segunda-feira, 22 de junho de 2009

Discurso Alegórico versus Figuras Metonímicas ou "As portas entreabertas de Sokurov"


Assisti este fim-de-semana ao último filme de Aleksandar Sokurov, intitulado Alexandra (2007). O filme tem como espinha-dorsal o rosto e performance da soprano e atriz russa Galina Vishnevskaya, a quem não conhecia antes do filme, e que passa a habitar minha sala imaginária e obsessiva de mulheres perturbadoras, onde vai fazer companhia à outra russa, Margarita Terekhova (a mãe e esposa d´O Espelho, de Tarkóvski).

Há algo intrigante em certos filmes de Sokurov, que gostaria de endereçar, se possível, neste texto. Não me refiro aos mais alegóricos, como os inacreditáveis Arca Russa (2002) ou mesmo a trilogia de retratos de ditadores, Hitler em Moloch (1999), Lênin em Taurus (2000) e Hirohito em O sol (2004).

Refiro-me aos filmes mais delicados e estritamente "realistas" (uso a palavra com toda a parcimônia do mundo), como Mãe e filho (1996) ou Pai e filho (2003), assim como este último, Alexandra.



O que me fascina em um filme como Alexandra é como Sokurov parece capaz de criar histórias com tamanha carga "metafísica" (uso também esta palavra com parcimônia), em narrativas que parecem seguir tão estritamente uma cartilha realista.

Comparados a filmes como estes de Sokurov, as alegorias de Tsai Ming-liang, como em Adeus, Dragon Inn (2003) ou em qualquer filme de Béla Tarr, se me afiguram esquemáticas, simplistas, reciclagens tardias de um modernismo à la Waste Land, por mais sedutores que sejam em seu perfeccionismo técnico. Não tenho estômago para os filmes de Béla Tarr, ainda que tenha imensa admiração por Tsai Ming-liang, que conseguiu, em filmes como Vive l'Amour (1994) ou Que horas são lá? (2001), algo desta criação de figuras metonímicas que argumento ver em Sokurov, em vez do discurso alegórico de Béla Tarr ou de filmes do próprio Ming-liang, como O rio (1997) ou O buraco (1998). Ao contrário das alegorias previsíveis de Tarr, Ming-liang é um diretor inteligentíssimo e impecável.

Como Sokurov chega a isso? Há as questões técnicas, é claro. Desde Tarkóvski, houve poucos diretores que usam a luz de maneira tão eficiente, quase fazendo dela uma das personagens dos filmes. Há, ainda, seu impecável manuseio do ritmo das cenas, como se houvesse um leve retardamento entre fotograma e som, como se milésimos-de-segundo nos fossem roubados a cada quadro. A passagem do tempo, em Sokurov, assim como em Tarkóvski, não é apenas tema. É forma e função, é tema e estrutura. São diretores que fazem o que dizem. Os longos planos não são apenas estilo, eles representam e implicam, buscam destacar nosso próprio alheamento para com a passagem do tempo. Como os grandes artistas de qualquer tempo, Sokurov está menos interessado nas idéias dos humanos do que nas relações entre estes ou a que são levados por suas idéias.

Em tempos de frivolidade, a seriedade do espírito de um artista como Aleksandar Sokurov comanda um tipo de respeito ao qual estamos cada vez menos acostumados. Hoje, na Europa Ocidental, há poucos diretores capazes deste tipo de figurativismo metonímico do russo, atingindo, por sinédoques delicadas, a transcendência que muitos ainda buscam alcançar com pesadas metáforas. Talvez possamos incluir à lista o francês Bruno Dumont ou os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Há ainda um outro russo capaz de tal delicadeza perturbadora: Andrei Zvyagintsev. Já escrevi aqui sobre seu filme Izgnanie.

Quem, entre os americanos ou entre brasileiros?

