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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Companhia das Letras lança volume com a poesia reunida de Paulo Leminski

                                                                    Para comprar em livraria 
                                                                    pequenina 
                                                                    de qualquer esquina, 

                                                                    e depois tomar um rabo 
                                                                    -de-galo 
                                                                    no boteco ao lado.


A editora paulista Companhia das Letras lança este mês um volume que reúne toda a poesia de Paulo Leminski, em edição comercial que recolocará em grande circulação aquele que nunca deixou de circular por nossas cabeças. Para celebrar, reposto aqui um texto que escrevi para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. em julho de 2008, na séria "Sintonia de nossa sincronia".

Paulo Leminski (1944 - 1989)

Modo de Usar & Co., 30 de julho de 2008
na série "Sintonia de nossa sincronia"



Paulo Leminski nasceu em Curitiba, como todos já deveriam saber, e aí mesmo morreu, pouco antes de completar 45 anos. É um dos poetas brasileiros, surgidos após a década de 50, de maior influência  entre os poetas das décadas seguintes. À época de sua morte, já havia conquistado um lugar de destaque e relevo na poesia brasileira do pós-guerra. 

Seus livros mais importantes foram publicados na década de 70, um momento de embate poético dualista, entrincheirado entre noções poéticas que passaram a ser narradas por muito tempo como se numa batalha por hegemonia, tanto por parte de poetas ligados às neovanguardas brasileiras do pós-guerra (baseados em grande parte em São Paulo), como por aqueles que ficaram conhecidos como poetas marginais, que poderíamos chamar de Grupo do Mimeógrafo, baseados no Rio de Janeiro. A insistência nestes rótulos faz cada vez menos sentido, mesmo que alguns poetas ainda dependam deles para manter sua narrativa dualista nos dias de hoje (especialmente em SP). Porém, para os que não estão interessados primordialmente em escolas e grupos, sabendo que uma contextualização crítica e est-É-tica precisa ir além disso, as décadas de 60 e 70 começam a mostrar-se em sua verdadeira complexidade. Como rotular, por exemplo, uma década como a de 60, quando surgiram na poesia brasileira poetas tão diferentes e independentes como Leonardo Fróes, Roberto Piva, Sebastião Nunes, Orides Fontela, Sebastião Uchoa Leite, Oliveira Silveira e Torquato Neto?

Ao final da década de 80 e através da década de 90, tentou-se instituir uma narrativa historiográfica que criava uma rivalidade razoavelmente fictícia na década de 70, numa luta por hegemonia crítica que por muito tempo fez da década o período oficial de um único grupo de poetas, ao qual foi dado o rótulo de "poesia marginal". No entanto, os poetas ativos naquela década e que hoje parecem mostrar a maior vitalidade poética aos olhos dos poetas mais jovens podem apenas com muito esforço, e em um discurso crítico que impede uma compreensão mais ampla de seus trabalhos, ser encaixotados juntos sob qualquer rótulo limitado, que invariavelmente apaga as diferenças que fazem dos poetas seres individuais, ainda que ligados a estéticas coletivas. É ainda hábito em certos setores, por exemplo, referir-se à poesia marginal, no singular, sem qualquer discernimento crítico que compreenda as características particulares de poetas como Ana Cristina César, Chacal, Eudoro Augusto ou Francisco Alvim, tão diferentes uns dos outros.

A obra de um poeta como Paulo Leminski já foi conectada pela crítica tanto aos poetas do pós-concretismo paulista, como aos marginais cariocas. Outros grupos contemporâneos têm reivindicado a candidatura e filiação de Leminski para seus partidos poéticos. Nada disso ajuda-nos a compreender a singularidade de sua poética, que passa por um texto denso e plurilingüista como o Catatau, e ainda por sua poesia conscientemente questionadora das trincheiras entre formalismo e informalidade, em livros como Caprichos e relaxos ou Distraídos venceremos, títulos bastante sugestivos da atitude artística de Leminski, que jamais cedeu a um experimentalismo racionalista estéril e conceitual, e é um dos poetas brasileiros do pós-guerra que melhor compreenderam a lição de Pound - a de que “only emotion endures”. 

