Rocirda Demencock

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vídeo para "Keep", do trovador austríaco Oskar May



Oskar May - "Keep" - from The Lane (Gully Havoc, 2016).
Mais informacões na postagem dedicada a seu trabalho
na Modo de Usar & Co.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Ewout De Cat na Praça do Velho Mercado dos Grãos" (2016)


Ewout De Cat é um jovem poeta belga de língua flamenga, 
nascido em Gante, Flandres, em 1996.

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Quatro poemas na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo neste domingo passado




Meu pai acordava toda manhã, fervia a água para o café (com o açúcar já nela), e ia sentar-se com o copo numa mão e este jornal em outra, na sala, na área, ou no quintal se estivesse fazendo sol. Reside aí para mim a importância desta coisa aí acima. Quando secou a grana nos anos 90 e entre os primeiros cortes de despesa estava a assinatura do jornal, meu tio Douglas guardava o "Mais!" para mim aos domingos. Os mais novos não vão entender, mas morar no interior à época e querer notícias de livros era coisa complicada. Meu pai e meu tio agora já se foram  – "descansaram", diria um interiorano, ou "desceram a Campos Salles", como dizemos lá em casa, em Bebedouro, porque o cemitério municipal fica ao fim da mais longa rua da cidade, a Rua Campos Salles. Que a terra seja leve sobre eles, mais leve do que é sob nós! Mas acho que minha mãe vai ficar contente, e quem sabe até desista daquela história de querer que eu fosse o filho com "D" e "R" na frente do nome (doutor Ricardo... pode uma coisa dessas?). Pena que parte da alegria dela provavelmente vá ser estragada pelo "teor" dos poemas. "Meu filho, o que duas pessoas fazem entre quatro paredes não é da conta de ninguém... precisa ser tão aberto a respeito disso, meu filho?"

Sim, mãe. Precisa.

O medo dela é que eu acabe como Pasolini, já que tantos de nós acabam assim. Quando penso nisso, sempre me vêm à mente as palavras de Pedro na hora de morrer como seu mestre: "Eu não sou digno que..."

4 poeminhas da nova edição do Cigarros na cama (São Paulo: Luna Parque Edições, no prelo), na "Ilustríssima" da Folha de S. Paulo de hoje. O livro foi originalmente publicado pela Berinjela em 2011.

Como a Folha já deu online, creio que não se importam se eu postar os poemas aqui:

QUATRO POEMAS INCLUÍDOS AGORA NO LIVRO CIGARROS NA CAMA

Eu culpo minha corcunda,
me debrucei
demais sobre você,
esse foi meu primeiro
tropeço.
E ao embalo do seu colo,
notei logo tudo encavalar-se.
Fui seu contrapeso
de gangorra,
seu cavalo-de-balanço
capenga.
Eu corria as mãos
por suas ancas
fortes e moças
e sentia já nas minhas
os sintomas
do engessamento.
Você dançava
e eu me descadeirava,
eu expectorava
e o seu peito subia e descia
calmo. Escute o meu: range
feito roda de carroça.
E quando seus olhos
vagavam para fora
da janela, era
como se eu
fosse defenestrado.
Já era ele
este outro
que você buscava
longe, fora da sala
onde meu corpo
estava tão
ao seu alcance?
Em que momento
um eu
que era um
passa a ser só outro,
outro só?

§

Antídotos matinais,
o primeiro cigarro
e xícara de café,
as pernas bambeiam,
a cabeça fica leve,
é como experimentar
o seu amor de novo
por três segundos
toda manhã.

