Rocirda Demencock

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Dear Meteor", colaboração com Nelson Bell


"Dear Meteor" (2016),  uma peça nova que fiz com o produtor alemão Nelson Bell. Abaixo, o texto e foto da nossa apresentação ontem no palco do evento vienense/berlinense Philosophy Unbound (em Berlim).


Dear Meteor

as a child i mourned
the dinosaurs
and their sad fate
at the end of a kiss
by a meteor
and i lay awake at night
fearing the meteor
fearing the virus
fearing the bomb
fearing the robot
and i thought of my sisters
thirsty in a global desert
and i thought of my brothers
freezing in a global arctic
and trembling with fear
in my pyjamas
i counted the mass extinctions
1
2
3
4
5
6
and so sad so sorry so silly
i wanted to hug
a dolphin
a bee
an orangutang
now i no longer fear
the meteor
as i realized the meteor
is my friend
no not exactly the meteor meteor
but my friend is the meteor
and my mother is the meteor
and my sister is the meteor
and everyone i love is the meteor
everyone i love and loved and will love
especially myself as i so especially love
myself
we are all the meteor
gaia mama gaia so wise
mama gets bored every once in a while
of the contraptions it spawned
and says in a yawn
LETS SHUFFLE THE CARDS
gaia mama gaia
so wise and economical
why wait for a meteor
why risk outside intervention
to shuffle the cards
so this time
mama gaia mama
came up
with a domestic solution
a homemade meteor
homo sapiens you lovely little meteor
in 7 billion pieces
i love you meteor
i love you homo sapiens
we are here to help
MAMA GAIA
SHUFFLE THE CARDS
AGAIN
turn to your side right now
and hug the meteor next to you
and call the meteor
who gave birth to you
and tell her and him
I LOVE YOU METEOR



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"Um aperto de mão e um poema de Mohan Rana"


(com Mohan Rana na Eslovênia)


Um aperto de mão e um poema de Mohan Rana

Ao despedir-se de mim em Liubliana,
Mohan Rana
toma minha mão, diz: 'tudo se abranda'.

Nesse instante,
tudo que a língua híndi carrega em si,
Kabir, Valmiki,

Rahim e Vrind, cabem aqui em nossas
palmas unidas,
molusco protegido entre duas conchas.

Mais tarde, no aeroporto de Frankfurt
abro o seu livro
e Mohan canta só uma camisa usada,

"esta vida, possível!". Fecho os olhos
como o Gaṅgā
não se fecha, mareiam neles as dívidas,

somem brigas, e num aeroporto, lugar
tão-só trânsito,
uno palmas a poema e tudo se abranda.

§

Abaixo, posto imagens do poema de Mohan Rana a que me refiro, em tradução de Bernard O'Donoghue e Lucy Rosenstein, e no original híndi.




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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

VOCÊ, INCAUTO


Você, incauto,
não viu raiar o dia
aninhado em colchas,
embalado ao colo
gentil de Gaia,
que gira devagarzinho
para que você
não caia.

Você, incauto,
não despertou
com o barulho do moer
dos grãos
nem com o cheiro
do café
detidos pela porta
da cozinha
que fechei cuidadoso
para que você
permanecesse incauto.

Enquanto isso, os pombos
da Praça Matriz
já coloriam experimentais
a bandeira tediosa
com nossas cores
mais contumazes,
mais representativas:
o marrom da lama,
o cinza da fumaça.

Mas alguns minutos
incautos mais eu queria
dar a você
como um primeiro
presente do dia.
Poupar seu sono
das manchetes,
das polêmicas,
das piadas prontas
que nos fazem rir
nervosos e melancólicos.

E quando ambos
sentamo-nos à mesa
e bebericamos o café,
incautos éramos
sobre quais mãos
esfomeadas colheram
os grãos e de qual povo
indígena foi roubada
a terra em que brotou
o cafezal.

Incautos seguimos
que do outro lado
de nosso planeta,
no ar
extinguia-se uma espécie
de pássaro,
no mar
extinguia-se uma espécie
de cetáceo,
e na terra do cafezal
extinguia-se
uma das línguas
da terra.

Então, incautos
você e eu,
deixamos a casa
e fomos brincar
de República.


§

17 de novembro de 2016, para manter puras as palavras da tribo.

