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domingo, 24 de outubro de 2010

Amigos fotógrafos e suas publicações recentes: Segunda postagem: "Die Schwulennummer: Das Plakat", de Heinz Peter Knes.

Conheci Heinz Peter em 2004, no lendário clube Black Girls Coalition, que infelizmente já não mais existe, ficando apenas na memória de uma Berlim caótica, criativa e livre no período pós-Muro imediato, que aos poucos vai também deixando de existir para se transformar cada vez mais na capital da Alemanha. Somos hoje muito amigos e discutimos muito sobre o nosso trabalho, confio demais em sua sabedoria. Já colaboramos de várias maneiras, mas as mais notáveis foram seu pequeno livro Corps (2009), publicado na França como separata da revista Double, para o qual escrevi um dos meus poemas favoritos, em inglês e português, o texto "Corpo". Discuti esse trabalho e o texto em um artigo do ano passado.

Nossa mais recente colaboração ::::: um díptico fotográfico seu que retrata o túmulo do cineasta Friedrich Wilhelm Murnau (1888 - 1931), com poema meu em inglês ::::::: será publicada no mês que vem pelo projeto eletrônico This Long Century.

Informações práticas: Heinz Peter Knes nasceu em 1969, em Gemünden am Main, sul da Alemanha. Após uma passagem por Colônia, o fotógrafo vive desde o início da década em Berlim, de onde já fotografou para revistas como Purple, Butt, i-D, Nylon, 032c, Dutch, Doingbird, e Camera Austria, entre outras. Heinz Peter já me retratou em vários momentos, e uma foto minha acaba aparecendo em sua mais recente publicação: a edição limitada de 1000 exemplares de um cartaz gigante :::: (140 x 200cm) :::: com sua série "Die Schwulennummer", algo como "O Número Viado". Aqui, na ironia típica de Heinz Peter, "número" é usado tanto no sentido matemático, também de "edição", e sub-repticiamente como em "cada uma das partes executadas (de dança, música, etc.) de um espetáculo de variedades", algo circense, aludindo a certa teatralidade que ele critica na cena homossexual. Em sua página pessoal, há um diálogo entre mim e Heinz Peter sobre a noção de gênero, identidade, queerness, e outros gudes, mas apenas em alemão. A série tem 32 fotos.


(Heinz Peter Knes, "Die Schwulennummer")



Apresentei já há dois anos alguns trabalhos de Heinz Peter Knes na Hilda Magazine.

Abaixo, detalhe da apresentação do cartaz no lançamento que organizei para meu querido Heinz Peter Knes em nosso evento semanal às quartas-feiras. Já tenho o meu exemplar, que também guardei com as outras originais assinadas deste que é meu grande amigo e um dos melhores fotógrafos alemães em atividade.




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domingo, 26 de setembro de 2010

Cuidado com os anos de 13 luas, avisa mestre Fassbinder

Quando eu me mudei para a Alemanha, no começo desta década que agora se encerra, já trazia do Brasil em minha bagagem mental alguns mestres pessoais que eram alemães. De forma bastante clara, Walter Benjamin (1892 - 1940), e Bertolt Brecht (1898 - 1956). O pensador berlinense passou a ser presença determinante em meus pensamentos desde que li alguns de seus ensaios traduzidos para o português, lá pelos idos de 1997, quando tinha uns 20 anos. Brecht tornou-se uma presença forte em minha vida a partir do meu primeiro ano na Universidade de São Paulo, onde estava matriculado como estudante de filosofia, mas onde passei a frequentar um grupo de estudos da Faculdade de Artes Cênicas, que se reunia todas as quartas-feiras para ler e discutir uma peça de Brecht, até lermos todas. Este grupo viria a se tornar a Tribo de Teatro Tumutupugá, que teve uma importância gigantesca em minha vida. Vale lembrar que, no final da década de 90, o grupo teatral paulistano Companhia do Latão havia se lançado em uma verdadeira cruzada brechtiana em meio à Paulicéia.

