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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Carta ao pai


Não há muito mais o que dizer sobre este poema além do que ele já diz-faz. Eu o escrevi há cerca de 3 meses. Foi a primeira vez que perguntei a amigos se devia publicar algo, não por questões de qualidade, mas por outros temores. Não foi fácil escrevê-lo e não está sendo fácil publicá-lo. Mas os amigos e o editor do Suplemento PernambucoSchneider Carpeggiani, me convenceram de que, diante dos últimos acontecimentos na República, talvez valha para alguma coisa, para alguém.

Carta ao pai

Agora que o senhor
mais assemelha pedaço
de carne com dois olhos
dirigidos ao teto escuro
no leito em que provável
só não há-de morrer só
porque nem a própria
saliva poderá engolir
por si na companhia
somente desta sonda
que o alimenta
me pergunto se ainda
em validade a proibição
da mãe em confessar
ao senhor os hábitos
amorosos das mucosas
que são minhas
e se deveras me amaria
tanto menos soubesse
quanta fricção já tiveram
que não lhes cabia
biológica ou religiosa
-mente e se também
pediria para sua filhoa
a morte que desejou
a tantos de minha laia
quando surgiam na tela
da Globo da Record
da Manchete do SBT
que sempre constituíram
seu cordão umbilical
com a tradição
e se deveras faria
sobrevir sobre eles
grande destruição
pela violência
com que urrava
seus xingamentos
típicos de macho
nascido no interior
desse país de machos
interiores e quebrados
em seus orgulhos falhos
de crer que o pai
é o que abarrota
geladeiras e não deixa
que falte à mesa
o alimento que nutre
as mesmas mucosas
em que corre
o seu sangue
mas não seu Deus
e ora neste leito partido
o cérebro em veias
como riachos insistentes
em correr
fora das margens
se o senhor
soubesse o dolo
com que manchei
a mesa
de todos os patriarcas
ainda pergunto-me
se me receberia
com a mansidão
que aceita na testa
o beijo desta sua filhoa
que nada mais é
que a sua imagem
e semelhança invertidas
tal espelho
que refletisse opostos
de gênero e religião
ou o desenho
animado na infância
de uma Sala de Justiça
onde numa tela
podia-se observar
um mundo ao avesso
e se o Pai e o pai
odeiam deveras
o gerado nas normas
da Biologia e Religião
mais tarde porém geridos
na transgressão das leis
que o Pai e o pai
impõem-nos na ciência
de sermos todos falhos
nessa Terra onde procriar
é tão frequente
que gere prazer
nenhum e olho
o senhor
com essas pupilas
que talvez jamais
reflitam o Pai
mas ora veem o pai
eu
mesmo pedaço
de carne
com dois olhos
peço perdão
em silêncio
pois sequer posso
dizer que não
mais há tempo
e mesmo assim
e porém
e no entanto
e contudo
pelo medo adversativo
de talvez abalar
uma sistema rudimentar
de alicerces
sob a casa
sob o quarto
sob esta cama
de hospital
emprestada
escolho
uma vez mais
o silêncio


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.
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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

"Meu dengo, você não fala a minha língua" - especial para o Suplemento Pernambuco.



Meu dengo, você não fala a minha língua

Eu já me perguntava às vezes, mesmo antes de morar fora do país, como seria não ser brasileiro. Não me refiro a passaportes. O que eu queria dizer era: como e o que seria não falar português? Mais especificamente, o que significa para um ser humano estar apaixonado e não ouvir e cantar uma canção de Chico Buarque de Hollanda? Não ter aprendido com Cartola que “O mundo é um moinho”? Estar quase a se afogar e não poder recorrer ao bote salva-vidas que é “Cais”, de Milton Nascimento? Não ter se educado sobre as devastações e violências e belezas e feridas e bálsamos e cicatrizes nas relações, em poemas de Manuel Bandeira e Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade? 

Que outras fontes seriam estas, as que usam? O que causa neles, descer seus baldes e beber destes outros poços? Isso faz deles pessoas essencialmente diferentes de nós? Uma pessoa será diferente ou reagirá de outra maneira, por afogar as mágoas de uma separação numa canção de Violeta Parra, ou de Joni Mitchell, ou de Novella Matveyeva, em vez de jogar-se na fossa com Maysa Matarazzo e Dolores Duran? O quanto somos o que somos por causa daquilo em que a nossa língua se transforma ao encarnar-se em textos de Clarice Lispector e Hilda Hilst, em vez dos que estão nos livros de Marina Tsvetáieva, e de Emily Dickinson, e de Forough Farrokhzād, e de Hayashi Fumiko?

Agora, há mais de uma década na Alemanha, um país onde as pessoas reagem sim a todos estes terremotos de corpos e maremotos de lágrimas de forma muito distinta da nossa, eu tenho certeza que há aí uma diferença que vai além da língua como órgão oficial de memorandos e adendos e decretos e certidões e atestados, mas uma diferença que mora na língua – aquela que une a linguagem a este outro órgão, não oficial, que escondemos na cavidade bucal, logo atrás dos dentes que podem, se erram ou querem, cortar. 

