, quando deus morre, melhor árbitro do mundo?

*

Sabe-se que os homens são fracos, volúveis,
que esta terra é pequena e molesta,
e o bem e o mal apenas são esse tédio das euménides,
porque, em verdade, os justos não se revoltam,
as musas são imperturbáveis
e não pode haver Sodomas e Gomorras indefinidamente,
porque o homem olha e é Deus que se faz estátua.
Tal, se nos interrogamos sobre o sentido do desvelo
ou da violência, como ele as duas metades
do nosso corpo separa, dando metade
às nossas camas e a outra metade distribuindo
por estranhos como moeda pobre ou erva de Constantinopla,
o fundo tocamos de tal imprevidência e a abundância
que a vida reduz a essa conta divina: o âmago irreconhecível,
a casa, a mulher e tal dom da imaterialidade, da decifração.

Homem de pouca fé, por que temes o peso dos teus passos?

*

Da morte nos ficou esse dom de a pensarmos
como coisa sua, coisa por que a pensamos
e acaso não a exprime, porque a
designamos.
Bizarro não é, pois, estar morto, mas lograr
que o tempo em si consigo não aja,
e erga a mão como quem sabe que a mão é
nossa
e não exprime
o que ambos exprimem,
uma, por mão, outro, por tempo que
aprende,
exprimem e juram em redor da mesa.
Para o que há sido o modo, a qualidade
de uma infinita aparição
ou o que há de exílio no exemplo que a
dissemina,
decidem a tradição e a carência
a espécie de facilidade que rememoraremos.
Sobretudo, decidem quando devemos
morrer
para pagar
a legitimidade ou o que há sido anomalia.

Porque de tudo nos ficou esse donde não o sentir, de ficar com ele
só quanto seja a coisa que não tivemos.
A maturidade ou a alegoria que a tem
de outra coisa, oh a maturidade
não nega o que tememos.
O que queríamos dizer está já morto;
que poderíamos, pois, agora
acrescentar a essa alegria?
Da condição da morte, o que morre
é nosso, e, além dele, dos bens nossos.

*


E então subimos aquele grande rio
e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do pais
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

*


Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosissimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

§

Leia um artigo de Rui Guilherme Silva sobre o trabalho de João Vário e também do escritor Armênio Vieira, primeiro cabo-verdiano a ganhar o Prêmio Camões, em 2009, além de Germano Almeida no ano passado: 

de Rui Guilherme Silva.

Leia o obituário escrito por Alexandra Lucas Coelho
n'O Público quando morreu o cabo-verdiano:
"João Vário, o poeta quase secreto"

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Sobre o Parque da Redenção em Porto Alegre e uma tela de Iberê Camargo


Iberê Camargo - ‘Ciclistas’ (1989)



Não conheço Porto Alegre. As imagens que sempre tive de lá estão ligadas a três artistas brasileiros do século XX: o romancista Erico Verissimo (1905–1975), o poeta Mario Quintana (1906–1994) e o pintor Iberê Camargo (1914–1994). Dialogo e acompanho o trabalho de alguns gaúchos contemporâneos, muito diferentes entre si, como Veronica Stigger, Angélica Freitas, Fabiana Faleiros, Melissa Dullius, Eduardo Sterzi, Marcus Fabiano Gonçalves, Gustavo Jahn... mas deixaram todos eles os pampas e os capitães-rodrigos pelos frangalhos da Mata Atlântica e os sargentos-de-milícias. Eu os imagino agora, bebericando aquele horror de amargura intolerável que é o chimarrão. Uma parte de mim nunca conseguirá confiar completamente neles por realmente GOSTAR daquilo.

Enfim, isso tudo apenas para dizer o seguinte. Em 1999 houve uma retrospectiva de Iberê Camargo na Pinacoteca de São Paulo. Aquele ano foi muito marcante para minha formação em termos de arte visual: além desta, fui muito impactado então pela retrospectiva de Lygia Clark no Museu de Arte Moderna de São Paulo, de Samson Flexor na FIESP, além de grandes exposições de Arthur Bispo do Rosário e José Leonilson já não me lembro onde.

Eu caminhei pelas salas com quadros de Iberê Camargo em transe. E uma série de telas me trouxe lágrimas aos olhos, nunca me esqueci. Eram os seus “Ciclistas”. Uma delas tinha um título que era um poema em si, ‘Ciclistas no Parque da Redenção’. Aquilo era uma metáfora maravilhosa da vida, da existência de tudo! Éramos todos isso: Ciclistas no Parque da Redenção. Eu jurava que era uma metáfora. A metáfora que eu jurava ser metáfora (e é) acabou entrando num poema que dediquei a meu velho amigo e concidadão de república estudantil, Pablo Gonçalo, no meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005).

Pois esta manhã eu quase caio da cadeira em conversa com Melissa Dullius quando ela menciona o Parque da Redenção... que existe. Os ciclistas no Parque da Redenção eram ciclistas mesmo, no mui físico e localizável Parque da Redenção. Mas fazer o quê? No Brasil pode-se até pegar um ônibus da Consolação ao Paraíso.

A pêndulo, a represa

      “onde o sino triparte o maior desespero
                     ao som tríplice do teu nome.”
                                 — Christine Lavant

                        a Pablo Gonçalo

Entre o
anúncio do dilúvio e o
deserto vermelho,
nosso tempo e nosso peito;

entre o
temor e o terror,
o corredor estreito,
mas nossos pés são pequenos

“once human always an acrobat”

o fardo leve
e o jugo suave
dos ciclistas no parque da redenção:

a oeste do meio-dia
existir segue denotando
e pressupondo movimento

e o descanso é eterno
e condicional.

— Ricardo Domeneck, in Carta aos anfíbios (2005).


Vista aérea do Parque da Redenção em Porto Alegre, oficialmente Parque Farroupilha.

§

Notas:

1- “once human always an acrobat” é uma citação de Rosmarie Waldrop.
2- Leia o poema completo da austríaca Christine Lavant, do qual extraí a epígrafe,
na Modo de Usar & Co.

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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Alguns poemas contemporâneos que eu gostaria que vocês conhecessem


Sabugo
André Capilé

1. um possesso

nunca nasci e assim me lembro.
tudo que tenho é o que carrego

no corpo: planisfério pele
e pelo — o que chamar de meu.

2. no teste dos dentes

imprescindível — para estar

íntimo — o silêncio.
tudo que sei desse pão
— que fazer desconheço —
é o mastigo.

do coração — pânico — não digo.

3. o afeto

só posso dar o que é meu.
e não me violento. naturalizo
algo frouxo de gesto e viço.

4. quando sou

não eu. raso me conheço e duro.
o resto é enquanto muro

a manutenção dos meus dias

(o que me faz sólida alvenaria
na reza medida dos tijolos do pórtico).

5. repentino

aguardo a constante surpresa,
embora nenhuma constante
surpreenda.

agarro a boca convicta
de não estar mímica.

a bolsa, mínima, desova
boas novas caídas por desuso.

6. no espólio

optar por mim
nunca foi boa aposta.

continua silêncio.

será que me chamam?
tudo que sei é agora.

7. das fruteiras

o alguidar e as frutas.
e as moscas nas frutas.

continua silêncio aqui.
e continua silêncio comigo.

obceco a fruta em tato cego.
bruto, sopro as moscas e sigo.

8. na mímica

não eu. algo que me falta é sem mímica.
meu escólio: forçar a escolha do toque.

fiar por fiar: já respirei sem janelas.

e o coração ainda pânico.
e nada do corpo se cabe.

9. de caber

e não me caibo, caibro pouco
e nada. ao conhecer a nudez,
diferi: vesti as estrias da noz.

