Rocirda Demencock

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Numa tarde chuvosa em São Paulo, pequena crônica

Chove em São Paulo. Um pé d’água, um toró. À saída da estação de metrô da Consolação, uma jovem deixa cair seus livros na rua onde já se formavam poças. Imediatamente, uma senhora mais velha acudiu, um rapaz também abaixou-se para pegar livros, e uma outra moça começou a mover compras de uma sacola de plástico a outra para que uma delas se esvaziasse e ela pudesse cedê-la à moça dos livros agora molhados, que agradecia, agradecia, obrigado, obrigado, obrigado. Se o leitor considerar isso relevante, o grupo era formado por duas moças de ascendência europeia, um rapaz de ascendência africana e uma senhora de ascendência asiática.

Não era uma catástrofe a queda dos livros, não mudava os rumos da República, não deteve o trânsito. Mas era uma urgência, e as três pessoas ao redor da moça — dos livros nas poças de chuva — agiram com a presteza e a rapidez que pedia a situação. Rápido!, os livros se molham, não foram feitos para molhar-se os livros. Não sei nem sabiam eles em quem os outros votaram nas últimas eleições, o que pensam sobre qualquer questão que talvez os levasse a se ofender mutuamente nas redes sociais. Não importava naquela urgência das coisas que se estragam. Os livros molhavam-se, a moça tinha as mãos presas, agiram rápido, sem pensar, era o outro na chuva com suas coisas relevantes, irrelevantes. Agradeceram-se e partiram sob a chuva.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

As mangas e os bois




Jamais rasguei no dente
o coração de um boi
para saber se a consistência
é a mesma entre as carnes
da manga e do mamífero.
Sei que foi destinada a meus dentes
a polpa da fruta
para chegar às sementes,
desnudá-las e espalhá-las
entre bois que adubem o chão
da sua frutificação.
Percebo que o coração de boi
e a coração-de-boi
são imagem e semelhança
assim como a crista-de-galo
e o galo e sua crista.
Dizer porém o quê
da espada-de-são-jorge
e a espada de São Jorge?
Da costela de Adão
e a costela-de-adão?
Ontem, à mesa de um bar,
o amigo nomeou seu destino
nos próximos meses,
disse “Cabeça do Cachorro”,
causou susto, interrogatório.
Tudo tem provas, um mundo
cartografado com cuidado,
é isso que nos legaram
os antepassados, mortos
entre os polos Norte e Sul.
O amigo logo mostrou-nos
no mapa digital, invocável
pela voz, a região
no extremo noroeste
do país, no estado
do Amazonas, na fronteira
com Colômbia e Venezuela.
Como é possível jamais
soubesse que a terra possuía
uma cabeça de cachorro?
Nunca olhei tão longe?
Vivo nos seus intestinos.
Ora, parece-se mesmo
com a cabeça de um cachorro,
latindo, latindo, enraivecido,
pensei eu, enterrando os dentes
no coração dos bois
e na coração-de-boi,
com a minha cabeça de cão,
minhas costelas de Eva e Adão.
Talvez seja hora apenas
de aceitar o calor que colore
as mangas, esse dezembro
em que derretemos
mas, ao menos, juntos,
de amar com igual suculência
o próximo e o distante,
planejar viagens curtas e longas
ao Lago das Garças e a Chã de Alegria,
a Anta Gorda e à Cabeça do Cachorro.
Amar o nativo e o enxertado,
assim como talvez-quiçá amarmos
a nós mesmos, há tanto enxertados
como as mangas e os bovinos,
que já nos tratamos por nativos.

— São Paulo, 16 de dezembro de 2018.

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Texto em que o poeta medita sobre seus dentes enquanto eles trituram a carne de um bicho


Considera
por alguns minutos
os dentes.

Os teus próprios
dentes,
facas portáteis.

Teus ossos
expostos em cálcio
e esmalte.

Dentes maceram
o tenro.
Hienas no ventre

de zebras.
A navalha, o punho.
Os dentes.

“The soft
underbelly
of Europe”

Imagina agora
o bico
do seio, a ponta

da glande.
Pensa nos dentes,
as arcadas

que agora
se abrem, fecham
-se todas.

Toda mandíbula
do mundo,
e abaixo, acima

os dentes. Trituram
molares
e rasgam os dentes

essa outra carne,
a carne
do outro. Considera

agora, entre dentes,
tua língua.
Infensa, infecta, ilesa.

