terça-feira, 14 de junho de 2016

Bandeira (poema para vozes sobre palanques)



meu nome-função
foi já temido e respeitado
como dádiva dos espíritos

wíŋkte entre os lakotas
nádleehé entre os navajos
lhamana entre os zunis
aayahkwew entre os crees
sipiniq entre os inuítes

entre os itelmens da sibéria
koekchuch
entre os samoanos da polinésia
fa'afafine

e girei as ancas como
köçek
em palcos para os otomanos

e mesmo entre os que ontem
mesmo metralhavam-me
já fui mukhannathun
ou ainda hoje hijra 
chamam-me pela índia

assumi tantas
funções
em meus eus
em relação-dança
a vosso elela

e vos ensinei
barroca-rococó
que o inútil é útil

e curei, curandeira
e nomeei, batizeira
e teci, costureira
e invoquei, xamaneira
e entreti, entreteneira

hoje são outros os nomes
com que me celebrais
pelas ruas

bicha
sapata
viado
boiola

e até destes vossos inúteis
algo útil fiz
em meio a minhas irmoããs

sabendo que vossas
estrelas-de-seis-pontas cruzes e crescentes

cedo ou tarde são usadas
como estrela-ninja espada e foice

contra nossos lindos corpinhos

mas ora faz
séculos milênios
assistimos à morte
dos vossos deuses
um por um

cá estamos ainda
a vosso serviço, idiotas

por que seria diferente
com estes que ora exigem
tudo organizado em apenas
duas gavetas
como se assim fosse
desde o começo do mundo?

grandessíssima
mentira
para boy dormir

vossa doença binária
é moda passageira

e

é chegada a hora
é passada a hora
é chagada a hora
de que nos desaquendeis,
filhotes de alibãs

porque dos erês às cacuras,
já nos cansou a belezura

transformar vossos cacetetes
em varas de condão
e vossas horrorosas pochetes
em marsúpios

nós, gloriosas canguruas

apontando o caminho
a saltos largos
para vossos passos
de cágados
todo cagados

rumo à civilização

.
.
.

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