Rocirda Demencock

sábado, 13 de agosto de 2016

História da terra do corpo

Uma história da terra
no próprio corpo.

Do pai, a porção branca
da carne,
ascendência registrada
em cartórios por tabeliães,
o nome próprio que retém
do avô a pronúncia catalã
de origem, e da avó nomes
de cidades do passado,
como uma certa Campobasso
que tanto poderia ser Atlântida.

Do pai, principalmente,
a possibilidade dos convites
às salas-de-jantar da casa-grande.

Da mãe, sobrenome proletário
de qualquer zé-ninguém
e o tingir castanho
da pele de gente cabocla
do interior, o passado
esquecido de ocas,
do estupro de mulheres
ameríndias e africanas
apagado e silenciado
pela História,
mas não pela carne.

A carne lembra-se
e lembra.

Feito o pânico irracional
da mãe, a cada gripe,
de que morra a casa toda.

As linhas retas de pais,
lembradas,
e as linhas tortas de mães,
esquecidas.

Mas na língua mesma resiste
talvez a memória
de um desastre antigo,
quando empreteja
o céu e se grita
da casa
que se corra e tire
a roupa do varal,

que vai cair um toró.

É sempre e ainda
o toró que vem.

E a carne dos filhos
sem entender bem
por quê
deseja e teme
o toró-final
que venha e leve
roupa e varal,
quintal e casa.


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Berlim, 12 de agosto de 2016.

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sábado, 6 de agosto de 2016

Narval ou louva-a-deus




são transitivos e intransitivos
verbos demais, como nós mesmos
confundimos nossas necessidades
de complemento e sujeição,

feito este 'transumar'
buscado agora ao dicionário,
querendo pedir ao gerente-mor,
se houver
transumância e reencarnação,
volver
um dia como um narval,
baleia dentada e unicórnia,
ou talvez um louva-a-deus,
que ao menos em minha terra
evita-se pisotear, apenas,

por favor, gerente-mor

desta loja onde tudo sempre
tem mas acabou, ser qualquer
coisa, desde que
marítimo se vertebrado
e invertebrado se terreno,

quando descubro então que o próprio
'transumar' significa ainda algo mais
próximo de nosso tipo de vida comum:
“ir ou levar a pastar"

ó gerente-mor, não pastei já o suficiente?
não posso comer, ao menos neste café-da-manhã,
para variar, o brioche que o diabo amassou?

repito: que eu volte,
mas marítimo se vertebrado e invertebrado se terreno,
já me cansei das bagagens, das roupas,
das caixas de mudança, dos móveis
que acumulam pó
por cima e por baixo
e precisam ser arrastados pela sala e quarto
fazendo sulcos no assoalho,

cansei-me por fim da gravidade,
e da gravidade daquele outro verbo
não-copulativo, esta merda diária toda,
o que é o que é,
amar, verbo intransigente.

§

Berlim, 6 de agosto de 2016

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terça-feira, 26 de julho de 2016

Lançamento do EP de Crooked Waves e da antologia de escritores internacionais em Berlim



Hoje, no Alt Berlin (Chausseestrasse 102), ocorre o lançamento de Your + 1: some Berlin-based international writing (Gully Havoc, 2016), antologia que editei, com autores internacionais que vivem em Berlim, e de Floating (Gully Havoc, 2016), o EP de estreia de Crooked Waves, o produtor alemão Nelson Bell. Ambos saem pelo selo Gully Havoc, que dirijo com Ellison Glenn a.k.a. Black Cracker. A  antologia traz textos de Adelaide Ivánova, Hanne Lippard, Annika Henderson, Cia Rinne, e vários outros. Ouça o álbum de Crooked Waves abaixo.



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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois poemas recentes