10. avarandado

não haverá tradução de imagem
um salto? faz dia. a manhã já é.

lúcido

o sol arrasa as pernas
cortadas à sombra das persianas.

11. se sedento

estou, não movo passagens.
resumo tudo em estadia. se

sedento, bebo como quem percebe,
na colha, a bulha de folhas secas.

12. no fim

a areia silencia
a coreografia
de pequenos saltos.

cumpre o silêncio formigar domingos.

*

coisas que se quebram
Dirceu Villa

mecanismo de relógio:
manejo a pinça
& cuidado,
patas de inseto: cílios
com pegadas;
pequeno, tudo parte
& corre risco, coisas
que se quebram.
& como, tão
quebrados & partidos
não contamos
os resquícios, apegar-se
a todo vício de
viver:
o que sei o
que amo, frágeis
elos da cadeia, mí-
nimos confortos
de uma idéia & tão
no entanto
humanas
coisas que se
quebram,
que se não se sabem
ou se respeitam
pactos
como esses, micros-
cópicos, não
germina amor nem
nada bom
deriva disso, tão minús-
culo impreciso de-
licado
ajuste.

*

Arame falado 
Marcus Fabiano Gonçalves


A

pela cabaça larga do berimbau, soa a garganta árabe do arame:
alambre que lembra o barbante em fio de ferro, lata ou estanho
a fina corda vocálica dos bantos, no varal ao vento, sem grampos

E

atenção a essa civil barricada bélica em sua ameaça nunca discreta:
CUIDADO: CERCA ELÉTRICA – no fio do mourão, o limite da gleba
torcido a torquês, a prego e martelo, ou urdido em arame na rede da tela

I

o artífice molda a gargantilha, o equilibrista sobre seu chão mínimo
um fio encapado que percorre condutível a bipolaridade alternativa
e de cujo enrolar nasce a bobina, essa mãe magnética do eletroímã

O

hoje a cobra vítrea da fibra ótica, ainda ontem os dois polos de cobre
o arame aéreo do telégrafo no poste, esse bisavô de wireless e modens
passando ao telefone seus trotes a bits e torrents, bisnetos do Morse

U

um arame que só sirva no mundo ao metalescente fio do discurso
flexível e dúctil, livre de acúleos, arame que jamais cerque redutos
como guetos de surdos, um arame falado: fio de luz no crepúsculo.


*

As quatro estrações
Érico Nogueira

1.

A noite, e tudo o que é escuro e cíclico
e liquefaz-se ao tempo do farol,
está predita em todos os testículos,
nas orquídeas que chegam com a estação,
embora não vejamos. Só o ouvido,
que pinça o inominado, pinça, então,
do rio a cuja beira estive, estou,
o ar da bolha, da que morre o grito.
Eu não ouvia bem naquele tempo
quando meu olho, então recém-aberto,
se iluminava, fixo no desenho
que as folhas têm olhadas mais de perto;
tanto pior, tanto mais fria a noite
de quem vai nu ao mar, vai nu ao monte.

2.

a João Ângelo

Durante o átimo em que se aniquilam
dos corpos toda sombra e traço dúbio,
quando o globo é mais túrgido e mais nítido,
tem mais saliva a língua, que mergulha,
é quando o espinho, antes imprevisto
em fruta incandescente assim, e úmida,
entala na garganta e não afunda
se não levar quem mergulhou consigo.
Eu cuidava que as águas eram rasas,
e que corais nem pérolas havia
senão os ossos que à maré mesquinha
apetecia abandonar na praia:
lambido o fogo, vi-me em água densa
abrindo a ostra ao fogo nada infensa.

3.

Amarelece o ar, a terra, a água;
o fogo amadurece e, doce, azula;
se incide sobre as pedras na penumbra,
ele descobre-lhes a face exata
e delas vai fazendo busto e estátua:
tendo subido aqui, a esta altura,
indiferente sob estio ou chuva,
vejo que pedras tenho só, talhadas,
mas pedras mesmo assim. Pergunto ao fogo
de que me vale a mim a galeria,
se em breve escorrerei ao negro poço
e passarei: “De nada valeria,
se a cerejeira não florisse agora
sob o vento que passa e a luz que doura.”

4.

E a nuvem torna, torna enfim o vidro
de que se enche aquele mar imóvel
onde o cardume acaba, e o rio que corre;
o louro seco, a taça já sem vinho
e a neve elementar no céu friíssimo
parecem proclamar que se dissolve
o quanto pelos lábios dança e escorre:
se o galho esplende, pesa sobre o abismo.
Neste penhasco, na aridez da pedra,
me apronto agora para ser levado,
para voltar enfim a ser areia,
e penso em tudo, e olho a todo lado;
não sei se é luz ou não o que há no gelo,
mas sei que é calmo, que não vou temê-lo.

*

sereia a sério
Angélica Freitas

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado

a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia

não quero contar a história
depois de andersen & co.
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa

em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do méditerranée

são duros os procedimentos

bípedes femininas se enganam
imputando a saltos altos
a dor mais acertada à altivez
pois
a sereia pisa em facas quando usa os pés

e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse

em vez do elefante dançando no cérebro
quando ela encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão

§

[ainda consigo escutar a máxima que cambaleia sobre a terra]
Érica Zíngano

ainda consigo escutar a máxima que cambaleia sobre a terra bêbada
insistindo nisso que relembra o erro de acertar a carta
e perder o jogo
todos já nascemos para trás
e continuamos evoluindo em busca
de um silêncio que conjugue
a vibração exata do período de resguardo
e o sono que regenere e nos faça amanhecer
sem rugas
eu faço experimentos eu misturo substâncias
eu não sou a primeira
eu não serei a última
nem todas as formas estão corretas
mas não existe uma regra
você pode confiar nas suas escolhas
apertar botões
selecionar estados de ânimo e alturas relevantes
nada será compreensível
até o ponto em que fulminante
o trem passa e lhe leva para outro lugar
antes de você nascer
nada pode consolar mais do que
o seu próprio vazio acolchoado
mas nem todos estão preparados para abrir a porta
vai ser necessariamente assim
existe um emissor e o receptor abre a carta
corta as bordas
rasga o tempo do envelope
aí começamos a descobrir de novo
quando o elevador está congestionado
e as paredes cheiram a esperma de um cinema pornô velho
os pênis nunca funcionaram como bons faróis
                         [para os navegadores
astutos a cachaça talvez
o problema são as vozes que começam a se acumular
no fígado e ao invés de regenerarem
não conseguem filtrar
mas é verdade que podem ser úteis para pendurar quadros
eu falo dos pregos dos pênis dos imãs de geladeira
necessariamente a ordem está invertida
eu falo de como você se nutre para depois explodir
e aí só depois os livros são vendidos limpos
passados a ferro
inúmeros exercícios de corte e feiras de eventos
mas os frágeis os sensíveis os indispostos os que têm
                         [vontade de vomitar
não conseguem acompanhar e ficaram presos
em algum ponto em que nem eles mesmos conseguem identificar
são os primeiros a morrer

*

Elites dirigentes
Sebastião Nunes


Q. de QUERMESSE. Ex.: «Nostalgias brasileiras/
São moscas na sopa de meus itinerários»

Quem somos? De onde viemos? Pra onde vamos?
(A elite dirigente do país se interroga.)

Somos decerto filhos da anterior elite.
Viemos é claro das escolas do poder.
Vamos é lógico construir um nova elite.

Quem semos? De onde vamos? Pra onde viemos?

(Na brasílica privada a elite penca e saga.
Merda fosse dinheiro pobre nascia sem Cu.)

