Rocirda Demencock

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Novíssima peça sonora: "Animal sentinels" (2014) - Domeneck & Nikolaus



Markus veio aqui pra casa e passamos a tarde de sexta-feira trabalhando nessa peça. Louis apareceu com cervejas e preparou umas batidas adicionais.

 
Domeneck & Nikolaus - "Animal sentinels" 2014). 
Text by Ricardo Domeneck. Music by Markus Nikolaus. Additional beats by Louis McGuire.


Animal sentinels

We will send the canaries in first.
The canaries will guide us in the dark.
Send in the canaries

There shall be time to evacuate Hoboken
There shall be time to shield Alphabet City
There shall be time to alert the population of New Orleans

We will send the canaries in first
The canaries will lead the way in the cold
Send in the canaries

There shall be time to evacuate Camden
There shall be time to shield Amsterdam
There shall be time to alert the population of New Delhi

We will send the canaries in first.
The canaries will show us the dangers ahead.
Send in the canaries

There shall be time to evacuate Copacabana
There shall be time to shield Tokyo
There shall be time to alert the population of New Providence

But the canaries have been so quiet
The canaries havent moved
For a long time

If there are any canaries left
Send in the canaries

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domingo, 20 de julho de 2014

Traduzindo Alejandro Crotto (Buenos Aires, 1978)

Considero Alejandro Crotto um dos melhores poetas latino-americanos da minha geração. Seus dois livros, Abejas (2009) e Chesterton (2013) são de uma beleza luminosa. Reproduzo abaixo minha postagem sobre ele, preparada para a Modo de Usar & Co. 



Alejandro Crotto é um poeta contemporâneo argentino, nascido em Buenos Aires em 1978. É formado em Direito e Literatura. Estreou com o volume Abejas (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2009), ao qual seguiu-se Chesterton (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2013).


No vídeo acima, o poeta lê em Nova Iorque, ao lado de Mirta Rosenberg (Rosário, 1951), com apresentação de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981).

Com um trabalho formal e métrico firme e sutil, que jamais se impõe à naturalidade da fala, sua poesia expõe com frequência sua crença na sacralidade da matéria, dos corpos vivos, em uma mística delicada da imanência que o une à poesia de autores como Umberto Saba, que o argentino também traduziu de forma bela.


 


O poeta mantém o excelente blogue de traduções Words Words Words, no qual publica suas versões para o castelhano de poetas tão diversos quanto Lucrécio, Guillaume Apollinaire, Pier Paolo Pasolini, Ezra Pound, e mais.

Um dos escritores mais discretos da cena contemporânea, eu o respeito, pessoalmente, como um dos melhores poetas da minha geração. Seus dois livros são pequenas joias.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMA DE ALEJANDRO CROTTO

As pombas

É preciso vestir rápido as meias
porque o piso de pedra está frio; na cozinha
tomamos leite no café, pão com manteiga e mel,
então saímos para caçar pombas
com nossa arma de ar comprimido,
meu irmão e eu, com menos de onze anos
e com botas sete léguas, camisa grossa xadrez e projéteis
no bolso – dois ou três,
os próximos a usar, vão é na boca.
Vamos deixando trilhas na geada que começa a derreter-se,
vamos atentos entre os galhos dos plátanos,
os altos eucaliptos, nogueiras, as casuarinas,
os choupos do haras, a piscina,
um tiro cada um, caminhando,
apontando vez em quando as copas do outono.

Depois, atrás da lavanderia, entre pomares,
as depenamos, limpamos suas tripas:
segurando na esquerda seu peso frágil,
vamos tirando penas com a outra,
as mais longas e duras na cauda e nas asas,
as simples do peito, as curtinhas
e escuras das costas, as mais suaves
na frente, debaixo das asas na axila;
vão caindo nas ervas enleadas na direção do vento,
grudadas nas nossas mãos, suspensas no ar
quando se torvelinha de repente;
depois vamos esvaziando o corpo, muito menor
agora em relação à cabeça: primeiro o bucho,
às vezes com sementes de girassol intactas que se podem comer,
apenas azedas, e enfiando com força os dedos para cima
onde termina o esterno, girando-os
dentro do corpo ainda quente, agarrando e jogando para baixo,
arrancamos os longos intestinos e o papo, tiramos os pulmões
como uma esponja rosa grudada às costelas,
os rins, o fígado, o quieto coração,
que os cachorros pegam sem que cheguem
ao chão; na torneira lavamos as pombas
e cortamos suas cabeças, amarramos
subindo a um banquinho a pata a um arame até a noite.

As mãos queimam com o frio da água,
brilham os corpos no ar, ao sol; a vida
é material, e a matéria
é difícil, sagrada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Las palomas
Alejandro Crotto

Hay que ponerse rápido las medias
porque el piso de piedra está frío; en la cocina
desayunamos leche, pan con manteca y miel,
después salimos a cazar palomas
con nuestro rifle de aire comprimido,
mi hermano y yo con menos de once años
y con botas de goma, camisa gruesa a cuadros y balines
en el bolsillo —dos o tres,
los próximos a usar, van en la boca.
Vamos dejando huellas en la helada que empieza a deshacerse,
vamos alerta entre las ramas de los plátanos,
los altos eucaliptos, el nogal, las casuarinas,
los álamos del haras, la pileta,
un tiro cada uno, caminando,
señalando de a ratos las copas del otoño.


Después, detrás del lavadero, entre frutales,
las desplumamos y las destripamos:
sosteniendo en la izquierda el peso tibio
vamos sacando plumas con la otra,
las más largas y duras en la cola y el ala,
las fáciles del pecho, las cortitas
y oscuras de la espalda, las más suaves
en el flanco, debajo de las alas en la axila;
van quedando en los yuyos enredadas hacia el lado del viento,
pegadas en las manos, suspendidas del aire
cuando se arremolina de repente;
después vamos vaciando el cuerpo, mucho más chico
ahora en relación a la cabeza: primero el buche,
a veces con semillas de girasol intactas que se pueden comer,
apenas agrias, y metiendo con fuerza los dedos hacia arriba
donde termina el esternón, girándolos
dentro del cuerpo todavía caliente, agarrando y tirando para abajo,
arrancamos los largos intestinos y la panza, sacamos los pulmones
como una esponja rosa pegada a las costillas,
los riñones, el hígado, el quieto corazón, 
que los perros atrapan sin que toquen
el suelo; en la canilla lavamos las palomas
y les cortamos la cabeza, las atamos
subidos a un banquito de la pata a un alambre hasta la noche.

Las manos queman por el frío del agua,
brillan los cuerpos en el aire, al sol; la vida
es material, y la materia
es difícil, sagrada.



§



No vídeo abaixo, Ezequiel Zaidenwerg lê um poema
de Alejandro Crotto. Gravado no México em 2011. 




§

Abaixo, uma tradução de Pádua Fernandes para um dos poemas de Abejas (2009).


Carregada
Alejandro Crotto

Inteiramente grávida avança na primeira luz do dia.

De repente para
e tensa agarra-se com as mãos, olha o céu,
bufa várias vezes.

Forte, carregada,
retoma decidida seu caminho
e no qual passa sua iminente queda.

(tradução de Pádua Fernandes)



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terça-feira, 15 de julho de 2014

Nova peça sonora, em colaboração com Markus Nikolaus, na revista americana "Bozalta Journal"



Foi lançada hoje a nova revista digital americana Bozalta Journal, editada por Rose Simons e Carissa Garcia. A primeira edição traz uma colaboração minha com o músico alemão Markus Nikolaus, meu idolatrado salve salve, em nosso projeto Domeneck & Nikolaus. Abaixo, a peça, chamada "No vacancies"




"No Vacancies"
Ricardo Domeneck (music by Markus Nikolaus)

It is hard to believe the calendar or trust the GPS when you wish to be out of time, out of place, sharing the oxygen and geography with no other creature. Even harder to accept the clock or the map, so you repeat: “This is Berlin, not Tierra del Fuego, Poughkeepsie or Dubai, much less Hogwarts or Oz.” Here you are, connected, located by satellite, mobile, googlable, always in the attachment, twinkling like a star and twitted, your face on the book, my space is your space. Here I am, with a registered address, full of social security, a part of your whole, a member of the club, a resident, an alien, you can locate me better than I can find my navel, my cock, my anus, I sign up, I type in, I log on, I fade out. 52°30'N 13°23'E. Alone and crowded, hunting for the hole where to stick my entire body, if I could only dig that hole in you. Where is the so-called “The One”, is this some fucking Matrix, the joke is on me, only six degrees of segregation between my body and the perfect lover, maybe here, surely there, in 05°33'N 00°12' W or in 29°39'N 91°07' E, in Viznar, Uppsala or Lhasa, in Curitiba, Oaxaca or Accra. We all happy kids in our own little private hospital beds, our labeled and fashioned and styled pretty hospital beds. No spare rooms. You hum, you whisper, you buzz. “Hey Sister Morphine”, remember when your Nanny would sing you that song, her melons bobbling to the beat of the lullaby. The dogs barking in the neighbor´s yard. Beware of all dogs. You are not welcome here. Go on kid, take your clonazepam, your valerian, your promethazine, your catnip and camomile, sleep tight, here comes the high tide. You have been cheated of ever being at the right place, at the right time. Check your wristwatch, it has stopped, you have no pulse, your heart is clogged, your throat is sore. And this is what they call spring, this sorry excuse for a winter, this toxic rain over plastic flowers. But your hair is natural, your hair your good old friend, never leaves you, never abandons you, your good friend The Hair. And your lungs, tireless pair of things. Your nails, not growing, they don´t grow, what they do is try to escape from you. Your feet forgot the taste of a place. Vacation is over, school is closed, you must move on. Where, you ask. There. Or maybe there. Or there. We don´t have all day. March 19th 2010. 3 euros and 25 cents in your pocket, the one with a hole. There we go. You overslept. Missed the bus. Took the wrong turn. Walked one corner too much, one block too little. You were not the fitting X for the crucial Y. Actually you were lucky or unlucky your parents ever met. Fucked. Didn´t choose abortion. I will go on mapping my displacement by the coordinates of your restlessness. Thank you very much. I am here, says the map, and elsewhere. Now, says the clock. It is the end and the beginning, and anywhere is only the place to forget the place before. Look at me. Look how I adapt to your natural habitat. Move over, this hospital bed is now mine.


