Rocirda Demencock

segunda-feira, 2 de março de 2015

Um poema de Sebastião Alba


Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mundo de desencontros marcados «slogans» que violam
os espaços aéreos de países castos
e se dissipam além dos limites naturais
um laivo incendiando as espirais do rasto
Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mas de uma província de incerta geologia
com uma história sem crónicas ou reis absolutos
a única a que a constituição se refere numa clave de sol
onde os cidadãos de todos os burgos
pulam à rua das mãos estendidas de deus
dessa nenhuma anexação polui a virgindade civil.

Sebastião Alba



Sebastião Alba nasceu em Braga, Portugal, a 11 de março de 1940. Seu nome de batismo era Dinis Albano Carneiro Gonçalves. Em 1950, a família do poeta emigrou para Moçambique, onde ele passaria a viver até 1984, tornando-se cidadão moçambicano. No seu novo país, trabalhou como jornalista. Estreou em livro com Poesias (1965), ao qual se seguiram O Ritmo do Presságio (a primeira edição, moçambicana, em 1974 e a portuguesa em 1981) e ainda A Noite Dividida (1982).

A editora portuguesa Assírio & Alvum reuniria em um único volume seus livros O Ritmo do PresságioA Noite Dividida e O Limite Diáfanoem 1996, reunidos uma vez mais no ano 2000, incluindo inéditos, com o título Uma Pedra Ao Lado Da Evidência. A essa altura, o poeta vivia nas ruas de sua cidade natal. No dia 14 de outubro de 2000, com 60 anos, morreu atropelado. Havia escrito recentemente um bilhete:


"Se um dia encontrarem morto o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá".

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Com certeza, alguma manhã

                            "Forse un mattino andando in un'aria di vetro
                                               Eugenio Montale

Moço, me ouça. Houve
aquele italiano que quis
virar-se e de repente ver
surpreso o nada às costas,
eu porém desde que você
fez-se fumaça vejo
constante o nada
diante do meu nariz
e só agora, não repentino,
mas gradual e lento volto
a notar a faca no chão e não
no pão, e o camundongo,
o gato e o cão pelas sarjetas,
e diferencio entre a margarina
e a manteiga, e vejo a diferença
antes ignorada entre a flor
viva no vaso ou seca, e sinto
ainda que insípida o flúor
n'água, e o copo já não tomba
e quebra, e olho à esquerda
e à direita ao cruzar as ruas,
e os meus ouvidos
registram as buzinas,
as conversas dos amigos,
e o prédio adiante
tem sua cor e difere
do prédio vizinho
em cor (e arquitetura!),
e este e aquele menino
percebo com susto
são na verdade indivíduos
também distintos
quando antes eram pedaços
de carne falante, falante,
mas agora, perplexo, até
os ouço, os escuto, os entendo,
memorizo seus nomes,
e árvores, casas e montes
voltam a compor a paisagem
e o ar de vidro da primavera
chega, mesmo depois
que houve você,
Moço. Me ouve?

§

Berlim, 19 de fevereiro de 2015.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

M A U D - "Broken March" EP

Minha amiga irlandesa M A U D, baseada em Berlim, acaba de jogar na rede seu aguardado primeiro EP, intitulado Broken March. Ouçam!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Cinco lusófonos jovens

 William Zeytounlian

William Zeytounlian (Brasil, 1988)

[tudo está às voltas]

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto

tudo se repete
num fazer que
descortina:

          compre
          uma flor
          no mercado
          e sê Monet
          jardinando em
          Giverny –

          refaça
          no entulho
          de uma casa
          o dia que os
          mesopotâmios
          recensearam
          seus deuses
          mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe
teu agora e teu antes

voltei-me a mim
e parti mais além
fui-me aqui
e assim por diante

      – toda tessitura
      é a vela na
      gávea de Cabral
      e o trapo no
      torso de
      Zumbi –

      sê olhar do rei cruel e indigesto
      sê o olho que temeu a guilhotina

               tudo se repete
               num fazer que
               descortina

               tudo está às voltas
               no lastro de teu gesto

§

Golgona Anghel (Romênia/Portugal, 1979)

COMODISTA HESITANTE,

protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
Em contos naturalistas
E reality showers.


Nós, aqui, little stranger,
Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.

§

João Bosco da Silva (Portugal, 1985)

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.