Após outra conversa em que Louis McGuire e eu falhamos em adivinhar a senha

                     Outra manhã
            tardia, destas manhãs
                  que vêm tarde
                      por nossa recusa
            em permitir que o sol
                  dê fim à noite,
            manhãs tardias de noites
                 temporãs, aguadas a vinho
            em nossos milagres minúsculos
    ao transtornar em vinho a água
            em meio à poeira
                de nossos quartos
               com aluguéis atrasados
  e pós de toda ordem
                  sobre os móveis
   quando na penumbra gratuita
       de nossas cortinas puídas
  chegamos, em nossos colóquios
         de bêbados honestos,
                          não a um cerne
       mas a um consenso
      de verdade, uma crença
                  qualquer nossa,
          debates repetitivos
             no roteiro trivial de novela
      em que as reviravoltas
      dos beijos na testa
                  são
     as facas nas costas,
                  e tentamos fixá-la,
     essa verdade a varejo,
         torná-la uma coisa
   que se pega com as mãos,
            como estes isqueiros,
    estes cinzeiros que transbordam
            enquanto esvaziam-se os cálices,
             se ao menos
      encontrássemos a sequência,
       a sequência certa de palavras,
  artigo que siga substantivo e verbo,
              que é o dizível que nos importa,
            uma sentença feito reza
                      que a torne reiterável
      amanhã e depois de amanhã,
             tão reiterável quanto este sol
     que arde fora das cortinas puídas,
                  a sequência de palavras
       que faça deste consenso
                  de verdade temporária
         uma parte da penumbra
             e a ilumine,
                          enquanto engatamos
             a noite à manhã e a manhã à tarde,
                           intuindo
             que deste acordo
                     talvez
        dependa a inauguração
                  de um calendário novo,
      e bracejamos ao falar
                         um ao outro
         “eu sei o que você
                          quer dizer”
               na barafunda de vocábulos
                     que desperdiçamos
           com a boca nessa busca,
                mesmo sabendo não
                haver sem
                    o dizer o saber,
               nessa emergência
            de compreensão qualquer
               da catástrofe
            individual e coletiva
        que parece iminente,
                    e desejamo-nos ao fim
                sorte
                   ao sentirmos o pó
          acalmar-se no sangue
                 e resta tão-só a poeira
       a irritar as narinas, os pulmões,
              quiçá em vez próxima
        quando engatemos vez outra
             a noite à manhã e à tarde
                e notemos essa verdade pairar
         no ar feito a gripe
            que tão frequente nos acomete
       e nos deitemos na cama
                         com os ácaros
            e busquemos de novo
   feito porcos num abatedouro
                   esta pérola
         inteligente e inteligível
    que sempre nos elide,
          no chão lúcido
                 da manhã que não cessa
      de nos querer moer,
            esta senha que se esgueira
     e escapule, código
              que abra a saída
                   dos fundos
              ou detenha
    estas engrenagens, leitões
                  bêbados, honestos,
        guinchando meias-verdades
               sobre o pó


(publicado originalmente na revista portuguesa Enfermaria 6. E, na Modo, meu amigo Louis McGuire)


§


Texto em que o poeta se dá ares para justificar a lambança da existência

Se naquela manhã
em que acordamos juntos
sobre aqueles lençóis
impecáveis, ainda moços,
alguma canção escolhida
a dedo, perfeita,
houvesse soado no quarto,
como se vinda de cada
parede e, inaudível para nós,
emocionara uma plateia
que nos era invisível,
mas assistia a cada movimento
nosso, pernas entrelaçadas,
dentes nos dentes;

ou se naquela tarde
em que você anunciou
que desejava a solteirice
e me deixou plantado
naquele ponto de bonde
sozinho, algum
movimento originalíssimo
de câmera enquadrasse
tensões de músculos isolados,
em mim, em você, um lábio
se contraindo, cento e vinte e três
fios de cabelo móveis
ao vento, e então
três ou quatro pessoas
numa plateia para nós inodora
soltassem um ai baixinho,
contraindo os mesmos músculos;

ou se agora mesmo
enquanto escrevo sozinho
estas linhas
a uma mesa de café,
alguém reconhecesse
numa tela
este cliché de filmes:
o escritor sozinho à mesa do café,
e tal imagem entusiasmasse
algum adolescente
que sonha ser também um dia
o escritor sozinho à mesa do café,
interpretado por algum famoso
e/ou canastrão
num filme qualquer
que outra vez revisitasse
a imagem gasta
do escritor sozinho à mesa do café;

mas éramos só nós dois
sobre aqueles lençóis,

sem plateia,

éramos só nós dois
naquele ponto de bonde,

sem plateia,

sou eu só
à mesa deste café
escrevendo estas linhas
e dando-me ares
como se houvesse câmeras
focando minhas mãos e rosto
ao chegar ao fim deste poema,
tentando justificar esta lambança
com uma plateia
que só existe na minha cabeça.


(publicado originalmente na revista brasileira Escamandro)

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terça-feira, 19 de julho de 2016

