quarta-feira, 20 de abril de 2011

Manhã berlinense com música do britânico Orlando Higginbottom e poemas do americano CAConrad.

Manhã de sol em Berlim. Enquanto O Moço ainda dorme, trabalho em um artigo sobre o grande poeta português António Franco Alexandre para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.. Na janela está finalmente verdíssima a árvore (será uma sínquise?). "Que sol! Vai ser ótimo hoje à noite na SHADE", diz Rocirda quarta-feiramente espevitada. "É cedo ainda, fica quieta no teu canto que eu estou trabalhando", digo.

Como o pó de café em casa acabou e meu roommate ainda não roubou um quilo novo do serviço, desço à padaria turca da esquina e peço um café zum mitnehmen (to go/pra viagem). Termino o artigo sobre António Franco Alexandre, parte de uma série de postagens sobre poetas lusófonos. É que havia percebido que andávamos publicando pouca coisa em português na franquia eletrônica, ainda que me orgulhe do trabalho de tradução que empreendemos ali desde 2007. Após publicar poetas jovens como as ainda inéditas em livro Helena Schmid (Brasil) e Tatiana Faia (Portugal), escrevi sobre o ótimo poeta carioca Leonardo Fróes. Hoje, sobre o mestre António Franco Alexandre, de quem relera na cama, ao lado d´O Moço, o lindo "le tiers exclu, fantasia política", o primeiro dos longos poemas em Quatro Caprichos (1999). Acendo um cigarro. Rocirda não resiste e diz em voz de ladainha: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro...", mas é primavera, o sol parece brilhar pela primeira vez desde que o mundo é mundo, eu digo mais alto: "O beijo, amiga, é a véspera do orgasmo."

Querendo escutar música que faça sentido com este sol, penso imediatamente em minha queda abismática atual: o rapaz britânico Orlando Higginbottom, mais conhecido como Totally Enormous Extinct Dinosaurs.


Orlando Higginbottom, mais conhecido como Totally Enormous Extinct Dinosaurs



Como não ter uma das minhas quedas tardo-adolescentes? A criatura (que nasceu em Oxford em 1986) tem cara de moleque inglês que devia apanhar de bullies na escola por ter cara-e-corpo de nerd, e ainda faz música pop que não poderia ter sido feita em outro século. Além disso tudo, como se não bastasse, ele gosta de se apresentar vestindo uma fantasia de dinossauro (de cetim verde!) e usa exemplos de headgear dignos de Carmen Miranda. Resisto como?

A primeira canção que ouvi foi na pista de dança do meu clube-às-quartas-feiras, tocada pelo amigo Marius Funk. Chama-se "Waulking":


Totally Enormous Extinct Dinosaurs - "Waulking"



Explicação sobre o significado de "waulking" roubado da Wikipédia: "Fulling or tucking or walking ("waulking" in Scotland) is a step in woolen clothmaking which involves the cleansing of cloth (particularly wool) to eliminate oils, dirt, and other impurities, and making it thicker. The worker who does the job is a fuller, tucker, or walker."

Estou tentando trazer Orlando Higginbottom para tocar na minha SHADE inc aqui Berlim. Escutando o álbum de estreia dele meio obsessivamente (eu tendo a me obcecar, como os mais atentos já devem ter percebido), chamado All In One Sixty Dancehalls.



Totally Enormous Extinct Dinosaurs - "Household Goods"



Antes de acordar o Moço para irmos comer e ler ao sol (estou lendo uma tradução inglesa de um romance de Primo Levi e uma antologia alemã de poemas de Yiannis Ritsos), decido traduzir alguns poemas de um livro que me divertiu muito no ano passado: The Book of Frank (2010), do americano CAConrad. Sim, assim mesmo, numa palavra só: CAConrad. No livro, Conrad cria uma personagem chamada Frank, em puro humor autodepreciativo (meu tipo favorito de humor), algo como o Henry do seu conterrâneo John Berryman (1914 - 1972) nas Dream Songs (1969). O poeta é hoje um dos poetas contemporâneos dos Estados Unidos mais conhecidos no país (impressão que tenho pela Rede) e tem um trabalho muito legal de divulgação de outros poetas em um blogue no qual posta leituras em vídeo. "Vejam só! um poeta que não divulga só o próprio trabalho", Rocirda alfineta; eu me irrito um pouco: "Cala a boca, Rocirda, o povo já me acha chato sem estes teus comentários!"

