Rocirda Demencock

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O motim das eminências pardas


Daniel Santiago (performance), Jomard Muniz de Britto (cartaz) e Paulo Bruscky (foto) 
- "O Brasil É O Meu Abismo" (1982)


Com a cara na folha em branco, tentando escrever este texto. Assisti à Sessão do Plenário e a votação do processo de impeachment com a sensação clara de estar vivendo o mais sério momento político do país em minha vida, certamente o de minha vida adulta. Até agora. Ninguém sabe o que virá nas próximas semanas. Uma amiga estrangeira pediu que eu explicasse o que estava acontecendo. Nem sabia por onde começar. Ela disse que eu começasse onde tudo começa: o começo. “Bem, no dia 22 de abril de 1500...”, comecei. Ela riu. Era piada. Era piada? É claro que seria absurdo dar tal causa retroativa à situação de hoje. Mas certamente sinto que nós brasileiros sempre perdemos o fio da meada porque nem sabemos que a meada existe. A meada, por certo, é a nossa História.

Há pouco foi novamente 22 de abril. Nos livros, lá está: Descoberta. Chegamos a celebrar o fato no ano 2000. Ainda. Ainda dizemos “descoberta do Brasil” para o que ocorreu naquela data, clara identificação nossa com os colonizadores. Quando os holandeses aqui aportaram e ficaram, passaram à História como a Invasão Holandesa. Os portugueses não invadiram, mas o holandeses sim. Independência nossa feita por um monarca nascido em Portugal, a nação fundou-se com uma mera troca de gerência. Simplesmente nos apoderamos da máquina colonial, sem mudá-la. Por isso nossa relação com a terra e com os povos indígenas continuou a mesma: exploração e extermínio. Por isso não abolimos a escravidão iniciada pelos portugueses, mas a intensificamos. Nossa relação com a terra ainda é a de colonizadores. Explorar, e destruir quem se oponha.


Dicionário infantil: “presidente”: pessoa que aparece na televisão 
e fala em todos os canais ao mesmo tempo. Minha primeira experiência: 
Figueiredo na televisão. Devia ser o quê? 1983? 

___ Quem é esse, mãe?
___ É o presidente.


Cresci num lar malufista. Meu pai foi cabo eleitoral de Paulo Maluf e o apoiou toda a sua vida. Além de Lula da Silva, havia apenas um homem capaz de fazê-lo xingar e gritar mais alto com a televisão: Leonel Brizola. Meu pai se alterava quando Brizola aparecia na TV. Sendo ele a autoridade que eu conhecia, por muito tempo, até certo ponto na adolescência, repeti aquelas ideias como um papagaio. Na escola, vendo outras perspectivas, e mais tarde na universidade, pude transformar minhas ideias. Talvez muita gente no país jamais passe desta fase, a de repetir como papagaio o que ouviu em casa. É claro, ainda, que muitos têm hoje no país uma ideologia de direita estando em plena posse de seus diplomas e faculdades mentais. Gostaria de acreditar que há uma possibilidade verdadeira de debate e diálogo civilizados. Mas os agentes do status quo são poderosos demais, e violentos. Amealharam este poder por séculos e com impunidade. Lá estava Paulo Maluf, dentro do Congresso, votando em favor do impeachment, contra a corrupção.

O circo de hienas naquela sessão do Plenário foi a ilustração da nossa República Federativa da Gambiarra. E as dedicatórias da família Bolsonaro ao Golpe de 1964 e ao facínora torturador Brilhante Ustra queimam. É que, ao contrário do que cantou Chico Buarque, quando chegou o momento não cobramos o sofrimento com juros, ao contrário dos nossos bancos. Contemporizamos. O Brasil ama uma conciliação temporária. Aliados dos responsáveis pelo revogamento de todos os direitos constitucionais na década de 60 podem hoje, dentro do Congresso Nacional, louvar torturadores. E é o que esperam desta remoção da presidente eleita: outra conciliação temporária. Outro pacto. O Golpe de 1964 foi um pacto civil-militar, como parece mostrar-se cada vez mais como um pacto civil-militar o que chamamos de transição democrática.

