Rocirda Demencock

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

MICROANTOLOGIA PENELOPEANA DE POESIA LUSÓFONA


UMA PEQUENA ALDEIA

Cecília Meireles (Brasil, 1901-1964)
No canto do galo há uma pequena aldeia
de mulheres risonhas e pobres
que trabalham em casa de pedra
com belos braços brancos
e olhos cor de lágrima.
São umas corajosas mulheres
que tecem em teares antigos,
são umas Penélopes obscuras
em suas casas de pedra
com fogões de pedra
nestes tempos de pedra.
Elas, porém, cantam com frescura,
a leveza, a graça, a alegria generosa
da água das cascatas,
que corre de dentro do mundo
pelo mundo
para fora do mundo.
No canto do galo há, de repente,
essa pequena aldeia,
com essas belas mulheres,
essas boas deusas escondidas,
essas criaturas lendárias
que trabalham e cantam
e morrem.
O amor é uma roseira à sua porta,
o sonho é um barco no mar,
a vida é uma brasa na lareira,
um pano que nasce, fio a fio.
A morte é um dia santo
para sempre no céu.
*
O TEMPO E A FÁBULA
Henriqueta Lisboa (Brasil, 1901-1985)
De que miraculoso arco-íris
os dedos ágeis de Penélope
teriam recolhido o zéfiro?
Porém o zéfiro que esgarça
a flor de espuma nos recifes
carrega o pólen de outra flor.
Perde-se em mares sem memória
todo o velame ao vendaval.
Mas salva-se o ânimo do nauta.
Cavalos árdegos dos montes,
ontem dormidos nas planícies,
rompem as rédeas à miragem.
E no evolver de novos signos,
com as orvalhadas já destelam
brandos casulos de ouro e azul.
Destece, ó noite, por que o dia
teça com virginais matizes
a fábula da mesma fábula.
*
PENÉLOPE
Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal, 1919-2004)
Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.
*
A NÉO-PENÉLOPE
Ana Hatherly (Portugal, 1929-2015)
Não tece a tela
Não fia o fio
Não espera
Por nenhum Ulisses
Às portas do sangue
O herói adormecido
Agora está deitado
Ao Polifemo abraçado
Seu próprio satélite forçado
Há um intervalo nímio
Nas coisas
Que entre si independem
*
PENÉLOPE
Maria Lúcia Alvim (Brasil, 1932)
Tudo que vi
àquele bordado
prendi
Tudo que sei
ficou de lado
passei
Tudo que sinto
é simulado
minto
Tudo que penso
é mastigado
infenso
Tudo que sonho
é emaranhado
bisonho
Tudo que amei
foi adiado
cansei
Tudo que fiz
desfiz por querer
*
SOU AMAZONA E PENÉLOPE
Maria Teresa Horta (Portugal, 1937)
Sou Amazona e Penélope
desfazendo nó e laço
a desmanchar, a tecer
a destecer o que faço.
*
PENÉLOPE
Myriam Fraga (Brasil, 1937)
Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.
No palácio deserto ladra
O cão.
Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.
Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.
Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).
O ciclo está completo
A espera acabada.
Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.
*

TALVEZ PENÉLOPE
Lélia Coelho Frota (Brasil, 1938-2010)
Ah o amor da Grécia o branco
imaculado amor das ilhas
que pervagam no mar violeta
a desfazer-se a refazer-se –
espumas,
peixes, sargaços, conchas, abismos,
Ulisses!
Onde viajas, encantado, retido,
ó esperado desaparecido?
Ó nunca visto, ó viajante rijo,
do mar guerreiro, de ondas em riste, onde
teu rosto ignorado persiste?
Na nostálgica superfície
ecoa um nome e o edifício
das águas reboa, desaba
pelas angras do esquecimento.
Que sereia te seduziu
para assim me deixares, só,
na mesa vazia, na ceia
às escuras, entre conchas
murmurejantes?
Ou serei eu a sereia
que se põe entre nós, de permeio
e desfaço tua chegada
quando de longe, na amurada,
vês o meu vestido vermelho
que a brancura da praia incendeia?
Serei eu quem de ti me afasta
e que a trama das ondas desata
quando a meus pés resvala, súplice,
a marola da tua fragata?