*


[é uma lovestory e é sobre um acidente]
Márilia Garcia

é uma lovestory e é sobre um acidente
primeiro, a cena congelada
um dedo pousa no vidro,
a tela vibra.
                    você lembra o que
disse na hora? você gritou? doeu?
você lembra do que aconteceu?
a curva, a chuva, um clarão.
(depois ela acabou,
foi embora para belfast.)
você lembra o que disse na hora
em que o carro deslizou?
três horas na chuva esperando,
a curva, o estrondo, você lembra?
você entre as ferragens
perguntando o que houve.
(mas isso é um acidente
e é sobre uma lovestory.)
o amor, diz, é um efeito especial
pensa que viu tudo
mas quando acende a luz
os pontos
cegos se espalham:
          uma fossa abissal, uma nuvem
de distância e uma cidade chamada Vidro ou
Vértice
                    Volpi ou Verdi
o amor é alguém entrando
na geometria da sua mão
neste momento atravessa o corredor:
– não há mais isso entre nós,
de onde o timbre da sua voz
um efeito-estertor
(dentro do poema
pode sentir o efeito
e nessa hora todos os porquês
ficam guardados
em concha)
o amor é isso, diz,
não um corvo
mas um impermeável vermelho
pendurado na janela vindo de outro poema
para tocar na sua tela.
é você comendo o amarelo que sobrou
depois do estrondo.
o amor é este olhar que mancha
a retina na hora da emergência
um olho cinzento que treme
sempre que muda
de hemisfério.
“é difícil olhar as coisas
diretamente”
elas são muito luminosas
ou muito escuras.
2/3 deste país são feitos de água
e sempre que se vira, um
afogamento.
                    apenas um mergulho,
dizia a imagem. vamos ver o deserto,
andar pelo centro do mundo?
mas isso é um dicionário
e é sobre uma lovestory.

:

lovestory,
de a-z
a curva, a chuva, um clarão
a curva, o estrondo, você lembra
a retina na hora da emergência
a tela vibra
afogamento
apenas um mergulho
cegos se espalham
centro do mundo
de distância e uma cidade chamada vidro
de hemisfério
de onde o timbre da sua voz
dentro do poema
depois do estrondo
depois ela acabou
diretamente” elas são muito
disse na hora? você gritou? doeu
dizia a imagem, vamos para
dois terços desse país são feitos de água
e é sobre uma lovestory
e é sobre uma lovestory
e nessa hora todos os porques
e sempre que se vira
é difícil olhar as coisas
é você comendo o amarelo
em concha
em que o carro deslizou
ficam guardados
foi enviada para belfast
luminosas
mas isso é um acidente
mas isso é um dicionário
mas quando acende a luz
na geometria da sua mão
na janela vindo de outro poema
não há mais isso entre nós
não um corvo mas um impermeável
neste momento atravessa o corredor
o amor é um efeito especial
o amor é alguém entrando
o amor é este olhar que mancha
o amor é isso
os pontos
ou muito escuras
para tocar na sua tela
pensa que viu tudo
perguntando
pode sentir o efeito
primeiro a cena congelada
sempre que muda
três horas na chuva esperando
um dedo pousa no vidro
um efeito-estertor
um olho cinzento que treme
uma fossa abissal
uma nuvem
vermelho pendurado
vértice
você entre as ferragens
você lembra do que aconteceu
você lembra o que
você lembra o que disse na hora
volpi ou verdi

§

Museu da Polícia Militar
Fabiana Faleiros

BOLETIM DE OCORRÊNCIA N 548
MÊS/ANO: Junho de 2013
NATUREZ: Apreensão de cartaz
COMUNICANTE: E.S.
PROFISSÃO:prostituta

HISTÓRICO

A Prostituta E.S. segurava um cartaz com a frase “Sou feliz sendo prostituta” traduzido para a língua inglesa: I'm happy being a prostitute. Relata que pretendia somente exercitar o seu vocabulário para a Copa do Mundo. Ela não estava em nenhuma manifestação, estava sozinha. Não estava com nenhum cliente. Tampouco estava esperando um cliente. Relata que não estava fazendo programa e que não estava em uma manifestação. Era um exercício. A prostituta explicou que aprendeu a escrever em inglês no curso especial para a Copa chamado May I Have a Seat?, focado no vocabulário usado nos programas. Era uma tarefa do curso. A frase escrita foi identificada como plágio da campanha “Sem vergonha de usar camisinha”. A prostituta foi advertida que o Ministério da Saúde cancelou a campanha que combatia doenças sexualmente transmissíveis e valorizava a prostituição. Portanto o cartaz da prostituta foi apreendido, passando a integrar o Museu da Polícia Militar. A mulher foi encaminhada para uma delegacia da mulher, especializada neste tipo de ocorrência.


BOLETIM DE OCORRÊNCIA N 976    
NATUREZA: Invasão de domicílio
MÊS/ANO: Julho de 2013
COMUNICANTE M.F.
PROFISSÃO: artista visual

HISTÓRICO

Relata que se encontrava em sua residência artística quando começou a ouvir batidas na porta (na porta havia a placa “O artista está ocupado”) e logo após os acusados arrombaram a porta entrando na residência artística e partiram para a ocupação do local, que desde a remoção do Museu do Índio eles vivem lá, às vezes chegando a ser mais de 8 pessoas ao mesmo tempo. Que os acusados geraram transtornos que foram noticiados pelos veículos de comunicação. A vítima havia falado para o noticiário quem havia feito as ações de baderna logo depois a vítima teve que chamar a polícia. Desde então os acusados vivem na residência artística impedindo os artistas residentes de realizarem suas obras de arte sempre chamando a polícia quando os acusados retornam.


BOLETIM DE OCORRÊNCIA N 02
MÊS/ANO: novembro de 2013
NATUREZA: Apreensão de cartaz
COMUNICANTE: R.T.
PROFISSÃO: autônomo

HISTÓRICO

Homem negro de 25 anos foi abordado nos arredores do metrô Anhangabaú na cidade de São Paulo portanto um cartaz que promovia uma balada funk. O homem relata que não está promovendo “rolezinho” que muito pelo contrário ela está divulgando uma “balada” funk, o que é diferente de um baile funk ou rolezinho. A balada acontece no centro de São Paulo e que ele está ali por causa disso, procurando um promoter para divulgar o evento e que há tempos a música funk é ouvida fora da favela por pessoas de classe média e até mesmo classe A. O homem foi advertido de que não pode mais haver bailes funk na cidade de São Paulo que foram proibidos. Foi preso até que a “balada” seja averiguada.


BOLETIM DE OCORRÊNCIA N 909    
NATUREZA: Falsidade Ideológica
MÊS/ANO: Junho de 2013
PROFISSÃO: artista visual

HISTÓRICO
Homem de terno e gravata, sem expressão de desespero, utilizando máscara do rosto do empresário Eike Batista porta um cartaz em manifestação com os dizeres I'm desesperate (Eu estou desesperado). O homem de aproximadamente 21 anos de idade relata que ele não é autor do cartaz o qual na verdade é uma réplica de uma série de cartazes feitos pela artista inglesa Gillian Wearing que entregava folhas em branco para pessoas aleatórias nas ruas pedindo que elas escrevessem o que estavam pensando no momento. Disse ainda que a obra se chama What's on your mind? (O que você está pensando). O homem foi preso por falsidade ideológica por tentar se passar por outra pessoa e por plágio de obra artística. O acusado também foi enquadrado em desacato à autoridade por gritar repetidamente a frase “Eike desespero! Eike desespero!”