Memória antiga: muitas pessoas embaixo de uma gigantesca bandeira 
do Brasil. Muita alegria. Era carnaval? Isso eu sei quando foi: 1985. 

___ O que é isso, mãe?
___ Acabou a ditadura.
___ O que é ditadura, mãe?
___ Ah, isso é complicado. Você é muito pequeno.


Pessoas conscientes agora digladiam-se quanto a que nome dar ao que houve no dia 17 de abril de 2016. Golpe? O processo do impeachment é previsto na Constituição. Porém, com que legitimidade, não apenas legal, mas política? É política esta crise e só haverá saída com legitimidade política. Como pode um processo de tamanha seriedade ser comandado por um réu como Eduardo Cunha, envolvido em escândalos desde o governo de Fernando Collor de Melo, e por outros tantos acusados dentro do Congresso? Gigantesca gambiarra. O motim das eminências pardas, de homens como Michel Temer e Eduardo Cunha, que não seriam confiáveis como síndicos de um prédio, e agora estão às portas da presidência da República. Um possível conserto e concerto poderia ter sido a Reforma Política. Talvez. Há quem duvide mesmo disso. Defendida pelo Governo, emperrada por Eduardo Cunha, que só chegou onde chegou graças ao Governo. Mas como pode alguém em sã consciência, após estes meses todos, querer correr o risco de ter um homem como Eduardo Cunha, por um dia sequer, no Palácio do Planalto, conhecendo sua falta de escrúpulos quando se trata de manter-se no poder, custe o que custar?

Veremos tanques? Estão nas ruas os Caveirões da Polícia Militar. Nossa República nasceu militarizada. O medo de muitos de que estejamos vivendo a subversão dos direitos constitucionais, para além da sanha governista, é legítimo diante deste quadro. Porque não importa o que se pense do que houve no domingo. Só um ingênuo pensaria que estamos perto de resolver esta crise política, de uma polarização violenta que tampouco começou ontem, ainda que só tenha dado as caras nestes termos a partir das Jornadas de Junho de 2013, quando a direita sequestrou as estratégias de rua da esquerda. Algo, aliás, que se vê também na Alemanha em um movimento como o Pegida. Esta polarização já está entre nós há uns 10 anos, pelo menos. Já estava clara, certamente, nas eleições de 2010. Quanto a nossos direitos constitucionais, talvez estejamos descobrindo tarde o que já sabe Rafael Braga Vieira, ainda preso, o que sabe a família de Claudia Silva Ferreira, morta e arrastada no asfalto pela Polícia Militar, o que sabem cada quilombola e cada indígena do território. 

As capitanias hereditárias, eternamente ocupadas em amealhar, sempre serão um perigo à República. Os que só pensam em proteger o que é seu jamais compreenderão o que é de todos. No Brasil, parece compreender-se apenas o "meu" e o "de ninguém", que, portanto, pode ser revertido em "meu" também. E elas não se importam em brincar com incêndios, porque nunca se queimam.

§


Carlos Drummond de Andrade - "Os bens e o sangue", in Claro Enigma (1951).

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Um falcão no aeroporto (dedicado a Nelson Bell)

Em performance com Nelson Bell em Madri, nosso duo Bell Dome, no Conde Duque Centro Cultural.

Hoje é aniversário do meu parceiro Nelson Bell, que também se apresenta com o codinome Crooked Waves como produtor de música eletrônica, e que terá seu EP de estreia lançado pelo selo Gully Havoc, que dirijo com Ellison Glenn (Black Cracker). Comecei a escrever este poeminha do lado dele, no aeroporto Schönefeld de Berlim, enquanto esperávamos para voar a Madri, onde nos apresentamos como Bell Dome (foto de Hortense Gauthier acima), nosso projeto colaborativo de voz e música.



