terça-feira, 24 de junho de 2008

o tal de voco do verbo visual

Falar sobre a tal separação entre poesia e música, oralidade e escrita, que teria ocorrido gradual e irreversivelmente após o desaparecimento das estruturas sociais da cultura do amor cortês, manifestando-se nas cortes occitanas (provençais e catalãs) dos séculos XI ao XIII (tempo em que a poesia ainda era uma manifestação comunitária), é moeda corrente e aceita no mercado literário, ainda que uma reflexão sobre suas "causeqüências" possa levar-nos a uma tateante conclusão-tentativa em forma de ensaio, de que tal assertiva não faz muito sentido, especialmente no Brasil, onde a poesia oral resistiu e frutificou-se mesmo em meio a uma cultura oficial que privilegiava tão-somente a manifestação poética que almejava à Literatura, este fenômeno recente na História dos humanos, que se impôs com força entre os séculos XVI e XVIII, gerando o que nós hoje chamamos de Poesia/Literatura na virada do século XVIII/XIX, ainda que se fale a respeito dela como se fosse a noção que Homero e Safo tinham da poesia.

Assim, ainda que nosso primeiro grande poeta, o senhor Gregório de Matos, ainda pudera experimentar esta união, instaurou-se com força entre nós a noção literária neo-clássica do século XVIII em diante, que tentou separar escrita e oralidade, poesia e música, em parâmetros deturpados que aqueles humanos do tal de "Renascenso" de séculos atrás acreditavam serem "valores clássicos", sem, no entanto, o embasamento e conhecimento históricos, etnográficos e lingüísticos que nós hoje temos do contexto sócio-cultural da Antigüidade. Ainda hoje, estes "parâmetros clássicos" são guiados por racismo e colonialismo ao discutirem a relação entre escrita e oralidade, sem entenderem as constriçoes específicas de cada uma como manifestação poética, privilegiando a escrita (e, assim, a Literatura), e impedindo-nos de conhecer em sua pluralidade tanto a nossa poesia como a de outras culturas e épocas.

É com alegria que podemos observar a maneira como alguns poetas brasileiros estão passando a aproveitar-se da era digital para retornarem a um trabalho pluralista com a poesia, experimentando com vídeo e poesia sonora, gravando leituras e performances, colaborando com músicos profissionais. Nada há de "vanguardismo" neste fenômeno, mas do testemunhar do nascimento de suportes tecnológicos que permitem ao poeta RETORNAR a características dormentes do fazer poético. Num país que nunca deixou de contar com excelentes trovadores e poetas-compositores (Noel Rosa, Cartola, Tom Jobim, Itamar Assumpção, Walter Franco, etc), é muito saudável que poetas-escritores também experimentem com a possibilidade de ver a poesia como algo mais que uma franquia da Literatura.

Insisto: poesia não é uma parte da literatura, mas é a literatura que é apenas uma parte da poesia. Quem achar que isso é picuinha, sugiro que medite por pelo menos alguns segundos sobre as implicaçoes desta idéia.

No pós-guerra, quando uma série de poetas internacionais retomaram as pesquisas sonoras, fonéticas, orais do início do século XX (ligando-o em arco aos muitos séculos e áreas da História e Geografia da Poesia), tivemos no Brasil as experiências de Augusto de Campos:


(Augusto de Campos: "Cidade City Cité")

Após o surgimento dos movimentos brasileiros de retomada das vanguardas, houve as intervençoes do poeta brasileiro Philadelpho Menezes (1960 - 2000), que se entregara a um trabalho de divulgação do conceito de polipoesia, iniciado por Enzo Minarelli, e que teve um papel muito importante na abertura de picadas na mata-literária brasileira, recebendo sobre si muitos dos ataques inevitáveis do início de todo processo que, para apagar fronteiras, muitas vezes tem que cavar trincheiras:


(Philadelpho Menezes, "Poema Não Música")


Durante a década de 90, o nome mais associado a esta pluralidade poética foi o de Arnaldo Antunes, que possui hoje um dos mais consistentes conjuntos de obra em obras da poesia brasileira contemporânea. Seu trabalho visual e sonoro é (junto, talvez, com o de André Vallias e Lenora de Barros, mais eminentemente visual/digital, e o de Ricardo Aleixo) a maior referência internacional da poesia experimental brasileira, em parte por seu papel e projeção como "músico":