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domingo, 13 de julho de 2014

Alguns poetas argentinos e alemães para este domingo

Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, Argentina - 1981) 




O que o amor causa nos poetas

não é trágico: é atroz. Uma ruína
fúnebre cai sobre os poetas que o amor captura,
sem que orientação ou identidade poética
interessem. O amor leva ao desastre completo
da uniformidade os poetas gays,
os poetas panssexuais e bissextos,
as poetas e poetisas feministas, fementidas ou honestas;
os obcecados pelo gênero e
os degenerados em geral e os polimorfos perversos:
e até os fetichistas dos pés
de verso cedem sob as plantas do amor,
que não distingue ideologia,
programa ou poética. Aos vates da torre de marfim,
lança-os do penthouse ebúrneo para o térreo. Aos apóstolos
do Zeitgeist, que proclamam sem inibição que a lírica está morta,
permite que insistam em seu equívoco
e em suas bachareladas prolixas. Produz uma hemorragia palatal
nos que arqueiam parcos aforismos oblíquos,
como nos herméticos de latão, nos que engarrafam
seus versos para o vazio, nos falsários do silêncio,
e nos que forjam haikais lusófonos
à moda itálica. Nos puristas da voz corta em seco
os lamúrios doces, e quebra as falanges
dos maníacos do ritmo, estraga
o metrônomo íntimo que carregam junto ao coração
para marcar a batida de seus versos. Domestica o sensorial
nos videntes e malditos e demais
rebeldes e insurretos sem razão
ou causa poética, cura o desregramento racional
de todos os sentidos. Desaloja de sua noite escura
os que pedem luz para o poema
nas cavernas do sentido, e os devolve sem escala
para o tresnoitar da carne literal. O que o amor
causa nos poetas, com paciência e mansidão,
enquanto as borboletas lentamente ulceram seus estômagos
e pouco a pouco o pâncreas deixa de funcionar,
é bastante inconveniente. Aos que buscam com afinco
e precisão cirúrgica a palavra justa, arruína
seus pulsos, e em vez de doar vida, aniquilam-na em sua ânsia.
E nos que perseguem com ardor e devoção
um absoluto no poema, como um graal
todo de luz, tesa, diáfana e febril,
nubla suas certezas e mesmo o desejo
de saciar sua ansiedade. O que o amor
causa nos poetas, desavisadamente,
enquanto costuram e cantam e se empanturram de perdizes, é agudo, terminal
e fulminante. É um torrencial avassalador
de prosa, que esporeia e multiplica, em progressão exponencial,
os estúpidos e toscos da poesia:
os que cortam sem motivo seus versos diminutos;
os jóqueis compulsivos que os encavalam;
os designers tipográficos do verso;
os que partem a sintaxe sem saber torcê-la;
os que fazem escavações no
éter em busca de inauditos neologismos inaudíveis;
os modernos sem pretexto; os que creem descobrir
a pólvora em seus versos balbuciantes;
os contestatários automáticos e os poetas-pornô;
os que semeiam grandes nomes pela densa
fronde de seus poemas, como Joãozinho e Maria jogavam
migalhas; os que erguem em sua voz
ausente as caretas de uma infância lobotomizada;
os poetas bonitos e felizes, teimosos;
as tribos urbanas e os groupies da poesia adolescente;
os poetas pop e os rock stars do verso; os videopoetas e performers;
os ovni-poetas, alados ou rastejantes, identificados;
os objetivistas sem objeto
nem vista; os que exigem que o poema
vista-se de mendigo; os poetas filósofos;
e os cultores convictos
da “prosa poética”. O amor,
que movimenta o sol e os demais poetas,
leva-os até o derradeiro paroxismo: transforma-os
em terra, em fumaça, em sombra, em pó, etcétera:
em pó enamorado. E se acontece
ainda que dentre eles
amem-se amorosos os poetas pares,
felizes em seu amor solar sem escansão,
como se fossem na verdade, um para o outro,
um buraco negro de opiniões nebulosas,
palmadinhas tácitas nas costas e comentários de passagem,
anões, esfriando-se, absorvem-se mutuamente
e desaparecem.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Lo que el amor les hace a los poetas

no es trágico: es atroz. Les sobreviene
una luctuosa ruina a los poetas que el amor captura,
sin importar su orientación o identidad
poética. El amor lleva al total desastre
de la uniformidad a los poetas gay,
a los poetas pansexuales y bisiestos,
y a las poetas y poetrices feministas, fementidas o veraces;
a los obsesionados con el género
y a los degenerados por igual, y a los perversos polimorfos:
y hasta los fetichistas de los pies
del verso capitulan a las plantas del amor,
que no distingue ideología,
programa ni poética. A los vates de la torre de marfil
los precipita del penthouse ebúrneo
directo a planta baja. A los apóstoles
del Zeitgeist, que proclaman sin empacho que la lírica está muerta,
les permite insistir en el error
y en sus prolijas parrafadas. Les produce una hemorragia palatal
a los que comban parcos aforismos diagonales,
a los herméticos de lata, a los que envasan
sus versos al vacío, a los falsarios del silencio,
y a los que fraguan haikus castellanos
al itálico modo. A los puristas de la voz les corta en seco
su dulce lamentar, y a los maniáticos del ritmo
les quiebra las falanges, y estropea
el íntimo metrónomo que llevan junto al corazón
para marcar el paso de sus versos. Les compone el sensorio
a los videntes y malditos y demás
rebeldes e insurrectos sin razón ni causa
poética, y les cura el desarreglo razonado
de todos los sentidos. Desaloja de su noche oscura
a los que piden luz para el poema
en las cavernas del sentido, y los devuelve sin escalas
a la trasnoche de la carne literal. Lo que el amor
les hace a los poetas, con paciencia y mansedumbre,
mientras las mariposas lentamente les ulceran el estómago
y el páncreas poco a poco deja de funcionar,
es harto inconveniente. A los que buscan con ahínco
y precisión de cirujano la palabra justa les arruina
el pulso, y en lugar de dar la vida, la aniquilan en su afán.
Y a los que con ardor y devoción persiguen
un absoluto en el poema, como un grial
todo de luz, tirante, diáfana y febril,
les nubla las certezas, y el deseo mismo
de saciar su ansiedad. Lo que el amor
les hace a los poetas, inadvertidamente,
mientras cosen y cantan y se atoran de perdices, es agudo, terminal
y fulminante. Es un torrente arrollador
de prosa, que espolea y multiplica, en progresión exponencial,
a los zopencos y palurdos de la poesía:
a los que cortan sin razón sus versos diminutos;
a los jinetes compulsivos;
a los diseñadores tipográficos del verso;
a los que quiebran la sintaxis sin saber
torcerla; a los que escarban en el éter a la busca de inauditos neologismos inaudibles;
a los modernos sin pretexto; a los que creen descubrir
la pólvora en sus versos balbucientes;
a los contestatarios automáticos y a los porno-poetas;
a los que sueltan grandes nombres por la densa
fronda de sus poemas, como Hänsel y Gretel esparcían
migas; a los que impostan en su voz
vacante los mohines de una infancia lobotomizada;
a los poetas bellos y felices, caprichosos;
a las tribus urbanas y los groupies de la poesía pubescente;
a los poetas pop y los rockstars del verso;
a los videopoetas y performers;
a los ovni-poetas, voladores o rastreros, identificados;
a los objetivistas sin objeto
ni vista; a los que exigen que el poema
se vista de mendigo; a los filósofos poetas;
y a los cultores convencidos
de la “prosa poética”. El amor,
que mueve el sol y a los demás poetas,
los lleva hasta el postrero paroxismo: los convierte
en tierra, en humo, en sombra, en polvo, etcétera:
en polvo enamorado.

Y si resulta todavía que entre ellos
se aman amorosos los poetas pares,
felices en su amor solar sin escansión,
como si fueran en verdad el uno para el otro
un agujero negro de opiniones nebulosas,
tácitas palmaditas en la espalda y comentarios tibios al pasar,
enanos, enfriándose, se absorben entre sí
y desaparecen.

 
§

 Max Czollek (Berlim, Alemanha - 1987)





àquele que nasceu antes

I.

cheguei às cidades à hora
das bodas quando
ali a alegria imperava
entre os homens

eu dancei com eles

dormi entre os mudos
sem língua a boca cheia
entupida de pontes

a força dos meus braços
foi-se em malas
carreguei o medo

II.