Um falcão no aeroporto

                       a Nelson Bell


nós aguardávamos
o nosso voo
quando vimos
pairar sobre o gramado
no aeroporto um falcão
seu corpo
estático no ar
mas extáticas as asas
e silencioso o zoom
da câmera
de vigilância dos seus olhos
sobre uma presa qualquer
invisível nas lâminas
verdes da grama
santa maria mãe de deus
rogai por este camundongo
um falcão
estável no ar frio
que compartilhávamos
aguardando o nosso voo
entre o avião
e o falcão
e não eram suas asas
e a nossa falta
e não era o seu voo
e o nosso pouso
e não era a sua caça
e a nossa fome
mas um desejo difuso
nem sequer de ser
um pássaro
quem sabe só
um mamífero
mais inteligente
como os cetáceos
que voltaram para a água
onde depende-se menos
da graça como arma
contra a gravidade
santa maria mãe de deus
rogai por nós
durante nosso voo
artificioso
em asas de metal
e pela pobre alma
daquele camundongo


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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Homenagem atrasada a Raul Pompeia por seu aniversário


Ontem foi o dia em que mestre Pompeia nasceu, há 153 anos. Dom Pedro II havia sido coroado fazia 21. No ano seguinte ao nascimento de Pompeia, começava a Guerra do Paraguai. Milhões de seres humanos sequestrados de seus lares trabalhavam como escravos do Oiapoque ao Chuí. Muitos anos depois, Euclides da Cunha encerraria um anti-épico: "É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades..."

Enquanto escrevia O Ateneu, respirava o ar do Rio de Janeiro e o compartilhava com Machado de Assis, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e Luiz Gama. Logo cairia a família imperial e viria a sucessão de marechais e fazendeiros, enquanto Cruz e Sousa trabalhava como arquivista na Central do Brasil. Olavo Bilac, Luís Murat e Raul Pompeia trocavam insultos pela imprensa por desavenças políticas em torno de Floriano Peixoto.

Quando estive no Rio de Janeiro pela última vez, fui ao Cemitério de São João Batista procurar seu túmulo. Não o achei. Trombei com o de Tom Jobim, o de Carmen Miranda, o do Barão de Itambi e o do Barão de Santa Margarida.

Tropecei em um túmulo dilapidado, em que se lia algo como AM____ RI___ FACÓ (18__- 1_53) e me perguntei se seria o elegante amigo poeta de Carlos Drummond de Andrade, a quem ele dedicou seu Claro Enigma (1951).

Tempos distantes, tudo tão estranhamente igual. Tivesse encontrado seu túmulo, teria feito minha prece-ritual:

"Ave, Pompeia. Nome de catástrofe. Que se soterre em cinzas o Rio de Janeiro. Sobre os escombos d'OAteneu, teu Sérgio é o nosso Angelus Novus."



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quinta-feira, 24 de março de 2016

Migalhas tão pequenas de nós dois, menino do bóson-bosão


Os cinco dedos de cada mão do menino do bóson-bosão


[poema]

deus está morto
não é culpa sua
meu pai está morto
não é culpa sua
a república está morta
não é culpa sua

não é culpa sua
que arrasto a carcaça
até a sua cama
como se este fosse
um ato heroico

sei que pareço exigir
ressarcimento
ao chegar a seu quarto
com as mãos
espalmadas e vazias

mas eu juro
que esta noite basta
um colchão comum
um travesseiro comum
uma coberta comum

um calor qualquer
compartilhado
como se compartilha
um deus
um pai
uma república

§

berlim, 21 de março de 2016

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sexta-feira, 4 de março de 2016

Marcus Fabiano Gonçalves e Dirceu Villa no Rio de Janeiro


O poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves e o poeta paulista Dirceu Villa encontraram-se esta semana, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, antiga capital do Império e da Velha República. Os dois estão entre os poetas de minha geração que mais respeito, estão entre os melhores, mais consistentes, conscientes de seus trabalhos. São também, ao lado de Érico Nogueira, os poetas de minha geração com quem mais dialogo, debato, discuto, em diuturna concórdia-discórdia. Não publico nada de importante, de livros a ensaios, sem antes ouvir suas opiniões. Já me salvaram de alguns murros em ponta de faca. Deixo vocês com um poema de cada, que estão entre meus favoritos deste século avaro.