Não vou cacarejar muito a respeito agora, deixando vocês com os poemas. Quem conhece e gosta de poetas como Susana Thénon e Bénédicte Houart, entre outros, vai reconhecer o tom e curtir, creio.



CAConrad faz uma turnê por seu banheiro




ALGUNS POEMAS DE CACONRAD extraídos do livro The Book of Frank (2008), com traduções de Ricardo Domeneck



ela era uma companhia exótica

a boca dela
cheia dum rato

Frank nunca ouviu uma palavra
seu olhar fixo no rato
desaparecendo para reaparecer
com cada sílaba

devoto
ele pediu
a Deus que ela
se casasse com ele

mas uma noite muito tarde
ela tocou sua mão

Frank repugnou-se
e percebeu
que na verdade
era o rato
na boca dela
que ele amava


:


she was exotic company

her mouth
full of mouse

Frank never heard a word
his gaze
steady on the mouse
disappearing to reappear
with every syllable

devoted
he prayed
to God she’d
marry him

but late in the night
she touched his hand

Frank recoiled
and realized
it was really
the mouse
in her mouth
he loved



§


Frank tenta ignorar
a menina que vive dentro
do seu colchão

ela nunca grita

nunca faz exigências

ele conversaria com
ela sobre os Mets*
mas ele teme que ela
nunca mais se cale

ele já não consegue masturbar-se
como estão as coisas


(Nota*: Os Mets são o time de baseball mais famoso de Nova Iorque, os New York Mets, ou Metropolitan Baseball Club of New York)


:

Frank tries to ignore
the girl living inside
his mattress

she never shouts

never makes demands

he would talk about
the Mets with her
but he’s afraid she
might never shut up

Frank can’t masturbate
as it is



§


o porco diz a Frank
"esta cerca te prende em teu mundo"
Frank diz ao porco
"esta cerca te prende em teu mundo"
o porco diz a Frank
"esta cerca te prende em teu mundo"
Frank diz ao porco
"esta cerca te prende em teu mundo"
o porco diz a Frank
"esta cerca te prende em teu mundo"


:


pig says to Frank
“this fence keeps you in your world”
Frank says to pig
“this fence keeps you in your world”
pig says to Frank
“this fence keeps you in your world”
Frank says to pig
“this fence keeps you in your world”
pig says to Frank
“this fence keeps you in your world”



§


Todas as noites
Frank dissolve-se
Em seus lençóis

Não um macho
Mas uma mancha

Sua mulher esfrega
nele cedo
até que ressuscite
sua matinal
vagina...


:



Every night
Frank dissolves
Into the sheets

Not a man
But a stain

His wife rubs him
back to life with
her early
morning
vagina…



§


Na irmã de Frank cresceram longas penas azuis

ela disse que era pior que cortar dentes

e passou um mês gritando na caverna
arrancando-as

Frank ficava acordado em sua cama à noite
alisando as próprias costas

chorando

rezando que não lhe acontecesse
o mesmo

mas o dia em que sua irmã voou para casa
ele ficou à janela assombrado
propagação azul gigante a sobrevoar o lago

ele ouviu o tiro do caçador antes dela


:


Frank’s sister grew long blue feathers

she said it was worse than cutting teeth

she spent a month screaming in the cave
pushing them out

Frank would lie in bed at night
touching his own back

crying

praying it wouldn’t
come to him

but the day his sister flew to the house
he stood by the window in awe
giant blue spread coming in across the lake

he heard the hunter’s shot before she did


§


"o senhor me daria
um autógrafo, Seu Poe?"
Frank pergunta à pilha de ossos
entre pás de pó