é verdade
mergulhei no mar cheio
perdi nisso os cabelos

carregado pela sorte
quando isso falhou
eu estava de partida

a esperança magra feito folha
na mata (eu falo de árvores
eu falo)

e não encontro o caminho
para as casas de ar

III.

de verdade vivo em tempos
em que os infelizes nem
choram mais nós somente
escrevemos adiante – por todo
lado os dedos em gatilhos quem
pode seguir simpático de que
adianta por que nos tornamos
ao fim do oceano ártico

            aonde levavam as ruas
para o meu tempo

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

an einen vorgeborenen

I.

in die städte kam ich zur stunde
der hochzeiten als da
freude herrschte
unter den menschen

ich tanzte mit ihnen

schlief unter den stummen
ohne sprache den mund voll
gestopft mit brücken

die kraft meiner arme
ging in koffern
trug ich die angst

II.

es ist wahr
ich tauchte im großen meer
verlor mein haar dabei

getragen von glück
als das aussetzte
war ich unterwegs

die hoffnung dünn wie ein blatt
im wald (ich rede von bäumen
rede ich)

und kann den weg nicht finden
zu den häusern aus luft

III.

wirklich ich lebe in zeiten
wo die unglücklichen nicht
mehr weinen wir einfach
weiterschreiben – überall
die finger am abzug wer
kann da noch freundlich
bleiben was hilft es wozu
sind wir geworden am ende
der eismeere

wohin die straßen führten
zu meiner zeit

§

Mirta Rosenberg (Rosário, Argentina - 1951)




Uma elegia

Na época de minha mãe
as mulheres eram prováveis.
Minha mãe se sentava ao lado de minha avó
e as duas eram totalmente de carne e osso.

Eu sou apenas uma sequela estável
daquele excesso de realidade.

Na ansiedade do passado indistinto,
no aspecto duracional de eleger,
escrevo agora: uma elegia.

Na época de minha mãe
as mulheres eram duradouras,
totalmente osso e carne.
Minha mãe colocava o colar
de prata e turquesas
que meu pai havia trazido da Suécia
e se sentava à mesa como uma espécie exótica,
para que tudo se tornasse maior que a vida,
qualquer ficção fosse possível.

Na época de minha mãe, as mulheres
eram um xis: minha mãe nos contou,
a mim e a meu irmão: "quando saía da escola,
ia buscar meu pai no trabalho,
em Santa Fé, e seus colegas diziam a ele: é um biscuit,
tua filha é um biscuit, e nunca soube o que queriam dizer,
o que era um biscuit", um biscoito estando muito doente,
uma porcelana extravagante mesmo para nós,
e meu irmão perguntando: "E?"

Não sei o que é um biscuit, uma espécie exótica?
algo, de qualquer maneira, especial? Mesmo assim
caminhava delicada pela casa, beirando os oitenta
como se beira uma ferida
com uma gaze.

Na época de minha mãe
as mulheres eram bem visíveis.
Minha mãe se olhava ao espelho
e eu não chegava a abarcar
sua imagem com meus olhos. Me excedia,
a intuía longe como algo de que se tem saudade.

Como agora,
uma elegia.

À criatura adorável
fixada no remoto da foto,
que já aos oito anos parecia
maior que a vida: sinto tua falta,
mesmo não a tendo conhecido. Isso foi antes
que me deras vida
em um tamanho apenas natural.

Mesmo assim,
uma elegia.

E a outra da foto que espero
conservar, a mulher bela que segura
o livro diante da filha de um ano
no engano da leitura:
te amo por aquilo que dura, e é suficiente
ler no presente, mesmo que se tenha apagado
tua estrela.

Por ela,
uma elegia.

Agora sou a fotografia
e tu o líquido revelador. Tua morte
me transforma em eu: como uma ciência aplicada
sou a causa e o efeito,
o teste e o erro, este vazio
do nada que atinge o coração
como casca vazia.

Uma elegia,
cada vez com mais razão.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Una elegía
Mirta Rosenberg

En la época de mi madre
las mujeres eran probables.
Mi madre se sentaba junto a mi abuela
y las dos eran completamente de carne y hueso.

Yo soy apenas una secuela estable
de aquel exceso de realidad.

Y en la ansiedad del pasado indefinido,
en el aspecto durativo de elegir,
escribo ahora: una elegía.

En la época de mi madre
las mujeres eran perdurables,
completamente hueso y carne.
Mi madre se ponía el collar
de plata y de turquesas
que mi padre le había traído de Suecia
y se sentaba a la mesa como una especia exótica,
para que todo se volviera más grande que la vida,
y cualquier ficción fuera posible.

En la época de mi madre, las mujeres
eran un quid: mi madre nos contó
a mi hermano y a mí: ‘cuando salía de la escuela,
iba a buscar a mi padre al trabajo,
en Santa Fe, y los compañeros le decían es un biscuit,
tu hija es un biscuit, y nunca supe qué querían decir,
qué era un biscuit’, un bizcocho estando muy enferma,
una porcelana exquisita todavía para nosotros,
y mi hermano apurándola: ‘¿Y?’

No sé qué es un biscuit, ¿una especia exótica.
algo de todos modos, especial? Igual
andaba delicadamente por la casa, rozando los ochenta
como se roza una herida
con una gasa.

En la época de mi madre
las mujeres eran muy visibles.
Mi madre se miraba en los espejos
y yo no llegaba a abarcar
su imagen con mis ojos. Me excedía,
la intuía a lo lejos como algo que se añora.

Como ahora,
una elegía.

A la criatura adorable
fijada en lo remoto de la foto,
que ya a los ocho años parecía
más grande que la vida: te extraño,
aunque no te conocía. Eso fue antes
que a mí me dieras vida
en un tamaño apenas natural.

Igual,
una elegía.

Y a la otra de la foto que espero
conservar, la mujer bella que sostiene
el libro ante la hija de un año
en el engaño de la lectura:
te quiero por lo que dura, y es suficiente
leer en el presente, aunque se haya apagado
tu estrella.

Por ella,
una elegía.

Ahora soy la fotografía
y vos el líquido revelador. Tu muerte
me convierte en yo: como una ciencia aplicada
soy la causa y el efecto,
el ensayo y el error, este vacío
de la nada que golpea el corazón
como cáscara vacía.

Una elegía,
cada vez con más razón.

§

Monika Rinck (Zweibrücken, Alemanha - 1969)





de abster-se dos abraços

você não queria morrer uma vez mais,
despistar-se da colisão era sua única chance.
tinha para isso a cidade, o campo, seus nomes,
sob os quais você sumiu e aonde chamavam-no.
era uma coberta, estendida sobre você, os olhos
cerrados, sabia-o, cego, havia que ser uma.

você ouviu tudo. queria estilhaçar-se. quase
morreu com isso já a quarta vez. tudo ficou onde
e como estava. assim adentrara o delir do mundo.
precisou por anos ali acampar. canteiro sem terra.
a banheira asquerosa. o tricotar sem lã. a coisa
sem estilo. dentro, o abrigo. no mar, mar nenhum.
o golpear das ondas. seu ritmo para sempre seco.

como se nada houvesse além da morte por panorama,
e precisasse viver de fato sem respostas possíveis.
love calls us to the things of this world, mas o que
nos chama para longe delas? permaneceu-lhe longe
o senso do horizonte e você se manteria à distância,
que em verdade honraria o seu alojar-se, de imediato.

como amar certa linha de cabelo num crânio, um traço
de perfume no pescoço, tudo se foi, não ficou, longe.
até por esse alojar-se houve um tempo. e nesse tempo
alojar nenhum além dessa distância, que se expandia.
esse era o motivo, eis que jamais houvera outro.

esse era o motivo, eis que outro não haverá.
e então você o perdeu e o perdeu de novo. só
que esse já se tornara outro. você permaneceu
ali para uma vez mais perder, até por isso. não
foi ajuda a você, mas a ele, humano aperfeiçoado.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

zum fernbleiben der umarmung
Monika Rinck

sie wollten nicht noch ein weiteres mal sterben,
sich kollidierend verfehlen, war ihre einzige chance.
sie hatten dazu die stadt, das land, ihren namen,
worunter sie verschwanden und wohin es sie rief.
es war eine decke, über sie gebreitet, ihre augen
geschlossen, wussten sie blind, es musste eine sein.

sie haben alles gehört. sie wollten zerspringen. beinah
starben sie da schon zum vierten mal. alles blieb stehen
und liegen. sie gingen also ein in weltverlöschung.
sie mussten auf jahre dort zelten. das beet ohne erde.
die scheußliche wanne. die wolllosen maschen. das ding
ohne stil. drinnen, der mantel. an der see keine see.
das schlagen der brandung. ihr auf ewig trockener takt.

als gäbe es nichts als die auf den tod weisende aussicht,
man müsse in der tat mit dieser antwortlosigkeit leben.
love calls us to the things of this world, was aber ruft uns
davon weg? fern bliebe ihnen der sinn des horizonts
und sie blieben in der ferne, die ihre bleibe würde, alsbald.

wie diese liebe für einen haaransatz, eine duftende linie
am hals, all das ist fort, ist nicht geblieben, sondern fern.
auch für diese bleibe gab es eine zeit. und in dieser zeit
gab es keine andere bleibe als diese ferne, die sich weitete.
das war der grund, einen anderen hatte es nie gegeben.

das war der grund, einen anderen wird es nicht geben.
und dann verloren sie ihn und sie verloren ihn wieder.
nur dass es da schon ein anderer war. sie sind geblieben,
um wieder zu verlieren, daher blieben sie. ihnen half das
nicht mehr, aber ihm half es, dem verbesserten menschen.


§

Cristian De Nápoli (Buenos Aires, Argentina - 1972)






Canção à arrogância

(após a eliminação na África do Sul)

Uma senhora, um menino e eu.
Reúne três gerações
aquilo que fez em pedaços
os Ramones, nem por isso
converte em rugas o umbigo
converte na verdade em si mesmo e aliás
converte com esta arrogância
que faz da dor um sistema de gremiação.

Por exemplo esse outro
que chega com sua digital
para filmar a multidão
é estrangeiro? tem família em Barcelona?
filma por quê? por que toma distância
de nós, que simplesmente torcemos
pelo time? Com arrogância
explico a você: porque é um
destes barbudinhos consumistas
que estão em moda na cidade.

Explico dessa maneira
enquanto vejo o ídolo do futebol
chorando em direção ao túnel.
O outro já não está filmando, partiu
antes da derrota e levou tudo
aquilo de que você precisa.
Você deveria agora
deixar a arquibancada,
ir a um lugar onde nada tenha mais foco
do que a arrogância.