(Arnaldo Antunes, "O Mar")


Ricardo Aleixo é o poeta que mais tem se dedicado a este processo pluralizante da poesia no país. Enquanto Arnaldo Antunes se fez "praticante" desta pluralidade, publicando livros e preparando vídeos e peças sonoras, Aleixo parece assumir uma responsabilidade até mesmo educacional-interventora no quadro, e a polipoesia/pluripoesia/poesia-sonora passou a contar hoje com o trabalho impecável de divulgação, experimentação e difusão do poeta belorizontino:

Real irreal from ricardo aleixo on Vimeo.


(Ricardo Aleixo, "Real irreal")

Entre os mais jovens, esta pluralidade e pesquisa sonora tem aportado de várias maneiras. Assim como o trabalho sonoro transita por um par de "Ricardos" (Ricardo Chacal e Ricardo Aleixo, após os quais me incluo com humildade), há hoje o trabalho sonoro e visual, respectivamente, de dois "Marcelos": Marcelo Sahea e Marcelo Noah, além do trabalho em vídeo, congregando o visual e o sonoro, de Henrique Dídimo.

O trânsito entre oralidade e escrita conta ainda com aqueles que nos últimos tempos passaram a participar cada vez mais ativamente de leituras públicas de seus trabalhos escritos, assim como passaram a colaborar com músicos para a oralização de seus poemas. O caso mais recente foi o da poeta carioca Marília Garcia, que colaborou com o compostior Rodolfo Caesar para a oralização/sonorização de seu texto "Aquário". Levando o conceito de "walkman/flaneur/viajante" de seu livro "20 poemas para o seu walkman" a outras implicaçoes, Marília Garcia e Rodolfo Caesar caminharam pelas ruas do Rio de Janeiro, enquanto a poeta oralizava seu texto e o compositor captava os sons do ambiente-rua carioca: ônibus, carros, pessoas, mais tarde retrabalhando estas sonoridades:

Aquario - Marilia Garcia & Rodolfo Caesar
(Marília Garcia e Rodolfo Caesar, "Aquário")

Esta não é uma tentativa de estabelecer nomes para um possível cânone da poesia sonora brasileira. É feito no espírito de abertura e pluralização, à espera e esperança de conhecer mais e mais poetas plurais no Brasil. Há, certamente, outros poetas trabalhando nestas águas. Esta postagem nao se quer "exaustiva", completa, "totalitária". É permeada por exemplos consistentes, incitando à pesquisa das outras vozes espalhadas entre o Oiapoque e o Chuí. O/A poeta brasileiro/a precisa encontrar sua voz, mas não no sentido que se dá à expressão, de encontrar seu "estilo de escrita", ou seja, sua maneira própria de obliterar a própria voz. Há que se encontrar a VOZ, aquela que soa.

Estes não são os únicos nem últimos, e esta frase é mais que apenas um desejo ou uma profecia.

4 comentários:

noah disse...

fantastic!

e que raridade essa leitura do augusto, ein! credoooo

o philadelpho é herói, os trabalhos acadêmicos dele são de uma claridade meridiana; e nunca jamais poderei deixar de lembrar a tremenda impressão que ele me causou quando num programa de tv ele leu o "necrológio dos desiludidos do amor" comendo papas fritas. hahahaha salve phila!!!

grande posto, viejo!

Ricardo Domeneck disse...

Grande Noah,

sim, a leitura do Augusto de Campos é excelente, e ando à procura de material do Philadelpho Menezes. Encontrei vídeos em VHS, ainda há muito por digitalizar. Quando eu for ao Brasil, quero procurar sua família, precisamos divulgar o trabalho do cara, ele realmente abriu picadas.

gláucia machado disse...

alegria grande ao encontrar seu texto tão amplo e, ao mesmo tempo, preciso.
muito ainda a fazer, ainda bem.
brisa nordestina o alcance, domeneck!

marcelo disse...

Salve, D!
Ótimo texto.
Um abraço nas vísceras.

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