domingo, 28 de dezembro de 2008

Edith Beale mãe e Edith Beale filha: Grey Gardens

Porque o mundo esconde criaturas fabulosas.



Há duas noites, eu jantava com meu amigo Heinz (que é também um de meus fotógrafos alemães favoritos, Heinz Peter Knes) e seu namorado Buck. Após a comida e o café, Heinz perguntou se queríamos ver um filme. Eu disse o que geralmente digo neste caso: "Claro! Mas depende do filme."

A lista de opções começou. Ele sugeriu Opening Night, do John Cassavetes, um dos meus filmes favoritos (Gena Rowlands perfeita, perfeita, perfeita), mas já vira o filme várias vezes. Após outros nomes, mais ou menos interessantes, Heinz disse: "Nós podíamos assistir Grey Gardens."

Eu respondi que não sabia do que se tratava. Heinz arregalou os olhos, esboçou o sorriso maroto de quem sabia que estava prestes a acrescentar um novo universo paralelo à cosmologia das minhas obsessões e apertou o PLAY.

Desde então, já pesquisei o que há sobre as duas Edies na rede, Big Edie - a mãe; e Little Edie, a filha: as criaturas Edith Bouvier Beale mãe e Edith Bouvier Beale filha, da família Bouvier, a de Jacqueline Kennedy, nascida Jacqueline Bouvier, mais tarde Kennedy e Onassis.

Big Edie e a maravilhosa Little Edie transformaram-se em figuras cult após o documentário dos irmãos Maysles, chamado Grey Gardens e lançado em 1975.


O documentário é realmente primoroso, apresenta as duas mulheres de maneira respeitosa, afetuosa e ao mesmo tempo é implacável. Algumas das frases de Little Edie não me saem da cabeça.


Eu pagaria qualquer coisa para ler os poemas que Edith Beale escreveu antes de morrer sozinha na Flórida em 2002 (sua mãe morrera em 1977, dois anos depois do documentário.) Seu corpo seria encontrado cinco dias depois.





Para mim, o documentário foi devastador. Esta foi a reação imediata. Terminei o filme muito triste, pensando em como criaturas fabulosas como estas terminam a vida desta maneira, esquecidas em uma casa tomada pelos ratos, gatos e racoons. Deixou-me num humor totalmente "eclesiastes", numa coisa meio "carpe diem" e "tempus fugit", inflando em minha mente um "Nasce o sol e não dura mais que um dia", um "Nothing golden stays", aquilo que me faz respeitar a moda como a tristeza camuflada do transitório, lembrei-me do que me levou a escrever o poema "Lembrete", que encerra meu primeiro livro, Carta aos anfíbios:

Lembrete

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
............e escamas.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a secobarbital.

Carlos Drummond de Andrade
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
...............................cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.


§

Trata-se de um lembrete para mim mesmo.

§

Ao mesmo tempo, há algo de luminoso nestas duas criaturas. Para descrever a alegria de descobrir este documentário e suas figuras, Big Edie e Little Edie, eu gostaria de citar a própria Little Edie: "I am pulverized by this latest thing."


Pode-se assistir ao documentário no YouTube, infelizmente em 11 partes, AAQQUUII - parte 1 de 11.

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3 comentários:

Nydia Bonetti disse...

Ricardo
Conheci teu blog através do Poesia Hoje. Lucidez que impressiona. Parabéns.
Este post especialmente, me fascinou...
Abraços.

melissa disse...

Assisti ao filme com Jessica Lange e Drew Barrymore 7 vezes, e não passa um dia sequer que eu não pense no que podemos ter perdido ao virar a esquina errada... Ao ler seu post, percebi que você deve ter sentido o mesmo: como a vida pode escapar pelos dedos, e como as nossas escolhas são determinantes. Parabéns pela clareza e sensibilidade. Melissa.

Anônimo disse...

Nossa....estou pra tomar atitudes em menha vida mas após ter visto este filme,vejo que uma simples frase muda totalmente nossas vidas.
Realmente este filme é uma lição que jamais irei esquecer,e espero ir pelo caminho certo......que Deus nos ajude!!!!
Meu nome é Silvana leite manfredini....beijo pra todos que lerem isto rsrsrsrsr.

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