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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma resenha, duas entrevistas e um conto



Caros, nestas duas últimas semanas, saíram no Suplemento Pernambuco uma resenha de Igor Gomes da reedição do meu livro Cigarros na cama, trazendo inéditos e já disponível pela Luna Parque Edições, e uma entrevista conduzida por ele comigo.

link:

E fico muito feliz que a página da Livaria Boto Cor-de-Rosa em Salvador tenha publicado um conto inédito meu, chamado "Sem vagas", que fará parte do meu livro de contos a sair no ano que vem.

link:

Aliás, minha gratidão ao povo do Recife e de Salvador, onde tenho interlocutores tão generosos.

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Por fim, encerro com uma entrevista em vídeo conduzida em Bruxelas durante minha residência no intituto Passa Porta - Casa Internacional de Literatura, onde passei dois meses trabalhando em meu livro de contos.



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sábado, 5 de novembro de 2016

Dois remixes para a faixa "Little Mess" de Crooked Waves



"Little Mess" é a faixa de abertura do EP Floating, de Crooked Waves com vocais de RIN, lançado pela plataforma que dirijo em Berlim com Ellison Glenn a.k.a. Black Cracker, a Gully Havoc. Lançamos já dois remixes, um de Apogamy e outro de Oliver Si. Ouça-os abaixo. Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, com quem também colaboro no duo Bell Dome.



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domingo, 30 de outubro de 2016

O filho


                                       a Ewout De Cat


Queria tanto um filho,
essa relação que dura
dezoito anos
e até compensa os gastos,
mas em casa periga
morrer de sede a samambaia.
Há também os problemas
de logística e hidráulica.
No ano passado,
comprei um cacto
mas a gente precisa de algo
que precise um pouco mais da gente.
Pedi esse ano ao Papai Noel
um periquito
que me dê o pé quando eu o peça.
Os amigos riem, dizem que passei da idade.
Com sorte, morrerei entre muitos gatos,
talvez um cão
mas estou esperando o ano
em que seja maior que a minha
a expectativa de vida
de um filhote de vira-lata.
Não gosto de separações nem de enterros.
Quando posso, evito rodoviárias.
Têm cheiro de choro.

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--- Berlim, 30 de outubro de 2016.

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vídeo para "Keep", do trovador austríaco Oskar May



Oskar May - "Keep" - from The Lane (Gully Havoc, 2016).
Mais informacões na postagem dedicada a seu trabalho
na Modo de Usar & Co.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Ewout De Cat na Praça do Velho Mercado dos Grãos" (2016)


Ewout De Cat é um jovem poeta belga de língua flamenga, 
nascido em Gante, Flandres, em 1996.

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Quatro poemas na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo neste domingo passado




Meu pai acordava toda manhã, fervia a água para o café (com o açúcar já nela), e ia sentar-se com o copo numa mão e este jornal em outra, na sala, na área, ou no quintal se estivesse fazendo sol. Reside aí para mim a importância desta coisa aí acima. Quando secou a grana nos anos 90 e entre os primeiros cortes de despesa estava a assinatura do jornal, meu tio Douglas guardava o "Mais!" para mim aos domingos. Os mais novos não vão entender, mas morar no interior à época e querer notícias de livros era coisa complicada. Meu pai e meu tio agora já se foram  – "descansaram", diria um interiorano, ou "desceram a Campos Salles", como dizemos lá em casa, em Bebedouro, porque o cemitério municipal fica ao fim da mais longa rua da cidade, a Rua Campos Salles. Que a terra seja leve sobre eles, mais leve do que é sob nós! Mas acho que minha mãe vai ficar contente, e quem sabe até desista daquela história de querer que eu fosse o filho com "D" e "R" na frente do nome (doutor Ricardo... pode uma coisa dessas?). Pena que parte da alegria dela provavelmente vá ser estragada pelo "teor" dos poemas. "Meu filho, o que duas pessoas fazem entre quatro paredes não é da conta de ninguém... precisa ser tão aberto a respeito disso, meu filho?"

Sim, mãe. Precisa.

O medo dela é que eu acabe como Pasolini, já que tantos de nós acabam assim. Quando penso nisso, sempre me vêm à mente as palavras de Pedro na hora de morrer como seu mestre: "Eu não sou digno que..."

4 poeminhas da nova edição do Cigarros na cama (São Paulo: Luna Parque Edições, no prelo), na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo de hoje. O livro foi originalmente publicado pela Berinjela em 2011.