Mais tarde vieram Joseph Beuys (1921 - 1986), com seu conceito de escultura social, e Eva Hesse (1936 - 1970), com sua brilhante manipulação de materiais, na qual eu enxergava elementos para minha busca da corporalidade poética. Estes dois artistas funcionavam como a parelha alemã de minha admiração por Lygia Clark (1920 - 1988), e Hélio Oiticica (1937 - 1980).

No início desta década viriam então, com grande força, a presença de austríacos como o gigantesco SALVE SALVE Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951), o poeta H.C. Artmann (1921 - 2000), o cineasta Michael Haneke.

Minha primeira reação e relação com o trabalho de Rainer Werner Fassbinder (1945 - 1982) foi tumultuosa, negativa. Os primeiros filmes a que assisti foram Liebe ist kälter als der Tod {O amor é mais frio que a morte} (1969) e Händler der vier Jahreszeiten {Negociante das quatro estações} (1971), que me pareceram, com o perdão da palavra, chatos, nouvellevagueanos em um sentido negativo, copioso. Mesmo um filme como Götter der Pest {Deuses da peste} (1969), filmado entre os dois que mencionei, ainda mostra certos trejeitos godardianos, em minha opinião. Mas é no ano seguinte (ele trabalhava em cerca de 3 ou 4 filmes por ano) que Fassbinder dirigiria, baseado em uma peça teatral sua, um dos meus filmes favoritos, e aquele que faria com que eu retomasse toda a sua filmografia com outros olhos: o estupendo e completamente Fassbinder Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972). Nele, a visão extremamente negativa e cheia de cicatrizes com que Fassbinder contemplava as relações amorosas chega a um de seus ápices do sarcasmo, a mesma que ele já demonstrara em sua peça Tropfen auf heisse Steine {Gotas d´água em pedra escaldante), que seria mais tarde muito bem filmada por outro diretor homossexual, o francês François Ozon. Em Petra von Kant, as cores berrantes que Pedro Almodóvar passaria a usar aparecem com uma década de antecedência, mas sem o humor do espanhol. Fassbinder, como Pasolini, sempre foi um mestre da observação detalhada da crueldade entre os humanos, de como o amor se torna um jogo de poder e dominação.


Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972), de Rainer Werner Fassbinder


A importância do papel desempenhado por Rainer Werner Fassbinder na Alemanha das décadas de 60 - 80 é inestimável, talvez comparável apenas à influência de Joseph Beuys, dois dos intelectuais e figuras públicas mais fascinantes do país naquele período. Sua coragem em atacar as hipocrisias nacionais, sem medo de ofender a direita ou a esquerda, só pode ser comparada na literatura e cinema da Europa do pós-guerra à coragem de outro intelectual homossexual, o italiano Pier Paolo Pasolini.

O motivo desta postagem na verdade é que assisti, há uma semana e com meus queridos amigos Heinz Peter Knes e Jonas Lieder, a um dos filmes mais impressionantes e assustadores de Fassbinder, que me deixou com calafrios est-É-ticos e muitas perguntas. Trata-se do obscuro In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), do mesmo ano em que Fassbinder filmaria com outros alemães o filme coletivo Deutschland im Herbst {Alemanha no outono}, que trata dos acontecimentos assustadores daquele ano, que culminariam com a morte misteriosa dos líderes da Facção do Exército Vermelho na prisão. A cena que mostro abaixo, do filme In einem Jahr mit 13 Monden, é bastante chocante, aviso aos leitores. Trata-se da história de um transexual alemão, o órfão Erwin Weishaupt, que se transforma em Elvira Weishaupt, interpretado de forma brilhante por Volker Spengler.


Cena de In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), de Rainer Werner Fassbinder.