BOLETIM DE OCORRÊNCIA N 03
MÊS/ANO: novembro de 2013
NATUREZ: Flagrante
COMUNICANTE: Patrícia Alves
PROFISSÃO: desempregada

HISTÓRICO

Morena de 23 anos, conhecida como Maria UPP, foi flagrada praticando sexo grupal com policiais dentro de UPP's já em várias favelas do Rio de Janeiro. Os policiais que mantiveram as relações fizeram vídeos e fotos que foram divulgados na Internet onde a mulher aparece nua e fardada, segurando um fuzil. A mulher afirma que mantinha relações sexuais com vários PMs ao mesmo tempo que fez isso porque quis, porque gosta e faria de novo. Afirma já ter estado em todas as UPPs do Rio de Janeiro e que inclusive tatuou “UPP” próximo a sua vagina. Que pratica atos sexuais há 5 anos com policiais em horário de plantão durante a madrugada mas que também saiam juntos fora do trabalho. Ela não recebe para manter as relações, mas pede que pagem o taxi, e se possível, um lanche. Que se relacionou com aproximadamente 1000 policiais e que nunca imaginou que apareceria na mídia. Diz que não mantem mais contato porque trocou de número. Afirma que não faz parte de nenhuma facção criminosa que fez por conta própria. Não acredita ter cometido crime nenhum, consciência tranquila, sustentada pela família. A morena diz que sempre gostou muito da polícia, teve a oportunidade e fez por prazer.

*

[Praça do Sol às 3 da tarde]
Reuben da Rocha

Praça do Sol às 3 da tarde
risca o fósforo do incendiário
Praça do Sol às 3 da tarde
abre as narinas p/ o fedor dos muros
Praça do Sol às 3 da tarde
esconde a senha dos holocaustos
Praça do Sol às 3 da tarde
enerva cada coração covarde
Praça do Sol às 3 da tarde
aponta os mísseis à glória
Praça do Sol às 3 da tarde
depila as tuas rameiras
Praça do Sol às 3 da tarde
apascenta teus ambulantes
Praça do Sol às 3 da tarde
despista o fumo dos policiais
Praça do Sol às 3 da tarde
oculta o raio do cego
Praça do Sol às 3 da tarde
acode o baque das ondas
Praça do Sol às 3 da tarde
distrai o tédio do pipoqueiro
Praça do Sol às 3 da tarde
loas ao biquíni túrgido
Praça do Sol às 3 da tarde
acorda a renca dos ventos
Praça do Sol às 3 da tarde
diz a gíria do guardador de carros
Praça do Sol às 3 da tarde
toma gosto c/ as empregadas
Praça do Sol às 3 da tarde
pendura a nuvem nos galhos
Praça do Sol às 3 da tarde
trocados ao vendedor de coco
Praça do Sol às 3 da tarde
ouvido ao reggae das bacantes
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde
devora a muvuca das gentes
cede teus bancos às fodas
legisla a rixa dos traficantes
senhora injuriada das trapaças
abre tuas pernas p/ os pivetes
engole o mijo da criança

*

Limite
Juliana Krapp

Sebe é um acúmulo de varas entretecidas
cerceando
por vezes sim por vezes não

eu sei
do esforço para persuadir
naturezas terríveis

simultaneamente
à graça dos perímetros
que permanecem estanques

(a dor de coabitar
tanto as frinchas quanto os
confinamentos)

Quando rarefeitos, os movimentos
aguardam mais do que a conclusão, preferem
o desdém e o resguardo
ou mesmo esse estalido
(um arquejo)
embalado
pelo embaraço hipnótico
das pequenas sombras

Somente as ventanias são de fato enamoradas
e apenas nelas alijam-se
as imundícias mais profundas

como somente os ramos
estraçalham-se e engravidam-se
num único carretel de músculos em escombros

(um aparelho de tensões
alimentado pelo ritmo
dos sumidouros)

*

O cineasta do Leblon
Hilda Machado

“Aquele que escavar em sua consciência
até a camada do ritmo e flutuar nela
não perderá o juízo.”
Nina Gagen-Torn


O brilho de laranja ao sol
amendoeira rubra e pavão
oculta sobressaltos faustianos
encenam-se dramas na alma
suadas peripécias
lágrimas
mímesis
em sítios escusos está a mocinha raptada por um turco
e a nudez do missionário espancado
folheia-se uma antologia de acidentes
títulos afundam
e no lodo
personagens sem nome
e escândalos de fancaria

O comércio incessante
distrai das caudalosas sociologias do fracasso
idades do ouro perdidas
terror espetacular
recorta o esforço de colosso trágico
alçar-se acima da imensa massa de vencidos
violinos pela indesejada que fatalmente alcança e ceifa
carnaval exterior que é dublagem

Nos domingos de lua cheia
um infante sôfrego obriga a minuciosos tratados
miuçalhas
monopólio
asperezas
contrabando
e então
razias de corsário

na lua nova cruzo a cidade pra beijar a sua boca
transpor morros e encontrar a elevação
tropeça-se em pétalas de rosas
em trufas
visitas ao paraíso
as quartas-feiras são turvas
e trazem as penas do inferno
telefonemas seus
telefonemas meus
telefonemas da outra
e a ex
compomos o obrigatório conflito
repetir com honestidade a velha trama
até que ao fim do primeiro bimestre
erra-se no açúcar
escorrega-se na farsa
e mudam-se todos para a novela das 7

Homem da lua
fantasia de rudes hormônios
o bicho se coça
fervor marcial e bico de passarinho
cavalo rampante que rasga com as patas convenções de estilo
atravessa pontes queimadas
alcançou o vale feroz
terremoto maior que o de Lisboa arrasa cidadelas
afrouxa parafusos
e do colchão abala a mola-mestra

ouviu, carro?
tribos bárbaras desabam sobre a minha Europa

ouviu, montanha?
mudaram os livros que eu agora levo pra cama
antigas lendas fabulosas
uma grosseira rapsódia
cinco escritos libertinos
eu bebo como num banquete em Siracusa
e gozo como as prostitutas de Corinto
palmeira, ouviu?

*

[em noites mais quentes fazemos chás]
Carla Diacov

em noites mais quentes fazemos chás
da primeira mansidão da noite quente
chás
ou então sopas
das folhas imóveis das pedras agitadas
mentira
é que faz-me falta ter o homem do adubo
é que faz-me falta ter a mulher do adubo
nas noites mais frias faríamos sorvetes
ou então mentiras
é que eu estou só
estou só
conheço tudo pelo tato
em noites amenas estou só e toco a campainha dos vizinhos e corro
                          [pra debaixo do lençol só

uns fios de estar só
uns fios de cabelo na boca e só

o peso dessa espera me puxa pra cama
a gravidade dessa espera faz-me mais
longa me joga aos postes
me empurra ao largo das borrachas infláveis

estou só
conheço tudo pelo tato
a mentira dos olhos ouvidos
o truque nos joelhos dos poetas

faríamos chás sorvetes mentiras sopas

*

No bolso as moedas
Ederval Fernandes

perder o amor
não é perder o lápis
o relógio
de preguiça perder o poema
ou o comboio o elétrico 15E
sentido algés
por 6 minutos
a mais na cama
nas contas a serem
pagas nas culpas
nunca suturadas
perder o calor
do café
o amor perdê-lo não é
como precisar ir
mas ficar
andar e não correr
atrás disso
que fácil e lento passa
em frente à porta (ouvir
Dylan para entender
o uso deste sample)
perdê-lo o amor não é
como ir à praia sem querer
ir embora
e descobrir depois:
o melhor era ficar
perdê-lo o amor
é impossível
no bolso as moedas
se escondem
mas não
desaparecem

*

Metafísica e biscoito
Leonardo Fróes

no meio dos latidos da noite
quando o silêncio atinge a qualidade
dos latidos da morte e as folhas caem
impressionavelmente sangradas;
no meio frio de um colchão inquieto
com os olhos pensativos resvalando no teto
e as mãos descendo pelo corpo
como a buscar sua realidade longínqua
quando os morcegos da melancolia
atravessam sem bater entre as árvores
e alguma coisa enraizada confusa
parece brotar de novo entre as pernas;
nesse espaço fundamental reduzido
onde as idéias se sucedem largadas
numa associação intempestiva
que é impossível deter ou compreender;
no cerco sem limite de um quarto
que roda em vários mundos e alterna
com a sensação de não haver nada disso
que dá contorno e forma à própria insônia —
— o homem dá um salto e se puxa
para fora do pântano
e devora um biscoito
e bebe um copo d'água e acende
um cigarro e mais outro.