Uma senhora, um menino e eu.
Gostaria de estar com ele, o ermitão,
e com ela, como diria, a des-
antropomorfização em pessoa.
A vida exigia
outro tipo de crise populacional,
algo mais que detectar
em construções estilo-São Pablo *
construções de discurso,
falso modernismo de agitação.
A vaca de nariz sutil já está
mais uma vez bancando a francesa.
O ermitão chama a polícia
quando lhe ofereço uma solução para nos ignorar.

Não entre noutra, não tente não gostar do Maradona,
só deixe de gostar sem gostar
e veja que ele que gosta de você espera ganhos:
não fale em ganhos materiais com arrogância.

Luizito gosta de você.
Escreve toda semana de São Pablo
emails com notícias, gerais, fatos
que ocorrem, morreu Roberto Piva.
É seu jeito de dizer ô, sul-americano,
américa do sul é um email de vez em quando.
Tenho que matar esse alien, Luizito.
Esta burocracia do abandono.

Uma catarse só não faz inverno.
Tenho que matá-lo e mesmo assim
vencer uma sequência de calendários
cruéis. Edgardo gosta de você.
Mudou-se para uma casa a três quarteirões
que você ainda não conhece.
Pepe gosta de você, oferece
uma passagem para Santiago.
Vá visitar seu velho.

Acaba a Copa,
seu amor se vai,
o que fez em pedaços uma ninhada
reuniu três gerações
mas não basta para um sentimento.
Que algum dia em vez de atrevido
você seja forte. Tem-se que treinar muito,
o inimigo chama-se arrogância, não se chama
quatro anos mais.


(Tradução de Ricardo Domeneck. Nota: * O autor insiste no hibridismo ao nomear a capital paulista como São Pablo. Mantivemos sua decisão.

:

Canto a la soberbia
Cristian De Nápoli

(Después de la eliminación en Sudáfrica)

Una anciana, un chico y yo.
Une a tres generaciones
lo que partió en pedazos
a los Ramones, no por eso
vuelve como pata de gallo el ombligo.
Vuelve más bien en sí mismo y además
vuelve con esta soberbia
que hace del dolor un sistema de agrupación.

Por ejemplo ese otro
que viene con su camarita
a filmar a la multitud
¿es extranjero? ¿tiene familia en Barcelona?
¿por qué filma? ¿por qué toma distancia
de nosotros, que simplemente alentamos
al equipo? Con soberbia
te lo explico: porque es uno
de estos barbuditos consumistas
que están de moda en la ciudad.

Así te lo explico
mientras veo al ídolo del fútbol
llorando hacia el túnel.
El otro ya no filma, se fue antes
de la derrota y lo acompaña
lo que necesitás.
Deberías ahora
salir del anfiteatro,
ir a un lugar donde nada esté en foco
más que la soberbia.

Una anciana, un chico y yo.
Me gustaba estar con él, un misántropo,
y con ella, a ver si me sale, la des-
antropomorfización en persona.
La vida pedía
otro tipo de crisis poblacional,
algo más que detectar
en edificios onda São Pablo
edificios de discurso,
falso modernismo de conflictividad.

La vaca de nariz sutil ya está
otra vez haciéndose la francesa.
El misántropo llama a la policía
cuando le ofrezco una solución para ignorarnos.

No estés en otra, no quieras no querer a Maradona,
sólo dejalo de querer sin quererlo
y mirá que el que te quiere espera cosas:
no las llames materiales con soberbia.

Luizito te quiere.
Te escribe todas las semanas desde São Pablo
mails con noticias, generales, hechos
que suceden, murió Roberto Piva.
Es su manera de decirte ey, sulamericano,
sulamerica es mandar cada tanto un mail.
Tengo que matar a este alien, Luizito.
Esta burocracia del abandono.

Una catarsis no hace el invierno.
Tengo que matarlo y aun así
pasar una seguidilla de calendarios
crueles. Edgardo te quiere.
Se mudó a tres cuadras a una casa
que todavía no conocés.
Pepe te quiere, te ofrece
un pasaje a Santiago. Andá a visitar a tu viejo.

Se acaba el mundial,
tu amor se va,
lo que partió en pedazos a una camada
unió a tres generaciones
pero no alcanza para sentimiento.
Que algún día en vez de temerario
seas fuerte. Hay que entrenarse duro,
el enemigo se llama soberbia, no se llama
próximos cuatro años.


§

Odile Kennel (Bühl/Baden, Alemanha - 1967)



Por sorte a névoa chegou

tarde. Mais abaixo, eu sei
com certeza, nadavam girinos
num tanque de pedra, as vacas
traçavam com patas cautelosas
veias na montanha, visíveis. Sobre
nós circulava um busardo. Não

é um busardo, você disse, mas
nos faltavam binóculos e dicionário
de inglês. E havia o ruído
dos planadores. Eles abocanhavam o ar
em goles ávidos. Riscavam verticais acima

e abaixo cambaleavam nossos
olhos uns nos outros, mergulho cauteloso
das palavras vale abaixo, cartografado
de montanha a montanha.

Por sorte a névoa chegou tarde
para que pudéssemos
admirar na capela o
Senhor Jesus transsexual, suas unhas
pintadas. Para que nossos olhos
patas cautelosas sob
círculos intraduzíveis, para que nossos
olhos tais como girinos
no tanque de pedra nadassem
uns pelos outros se medissem uns nos outros
mergulhassem por sorte

a névoa chegou tarde.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Zum Glück kam der Nebel
Odile Kennel

verspätet. Weiter unten, ich weiß es
genau, schwammen Kaulquappen
in einem Steintrog, Kühe legten
mit bedächtigen Hufen die Adern
des Berges bloß. Über uns kreiste
ein Bussards. Das ist kein

Bussard, sagtest du, aber wir hatten
kein Fernglas und kein englisches
Wörterbuch. Und das Geräusch kam
von den Segelfliegern. Sie rissen die Luft
an sich in gierigen Zügen. Rissen sie aufwärts und

abwärts taumelten unsere Augen
ineinander, bedächtiges Tauchen
der Wörter ins Tal hinab
geschwungen, ausgelotet
von Berg zu Berg.

Zum Glück kam der Nebel verspätet
so dass wir in der Kapelle den
transsexuellen Herrn Jesus
bewundern konnten, lackiert
seine Nägel. So dass unsere Augen
bedächtige Hufe unter unübersetzbaren
Kreisen, so dass unsere
Augen Kaulquappen gleich
im Steintrog schwammen
sich aneinander maßen ineinander
tauchten zum Glück

kam der Nebel verspätet.


§

Lucía Bianco (Punta Alta, Argentina - 1979)





Bibliografia: Manual de produção
de frangos assados


Pág. 23 – Iluminação artificial

Devem-se evitar as lâmpadas oscilantes
que causam situações
de nervosismo
e pânico entre os frangos.

Querem voltar ao ovo
e não têm Édipo,
deve ser difícil.
O útero de cálcio
tão biodegradável tão

Não ter do que sentir saudade
enlouquece.

(tradução de Angélica Freitas)

:

Bibliografia: Manual de producción
de pollos parrilleros


Pág. 23- Iluminación artificial

Deben evitarse las lámparas oscilantes
que causan situaciones
de nerviosidad
y pánico entre los pollos.

Desean volver al huevo
y no tienen Edipo,
debe ser difícil.
El útero de calcio
tan biodegradable tan

no tener qué extrañar
saca de quicio.


§

Pág. 38 – Extração do bico

A extração do bico é opcional.
Aos 7 ou 9 dias a parte córnea do bico
já se encontra suficientemente endurecida,
por isso se aconselha a extração nessa idade
e em especial
às franguinhas
poedeiras

Percebem no espelho
seus orifícios molhados
subconjuntos em vermelho.
Depois na mercearia
compram esse mesmo
beijo de canudinhos
batom da moda

pobres todas
franguinhos, franguinhas poedeiras.

(tradução de Angélica Freitas)

:

Pág. 38-Despicado

El despicado es opcional.
A los 7 o 9 días la parte córnea del pico
ya se encuentra suficientemente endurecida,
por ello se aconseja despicar a esta edad
y en especial
a las pollitas
ponedoras

Advierten al espejo
sus agujeros mojados
subconjuntos em rojo.
Después la mercería,
se compran ese mismo
beso de canutillos
lápiz labial de moda

pobres todas
pollitos, pollitas ponedoras.



extraídos de: "Archivos Naturales", tomo 2 do "Diario de exploración afuera del cantero"

§

Ulf Stolterfoht (Stuttgart, Alemanha - 1961)



tabor hardcore ecstasy. para clemens gadenstätter

antes uma coisa um tanto bruta ― ei-la: fishygods gaggin oystrygods.
um rock complexo nisso. daí uma transmissão da sala bösendorfer:
“um luigi nono/só há um luigi nono” ―  a volta ad lib. daí o distrito
de mayen contra as séries harmônicas ampliadas. daí lachenmann
(against all odds). e daí estamos quites. ponho os doobie brothers

em fita / você diz que sun ra também agita. ou schnebel contra os
outros do contra. um tipo assim sai assinado e selado. daí o coro
masculino de meidling se põe contra a liga de metal pesado de
stockerau. torcida do admira contra homofobia e violência dom-
éstica. descontraídos se encontram no café sperlhof, pra beber

uma cerveja e deixar o desprezo pela sociedade correr solto.
compositores são quimeras: meio homem, meio assento. e sua
tarefa principal é a drastificação das frases. e é nesse ponto
que entra a filha de schönberg, depois sra. nono. pragueja sério
webern contra o def leppard. merle haggard vergasta todos os sis-

temas modais. alban berg então contra o altíssimo comissário de
abusos das comunidades pietistas de voralberg e rest-tirol. e o fim
foi mais ou menos assim. artistas de pinzgau contra o max. de 130.
ouriço antitaxas de internet versus inferno de ruído em imst. gstaad
foi dominada por charly steeb por anos. daí rubro, o sol. luzes sobre

devotos da música (“um anton webern/ só um anton webern”). dó
sustenido arranca ao maestro gestos nada sutis. hindemith. mark e.
smith. o fulgor que flui na face da manhã no augarten – uma beleza,
não? e há muitas questões sem resposta – é, sim! por favor,  clemên-
cia: fiz estes versos com meros farrapos cobrindo-me ao escrever.

