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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"A arte do insulto", mesclado ao "Aviso aos machos-alfa que frequentam este espaço"


Queridos machos-alfa que frequentais este espaço,

em verdade em verdade vos digo, se o que quereis é ter minha atenção com limiar deficitário e debater comigozinho esta nobre prática chamada de (com direito a sighs e ais) la poésie, aconselha-se que eviteis começar a conversa chamando-me de bucha laica, vAdIO ou outras machices testosteronizadas brasileirosas. Tampouco será produtivo se, logo após o evocativo vocativo, vós fizerdes referências clichéticas ou hackneyed redneck jokes sobre o uso que faço, protegido por alguns Tratados, de minhas mucosas. Ora, as mucosas são minhas e faço delas o que bem me dá na telha ou bem me come nas Tulherias.

Tal prática tediosa de vossa senhoria terá como efeito tão-somente que eu passe doravante a regiamente ignorar-vos, como uma verdadeira e suprema Queen Bitch, a não ser que adicioneis aos formulários de vossos insultos também vossas fotografias, e que, dependendo de vossa beleza provar uma possível utilidade vossa para o entretenimento de minhas glândulas, eu possa porventura aventurosamente imaginar outros usos para vossa existência em minha vida. Pois, como escreveu Rocirda Demencock, minha amiga, secretária, personal trainer e médium:

Gônada gônada vasta gônada,
se dissessem que "Ricardo é tola",
seria uma silepse, não seria uma ilusão.
Gônada gônada vasta gônada,

mais vasto é o meu tesão.


Rocirda Demencock, in O Júbilo da Jugular nas Mucosas Jocosas (no prelo, sempre no prelo).

É uma tragédia, porém, que vossa gigantesca maioria seja tão unattractive. Mas o insulto, queridíssimos machos-alfa sem os quais minha vida glandular e epitelial seria talvez mais entediante, é uma arte. Sugiro que pratiqueis, à frente do espelho, alguns witty chistes.

Há lições, no entanto.

§ - Vós podeis, como eu, assistir ao filme All About Eve 147 vezes, memorizando todas as falas de Margo Channing e Addison DeWitt. Mas é necessário então ser capaz de citá-las em situações variadas, encontrar o momento de encaixá-las, transformando-as e misturando-as, até que aprendais a fazer vossas próprias.




§ - Vós podeis ainda assistir 289 vezes ao filme Who´s Afraid of Virginia Woolf, memorizando as falas de Martha E George, aplicando-lhes então a mesma variação permutacional recomendada às falas de Channing e DeWitt.



§ - Vós podeis tornar-vos leitores assíduos de Fran Lebowitz.



§ - Ou vós podeis (e isso é muito difícil e requer baixar o nível de testosterona ou vós partireis para a pancadaria antes que a wit pouse em vosso crânio) tornar-vos mestres do reading e shade, expressões das bibas nova-iorquinas da década de 80, como pode ser aprendido no documentário Paris Is Burning (1990), do qual extraio um fragmento no qual a lendária Dorian Corey explica as práticas:




Perdoai-me se exagero em minha irritabilidade a beirar a de um ativista, mas o problema é que vos considero responsáveis por cada guerra ou ato de violência acontecendo neste exato momento no globo e na Globo. A culpa talvez não seja vossa, mas de vossas glândulas a expelir enlouquecidas uma hipérbole de testosterona por vossos poros porcos.

Os mais inteligentes saberão, é necessária a asserção, que "macho-alfa" NÃO é sinônimo de "homem branco heterossexual", ainda que este quadradinho do censo talvez constitua grande parte do sem-senso Clube do Bolinha-Alfa. Há machos-alfa de todas as raças, religiões, etnias, ideologias e, ora, mesmo de todos os gêneros e sexualidades, há até mulheres e bambis que são machos-alfa.

E é aqui, em meio a este artigo, que sinto um alvoroço em minha cachola, e me pergunto: será novamente o Incrível Embate entre Super Ego e seu arquiinimigo Ego?

É então que uma voz ressoa no quarto e declama com voz de poetastro:

___ Domeneck e Demencock, aqui quem fala é a sua Consciência!

___ Hã, nunca fomos apresentados, você tem cartas de recomendação?

___ Sim, de professores que o expulsaram de suas aulas, Sr. Pasolini e sra. Arendt, por exemplo, que me enviam com um recado e alerta.

___ Ôpa, o que tio Pier e tia Hannah têm a me dizer?

___ Oh, Domeneck e Demencock: que mesmo vocês por vezes se comportam como machos-alfa!


O quê?! Até eu, Brutas?!

Ah, terrível contradição nossa, cheios de traves nos olhos e querendo tirar dos olhos de nossos irmãos o cisco!

No entanto, devo aqui dizer, quanto a prováveis respostas contestosas a este textículo, alerto-vos que, a não ser que estejam à altura abismática de minha bitchice, comentário nenhum será selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar, se quiser voaaar!

Será macho-alfa de minha parte?

Parto agora, para poder rir sozinho, sozinho, tão sozinho e com um gosto amargo na boca, entre minhas quatro paredes brancas.

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sábado, 14 de março de 2009

Bendita sois vós entre as

Em Dubai, conversando com a poeta suíça Ilma Rakusa, ela me pergunta se eu tinha alguma notícia mais detalhada sobre o estupro da menina brasileira de 9 anos por seu padastro, sua gravidez de gêmeos, o aborto, a excomunhão do médico e da mãe da menina, a revolta contra a igreja católica. Era a primeira vez que ouvia a história, enredado como estava nas duas últimas semanas em viagens.

De volta ao Berlimbo, leio, entre outras coisas, as postagens recentes da poeta Angélica Freitas em seu blog, penso em como nos iludimos quando pensamos que o horror muda com o tempo, que a ignorância de instituições se ilumina com a experiência.

Leio e releio, também de Angélica Freitas, o poema "um útero é do tamanho de um punho", penso na revolta possível, até quando, e como?

Macho-alfa, você se esquece que "Women and elephants never forget", como escreveu Dorothy Parker em seu poema "Ballade of unfortunate mammals", mulheres entregues ao labor de bojo, vasilhame, cuia?

Vi este mês dois filmes que mostram como segue morrendo pelo útero a mulher.

O primeiro chama-se Izgnanie (The Banishment), baseado em um texto de William Saroyan, do jovem cineasta russo Andrei Zvyagintsev, nascido em 1964, um dos melhores filmes que vi nos últimos anos:



O segundo é o filme Kadosh (1999), de Amos Gitai, mostrando o destino das mulheres em comunidades judaicas ortodoxas:



§

É claro que em Who´s
Afraid of Virginia Woolf?
Richard Burton, não,
George, recorre ao
útero vazio
de Elizabeth Taylor,
não,
Martha, para a
ofensa última.


§

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