§

Ederval Fernandes (Brasil, 1985)

Como quando

Como os dedos
que rasgaram
o papel do
presente.
Como o ausente
dos vários
segredos
que não
revelaram.
Como o café
que repousa
na mesa
e será bebido.
Como o livro
lido
duas, três
vezes até
ser amada
a sua beleza.
Como quando
entrei
em você
pela
primeira
vez e entendi.
Como, por uma
besteira, não sei,
minha vó chora
e depois ri.
Como os dias
em que Vivo
e não quando
estou morto
e respirando
feito verme.
Como a tua mão
procurou ver-me
no escuro
de mim e do quarto:
como quando um
coração
faz um Uivo.

 §

Raquel Nobre Guerra (Portugal, 1979)

Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como acontece na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão vivido.


Lê assim.

Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
— e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.

Meu amor.

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.

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Fragmento encontrado num velho caderno de rascunhos

"Quisera fôssemos difíceis
de separar, feito
um punhado de cinzas
mesclado a mancheia
de pó. Ainda
que fáceis de coar"

(fragmento encontrado hoje num velho caderno de rascunhos, a ver se dá pro gasto.)

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Lea Porcelain - "Similar Familiar"



Ouçam a estreia do novo duo alemão LEA PORCELAIN, formado por Markus Nikolaus (voz / guitarra) e Julien Bracht (bateria / sintetizadores).


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tradução de William Zeytounlian para poema vocal de Efrim Menuck & Godspeed You! Black Emperor

Efrim Menuck

Efrim Menuck é um poeta-músico canadense, nascido em Montreal, a 21 de novembro de 1970. É conhecido como membro fundador dos coletivos Godspeed You! Black Emperor e Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra. O poema vocal abaixo, "The Dead Flag Blues", vem do álbum F♯ A♯ ∞ (1997), do Godspeed You! Black Emperor, e o texto é um monólogo que faz parte do roteiro de Menuck para seu Incomplete Movie About Jail, filme no qual vem trabalhando há alguns anos. A mim me parece um dos poems vocais mais fortes da década de 90,  com o qual aprendi muito. Sua visão distópica de nossa sociedade seria profética se não demonstrasse já as mazelas do momento em que surgiu. Sempre que ouço os versos iniciais, penso no poema de William Carlos Williams intitulado "To Elsie" (também conhecido como "The pure products of America"), especialmente os últimos versos:


the stifling heat of September
somehow
it seems to destroy us

It is only in isolate flecks that
something
is given off

No one
to witness
and adjust, no one to drive the car


Sim, "ninguém / que testemunhe / e ajuste, ninguém que guie o carro", como no poema de Menuck, "O carro está em chamas e não há condutor ao volante", transcrito abaixo com a tradução de William Zeytounlian para o português. 


POEMA DE EFRIM MENUCK

Blues das bandeiras mortas

I.

O carro está em chamas e não há condutor ao volante
E os esgotos se enlameiam de um milhar de suicidas sós
E um vento tenebroso sopra

O governo é corrupto
E nós doidos de drogas
Com o rádio ligado e a cortina levantada

Somos compelidos ao ventre dessa maquina atroz
e a máquina sangra fatalmente

o sol se pôs
os outdoors olham de esguelha
e as bandeiras estão todas mortas no cimo de seus mastros


II.

aconteceu assim:

os prédios caíram um sobre os outros
a mães agarraram os bebês
entre os escombros
puxando-os pelo cabelo

o horizonte estava lindo em chamas
o metal retorcido se alongando ao céu
tudo aquarelado em uma fina névoa laranja

eu disse, “Me beija, você é linda –
esses são mesmo os últimos dias”

você segurou a minha mão
e embrenhamos ali
como em um devaneio
ou numa febre


III.

acordamos numa manhã
e nos sentimos afundar um pouco mais
certamente é o vale da morte

eu abro a carteira
e está cheia de sangue

(tradução de William Zeytounlian)




The Dead Flag Blues


The car is on fire, and there's no driver at the wheel
And the sewers are all muddied with a thousand lonely suicides
And a dark wind blows

The government is corrupt
And we're on so many drugs
With the radio on and the curtains drawn

We're trapped in the belly of this horrible machine
And the machine is bleeding to death

The sun has fallen down
And the billboards are all leering
And the flags are all dead at the top of their poles

It went like this:

The buildings tumbled in on themselves
Mothers clutching babies 
Picked through the rubble
And pulled out their hair

The skyline was beautiful on fire
All twisted metal stretching upwards
Everything washed in a thin orange haze

I said, "Kiss me, you're beautiful -
These are truly the last days"