(tradução de Dirceu Villa e Tiago Morais)

:

tabor hardcore ecstasy. für clemens gadenstätter

erst mal was zum drüber brüten - etwa: fishygods gaggin oystrygods.
wie hochkomplex das rockt. dann zuspielung aus dem bösendorfer-
saal: "ein luigi nono / es gibt nur ein luigi nono" - schleife ad lib. dann
landkreis mayen gegen erweiterte obertonreihen. dann lachenmann
(against all odds). und dann sind wir quitt. ich leg das doobie brothers-

tape ein / du sagst, für dich dürfts auch sun ra sein. oder schnebel
gegen die ihn umgebende gegend. so einer wird auch ungesignet
gelabelt. dann meidlinger männergesang gegen den bund der schwer-
metaller stockerau. admira-supporters gegen homophobie und män-
nergewalt. man traf sich für gewöhnlich im café sperlhof, um bier zu

trinken und der eigenen gesellschaftsverachtung freien lauf zu lassen.
komponisten nämlich sind zwitter: halb mensch, halb stuhl. und ihre
hauptaufgabe besteht in der drastifizierung des satzes. an diesem
punkt tritt schönbergs tochter auf, die spätere frau nono. sehr heftig
wettert webern gegen def leppard. merle haggard verachtet alle mo-

dalen systeme. alban berg zuletzt gegen den riesenhaft aufragenden
mißbrauchsbeauftragten der pietistischen gemeinden in vorarlberg und
rest-tirol. es ging sich gerade so aus. pinzgauer künstler gegen tempo
130. gebühren-igel gegen die noise-hölle imst. gstaad wurde für jahre
von charly steeb dominiert. dann glutrote sonne. dies leuchten über dem

musikverein ("ein anton webern / nur ein anton webern"). extreme diri-
gentenbewegung für gerade mal ein beschissenes cis. hindemith. mark e.
smith. das licht, das früh um fünf auf den augarten trifft - ist das etwa nichts?
so manche frage ist offen geblieben - das stimmt! aber bitte bedenken sie:
ich habe dieses gedicht auch nur in unterhose ("schlüppi") geschrieben.

§

Alejandro Crotto (Buenos Aires, Argentina - 1978)




As pombas

É preciso vestir rápido as meias
porque o piso de pedra está frio; na cozinha
tomamos leite no café, pão com manteiga e mel,
então saímos para caçar pombas
com nossa arma de ar comprimido,
meu irmão e eu, com menos de onze anos
e com botas sete léguas, camisa grossa xadrez e projéteis
no bolso – dois ou três,
os próximos a usar, vão é na boca.
Vamos deixando trilhas na geada que começa a derreter-se,
vamos atentos entre os galhos dos plátanos,
os altos eucaliptos, nogueiras, as casuarinas,
os choupos do haras, a piscina,
um tiro cada um, caminhando,
apontando vez em quando as copas do outono.

Depois, atrás da lavanderia, entre pomares,
as depenamos, limpamos suas tripas:
segurando na esquerda seu peso frágil,
vamos tirando penas com a outra,
as mais longas e duras na calda e nas asas,
as simples do peito, as curtinhas
e escuras das costas, as mais suaves
na frente, debaixo das asas na axila;
vão caindo nas ervas enleadas na direção do vento,
grudadas nas nossas mãos, suspensas no ar
quando se torvelinha de repente;
depois vamos esvaziando o corpo, muito menor
agora em relação à cabeça: primeiro o bucho,
às vezes com sementes de girassol intactas que se podem comer,
apenas azedas, e enfiando com força os dedos para cima
onde termina o esterno, girando-os
dentro do corpo ainda quente, agarrando e jogando para baixo,
arrancamos os longos intestinos e o papo, tiramos os pulmões
como uma esponja rosa grudada às costelas,
os rins, o fígado, o quieto coração,
que os cachorros pegam sem que cheguem
ao chão; na torneira lavamos as pombas
e cortamos suas cabeças, amarramos
subindo a um banquinho a pata a um arame até a noite.

As mãos queimam com o frio da água,
brilham os corpos no ar, ao sol; a vida
é material, e a matéria
é difícil, sagrada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Las palomas
Alejandro Crotto

Hay que ponerse rápido las medias
porque el piso de piedra está frío; en la cocina
desayunamos leche, pan con manteca y miel,
después salimos a cazar palomas
con nuestro rifle de aire comprimido,
mi hermano y yo con menos de once años
y con botas de goma, camisa gruesa a cuadros y balines
en el bolsillo —dos o tres,
los próximos a usar, van en la boca.
Vamos dejando huellas en la helada que empieza a deshacerse,
vamos alerta entre las ramas de los plátanos,
los altos eucaliptos, el nogal, las casuarinas,
los álamos del haras, la pileta,
un tiro cada uno, caminando,
señalando de a ratos las copas del otoño.


Después, detrás del lavadero, entre frutales,
las desplumamos y las destripamos:
sosteniendo en la izquierda el peso tibio
vamos sacando plumas con la otra,
las más largas y duras en la cola y el ala,
las fáciles del pecho, las cortitas
y oscuras de la espalda, las más suaves
en el flanco, debajo de las alas en la axila;
van quedando en los yuyos enredadas hacia el lado del viento,
pegadas en las manos, suspendidas del aire
cuando se arremolina de repente;
después vamos vaciando el cuerpo, mucho más chico
ahora en relación a la cabeza: primero el buche,
a veces con semillas de girasol intactas que se pueden comer,
apenas agrias, y metiendo con fuerza los dedos hacia arriba
donde termina el esternón, girándolos
dentro del cuerpo todavía caliente, agarrando y tirando para abajo,
arrancamos los largos intestinos y la panza, sacamos los pulmones
como una esponja rosa pegada a las costillas,
los riñones, el hígado, el quieto corazón, 
que los perros atrapan sin que toquen
el suelo; en la canilla lavamos las palomas
y les cortamos la cabeza, las atamos
subidos a un banquito de la pata a un alambre hasta la noche.

Las manos queman por el frío del agua,
brillan los cuerpos en el aire, al sol; la vida
es material, y la materia
es difícil, sagrada.

§

Sabine Scho (Ochtrup, Alemanha - 1970)




green

alguém quer que eu diga
erva e uma toalha es-
tenda, erva da boa, a pura
opulência dos ruminantes
não é nada, dou voluntaria-
mente a entender, nada mais que
vento nos salgueiros, aptidão
para Marte, macacão azul
lavado a seco, de preferência
fotossíntese, campos de
estromatólitos, quedas de
temperatura em florescência
desértica, paisagem incrustada,
gravura grátis a laser, nem nada
de nada de precipitações

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

green

jemand will, dass ich gras
sage und eine decke aus-
breite, gutes gras, die reine
üppigkeit der wiederkäuer
es ist nichts, gebe ich bereit-
willig zu verstehen, nichts als
wind in den weiden, marstaug-
lichkeit, ein blaumann aus der
schnellreinigung, vorzugsweise
photosynthese, stromatolithen-
felder, temperaturstürze in wüster
blüte, verkrustete aussicht, kosten-
lose lasergravur, nichts und kein
bisschen niederschlag



§

Cecília Pavón (Mendoza, Argentina - 1973)




Bicicleta roubada sequestrada


Talvez a revolução esteja em seus corpos e eu não a veja

Essa é a história de uma bicicleta roubada
Sei apenas que perto do canal está o dono
ou a dona
Perto do canal,
perto de um canal
Mas esqueci o nome das ruas

Uma madrugada saímos depois de beber em um bar revolucionário
e minha bicicleta estava presa acidentalmente a outra
uma corrente se enredava por entre os cabos do freio e
a mantinha
sujeita a um poste
Todos iam embora
em táxis
em ônibus
em carros que estavam cheios
e eu não podia pegar minha bicicleta
tive que deixá-la ali

Se alguém a encontrar ali
vai quebrar o cadeado
e levá-la embora
mas de qualquer jeito era roubada
comprada por um preço muito baixo
no mercado de pulgas
ou em um quintal de fundos suspeito
de uma mulher imigrante
não se entendia muito bem o que ela dizia
mas de todo modo dizia:
“esta ser bicicleta minha velha”
“esta não ser roubo”

São três horas da tarde de um dia de verão com vento
As árvores que até agora estavam secas
movem-se extremamente carregadas
de folhas transbordantes de vida
Em vez de neve, fibras de pólen alongadas que voam
como insetos
Alguém prendeu sua bicicleta acidentalmente à minha
não sei se é um acidente ou um roubo
não sei se é um roubo ou se é a verdadeira dona
que sei que existe porque um dia se aproximou de mim em um parque

Eu não sou a verdadeira dona, eu a comprei
por este preço tão baixo
neste quintal
nos fundos
ou mercado de pulgas
de uma mulher com sotaque de estrangeira
de cabelos compridos e jeans gastos
que dizia
“não perigo, esta ser bicicleta minha passado”

Depois de conhecer a felicidade da bicicleta
Estar sem ela é como viver sem asas

Passavam os dias e a bicicleta seguia ali na ponte
o dono não vinha desatá-la, era verão, voava o pólen
manchado de sol
eu pedia bebidas que me faziam mal
como expresso
café
preto
sem leite
olhava para a bicicleta do outro lado da ponte e chorava

A bicicleta rosada presa
através do cabo do freio
por engano
à bicicleta celeste, oxidada, de um desconhecido

O sequestro da bicicleta roubada acontece
durante a única semana de sol do ano

As coisas grandes
as coisas raras
acontecem em momentos de decisão ou de loucura
por exemplo:
deixar seu país,
cortar o cabo do freio
com um alicate para liberar a bicicleta,
desfrutar
gozar
com o crime
quebrar a roda da outra bicicleta ou
jogar ácido no banco
Algo assim.