Tua língua,
a carne de tua carne,
entre dentes.

Um bicho
agora entre dentes,
tua língua.

Tua língua,
bicho ainda vivo,
e o bicho

morto que ela macera.
A boca,
mãe de toda violência.

A tua carne,
a work in progress,
e teus dentes

permanentes, tua vida
dente-de-leite,
mamífero antimamífero.

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Rodoviária de São Paulo, 21 de novembro de 2018.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As ternuras brutas




Há semanas não crocitam
as musas uma única linha
sequer. Que adianta gralhem,
arrulhem, se não falo grego
antigo? Nada tenho a dizer,
rádio desligado, eu, à espera
de alguns sinais idiotas
dos Anéis de Saturno,
dos Abéis de Cains.
E os bichos que me incitam
à estumação, os meninos
feito troncos, potros ou topos
de morro estão alguns
às margens do Atlântico,
ocupados com batatas-de-pernas
ou já se agasalham em camadas
várias de lã do outro lado
desse mesmo oceano.
Uns inúteis, uns inúteis.
Queria eu só excitar ou excisar
umas alegriazinhas quaisquer,
então faço meus truques
de mágica num tempo sem mágica:
como as pinhas todas,
visto as meias novas,
ouço trinta e três vezes
a canção favorita,
releio aquele livro de Adélia Prado
e aquele outro de Marly de Oliveira,
os que folheio escondido
para não irritar os porteiros
da palavra consagrada por síndicos.
O pelicano n'o mar de permeio!
E que vieram fazer vocês
nesse mundo se não gostam
ou me proíbem exclamações?
Só queria me enceterner,
me nenertecer,
digo: enternecer. Pronto, ofendo
agora com isso os gramáticos
e os policiais do miocárdio alheio.
Peço tão pouco, cambada: alegrias
chinfrins, como o pastel
junto do caldo de cana,
o café forte, a mesa limpa,
a escrita ou a leitura lacrimosas.
Em verdade em verdade
trocaria tudo isso pela permissão
de lamber com esmero
aquilo que metade de vocês esconde.
Não: melhor seria seguir agora
pelas ruas umas batatas-de-perna,
coisas esculpidas em areia e asfalto,
e com uma faca Ginsu cortá-las,
com brutalidade e ternura,
de baixo para cima e à base do osso,
para então assá-las
como picanhas ou pocãs
nas chapas do meu cérebro.
Os perônios de moços expostos.
Ah! os churrascos dessas alegrias
todas: as pinhas e as tíbias,
as canções e os perônios,
as meias novas e sob elas
as batatas-de-pernas.

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São Paulo, 6 de novembro de 2018.

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sábado, 27 de outubro de 2018

Crônica de um domingo pré-eleitoral

Após tomar meu café neste domingo, fui convidado por meu anfitrião a acompanhá-lo à feira para dividir a dívida e o peso do carregamento. Pareceu-me justo, hospedado com conforto como estou, além de eu mesmo sentir agitar-se na barriga aquelas vontades grávidas de certas guloseimas paulistanas, ainda que não do machismo pitoresco dos feirantes da cidade.

Lá chegando, procedi a empanturrar-me de forma pantagruélica com pastéis (de bauru, aos mais curiosos) e copos de garapa (pura, pois sou purista nestas questões culinárias). Admirei-me, em primeiro lugar, da sinceridade mercantil do pasteleiro ao anunciar que o pastel de bauru trazia, por recheio, queijo, tomate e apresuntado, não presunto. Pareceu-me que seria um bom começo para a República em geral, ou seja: anunciar que é apresuntado o apresuntado e não presunto. Você estaria preparado para concordar, caro leitor?

Isto posto, percorri sorridente as vielas da feira onde fui abordado duas vezes em inglês por feirantes, algo que muito me feriu, não crendo ter voltado americanizado como cantou Carmen Miranda, nem mesmo germanizado (ah! o purismo da ‘mot juste’!), eu, euzinho ainda em plena posse do meu ziriguidum se não dos meus balangandãs.