*

[os pés de prato o barro]
Eliane Marques


os pés de prato o barro
os calos os mais redondos
o azul dos cílios o cinza
a redonda bacia das batatas

tudo encefalotrapo
batom terracota retratos
barulham o mesmo tudo
o mesmo nome muro abaixo
o brinco dos quais as contas
o lenço no trirreme onde troncos
troços um sonho
pan tan pan sobre os ouvidos
as veias as mais finas –
os puros-sangue da rainha

esquecidos os braços
no mármore de salamina
que outra seja a remadora
a madrepérola da rotina

que outro seja o azedo
daquela maçã nas papilas


*

[O futuro? Tem orelhas]
Júlia de Carvalho Hansen

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.
Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

*

Sobre o tempo
Lívia Natália

Se este vento persistir ainda alguns verões
e a flama acesa ainda banhar a mesa
e dançar nas paredes com suas sombras luminosas,
teremos pão. Teremos corpo,
e algo de um silêncio que não nos corte muito fundo.
Teremos a lâmina com seu fio imperfeito tangendo os tempos.

Em persistindo o vento sobrelevando as estações
Ainda serão seus cabelos que lamberão minha virilha
e terei seus olhos fechados me tateando no ar.

Em persistindo,
para além da chuva imensa e do acre que devora o verão
esta alegria descortinada e estes olhos de lágrima e brisa,
mais seremos um para o outro,
e estaremos mergulhados neste entreentranhas que,
quando venta,
somos nós.

*

o que aconteceu conosco
Philippe Wollney

que neste inverno
o que nos tira o frio
são as fagulhas de nosso inferno

o que aconteceu conosco
o sarcasmo de nossos olhares
transmutado
na tragédia do zodíaco a dois

o que aconteceu conosco
a manhã sorridente de papel celofane
dasanuviado
a sobra apenas dos caninos

o que aconteceu conosco
abraços carregados nos dentes
afagos nas cáries
e um delicado carinho de barbárie

o que aconteceu conosco

brotoejas de anêmonas no pescoço
trocando colares
de dedos e dentes de crianças

o que aconteceu conosco

tórax essa caixa de muambas
coração do paraguai
um futuro made in china

o que aconteceu conosco

o reduto do vinho, o umbigo
parada obrigatória
da língua na chaga no ventre

o que aconteceu conosco

assovios de encantar serpente
da cobra
a pele morta do dia aparente

o que aconteceu conosco

o que se abria em lábios
do beijo
o sobejo de uma carne que não se digere

o que aconteceu conosco

pés que tilintam são ecos
em um salão vago
e uma sinfonia de calos e vida encravada

o que aconteceu conosco

que de morno os nossos nomes
o mofo
e a fome de pastores tangendo o rebanho

o que aconteceu conosco
o que aconteceu com nós
com os nós

*

Transmissão 
Tatiana Pequeno


Álibi que encosta a crosta da língua
no cerne do pavio,
na gordura espessa da várzea,
no efeito cáustico do globo em brasa
brisa noturna de vespertinas covas.

Olhei vestida de soldado
com quepes de molho,
pura sanitária
e com bastões e estandartes de ouro
reconheci no aspecto homogêneo da arnica
a benfeitoria dos apaches, meus irmãos.

Olhei vestida de álibi a crosta do pavio,
como se houvera sido pedra
não fosse o papel incendiário a que sempre sucumbi
o selo legítimo dos lipomas.

*

Conheço vocês pelo cheiro
Ricardo Aleixo

Conheço vocês
pelo cheiro,

pelas roupas,
pelos carros,

pelos aneis e,
é claro,

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

que algum
ancestral remoto

lhes deixou
como herança.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

e pelos cifrões
que adornam

esses olhos que
mal piscam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

e a tudo que
nega a vida:

o hospício, a
cela, a fronteira.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de peste e horror
que espalham

por onde andam
– conheço-os

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

deus é um
pai tão sacana

que cobra por
seus milagres.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

mal disfarçado
de enxofre

que gruda em
tudo que tocam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

é com ódio
que replicam

ao riso, ao gozo,
à poesia.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro.

Cheiro um e
cheirei todos

vocês que só
sobrevivem

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

fazem até das
próprias filhas

moeda forte,
ouro puro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de cadáver
putrefato que,

no entanto,
ainda caminha

por seu amor
ao dinheiro.

*


Três cantos da mulheres do povo Kuikuro



1.

tuãka kete    vamos banhar
uhisü kilü uheke    disse-me o meu amor
utalitsügü  kutsonkgitomi    lave-me e tire um pouco do meu cheiro de copaíba
umüngitsügü kutsonkgitomi   lave-me e tire um pouco do meu urucum
uhisü kilü uheke hegei   disse-me o meu amor


2.


osiha kukihini    vamos fugir
Atahukula    Atahukula
ige ngahaponga kukihi  kukihini  para as cabeceiras do mundo vamos fugir
Atahukula    Atahukula
tuã hepüati kukihi kukihini   onde começaram as águas vamos fugir
Atahukula     Atahukula    
ige ngahaponga kukihini   para as cabeceiras do mundo vamos fugir
Atahukula    Atahukula

3.

kukahetekege    que nasçam asas em nós
einhakagagü unkguati utetomi  na palma da tua mão vou aportar
tukuti utetomi    feito beija-flor



(Traduções de Bruna Franchetto, Kanu Kuikuro, Magia Kuikuro e Jamalui Mehinaku)


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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Elegia quase uma ode para Scott Walker no frio da hora de sua morte




Está completa
a obra.
Estará repleto
o trabalho?

Consumado.
Inconsútil,
inútil
para o consumo,

sitiante
citadino,

está consumado
e não consumido.

Ele, sumido
no sumidouro
de tudo,
o homem. A obra
a nós consignada.

Não mais somada.
Não mais se soma.
Não mais se.

A coscinoscopia
do mundo,
buraco da agulha.
Nós, uns camelos.

Do sial e da sima
ao resto da crosta
ruge a subtração
da sina de nunca
mais canções.

Ele. Que negou
o terceiro canto
do galo, da crista
da onda, optou

pelo fundo
no mundo,

o habitat
de sibas,
de lulas,
de polvos.

Se fosse, foste
um cefalópode.

Polvos hão-de
te consumir,
consumar-te
cantos novos

e nós, nós
quando houvermos-de
haurir pensamentos de
corpo todo.

Música, música
para as lulas,
para as chuvas,

o retorno
dos corpos
às águas,

tua voz o mais
próximos
a chegarmos
de sonares.

§

Berlim, 25 de março de 2019.

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terça-feira, 9 de abril de 2019

"As bodas de palha", texto recente, um dos meus contos bebedourenses (dedicado a Gustavo Pacheco)




                  As bodas de palha


                                                   a Gustavo Pacheco


Em qual encruzilhada os meus dias descarrilharam do manual de instruções, não saberia dizer. Sei que certa vez eu fui o noivo na Festa de São João. Tudo se complicou depois disso. Os motivos são incertos. Meus próprios concidadãos não se decidem, responsabilizam genes, demônios, alguma talvez macumba forte. O mau olhado. O mal olhado. Alguma falha na criação, dizem uns, alguma folga na Criação, dizem outros. Os olhos gordos de anjos.