§

Só em caso de emergência

na precisão
de um transplante
eu doaria a você
um pulmão um rim
meio fígado falido
& se no presídio
sem grana de fiança
acarretaria os custos
ou roubaria um banco
em alto estilo-bonnie
desde que você
me desclydeficou
& se feito refém
do pentágono
da al-qaeda
de aliens
da yakuza
eu em resgate
com direito a
cavalo estandarte
e mil trombetas
mas não
não tenho tempo
para o cinema
não não
tenho tempo
para um café
não não tenho
tempo
como vai
tudo bem

§

Contando os dias

1884 anos atrás, num dia deste mês de outubro, Antínoo há-de afogar-se no Nilo.
1854 anos depois, num dia deste mês de outubro, O Moço há-de nascer.

:

ou

:

1884 anos atrás,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
Antínoo
há-de morrer
entre as margens
do Nilo.

1854 anos depois,
num dia
(como outro qualquer)
deste mês de outubro,
O Moço
há-de nascer
às margens
do Reno.

:

ou

:

Antínoo morreu hoje.
Começo a contar os 677,176 dias até o nascimento d'O Moço.

:

ou

:

Estou em Paris. Hoje é 14 de julho de 1789 e fazem muito barulho fora da janela de minha cama. Suo só. Quero apenas dormir. O Moço ainda não nasceu.

:

ou

:

Depositei hoje flores às margens do Reno. Fiz uma oração por Antínoo, a um Deus que ele não adorou.

:

ou

:

Soube que um substituto meu tornou oficial a religião dos escravos. Desaprovam as lindas estátuas de Antínoo. Quereria morrer no Nilo, mas espero às margens do Reno.

:

ou

:

Antínoo é morto. O Moço ainda não nasceu. Minha mulher queixa-se de minhas lamúrias pelos cantos. Ela chama-se Sabina. Raptem-na, por favor.

:

ou

:

___ Eclodiu a Guerra!
___ Onde?! Não façam crateras onde há-de nascer O Moço!

:

ou

:

Houvesse nascido às margens do Reno quando Antínoo ainda não singrara pelo Nilo, teria eu chamado O Moço de bárbaro? Não. Sob minhas tetas de loba, substituiria Rômulo e Remo.

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Novo lançamento da Gully Havoc: o trovador vienense Oskar May

Gully Havoc é a plataforma fundada por Ellison Glenn e por mim em berlim para lançar música e literatura. Já foram lançados um álbum do próprio Black Cracker e o EP de estreia de Crooked Waves (o produtor alemão Nelson Bell). Em literatura, organizei uma antologia de escritores internacionais vivendo em Berlim, com autores como John Holten, Cia Rinne, Shane Anderson, Annika Henderson e as brasileiras Érica Zíngano e Adelaide Ivánova, entre outros.

Oskar May 
(foto de Anna Sophie Berger)


Nosso próximo lançamento será o EP de estreia do produtor e performer austríaco Oskar May (n. 1991), intitulado The Lane (Gully Havoc, 2016). A faixa que dá título ao EP já está disponível e pode ser ouvida abaixo.




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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Poema em várias traduções e anúncio de uma antologia de poesia brasileira contemporânea na França


Esta tradução de Patrick Quillier para o francês fará parte de uma antologia de poesia contemporânea brasileira (apenas vivos) a sair na França em breve, organizada por ele, começando com os três mais velhos: Ferreira Gullar (1930), Augusto de Campos (1931) e Zuca Sardan (1933), e seguindo por vários autores de diferentes gerações até os três mais jovens da seleção: Érica Zíngano (1980), Juliana Krapp (1980) e Reuben da Rocha (1984). São 30 poetas. A antologia chama-se Retendre la corde vocale: anthologie de poésie brésilienne vivante, e será um número especial da revista Bacchanales, editada pela Maison de la Poésie Rhône-Alpes, em Grenoble.

Este poema foi também traduzido por Hilary Kaplan para o inglês e publicado na revista americana Action Yes; para o alemão por Odile Kennel e publicado em minha antologia pela editora berlinense Verlagshaus Berlin, intitulada Körper: ein Handbuch, em 2013; por Aníbal Cristobo para o espanhol, publicado em Ciclo del amante sustituible, sua tradução integral do meu quinto livro, lançada pela Kriller71 Ediciones em 2014; e por Bart Vonck para o holandês, publicado em uma antologia holandesa dos meus poemas, intitulada Het verzamelde lichaam e lançada em Amsterdã pela Uitgeverij Perdu em 2015.

