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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Três poemas de Fabiano Calixto, no dia de seu aniversário

Fabiano Calixto


Eu encontrei meu companheiro coeditor da revista Modo de Usar & Co. uma única vez: na noite de 8 de fevereiro de 2006, quando organizei na Casa das Rosas uma leitura para receber os poetas argentinos Cristian De Nápoli e Lucía Bianco. Na época, o hábito de leituras públicas de poetas em São Paulo ainda não havia tomado muita força, o que começaria a acontecer, eu diria, justamente pelo contato com os companheiros latino-americanos da Argentina e Chile, onde sempre houve uma tradição mais forte neste aspecto. Naquela leitura, leram ainda os poetas Heitor Ferraz, Tarso de Melo, Marília Garcia e Angélica Freitas. Creio que fora a segunda ou talvez terceira vez que encontrei Marília Garcia, e a primeira vez que conversei de fato com Angélica Freitas. Foi, ainda, a única vez em que os quatro editores da Modo de Usar & Co. estiveram sob o mesmo teto.

Eu já conhecia o trabalho de Calixto, a partir de alguns de seus poemas publicados na revista Inimigo Rumor, que fariam parte mais tarde, creio, dos livros Algum (1998) e Fábrica (2000). Trabalhando na linhagem do minimalismo que marcou algo poesia na virada do século, guiado pela presença luminar das poéticas de João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) e Robert Creeley (1926 - 2005), eu sempre apreciei a forma com que Calixto, assim como em muitos poemas o saudoso Leonardo Martinelli (1973 - 2008), não fazia deste minimalismo qualquer instância de antilirismo de cartilha. Era como uma lírica pontiaguda, nos seus melhores momentos.

Naquele mesmo ano da leitura, Calixto lançaria o livro Música possível (São Paulo: Cosac Naify, 2006), em que ficaria claro que seu espírito é mesmo de poeta lírico. No ano seguinte, veio Sangüínea (São Paulo: Editora 34, 2007). Hoje, seu aniversário, envio meu abraço desde Berlim ao companheiro lá em São Paulo, e meu respeito, acima de todas as nossas inúmeras discordâncias e em meio aos nossos vários caminhos comuns, convidando os leitores deste espaço a lerem comigo três dos meus poemas favoritos do companheiro.


Três poemas de Fabiano Calixto


Em torno de

um disco repetindo-se
uniforme
a dor presente
um salmo
esquecido na página
consumada de um baseado

e continua
redemoinho melódico
não de poeira
vento
com agulha riscando o escuro
da luz apagada
dos sulcos mínimos

um molusco carregando a parede
como um código

uma mosca decorando
a paz do prato sujo

continua a agonia
do futuro

rezando em mim
como um relógio

Fabiano Calixto, Música Possível (São Paulo: Cosac Naify, 2006)


§


Quanto,

entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
piorando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contragosto,
frio,
no fundo do poço,
catarata cobrindo
o corpo
todo,
contas sem pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre de rato,
tifóide,
deixando de lado
o amor,
sopro
cosmo
humano,
disenteria
erros calculados,
a poesia?


Fabiano Calixto, Música Possível (São Paulo: Cosac Naify, 2006)


§


Obituário literário com figuras de gatos e ratos

os ratos roeram a vida dos poetas
– livres do peso das letras, os estetas

em outras esferas escreverão, pois,
no cavo, vácuo profundo, sem voz, à foice

(esta persiana a zerar o ar dos distraídos),
não mais poemas, já que lidos os labirintos,

nada mais resta, nada, nem a quem se
amar ou refutar, não esfria, nem aquece,

a luta com palavras já não faz parte de
paixões ou razões puras, nenhum alarde,

nada de metáforas, nenhuma metonímia
– a menina de lá não dá mesmo a mínima.

os ratos, rudes e arrogantes orates,
gorjeiam na goela os corpos dos vates

e, ainda assim, nas estantes, talhados,
ficam os poemas – como nos telhados

gatos de gostos e colmilhos afiados, à leitura
nasal do rastro dos ratos, vigiam venturas.

de um pulo a outro salto, uma gangue
de gatos retalha a noite com sangue

de restos de ratos que das tripas, as tropas
de versos, vazam as mais soberbas sopas.


Fabiano Calixto, Sangüínea (São Paulo: Editora 34, 2007)


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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Almanaque Lobisomem

Após alguns meses crescendo e ficando bem dentuço, escapou às ruas digitais da língua que compartilhamos, nesta última sexta-feira 13, O Almanaque Lobisomem, editado por Fabiano Calixto, Renan Nuernberger e Flávio Rodrigo Penteado.

A pedido dos editores, cedi alguns pedaços de minha anatomia para alimentar o filhote lupino que crescia, e é com prazer que vejo agora correndo em seu bojo estes pedaçoilos de mim. Em primeiro lugar, dois poemas inéditos, intitulados "Brinde" e "Texto em que o poeta percebe a impossibilidade de obedecer à segunda pessoa do singular do imperativo do verbo relaxar". Os editores também acharam por bem republicar meu poema satírico "Poetry Police".