Permiti-me um único ‘supérfluo’, que é como meu finado pai referia-se a qualquer coisa que julgasse luxo consumista quando íamos ao supermercado: comprei pinhas, aquilo que alguns de vocês chamam de atas e outros, de frutas-do-conde. Custaram-me os olhos-da-cara e quase também o olho-do-cu, mas ora, fiz-me um agrado que julguei merecido, já que, como escreveu Adília Lopes, “Deus não / me deu / um namorado / deu-me / o martírio branco / de não o ter”. Portanto, pinhas aos solteiros. Chegando à casa de meu anfitrião, taquei-as — as pinhas — para dentro do estômago já pastelizado e engarapado. Passei mal e dormi, enquanto o amigo dizia não comer frituras por causa da pança. Ora, a essa altura do campeonato erótico em que sigo perdendo de goleada, lá vou me preocupar com a própria pança?!
Querendo salvar o dia tentei ser produtivo culturalmente, essa doença paulistana, e corri para uma exposição. Dei-me mal, querido leitor. Pois mal sabia eu que toparia na Avenida Paulista com as hordas bolsonaristas festivamente preparando-se para retornar aos quintos dos infernos onde vivem. Decidi insistir. Apinhei-me no metrô, cantarolando em homenagem a meus compatriotas tão patriotas: “Se gritar ‘pega ladrão’, não fica um, meu irmão.”

Ao descer nas Clínicas fui surpreendido com maiores multidões, pois além das hostes verde-amarelas viria a se unir a nós a torcida do Palmeiras! Esqueci-me que o Estádio do Pacaembú é logo ao lado e não sou dos mais informados em assuntos primitivescos como o futebol. Logo ficaram mais verdes que amarelas as massas. Era de difícil análise o fenômeno de esverdeamento do amarelado, e não sabia eu por vezes se estava diante de um bolsonarista ou um palmeirense. É de se julgar que haja tanto bolsonaristas palmeirenses quanto palmeirenses bolsonaristas, assim como o leque de gradações entre tais polos.

Ora, o leitor me desculpe, mas há limites até para o mais convicto dos democratas. Herdei da casa paterna o cristianismo e o corinthianismo. Você, caro leitor, saberá bem que não pratico qualquer uma dessas religiões, mas mantive uma certa impressão infantil de que satanistas e palmeirenses são gente ligeiramente cafona, ainda que esteja pronto para concordar que são-paulinos podem ser piores. Os amigos satanistas e palmeirenses me perdoem, estou tentando ser uma pessoa melhor.

Assim sendo, voltei derrotado à casa do anfitrião, onde comerei pinhas e esperarei a chegada do amigo William Zeytounlian para que ao menos veja uma coisa bonita e vermelha antes que o dia acabe. Eis aqui, caro leitor e concidadão, a descrição de meu domingo neste Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2018.

§

São Paulo, 21 de outubro de 2018.

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

De um museu em chamas e um sermão ouvido na infância

Eis o país. Salve! Salve!

Uma tragédia de tristeza acachapante. O museu havia completado 200 anos há poucos meses. Parabéns, ministros da Cultura e da Educação de Michel Temer, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, e ignóbil etc. Sugiro recolhermos as cinzas para uma exposição na Arena das Dunas ou no Estádio Nacional de Brasília, rebatizando qualquer um destes elefantes brancos de ‘Novo Museu Nacional’.



Entre as 20 milhões de peças que muito provavelmente perdemos com o incêndio do Museu Nacional, no antigo Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, estava o crânio de Luzia, a mais antiga ossada humana encontrada no território. É uma destruição da história dessa terra que alcança uma dezena de milênios. No último ano, em várias performances relacionadas ao Brasil feitas na Europa, eu as iniciava dedicando-as a Luzia. Tenho toda uma série de poemas dedicados a ela, que já era só osso e agora virou cinzas. Virou algo brasil. Este poema meu é de 2015:

luzia do brasil
algo, um resto,
uma sobra,
luzia da terra,
luzia enterrada
essa migalha,
se do passado
ou futuro
não
se sabe,
mas segue-se
dando nomes
luminosos
a façanhas
e ossadas
dessa terra,
a brasa
na lama,
a luz
no fundo
da terra,
cava-se
até não
sobrar,
arranca-se
até não
restar,
e eis
que aqui
jaz
luzia, osso
ou caroço,
resíduo
ou semente,
não
se sabe,
será cálcio
ou caule
num sulco
ou túmulo,
mas ainda
luzia, luzia,
a primeira,
a primeira
que restou,
a última
que sobrou,
seus restos
os primeiros,
os últimos
do solo
que se faz
território
a que um dia
dariam outro
nome luzidio,
brasil, e luzia
que certo
não
sonharia
essa noção
de trapos
e bagaço
e lama
e detritos
e pó
que se
chamou
colônia,
império,
república,
estado
-nação,
não,
luzia
não
sonhou
brasil
nenhum,
quiçá
brasil
seja tão
o pesadelo
repetindo-se
no vão
do tempo
dentro
do crânio
de luzia

And then “these fragments” we had “shored against our ruins” went up in flames.