Na verdade, um par de vezes fui o noivo na Festa de São João. Menino estudioso, não bebia quentão nem vinho quente. Nem por fingimento chegava a boca aos cigarros de palha. A coleção de As nos boletins ainda escolares, não de ocorrência. Tinha medo de tudo, dos vizinhos, dos caixas eletrônicos, dos policiais, dos telefones. A timidez era um desacerto entre o usuário e o maldito manual de instruções. Eu esperava que o controle remoto dos outros começasse a demonstrar o desgaste da Duracell. 

As festas juninas eram o terror. Morria de medo que me prendessem na Gaiola do Amor e não houvesse resgate, ficaria ali preso a noite toda, chacota dos moleques. Mas ninguém gastava seus cruzeiros ou cruzados comigo. Assim, invisível, poderia só ser. Inodoro num canto. Me convinha. Não sabia eu que ficaria cedo ou tarde detido na solitária dessa gaiola, agora chacota de marmanjos. 

Mas brindo agora àquele jovem noivo da Festa de São João! Não era profecia de galãzice ou galanteio da vida besta brasileira. Eu era apenas o menino em quem podiam contar que decorasse as falas para o espetáculo que eles decidiram produzir. Era antigo, já todo coreografado. Ninguém pediu minha opinião. Tancredo Neves já estava morto. O cometa Halley havia vindo e ido. A década, perdida. Minhas irmãs não se decidiam entre Legião Urbana ou o Aeroporto de Cumbica. 

Eu desistira de entender o câmbio, não entre a moeda nacional e as estrangeiras, mas entre as moedas do meu próprio país. Caminhava até a padaria do bairro memorizando o poema de Carlos Drummond de Andrade na nota de 50 Cruzados Novos. Tremia com aquele trema. Cinqüenta! Era a fortuna e a eternidade, a idade do meu pai. 

O caminho da roça. O cumprimento dos cavalheiros e das damas. O túnel. O trocar de lado foi o que entendi. Olha a cobra! Não era mentira. Era uma serpente que desovava munições para as violências por vir. Muitas tragédias ainda viriam, umas foram nacionais, viraram notícia e cortejo. O naufrágio do Bateau Mouche, a morte de Ayrton Senna, o assassinato de Daniela Pérez. Um vírus matou milhares de anônimos, alguns famosos foram pranteados. Na maior parte, as tragédias foram caseiras, domésticas, chinfrins ainda que tão custosas.

Eleições vieram e se foram, deram-nos também reeleições para nosso entretenimento. Enchentes e deslizamentos de terra no Rio de Janeiro, barragens rompidas em Minas Gerais. Sempre nos faltou uma falha geológica, e a cavamos nós mesmos. Os atritos vêm da fricção incessante de nossas bundas. Quando penso nos reatores nucleares em Angra dos Reis, perco o sono. Sim, eu fui o noivo na Festa de São João, mas mesmo ali, menino perante um padre de mentira, sabia já que uma fêmea de urubu-rei pousara na minha sorte, e eu passaria a vida a chocar seus ovos no calor infernal da minha cabeça. Sou eu, eu a mãe dos dragões.

(março, 2019)

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Canonizações e esquecimentos



Pedro Xisto - ZEN (1966)


Se me perguntassem hoje quais poetas têm sido tristemente ignorados pelos porteiros do cânone, a lista seria longa. As culpas, não tão longas: o eixo Rio-SP cuidou de umas, nossa historiografia por escolas e estilos típicos de época cuidou de outras. Unidas, eram incontornáveis. E há questões puramente político-ideológicas.

Conversava com André Capilé sobre o caso de Zila Mamede. Sua residência e ação na Paraíba a mantiveram afastada dos gerentes sudestinos. Mas lembramo-nos então de Hilda Hilst. Apesar de paulista, sua poesia era lírica, fora da gaveta organizada para a tipiquez das neovanguardas.


Zila Mamede (Paraíba, 1928–1985)


Bois dormindo
Zila Mamede

A paz dos bois dormindo era tamanha
(mas grave era a tristeza de seu sono)
e tanto era o silêncio da campina
que se ouvia nascerem açucenas.

No sono os bois seguiam tangerinos 
que abandonando relhos e chicotes
tangiam-nos serenos com as cantigas
aboiadeiras e um bastão de lírios.

Os bois assim dormindo caminhavam
destino não de bois mas de meninos
libertos que vadiassem chão de feno;

e ausentes de limites e porteiras
arquitetassem sonhos (sem currais)
nessa paz outonal de bois dormindo.

*

A questão é complicada, engloba muitos fatores. Apesar de suas contribuições majestosas ao experimentalismo poético do período, Pedro Xisto, Lygia Pape (que escreveu sim poemas), Edgard Braga, Affonso Ávila, Neide Sá, Wlademir Dias-Pino e Mário Chamie são raramente citados. Além da exclusão de Arnaldo Xavier, que traz então ainda a dimensão racial da conversa. O caldo só engrossa.



Lygia Pape


Outro caso é o de Adão Ventura. Sua poesia deveria ter sido abraçada pela década de 90 com sua ênfase no geométrico e no seco. Mas eram tempos de despolitização poética e trazer a discussão racial para o trabalho garantia o exílio do autor fora das “Grandes Questões Universais”. Parece-me o mesmo caso de Paulo Colina.

*

Forja
Paulo Colina

entre uma calmaria
          e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
          de suas coxas

mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite

embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
          no coração

*

Não se trata portanto de substituir uma tipicidade poética por outra em determinado período. Não ignoremos nem o experimentalismo das décadas de 50/60, nem a belíssima poesia lírica produzida então. Há hora para tudo, já disse o Eclesiastes. Nossa poesia é mais rica do que se vê.

*

de ‘A Fala entre Parêntesis’
Max Martins

Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas, QUEM
DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?

Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo Arfa
noturno, o olho do astro na memória

Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros

e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos
                   Dança indefinida

*

Não sei quanto a vocês, mas não consigo viver nem só de Augusto de Campos nem só de Adélia Prado. Dou sim graças ao Logos, a Exu, a Vāc, a Mercúrio, à coruja de Minerva e ao diabo de quatro pela existência dos dois. E de Pedro Xisto e Zila Mamede. Ana Cristina Cesar e Leonardo Fróes. Maria Ângela Alvim e Waly Salomão.

*

de “Solar de Juca Dantas”

Tarde já. Os fruitos e as crianças possuíam,
Nas primaveras frustras que então passei a ser,
Um sabor de saudade no mendigo que hoje sou,
A despeito de transunto de velhas glórias
E humanas lidas. E da caspa em desuso
Que pontilha de grisalho meus ombros chovendo,
Dando ao título de doutor de Sião
Este ar deficitário de despesa,
Que busca, na ausência de terras e de teres,
E na paciência com que suporto outros coronéis,
O sentido de sua própria escravidão.
Deste mundo não sou. E nem lhe temo a noite.
A noite com suas lenternas e seus ladrões,
Terramotos e valhacoutos.
Temo sim o dia que dela nasce,
E com ele a burra de dinheiro, agasalhada e fiel,
Cheia dos terrores noturnos de ontem,
Contendo, ensimesmadas, as mesmas manhãs,
Plásticas e portáteis de hoje,
E em que se enfeixam, de uma só vez,
O gado, a servidão de passagem, a infância,
O luto, a vida e o direito de chorar.

