Rocirda Demencock

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Nova prestação das "Odes a Maximin"


"Eu contive o nome do meu amor e o repetia sozinha, calada.
Como anseio por espaços abertos onde o possa ouvir gritado."
--- ‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825), poeta e princesa do Califado Abássida.

Escondo de todos teu nome, Maximin,
tal ‘Ulayya bint al-Mahdī, proibida
de dizer o nome de Ṭall, o khādim
que amava, silenciou do al-Baqarah,
em leitura, um verso que continha
a palavra. Onde está o generoso califa
que ao ouvir sobre tal zelo de beata
profana, a ‘Ulayya doou o seu khādim?
Quem há-de me conceder Maximin
por esta minha concupiscência calada
mas, em permuta, fazendo de mim
o servo e de Maximin, príncipe abássida?


Ricardo Domeneck, Berlim, 26 de janeiro de 2015, inédito para as Odes a Maximin.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Poema de Natal


Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-nos, salva-nos,
nascidos como tu na pobreza feito filhotes de mansos vira-latas,
agasalha-nos na lã branca do teu casaco felpudo de jovens focas
se ainda és da candura e da graça o cordeiro
pois, por aqui, desde que morreste no país colonizado
por impérios onde ainda se digladia, quando pedimos, graça
tem mas acabou, e a candura anda
também muito em baixa nos mercados,
e quando caem as bombas em Al-Majalah,
de cordeiros e crianças não se distinguem as carnes
que são deveras fracas, Bebê Mágico,
não resistem a explosivo, projétil e lâmina,
disso estás mais que ciente, conheceste da carne a fraqueza
em espinho, cravo e lança, e quando em Gardez
reúne-se a família de Mohammed
Daoud, celebrando que se doara à luz outro infante,
sem estrela de Belém nem reis-magos que lhes tragam
oferendas, as forças especiais de Herodes
avançam pelos ares com helicópteros,
invadem a casa teto adentro e os tragam,
imolando mui democráticas homens e mulheres grávidas,
Bebê Mágico, eis que por um tempo cremos
que nos tirarias de sob o manto e jugo da Lei,
a do olho por olho, dente por dente, útero por útero,
e sobrevivemos passivos e crédulos na periferia
de Jericó, e ainda que uma vez por ano, por cinco dias
circundemos carnavalescos seus muros,
chacoalhando os adiados esqueletos
e tocando mui alto os tambores e as trombetas,
os muros jamais caem, Bebê Mágico,
ainda que já derrubados os cedros do Líbano
e do pau-brasil tornaram-se raras as frondes,
em verdade, em verdade sabes que logo haverá bezerros
mas não leões que possam com eles deitar-se sobre a palha,
e se ainda corrermos por vezes felizes pela duração
dos efeitos de nossos antidepressivos, será por eternos
campos de soja, enquanto do Egito fogem outros,
mas não se abre nem Mar Vermelho nem Mediterrâneo
à sua passagem, e de Babilônia resta hoje um mercado
para o comércio de armas, cá estamos,
cada um por si e todos contra todos,
Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-te, salva-te
porque em breve nestas plagas não há-de sobrar
pedra sobre água.



--- Ricardo Domeneck, Berlim, 22-25 de dezembro de 2015.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Areia na farofa



                                               a Sebastian Wehle



O ano de novo
acaba e o cansaço
finca, é o mesmo.
Não, aumenta feito
a inflação, os juros
acumulados de bancos,
as cáries, os nomes
bloqueados na Rede.

Mais uma vez, a ressaca
de 1° de janeiro
dará a sensação talvez
de tabula rasa
mas será só o puxar
da toalha
à mesa, os víveres
salpicando os azulejos.
Da forma como a fome
ainda rege o estômago
após a meia-noite,
que não reabastece,
automática, as veias.

E este nhoque
está uma nhaca,
esta farofa, um'areia,
e melhor seria ser eu
o peru recheado.

Vêm os comerciais,
asseguram competir
ao calendário
novo me ressarcir,
contudo este reveião
à minha revelia
não mais
me engambela,
nem sequer engano
a mim mesmo
com minhas resoluções,
só serão menos
os  cigarros
porque o bolso
ganhou outro buraco.