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Como poeta, vejo inúmeras implicações nos trabalhos de gente como Sokurov e Dumont. Assim como tenho pouco estômago para as alegorias tardo-modernistas-do-modernismo-fique-claro-à-la-Waste-Land de Béla Tarr, ou Tsai Ming-liang em certos filmes, creio que ainda há poetas interessados nesta visão da modernidade, daqueles que não parecem se ajustar ao seu tempo, com olhos constantemente voltados para uma fictícia Idade de Ouro. Veja, por exemplo, um poema como "Finismundo: A Última Viagem", de Haroldo de Campos. Por mais belos e interessantes que sejam, tais rehashes wastelândicos demonstram tanto a incapacidade de endereçar os problemas de seus contemporâneos, como o desejo de retorno a uma ficção paradisíaca da qual, se lhes fosse concedido o desejo por algum gênio-de-lâmpada, retornariam como Lázaros desiludidos, informando que a devastação atingiu até a terra de seus sonhos. Vejam também, por exemplo, como alguns poetas buscam salvaguardar a relevância poética, em seus textos, a partir de uma espécie de elefantíase semântica e vegetação metafórica. Em minha opinião, é simplesmente ineficiente. Quando alguém deixa de falar nossa língua, gritar não nos traz mais próximos de sermos compreendidos. Também é ineficiente, eu creio, tanto na prosa como na poesia, um realismo que ainda parece localizar-se est-É-ticamente no século XIX. Machado de Assis já nos mostrou que toda realidade é narrada em primeira pessoa.

Filmes como Alexandra, de Sokurov, ou A Humanidade, de Dumont, mostram-me (é como escolho vê-los) artistas conscientes de uma condição humana que não aceita adjetivos com facilidade, a não ser o de condição crônica. As imagens de seus filmes não são metáforas. São, no máximo e no mínimo, sinédoques.

A alegoria e a metáfora, hoje em dia, quando preponderantes no trabalho artístico e poético, (a mim parece) criam narrativas de mão-única, impondo ao leitor ou expectador um discurso subreptício, camuflado, enquanto o autor esconde-se, protegido, vendendo lebre por lebre e gato por gato, numa teleologia que me parece desonesta apenas por não se aceitar como discurso construído, condicionado pela ideologia de seu demiurgo. Toda criatura é feita à imagem e semelhança de seu criador.

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Aceitar (não resignar-se) nosso momento histórico não significa ser uma Poliana a brincar em campos de algodão-doce, nem contemplar o "deslizar de lancha entre camélias."

5 comentários:

Luiz Coelho disse...

Como vai Ricardo? Tenho lido seus textos e me incomodado com algumas posturas suas, apesar de respeitar mto, como vc bem sabe, sua coragem em reclamar um trabalho contemporâneo e com urgências imediatas ao seu tempo e que respondam adequadamente ao próprio contexto. Acredito que preciso formular melhor algumas dasc ríticas que pretendo realizar a fim de propiciar uma adequada discussão, sem egotismos. Gde abraço, mon cher!

Ricardo Domeneck disse...

Caro Luiz,

a última coisa no mundo que quero é soar "self-righteous", sei que meu tom acaba, por vezes, sendo demasiado belicoso. É meu entusiasmo. Por favor, elabore sua discordância e seu incômodo e a gente conversa!

Abraço,

Domeneck

Bea - Compulsão Diária disse...

Gostei do que vc diz sobre o tempo - a durée - em Sokurov e na poesia.
vi !

Bea - Compulsão Diária disse...

Não vi Alexandra, mas em Taurus vi isso que vc diz aqui

Gláucia Machado disse...

1. saudades de trocar idéias com você, Ricardo!
2. entendo isso de entusiamar-se e parecer belicoso.
3. renovo/registro meu carinho e admiração pelo que você faz.
4. apresentei, semana passada, um trbalho em que falei de você,lá no Recife-PE.
5. falo sempre de sua obstinada, criativa e calorosa resistência, em tempos de marasmo asmático.
5. beijos!

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