Se o agrupamento de poetas ajuda sua recepção crítica imediata, a longo prazo tal postura apenas nubla a compreensão crítica de suas obras, lançando às sombras muitas vezes os melhores poetas da manada. Já se passaram mais de 30 anos desde as estreias de alguns destes poetas da década de 70.

Porém, se apenas nos últimos anos começamos a saber separar e discernir entre nossa compreensão da obra de Haroldo de Campos e a de Augusto de Campos, e estas da obra de Décio Pignatari (enquanto as de Ronaldo Azeredo, Pedro Xisto e Edgard Braga, por exemplo, permanecem infelizmente como apêndices de núcleos), talvez precisemos esperar ainda 20 anos mais para vermos as obras de Paulo Leminski, Ana Cristina César, Francisco Alvim ou Afonso Henriques Neto compreendidas em suas particularidades.


Este discurso por rótulos e trincheiras precisa ser suprimido, pois só assim poderemos compreender e fazer justiça a uma década em que surgiram poetas tão importantes e diversos entre si, como Paulo Leminski, Wally Salomão, Duda Machado, Afonso Henriques Neto, Elisabeth Veiga, Ronaldo Brito, Eudoro Augusto, Ana Cristina César ou Júlio Castañon Guimarães, entre outros. Tal lista tampouco se quer como proposta canônica.

O que nos interessa em Paulo Leminski, o que nos parece útil como jovens poetas, é justamente sua capacidade inigualável de manter uma alta qualidade composicional, sem perder de vista o leitor com quem estabelece a sua poesia, em poemas que caminham na corda bamba e deliciosa como fronteira que ainda se faz sentir entre escrita e oralidade, com Leminski equilibrando-se entre o experimentalismo e o lirismo que remonta à tradição trovadoresca. Também por um motivo importante: Paulo Leminski fazia tudo com fúria e humor.

Não queremos saquear sua aura de autoridade, nem incluí-lo em antologias em que surgiríamos como seus herdeiros, legitimados por sua presença. Temos apenas a grande certeza de que Paulo Leminski é um dos poetas mais úteis e necessários da atualidade.

--- Ricardo Domeneck

§

TEXTOS E VÍDEOS DE PAULO LEMINSKI



(Documentário "Polaco Loco Paca". Direção: João Knijinik. 10'50")


§

Primeiras páginas do Catatau

ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.

§



§

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

§

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

§

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

§

Círculo

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

§

enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

§

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

§

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormendo

§

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

§

Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

.
.
.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Tendo acabado de deixar Curitiba, dois poetas ligados à cidade





[um dia]
Paulo Leminski

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

§

Plegária
Jussara Salazar

Verde, âmbar as
pedras,
e as violetas rosadas –
eternas e o humo que
cobria o chão negro
como a noite, e quisera
falar-lhe em seu idioma
antigo
e recordar os lobos
correndo ao redor da
casa e a hera selvagem
cobrindo os vestidos e
os animais, pequenos,
nos bordados coloridos e
ramitos a entreabrir-se
brancos e escuros, cristal
de la luna ao reflexo
como a aparição das
lebres e das ovelhas
correndo os campos sob
as nuvens e a subterra
profunda do horto na
pele do ar em minutos
precisos, envolvendo o
tempo quando vi morrer
o sol, e o vento girando,
soprando mirações da
cor da água, nas rosas e
nos insetos. Quisera falar
seu idioma antigo e
guardar-lhe nas luzitas
do espelho como os
cravos também tão
antigos sobre a toalha
branca, e uma lua de
seda derrama um rosário
de ouro mais os rumores
de um sonho, quisera.