*

PENÉLOPE
Orides Fontela (Brasil, 1940-1998)
O que faço des
faço
o que vivo des
vivo
o que amo des
amo
(meu “sim” traz o “não”
no seio).
*
LINHA AZUL
Yêda Schmaltz (Brasil, 1941-2003)
De joelhos
eu bordava
a barra da noite
com o meu branco
alinhavo.
O teu olho
se debruçava
para a manhã
que eu, sem saber,
costurava.
E as nossas mãos
buscavam, sem sentir,
o nó que a linha
branca tramava.
Então,
pelo enredo da trama,
eu costurei
a minha boca
na tua boca
- um poeta me ama –
e a linha ficou azul,
cor de maçã.
*
LONJURA
Vera Duarte (Cabo Verde, 1952)
O amor morreu com Julieta
e Romeu nunca existiu
No prosaico quotidiano
teimosamente aguardo
contudo
em meu banco junto ao cais
qual Penélope desenganada
a chegada do amor
num Ulisses navegador
ou Passo-amor reinventado.
*
NAVEGA-ME A ALMA UMA ILHA
Ana Mafalda Leite (Moçambique, 1956)
navega-me a alma uma ilha
o espírito antigo de um barco em viagem
penélope de m’siro enfeitada
olha o minarete mais alto
do horizonte
e medita sobre as ruínas do cais
o porto ancorado do sonho
por entre os seus dedos deslizam
fios de missanga
fios de prata
fios de ouro
ourivesaria atenta do silêncio
seu rosto voltado a oriente
o linho enrolado no corpo
navega-Ihe pelos dedos
a demorada monção
o súbito vento
*

FIA ESTA CANTIGA
Jussara Salazar (Brasil, 1959)

FIA ESTA CANTIGA desfia depois
tecer e trançar
fia esta cantiga
no tear. Em silêncio como tuas tias
que teu pai foi pra roça vestido de noivo
e nunca voltou
Fia esta cantiga
como tua mãe um dia sem alarde desatou
e teceu
um coração escarlate no peito de jesus
Fia esta cantiga
e se vires a vida
fia bem depressa fia
Fia
esta cantiga pra passar
*

PENÉLOPE
Adília Lopes (Portugal, 1960)

1
Penélope
é uma aranha
que faz
uma teia
a teia é a Odisseia
de Penélope
2
Penélope está
sempre
sentada
3
Ulisses é abstracto
Penélope é concreta
a teia é abstracta
e concreta
4
Penélope casa-se
com Homero
Ulisses fica a ver
navios