Passei os últimos dias pensando em Fassbinder, mestre eleito pessoal meu, em Pasolini, outro mestre, e comecei a me perguntar se havia alguém deste patamar no Brasil. Patamar é uma palavra difícil, pois não quero apenas fazer comparações de valor, e alguém poderia entender a pergunta desta forma. Digamos então, alguém com tal vigor em investigar a política e suas relações de poder, dominação, servidão, até mesmo nas relações entre os sexos e as sexualidades, alguém com tal agenda, de uma potência ética quase minimalista (ouso aqui este conceito), não em estilo, mas em denúncia e desmascaramento minucioso das filigranas sociais, não apenas por épicos messiânicos, de caráter nacional.

Serei ainda mais direto: não houve no Brasil do pós-guerra um intelectual homossexual deste calibre, do calibre de Fassbinder, de Pasolini, com um alcance e uma combatividade tão amplas. Compará-los com a figura brasileira que ocupou este espaço, o heterossexual Glauber Rocha, homem genial e que admiro muitíssimo, sempre propenso ao épico, ao descomunal, ao messiânico, mostra alguns detalhes importantes nas diferenças entre certas sensibilidades. Já sei... os amigos e colegas heterossexuais (são sempre eles que se incomodam com esta discussão) enviarão mensagens, dizendo que este debate é desimportante, que a sexualidade destes homens NADA (!!!) define em suas sensibilidades. Eles talvez estejam certos. Mas eu duvido.

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Berlin, Berlim

Desde o início do século XX, Berlim tem sido porto para os navegantes em busca de certas possibilidades, certas liberdades e libertinagens. O período da República de Weimar (1919 - 1933), quando o povo que habita este território, hoje conhecido como Alemanha, gozou de algumas das maiores liberdades civis de sua história e também das graves consequências da Primeria Grande Guerra, apenas para ver tudo mergulhar no caos da ascensão nazista ao poder, viu a cidade abrigar alguns dos artistas mais interessantes dos primeiros modernismos. Berlim sediou o grupo mais politizado dentre os dadaístas germânicos, com Raoul Hausmann, Richard Huelsenbeck e Hannah Höch à frente.

(colagem de Hannah Höch)

Na verdade, cada um dos movimentos de vanguarda que surgiram em língua alemã ou residiram em Berlim acabaram tendo aqui sua forma mais combativa e politizada, seja o expressionismo (basta pensar nas telas de Otto Dix e George Grosz),

(pintura de Otto Dix)

DADA (poemas de Hausmann, colagens de Höch), Fluxus (ou sua versão através do trabalho de Joseph Beuys), Pop Art ou o Punk, sem mencionar o “Kapitalistischen Realismus” (Realismo Capitalista) de Sigmar Polke, Gerhard Richter e Konrad Lueg. Os alemães são obcecados com suas versões da tal de realidade.

(ilustração de Sigmar Polke)

Esta obsessão realista pode ser claramente sentida na tradição fotográfica alemã, com August Sander, Bernd & Hilla Becher ou, nos dias de hoje, com Wolfgang Tillmans e Heinz Peter Knes.

(fotografia de August Sander)

§

(fotografia de Bernd & Hilla Becher)

§

(fotografia de Wolfgang Tillmans)

§

(fotografia de Heinz Peter Knes)


A década de 20 viu ainda alemães como Walter Benjamin e Bertold Brecht caminhando pelas ruas da cidade, mas também atraiu muitos estrangeiros, como o poeta W.H. Auden ou o romancista Christopher Isherwood, em busca da famosa liberdade sexual e vida noturna berlinenses. Esta época encontra expressão famosa no romance Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, mais tarde filmado por Rainer Werner Fassbinder.

§

Sobre o pobre B.B.



1

Eu, Bertolt Brecht, vim das florestas negras.
Minha mãe trouxe-me, no abrigo
de seu ventre, às cidades. E, enquanto eu viver,
o frio das florestas estará comigo.

2

Na cidade de asfalto estou em casa.
Recebi cada extrema-unção logo, a saber:
jornais, álcool, tabaco. Cheio
de suspeitas, preguiça e, afinal, de prazer.

3

Eu sou cordial com todos. Ponho
um chapéu-coco, pois isto é normal.
Eu digo: que animais de cheiro estranho.
E digo: tudo bem, eu sou igual.