A bicicleta era a minha única fonte de diversão
Agora que está chegando o verão
e são poucas as horas de verdadeira noite
a bicicleta era a minha melhor,
minha única amiga
Sei que parece besteira
é até tão simples
mas passeando de bicicleta pela cidade
me sentia livre
a cidade era como uma paisagem
que eu podia ver de graça
passando a toda velocidade
pela janela de uma trem inter-city
só que a janela não tinha caixilhos
era uma janela sem limite
e rosada
uma janela com forma de bicicleta rosada
roubada
comprada de uma garota
que dizia “não ser perigo, não roubado, minha antes bicicleta”

Eu sabia que era roubada
mesmo assim comprei
Um dia em um parque chegou para mim
a verdadeira dona
uma mulher de uns trinta anos
e disse que aquela era sua bicicleta
mas eu a defendi com unhas e dentes
inventei uma história estranhíssima
complicada
com muitas etapas
de como essa bicicleta tinha
vindo de Paris de barco
pelo correio, desmontada
em uma caixa de papelão
enviada como presente por um ex-amante

Se me tiram a bicicleta
o que mais me resta aqui?
Sim,
há os cafés revolucionários
onde se discute o futuro do mundo
Mas nada
nada
pode se comparar
a ela.


(tradução de Marília Garcia)

§

Bicicleta robada secuestrada

Quizás la revolución está en sus cuerpos y yo no la vea

Esta es la historia de una bicicleta robada
Sólo sé que cerca del canal está el dueño
o la dueña
Cerca del canal,
cerca de un canal
Pero he olvidado el nombre de las calles

Una madrugada salimos de beber de un bar revolucionario
y mi bicicleta estaba atada accidentalmente a otra,
una cadena se enredaba por entre los cables del freno y
la mantenía
sujeta a un poste
Todos se iban
en taxis,
en colectivos,
en autos que estaban llenos
y a mi bicicleta, yo no la podía sacar
tuve que dejarla ahí

Si alguien la encuentra
rompe el candado
y se la lleva
pero de todas formas era robada,
comprada a muy bajo precio
en el mercado de pulgas
o en un patio de atrás sospechoso
a una mujer inmigrante
a quien que no se le entendia muy bien lo que decía,
pero de todos modos decía:
“esta ser bicicleta mia vieja”
“esta no ser robô”

Son las tres de la tarde de un día de verano con viento
Los árboles que hasta ahora había visto secos
se mueven demasiado cargados
de hojas rebosantes de vida
En lugar de nieve, hebras de pólen alargadas que vuelan
como insectos
Alguien ató su bicicleta accidentalmente a la mia
no sé si es un accidente o es un robô
no sé si es un robo o es la verdadera dueña
que sé que existe porque un día se me acerco en un parque

Yo no soy la verdadera dueña, y ola compré
por ese precio tan bajo
en ese patio
de atrás
o mercado de pulgas
a una mujer con acento extranjero
de pelo largo y jeans gastados
que decía
“no peligro, esta ser bicicleta mía pasado”

Luego de conocer la felicidade de la bicicleta
estar sin ella es como vivir sin alas

Pasaban los días y la bicicleta seguía ahí en el Puente
el dueño no la venía a desatar, era verano, volava el polen
manchado de sol
yo pedía bebidas que me hacían mal
como espresso
café
negro
sin leche
miraba la bicicleta desde el otro lado del Puente, y lloraba

La bicicleta rosada atada
a través del cable del freno
por error
a la bicicleta celeste, oxidada, de un desconocido

El secuestro de la bicicleta robada sucede
durante la única semana de sol del año

Las grandes cosas
las cosas raras
sucedem en momentos de decisión o de locura
por ejemplo:
dejar su país,
cortar el cable del freno
con una pinza para liberar a la bicicleta,
disfrutar,
gozar
con el crimen,
romperle la rueda a la otra bicicleta o
tirarle ácido al asiento
Algo así.

La bicicleta era mi única fuente de diversion
Ahora que está llegando el verano
y hay pocas horas de verdadera noche
la bicicleta era mi mejor,
mi única amiga
Es tonto decirlo
es hasta tan simple
pero con la bicicleta paseando por la ciudad
me sentía libre
la ciudad era como un paisaje
que yo podía ver gratis
pasando a toda velocidad
por la ventana de un tren inter-city
sólo que la ventana no tenía marcos
era una ventana sin límite
y rosada
una ventana con forma de bicicleta rosada
robada
comprada a una chica
que decía “no ser peligro, no robado, mía antes bicicleta”

Yo sabía que era robada
igual la compré
Un día en un parque se acercó
la verdadera dueña
una mujer de unos treinta años
y dijo que esa sería su bicicleta
pero yo la defendí con uñas y dientes
inventé una historia extrañísima
complicada
con muchas etapas
de cómo esa bicicleta había
venido de Paris en barco
en correo, desarmada
en una caja de carton
enviada como obsequio por un ex-amante

¿Si me quitan la bicicleta
qué más me queda acá?
Sí,
están los Cafés Revolucionarios
donde se discute el futuro del mundo
Pero nada,
nada
puede compararse
con ella.


§

Swantje Lichtenstein (Tübingen, Alemanha - 1970)



A parede assoberba o palco,
beijos penetram em salitre
e eflorescências enegrecem
dos lábios as mordidas.

Pedras adiam a cada dois dentes
atravessados por sustos e medos
a vista das fendas sussurráveis,
penetram a lama e o temporal.

Frases trementes piscam no cimento,
isópodes planejam guerras de couraça,
no subterrâneo, sós, carros de compra,
e sobre lagos artificiais os caiaques.

Bigatos oviformes transmudam-se
entre veados de praça em disputa
e romances lineares automatizados,
para coçar-se faltam dedos de zumbi.

Medidas ocultas, alôs e mensagens,
forças centrifugais e lojas de ritmo
acariciam corações de capuz em pedaços,
deslocam escapamentos aos amantes.

Muram bocas para estender-se mãos,
suadas como fotos simultâneas tão
lisas e macias ponderam-se em jogos
de úteros felizes e comediantes viúvas.

No dia seguinte, fazem listas de compra,
encastelam-se detrás de portas
e derrubam tudo finalmente no começo
para sua timidez e seus desperdícios.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Die Wand läuft über die Bühne
Küsse dringen in Salpeter
und Ausblühungen schwärzen
der Lippen spitze Bisse

Steine verschieben je zwei Zähne
durch Furchen und Ängste hindurch
Sicht auf den durchflüsterbaren Riss
Leim und Schlagregen dringt hinein

Zitternde Phrasen blinken in Zement
Asseln überleben gepanzerte Kriege
im Untergrund stehen Einkaufswagen
und Paddelboote in künstlichen Seen.

Wenden eierförmige Fliegenlarven
zwischen umkämpften Platzhirschen
und automatisierten Linearromanen
es fehlen Zombiefinger putzabkratzend

Versteckte Maßnahmen, Grußbotschaften
Zentrifugalkräfte und Rhythmusgeschäfte
tätscheln die Kapuzenherzen kaputt
verrücken Flüstertüten zu den Liebenden

sie mauern Münder zu reichen  sich Hände
schweißnass als Simultangebilde ähnlich
glatt und im zarten Erwägen spielen sie
freudvolles Gebären und lustige Witwe

Am nächsten Tag hakten sie Einkaufslisten
ab verschanzten sich hinter den Toren
und rissen alles nieder endlich am Anfang
zu sein schüchtern alles zu verschwenden.



§

Martín Gambarotta (Buenos Aires, Argentina - 1968)



Pseudo, versão remixada
em tradução de Marília Garcia.


Quando acabar a merluza,
as pimentas, o chá amargo, vamos embora daqui.
Para qualquer lugar. Para as plantações.
Para um lugar em que não existam garfos.

*

Vodka. Vodka com coca, uma banheira
cheia de vodka, apenas vodka, vodka
com nome russo destilada em San Luis.

Vem no mês que vem.
O cais se move.
A garrafa acaba.
A felicidade tem fim.

*

Camila Torres voa pelas Aerolíneas Tutankamón
seu avião com destino à Frente Patriótica
.....................Manuel Rodriguez
FLMR sai às nove pelo portão cinco
mas o painel com as partidas mostra os
vôos atrasados por causa da neblina

Camila descansa a vista
controla seu medo de decolar
o horário de verão
a noite é dia, o dia é noite
a narcotiza

na sala com almofadas sujas
a espera distorce as pessoas
Os fotofóbicos saúdam os fotogênicos

*

O chá deve-se tomar escuro e numa xícara pequena

Os vizinhos não sabem tomar chá
eles põem leite e açúcar para apagar
o gosto asiático. De malária.

Eles o tomam morno à noite
com pedaços de peixe frito
e não antes ou depois do arroz.

Uma coisa te digo:
que não sobrem folhas de chá no fundo da sua xícara

E não quero saber de você
perdendo uma ferramenta no meio do trabalho

Escutar música
o dia inteiro, o dia inteiro
eu quero e trabalhar à noite
um trabalho leve peço
cuidar das plantas
em um viveiro (do
outro lado da rua)
onde se possa
sentar em uma casa de vidro
para tirar da cabeça
o zumbido
da dignidade.