O original está em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


Rêves Hollywoodiens du poète

1

que-ce-serait-bien oh ! a script
où une armée estonienne
conspirerait pour lapider
Gertrude Stein
& moi platoonique venant la secourir
au son des Rolling Stones.

2

que-ce-serait-bien oh ! science fiction
avec Winnie-the-Pooh en pleine baise
& moi dans un acte de métissagenèse
machinanimalement j’utéruserais des automates
évitant des crampes à Sisyphe
au son de Sonic Youth.

3

que-ce-serait-bien oh ! a cartoon
où une infection dûment estampillée
tsunamiquement dévasterait des amygdales
entre Poughkeepsie et Rangoon
& moi shaman développant le vaccin
au son de Björk & Maysa.

4

que-ce-serait-bien oh ! an epic porn
de Rob Lowe à Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de colliers en chaînes on all fours
& moi à l’envers dans un harem à la 8 ½
au son de « I´m a slave for U ».

5-

que-ce-serait-bien oh ! a western
once again awaiting barbarians
en invasions contre l’Occident
& moi en moine copy & paste
sauvant de l’oubli & Oz & Dante
au son de Portishead.

(Traduction de Patrick Quillier)

§

The Poet’s Hollywood Dreams

1-

I’d like a script
in which an Estonian army
conspires to stone
Gertrude Stein
& I plato(o)nic at salvation
to the sound of the Rolling Stones.

2-

I’d like science fiction
with Winnie-the-Pooh in coitus
& I in an act of humachine
mixegenation uterize automatons
struck with Sisyphean cramps
to the sound of Sonic Youth.

3-

I’d like a cartoon
in which a tsunamic infection
in franchises devastates amygdalas
from Poughkeepsie to Rangoon
& I shaman develop the vaccine
to the sound of Maysa & Björk.

4-

I’d like an epic porn
from Rob Lowe to Rock Hudson
all hunks and hulks of Hollywood
in rows in collars on all fours
& I’m mixed up in a harem to 8 ½
to the sound of “I’m a slave for U.”

5-

I’d like a western
once again waiting for the barbarians
to invade the Occident
& I a monk copy & paste
to save Oz & Dante from oblivion
to the sound of Portishead.

(Translation by Hilary Kaplan)

§

Sueños Hollywoodenses de Poeta

1-

¡quién pudiera oh! a script
en que un ejército estonio
conspirase para la lapidación
de Gertrude Stein
& yo platoonico al rescate
al son de los Rolling Stones.

2-

¡quién pudiera oh! science fiction
con Winnie-the-Pooh en cópula
& yo en un acto de miscegenación
magmánimo uterase autómatas
salvando de sus calambres a Sísifo
al son de Sonic Youth.

3-

¡quién pudiera oh! a cartoon
en que una infección en franquicias
tsunámica devastase amígdalas
entre Poughkeepsie y Rangoon
& yo shaman a medrar vacuna
al son de Björk & Googoosh.

4-

¡quién pudiera oh! an epic porn
de Rock Hudson a Rob Lowe
all hunks and Hulks of Hollywood
de collares en hileras on all fours
& yo del revés en un harén de 8 ½
al son de “I’m a slave for U”.

5-

¡quién pudiera oh! a western
once again awaiting barbarians
en invasiones contra el Occidente
& yo monje copy & paste
salvando del olvido a Oz & Dante
al son de Portishead.

(Traducción de Aníbal Cristobo)

§

Hollywood Träume des Dichters

1-

hätt ich nur, ach! ein Script
in dem Pierre Brice und sein Heer
die heimliche Steinigung
anstrebte von Gertrude Stein
& ich eilte platoonisch zur Hilfe
zum Klang der Rolling Stones.