4

Eis que em minhas cadeiras vagas, de manhã,
uma mulher ou outra se balança.
Olho-a sem pressa e digo-lhe: dispões
em mim de alguém que não merece confiança.

5

À noite eu me reúno com os homens.
Tratamo-nos de gentlemen. O bando,
com pés na minha mesa, diz que tudo
vai melhorar. E eu nem pergunto: quando?

6

À luz da aurora gris pinheiros mijam
e os pássaros, seus vermes, abrem o alarido.
É quando, na cidade, esvazio o meu copo,
jogo fora o charuto e me recolho aflito.

7

Nós, geração leviana, vivemos em casas
supostamente eternas. (Desse modo, além
de altos caixotes em Manhattan, construímos
junto do Atlântico as antenas que o entretêm.)

8

Restará das cidades quem as cruza: o vento.
A casa alegra o comensal que a dilapida.
Sabemos bem que somos provisórios.
Nem vou falar do que virá logo em seguida.

9

Manter, sem mágoa, nos futuros terremotos,
o meu Virgínia aceso — já me satisfaz.
Eu, Bertolt Brecht, que, das florestas às cidades,
vim no ventre materno, anos atrás.


(Bertolt Brecht em tradução de Nelson Ascher, publicada em Poesia Alheia)

§

Durante o período do muro, a parte ocidental de Berlim voltaria a ser porto para os que buscavam escapar do serviço militar alemão e, com a condição-de-ilha da parte ocidental, o pouco policiamento e aluguéis baratos, artistas alemães e estrangeiros voltaram a ocupar a cidade. Foi aqui, na década de 70, que David Bowie e Iggy Pop produziram algumas de suas grandes canções. Aqui, o Punk, a New Wave e o rock industrial encontraram sua combativa maneira alemã, com grupos como o Tödliche Doris (com Wolfgang Müller à frente), o Malaria! (de Gudrun Gut) ou o Einstürzende Neubauten (de Blixa Bargeld).


(Malaria! - "Geld/Money")

Com a morte de Bertolt Brecht, o teatro Berliner Ensemble (um de meus prédios favoritos em Berlim, gosto de ir escrever na praça diante do teatro, com o rio Spree às costas e a estátua de Brecht à frente) passa a ser comandado por Heiner Müller, uma grande referência literária para o meu trabalho, com seus textos inclassificáveis, como Der Auftrag (A Missão) (1979) e Die Hamletmaschine (1977). Ou aquele que é um de meus textos favoritos em língua alemã: o estupendo salve-salve poema/peça "Medeamaterial". No pós-guerra, criaturas como Rainer Werner Fassbinder, Joseph Beuys e Heiner Müller mantiveram Berlim e a Alemanha no mapa do mundo. Estes três estão entre minhas maiores referências est-É-ticas.


(trecho do filme "I was Hamlet", sobre Heiner Müller)


(Joseph Beuys)


(Rainer Werner Fassbinder)

A Alemanha e sua língua não têm uma presença tão aparente ou óbvia na cultura brasileira, a não ser no teatro, onde Bertolt Brecht ainda impera como incontornável. A relação dos alemães com Brecht é muitíssimo mais complicada.

Os brasileiros sempre se voltaram para os franceses. Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Heitor Villa-Lobos e outros primeiros modernistas gostavam de perambular por Paris, como a maioria dos primeiros modernistas de qualquer país ocidental, de César Vallejo a T.S. Eliot, passando por Vladimir Maiakóvski. Nos últimos tempos, de forma muitas vezes quase subserviente e pouco crítica, os poetas brasileiros voltaram-se para os estadunidenses. Nova Iorque é logo ali e a Barra da Tijuca fica em Miami.