.
.
.

domingo, 13 de junho de 2010

Os jovens poetas mortos

Creio que todo país carrega em sua tradição poética aqueles jovens mortos, os que partiram ou se retiraram cedo, deixando obras inacabadas e lendárias para aqueles que ficaram. Quando se trata dos poetas do século XIX e antes dele, isso é comum, já que todos morriam tão cedo. Pensamos em todos aqueles jovens poetas românticos, afogados, afundando no mar com seus cachos loiros e tudo, derretidos por febres em suas camisas brancas, tossindo sangue sobre penas e tinteiros; John Keats, morto aos 26 anos; Percy Bysshe Shelley, com 29; nosso Álvares de Azevedo, autor do admirável "Ideias íntimas", morto aos singelos 21; sem esquecer o antiquíssimo jovem Caio Valério Catulo, morto aos 30; o enfant terrible / ousider / marginal dos primórdios, antes que os românticos fundassem o mito-obrigação para os poetas pós-1789 --- François Villon, o de "En l'an de mon trentiesme aage", antes de desaparecer dos registros da História aos trinta-e-poucos.

Se entramos na primeira metade do século XX, a lista de jovens poetas mortos nas guerras e revoluções e prisões e expurgos e extermínios e Holocausto cresce como coluna de fumaça neste nosso céu contemporâneo de primavera. Há uma famosa antologia de poesia modernista publicada aqui na Alemanha, editada por Hans Magnus Enzensberger, com páginas de biografia para os poetas incluídos que mais parecem uma genealogia ao inverso, uma espécie de tanatologia incessante de "morto no bombardeio de...", "desaparecido no expurgo do...", "assassinado no campo de extermínio da...", e etc., se um etc for eticamente permitido em uma oração como esta última.

Nomes nos inundam a mente, os que se suicidaram por se recusarem a firmar pactos com os demônios de suas épocas, os que sucumbiram a metralhadoras, fome e enfermidades, de Guillaume Apollinaire a Ossip Mandelshtam, de Augusto dos Anjos a Georg Trakl, de Marina Tsvetáieva a Isaac Rosenberg, de Miklos Radnóti a Velimir Khlébnikov, de August Stramm a Pedro Kilkerry, de Vladimir Maiakóvski a Simone Weil, tantos, tantas, que nossa pobreza se torna inexprimível. Menciono aqui apenas europeus e americanos. Se conhecêssemos mais da poesia africana ou árabe, quantas mortes violentas ou tristes acrescentaríamos a esta lista? Vem-me à mente o nome do poeta nigeriano Christopher Okigbo (1932–1967), de quem li alguns belos poemas recentemente.

No pós-guerra, houve ainda o suicído de tantos, sejam os suicídios instantâneos ou as mortes lentas dos que se afogaram em uma garrafa de uísque. No Brasil, basta pensarmos no suicídio de Ana Cristina Cesar e na morte lenta de Paulo Leminski.


já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma


( Paulo Leminski )


No número 20 da revista Inimigo Rumor, há um ensaio muito interessante de Flora Süssekind, em que ela analisa o processo de canonização via martírio nos discursos críticos sobre Leminski e Cesar.


Psicografia

Também eu saio à revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de ter visto.


( Ana Cristina Cesar )

É muito bom o ensaio, e nos deixa com várias perguntas na mente, se esta canonização heroicizante atrapalha nossa compreensão dos trabalhos destes poetas, ao mesmo tempo que os mantém editados. No ensaio, Süssekind discute ainda o poeta Cacaso, por quem não consigo me interessar muito. Teria ficado mais instigado se o trio fosse completado por Torquato Neto (1944 - 1972).


Let’s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that


( Torquato Neto )


Talvez seja inevitável. Nós vivemos em busca de heróis. Mas será necessário que sejam mártires? Será que nós os martirizamos para que possamos amá-los? Não podemos amar um poeta vivo e feliz? Banhá-lo em alegria? Não me esqueço que mesmo nós, poetas, em momentos de pobreza e miséria tentamos dar certo glamour à incompreensão, murmurando algo como:

"Minha vida é uma merda, mas isso tudo ficará lindo em minha biografia."