2-

hätt ich nur, ach! Science fiction
mit Winnie Puuh bei der Paarung
& ich würde in einem Mischgeburt-Akt
maschinierlich Motoren gebärmuttern
entbände Sisyphus seiner Krämpfe
zum Klang der Sonic Youth.

3-

hätt ich nur, ach! ’nen cartoon
in dem eine Angina mit Lizenz zum Tsunami
alle Mandeln zerstörte in den Rachen
zwischen Poughkeepsie und Rangoon
& ich als Schamane erfände den Impfstoff
zum Klang von Maysa & Björk.

4-

hätt ich nur, ach! ’nen epic porn
von Rock Hudson bis Rob Lowe
all Hunks and Hulks of Hollywood
mit Halsband in ’ner Reihe on all fours
& ich um 8 ½ verkehrtrum im Harem
zum Klang von “I´m a slave for U”.

5-

hätt ich nur, ach! einen Western
once again awaiting barbarians
auf ihrem Feldzug gegen den Okzident
& ich copy & paste-Mönch rettete
Ochs & Ente vor dem Vergessen
zum Klang von Portishead.

(Übersetzung von Odile Kennel)

§

Hollywoodiaanse Dichtersdromen 

1.

had ik maar oh! a script
waarin een Ests leger
samenspande om Gertrude
Stein te stenigen
& ik platoonisch te hulp
op de klank van de Rolling Stones.

2.

had ik maar oh! science fiction
parend met Winnie-the-Pooh
& ik in een daad van raskruising
zou machinemoedig automaten baarmoederen
Sisyphus zijn spierkrampen besparen
op de klank van Sonic Youth.

3.

had ik maar oh! a cartoon
waarin een vrijgestelde en tsunamische
infectie keelamandelen zou verwoesten
tussen Poughkeepsie en Rangoon
& ik shaman die het vaccin ontwikkelde
op de klanken van Björk & Maysa.

4.

had ik maar oh! an epic porn
van Rob Lowe tot Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
met halsband in gelid on all fours
& ik averechts in een harem om 8½
op de klank van ‘I’m a slave for U’.

5.

had ik maar oh! a western
once again awaiting barbarians
in invasies tegen het Westen
& ik copy & paste-monnik die
Oz & Dante van vergetelheid redde
op de klank van Portishead.

(Vertaling van Bart Vonck)

§

Sonhos Hollywoodianos de Poeta

1-

quem-me-dera oh! a script
em que um exército estônio
conspirasse pelo apedrejar
de Gertrude Stein
& eu platoonico ao resgate
ao som de Rolling Stones.

2-

quem-me-dera oh! science fiction
com Winnie-the-Pooh em cópula
& eu num ato de miscigênese
maquinânimo uterasse autômatos
poupando de suas cãibras a Sísifo
ao som de Sonic Youth.

3-

quem-me-dera oh! a cartoon
em que uma infecção em franquias
tsunâmica devastasse amígdalas
entre Poughkeepsie e Rangoon
& eu shaman a medrar a vacina
ao som de Björk & Maysa.

4-

quem-me-dera oh! an epic porn
de Rob Lowe a Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de coleiras em fileiras on all fours
& eu às avessas num harém à 8 ½
ao som de “I´m a slave for U”.

5-

quem-me-dera oh! a western
once again awaiting barbarians
em invasões contra o Ocidente
& eu monge copy & paste
a salvar do olvido a Oz & Dante
ao som de Portishead.


Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


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sábado, 13 de agosto de 2016

História da terra do corpo

Uma história da terra
no próprio corpo.

Do pai, a porção branca
da carne,
ascendência registrada
em cartórios por tabeliães,
o nome próprio que retém
do avô a pronúncia catalã
de origem, e da avó nomes
de cidades do passado,
como uma certa Campobasso
que tanto poderia ser Atlântida.