A máquina do fundo
Marcus Fabiano Gonçalves

a pesca escassa, o rio poluído, a cotação do dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva a ave da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.

§

O cutelo
Dirceu Villa

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha o cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.



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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"Cantiga de acordar para o menino do bóson-bosão"

Menino,
meninim,
bonobobobo,
meninão,

beijei você no meio da rua
e você segurou minha mão,
qual fôramos adolescentes
de quinze aninhos
ou aquela dos sete anões,

mãos bobas,
pernas bambas
feito leitoras
da "Capricho",
e os dois,
bobões babãos,
meio Meg Ryan,
riam.

De montão,
de tontões.

Os beijins, os beijões
embaçavam seus óculos
e você os punha no bolso.

Eu poeticulava no cabeção,
murmurava cantaroladinho:
"ósculos nos óculos,
quero ver o que você faz de bão"

Volta a hora
das cantigas
de ninar e de amigo,
porque eu, minhas filhas,
já cansei do cantochão.

E teve cachaça,
e teve cigarro,
e teve carinho
e, amém!, tesão.

Agora sobe
esta luz-rojão,
manhãssim,
manhãbobo,
manhãtão

e eu a seguro
com as duas mãos,
como ontem sua
mão que não sua,

mas que sim,
mas que bobo,
mas que tão.

Menino,
sei que é cedo,
mas quem de nós
está contando
os beijins, os beijões?

Não nós dois,
todo bonobinhos,
todo bonobões.

Vamos brincar de apelido:
eu chamo você
de bóson à brasílica
ou, à lusa, de bosão,
e a mim
você me chama
de Rasputin,
rasputão.

§

Berlim, 28 de fevereiro de 2016

(para o dramaturgo Daniel Sauermilch)

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Nova prestação das "Odes a Maximin"


"Eu contive o nome do meu amor e o repetia sozinha, calada.
Como anseio por espaços abertos onde o possa ouvir gritado."
--- ‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825), poeta e princesa do Califado Abássida.

Escondo de todos teu nome, Maximin,
tal ‘Ulayya bint al-Mahdī, proibida
de dizer o nome de Ṭall, o khādim
que amava, silenciou do al-Baqarah,
em leitura, um verso que continha
a palavra. Onde está o generoso califa
que ao ouvir sobre tal zelo de beata
profana, a ‘Ulayya doou o seu khādim?
Quem há-de me conceder Maximin
por esta minha concupiscência calada
mas, em permuta, fazendo de mim
o servo e de Maximin, príncipe abássida?


Ricardo Domeneck, Berlim, 26 de janeiro de 2015, inédito para as Odes a Maximin.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Poema de Natal


Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-nos, salva-nos,
nascidos como tu na pobreza feito filhotes de mansos vira-latas,
agasalha-nos na lã branca do teu casaco felpudo de jovens focas
se ainda és da candura e da graça o cordeiro
pois, por aqui, desde que morreste no país colonizado
por impérios onde ainda se digladia, quando pedimos, graça
tem mas acabou, e a candura anda
também muito em baixa nos mercados,
e quando caem as bombas em Al-Majalah,
de cordeiros e crianças não se distinguem as carnes
que são deveras fracas, Bebê Mágico,
não resistem a explosivo, projétil e lâmina,
disso estás mais que ciente, conheceste da carne a fraqueza
em espinho, cravo e lança, e quando em Gardez
reúne-se a família de Mohammed
Daoud, celebrando que se doara à luz outro infante,
sem estrela de Belém nem reis-magos que lhes tragam
oferendas, as forças especiais de Herodes
avançam pelos ares com helicópteros,
invadem a casa teto adentro e os tragam,
imolando mui democráticas homens e mulheres grávidas,
Bebê Mágico, eis que por um tempo cremos
que nos tirarias de sob o manto e jugo da Lei,
a do olho por olho, dente por dente, útero por útero,
e sobrevivemos passivos e crédulos na periferia
de Jericó, e ainda que uma vez por ano, por cinco dias
circundemos carnavalescos seus muros,
chacoalhando os adiados esqueletos
e tocando mui alto os tambores e as trombetas,
os muros jamais caem, Bebê Mágico,
ainda que já derrubados os cedros do Líbano
e do pau-brasil tornaram-se raras as frondes,
em verdade, em verdade sabes que logo haverá bezerros
mas não leões que possam com eles deitar-se sobre a palha,
e se ainda corrermos por vezes felizes pela duração
dos efeitos de nossos antidepressivos, será por eternos
campos de soja, enquanto do Egito fogem outros,
mas não se abre nem Mar Vermelho nem Mediterrâneo
à sua passagem, e de Babilônia resta hoje um mercado
para o comércio de armas, cá estamos,
cada um por si e todos contra todos,
Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-te, salva-te
porque em breve nestas plagas não há-de sobrar
pedra sobre água.