Poeta brasileiro vivendo no estrangeiro é coisa corriqueira. Não inaugurei atividade qualquer. Além dos já mencionados brasil-parisienses, houve a longa morada de Murilo Mendes em Roma, João Cabral de Melo Neto em Sevilha e Barcelona, assim como Clarice Lispector e João Guimarães Rosa muito perambularam, escrevendo vários trabalhos no exterior. Hoje em dia, há os casos de Zuca Sardan e a vagamundos Angélica Freitas.

Viver em outro país, mas principalmente em outra língua, traz características novas para o trabalho de um artista da linguagem. Por exemplo, uma visão saudavelmente "artificialista" para a "língua materna", salvando-o da falácia do natural. O exílio não é uma condição a ser lamentada ou celebrada, mas usufruída e aprendida. Jamais escrevi ou escreveria uma nova "Canção do exílio", mas com meu pendor por gender trouble, escrevi minha "Cão são da ex-ilha".

§

Cão são da ex-ilha

o desgosto de cada
passo confirmar o mapa
e o diafragma contraído
entende o queixo
no joelho,
meio-dia e meia
o centro da certeza
que caminha do “quero“
ao “não-quero“,
palha, fênix, Joana
d’Arc, como perceber
que abismo e precipício
não
são sinônimos
exatos,
ou acordar no meio da
noite sem energia
elétrica
e sussurrar com a calma
do fim da força:
equivalendo
silêncio e escuridão,
real
apenas a escolha
da língua, entre-
tanto a
memória
das possibilidades
morre
para que o fato
entre inassistido
nas atas
do verídico;
saiu o sol,
deve estar tudo
bem; subiu a lua,
deve estar tudo
bem;
trocar de pele
continuamente
talvez
leve-me ao centro
e a ausência
me escame
como quem diz
“eu sinto
a falta”


(Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)

§

Considero Berlim um ângulo privilegiado para contemplar o mundo e, em especial, o ocidente. São Paulo e Berlim são minhas cidades de escolha, as que impregnam meu trabalho. Não consigo me identificar com abstraçoes gigantescas como países, prefiro a concretude das cidades. Sou um poeta de São Paulo e de Berlim. Cada poeta é poeta de sua cidade. Manuel Bandeira foi poeta do Recife e do Rio de Janeiro. Oswald de Andrade foi poeta de São Paulo, como o é Augusto de Campos. João Cabral de Melo Neto com Recife e Sevilha. "A cidade sou eu / sou eu a cidade / meu amor", escreveu Carlos Drummond de Andrade, o itabirano carioca.

Com a queda do muro, Berlim voltou a reunir alguns dos artistas estrangeiros mais interessantes. Janine Rostron, a Planningtorock, mora aqui, assim como Olof Dreijer.


(Janine Rostron a.k.a. Planningtorock - "Changes")

Alguns dos poetas alemães contemporâneos mais interessantes vivem hoje em Berlim, como Monika Rinck e Daniel Falb ou Sabine Scho, que divide seu tempo entre Berlim e São Paulo.

Ler parágrafos biográficos sobre artistas visuais contemporâneos invariavelmente leva-nos a ler a frase "So-and-so lives and works in Berlin." Na nossa Berlin Hilton, o evento semanal que organizo por aqui, tiro proveito desta situação privilegiada, convidando alguns dos artistas sonoros que mais me interessam.

Esta semana, foi o caso do artista sonoro francês Jackson Fourgeaud, que se apresenta como Jackson and His Computer Band. Seu álbum de estréia, chamado Smash (2005) e lançado pelo selo Warp, foi um dos mais celebrados da década aqui na Zooropa. Gosto muitíssimo de seu trabalho e considero-me sortudo por compartilhar oxigênio e roçar ombros com ele aqui no Berlimbo.