*

PENÉLOPE (I)
Ana Martins Marques (Brasil, 1977)
O que o dia tece,
a noite esquece.
O que o dia traça,
a noite esgarça.
De dia, tramas,
de noite, traças.
De dia, sedas,
de noite, perdas.
De dia, malhas,
de noite, falhas.
*
ODISSEU NEGRO
Lívia Natália (Brasil, 1979)
Cessou o tempo das frutas maduras
e lagartas estranhas comem o verde das folhas.
Tudo é bruto e das pedras cresceram raízes temporãs.
Esta estação de cores devassadas,
esta terra lacrimosa,
esta noite sem perfume de brisa
perdurará, matando em nossos dentes,
o hálito doce que nos dizia da vida na boca?
Vejo seu barco macio na pele das ondas,
e meus dedos seguem tecendo o
caminho.
Resta, em seus braços que navegam o tempo,
força pra ferir as Águas e voltar,
demudado,
para este reino que te aguarda,
após a travessia?
Seu leme vem cavando o percurso nas Correntezas.
Sei que chegarás, porque está escrito na carne do sonho.
E eu permaneço insone
bordando,
nas horas do dia,
todo o seu manto.
*
PENÉLOPE MENTIROSA
Mônica de Aquino (Brasil, 1979)
De noite desfaz, obediente
a fera que a carne abriga
e regressa à partida: a espera indefinida.
De dia, é outro o desejo
tece a mortalha com o silêncio
de ter de casar-se outra vez
(presa entre duas promessas)
mas Penélope mente: o que quer é a solidão.
A fidelidade é um cão.
*
NEUROLÓGICA
Tatiana Pequeno (Brasil, 1979)
um soco depois do almoço
certeira em minha casa só
disse alguma coisa sobre os
cactos que quis deixar no cor
redor da sacra vizinhança e
um corpo de homem avançou
rápido na contramão da zona
morte aparente contradição é
um soco depois do almoço
vindo à esquerda da cabeça
não sangrou nada apenas caí
e levantei rápido com um lá
pis-lazúli apontado para o
coração do tolo a me dizer
cuidados sobre a maneira de
escrever ou dizer seu nome
queria comungar do seu ódio
rasgar teu peito e descosturar
a cerzidura da tua pele mas
não sou como tu homem e
meus ódios eu bordo em rou
pas que não visto e guardo
no fundo das terras ardidas
onde cuspo sobre teu nome
e todas as tuas futuras tristes
esposas filhas gerações.
*
OS CABELOS DE PENÉLOPE
Érica Zíngano (Brasil, 1980)
os cabelos de penélope
seus fios crescem
e seu marido nunca aparece
que tristeza penélope sozinha
cosendo
chorando e chorando
e costurando e descosturando
o tempo
penélope não perde a cabeça
mas penélope arranca os cabelos
seus próprios cabelos
como se fosse um gato
psicopompo
que solta seus próprios pelos
penélope faz uma linha nova
todo dia uma linha diferente
com um fio de cabelo
novinho em folha
no meio da linha
penélope diz que é magia
a eletricidade dos cabelos
de noite quando descostura
penélope junta os fios
à meada
e vai dormir cansada
*
ATRIBUTOS
Juliana Krapp (Brasil, 1980)
Gostaria de ser uma mulher
que soubesse identificar um brocado
uma cerzidura um carmesim um
adorno
em matelassê
No comércio
a palavra aviamentos me lembra
de que há todo um reino de malícias
que desconheço
- penso
não em ilhós
mas em aves aquáticas
artefatos explosivos
Gostaria
de poder dizer: vamos desenlaçar
o cordão do meu quimono vamos
providenciar castanhas doces
para o grande banquete
e nos deitar sob o dossel à espreita
das comissuras
que ardem na pele
Porém
eu estou atada
ao mundo da sonolência
e das cintilações breves
da louça quebradiça e da mixórdia
- ao lugar
das mulheres e bichos
que se espatifam n’água
*
PENÉLOPE
Ana Freitas Reis (Portugal, 1981)
"Um fio invisível e tónico
pacientemente cose a rede
da nossa milenar resistência"
[Conceição Evaristo]
Se a Terra erguesse versos
como pontos cardeais
ancorados a um coração
de raios abertos,
vozes com sede
rompendo a ternura
a seda do eros falante
ou o céu da vénus filarmónica,
talvez aí soubéssemos explicar
o mistério.
Se a canção do Bowie pudesse ser repetida
como a fome da visão de um melro
o limoeiro que escuta junto e sério
o teu corpo aos palmos
e o amor por inteiro, ao invés
de interrompido,
seria impossível, saberias.
Porque, tal como o passo
de samba melancólico,
o mistério milenar,
de onde ainda sopram notas púrpuras,
de onde ainda soa o assobio escuro,
de onde vem o vento contorcido,
move a fita de sangue
nos nossos cabelos.
E seria necessário que o vulto,
que me assombra,
explodisse
e teríamos de ter tentado
o caminho de novo, orientados
e perdidos um dentro do outro.
Os olhos rangeriam nas costas da beleza
a aurora bater-nos-ia no rosto
e a manhã, nossa inimiga,
desde um fevereiro descampado,
seria a queda do anjo.
A série fôlego que sangra
e bafeja espinhos
traz o mistério
esse, o primeiro sol
como uma metralhadora,
a bandeja erguida,
a carne frita em manteiga derretida
entre braços fracturados.
Se o gaguejo que ainda sai
semelhante a um trovão
sorvesse a tua solidão, lentamente,
ao alto levaria as cinzas
e substituiríamos a luz dourada,
a janela sem cortinas,
o cheiro a hortelã,
a flor amarela,
o óleo de girassol dito em inglês,
as estrofes longas como espasmos.
Hoje sei que o mistério
arde quando é soprado.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