Minha última contribuição e também a que me deixa mais feliz é o pequeno ensaio "Pensando em Leonardo Martinelli", que escrevi para acompanhar a pequena antologia dos poemas do nosso saudoso companheiro, organizada por Fabiano Calixto e por este que vos escreve.

Abaixo, os leitores de Rocirda Demencock podem ler a apresentação dos editores d´O Almanaque Lobisomem, assim como podem clicar no link que os levará a poder baixar a revista de mais de 300 páginas, incluindo textos de:


ADBUSTERS + ALBERTO MARTINS + ALFRED DÖBLIN + ANDRÉ FERNANDES + ANDRÉA CATRÓPA + ANNE SEXTON + ARNALDO ANTUNES + AVELINO DE ARAUJO + BANKSY + CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE + CARLOS MARIGHELLA + CHRISTIAN MORGENSTERN + CORINGA + DIEGO DE SOUSA + DIEGO VINHAS + DINIZ GONÇALVES JÚNIOR + DIRCEU VILLA + EDUARDO GALEANO + E.E. CUMMINGS + ÉRICA ZÍNGANO + FABIANO CALIXTO + FABIO CAMARNEIRO + FABRÍCIO CORSALETTI + FABRÍCIO MARQUES + FERNANDA SERRA AZUL + FLÁVIO RODRIGO PENTEADO + FLORA ASSUMPÇÃO + GABRIEL PEDROSA + HEINRICH BÖLL + HELIO NERI + HERIBERTO YÉPEZ + HERSCHEL PINKUS YERUCHAM KRUSTOFSKI + JEAN STAROBINSKI + JOHN ASHBERY + JOHN ZERZAN + JIM MORRISON + JULIANA AMATO + JULIANA MARKS + JÚLIO BARROSO + KAREN REVISITED + LAURA WITTNER + LAURIE ANDERSON + LEANDRO RODRIGUES + LEDUSHA + LEONARDO MARTINELLI + LETÍCIA COSTA + LILIAN AQUINO + MARCELLO VITORINO + MARCELO FERREIRA DE OLIVEIRA + MARCELO MONTENEGRO + MARCELO SAHEA + MÁRCIO-ANDRÉ + MARIANO MAROVATTO + MARÍLIA GARCIA + MÁRIO BORTOLOTTO + MARIO SAGAYAMA + MARCO BUTI + NICK DRAKE + NICOLAS BEHR + NÍCOLLAS RANIERI + PABLO ORTELLADO + PAULO RODRIGUES + PAULO STOCKER + PATRÍCIA AUGUSTA CORRÊA + PEDRO GALÉ + PRISCILA MANHÃES + QORPO-SANTO + RENAN NUERNBERGER + R. PONTS + RICARDO DOMENECK + RICARDO SILVEIRA + ROBERTO BOLAÑO + RODRIGO LOBO DAMASCENO + ROGÉRIO SGANZERLA + SAPATEIRO SILVA + SÉRGIO RAIMONDI + SYLVIA BEIRUTE + THAIS MONTEIRO + THE BEATLES + TIAGO PINHEIRO + TOM VIOLENCE + TOM WAITS + WILLIAM SHAKESPEARE + ZHÔ BERTHOLINI


Editorial d´O Almanaque Lobisomem:


Respeitável público,

o Excelso Pretório, doravante denominado Conselho da Licantropia, sempre chama a si a colmatagem e superação das lacunas, omissões e imperfeições da norma fundamental, isto é: no último conclave do referido Conselho, realizado a bordo da Nau Abelardo Barbosa, o Ilustríssimo Senhor Presidente da presente instituição, o Coringa, abroquelou que, com espia no referido precedente, plenamente afincado, de modo consuetudinário, por entendimento turmário iterativo e remansoso, e com amplo supedâneo na Carta Política assinada pelos demais componentes de tão idôneo Conselho, a saber: Macunaíma, Chacrinha, Woody Woodpecker, Goober, O Coringa, François Villon, Ed Wood, Adam Worth, Didi Mocó Sonrisal Nevalgino Mufungo, Lemmy Kilmister, Hélio Oiticica, Hans Arp, Allen Ginsberg, Fantomas, Nhá Barbina, Bento Carneiro, Ludwig van Beethoven, Mefistófeles, entre outros, os quais não preceituam garantia ao cotencioso nem absoluta nem ilimitada, padecendo ao revés dos temperamentos constritores limados pela dicção do legislador infraconstitucional, resulta de meridiana clareza que O ALMANAQUE LOBISOMEM finalmente estará à disposição para download no link


BAIXE AAQQUUII O ALMANAQUE LOBISOMEM

à meia-noite, ao raiar da Lua Cheia desta exordial sexta-feira 13 de agosto de 2010.

Sem mais,

Os Editores

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