— Dantas Motta, in ‘Elegias do País das Gerais’ (1961)

*

Cecília Meireles — a fabulosa SALVE! SALVE! — cumpriu, creio, a função de ‘token’ feminino do Modernismo. Ela talvez seja a maior. Mas quem pensamos que somos para ignorar Henriqueta Lisboa e Adalgisa Nery? Ou, antes delas, Francisca Júlia? E, depois delas, Marly de Oliveira?

*

Frutescência
Henriqueta Lisboa

Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.

Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.

Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.

Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.

Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.

*


Arnaldo Xavier


Que estruturas seguem invisibilizando o trabalho de poetas como Adão Ventura, Paulo Colina e Arnaldo Xavier, já mortos? Ou os vivos Miriam Alves e Sebastião Nunes? Porque eram e são negros, ou tratam da existência negra no Brasil? As duas questões? 

Arnaldo Xavier, Abelardo Rodrigues, Oswaldo de Camargo e Paulo Colina 
(fotografia de Norma Santos, Revista Afinal, 13.01.1987)


São Pálido
Arnaldo Xavier

um dia no rio
tietê correu sangue
como correu no rio volga
como correu nos esgotos de varsóvia como correu nos vales de áfricas
(e suas veias
borbulhavam gemidos)
lá pras bandas de são miguel paulista

correu sangue
e o sangue foi confundido com leite
e as mamadeiras percorreram os corpos deitados
sobre os trilhos
enquanto as locomotivas
não vinham (cheias
de vidas)
sangue confundido

com leite
no vice-versa de putas cabras que amamentavam a radial leste de a
feto

*

Fumaça
Miriam Alves

Estou a toque de máquina
corro, louca, voo, suo
a fumaça sou eu

Estou a toque de nada
vivo, ando
como a comida envenenada
e o comido sou eu

estou a toque de selva
os ferros torcidos, sacudidos
dentro de uma marmita
e a marmita sou eu

Nego, mas vivo dizendo
Sim
a tudo que me dói na cabeça
e o doido sou eu

Paro, mas estou sempre correndo
doem as pernas, os pés
e este corpo é o meu

Amanhã me encontra acordada
como a noite deixou
e o insone sou eu

Indago, mas não estou escutando
a pergunta anda solta
e ninguém explicou
que a resposta sou eu

*

Por que não lemos, no Sul e Sudeste, o paraense Max Martins, o pernambucano Carlos Pena Filho, a paraibana Zila Mamede e o potiguar Moacy Cirne?



Leia os poemas longos “Memórias do boi Serapião” e “Guia prático da cidade do Recife”, de Carlos Pena Filho, na ‘Modo de Usar & Co.:

E descubra a obra de Moacy Cirne:
http://revistamododeusar.blogspot.com/2014/01/moacy-cirne-1943-2014.html

*

Não há respostas simples. É um emaranhado de coisas. Afinal de contas, até pouco tempo estavam soterrados os paulistas Roberto Piva e Hilda Hilst. O paulista Orlando Parolini continua soterrado. Ainda não ocuparam seus lugares devidos as obras do fluminense Leonardo Fróes, da mineira Laís Corrêa de Araújo e do capixaba Sérgio Blank.


O império das formigas
Leonardo Fróes

O império das formigas. A vaca
olha de longe o efêmero passante.
Os passarinhos atravessam
a estrada estreita, quieta e sinuosa
que segue o rio pelo vale.
O silêncio aglutina as criaturas
e os menores ruídos.
Vê-se a proliferação das espécies
nos menores meandros.
Mundos inimagináveis se criam.
Mundos desaparecem
nas bocadas da vaca no capim generoso.

*

Sangue Corsário (1980)
curta de Carlos Reichenbach com o poeta Orlando Parolini


Descrição da Praça da República para a amada que mora no interior
Orlando Parolini

os lagos de tão rasos
não permitem afogamentos:
se temos fomes
não há que nos alimente
– os peixes
vivem
(de excrementos)

os pombos não nos pertencem
roubá-los será inútil por enquanto
e que valem os pombos para a fome de uma geração inteira?

sedentos
a sede aplacaremos com coca-cola
no bar mais próximo

algumas pontes o contacto estabelecem
entre o vazio e o vazio
sugerindo paisagens que não vivemos

ao meio-dia
se debruçarmos sobre as ferragens
esperando a volta para os estábulos de ar condicionado
nos chamarão de pederastas

estátuas há
que olham para as árvores
contemplando as estátuas

no grande parque infantil
de arame rodeado
crianças são treinadas
como cães de apartamento
a beber nas horas certas
urinar nos w.c.
sem sujar o uniforme

na parte mais baixa se repararmos
sem muita preocupação
agências de turismo aveludadas
casas bancárias de velhas tradições
restaurantes e cafés
lojas de créditos
rodeiam o que mais se salienta no local:

o mictório público
moralmente dividido
para homens e senhoras
não importa a condição

*

E o que fazer com aquele esquisitíssimo jovem suicida gaúcho, sobrinho do presidente João Goulart, chamado Henrique do Valle? E aquele outro sulista esquisito, o sr. Manoel Carlos Karam? Só desperdiçamos. E se for necessário repensar nossa visão de literatura para não perdermos Stela do Patrocínio mais do que já perdemos, ora, que se repense.

*

Pois, apesar de gritarmos tanto contra a falta de atenção do público, feche os olhos e responda: por que você odeia e é condescendente com os poetas realmente populares, como Cora Coralina e Mário Quintana? E os popularíssimos vivos?

Leia, sem antolhos e biquinho-de-adorno o que Cora Coralina é capaz de fazer em seus melhores momentos. Quem pensamos que somos para ser condescendentes com esta mulher, que nos melhores momentos demonstra precisão localista de sua linguagem. Ela faz o que quer fazer, meus filhos. Não finge viver em Nova Iorque. Nem em Berlim. Que bom ser assim a poesia moderna brasileira: com a potência cosmopolita-viajante de um Murilo Mendes e a força localista-ficante de uma Cora Coralina.



Todas as vidas
Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço.
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo.
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
Enxerto de terra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada.
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras.



Decidimos que não seria relevante para nossas conversas a poesia de Gerardo Mello Mourão porque sua poesia não seria esteticamente relevante? Por questões políticas da sua atuação em determinados momentos históricos? Porque era cearense? São realmente bem informadas nossas decisões? Essas são as questões que chamei de puramente político-ideológicas. As obras de Rachel de Queiroz e Adonias Filho realmente tornaram-se esteticamente menos relevantes, ou a posição destes e outros intelectuais antigetulistas durante o Golpe de 1964 os torna imperdoáveis?

*

[Estou e não me respondo]
Maria Ângela Alvim

Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

*

Historiograficamente: o que fazer com Lúcio Cardoso, nascido em 1912, prosador e poeta difícil de encaixar em nossos periodismos? Sua poesia não se alinha espirtiualmente ao misticismo de manifestação imagético de Murilo Mendes e Jorge de Lima? Seu romance Crônica da casa assassinada (1959) não está entre os catataus geniais do modernismo nacional?