--- Ricardo Domeneck, Berlim, 22-25 de dezembro de 2015.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Areia na farofa



                                               a Sebastian Wehle



O ano de novo
acaba e o cansaço
finca, é o mesmo.
Não, aumenta feito
a inflação, os juros
acumulados de bancos,
as cáries, os nomes
bloqueados na Rede.

Mais uma vez, a ressaca
de 1° de janeiro
dará a sensação talvez
de tabula rasa
mas será só o puxar
da toalha
à mesa, os víveres
salpicando os azulejos.
Da forma como a fome
ainda rege o estômago
após a meia-noite,
que não reabastece,
automática, as veias.

E este nhoque
está uma nhaca,
esta farofa, um'areia,
e melhor seria ser eu
o peru recheado.

Vêm os comerciais,
asseguram competir
ao calendário
novo me ressarcir,
contudo este reveião
à minha revelia
não mais
me engambela,
nem sequer engano
a mim mesmo
com minhas resoluções,
só serão menos
os  cigarros
porque o bolso
ganhou outro buraco.

Mas cumpro os rituais. Pulo
as ondas, visto-me
de branco,
dou os abraços
e faço as promessas
de mais telefonemas,
mais encontros
e mais cinemas,
mais concertos
com mais sorrisos,
mais café e vinho,
oxigênio compartilhado
entre as mesmas quatro
paredes, celebro o Bebê
Mágico e lanço ao mar
oferendas à Rainha,
que as devolve, praxe.

Então saio às ruas
e os prédios
ainda são os mesmos
se não os preços,
caminho
com os braços
despencados
ao longo do torso
sob o torcicolo,
e se as mãos balangam
ao léu das pernas
é só para que o corpo não
caia.

E quiçá esta fosse
a solução, a mudança,
o vero ano novo,
a única resolução séria,
cair
na sarjeta, no meio-fio,
na contramão, na ciclovia
atrapalhando Haddad
ou Merkel,
cair,
que ação de coragem!,
cair feito o mercado
de ações
e não levantar mais.

É isso. É? Porque
se eu gritasse, alguém
daria por certo a ordem
e mandaria de novo a mensagem
de que a minha voz
já cansou a beleza dos anjos.







Berlim, 23 de dezembro de 2015.



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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Politicamente... correto ou consciente?


Tive uma conversa com um poeta que respeito imensamente, mas do qual discordo em quase tudo, sobre a questão do "politicamente correto" quando se trata da literatura. O que segue abaixo é uma versão de uma das minhas respostas à conversa, porque talvez interesse a outros.

A questão para mim é saber diferenciar entre o politicamente correto e o politicamente consciente, já que por trás da batalha contra o "politicamente correto", em muitos casos, sinto na verdade uma batalha contra o "político" e contra o "histórico" na literatura. Quando se começa a falar sobre isso, sinto com frequência mais uma tentativa de retorno a uma ideologia que tem muitos nomes, mas que pode ser sentida a partir de Hugo Friedrich em sua Estrutura da Lírica Moderna (1956), por exemplo, e que no nosso fin de siècle passado mostrou-se no mumble jumble que transformava em sinônimos conceitos como "sincronia histórica", "pós-utópico" e "trans-historicidade".