NANA, NENÊ

Nana, nenê. 

Tu estás no colo 
dessa Cuca que te gerou 
por nove meses. 

O teu papai, o Bicho Papão, 
está no trabalho 
de fazer roça do mundo. 

Não há monstro 
sob o berço, só há tu mesmo, 
monstruoso nele. 

As mães de outras espécies 
ninam seus filhotes 
te usando como assombração. 

O resto do planeta não dorme 
por medo de ti, 
e de papai, e de mamãe. 

Nana, nenê.

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domingo, 13 de setembro de 2020

[uÓdio] de Décio Pignatari

Esse texto de Décio Pignatari (1927-2014) foi primeiro exibido na exposição do poeta-artista na Galeria Milan, com curadoria de João Bandeira, e publicado pela Folha de S. Paulo. O poeta Eduardo Sterzi o divulgou nas redes sociais. É um daqueles grandes exemplos do Pignatari satírico e experimental, e um verdadeiro leão da intransigência.





letras de merda! cagas pra cima ( uÓdio ) onde outras toneladas-de

creto de concreto de bosta soltam o barro para baixo o bairro e se

alatrinam na justiça ( uÓdio ) ou bem cagas no campo e adubas o im

pulso de tôdas as raivas contra tôdas as covardias? o ódio ( uÓdio )

letrasdemerda ( uÓdio ) o ódio ( uÓdio ) não a paciência que se ca

rcome na subserviência e escancara as duas abas da bunda malemolen

te ao subôrno em forma de salário legal! os intestinos dêste povo

iletrado estão cheios de ar bombado à fôrça de êmbolos de açúcar e

o seu dedo lê tartamudo meia coluna de jornal em meia-hora ( uÓdio )

ao fim da qual êle decifra a sua escravidão! pois hão de preparar

lhe um texto que ( uÓdio ) ao decifrar-se ( uÓdio ) exploda ( uÓdi

o ) arrebente no outubro bastilhondo de um peido vulcânico e subte

rrâneo que vire pelo avêsso as tenras terras-carnes de brasilville

( uÓdio ) a vil ( uÓdio ) desde interlagos até à rue de la boétie e d

esde copacabana até à avenue montaigne! as letras & artes se trans

formaram na solitária punheta do mêdo. ninguém tem pulso para dize

r uma verdade fora da hierarquia ( uÓdio ) contra todos ( uÓdio )