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(Jackson and His Computer Band - "Utopia")

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Escrever o corpo: poema (quase) inédito + "como verter-se a si mesmo" + colaboração com Heinz Peter Knes


Conheci o fotógrafo alemão Heinz Peter Knes no final de 2004, no antigo (já falecido) clube noturno Black Girls Coalition, organizado pela genial drag queen nova-iorquina negra Miss Paisley Dalton, onde colaborei com alguns dos melhores eventos punks do Berlimbo. Tornamo-nos bons amigos, colaboramos algumas vezes e, no meu segundo livro, a cadela sem Logos (2007), dediquei a ele o "Poema começando `Quando´". Há cerca de dois meses, Knes escreveu-me, contando sobre uma série fotográfica que estava preparando para uma revista francesa, chamada Double, com o título "Körper" (Corpos), que seria publicada no interior da revista, no formato de um pequeno livro destacável. Knes queria justapor imagens e textos, e convidou-me para escrever algo que acompanhasse a série.

Assim como Heinz Peter Knes, em seu trabalho como fotógrafo, constantemente pesquisa o corpo humano como veículo e recipiente dos jogos de representação e campo de atuação est-É-tica, desde meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (2005), escrever e compor o corpo e através do corpo e com o corpo têm sido uma de minhas pesquisas mais incessantemente obsessivas, passando por vídeos como meu oralfesto "Garganta com texto" (2006) ou a performance vídeo-textual "This is the voice" (2008). Nesta pesquisa, eu buscava as implicações est-É-ticas do borrar das dicotomias que herdamos da Europa cartesiana, pseudo-iluminista, que gerara preconceitos intelectuais que ainda fazem de nossa sociedade um ambiente extremamente neurótico, quando não psicótico.

Como escrever o corpo? Como escrever com o corpo? Como recuperar nossa corporalidade em uma sociedade que até isso nos rouba? Como evitar, através da escrita do corpo e da escrita como performance linguística, a mera utilização da linguagem como jogo de representação, em que palavras tornam-se apenas placas indicando o caminho para alhures? Se pesquisamos, na poesia, a suposta materialidade da linguagem, então a primeira coisa a fazer seria lutar contra o que Rosmarie Waldrop chamou de "transparência do signo", fazendo da concretude da linguagem não a mera teatralização gráfica deste signo, mas a concretude como não-transparência-imediata entre significante e significado, criando um jogo de causequência. O corpo humano, aquele que se recusa a abstrair-se, que se derrete em secreções, produtor da linguagem em saliva e gases absorvidos do ar, poderia tornar-se um campo privilegiado desta pesquisa. O trabalho do poeta, assim, exigiria que ele compreendesse a poesia como algo além do jogo de linguagem quotidiano, em que palavra refere-se a objeto ou conceito, como Wittgenstein critica e expande as ideias de Agostinho no início das Philosophische Untersuchungen.

Os escritores que se entregaram a esta pesquisa (ou a esta obsessão com o corpo como "inabstraível"), seja Hilda Hilst em toda a sua escrita, o foco no "mundo das formas" até mesmo no cristianismo de Murilo Mendes, a "biografia por cicatrizes" de Severo Sarduy, os poemas de Rosmarie Waldrop, a indeterminação dos poemas de John Ashbery e Frank O´Hara, o trabalho sonoro-em-respiração de Henri Chopin, as palestras de John Cage (em que a descoberta da inexistência do silêncio ancora-se nos barulhos constantes de seu próprio corpo), o trabalho artístico de Nan Goldin, Eva Hesse e José Leonilson, sempre me serviram de exemplos, guias, mestres (só muito mais tarde percebi a "coincidência" de como a lista incluía tantos homossexuais e tantas mulheres... mas esta discussão fica para outra ocasião).

Usar em poesia aquilo que meu próprio corpo produz, ainda que isso vá parecer "narcisismo" a muitos.

Honestidade de recursos, não a falácia de sinceridade de expressão. Pois, ainda que se use o corpo nosso de cada dia, ninguém se engana em naturalidades: o que se usa em linguagem é sempre artifício.

Um dos jogos constantes em a cadela sem Logos era entregar-se aos desvios que o corpo impunha à meditação.