Mas cumpro os rituais. Pulo
as ondas, visto-me
de branco,
dou os abraços
e faço as promessas
de mais telefonemas,
mais encontros
e mais cinemas,
mais concertos
com mais sorrisos,
mais café e vinho,
oxigênio compartilhado
entre as mesmas quatro
paredes, celebro o Bebê
Mágico e lanço ao mar
oferendas à Rainha,
que as devolve, praxe.

Então saio às ruas
e os prédios
ainda são os mesmos
se não os preços,
caminho
com os braços
despencados
ao longo do torso
sob o torcicolo,
e se as mãos balangam
ao léu das pernas
é só para que o corpo não
caia.

E quiçá esta fosse
a solução, a mudança,
o vero ano novo,
a única resolução séria,
cair
na sarjeta, no meio-fio,
na contramão, na ciclovia
atrapalhando Haddad
ou Merkel,
cair,
que ação de coragem!,
cair feito o mercado
de ações
e não levantar mais.

É isso. É? Porque
se eu gritasse, alguém
daria por certo a ordem
e mandaria de novo a mensagem
de que a minha voz
já cansou a beleza dos anjos.







Berlim, 23 de dezembro de 2015.



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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Politicamente... correto ou consciente?


Tive uma conversa com um poeta que respeito imensamente, mas do qual discordo em quase tudo, sobre a questão do "politicamente correto" quando se trata da literatura. O que segue abaixo é uma versão de uma das minhas respostas à conversa, porque talvez interesse a outros.

A questão para mim é saber diferenciar entre o politicamente correto e o politicamente consciente, já que por trás da batalha contra o "politicamente correto", em muitos casos, sinto na verdade uma batalha contra o "político" e contra o "histórico" na literatura. Quando se começa a falar sobre isso, sinto com frequência mais uma tentativa de retorno a uma ideologia que tem muitos nomes, mas que pode ser sentida a partir de Hugo Friedrich em sua Estrutura da Lírica Moderna (1956), por exemplo, e que no nosso fin de siècle passado mostrou-se no mumble jumble que transformava em sinônimos conceitos como "sincronia histórica", "pós-utópico" e "trans-historicidade".

Falamos sobre trabalhos que tiveram a coragem de olhar o "Mal", ou "O Horror" de Mistah Kurz, nos olhos. Citamos textos como o Niemandsrose (1963), de Celan. Celan foi um autor que lidou com um Horror histórico, real, que tinha contexto, nomes de gente de carne e osso. E não há aqui mesmo, nas Américas, um Mal e um Horror que precisam ser olhados nos olhos, que ainda estão entre nós e formam a fábrica de nossa sociedade, como os genocídios indígena e africano no nosso continente?

Elencar trabalhos que estejam lidando com este Mal ajudaria? Não sei. Será que nós teríamos reconhecido o "Niemandsrose", tivéssemos sido contemporâneos de sua escrita?

Falemos por exemplo de uma das grandes faces do Mal em nossa doentia civilização ocidental: o sequestro e escravização de milhões de seres humanos do continente africano. Há o livro Zong! (2008), de M. NourbeSe Philip, que olhou este horror de frente. O livro é baseado no fato real do navio Zong e num processo jurídico de 1781, quando aquele navio negreiro lançou ao mar cerca de 140 homens e mulheres africanos, que teriam sido vendidos como escravos, porque os traficantes perceberam que ganhariam mais dinheiro coletando o "seguro da carga" que "a vendendo". O Mal. O Horror. Eis um exemplo de uma autora, mulher negra nascida em Trindade e Tobago, lidando com um dos capítulos mais malévolos da História das Américas. Sem pestanejar e sem recorrer ao esconderijo do sublime.

Há também La sodomía en la Nueva España (2010), de Luis Felipe Fabre, no qual o autor, homem homossexual nascido no México, parte dos arquivos da Inquisição Mexicana, quando homossexuais foram queimados em praça pública na Cidade do México, para compor um livro extraordinário em "retábulos" e "villancicos", conhecedor que é das formas mais sofisticadas do Barroco hispânico.

Dois exemplos, que leio com uma atenção de quem compartilha oxigênio com estes autores do nosso continente e sente a necessidade de lidarmos com a face do NOSSO MAL, em vez de fazer como muitos, que leem Paul Celan como uma espécie de "poeta órfico", e não como o poeta eminentemente histórico que é, recebendo hoje o tipo de atenção que Rilke recebeu no país pelo Grupo de 45.