Falamos sobre trabalhos que tiveram a coragem de olhar o "Mal", ou "O Horror" de Mistah Kurz, nos olhos. Citamos textos como o Niemandsrose (1963), de Celan. Celan foi um autor que lidou com um Horror histórico, real, que tinha contexto, nomes de gente de carne e osso. E não há aqui mesmo, nas Américas, um Mal e um Horror que precisam ser olhados nos olhos, que ainda estão entre nós e formam a fábrica de nossa sociedade, como os genocídios indígena e africano no nosso continente?

Elencar trabalhos que estejam lidando com este Mal ajudaria? Não sei. Será que nós teríamos reconhecido o "Niemandsrose", tivéssemos sido contemporâneos de sua escrita?

Falemos por exemplo de uma das grandes faces do Mal em nossa doentia civilização ocidental: o sequestro e escravização de milhões de seres humanos do continente africano. Há o livro Zong! (2008), de M. NourbeSe Philip, que olhou este horror de frente. O livro é baseado no fato real do navio Zong e num processo jurídico de 1781, quando aquele navio negreiro lançou ao mar cerca de 140 homens e mulheres africanos, que teriam sido vendidos como escravos, porque os traficantes perceberam que ganhariam mais dinheiro coletando o "seguro da carga" que "a vendendo". O Mal. O Horror. Eis um exemplo de uma autora, mulher negra nascida em Trindade e Tobago, lidando com um dos capítulos mais malévolos da História das Américas. Sem pestanejar e sem recorrer ao esconderijo do sublime.

Há também La sodomía en la Nueva España (2010), de Luis Felipe Fabre, no qual o autor, homem homossexual nascido no México, parte dos arquivos da Inquisição Mexicana, quando homossexuais foram queimados em praça pública na Cidade do México, para compor um livro extraordinário em "retábulos" e "villancicos", conhecedor que é das formas mais sofisticadas do Barroco hispânico.

Dois exemplos, que leio com uma atenção de quem compartilha oxigênio com estes autores do nosso continente e sente a necessidade de lidarmos com a face do NOSSO MAL, em vez de fazer como muitos, que leem Paul Celan como uma espécie de "poeta órfico", e não como o poeta eminentemente histórico que é, recebendo hoje o tipo de atenção que Rilke recebeu no país pelo Grupo de 45.

Portanto, eu pergunto: o terrível destino dos homens e mulheres que pereceram na Shoah, judeus, atinge-nos a todos, mas o terrível destino dos homens e mulheres que foram lançados ao mar, na embarcação Zong, sendo negros, antige-nos a todos ou apenas aos negros? O terrível destino dos homens homossexuais que foram queimados em praça pública na Cidade do México atinge-nos a todos, ou apenas a homossexuais?

Qual é a fronteira do universal, se o há?

Ao escreverem estes dois livros que julgo excepcionais, mas com clara intenção também de intervenção histórica e política, a escritora (negra) M. NourbeSe Philip e o autor (homossexual) Luis Felipe Fabre estavam sendo apenas politicamente corretos, ou politicamente conscientes? Faria sentido estudar estes livros apenas por suas óbvias qualidades formais, mas ignorar o contexto de que tratam e o contexto em que foram escritos? Não lidaram com o Mal? Seriam mais universais se tivessem escrito sobre as ansiedades do homem branco heterossexual em meio ao Sistema Capitalista? Em meio a regimes comunistas? Se tivessem sido menos "históricos" e "contextuais"? Mas a poesia de Paul Celan não é ela toda também "histórica" e "contextual"?

Reafirmo que é preciso dar atenção ao trabalho formal do autor, mas não parar aí: entender a maestria formal de um poeta mas também seu contexto histórico, e saber distinguir o "politicamente consciente" do "politicamente correto". E que, para entrar nesta discussão, se conheça poesia de forma ampla, não apenas a que foi feita por homens (brancos) (heterossexuais) (ocidentais) (mortos).

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