O que acontece com a língua como linguagem, aquela estudada por Jakobson e Saussure e Chomski, quando é cantarolada numa canção por uma língua entre beijos? Porque a minha língua é esta, conhecida como português, mas é ainda a que se fala no interior de São Paulo, e é ainda a que começou com as aliterações de filme de terror do “Nana, nenê, que a Cuca...”, e depois trilhou a Cartilha do Caminho Suave, e aprendeu histórias na Coleção Vagalume, e então cantou Cartola, e Noel Rosa, e Adoniran Barbosa, e Dolores Duran, e Tom Jobim, e Caetano Veloso, e Chico Buarque, e Milton Nascimento, e Luiz Melodia, e Ângela Rô Rô, e embrenhou-se pelas  aliterações políticas de Os Sertões e pelas aliterações místicas de Grande Sertão: Veredas, e já sabia que o amor em geral dura “quinze meses e onze contos de réis” antes de chegar a este outro país, este outro continente, com outras canções, e então começar a enroscar esta língua brasileira na língua estrangeira de Philipp, e de Johannes, e de Michael, e de Jannis.

Agora, há mais de uma década na Alemanha, quando sinto que mesmo o alemão (a língua, não certo cidadão) me pertence e me forma um pouco mais, pelas brigas que tive com namorados nesta língua, pelas coisas que ouvi ao pé do ouvido na cama, nesta língua e vindo dos mesmos namorados, sei que certas diferenças sempre hão-de separar suas bocas dos meus ouvidos, seus ouvidos da minha boca, enquanto nossos cérebros seguem enjaulados em cabeças cobertas de cabelos também de cores diferentes. 

E depois de ser chamado de exagerado, de melodramático, de latinamente descontrolado pela enésima vez, num momento de frustração e raiva, formulei esse texto na minha cabeça brasileira, mas em inglês, para que alemães e outros rapazes estrangeiros entendessem, e o postei na Rede Social:

I cannot sing Cartola in your left ear, because you wouldn´t get it. I cannot quote Vinícius de Moraes in our bedridden conversations, because you wouldn´t understand it. I cannot whisper “funga no meu cangote”, because you would just gape at me. Listen, try to understand, you master this language I am using now, here: you wouldn´t find me crazy or a queen of exageration, if you had learned what two bodies can do in lines like these: “e na secura nossa amar / a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”. If you knew what “fossa” is. Because you may be in love or verliebt, but you are certainly not apaixonado. So, if you cannot understand the words in the song below, don´t call me. Just don´t call me.

E então postei, com o texto, um vídeo de 1976 em que Chico Buarque e Milton Nascimento interpretavam juntos a canção “O que será (À flor da pele)”, com aquela nossa forma tão brasileira de reagir ao algoz-Eros ou ao capacho-Cupido. Ou passou a ser uma forma tão brasileira por culpa da canção?

E aqui, cercado de corpos sussurrando e gritando em línguas que entendo, mas nem sempre sinto, vou tentando responder em suas línguas, mas com Maysa e Dolores e Rô Rô atrapalhando o morse, porque eles nunca parecem entender por que sigo corando, e sentindo-me atraiçoado, e obrigado a confessar nas mais inconvenientes das horas, sem saber dissimular apesar de Capitu, recusando-me a recusar, suplicando feito mendigo as migalhas, sem medida, sem remédio, sem receita, e eu sei o que é, eu sei o que é, bêbado desacatado e insaciado, doente em plena folia da pista de dança, esquecido dos Dez Mandamentos, e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e da Constituição de 1988, sem pomada de calêndula ou Vick Vaporub ou chá de erva-cidreira, sabendo que não adiantaria cuspir no fio de algodão da fralda e postar-me-lo na testa porque meu soluço não passa, que talvez tenham esquecido de enterrar meu cordão-umbilical bem fundo no quintal e um roedor qualquer o mordeu e digeriu, e eu sei o que é, eu sei o que é, e eu tremo, eu ardo, eu suo, mui luso-brasileiramente, e na hora da aflição medonha e imediata eu não digo “Oh my God”, nem “Oh mein Gott”, eu digo mesmo é “Ai meu Deus”, e se doi eu não digo “oy vey ist mir” ou “ouch, poor me”, eu digo mesmo é “ai” e a este segue outro “ai” e quando estou muito literário vem por fim um “ai de mim”. 

E sei, por fim, que se este texto fosse em alemão, você aí, germânicozinho, mais uma vez reviraria os olhos e me chamaria de “drama queen”.


Ricardo Domeneck
Berlim, 31 de julho de 2013
Publicado no Suplemento Pernambuco em setembro de 2013.


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