de preferência contra os probos magistrados à daumier ( uÓdio ) qu

ando não fôsse só para ver até onde vão as suas lições de democrac

ia e as suas citações de voltaire. letrasdemerda ( uÓdio ) enquant

o os bons alunos preparam as suas teses acadêmicas para garantir u

m emprêgo de assistentes nas faculdades ( uÓdio ) enquanto as pédi

bundas filhas das puras eminências de alto nome vão galinhando até

que a morte as descabace ( uÓdio ) enquanto os poetas de pele bran

ca como barriga de sapo empoeirado compõem nas repartições - horas

vagas ( uÓdio ) vago chefe - poemas sensuais de imagens levantinas

e as suas bonitas espôsas os esperam em casa atrás da porta para e

strangulá-los com suas calcinhas de nylon ( uÓdio ) enquanto os ge

nerais sentem pruridos quinquenais de restaurar as pás sociais e o

país sem alegria cada vêz mais ( uÓdio ) puritano e bárbaro cada v

êz mais ( uÓdio ) enquanto os que podem fogem para citera e os que

não [f]podem planejam [f]poder ( uÓdio ) enquanto a burrice velhaca enra

ba a supersticiosa ignorância popular ( uÓdio ) enquanto isso ( uÓ

dio ) tu ( uÓdio ) letrasdemerda ( uÓdio ) o teu barulho não dá pa

ra encher nem um supositório que provoque um riso goyesco pela cul

atra! quanto mais uma revolução social ( uÓdio ) ou uma reforma cu

ltural ( uÓdio ) quanto mais! Mas por via das dúvidas ou por via an

al ( uÓdio ) considera que só o ódio ( uÓdio ) letrasdemerda ( uÓd

io ) o ódio e nada mais: encherá a barriga do pobre ( uÓdio ) aleg

remente.


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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

CONTRA O DESPERDÍCIO

Como você abria o armário 
da despensa e a geladeira
e averiguava detalhes 
de tudo antes do consumo,
se a farinha e o milho
traziam carunchos,
se os ovos estavam galados,
se virara vinagre o vinho,
e fazia suas apreciações 
naquele idioleto peculiar 
da casa e da comarca,
“essa carne e esse leite
não estão muito católicos”,
eu hoje diante do espelho
apalpei-me a mim mesmo
e me cheirei no pacote recôndito,
analisei verrugas na embalagem.
As manchas crescentes na pele, 
as mamas caídas de Mãe Jocasta,
as patas mancas e as cáries 
do cavalo que me foi dado 
para trotar por essas plagas.
Não conheço ao certo meu prazo
de validade, minhas receitas
para servir duas ou três porções,
se alimentei e com vitaminas 
alguém nesse mundo eu nutri.
Mas sei meus condimentos,
conheço meus aditivos,
e ali ao espelho também manchado,
qual consumidor satisfeito,
esgarcei os lábios e sorri de murmúrio
como se você ainda estivesse vivo:
nada por aqui anda muito católico.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Alguns comentários sobre o vocabulário e as formas de 'Batendo pasto', livro de Maria Lúcia Alvim

 

O VOCABULÁRIO BATENDO PASTO

O novo livro de Maria Lúcia Alvim lança mão de um vocabulário mais preciso do que precioso. Escrito no interior do país, ele traz uma especificidade localista, contextual. Diz o que diz porque o diz onde o diz. Ao mesmo tempo, recorre a palavras da língua que parecem balançar-se entre a simplicidade da fala quotidiana e a exuberância das raridades antigas. Comum aqui, raro ali.

Decidi compartilhar algumas luso-pepitas [bem brasileiras] com vocês, vindas do livro. Esta aparece em um dos poemas publicados pelo Suplemento Pernambuco. Nos versos:

“Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim”

Ao corrigir as provas e cotejar com o manuscrito, em vários momentos solto um “Ora, mas que diabo é _____?”. Nesse caso, um MINUANO. Minuano?

MINUANO mi·nu·a·no 
substantivo masculino

1. Denominação de uma das etnias autóctones do território brasileiro, povo indígena minuano.
2. Vento do sudoeste, seco e frigidíssimo, que se manifesta no Inverno, após as chuvas, no Sul do Brasil.

Aqui se percebe a maestria da simplicidade rica. A palavra “voz” no primeiro verso, por ser uma faculdade associada aos seres humanos, leva-nos a crer que Maria Lúcia Alvim está invocando o povo indígena. Mas se seguimos a rede de oposições que o poema tece, ao se referir à primavera no verso seguinte, o minuano se torna também o vento invernal. Sem qualquer pirotecnia, ela usa as duas acepções da palavra. 