Portanto, eu pergunto: o terrível destino dos homens e mulheres que pereceram na Shoah, judeus, atinge-nos a todos, mas o terrível destino dos homens e mulheres que foram lançados ao mar, na embarcação Zong, sendo negros, antige-nos a todos ou apenas aos negros? O terrível destino dos homens homossexuais que foram queimados em praça pública na Cidade do México atinge-nos a todos, ou apenas a homossexuais?

Qual é a fronteira do universal, se o há?

Ao escreverem estes dois livros que julgo excepcionais, mas com clara intenção também de intervenção histórica e política, a escritora (negra) M. NourbeSe Philip e o autor (homossexual) Luis Felipe Fabre estavam sendo apenas politicamente corretos, ou politicamente conscientes? Faria sentido estudar estes livros apenas por suas óbvias qualidades formais, mas ignorar o contexto de que tratam e o contexto em que foram escritos? Não lidaram com o Mal? Seriam mais universais se tivessem escrito sobre as ansiedades do homem branco heterossexual em meio ao Sistema Capitalista? Em meio a regimes comunistas? Se tivessem sido menos "históricos" e "contextuais"? Mas a poesia de Paul Celan não é ela toda também "histórica" e "contextual"?

Reafirmo que é preciso dar atenção ao trabalho formal do autor, mas não parar aí: entender a maestria formal de um poeta mas também seu contexto histórico, e saber distinguir o "politicamente consciente" do "politicamente correto". E que, para entrar nesta discussão, se conheça poesia de forma ampla, não apenas a que foi feita por homens (brancos) (heterossexuais) (ocidentais) (mortos).

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Medo dessa gente

Eu tenho medo é dessa gente branca de bem – bem pensante, bem vestida – que se acha no direito de dar socos na cabeça de um menino de não mais de 12 anos, em plena praia, gritando "tem que metralhar! nesses tem que dar é tiro na cabeça!", os diplominhas chacoalhando de seus pescoços, as carteirinhas de clube de campo feito penduricalhos em seus lóbulos, enquanto bradam pela decência na República. O ódio em seus olhos. Eu tenho medo é dessa gente.

E alguns amigos disseram que não se deveria temê-los. Mas eu temo. Como escreveu Ricardo Aleixo, conheço essa gente "pelo cheiro,  // pelas roupas, / pelos carros, // pelos aneis e, / é claro, // por seu amor / ao dinheiro", e olho ainda para trás na Hitória do país e vejo do que esta gente já foi capaz, do que esta gente ainda é capaz. É a gente branca de bem que saiu às ruas pela Tradição, Família e Propriedade, que proveu a base popular do Regime Militar. 

Muitos têm se referido ao "ovo da serpente" por certos acontecimentos na República, mas falar em ovo é enganador, pois leva a crer que a serpente não chocou, que não quebrou ainda as paredes brancas do ovo. Pois a serpente está entre nós, sempre esteve entre nós, enrola-se entre nossas pernas. Há séculos? Há décadas?. Os fascistas brasileiros mais estão para um urso, um urso ainda que sarnento, um urso que hiberna e acorda a intervalos regulares, sempre que estamos prestes a chegar à primavera.

Esse medo, unido sim ao nojo, é o que deve nos manter alertas, é o que deve nos lembrar que esta gente não se subestima. Subestimar do que é capaz esta gente é um erro.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor? Diante dos últimos acontecimentos, preferiria que não.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Tributo a Raoni Metuktire, com Bell Dome (Nelson Bell & euzinho)




Bell Dome (Nelson Bell + Ricardo Domeneck), homenagem a Raoni Metuktire, liderança contínua em meio as intermitências interesseiras da República.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A simetria do terror no Brasil




Ontem, conversando com Adelaide Ivánova em minha cozinha, falávamos sobre o massacre incessante dos cidadãos negros da República. Tantos meninos. A foto daquele pai negro chorando. O massacre de índios, mulheres, homossexuais. Falamos do número de tiros contra aqueles 5 garotos desarmados. 111. Cento e onze tiros. Quando disse o número em voz alta, percebi o que não havia percebido antes ao ler o número: é o mesmo número de mortos do Carandiru. Postei ontem: a simetria do terror no Brasil.