You grabbed my hand 
And we fell into it
Like a daydream 
Or a fever

We woke up one morning 
And fell a little further down
For sure it is the valley of death

I open up my wallet
And it's full of blood

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sábado, 31 de janeiro de 2015

Dois poemas de Ítalo Diblasi e sua leitura de um poema de Roberto Piva para o "Empreste sua voz a um poeta morto"


Conheci Ítalo no ano passado, em minha última passagem pelo Rio de Janeiro. Passamos uma tarde e noite percorrendo livrarias do centro da cidade, e caminhando pelo Jardim Botânico, onde nos embebedamos. Já publiquei na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. e espalhei pelas redes sociais este seu ótimo poema satírico, que reposto abaixo, agora aqui, ao lado de outro do seu livro de estreia, no qual vem trabalhando. O vídeo é de sua participação no projeto Empreste sua voz a um poeta morto.

Informações bioblio: Ítalo Diblasi é um poeta brasileiro, inédito em livro, nascido no Rio de Janeiro em 1988. Prepara no momento sua primeira coletânea, que será intitulada O Limite da Navalha.

DOIS POEMAS DE ÍTALO DIBLASI

Gaia Ciência 

é proibido
cuspir
no prato

é proibido
dormir
no asfalto

é proibido
trepar
no mato

é permitido
açoitar
as massas

é permitido
erigir
as farsas

é permitido
morrer
às traças

paremos, portanto, de fingir
que Nietzsche estava errado
quando enlouqueceu às portas
de explicar esse caralho


§

A urgência

No último vagão
de um noturno qualquer
rumo a lugar nenhum
o indomável riso
de uma puta alucinada
que quer saber
o que diabos escrevo
a uma hora dessas
e pede lugar num poema
que a mantenha viva
até a semana que vem
e eu estou com ela
para uma última valsa
antes do fim

§

Diblasi empresta a Piva sua voz no projeto da Modo de Usar & Co.

Ítalo Diblasi lê um poema do livro Ciclones (1997), de Roberto Piva.

[Este paraíso é assim]
Roberto Piva

Este paraíso é assim:
repleto de raças respiratórias.
Nuvens, periquitos, uvas negras
à beira do deboche.

Este paraíso é assim:
relâmpagos & doces de leite,
punhal escapando da bainha
de vértebras.
Menino-acauã dançando
ao sol estrangeiro.

Este paraíso é assim:
folhas de mamona, submarinos
viajando no próprio sangue.
Leveza. Flores frenéticas.
Batuque sussurrando:
também eu
atravessei o inferno.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Jovens poetas europeus: Oskar May


Oskar May é um poeta sonoro austríaco, nascido em Viena em 1991. Colaborou em suas paisagens e poemas sonoros com Gianna Virginia e, no momento, colabora com Anna de Marco em um projeto ainda sem nome, em preparo. Oskar May vive e trabalha em  sua cidade natal.

Ao contrário da Alemanha, onde a poesia contemporânea é bastante fincada no suporte do livro como forma privilegiada de publicação (e, consequentemente, produção), há na Áustria uma forte tradição de poesia experimental / sonora no pós-guerra, que vem desde o Grupo de Viena.

Nesta série, já comentei e apresentei aqui o trabalho de outro austríaco, Max Oravin (n. 1984).

Tenho bastante apreço por seu trabalho sonoro e de colagem de vozes em "Diskursmaschinengewehr", além do trabalho propriamente lírico de um poema como "The Lane" e do escancaradamente nonsense em "mhm".

No Brasil e neste caminho, podemos pensar no trabalho de Victor Heringer, Reuben da Cunha Rocha e Orlando Scarpa Neto, entre outros. Acredito que haja aqui estratégias interessantes para outros poetas brasileiros contemporâneos.


POEMAS DE OSKAR MAY


Oskar May - "The Lane"

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  Oskar May - "Diskursmaschinengewehr"

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Oskar May - "mhm"

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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Dois poemas na revista vienense "GESTALT"

Tenho dois poemas (traduzidos por Odile Kennel) no primeiro número da revista digital GESTALT, editada por Rick Reuther & Christiane Heidrich em Viena, com textos (alemão e inglês) ainda de Ana Božičević, Ann Cotten, Swantje Lichtenstein, Naa Teki Lebar, Odile Kennel, Simone Kornappel, Sophia Le Fraga, Daniel Beauregard, Khesrau Behroz, Zuzana Husarova, e outros.



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