Há outras coisas belas de mescla no poema, como a junção de uma linguagem de ciranda à forma do soneto, em que uma ao mesmo tempo apoia e desarma o outra. Leia o poema todo, depois siga para o Suplemento para ler os outros.


“Eu era assim no dia dos meus anos
E quando me casei, eu era assim
Eu era assim na roda dos enganos
E quando me apartei, eu era assim

Eu era assim caçula dos arcanos
E quando me sovei, eu era assim
Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim

Enquanto fui viúva, eu era assim
Enquanto fui vadia, eu era assim
E pela cor furtiva, eu era assim

No amor que tu me deste, eu era assim
E trás da lua cheia, eu era assim
E quando fui caveira, eu era assim”

*

Para a quarta-capa de Batendo pasto, o novo livro de Maria Lúcia Alvim a sair em breve pela Relicário Edições, selecionamos um poema que não é só um dos meus favoritos no volume. Há nele um verso que tem me ajudado a respirar — “o capim é minha grande reserva interior” — e que poderia ser discutido para uma compreensão de toda a poética e ética que guiam o trabalho. 

Pois não me parece tratar-se apenas da tradição lírica ou quiçá neo-árcade de um louvor do rural, de um ‘carpe diem’ que chame a atenção de nossos sentidos gastos, baços, para a beleza-simplicidade das coisas. O momento fugidio, etc.

Talvez mais até do que a importância e a dignidade das vidas menores num mundo utilitarista, a poeta aponte para a imprescindibilidade mesma dessas coisas para seguirmos sendo, para nos mantermos vivos ante a hierarquização de tudo segundo sua rentabilidade. Como um gentil recado contra a nossa húbris de colosso pobre. É o que gosto de ler nesse verso.


Manhã sem rusga
pequeno depósito de agrura na poça
exorbitei de alegria
a abóbada celeste não dá vazão
silos de silêncio
ó ser astral
o capim é minha grande reserva interior
a esperança
desleixo
 

*

O poema mais longo do Batendo pasto [Belo Horizonte: Relicário Edições, no prelo], de Maria Lúcia Alvim, intitula-se "Litania da lua e do pavão", e é também um dos mais longos de sua obra, só encontrando paralelos no seu trabalho de caráter épico no Romanceiro de Dona Beja (1979). É, ao mesmo tempo, muito diferente daqueles poemas narrativos, e uma peça única em sua poesia, na qual a inteligência eminentemente associativa do poeta se mostra em seu funcionamento. Os primeiros versos leem:


Piedade lua 
De castidade

Luva de Ismália 
Chapéu de palha

Olho propina 
Escarlatina

Primopolia 
Do todavia

Tu mastodonte 
Anacreonte


Nesse texto a poeta permite o vagar associativo da mente por sons e sentidos, num poema que me lembra dois outros exemplos de inteligência associativa na poesia brasileira. Em primeiro lugar, o poema "Isso é aquilo", de Carlos Drummond de Andrade, também longo, no qual se lê na primeira seção:


O fácil o fóssil
o míssil o físsil
a arte o infarte
o ocre o canopo
a urna o farniente
a foice o fascículo
a lex o judex
o maiô o avô
a ave o mocotó
o só o sambaqui

O outro exemplo é aquela belezura magistral de poema que Tom Jobim engendrou em "Águas de março":


É pau, é pedra, 
é o fim do caminho.
É um resto de toco, 
é um pouco sozinho.
É um caco de vidro, 
é a vida, é o sol.
É a noite, é a morte, 
é um laço, é o anzol.
É peroba-do-campo, 
é o nó da madeira.
Caingá, candeia, 
é o matinta-pereira.


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terça-feira, 18 de agosto de 2020

ARE YOU GOING TO BEBEDOURO FAIR?

                a Ismar Tirelli Neto

Você irá nesse domingo à feira 
ao redor do Jardim Misterioso
em Bebedouro?