Quando passavam imagens do Carandiru ou outro presídio na televisão, minha mãe sempre repetia a mesma frase: "Isso aí é lugar onde filho chora e mãe não ouve." A imagem daquele pai negro em pranto, pai negro de um menino negro morto com 111 tiros enquanto celebrava seu primeiro salário. O Brasil é o lugar onde mãe chora e filho não ouve mais. Fui para a cama com este número na cabeça. 111. 1 + 1+ 1. Não. 1 – 1 – 1. Como naquela passagem de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, na qual Brás Cubas imaginava:

"... um velho diabo, sentado entre dous sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:

-- Outra de menos... 
-- Outra de menos... 
-- Outra de menos... 
-- Outra de menos..."

Este velho diabo será muito mais nosso Estado, que jamais se descolonizou em suas estruturas e ideologias, apenas trocou o passaporte do gerente da máquina de moer gente. O velho diabo não conta moedas, senta-se entre dous sacos, o da vida e o da morte, a tirar negros, índios, mulheres e homossexuais da vida para dá-los à morte, e a contá-los assim:

-- Outro de menos... 
-- Outro de menos... 
-- Outro de menos... 
-- Outro de menos...

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nova peça sonora: colaborando com Nelson Bell

O produtor alemão Nelson Bell (Crooked Waves / Gully Havoc Rec.) e eu começamos a colaborar em algumas produções. Estamos chamando o projeto de Bell Dome. Vai aqui a primeira.



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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

"Uma anônima na lama da Samarco dirige-se aos todavia vivos"


Nunca mais alvo
de cupidos,
mas largada em decúbito
lateral, dorsal, ou ventral,
o corpo submergido
na lama
da Samarco e da Vale
do finado Rio Doce,
sem vestido
de orgândi azul,
aqui de dentro
da cabeça
desse dito poeta
que decide referir-se
àquele pleonasmo
que é Tragédia Brasileira,
sem o azul
da água ou céu,
sou só outra
sem voz
e anônima
negra em lama,
anônima
como aquela outra,
lama abaixo,
outro
indivíduo anônimo
do povo
Astyanax abramis,
na mesma lama,
morta com seus ovos,
morta com meus ovos,
eu, fêmea anônima,
indivíduo
do povo Homo sapiens,
morta como aquela outra
lama abaixo,
indivíduo anônimo
do povo
Hydromedusa tectifera,
eu, negra sem voz,
ela, lambari sem voz,
ela, cágado sem voz,
ou aquela outra fêmea,
égua
com seu potro,
quando vocês machos
é que se dizem
nascidos do barro,
mas somos nós
da Gaia adornada
em água limpa
com que doamos
o lago primordial
em que nadam todos
em nossos úteros,
nós, todas
sem voz,
nós, todas
bestas de carga
nesta República
de pó com hélices
onde a água falta
mas não a lama,
nossa falta
que lama,
e vem agora
este poeta
branco, seco,
macho, vivo
usar minha morte
em seu poema
de fêmeas,
"as enterradas vivas",
quando nós todas,
fêmeas enterradas
deveras vivas
nesta lama,
apodrecemos,
caídas nesta guerra
mundial
declarada por alguns
assim chamados
humanos
a todos os indivíduos
anônimos
do povo
Homo sapiens,
do povo
Astyanax abramis,
do povo
Hydromedusa tectifera,
do povo
Hypostomus affinis,
do povo
Equus ferus,
até que todos
os povos
da Terra encontrem-se,
graças
a esta guerra
de todos contra todos,
com o povo
minoico,
com o povo
Homo neanderthalensis,
com o povo
Bos primigenius
com o povo
Mammuthus imperator
e outros povos
extintos.


§

1° de dezembro do ano de Nossa Senhora da Catástrofe 515

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sábado, 21 de novembro de 2015

Performance hoje à noite em Bamberg

Faço uma performance hoje à noite em Bamberg, na Bavária, ao lado de Nora Gomringer e dos grupos PLOT e subtext. Vai dedicada ao poeta palestino Ashraf Fayadh, condenado à morte na Arábia Saudita,  aliada dos Estados Unidos, por acusação de apostasia e renunciar ao Islã. Prova: boatos e poemas seus. Vai também ser dedicada à criatura que me mandou uma mensagem anônima há três noites em um destes aplicativos de trepadas, dizendo "deixe nosso país." Como ele não especificou se eu deveria deixar a Bavária, a Alemanha, a Europa ou o Ocidente, vou ficando por aqui.

 

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