O luto pelo Museu Nacional ocorreu em frente à Biblioteca Nacional, que certamente está na mesma situação periclitante em que se encontrava o Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista.

O Museu do Ipiranga em São Paulo está fechado desde 2013. No Norte, colegas alertam para a situação de descaso com o Museu Emílio Goeldi. Em visita a Juiz de Fora há um par de semanas, ouvi coisas escabrosas sobre o Museu Mariano Procópio.

Enquanto isso, deve estar luzidia ao sol a Arena do Pantanal, assim como outros mamutes (feito a Usina de Belo Monte). Já os restos de Luzia viraram cinzas brasis.

Se os senhores ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, e ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, não estão agora mesmo preparando suas cartas de renúncia, espera-se que estejam mexendo seus pauzinhos para a liberação de verbas maciças para os museus do país.

Mas, em ano eleitoral, alguém ouviu alguma pergunta sobre Cultura nos debates dos “presidenciáveis”?


Curt Nimuendajú nos jardins do Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1913.

Entre os pequenos alívios em meio à catástrofe está saber que o acervo de Curt Nimuendajú havia sido digitalizado recentemente. Alguns fragmentos vão sendo encontrados para escorar as ruínas das nossas ruínas.


'A tentação' - Hugo van der Goes, 1470


Eu me lembro de um sermão ouvido quando criança. O pregador relatava sobre a Queda, e como, ao apresentar-se Deus no Jardim, Adão jogara a culpa toda em Eva que por sua vez culparia a Serpente.

Foi o que me veio à mente observando ontem os discursos dos que seriam responsáveis pela maior coleção de arte e conhecimento da América Latina, repositório ainda de muita joia imaterial, como línguas indígenas já mortas.

O senhor ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão - certamente ao ver que muitos pediam sua cabeça - foi para as redes sociais declarar que o Museu Nacional estava sob os auspícios da Universidade Federal do Rio de Janeiro e portanto sob os auspícios do Ministério da Educação. Foi também o que disse o senhor ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, acrescentando: 'Agora que aconteceu tem muita viúva chorando'. A leviandade é embasbacante. Do senhor ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, não li sequer um pio até agora. Tampouco do próprio senhor ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva.

Quem é o responsável, afinal? Um par de amigos estrangeiros me perguntou: mas ainda não rolou uma cabeça sequer?

Enquanto isso, o senhor presidente da República, Michel Temer - também conhecido como o Vampiro do Jaburu - lamenta o ocorrido.

Neste país, permite-se que rios morram (refiro-me tanto ao Rio Doce como ao Xingu), e museus queimem. Estamos passando por uma crise verdadeiramente política, não no sentido que tal palavra assumiu no país, onde se confunde o “político” com o “partidário”. É uma crise da pólis,

da co-vivência.

O rio Doce. O Xingu.
O Rio de Janeiro.
O rio Museu Nacional.
O RIO de DENTRO

como João Cabral de Melo Neto escreveu sobre aquele rito de Murilo Mendes: “nos rios, / cortejava o Rio, / o que, sem lembrar, / temos dentro.”

Talvez porque nossos avós e pais e nós mesmos aceitamos por tempo demais essa ‘guerra de exaustão civil’ que é esta República. Essa rês pública na qual todos queremos mamar. Vamos precisar de um fôlego de maratonista, porque só os ingênuos acreditam que a eleição presidencial deste ano nos tirará deste buraco.