Mande notícias, se as pinhas 
estão maduras, se é tempo
de mangas, a rosa

ou a espada que corta o verão.
Se já bate ao sol a bandeira
da coração-de-boi.

Talvez possa resgatar um frango
das mãos vivas de uma avó
que o queira pirão

e entre as grades da prefeitura 
o solte a ciscar por uma hora
mais de vida e paúra.

Na praça pergunte aos antigos
se é verdade que ali antes
fora um cemitério

e por isso o Misterioso do nome,
se só outra história de medo 
a crianças crédulas.

Note se todos contam as moedas,
se há poemas nas cédulas.
Talvez seja ainda 1985.

Procure então entre as galinhas 
medrosas um menino franzino
e medroso, muito quieto.

Diga-lhe que vai diminuir o medo.
E o pavor do revólver da vacina
e da verdade sobre si 

é completo e supérfluo exagero.
Que cisque como as galinhas
da alegria os grãos.

Que cresça como aquelas mangas:
espada, rosa, coração. Rasgue 
no dente o verão.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Excerto em vídeo da performance de André Capilé para "Sereno"



Foi em 2019. Estávamos no Festival Artes Vertentes. O irmão-de-cabeça André Capilé já havia me contado sobre o poema "Sereno", no qual vinha trabalhando. Mas foi ali, numa noite do festival que ele dividia com Guilherme Gontijo Flores diante de uma instalação de Ricardo Siri que eu ouvi pela primeira vez essas invocações ao Boi.



Eu disse a ele depois da performance, que realmente me pôs em transe e trouxe água salinidade aos olhos, de amor pela tradição oral, que aquele poema nascia já anônimo. É elogio. Porque é como se ele apenas o houvesse buscado na memória coletiva, traumática e maravilhosa. Enquanto ele cantava, compus esses versículos na cabeça:


                                                                 Só boi que é mesmo boi
                                                                 sabe onde dói seu mu.
                                                                 Compor um canto anônimo
                                                                 não é pra qualquer um.

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domingo, 2 de agosto de 2020

Poema e leitura de Max Martins (Belém do Pará, 1926-2009)


MAX MARTINS (Belém do Pará, 1926-2009)

Max Martins foi um poeta brasileiro, nascido em Belém do Pará em 1926. Após os estudos de Literatura, passou a colaborar em revistas e suplementos, como a revista literária Encontro, publicando os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Estreou com o livro O Estranho (1952), seguido, entre outros, pelos livros Anti-Retrato (1960), O Ovo Filosófico (1976), O Risco Subscrito (1980) e 60/35 (1985). O poema abaixo, inspirado no lendário mercado de Belém do Pará, foi publicado no livro H'era (1971), e considero-o um de seus mais importantes. O vídeo com leitura do poeta faz parte do documentário Porto Max (2009), do coletivo da Fundação Curro Velho.



VER-O-PESO

A canoa traz o homem
a canoa traz o peixe
a canoa tem um nome
no mercado deixa o peixe
no mercado encontra a fome

a balança pesa o peixe
a balança pesa o homem
a balança pesa a fome
a balança vende o homem

                     vende o peixe
                     vende a fome
                     vende e come

a fome 
vem de longe
nas canoas
ver o peso
come o peixe
o peixe come

                     – o homem?

o homem não come
come o homem
compra o peixe
compra a fome
vende o nome
vende o peso

                    – peso de ferro
                    – homem de barro
 
pese o peixe
pese o homem
é a fome
vem do barro
vem da febre
(a febre vê o homem)

veja a lama
veja o barro
veja a pança

                     o homem
                     come a lama
                     lambe o barro

ver o verde
ver o verme
o verme é verde

está na lama
está na alma
é só escama
a pele do homem
está com fome
vê o peixe
vê o prato
não tem peixe
tem fome
a fome pesa
o peso da fome
peça por peça
pese o peixe
deixe o peixe
veja o peso
peixe é vida
peso é morte
homem é fome
peso da morte
peixe de morte
a sorte do peixe
é o peso
azar do homem

pese o peixe
pese o homem
o peixe é preso
o homem está preso
presa da fome

ver o peixe
ver o homem
vera morte
vero peso.

