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domingo, 12 de junho de 2011

Celebrando os heróis dos meus olhos: Édouard Boubat (1923 - 1999), fotógrafo

Édouard Boubat - "Autorretrato com Lella" (1951), sua musa.


Eu não sei muita coisa sobre a vida de Édouard Boubat, conheço apenas suas fotos. Não há muita informação na Rede. A primeira menção a seu nome que eu ouvi em minha vida veio do grande mestre das citações Jean-Luc Godard, no filme Éloge de l´amour (2001), um dos filmes mais importantes da minha vida, no qual uma das personagens, um senhor de idade, ao tentar descrever uma moça por quem foi apaixonado na juventude, diz: "Ela era como aquela moça da fotografia de Boubat, na praia, vestida com uma blusa branca e sutiã preto."


Édouard Boubat - "Lella, Bretanha" (1947)


Ninguém celebra aqueles que admira com tanta propriedade e respeito quanto Godard. O que se encontra na Rede sobre Boubat é que nasceu em 1923, no bairro de Montmartre, em Paris. Morreu em 1999, na mesma cidade. Estudou fotogravura na Escola Superior de Artes e Indústrias Gráficas (École Supérieure des Arts et Industries Graphiques - École Estienne), entre 1938 e 1942. Em 1947, ganhou o prêmio Kodak, do qual confesso desconhecer a importância. Foi repórter durante a Segunda Guerra. Dizem que, depois desta experiência, teria jurado nunca mais fotografar a destruição, apenas a celebração. Olhando para suas fotos, esta história, lenda ou não, faz todo sentido. Quis compartilhar estas celebrações.


(clique nas imagens para aumentá-las)










segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Celebrando os heróis dos meus olhos: Paul Cadmus (1904 - 1999), pintor

Paul Cadmus, fotografado por Carl Van Vechten em 1937


A descoberta daqueles que chamo de tesouros escondidos, os obscuros maravilhosos, os que caem por entre as malhas da historiografia da arte ou poesia, dá-se em geral por acaso. Surfa-se a Rede de Computadores, cheia de informações inúteis, até que se pousa no espaço pessoal de algum camarada generoso que se dispõe a compartilhar suas descobertas, e assim chegamos a criadores que passam a fazer parte indelével do nosso banco de imagens, sons ou textos. A primeira reprodução que vi de um quadro de Paul Cadmus é um de seus mais famosos, intitulado Jerry, de 1931.


Paul Cadmus, Jerry (1931)



Não me lembro mais onde o descobri, mas lembro-me do contexto: ele ilustrava um artigo sobre o Dia de Bloom, ou Bloomsday, a celebração anual do romance de Joyce todo 16 de junho. O quadro retrata o namorado de Cadmus à época, o também pintor Jared French, lendo o famoso Ulysses (1922). Há, em minha opinião, uma delicadeza iluminada e, ao mesmo tempo, uma forte carga erótica na pintura, talvez emanando do casamento entre a técnica de Cadmus, a têmpera, que há séculos fora substituída pela pintura a óleo, e sua insistência no figurativismo, a luz explodindo sobre o corpo de Jared French enquanto lia um romance que, não podemos esquecer, àquela altura (1931) ainda estava banido por ser considerado literatura pornográfica. Seu trabalho une uma imagética que já foi chamada de surrealismo por uns, por realismo mágico por outros, mas que, pelo menos neste lindo quadro de 1931, seria melhor comparada, ligada ou pareada à Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade) de pintores alemães como Christian Schad ou Rudolf Schlichter. Mesmo certas pinturas da primeira fase de Otto Dix, tão associado ao Expressionismo germânico, parecem seguir linhas parecidas à sensilidade de Cadmus. Vejamos, como exemplos, o retrato de Bertolt Brecht que Rudolf Schlichter pintou na década de 20, e o famoso Sonja (1928), de Christian Schad:


Rudolf Schlichter, Retrato de Bertolt Brecht (1926)


Christian Schad, Sonja (1928)

Como era de se esperar do modernismo europeu, com artistas que tiveram que sobreviver a uma Grande Guerra, e especialmente o germânico, há menos luz em Schlichter e Schad, assim como a sátira social de Dix seria em muitos aspectos mais apocalíptica que a Cadmus. Mesmo assim, o trabalho de Cadmus e de alguns de seus companheiros, como o já mencionado Jared French, ou ainda George Tooker, poderiam ser irmanados em sua crítica social por meio da sátira e da caricatura ao trabalho de alguns destes pintores germânicos, tanto da Neue Sachlichkeit como do Expressionismo.


Paul Cadmus, The Fleet´s In (1934)



Paul Cadmus nasceu em Nova Iorque em 1904. Começou a se tornar conhecido quando seu quadro The Fleet´s In (1934), postado acima, foi retirado da coleção da Corcoran Gallery por ser considerado pornográfico. Ainda que isso trouxesse certa publicidade, o estilo de Cadmus, a prática da têmpera, sua insistência no figurativo e sua temática homossexual o tornariam um outsider na Historiografia da Arte norte-americana, e apenas nos últimos anos o pintor tem recebido atenção, com retrospectivas e publicações em livro.


Paul Cadmus com modelo em seu estúdio


Meu presente de natal este ano por parte d´O Moço foi um catálogo da década de 60 com reproduções de gravuras e quadros de Cadmus. Abaixo, uma pequena seleção com meus favoritos.