Do pai, principalmente,
a possibilidade dos convites
às salas-de-jantar da casa-grande.

Da mãe, sobrenome proletário
de qualquer zé-ninguém
e o tingir castanho
da pele de gente cabocla
do interior, o passado
esquecido de ocas,
do estupro de mulheres
ameríndias e africanas
apagado e silenciado
pela História,
mas não pela carne.

A carne lembra-se
e lembra.

Feito o pânico irracional
da mãe, a cada gripe,
de que morra a casa toda.

As linhas retas de pais,
lembradas,
e as linhas tortas de mães,
esquecidas.

Mas na língua mesma resiste
talvez a memória
de um desastre antigo,
quando empreteja
o céu e se grita
da casa
que se corra e tire
a roupa do varal,

que vai cair um toró.

É sempre e ainda
o toró que vem.

E a carne dos filhos
sem entender bem
por quê
deseja e teme
o toró-final
que venha e leve
roupa e varal,
quintal e casa.


§

Berlim, 12 de agosto de 2016.

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sábado, 6 de agosto de 2016

Narval ou louva-a-deus




são transitivos e intransitivos
verbos demais, como nós mesmos
confundimos nossas necessidades
de complemento e sujeição,

feito este 'transumar'
buscado agora ao dicionário,
querendo pedir ao gerente-mor,
se houver
transumância e reencarnação,
volver
um dia como um narval,
baleia dentada e unicórnia,
ou talvez um louva-a-deus,
que ao menos em minha terra
evita-se pisotear, apenas,

por favor, gerente-mor

desta loja onde tudo sempre
tem mas acabou, ser qualquer
coisa, desde que
marítimo se vertebrado
e invertebrado se terreno,

quando descubro então que o próprio
'transumar' significa ainda algo mais
próximo de nosso tipo de vida comum:
“ir ou levar a pastar"

ó gerente-mor, não pastei já o suficiente?
não posso comer, ao menos neste café-da-manhã,
para variar, o brioche que o diabo amassou?

repito: que eu volte,
mas marítimo se vertebrado e invertebrado se terreno,
já me cansei das bagagens, das roupas,
das caixas de mudança, dos móveis
que acumulam pó
por cima e por baixo
e precisam ser arrastados pela sala e quarto
fazendo sulcos no assoalho,

cansei-me por fim da gravidade,
e da gravidade daquele outro verbo
não-copulativo, esta merda diária toda,
o que é o que é,
amar, verbo intransigente.

§

Berlim, 6 de agosto de 2016

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terça-feira, 26 de julho de 2016

Lançamento do EP de Crooked Waves e da antologia de escritores internacionais em Berlim



Hoje, no Alt Berlin (Chausseestrasse 102), ocorre o lançamento de Your + 1: some Berlin-based international writing (Gully Havoc, 2016), antologia que editei, com autores internacionais que vivem em Berlim, e de Floating (Gully Havoc, 2016), o EP de estreia de Crooked Waves, o produtor alemão Nelson Bell. Ambos saem pelo selo Gully Havoc, que dirijo com Ellison Glenn a.k.a. Black Cracker. A  antologia traz textos de Adelaide Ivánova, Hanne Lippard, Annika Henderson, Cia Rinne, e vários outros. Ouça o álbum de Crooked Waves abaixo.