Assim, os obscuros seguem na espera de sua inclusão na martirologia futura, caso de poetas esquecidíssimos como Décio Bar (1943-1991)? Tudo o que posso dizer é que, pelos pouquíssimos poemas que pude descobrir, ele não merece o esquecimento.

Idades
Aos 45 do primeiro tempo,
que molde
        toma
                a vaidade?
Mais 1 minuto
          e o jogo
               pára
Mais 15, ele recomeça
Só que
    então
já serão
os semifinais da morte

( Décio Bar )

Na Alemanha, talvez possamos ver um desses jovens heróis na figura principal do ótimo Rolf Dieter Brinkmann, desconhecido no Brasil, mas talvez um dos mais populares poetas alemães nos últimos 20 anos, morto aos 35 em 1975 (ele nascera em 1940), atropelado enquanto bêbado, em Londres, onde estava para fazer leituras de seus poemas, além do heróico e popularíssimo Hubert Fichte (1935–1986). Traduzi um bonito poema de Rolf Dieter Brinkmann para o segundo número impresso da Modo de Usar & Co.. Outros poetas que têm, nos últimos anos aqui na Alemanha, vagarosamente alcançado esta posição de glória contraditória como marginais ou malditos, aos poucos santificados, são também Jörg Fauser (1944 - 1987) e Ronald M. Schernikau (1960 - 1991), este último vítima da epidemia de AIDS que nos roubou tanto, e nos deixou tão pobres como o fizeram, antes, a sífilis, a tuberculose e as guerras dos séculos. Além destes, na minha lista de prioridades como tradutor está também a necessidade de começar a traduzir poemas de Inge Müller (1925 - 1966), excelente e delicadíssima poeta lírica que se suicidou aos 40 anos, a esposa do dramaturgo e poeta Heiner Müller, cuja obra acabaria sob sua sombra. Onde estão as feministas de plantão quando precisamos delas, para manter a obra de uma boa poeta sob os holofotes, como fizeram com Sylvia Plath, a autora do lindo Ariel (1962)?

Digressões fúnebres, talvez. Ora, na verdade este artigo teve início porque estava relendo, esta manhã enquanto O Moço ainda dormia, o poeta canadense Barrie Phillip Nichol, mais conhecido como bpNichol (1944 - 1988), que traduzi e tentei apresentar a um público maior no Brasil há um par de anos, na Modo de Usar & Co. eletrônica. É que alguns paralelos chamaram-me a atenção, como toda vez que o leio:

Nichol (1944 - 1988) foi contemporâneo exato de Leminski (1944 - 1989), e parece assumir no Canadá uma espécie de posição parecida com a de Leminski na poesia brasileira contemporânea, assim como Brinkmann (1940 - 1975) aqui na Alemanha.

Talvez como Frank O´Hara (1926 - 1966) nos Estados Unidos, Alejandra Pizarnik (1936 - 1972) e Néstor Perlongher (1949 - 1992) na Argentina, ou Juan Luis Martínez (1942 - 1993) no Chile?

El Cisne Troquelado (el Encuentro)

Nombrar / signar / cifrar: el designio inmaculado:
su blancura impoluta: su blanco secreto: su reverso blanco.
La página signada con el número de nadie:
el número o el nombre de cualquiera: (LA ANONIMIA no nombrada).
El proyecto imposible: la compaginación de la blancura.
La lectura de unos signos diseminados en páginas dispersas.
(La Página en Blanco): La Escritura Anónima y Plural:
El Demonio de la Analogía: su dominio:
La lectura de un signo entre unos cisnes o a la inversa.


( Juan Luis Martínez )

Poderia ousar criar um paralelo entre estes e o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro (1953- 1998)? Será mesmo que uma vida insana de inadequação nos aproxima da morte, an untimely death, como dizem as biografias de jovens poetas mortos de língua inglesa?