Como a Folha já deu online, creio que não se importam se eu postar os poemas aqui:

QUATRO POEMAS INCLUÍDOS AGORA NO LIVRO CIGARROS NA CAMA

Eu culpo minha corcunda,
me debrucei
demais sobre você,
esse foi meu primeiro
tropeço.
E ao embalo do seu colo,
notei logo tudo encavalar-se.
Fui seu contrapeso
de gangorra,
seu cavalo-de-balanço
capenga.
Eu corria as mãos
por suas ancas
fortes e moças
e sentia já nas minhas
os sintomas
do engessamento.
Você dançava
e eu me descadeirava,
eu expectorava
e o seu peito subia e descia
calmo. Escute o meu: range
feito roda de carroça.
E quando seus olhos
vagavam para fora
da janela, era
como se eu
fosse defenestrado.
Já era ele
este outro
que você buscava
longe, fora da sala
onde meu corpo
estava tão
ao seu alcance?
Em que momento
um eu
que era um
passa a ser só outro,
outro só?

§

Antídotos matinais,
o primeiro cigarro
e xícara de café,
as pernas bambeiam,
a cabeça fica leve,
é como experimentar
o seu amor de novo
por três segundos
toda manhã.

§

Só em caso de emergência

na precisão
de um transplante
eu doaria a você
um pulmão um rim
meio fígado falido
& se no presídio
sem grana de fiança
acarretaria os custos
ou roubaria um banco
em alto estilo-bonnie
desde que você
me desclydeficou
& se feito refém
do pentágono
da al-qaeda
de aliens
da yakuza
eu em resgate
com direito a
cavalo estandarte
e mil trombetas
mas não
não tenho tempo
para o cinema
não não
tenho tempo
para um café
não não tenho
tempo
como vai
tudo bem

§

Contando os dias

1884 anos atrás, num dia deste mês de outubro, Antínoo há-de afogar-se no Nilo.
1854 anos depois, num dia deste mês de outubro, O Moço há-de nascer.

:

ou

:

1884 anos atrás,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
Antínoo
há-de morrer
entre as margens
do Nilo.

1854 anos depois,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
O Moço
há-de nascer
às margens
do Reno.

:

ou

:

Antínoo morreu hoje.
Começo a contar os 677,176 dias até o nascimento d'O Moço.

:

ou

:

Estou em Paris. Hoje é 14 de julho de 1789 e fazem muito barulho fora da janela de minha cama. Suo só. Quero apenas dormir. O Moço ainda não nasceu.

:

ou

:

Depositei hoje flores às margens do Reno. Fiz uma oração por Antínoo, a um Deus que ele não adorou.

:

ou

:

Soube que um substituto meu tornou oficial a religião dos escravos. Desaprovam as lindas estátuas de Antínoo. Quereria morrer no Nilo, mas espero às margens do Reno.

:

ou

:

Antínoo é morto. O Moço ainda não nasceu. Minha mulher queixa-se de minhas lamúrias pelos cantos. Ela chama-se Sabina. Raptem-na, por favor.

:

ou

:

___ Eclodiu a Guerra!
___ Onde?! Não façam crateras onde há-de nascer O Moço!

:

ou

:

Houvesse nascido às margens do Reno quando Antínoo ainda não singrara pelo Nilo, teria eu chamado O Moço de bárbaro? Não. Sob minhas tetas de loba, substituiria Rômulo e Remo.

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Novo lançamento da Gully Havoc: o trovador vienense Oskar May

Gully Havoc é a plataforma fundada por Ellison Glenn e por mim em berlim para lançar música e literatura. Já foram lançados um álbum do próprio Black Cracker e o EP de estreia de Crooked Waves (o produtor alemão Nelson Bell). Em literatura, organizei uma antologia de escritores internacionais vivendo em Berlim, com autores como John Holten, Cia Rinne, Shane Anderson, Annika Henderson e as brasileiras Érica Zíngano e Adelaide Ivánova, entre outros.

Oskar May 
(foto de Anna Sophie Berger)


Nosso próximo lançamento será o EP de estreia do produtor e performer austríaco Oskar May (n. 1991), intitulado The Lane (Gully Havoc, 2016). A faixa que dá título ao EP já está disponível e pode ser ouvida abaixo.




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