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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois poemas recentes

Após outra conversa em que Louis McGuire e eu falhamos em adivinhar a senha

                     Outra manhã
            tardia, destas manhãs
                  que vêm tarde
                      por nossa recusa
            em permitir que o sol
                  dê fim à noite,
            manhãs tardias de noites
                 temporãs, aguadas a vinho
            em nossos milagres minúsculos
    ao transtornar em vinho a água
            em meio à poeira
                de nossos quartos
               com aluguéis atrasados
  e pós de toda ordem
                  sobre os móveis
   quando na penumbra gratuita
       de nossas cortinas puídas
  chegamos, em nossos colóquios
         de bêbados honestos,
                          não a um cerne
       mas a um consenso
      de verdade, uma crença
                  qualquer nossa,
          debates repetitivos
             no roteiro trivial de novela
      em que as reviravoltas
      dos beijos na testa
                  são
     as facas nas costas,
                  e tentamos fixá-la,
     essa verdade a varejo,
         torná-la uma coisa
   que se pega com as mãos,
            como estes isqueiros,
    estes cinzeiros que transbordam
            enquanto esvaziam-se os cálices,
             se ao menos
      encontrássemos a sequência,
       a sequência certa de palavras,
  artigo que siga substantivo e verbo,
              que é o dizível que nos importa,
            uma sentença feito reza
                      que a torne reiterável
      amanhã e depois de amanhã,
             tão reiterável quanto este sol
     que arde fora das cortinas puídas,
                  a sequência de palavras
       que faça deste consenso
                  de verdade temporária
         uma parte da penumbra
             e a ilumine,
                          enquanto engatamos
             a noite à manhã e a manhã à tarde,
                           intuindo
             que deste acordo
                     talvez
        dependa a inauguração
                  de um calendário novo,
      e bracejamos ao falar
                         um ao outro
         “eu sei o que você
                          quer dizer”
               na barafunda de vocábulos
                     que desperdiçamos
           com a boca nessa busca,
                mesmo sabendo não
                haver sem
                    o dizer o saber,
               nessa emergência
            de compreensão qualquer
               da catástrofe
            individual e coletiva
        que parece iminente,
                    e desejamo-nos ao fim
                sorte
                   ao sentirmos o pó
          acalmar-se no sangue
                 e resta tão-só a poeira
       a irritar as narinas, os pulmões,
              quiçá em vez próxima
        quando engatemos vez outra
             a noite à manhã e à tarde
                e notemos essa verdade pairar
         no ar feito a gripe
            que tão frequente nos acomete
       e nos deitemos na cama
                         com os ácaros
            e busquemos de novo
   feito porcos num abatedouro
                   esta pérola
         inteligente e inteligível
    que sempre nos elide,
          no chão lúcido
                 da manhã que não cessa
      de nos querer moer,
            esta senha que se esgueira
     e escapule, código
              que abra a saída
                   dos fundos
              ou detenha
    estas engrenagens, leitões
                  bêbados, honestos,
        guinchando meias-verdades
               sobre o pó


(publicado originalmente na revista portuguesa Enfermaria 6. E, na Modo, meu amigo Louis McGuire)


§


Texto em que o poeta se dá ares para justificar a lambança da existência

Se naquela manhã
em que acordamos juntos
sobre aqueles lençóis
impecáveis, ainda moços,
alguma canção escolhida
a dedo, perfeita,
houvesse soado no quarto,
como se vinda de cada
parede e, inaudível para nós,
emocionara uma plateia
que nos era invisível,
mas assistia a cada movimento
nosso, pernas entrelaçadas,
dentes nos dentes;

ou se naquela tarde
em que você anunciou
que desejava a solteirice
e me deixou plantado
naquele ponto de bonde
sozinho, algum
movimento originalíssimo
de câmera enquadrasse
tensões de músculos isolados,
em mim, em você, um lábio
se contraindo, cento e vinte e três
fios de cabelo móveis
ao vento, e então
três ou quatro pessoas
numa plateia para nós inodora
soltassem um ai baixinho,
contraindo os mesmos músculos;

ou se agora mesmo
enquanto escrevo sozinho
estas linhas
a uma mesa de café,
alguém reconhecesse
numa tela
este cliché de filmes:
o escritor sozinho à mesa do café,
e tal imagem entusiasmasse
algum adolescente
que sonha ser também um dia
o escritor sozinho à mesa do café,
interpretado por algum famoso
e/ou canastrão
num filme qualquer
que outra vez revisitasse
a imagem gasta
do escritor sozinho à mesa do café;

mas éramos só nós dois
sobre aqueles lençóis,

sem plateia,

éramos só nós dois
naquele ponto de bonde,

sem plateia,

sou eu só
à mesa deste café
escrevendo estas linhas
e dando-me ares
como se houvesse câmeras
focando minhas mãos e rosto
ao chegar ao fim deste poema,
tentando justificar esta lambança
com uma plateia
que só existe na minha cabeça.


