Há algumas semanas, escrevi sobre a canção "John Wayne Gacy Jr.", de Sufjan Stevens, e sobre a beleza assustadora de um poema lírico que se arrisca a encarar o horror com olhos abertos, bisbilhotando no miocárdio das trevas.
Alguns nos alertaram sobre os perigos de abrir os olhos na presença do horror. Kurtz de Conrad, Kurtz de Coppola. Uma coisa é, no entanto, buscar o horror no meio da selva escura do Outro; outra coisa é enfrentar o horror no coração daquilo que chamamos de civilização. Como o furor de Clarice Lispector em A Maçã no Escuro (1951) ou A Paixão segundo GH (1964), estes dois livros altamente metafísicos e (lá vem uma de minhas blasfêmias) políticos. Em denúncia da mentira civilizatória, a ela só Machado de Assis se equipara entre escribas brasilianos.
Penso nos poetas que enfrentaram as implicações do horror nazista, como Paul Celan, Edmond Jabès, Nelly Sachs, Raymond Federman, Tadeusz Różewicz. Os romancistas que seguiram expondo a sobrevivência do horror em meio à hipocrisia do pós-guerra, como Thomas Bernhard ou Primo Levi.
Não vou me referir desta vez, porém, a esta lírica poderosa do pós-guerra. Nem é o lugar para retornar à famosa frase de Adorno, a mal-entendida, ainda que queira tratar disso em breve.
Queria falar, na verdade, de um texto que tenho ouvido nas últimas semanas, levando-me a pensar sobre algumas questões poéticas. Trata-se de um poema lírico de Antony Hegarty (o poeta associado ao coletivo Antony and The Johnsons) que me parece assustador ao conseguir usar imagens do horror para criar um texto oral de grande potência.
Quem teria coragem de escrever um poema-canção com este título?:
"Hitler in my heart"
Antony Hegarty vai mais longe: usando uma linguagem que poderíamos filiar aos expressionistas germânicos, emprega algumas imagens muito conhecidas, como as flores que crescem dos cadáveres, expandindo-as em horror para os "maxilares de estupradores", entre os quais o poeta descende em busca de "kindness". Com uma aliteração principal que parte dos vocábulos "jaws" e "Jews", que caem, caem, ele então dá-nos esta imagem poderosa de tradução do Holocausto: "the Well of Blood in Vain": o poço do sangue em vão, questionando o uso do termo sacrificial para o extermínio dos judeus da Europa. Não é à toa que os próprios judeus usam o termo Shoah: catástrofe. Quem caminha pelas ruas alemãs sente a presença desta catástrofe por uma sensação de ausência, pelo vazio que se sente em cada cidade deste país.
Estas parcas imagens, na garganta de um poeta-cantor brilhante como Antony Hegarty, transformam-se numa canção de amor muito bela, mas perturbadora em suas implicações.
Como conciliar o horror... o HORROR... o HOR---ROR e ... a... be... le... za?
Hitler in my heart
Antony Hegarty
As I search for a piece of kindness
And I find Hitler in my heart
And he is whispering
"As sure as love will spring
From the Well of Blood in Vain, oh Jew!
The Well of Blood in Vain!"
La la la la la la
And I fell into a deeper precipice
With mouths of rapists
Jaws dropped down
Jaws dropped
Don't punish me
For wanting your love inside of me
And I find Hitler in my heart
From the corpses flowers grow
§
Reconhecer em nós o horror.
To Hyde the Jekyll na superfície do espelho. Quis dizer, na verdade, to hide the jackal na sombra facial do espelho.
Como Sufjan Stevens escreve na canção "John Wayne Gacy Jr." que "in my best behavior / I am really just like him / Look beneath the floorboards / For the secrets I have hid", o HoRRoR do palhaço assassino a virar a esquina da alma, Antony Hegarty buscando alguma kindness e encontrando, em seu peito, Hitler. Nós, entre os civilizados.
Ouvi dizer que Clarice Lispector dissera a um jovem, certa vez, que ele jamais seria um escritor, porque ele tinha... medo. Só quando passei a ler todo o trabalho de Lispector, como aquela coisa absurda de ambiciosa que é A Maçã no Escuro, é que percebi o que ela queria dizer; assim como o Qadós (1973), de Hilda Hilst; ou The Journal of Albion Moonlight (1941), de Kenneth Patchen; ou Watt (1945/1953) e Molloy (1951), de Samuel Beckett. Poemas como "Janela do caos", de Murilo Mendes; os "Pisan Cantos", de Pound; "Todesfugue" e "Engführung", de Celan. Esta coragem de olhar nos olhos do hoRrOr. Reconhecer-se nele. Mas, querido, segue o aviso: não é trabalho para qualquer segunda-feira. Nem adianta fingir que você voltou de Auschwitz, se voltou de Búzios. Paga-se por esta mirada. São mais de 300 páginas de trevas para poder escrever:
"Porque eu, meu filho, eu só tenho fome. E esse jeito instável de pegar uma maçã no escuro — sem que ela caia."