A TÊMPERA DE PAUL CADMUS


Bicyclists, 1932


Aspects of Suburban Life (1936)


Sailors and Floosies, 1938


The shower (1943)


Fences, 1946


Night in Bologne, 1948


The bath (1951)


Finistère, 1952


Bar Italia (1953)



Study for David and Goliath, 1971


The Haircut, 1986


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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Celebrando os heróis dos meus olhos: Thomas Eakins (1844-1916), pintor e fotógrafo

Thomas Eakins


Thomas Eakins nasceu em Philadelphia, nos Estados Unidos, em 1844. Hoje é considerado um dos mais importantes artistas visuais americanos no século XIX e início do XX, mas sua trajetória foi cheia de percalços e obstáculos. Acabou tendo, no entanto, grande influência, tanto como pintor e fotógrafo, quanto como educador, ensinando na Academia de Belas Artes de Philadelphia, onde foi um dos primeiros a estimular os alunos a usarem a fotografia para suas pesquisas pictóricas.

Thomas Eakins, Study in the human motion


Estudo fotográfico de Thomas Eakins


Após conhecer o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge, passa a incluir a fotografia entre suas práticas, não apenas para os estudos de seus quadros, como para criar a mais importante obra fotográfica norte-americana do século XIX, pioneira e precursora de pesquisas em fotografia que apenas o realismo da década de 70 tornaria hegemônicas.

Thomas Eakins, With Lawrence at the shore


Thomas Eakins, Swimming



Thomas Eakins, Nude study



A sociedade puritana de sua época viria a se escandalizar e gerar uma rede de fofocas e intrigas sobre o pintor e fotógrafo. Muitos de seus hábitos eram polêmicos, especialmente sua insistência em ensinar homens e mulheres nas mesmas classes e da mesma maneira, durante sua passagem pela Academia de Belas Artes. Além disso, os boatos sobre sua vida sexual, a companhia constante de homens jovens, sua fotografia de nus masculinos, dariam gás aos escândalos de sociedade da Nova Inglaterra, que espalhava por Philadelphia as histórias de sodomia e bestialidade que se alegava fazer parte da vida diária de Thomas Eakins.


Trabalho fotográfico de Thomas Eakins



Seria demitido da escola ao descobrir a genitália um jovem que servia de modelo durante uma aula onde estavam presentes mulheres, alunas. Era permitido apenas que as modelos do sexo feminino estivessem completamente nuas, não os modelos do sexo masculino na presença de mulheres. Muitos alunos e alunas viriam a abandonar a Academia e fundar sua própria escola, para seguir estudando com Eakins.

Grande parte de seu trabalho pictórico foi baseado em estudos fotográficos. Como isso foi por muito tempo visto com preconceito, seus estudiosos (e sua esposa) tentaram negar que houvesse fotografias a preceder os quadros. Hoje, quando a fotografia passou a ocupar uma função principal na arte contemporânea, muito destes preconceitos foi superado e seus estudos em fotografia passaram a ser valorizados.

Thomas Eakins, The wrestlers, 1899


Thomas Eakins, Study for "The wrestlers", 1899

Não estou tentando escrever uma hagiografia. Deixo isso para os que acharam que fosse necessário santificar o homem e sua reputação para salvaguardar sua obra. Sua obra permanece, tenha sido ele o homem honesto dos falsos elogios, ou o beberrão sodomita das falsas diatribes.
Além do mais, creio que eu também teria arriscado minha reputação por um rapaz tão bonito como Samuel Murray (1869 - 1941), seu protégé, e companheiro até o fim da vida.

Samuel Murray, em retrato feito por Thomas Eakins



Thomas Eakins, Portrait of Samuel Murray, 1889


Samuel Murray, em retrato de Thomas Eakins


Várias de suas pinturas são consideradas obras primas do realismo norte-americano. Duas delas têm também grande importância para a História da Medicina: as pinturas The Gross Clinic (1875) e The Agnew Clinic (1889)


Thomas Eakins, The Gross Clinic (1875)


Thomas Eakins, The Agnew Clinic (1889)


Minha pintura favorita de Thomas Eakins é outra de suas obras-primas, a bela The Swimming Hole, de 1885. Eakins, que conhecera pessoalmente o poeta Walt Whitman (de quem pintou o retrato), teria se inspirado para o quadro tanto em suas tardes nos lagos ao redor de Philadelphia, com seus alunos, como no poema "Song of myself", de Whitman, no trecho:

Twenty-eight young men bathe by the shore,
Twenty-eight young men and all so friendly;
Twenty-eight years of womanly life and all so lonesome.

She owns the fine house by the rise of the bank,
She hides handsome and richly drest aft the blinds of the window.
Which of the young men does she like the best?
Ah the homeliest of them is beautiful to her.


Where are you off to, lady? for I see you,
You splash in the water there, yet stay stock still in your room.
Dancing and laughing along the beach came the twenty-ninth bather,
The rest did not see her, but she saw them and loved them.


The beards of the young men glisten’d with wet, it ran from their long hair,
Little streams pass’d all over their bodies.
An unseen hand also pass’d over their bodies,
It descended tremblingly from their temples and ribs.


The young men float on their backs, their white bellies bulge to the sun,
they do not ask who seizes fast to them,
They do not know who puffs and declines with pendant and bending arch,
They do not think whom they souse with spray.

–Walt Whitman, "Song of Myself", Leaves of Grass (1855)



Thomas Eakins, The Swimming Hole, 1885

Aqui, Eakins faz-se precursor de pintores como o americano Charles Demuth (1883 - 1935) e o britânico David Hockney (n. 1937), autores de belos trabalhos com a mesma delicadeza homoerótica.

Charles Demuth, Three sailors, 1917


David Hockney, Peter Getting Out Of Nick's Pool, 1966


OUTRAS PINTURAS DE THOMAS EAKINS



Portrait of Walt Whitman, 1888




The Biglin Brothers turning the stake, 1873




Thomas Eakins, Taking the count, 1898




Salutat, 1898



Portrait of Douglas Morgan Hall, 1899



Clara, 1900

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