(publicado originalmente na revista brasileira Escamandro)

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terça-feira, 19 de julho de 2016

Essa língua velha na manhã nova



Querido, a linguagem que usamos é arcaica, para ela a Terra é ainda plana e o centro do Cosmo, e é o sol que todavia gira ao seu redor. Você acorda, o rosto ainda sonolento, o dordolho salpicando o agudo ângulo das pálpebras, os olhos entrefechados como se ainda em semivigília, e eu digo, com o café forte nas mãos: “O sol nasceu”, quando sabemos há séculos que a ciência informa ser correto que eu, todo amoroso, diga: “Querido, nossa porção de terra já volta o rosto para o sol”. E você, desastrado, tal como já se desastrou o céu claro, ao esticar o braço e tomar a xícara, deixa-a cair, e mais uma vez nossa língua nos falha, nos engana, nos engasga ao dizermos que tombou a xícara, pois deveríamos murmurar, respeitosos, que “a Terra atraiu para si a louça”. E não há por que você desculpar-se, nada há para perdoar se já notamos que é da natureza das coisas se atraírem, as menores pelas maiores, pela mesma força irresistível da gravidade, fruto deste vinco e sulco que o planeta faz no espaço, como fizeram à noite nossos corpos no colchão e no lençol. Você acha graça nisso tudo. E na cozinha que gira e viaja, imaginamo-nos numa porção de espaço longe da Terra, onde a xícara simplesmente flutuaria, sem cacos, ainda que gélido o café, mas mesmo este flutuar é engano, pois a xícara e o café e a cozinha e a Terra e o Sol e você e eu viajamos a 140 milhas por segundo ao redor do buraco negro no centro de nossa galáxia. E mesmo a galáxia viaja em direção incerta, atraída por outra, Andrômeda, tão distante desta xícara de café, que já de novo gela, querido. Não se distraia tanto com o que digo. Beba. Tome goles grandes – mas não tem tamanho o que é líquido, apenas volume–, deixa que a mesma gravidade que tombou a xícara leve agora o líquido preto para o centro do seu estômago vermelho, no escuro. Escute: ainda ruge a tempestade em Júpiter. A Grande Mancha Vermelha, um anticiclone. Faz trezentos anos, querido, querido. Nasceu o sol em Urano, onde não há quem diga "aqui" ou "hoje", e portanto não importa que porção volta agora o rosto para o sol. E esta incerteza toda nos angustia, temendo nós mesmos afastarmo-nos em demasia do campo gravitacional do outro, ainda que pouco nos importe em nossa antibonança qual dos nossos terrestres corpos celestes é o maior. Olhe a lua que ainda brilha, antes que suma. Abra a janela, aplique a força necessária para que suas placas de madeira se afastem uma da outra e debrucem-se na varanda. São destroços da própria Terra, dizem, agora girando no espaço ao redor dela, destroços amorosos como eu seria se um planeta hipotético colidisse conosco e nos separasse. Que núcleo quente, o nosso. Mesmo a Lua se afasta da Terra a passos de bebê, querido, tornando nossos dias cada vez mais longos, nossa rotação cada vez mais lenta, e se um dia hemos de perdê-la, que não seja no espaço de tempo de nossa expectativa de vida, enquanto bebemos este café, na cozinha que gira em torno de um buraco negro, os pés firmes num chão que também se move.

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