Comienza a vomitar la luz

El Amor no es una ecuación mental,
el Odio sí que raspa las rodillas
enmudece labios / encanece niños;
por lo pronto
ningún dibujito fálico
en la pizarra de una escuela es la vida/
porque mientras la muerte
camina ya sobre nosotros:
"Tarantula´s Power",
la Vida no puede seguir siendo
un mero manchón de comida
sobre la ropa limpia.
Ni ésto,
ni un póster de Raquel Welch
o Emiliano Zapata reducido a póster;
De una vez:
Ni las fábulas de
Stalin o Samaniego.


( Mario Santiago Papasquiaro )


Tudo isso, as ideias sobre a martirização dos jovens poetas mortos, estes paralelos arbitrários meus entre os heróis de diferentes tradições poéticas, inundaram minha mente enquanto lia poemas do belo livro de bpNichol, chamado The Martyrology, longo poema em 9 livros / 5 volumes que ele começou a publicar em 1972, do qual traduzi dois ou três poemas e reproduzo um aqui:


Poema do primeiro livro de The Martyrology

dos santos que conhecemos a listagem segue

santinhoca desposou santoró
deu à luz santisse e santave

das famílias eis a mais antiga

santisse desposou santrio
deu à luz santlector
que desposou santagnes
deu à luz santargem

santave desposou santeto
deu à luz santrangulo
que não desposou

das outras famílias
estas mencionamos

santoente desposou santova
deu à luz sanjunção & santesta

sanjunção não desposou

santesta desposou santan
deu à luz seu filho
o sem registro


a esposa de santadaga caiu no olvido
deu à luz santruco & santeneja
deu à luz nenhúguem
perecendo no fogo que lector ateara


(tradução de Ricardo Domeneck)



§§§

from Martyrology 1

of those saints we know the listing follows

saint orm married saint rain
gave birth to saint iff and saint ave

this is the oldest family

saint iff married saint rive
gave birth to saint reat
who married saint agnes
gave birth to saint rand

saint ave married saint raits
gave birth to saint ranglehold
who did not marry

of the other families
these we mention

saint ill married saint ove
gave birth to saint and & saint rike

saint and did not marry

saint rike married saint ain
gave birth to their son
the nameless one

saint aggers wife is now forgotten
gave birth to saint ump & saint rap
gave birth to noone
dying in the fire reat had set


( bpNichol )



E você, meu querido poeta jovem, quer também ser um mártir ou um finado que nós canonizamos no glamour da morte? Espero que não, já nos empobreceu demais a tristíssima perda de Leonardo Martinelli (1971 - 2008), sem mencionar a da obra-em-sombras de Hilda Machado (1952 - 2007). Desejo a você, jovem poeta, uma vida longa, produtiva, com muitos poemas lindos, e então uma morte feliz, como quer que você a imagine.


Receitas para engolir e curar o fracasso

Origem, compra, preparo e sabor

1. Ave sertaneja
de porte médio
fibrosa, rija
de vida noturna

Preços: vinte e
sete contos o quilo
no Mercadão de
Madureira ou

trinta e sete
(ágio de dez paus)
nos açougues febris
da rede Mundial

O jeito é pegar
um 254 na madruga
ou encarar de frente
o trem da Central


2. Embrulhe o fracasso
com jornal de ontem


3. Afogue duas postas numa
panela de barro contendo
dois litros de vinho barato

Salgue e asse
em fogo alto

Enfeite o prato
com uma dúzia de

amóreas secas + 100 g
de fios de óvulos


4. Aí vai ele
numa baixela dourada
ridícula - duas
palavras
em francês fajuto
farão sorrir amarelo

o rapaz de
meia-idade e enrubescer
as bochechas
gentis suburbanas
à mesa

Rende
para uma duas três
mil pessoas


Posologia

Uma vez
hiperdosada
vai-se a bula ao
mar de bile



( Leonardo Martinelli )

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