"mas é claro meu caro
jovem" responde Frank com
uma voz diferente


:


“would you sign
my book Mr. Poe?”
Frank asks the pile of bones
amidst shovels of dirt

“why certainly young
man” answers Frank in a
different voice



§


flores
de maio

Frank fecha
as pernas

mas

ainda

vaza

música


:


May
flowers

Frank shuts
his legs

but

music

seeps

through


§


"Eu vim ver o show" disse o homem
buscando sob a camisa de Frank a porta

"Eu não sou um teatro" disse Frank

formou-se uma fila

ele terá que convidar todos?

muitos tinham guarda-chuvas

uma mulher cega
esperava
com seu cão

"vai ser um show incrível" disse alguém
"mas quando ele vai nos deixar entrar?"

as lágrimas de Frank começaram a rolar

alguém arrombou suas portas

eles o lotaram por cerca de uma hora


:


“ I’m here for the show” the man said
looking under Frank’s shirt for the door

“I’m no theater” Frank said

a line formed

must he admit them all?

many had umbrellas

a blind woman
waited with
her dog

“it’s gonna be a great show” someone said
“but when’s he gonna let us in?”

Frank’s tears began to fall

someone ripped his doors open

they filled him for an hour



§


por recomendação do médico
Frank parou de barbear a cadeira

em um mês
ela tornou-se a cadeira mais confortável
da casa


:


at the doctor’s request
Frank stopped shaving the chair

in a month
it was the most comfortable chair
in the house



§

"ninguém mais está
FARTO desta
paralisia da
gravidade!?"
Frank pergunta

"quando eu era menino
eu pisava no céu
e eu era um menino
não um surrealista!

parte do sonho
é que você aceite
a vigília
como parte do sonho."


:



“is no one else
SICK of this
paralysis of
gravity!?”
Frank asks

“when I was a boy
I stepped into the sky
and I was a boy
not a surrealist!

part of the dream
is that you accept
your waking life as
part of the dream.”



§


Frank tinha corvos por mãos

foi uma infância difícil

na janta durante a oração
seus corvos agitavam-se
excitados com o nome do Senhor
"FRANK! FICA QUIETO!" Mãe berrava
"você lavou os corvos!?
você lavou estes seus CORVOS FEDIDOS IMUNDOS!?"

Quando Pai morreu
encontraram Frank
cavalgando-o
seus corvos a bicar
as sete obturações de ouro


:


Frank grew crows for hands

it was a difficult childhood

at dinner during prayer
his crows flapped
excited in the name of the Lord
"FRANK! KEEP STILL!" Mother hollered
"did you wash your crows!?
did you wash your FILTHY STINKING CROWS!?"

when Father died
Frank was found
straddling him
his crows picking the seven
gold fillings



.
.
.

3 comentários:

thiago cestario disse...

gostei pacas desse caconrad, apesar de ele ser a susan boyle de sobrancelha feita e cabelos lisos.

Lucas disse...

que post massa, ricardo! das discussões com rocirda ('o beijo, amiga, é a véspera do orgasmo'! mt bom) e que traduções sensacionais, votos para novas! muito legal esse poeta... preciso dar um jeito de conseguir esse book of frank aqui pelo rio...

Ricardo Domeneck disse...

Thiago e Lucas, que bom que o CAConrad chegou a leitores simpáticos a seu trabalho no Brasil... fazia tempo que eu queria traduzi-lo ou fazer uma postagem sobre ele para a "Modo de Usar & Co.", pois meu instinto dizia que ele teria acolhida boa no Brasil. O cara me parece meio "estranho no ninho" da poesia norte-americana contemporânea, que não prima exatamente pelo humor.

abração

Ricardo

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