*

Pseudo disse: o sal me tem como filho

É uma a chama que cospe sua soldadora

*

Uma coisa é consegui-la.
E outra é usá-la.

Uma coisa é dizer
samambaias que crescem na parede
e outra coisa é sua mulher
com sapatos de homem
e outra coisa são as plantas
que brotam da parede.

Colocaram-no em uma balança
Disseram que era menor do que o normal
Estavam pesando o cérebro de Lênin.

*

A foto de uma guerrilheira com o cabelo no rosto
Parecia Electra em transe depois de
Não sei o que fez Electra exatamente

Se tinha um grupo de espiões em Jônia, não sei
Se era a rainha dos pescadores, não sei
A ideóloga da tempestade, não sei
Se comia pizza fria de café da manhã com suas companheiras, não sei.
Se fazia nebulizações antes de pegar o fusil, não sei.

Rezar
.....................o pai nosso
sair
.....................com a roupa do corpo
selar
.....................os cavalos
depois
.....................à rinha de galos

Céu escuro: cheio de bóias.
De onde tirei essas frases?
Onde estive? Se é verdade que Electra
matou seu pai? Que tipo de perguntas são essas?

(tradução de Marília Garcia)

:

Seudo (versión remezclada): Cuando se acabe la merluza, / los ajíes, el té amargo, nos vamos de acá. / A cualquier lado. A las plantaciones. / A un lugar donde no existan tenedores. // * Vodka. Vodka con coca, una bañadera / llena de vodka, vodka sólo, vodka / de nombre ruso destilado en San Luis. // Se viene el mes que viene. / Se mueve el muelle. / Se acaba esta botella. / Se termina la felicidad. // * Camila Torres vuela por Aerolíneas Tutankamón / su avión con destino al Frente de Liberación / Manuel Rodríguez / FLMR, sale a las nueve por la puerta cinco. // pero la pantalla de partidas indica: vuelos demorados por niebla. // Camila descansa la vista / controla su mierdo a despegar / el cambio de horario / la noche es día, el día es noche / la narcotiza // en la sala de alfombras sucias / la espera distorciona las personas // los fotofóbicos saludan a los fotogénicos. // * El té se toma oscuro y en taza chica. // Los vecinos no saben tomar té / le ponen leche y azúcar para apagarle / el gusto asiático. A malaria. // Lo tomam tibio a la noche / con bastones de pescado frito / y no antes o después del arroz. // Una cosa te digo: / que no se vean hebras en el fondo de tu taza / y que no te escuche decir que perdiste / una herramienta em medio del trabajo. // Escuchar música / todo el día, todo el día / quiero y trabajar de noche / un trabajo liviano pido / cuidando plantas /en un vivero (del / otro lado de la vía) / donde uno se pueda / sentar en una casa de vidrio / a sacarse de la cabeza / el zumbido / de la dignidad. // * Pseudo dijo: la sal me tiene de hijo. // Es una la llama que escupe su soldadora. // Una cosa es sacarla / y otra es usarla. // Una cosa es decir / helechos que crecen de la pared / y otra cosa es tu mujer / con zapatos de hombre. / Y otra cosa son plantas / que salen de la pared. // Lo pusieron en una balanza. Dijejron que era más chico de lo normal. Estaban pesando el cérebro de Lenin. // * La foto de una Motonera con el pelo en la cara. Parecía Elektra en trance después de / no sé lo que hizo Elektra exactamente. // Si tenía una banda de espías en Jonia, no sé / Si era reina de los pescadores, no sé / La ideóloga de la tormenta, no sé / si desayunaba pizza fría con las compañeras, no sé / si se hacía nebulizaciones antes de colgarse el fusil, no sé. // A rezar / el padre nuestro / a salir / con lo puesto / a ensillar / los caballos / y despues / a la riña de gallos. // Cielo oscuro: lleno de boyas. / Qué de dónde saqué esas frases? / Qué dónde estuve? Que si es verdad que Elektra / mató a su padre? Qué clase de preguntas son esas. 

§


Volker Braun (Dresden, Alemanha - 1939)





Oh Chicago! Oh Discrepância!

Brecht, teu charuto acabou se apagando?
Durante os terremotos que provocamos
Nos Estados construídos sobre a areia.
O Socialismo vai-se, lá vem Johnny Walker.
Não consigo fixá-lo nos pensamentos
Que aliás estão caindo. As ruas quentes
De outubro são as trilhas frias
Da economia, Horácio. Enfio o chiclete
     na bochecha
Eis que é chegado o nada significante.


(tradução de Ricardo Domeneck)

:

O Chicago! O Widerspruch!

Brecht, ist Ihnen die Zigarre ausgegangen?
Bei den Erdbeben, die wir hervorriefen
In den auf Sand gebauten Staaten.
Der Sozialismus geht, und Johnny Walker kommt.
Ich kann ihn nicht an den Gedanken festhalten
Die ohnehin ausfallen. Die warmen Straßen
Des Oktober sind die kalten Wege
Der Wirtschaft, Horatio. Ich schreibe den Gum in 
    die Backe
Es ist gekommen, das nicht Nennenswerte.

§

Juana Bignozzi (Buenos Aires, Argentina - 1937)




Sprit ou senso de humor, com preferirem

Há alguns dias decidi lutar
e só de pensar na luta
me causou um cansaço tão infinito
que até meus melhores amigos têm mantido uma distância respeitosa.
Além do mais, como já passei ao lado dos rios mais famosos do mundo
e não me suicidei em nenhum
minha falta de amor pela humanidade está suficientemente demonstrada.
Como sempre, falo dos outros, mas digo eu,
todos podem dormir tranqüilos
pensando que estas estórias malucas só podem ser minhas,
que já sabemos que tipo de pessoa eu sou.
Meus melhores amigos sofrem em diferentes partes do mundo
e eu escrevo cartas cômicas
sentada no meio do deserto sob o sol de janeiro,
enquanto minhas vidas mortas insistem em voltar.
Alguns dos meus melhores amigos não se enganam
e me oferecem tardes calmas, retiram os objetos incômodos,
criam espaço para o meu ruído.
Como sou infinitamente preguiçosa
acho que nunca tentarei lutar,
por isso quase ninguém me cumprimenta,
outros dizem coitadinha,
e meus melhores amigos caçoam impiedosamente dos ingênuos
e não me levam a sério.

(tradução de Renato Rezende)

:

Sprit o sentido del humor, como gusten

Hace unos días he decidido luchar
y la sola idea de la lucha
me ha producido un cansancio tan infinito
que hasta mis mejores amigos guardan una distancia respetuosa
Además como he pasado al lado de los ríos más famosos del mundo
y no me suicidé en ninguno
mi falta de amor por la humanidad está suficientemente demostrada.
Como siempre hablo de los demás pero digo yo,
todos pueden dormir serenos
pensando que estas locas historias sólo pueden ser mías,
que ya sabemos qué clase de persona soy.
Mis mejores amigos sufren en distintas partes del mundo
y yo escribo cartas graciosas
sentada en medio del desierto bajo el sol de enero,
mientras mis vidas muertas insisten en volver.
Algunos de mis mejores amigos no se enganan
y me ofrecen tarde plácidas, retiran los objetos molestos,
hacen lugar a mi ruido.
Como soy infinitamente perezosa
creo que nunca intentaré luchar,
por eso casi nadie me saluda, otros dicen pobrecita,
y mis mejores amigos se burlan despiadadamente de los ingenuos
y no le hacen caso.



§

Daniel Falb (Kassel, Alemanha - 1977)




[tínhamos quase perdido a transição da fase]

1. tínhamos quase perdido a transição da fase. do cristal ao cristal líquido, 
    um pestanejar. um degelo, isto é as topologias e os latifúndios, onde es-
    tamos deitados vergados. 

2.  e como são planeadas. estas brigadas de parceiros, como se fossem apenas 
     lábios e pele. 

3. o arranjo das pequenas jaulas teria de ser executado em representação de 
   perspectiva. excluímos o desnecessário. 

4. o qual, a que nós chamávamos os olhos e que se reproduzia em todas as 
    extremidades de uma descontrolada e circular forma. 

5. e o qual, que aqui agia como ossos ou, pelo menos, como uma construção,  
    o carrinho de compras inteligente. o nosso cabaz básico abateu-se decorren-
    temente. 

6. contudo queríamos garantir segurança para este animal, estávamos deitados 
    e macerados na loja de colchões.

7. a partir dos tissues justamente as texturas líquidas e os kleenex autoformou
    -se um novo objeto. uma qualidade, que se elevou multidimensionalmente, 
    enquanto nos levantávamos e íamos ao frigorífico.

8. como a nossa amizade tudo apenas ocupava poucos elementos do espaço, 
    dado que a minha própria voz lhe pertencia.

(tradução de Pedro Sena Lino)

:

 [den phasenübergang hätten wir]

1.  den phasenübergang hätten wir gerade verpasst. vom kristall zum flüssig-
     kristall, ein blinzeln. eine schmelze, nämlich die topologien und ländereien,
     in denen wir gebogen liegen.

2.  und wie sie geplant sind. jene hundertschaften von partnern, die nur aus 
     lippen und haut bestünden.

3.  die anordnung der kleinen käfige wäre in perspektivischer darstellung aus-
     zuführen. überflüssiges ließen wir weg.

4.  dasjenige, das wir die augen nannten und das sich auf allen gliedmaßen 
     unkontrolliert und kreisförmig vermehrte.

5.  und dasjenige, das hier als die knochen oder doch als gesteil fungierte, den 
     intelligenten einkaufswagen. unser Warenkorb sackte entsprechend schnell 
     in sich zusammen.

6.  gleichwohl wollten wir sicherheit bekommen für das tier, lagen formlos und 
     gerötet im bettenstudio.