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(Texto recolhido de várias publicações nas redes sociais)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

No sítio da terra pequena


                          a Leonardo Fróes

Jamais pensei um dia entre capivaras
e coatis descobrir a costela-de-adão,
ereta às vésperas do enfolhamento.
Que monstra deliciosa! Fazia sombra
alta o amansa-senhor, suas flores
vermelhas e seu chá antigo, sonífero
que espera os buchos dos condes
e barões do Rio de Janeiro de hoje.
Como se para mim, o manacá florescia
às bordas do caminho, para mim!
eu que os conhecia apenas da pintura
de Tarsila do Amaral. E quanto
cresceu o guapuruvu, pau-de-tamanco,
desde minha chegada a este sítio?
Ao redor aninhavam-se outros bichos
nas rochas da Serra dos Órgãos.
A cerração baixa deixava o ar ruço.
Não longe, calva como outras pedras
enormes dessa terra, erguia-se
a Maria Comprida em gnaisse-granito,
que outro poeta escalou para ser-lhe
permitido escrever sobre todos
os animais de montanha:
“agora tem de aprender a descer.”
Eu, que perco o fôlego nas escadarias
dos prédios de novos condes e barões
com seus elevadores sociais
e de serviço, cosmopolitinha-caipirão,
perguntava que pássaros
eram aqueles que lembravam faisões.
Jacus! Jacus. Ali estava eu, menos
Adão com o poder de nomear
do que tataraneto mestiço de colonos
e nativos entremeados na morte
das línguas, perguntando cabisbaixo:
será tarde, ao zunir dos mosquitos
da febre-amarela, para fugir pela mata,
irmão de lobos-guarás e vira-latas,
das cinzas e brasas dos paus-brasis?

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Petrópolis — Rio de Janeiro, 24 a 29 de agosto de 2018.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Pedra da Maria Comprida e um poema de Leonardo Fróes


Tive o prazer de rever o poeta Leonardo Fróes neste último fim-de-semana, desta vez em Petrópolis, e então seguir com ele e sua esposa, a fotógrafa Regina D'Olne, para o já lendário sítio do poeta nos arredores de Secretário, onde passei com eles alguns dias. Esta postagem é uma das memórias desta viagem.



A Pedra da Maria Comprida é um grande monolito de gnaisse-granito (como o Pão de Açúcar e outras das nossas pedras calvas), com 1.926 metros de altura, situada no território do município de Araras, no estado do Rio de Janeiro. 

A foto acima, que não faz jus à pedra e seu nome, foi feita ao longe por mim enquanto o poeta me dizia que foi escalando esta montanha que lhe surgiu talvez seu mais famoso poema.

Introdução à arte das montanhas

Um animal passeia nas montanhas.
Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede,
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima, o animal é um ímã,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu os seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.


— Leonardo Fróes, in Argumentos Invisíveis (1995).

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sábado, 30 de junho de 2018

Minha amiga, a gravidade


Os amigos reclamam que a chuva
repentina estragou seus planos.
Cancela-se a festa. Posterga-se
o piquenique. Adia-se o casamento.
Todos, em uníssono, imprecam
contra os céus. Que bom vê-los,
ouvi-los finalmente em concórdia!
Já não eu. Aceito a chuva indiferente
às festas se condensou-se a água.
Seja terra e água e ar o planeta
onde lhe cabe ou apraz
ser terra, água, ar. Corro do fogo
sem o culpar. Anoto sem litígios
o início das estações no calendário.
Não me coube aprovar de antemão
os elementos, suas relações. Chove?
Que chova. Nada quis a água, ela
desejou nada. Que inveja,
que inveja hoje da chuva. Nada
sequer lhe apraz. Fez o que faz
à temperatura dada, que de outras
relações dependeu, tumultuosas
tão-só para nossos termômetros,
nossos anemômetros e barômetros.
Que bom só olhar essas relações.
Não as medir, nem as tabelar.
A calma da água arremessada
pelo vento contra a terra
que a aceita – tanto quanto esta água
aceita que nela se infiltre. Essa teia
sem aranhas e sem horizontes.
Condensa-se, evapora-se. São sim
separações, mas também uniões alhures.
O ar que em ventos destrói apenas
pela pressa de chegar a outro lugar
que dele necessita. Essa balança
de pressões. Fazer o que se é. Ser
o que se faz. Invejo isso. E enquanto
isso, é meu o cansaço. A fome e a sede.
Minha carne esfomeada, que alimentaria
ela mesma por dias uma alcateia. Rel-
aciono-me, então. Piso o chão e ele
me segura, sei que há-de me abraçar
a água se a pisar. Aceito não
ter contrato com o ar para que sustente
minha massa se já infla
meus pulmões. Foi o meu povo
que se adaptou a terra, água e ar.
Não há como mudar agora os termos.
Esperar deles que se ajustem
a minhas vontades e desejos.
Mas tenta-se. Conter o que apenas é.
Termômetro e aquecedor. Veja
como estão fechadas à chuva
agora as minhas janelas.
E eu quisera querer apenas
esse fazer-ser como a água:
juntar-me aos meus se faz frio,
distanciar-me se faz calor.
Imprecar contra o que se precipita?
Não me foi dada esta língua
para imprecar. Nem mais faz
sentido louvar. Só separar-me dos meus
para ascender. Cair de novo à terra
quando sobrepuja-me inocente
esse peso, que é minha rel-
ação a todo o resto que me foi dado.