– Max Martins, in H'era (1971)

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Frederico Klumb lê um de seus poemas

Gravei esse vídeo com o amigo Frederico Klumb em minha última passagem pelo Rio de Janeiro, no qual ele lê um de seus poemas inéditos. Klumb é poeta, prosador e cineasta, nascido carioca [não é culpa dele] em 1990.

 

[Dos marinheiros]
Frederico Klumb

Dos marinheiros 
costuma-se dizer 
entre a terra e os navios 
que por amarem demais o mar 
precisam dos portos 
do chão mínimo 
o metal os contêineres pesando o rijo 
a única noite capaz de cessar o balanço 
do casco quando é seu trabalho perder-se de vista 
 
Dos marinheiros 
costuma-se dizer que é nos portos 
que encontram suas pernas seu peso 
o que sentir além de azul azul azul  
e amanhã azul 
dos marinheiros  
há muitas fotos espalhadas 
não são tão belas quanto as antigas 
são fotos de metal são fotos gigantescas 
são fotos do homem na proa 
no limite do que ainda pode ser visto 
antes do céu do mar navio 
cinza 

Ao olhar agora a fotografia de um marinheiro 
pensei comigo 
é ele e não a terra 
é ele, o continente 


Arena (2016), é um exemplo do seu trabalho visual. Nossa colaboração num vídeo também pode ser vista na revista Escamandro, para a peça sonora de Francisco Bley baseada em um poema meu.



Abaixo, um retrato que roubei do homem na Vila Isabel em 2018.

Ricardo Domeneck - "Frederico Klumb na Vila Isabel", 2018

Num poema-carta em forma de retrato, dedicado a ele e ainda inédito, encerro com os versos:

                  "ninguém apaga o incêndio 
                   que floresce 
                   na fiação capenga dos nossos sótãos."

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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Uma fotografia com Victor Heringer



Uma foto com Victor Heringer. Que aperto no peito. Não me lembrava dessa chapa, e trombei com ela agora numa pasta velha. Sei até a data. Reconheço o lugar. Estamos na Casa Villarino, o antigo reduto de Tom Jobim e Vinicius de Moraes no centro do Rio de Janeiro. Foi após nossa performance no MAM - Museu de Arte Moderna, no dia 12 de janeiro de 2012. Foi uma noite linda. Apresentaram-se ainda Marília Garcia, Ismar Tirelli Neto, Dimitri BR & Joel Gibb (The Hidden Cameras). O arquivo diz que a fotografia é de Taddei, mas não sei ao certo. A noite só havia sido possível graças à generosidade de Marta Mestre e Carlito Azevedo. Quantas saudades do cavaleiro-cavalheiro Victor Heringer (1988-2018).

*

“No começo nosso planeta era quente, amarelento e tinha cheiro de cerveja podre. O chão era sujo de uma lama fervente e pegajosa.

Os subúrbios do Rio de Janeiro foram as primeiras coisas a aparecer no mundo, antes mesmo dos vulcões e dos cachalotes, antes de Portugal invadir, antes de o Getúlio mandar construir casas populares. O bairro do Queím, onde nasci e cresci, é um deles. Aconchegado entre o Engenho Novo e Andaraí, foi feito daquela argila primordial, que se aglutinou em diversos formatos: cães soltos, moscas e morros, uma estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e um terreno enorme reservado para o cemitério. Mas tudo ainda estava vazio: faltava gente.

Não demorou. As ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir, para varrê-las”.

— Victor Heringer, ‘O amor dos homens avulsos’

*

Não era a essa foto que eu me referia em minha elegia ao amigo do peito. Mas vale também, de certa forma. Victor tinha o jeito de direcionar o próprio cérebro ao peito do interlocutor.

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS
[Ricardo Domeneck]

1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

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