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segunda-feira, 23 de março de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Canção assustadora - e linda; por ser linda, mais e mais assustadora. Como conciliar isto e isso?

A canção (ou poema lírico) "John Wayne Gacy Jr" é uma das faixas mais belas do lindíssimo álbum Illinois (2005), de Sufjan Stevens, uma das minhas criaturas favoritas no planeta chamado Hoje. O concept album é o segundo do épico (arriscaria dizer quase impossível) de Stevens, que se propôs a escrever um álbum para cada um dos 50 estados americanos. Bem, ele está ainda no segundo. O primeiro chama-se Michigan (2003).
Quem leu minha Carta aos anfíbios sabe que eu não escapo de poetas que trabalham com textos cheios de implicações religiosas, uma característica que incomoda, aqui na Europa, mesmo os fãs mais ardorosos de Sufjan Stevens. O álbum dedicado ao estado de Illinois, onde fica a cidade de Chicago, faz referência a muitas das lendas que passaram pela cidade, cheio de imagens bíblicas. Invocando o poeta Carl Sandburg, "Chicago" é, aliás, um dos lindos poemas do álbum, que tem textos dedicados a várias criaturas e paisagens daquele canto do sonho&pesadelo estadunidense.

Uma das criaturas é o senhor John Wayne Gacy Jr., o serial killer que matava moços lindos e os enterrava dentro de sua casa, escondendo os corpos sob o assoalho. Nas horas vagas, ele se vestia de palhaço e animava festas de aniversário de crianças.
O texto, na voz de Stevens, faz desta canção uma coisa arrepiante, assustadora. O vídeo, quando se conhece a história de Gacy, torna a experiência ainda mais perturbadora.
Ao mesmo tempo, a canção me parece linda, linda. Como conciliar o horror... o HORROR... o HOR---ROR (Kurtz de Conrad, Kurtz de Brando) e ... a... be... le... za?
Todos os passageiros, apertem os cintos. Próxima parada: coração das trevas. Apreciem a paisagem.
§
Moços e moças, tomem cuidado.
Não aceitem doces ou foices de estranhos.
§
Mostro abaixo o texto (a letra?) para acompanhar a canção.
Pede-se aos literatos que ponham luvas nos olhos.
John Wayne Gacy Jr.
Sufjan Stevens
His father was a drinker
And his mother cried in bed
Folding John Wayne's T-shirts
When the swingset hit his head
The neighbors they adored him
For his humor and his conversation
Look underneath the house there
Find the few living things
Rotting fast in their sleep of the dead
Twenty-seven people, even more
They were boys with their cars, summer jobs
Oh my God
Are you one of them?
He dressed up like a clown for them
With his face paint white and red
And on his best behavior
In a dark room on the bed he kissed them all
He'd kill ten thousand people
With a sleight of his hand
Running far, running fast to the dead
He took off all their clothes for them
He put a cloth on their lips
Quiet hands, quiet kiss
On the mouth
And in my best behavior
I am really just like him
Look beneath the floorboards
For the secrets I have hid
§
John Wayne Gacy Jr. (1942-1994), assassino em série americano, conhecido como o "palhaço assassino". Em 1978, a polícia de Chicago fez uma busca na casa n° 8213 da West Summerdale Avenue, interrogando seu morador, John Wayne Gacy, palhaço amador muito querido pelas crianças da cidade e que dificilmente cometeria algum crime. Ledo engano. Antes de deixarem o local um dos policiais estranhou um cheiro desagradável na casa; "É só um entupimento nos canos de esgoto", explicou Gacy. Mas os policiais decidiram investigar mesmo assim. No porão, sob um alçapão oculto, foram encontrados os restos de vinte e nove garotos entre nove e vinte e sete anos, com sinais de tortura, violências sexuais e estrangulamento.
John Wayne Gacy Jr., nascido em Chicago em 1942, também teve uma infância meio traumática: era espancado e chamado de "bichinha" pelo pai alcoólatra, sofreu um traumatismo craniano aos 15 anos, e em 1968 foi preso por estar praticando atos sexuais com um jovem no banheiro de um bar. Gacy começou a matar em 1972, e suas vítimas eram todos homens. Os rapazes recebiam propostas de emprego, iam até a casa de Gacy, eram embebedados, amarrados numa cadeira e sexualmente violentados.
Em 1988, Gacy foi condenado a 21 prisões perpétuas e 12 penas de morte. Enquanto aguardava no Corredor da Morte do Menard Correctional Center de Illinois, Gacy - apelidado pela imprensa de "Palhaço Assassino" - passava o tempo fazendo desenhos infantis, especialmente de palhaços. Suas ilustrações são consideradas itens de coleção, e alcançam altos preços no mercado.
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