A casa do solteiro
Lúcio Cardoso

A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,
muros escorrem como verdes contornos
e colunas de mármore frio guardam seus limites.
Há quatro anjos sentados no teto solene e casto
e com luzes vermelhas, entre ciprestes,
sondam os anjos – guardiões – os fundamentos
que se apóiam com gemidos nos porões e adegas,
no rio escuro e na água morta
de correntes que foram vencidas – despedaçadas.
A casa do solteiro é cor de chama,
de silêncio aflito e aurora sem contemplação.
São pedras de crime e de agonia,
são negras pedras de delírio e de remorso.
São duras estacas de alumínio e febre,
são traves de cristais e de luxúria.
Há um descampado em torno: nostálgicos,
cemitérios se evaporam no crepúsculo
e ruínas de azul e ópio cintilam,
entre guitarras e navalhas abandonadas.
Há flores quentes e de carne, flores mesmas,
cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes
quentes de sofrimento e decomposição.
A casa do solteiro é o sol posto,
quando perdemos a fé e o amor se foi,
o começo da noite quando não há horizonte,
a quilha partida e a lança sem gume.
A casa do solteiro se abre como a música,
é triste e macia, fechada como a do príncipe,
fechada, entre janelas longas de ferro,
enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.
Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,
tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,
os móveis andam, e nos olhares estranhos,
como róseos desmaios e garras de ultraje.
Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,
abraçando manequins de aço, corpos de rampas
em madrugadas de rompimento e viagens.
Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,
olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.
E estão quietas: jogam as cartas verdes
e suspiram impossíveis paisagens de mar.
Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,
com quatro rosas voltadas para o mar,
a mais escura é que os guia. Rosas frias,
de pétalas aguçadas e de mortal traição.
A casa do solteiro é que eles elegeram,
ilha, jangada no silêncio do céu,
vasto navio abandonado e cheio de tormenta,
escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua
e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,
chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,
tudo – neste silêncio único onde existe
como uma grande alma sozinha batendo
na infindável noite que não se acaba
e nem se acabará NUNCA,
A CASA DO SOLTEIRO.



Quanto a Manoel de Barros, este poeta nascido em 1916, a que geração pertence? Tem que pertencer a uma geração ou escola para adentrar nossa história literária? Três anos mais novo do que Vinicius de Moraes e quatro mais velho do que João Cabral de Melo Neto, publicando desde a década de 1930, já era importante antes da década de 1990 ou passou a ser bom quando descoberto em escala nacional? 


Tratado geral das grandezas do ínfimo
Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

*

E o problema engloba a prosa. Apesar da FLIP 2018 com ênfase em Hilda Hilst ter lançado luz nacional sobre o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, vi pouca movimentação para resgatá-lo. Eu ainda não consegui ler. Difícil de achar. Mas consegui ler o paraense Haroldo Maranhão.

Leia um conto de Haroldo Maranhão na ‘Modo de Usar & Co.’

*

Me assusta ver o trabalho de mulheres como Patrícia Galvão, Henriqueta Lisboa, Zila Mamede, Laís Corrêa de Araújo, Neide Sá, Elisabeth Veiga, Mariajosé de Carvalho e Marly de Oliveira ignorados em escala nacional. Quando vão descobrir e defender ‘A Suave Pantera’ (1962)? É lindo aquilo. Lindo.


Com tanto furor interno,
quem a livra, quem a livra
de ser o seu próprio inferno,
de, pelo fogo da ira,
consumir-se estando quieta,
de acabrunhar-se sozinha.
Nem se diria uma fera!
Nem se diria rainha!
As patas pisando o chão
têm uma dura leveza,
os pelos brilhando de ônix,
- de si mesma prisioneira –
caminha de um lado a outro
como pelo mundo inteiro.
Há esmeraldas de silêncio
nos seus olhares acesos.

(Marly de Oliveira, ‘A suave pantera’)


*

Quando serão espalhados para as escolas e bibliotecas os livros ‘Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul’ (1970) e ‘A cor da pele’ (1981), de Adão Ventura?


Limite
Adão Ventura

e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.

e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.

e quanto a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.

e quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.

e quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.

a palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.

*

E há os vivos, esses vivos, essa gentinha incômoda que insiste em não se encaixar na visão do que se quer ou se convenciona chamar de ESCRITA CONTEMPORÂNEA, esse povo arredio que compartilha nosso oxigênio e se recusa a fazer o TÍPICO DO TEMPO, essa mania de vivos.


Algias
Elisabeth Veiga

Elegia 1

Já repeti o antigo encantamento
e só o cimento respondeu,
rastro de cinzas de maçã vencida,
desvestígio de gosto,
estanque julho que moeu vindimas
e deixou no espaço seu vinagre branco.
Onde havia um deus
os dias emboloram nuvens
de estrita agonia antepassada
que se olha no espelho
antes do adeus.
Inexiste, não soa, o que havia
fixou-se atrás da mente:
fim estalado de fotografia.
É agosto seco. É hoje e nunca houve.

Alergia 2

Já repeti o velho encantamento
e o antigo deus Xipanto não azarou
na minha gleba de piche solferina.
Peguei o convescote, as sandálias murchas
e mudei de travesseiro lírico,
para afinar meu sambão em outros infernos.

*

Ah, os vivos. Sua mania de mudar. Seus nomes esdrúxulos. Seus poemas de doidos e bruxas. Alguns chamam-se Leonardo Fróes, Lu Menezes e Alberto da Costa e Silva. Outros chamam-se Edimilson de Almeida Pereira, Adélia Prado e Olga Savary. Esses doidos, Augusto de Campos, Veronica Stigger e André Capilé. Não se domam, não se encaixam, Horácio Costa, Lívia Natália e Ismar Tirelli Neto. Falam, gritam, esperneiam, Tatiana Pequeno, Everardo Norões e Jomard Muniz de Britto. São incômodos, contra isso e aquilo, Érica Zíngano, Érico Nogueira e Marcus Fabiano Gonçalves. Estão no Sul e chamam-se Josely Vianna Baptista e Eliane Marques. Estão no norte e chamam-se Diego Vinhas e Philippe Wollney. Há quem nem more no país, como Eduardo Jorge e Ederval Fernandes. Uns estão na academia, outros no boteco. Eu os saúdo, ainda que sejam por vezes tão irritantes. Seus necessários insuportáveis. Suas greves diárias, sua recusa a produzir produtos vendáveis. 

*

Aniversários
Horácio Costa

Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo  do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali

*

A prosa de Márcia Denser. A poesia de Ronaldo Brito. A prosa e a poesia de Regina Célia Colônia. Talvez não façam o que você quer que façam. Mas são seus contemporâneos. Esses. Outros. Fazendo o que fazem.


rehab
André Capilé

uma assombrosa selva, o teu sinteco;
onde o cupim não rói mais os jornais
do dia, e sim mantém a arara em pé.

faz bem você deixar coisas de fora.
largue a marola do vinagre agora —
o enguiço está nas malhas do alheado.

pula pra dentro de uma vez, pois é
a chance das janelas serem limpas.
enquanto criam domésticas traças,
as camisolas não vão mais quarar

no sol mais alto. a possessão da peste,
nenhuma fauna vai mascar peçonhas.

há sempre um meio, ao meio do caminho.

serpentes não se mordem sem motivo,
embora o inferno mofe com lembranças.


Descubra por si mesmo se são relevantes. Leia-os. Não espero que todos concordem, por exemplo, que todos os nomes acima são relevantes. Espero apenas que tenhamos opiniões informadas. Para isso, é preciso ler para além do cânone e dos cadernos ilustrados. Alguns não têm perfis nas redes sociais. Sumirão por isso? Talvez outros tenham, mas vocês detestem suas ideias políticas. Sumirão, mesmo que sejam bons, talvez dentre os melhores? Ou você prefere o medíocre que defende as mesmas ideias que você? Todas essas, creio, são questões importantes.


O cutelo
Dirceu Villa

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha um cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.


Que país grande! Que mundo grande sem porteiras! Tanta gente viva e morta estendendo as mãos para construir. Garimpe. Vá além dos cadernos de cultura dos jornais. Há muita coisa na ‘Modo de Usar e Co.’. Há outros trabalhando em revistas vivas agora. Sua vida será melhor. Porque, como escreveu William Carlos Williams:

It is difficult
to get the news from poems
 yet men die miserably every day
 for lack
of what is found there.

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