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sexta-feira, 1 de junho de 2018

O planeta do mundo


De longe é todo azul, de muito perto
terá outra cor, mas não a esmo. Reações
de átomos, essas coisas pequenas. É a certa
meia-distância (mas entre o que e o quê?)
que as cores multiplicam-se. O palco
que está dentro do teatro sem o ser.
Quem me dera ver o mundo a partir
da Lua e ver o planeta de dentro
da estação de metrô da Consolação.
Na Muralha da China ver a Estação
Espacial Internacional e desta ver a Muralha
da China. Já não sei distinguir entre as árvores
que morreram para doar a madeira
ao palco dos atores e às cadeiras da plateia.
Todos corpos, as árvores dos assentos
e as do tablado, das vigas que suportam o teto
sobre a gente da performance
e do público. Esses corpos a esmo.
Que escolhem onde sentar-se
para melhor ver o espetáculo
ou para estar ao lado de um corpo
que foi eleito a melhor festa
da cidade. Colisões. Coalizões. Que não
seja uma guerra. Interagir sem interferir.
A equidistância ideal e por ideal jamais
com sua própria estação ferroviária.
Sinto falta é dos lanterninhas dos cinemas.
Do sinal de ternura dos cães-guia.
De ler uma história para que durma
o ainda-não-alfabetizado. Avante, infante!
Façamos dinheiro então para hospitais
e rodas-gigantes se há o necessário
e há o imprescindível, ninguém
quer escolher entre o pão e o circo.
Nada é causa e tudo é consequência,
e acontece o que acontece quando acontece:
o pôr-do-sol na Praça do Pôr-Do-Sol
e os cânceres no Instituto do Câncer.
Até as células enlouquecem sozinhas,
decidem desviar-se de seu manual de instruções.
Por que não eu que as chamo de minhas?
Não foi a erros de cópia que devemos
esses pássaros de cores loucas,
esses mamíferos d'água como se peixes,
esses primatas pelados que amamos na cama
a cada cama, acarinhando seus pelos
restantes e finos? Somos tão peludos
quanto chimpanzés e bonobos,
essa primaiada toda, querido, são
apenas menores e mais frágeis as fibras
dessa roupa nossa nascida e dada
à qual acrescentamos o necessário, o imprescindível.
O mundo no planeta e o planeta fora do mundo,
mas não acaba a peça se queima até o chão o teatro?
Não se ilumina por diligência as saídas de emergência?
Quantas mortes não ocorrem em cena.
Todas. Nenhuma. Esse mundo, que mundo,
que planeta ocorrível e aconteçoso,
esse vulcão que não se extingue até que se extinga,
esse mar que martela a praia constante,
mais abaixo, mais acima, como quem apalpa
o que dói, para dizer: ‘Aqui dói. Dói aqui.’
Dizer ah! e oh!, como uma criança
dizer a alguém que é protetor e progenitor:
'óia eu! óia eu!', essas vogais da descoberta
de si e do outro, a alegria
de que alguns de nós já nasçam
sem os dentes do ciso, sem marfim
já nasçam elefantes. Tudo é causa
e nada é consequência, e pede-se apenas
que se assista ao circo e que se assista o pão.
Que se ilumine o corredor
para os que chegam agora ao filme
que é trailer do trailer do curta-metragem
sobre um pôr-do-sol e um câncer.
Agasalhe-se, é por vezes inclemente o clima.
Acordou, querido? Acorde, querido.
Está com sede o cão-guia.


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