7.  aus den tissues, eben dem flüssigen gewebe und den kleenex formierte sich 
     so bereits ein neues objekt. eine qualität, die sich mehrdimensional erhob, 
     indem wir aufstanden und zum kühlschrank gingen.

8.  das alles nahm wie unsere freundschaft nur wenige raumelemente ein, zu-
     mal meine stimme selbst dazu gehörte.

§

Mariano Blatt (Buenos Aires, Argentina - 1983)




Kevin

Saio de mobilete para comprar pão
são como dez da manhã
assim que penso um pouco em deus
assim que penso um pouco em Kevin
paro na praça e aperto a mão dos garotos
bebo mate perguntam o que rola
estou pensando em Kevin
digo
ah não vou comprar pão me confundi
haha pau qualquer coisa
Kevin me sorri
Kevin te sorrio
ligo a mobilete são como dez e trinta
compro pão e volto para o bairro vejo Kevin
junto de um alambrado
então rua de pinheiros passo por uma vaca
me saúda a saúdo dez e quarenta o sol é meu amigo
pau pneu furado que sorte
olho para trás Kevin vem a cavalo
me saúda o saúdo ele desce falo com o cavalo
Kevin diz está furado você tem pão?
daí dou-lhe pão
nos sentamos à sombra
a sombra também é minha amiga
vem uma galinha me cumprimenta a cumprimento
daí lhe dou pão pau tira um fino do bolso
digo-lhe galinha você é legal me diz obrigada pão dos bons
Kevin me sorri
Kevin te sorrio
dez e cinquenta e cinco se faz o fogo
passa a vaca vem o cavalo
passam os garotos não ficam
dez da manhã de novo
generoso o tempo corre para trás
o tempo também é meu amigo
cresce o mato movem-se as nuvens
Kevin é meu amigo
digo-lhe gosto do seu cabelo
ele diz gosto dos seus olhos
tiro sua camisa vai-se a vaca vai-se o cavalo
dez e trinta vai-se a galinha legal
tira minha camisa desamarra meu sapato
cresce o mato movem-se as nuvens
Kevin me sorri
Kevin te sorrio
tira seus sapato me diz vou trocá-los
quanto você calça pau como pão ponho o sapato de meu amigo
gosto de sua jaqueta gosto de seu cavalo
dez e quinze o sol é meu amigo
cresce o mato movem-se as nuvens
nasce um deus chove no vilarejo
vejo Kevin encostado num alambrado
falo com deus diz-me siga assim siga assado
deus é meu amigo este bairro é meu namorado
uma estrada de terra me abraça esta manhã
volto empurrando a moto Kevin me sorri
somos amigos gosto de seu cabelo
vira duas esquinas antes
viro duas esquinas depois
obrigado pelo sapato me diz
obrigado por seu cabelo lhe digo

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Kevin

Voy en motito a comprar pan
son como las diez de la mañá
tal que pienso un poco en dios
tal que pienso un poco en Kevin
paro en la plaza y saludo de manos con los chicos
tomo mate me preguntan qué hacés
pienso en Kevin
digo
ah no compro pan me confundí
ja pum cualquiera
Kevin me sonríe
Kevin te sonrío
enciendo la moto son como las diez treinta
compro pan y en regreso al barrio veo a Kevin junto a un alambrado
luego camino de pinos se me cruza una vaca
me saluda la saludo diez cuarenta el sol es mi amigo
pum pincho goma qué fortuna
miro para atrás viene Kevin a caballo
me saluda lo saludo se baja hablo con el caballo
Kevin dice está pinchada ¿tenés pan?
tuc le doy pan
nos sentamos a la sombra
la sombra también es mi amiga
viene una gallina me saluda la saludo
tuc le doy pan pum saca un finito del bolsillo
le digo gallina sos copada me dice gracias buen pan
Kevin me sonríe
Kevin te sonrío
diez cincuenta y cinco se arma fogata
pasa la vaca viene el caballo
pasan los chicos no se quedan
diez de la mañá de nuevo
buenísimo el tiempo corre para atrás
el tiempo también es mi amigo
crece el pasto se mueven las nubes
Kevin es mi amigo
le digo me gusta tu pelo
me dice me gustan tus ojos
le saco la remera se va la vaca se va el caballo
diez treinta se va la gallina copada
me saca la remera me desata las zapatillas
crece el pasto se mueven las nubes
Kevin me sonríe
Kevin te sonrío
se saca las zapatillas me dice te las cambio
cuánto calzás pum como pan me pongo las zapas de mi amigo
me gusta tu campera me gusta tu caballo
diez y cuarto el sol es mi amigo
crece el pasto se mueven las nubes
nace un dios llueve en el pueblo
veo a Kevin contra un alambrado
hablo con dios me dice seguí así seguí asá
dios es mi amigo este barrio es mi novio
un camino de tierra me abraza esta mañana
vuelvo arrastrando la moto Kevin se me ríe
somos amigos me gusta su pelo
dobla dos cuadras antes
doblo dos cuadras después
gracias por las zapas me dice
gracias por tu pelo le digo.

§

Barbara Köhler (Burgstädt, Alemanha - 1959)




Onze e meio

Raramente uma coisa parece atrair-nos tanto, ser tão forte ou
mais forte do que o chão por baixo dos nossos pés. Raramente
uma coisa nos desprende da força da gravidade, nos desliga da
dependência de superfícies, das quais nos destacamos sobre duas
pernas, sobre as quais, a cada passo, ficamos de pé e andamos.
Raramente. Erguemo-nos para dentro do espaço, dos espaços, mas
insistimos sempre nas causas. Falamos sobre isto, estamos sen-
tados, deitados, andamos sobre as mãos e de ponta-cabeça, rejei-
tamo-nos, saltamos, caímos em direção ao grão da terra, somos
casos-limite do espaço. Pelo menos sabemos nadar. Mas temos medo
de perder o chão por baixo dos pés; sentimos medo, por assim dizer
– como se também houvesse uma razão para isto e aquilo.

Pássaros e peixes, que se movimentam no espaço sem respeitar su-
perfícies, têm em vista a diferença, eles veem como nós ouvimos:
para os lados, sem área de sobreposição, sem zona de interferên-
cia das imagens, sem um “à frente”, sem foco: vastidão. Quando
muito somos capazes de olhar para longe, o que (de certa forma)
é o mesmo que ir até lá, mas mesmo assim é demasiado curto.
Percebemos a distância como um fenômeno acústico; talvez os
pássaros e os peixes compreendam o espaço assim como nós a
música... e talvez façamos música porque procuramos o distante;
algo que fosse tão forte ou mais forte do que o chão por baixo
dos nossos pés, mais forte do que a gravidade. Algo com peso
igual ao nosso. Talvez seja essa a arte, a felicidade: um talvez.

(Tradução de Ricardo Aleixo)

:

Elf 1/2

Selten erscheint etwas so anziehend, so stark wie oder sogar
stärker als der boden unter unsren füßen; selten enthebt uns
etwas der schwerkraft, löst uns aus der abhängigkeit von flä
chen, von denen wir abstehen auf zwei beinen, auf denen wir,
schritt und tritt, stehen und gehn. Selten. Wir ragen hinein
in den raum, die räume, bestehen aber immer auf gründen. Wir
reden davon, wir sitzen, wir liegen, wir gehn auf händen und
stehn auf dem kopf, wir stoßen uns ab, wir springen, wir fal
len dem erdkern zu, sind grenzfälle des raumes. Immerhin kön
nen wir schwimmen. Doch fürchten wir den boden unter den füs
sen zu verlieren; wir fürchten, so sagen wir, uns – als gäbe
es da und dafür auch einen grund.

Vögel und fische, die sich unabhängig von flächen im raum be
wegen können, haben die differenz im blick, sie sehn wie wir
hören: nach 2 seiten, ohne überlagerungsbereich, interferenz
zone der bilder, ohne ein „vorn“, ohne fokus: weite. Wir kön
nen höchstens weit sehen, was (in bestimmter hinsicht) einem
gehen gleichkommt, aber dennoch zu kurz. Weite sehn wir eher
als akustisches phänomen; vielleicht nehmen vögel und fische
raum ja wahr wie wir musik… Und vielleicht machen wir musik,
weil wir das weite suchen; etwas, das so stark wäre wie oder
stärker als der boden unter unsren füßen, stärker als schwer
kraft. Etwas das uns aufwiegt. Vielleicht ist das die kunst,
ist das glück: ein vielleichtes.


§

Aníbal Cristobo (Buenos Aires, Argentina - 1971)



Céu do siamês

Oculto entre os cobertores, falo
com o siamês; “siamês, vamos para o Novo
México, quero ver a ruína
da ferrugem ao sol, e o
deserto de dias, um
cacto”. Cada um de nós

leva o roçar de suas pedras
na mão, compara
o método de seu rosto na ilha do medo. Eu

sou assim, e também
posso ser como você, fracassar
ao morder uma
pêra, ou um biscoitinho
qualquer. Siamês, me leva para longe, diz em

meu ouvido a tua posição
neste céu branco
do navio; e do falar, diz
cada repetição de
tuas palavras, aonde te
conduzem.-

(tradução de Marília Garcia)

:

Cielo del siamés  

Escondido en las mantas, hablo
con el siamés; “siamés, vamos a Nuevo
México, quiero ver cómo se arruina
el óxido en el sol, y el
desierto de días, un / cactus”. Cada uno de nosotros

lleva el rozar de sus piedras
en la mano, compara
el método de sus mejillas en la isla del miedo. Yo
soy así, y también
puedo ser como vos, fracasar
al morder una

pera, o cualquier
galletita. Siamés, llevame lejos, contame
en el oído cuál es tu posición
en este cielo blanco
del navío; y del hablar, decime
cada repetición de
tus palabras, adónde te
conducen.-

.
.
.

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