quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Politicamente... correto ou consciente?


Tive uma conversa com um poeta que respeito imensamente, mas do qual discordo em quase tudo, sobre a questão do "politicamente correto" quando se trata da literatura. O que segue abaixo é uma versão de uma das minhas respostas à conversa, porque talvez interesse a outros.

A questão para mim é saber diferenciar entre o politicamente correto e o politicamente consciente, já que por trás da batalha contra o "politicamente correto", em muitos casos, sinto na verdade uma batalha contra o "político" e contra o "histórico" na literatura. Quando se começa a falar sobre isso, sinto com frequência mais uma tentativa de retorno a uma ideologia que tem muitos nomes, mas que pode ser sentida a partir de Hugo Friedrich em sua Estrutura da Lírica Moderna (1956), por exemplo, e que no nosso fin de siècle passado mostrou-se no mumble jumble que transformava em sinônimos conceitos como "sincronia histórica", "pós-utópico" e "trans-historicidade".

Falamos sobre trabalhos que tiveram a coragem de olhar o "Mal", ou "O Horror" de Mistah Kurz, nos olhos. Citamos textos como o Niemandsrose (1963), de Celan. Celan foi um autor que lidou com um Horror histórico, real, que tinha contexto, nomes de gente de carne e osso. E não há aqui mesmo, nas Américas, um Mal e um Horror que precisam ser olhados nos olhos, que ainda estão entre nós e formam a fábrica de nossa sociedade, como os genocídios indígena e africano no nosso continente?

Elencar trabalhos que estejam lidando com este Mal ajudaria? Não sei. Será que nós teríamos reconhecido o "Niemandsrose", tivéssemos sido contemporâneos de sua escrita?

Falemos por exemplo de uma das grandes faces do Mal em nossa doentia civilização ocidental: o sequestro e escravização de milhões de seres humanos do continente africano. Há o livro Zong! (2008), de M. NourbeSe Philip, que olhou este horror de frente. O livro é baseado no fato real do navio Zong e num processo jurídico de 1781, quando aquele navio negreiro lançou ao mar cerca de 140 homens e mulheres africanos, que teriam sido vendidos como escravos, porque os traficantes perceberam que ganhariam mais dinheiro coletando o "seguro da carga" que "a vendendo". O Mal. O Horror. Eis um exemplo de uma autora, mulher negra nascida em Trindade e Tobago, lidando com um dos capítulos mais malévolos da História das Américas. Sem pestanejar e sem recorrer ao esconderijo do sublime.

Há também La sodomía en la Nueva España (2010), de Luis Felipe Fabre, no qual o autor, homem homossexual nascido no México, parte dos arquivos da Inquisição Mexicana, quando homossexuais foram queimados em praça pública na Cidade do México, para compor um livro extraordinário em "retábulos" e "villancicos", conhecedor que é das formas mais sofisticadas do Barroco hispânico.

Dois exemplos, que leio com uma atenção de quem compartilha oxigênio com estes autores do nosso continente e sente a necessidade de lidarmos com a face do NOSSO MAL, em vez de fazer como muitos, que leem Paul Celan como uma espécie de "poeta órfico", e não como o poeta eminentemente histórico que é, recebendo hoje o tipo de atenção que Rilke recebeu no país pelo Grupo de 45.

Portanto, eu pergunto: o terrível destino dos homens e mulheres que pereceram na Shoah, judeus, atinge-nos a todos, mas o terrível destino dos homens e mulheres que foram lançados ao mar, na embarcação Zong, sendo negros, antige-nos a todos ou apenas aos negros? O terrível destino dos homens homossexuais que foram queimados em praça pública na Cidade do México atinge-nos a todos, ou apenas a homossexuais?

Qual é a fronteira do universal, se o há?

Ao escreverem estes dois livros que julgo excepcionais, mas com clara intenção também de intervenção histórica e política, a escritora (negra) M. NourbeSe Philip e o autor (homossexual) Luis Felipe Fabre estavam sendo apenas politicamente corretos, ou politicamente conscientes? Faria sentido estudar estes livros apenas por suas óbvias qualidades formais, mas ignorar o contexto de que tratam e o contexto em que foram escritos? Não lidaram com o Mal? Seriam mais universais se tivessem escrito sobre as ansiedades do homem branco heterossexual em meio ao Sistema Capitalista? Em meio a regimes comunistas? Se tivessem sido menos "históricos" e "contextuais"? Mas a poesia de Paul Celan não é ela toda também "histórica" e "contextual"?

Reafirmo que é preciso dar atenção ao trabalho formal do autor, mas não parar aí: entender a maestria formal de um poeta mas também seu contexto histórico, e saber distinguir o "politicamente consciente" do "politicamente correto". E que, para entrar nesta discussão, se conheça poesia de forma ampla, não apenas a que foi feita por homens (brancos) (heterossexuais) (ocidentais) (mortos).

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Um comentário:

Beatriz Souza disse...

Bom dia. Conheci o blog hoje, a partir de um texto seu sobre Jorge de Sena, o autor que estudo avidamente. Tens substância, e tenho de ler mais e refletir, mas achei justo te parabenizar. Texto inteligente, questão urgente. Parabéns!

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