Poetas deveriam ter maior responsabilidade com sua linguagem, pois se devemos talvez perdoar a um manifestante adolescente, com sua mentalidade política obviamente adolescente, o erro infantil de crer que a queima de bandeiras israelenses pode ajudar o cessar-fogo de ambos os lados do conflito, de poetas oficialmente adultos deveríamos esperar maior sabedoria política. Infelizmente, não é o caso, como podemos ler em certos textos irresponsáveis recentes de poetas e jornalistas paulistanos e cariocas, textos ditados por uma mentalidade política que me parece digna de uma certa personagem conhecida como Chapolim Colorado.
Não se pode fazer política de validade retroativa. O Estado de Israel é uma realidade há mais de 60 anos. Qualquer tentativa de reverter esta decisão hoje (tenha ou não sido errada, preconceituosa e catastrófica) levaria a um derramamento de sangue que faria os conflitos do século XX parecerem brigas entre vizinhos. O Estado de Israel precisa compreender que sua criação, tal como foi feita, só será verdadeiramente legítima quando o Estado Palestino também existir.
Apoiar a matança de palestinos ou a matança de israelenses deve ser condenada. Quem tem direito a um pedaço de terra? Como julgar? Por questoes de sangue e genética, como faziam os fascistas alemães e italianos, em países onde ainda há certas leis de sangue?
Quando dois povos reunidos em torno de um cerne identitário lingüístico e religioso fincam estacas em um pedaço de terra, como decidir a quem esta terra pertence? Quem se sente no direito de realmente tomar esta decisão? Usaremos a lei de usucapião para decidir? Tanto judeus como muçulmanos estão culturalmente ligados àquela terra e tentativas de vernichtung/extermínio de um contra o outro precisam ser evitadas, combatidas, condenadas e este é o único lado que podemos tomar nesta situação. Não é uma atitude política adulta simplesmente reverter de forma dualista os papéis de cada lado do conflito. Há terrorismo sendo cometido dos dois lados. Equacionar o povo palestino com o Hamas ou o povo israelense com o Governo de Israel são atos simplistas e inconsequentes.
Quando dois povos sentem-se abandonados (lembrem-se que os judeus israelenses, assim como os muçulmanos palestinos, não têm muitas razoes para confiarem na comunidade internacional, que nunca os socorreu em seus momentos de maior desespero), vítimas do silêncio mundial em mais de uma ocasião, não podemos aceitar que cataclismos e desastres sejam comparados de forma irresponsável para cancelarem a dor do outro, do outro que é oficiado como inimigo. Usar expressoes como "genocídio" na presente situação, aludindo claramente aos crimes nazistas contra os judeus europeus (que foram dizimados), é um ato de leviandade política, moral. A cada crime, seu nome, senhores poetas.
Como alguém pode realmente ousar a criação implícita de uma equação de subtração entre an-Naqba e Shoah?
1928/29, 1948/49, 2008/9 e os números de mortos dos dois lados crescem, crescem. Vamos contar o mortos e decidir quem é o vilão e quem o mocinho a partir desta estatística? Chegamos realmente a este ponto? A comunidade internacional precisa reagir com vigor, deter o Governo de Israel (vale mencionar que uma parte imensa da população israelense tem protestado com veemência contra o bombardeio israelense sobre os palestinos de Gaza) e fazer com que o Acordo de Oslo seja efetivado de verdade. Israel precisa cessar o bombardeio, desocupar Gaza efetivamente, liberando fronteiras de terra e água. Os fanáticos religiosos de ambos os lados precisam ser detidos em seus discursos inflamatórios e assassinos. Pregar o extermínio do inimigo apenas nos legará outro século ou milênio de matanças. Fazer como um adolescente e achar-se no direito de escolher o vilão e o herói desta tragédia real e verdadeira é tomar parte no derramamento de sangue. A única atitude que eu me permito e exijo de mim mesmo é a de um manifestante israelense contra os bombardeios em Gaza, pedindo que cessem os CRIMES DE GUERRA. NO MORE WAR CRIMES.