Essa língua velha na manhã nova



Querido, a linguagem que usamos é arcaica, para ela a Terra é ainda plana e o centro do Cosmo, e é o sol que todavia gira ao seu redor. Você acorda, o rosto ainda sonolento, o dordolho salpicando o agudo ângulo das pálpebras, os olhos entrefechados como se ainda em semivigília, e eu digo, com o café forte nas mãos: “O sol nasceu”, quando sabemos há séculos que a ciência informa ser correto que eu, todo amoroso, diga: “Querido, nossa porção de terra já volta o rosto para o sol”. E você, desastrado, tal como já se desastrou o céu claro, ao esticar o braço e tomar a xícara, deixa-a cair, e mais uma vez nossa língua nos falha, nos engana, nos engasga ao dizermos que tombou a xícara, pois deveríamos murmurar, respeitosos, que “a Terra atraiu para si a louça”. E não há por que você desculpar-se, nada há para perdoar se já notamos que é da natureza das coisas se atraírem, as menores pelas maiores, pela mesma força irresistível da gravidade, fruto deste vinco e sulco que o planeta faz no espaço, como fizeram à noite nossos corpos no colchão e no lençol. Você acha graça nisso tudo. E na cozinha que gira e viaja, imaginamo-nos numa porção de espaço longe da Terra, onde a xícara simplesmente flutuaria, sem cacos, ainda que gélido o café, mas mesmo este flutuar é engano, pois a xícara e o café e a cozinha e a Terra e o Sol e você e eu viajamos a 140 milhas por segundo ao redor do buraco negro no centro de nossa galáxia. E mesmo a galáxia viaja em direção incerta, atraída por outra, Andrômeda, tão distante desta xícara de café, que já de novo gela, querido. Não se distraia tanto com o que digo. Beba. Tome goles grandes – mas não tem tamanho o que é líquido, apenas volume–, deixa que a mesma gravidade que tombou a xícara leve agora o líquido preto para o centro do seu estômago vermelho, no escuro. Escute: ainda ruge a tempestade em Júpiter. A Grande Mancha Vermelha, um anticiclone. Faz trezentos anos, querido, querido. Nasceu o sol em Urano, onde não há quem diga "aqui" ou "hoje", e portanto não importa que porção volta agora o rosto para o sol. E esta incerteza toda nos angustia, temendo nós mesmos afastarmo-nos em demasia do campo gravitacional do outro, ainda que pouco nos importe em nossa antibonança qual dos nossos terrestres corpos celestes é o maior. Olhe a lua que ainda brilha, antes que suma. Abra a janela, aplique a força necessária para que suas placas de madeira se afastem uma da outra e debrucem-se na varanda. São destroços da própria Terra, dizem, agora girando no espaço ao redor dela, destroços amorosos como eu seria se um planeta hipotético colidisse conosco e nos separasse. Que núcleo quente, o nosso. Mesmo a Lua se afasta da Terra a passos de bebê, querido, tornando nossos dias cada vez mais longos, nossa rotação cada vez mais lenta, e se um dia hemos de perdê-la, que não seja no espaço de tempo de nossa expectativa de vida, enquanto bebemos este café, na cozinha que gira em torno de um buraco negro, os pés firmes num chão que também se move.

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Vídeo para "Morning Light" do produtor alemão Crooked Waves

Nelson Bell

Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, sobre o qual já falei aqui, e com quem tenho o prazer de colaborar no duo Bell Dome. Vejam o vídeo para a faixa "Morning Light", de seu EP de estreia, Floating (2016), que Black Cracker e eu estamos lançando por nosso selo/editora Gully Havoc. Produção adicional por Louis McGuire.




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quarta-feira, 29 de junho de 2016

"People Flowed", nova colaboração com Nelson Bell (Crooked Waves)

Escrevi este texto na noite posterior aos ataques em Paris e Beirute. Nelson e eu gravamos os vocais e trabalhamos na música um par de dias depois de Orlando. Nosso amigo Dominic Ryan o masterizou agora, após o ataque  Istambul. Não vamos parar nunca?
 



Bell Dome - "People Flowed". Written by Nelson Bell & Ricardo Domeneck. Mastered by Dominic Ryan. Berlin, June 2016.

then the blood
flowed
and as the blood
flowed
the protocol didn't change
people screamed
then people screamed
for more blood
it is always so
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i ask myself
isn't there an end
to blood
don't the stocks
of the world
run low
our spleens
can't possibly be
this tireless
i am 38
i have seen my share
of massacres
as a child
i learned the word
war
with images of beirut
yesterday there were
more images of blood
in beirut
as a child
i learned the word
terror
with strange initials
ira
raf
the initials have changed
not the terror
bombs explode
triggers are pressed
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i am 38
is this half-way
already
like dante begins
his comedy
half-way in life
i look around
it looks like a dark wood
if i live 38 more years
will the initials
change again
are we trying
all possible combinations
i don't know how
tortoises parrots whales
can take it

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Versos domingueiros




Tua garganta inflama como se abraçasse a si mesma,
sobre as vértebras trombam-se as pontas dos dedos.
Nana, nenê. A Cuca é ninguém menos que tu mesmo,
no escuro, livre por saber-te o monstro sob o berço.



Berlim, 26 de junho de 2016.

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Vem aí a segunda edição de "Cigarros na cama"

Cigarros na cama, meu bolero de fossa pós-apocalíptica no ano 2011, ou Ano 1 d.M. (depois d'O Moço), terá segunda edição este ano pela Luna Parque. Talvez haja até ineditinhos para açucarar (ou amargar?) a edição. Mais notícias em breve.



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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Malik Blumenthal em minha sala, 2016



Malik Blumenthal é um jovem ator alemão, nascido em Berlim em 1992.

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