Tenho falado e escrito pelos cotovelos e outras articulações sobre esta preocupação est-É-tica. Ora, creio que não tenha feito outra coisa desde que primeiro vos incomodei. Perdoai. É obsessão, sim, mas não por achar isso "poético", nem "interessante", nem "Belo", nem "novo", nem "original" mas, de alguma maneira que venho tentando explicar sem saber dos resultados, necessário, quase decisivo.

Sim, eu já confessei que fui ao cinema onze vezes para assistir ao filme "A professora de piano", de Michael Haneke. O que vi naquele filme, entre outras coisas, foi o resultado de nossas sublimações, nós, os super-sublimes escritores que fingem que nunca suam, nem defecam, nem salivam, nem ejaculam, nem se menstruam. Os incorpóreos. Os que se negam a se mancharem de si mesmos. Tenho também meus motivos pessoais para ter visto aquele filme tantas vezes, pois, como disse aquele amigo meu em São Paulo certa vez, "Ricardo, você é muito Medéia."

Salvarmo-nos da neurose, aceitarmos, como adultos, nossos corpos em cada um de seus fluidos corporais, nossa limitação biológica, biográfica.

Responder com uma cure throat a quem falar em pure thought.

Dizer ao senhor poeta trans-histórico, quantos quilos e metros tem seu corpo. Alegria não é abstrata. A minha percorre 1,83 centímetros, distribui-se por 62 quilos.

§

Tudo isso para apresentar a colaboração com Heinz Peter Knes, publicada na França no mês que acaba de acabar.

Decidido a pesquisar justamente o corpo como campo de representação, como o que se recusa a abstrair-se em linguagem, trabalhei a partir da noção de Santo Agostinho que Wittgenstein chama de "um dos possíveis jogos de linguagem" no início das Philosophische Untersuchungen. Linguagem de definição. Descrição como explicação, como queria Gertrude Stein. Paródia de dicionário, para quem ri na cara de enciclopédias.

Como sempre no caso de colaboração com europeus, escrevi o texto diretamente em inglês. Seria outra discussão, a das implicações deste ato. De qualquer forma, muitos destes textos, trabalhando com as implicações do nacional e estrangeiro (apenas outra faceta do dualismo entre natural e artificial) estão em meu próximo livro, chamado Sons: Arranjo: Garganta, no prelo.

A pergunta que me impus, desde a primeira vez, foi sobre a função da tradução neste dualismo entre nacional e estrangeiro, entre natural e artificial. Por ora, apresento aqui algumas das páginas do pequeno livro Corps, de Heinz Peter Knes, para o qual escrevi o texto "body", primeiramente em inglês, depois "traduzido"/"reescrito" por mim em português e traduzido para o francês por Frédérique Longrée.




§

corpo
Ricardo Domeneck

cor.po
subst. m. corpo ['korpu]. pl. corpos. De nem
um. Massa
e peso
(favor não confundir)
anexados a superfícies
de código binário
aka masculino e feminino.
1. a. Geografia do posicionar-se. Área com fronteiras definidas; porção de espaço a sonhar com dicionários.
1. b. Locus de focus em terror, hocus pocus da lógica em orifícios úmidos.
1. c. Carcaça. "De volta à realidade!".
Diz-se 
que o mesmo ar
não pode circundar
dois ao mesmo
tempo.
2. a. Padrão de aparência perigosa para a mecânica da pureza; a ilusão da higiene. 
2. b. Não uma árvore.
Cores são encomendadas de acordo com o gosto.
Entrega segue regras de fabricação genética.
Exemplares ruivos
anexados a um pênis
são uma iguaria.
3. a. Não confiável em impermeáveis. Temporário e de oscilações frequentes. "Quase lá."
3. b. Um grupo de erros e equívocos reputados como uma sanidade; uma Corporação S.A.
Mas a esfera
privada
é também um pesadelo.
4. a. Estabelecimento comercial. Para instruções, referir-se ao manual, ao oral.
Som
conhecido como voz
cola-o
à sua definição.
5. Geringonça que não sua em fotografias:
5. a. Anal tomia. A maior peça da fricção.
5. b. Maquinaria para a produção de líquidos.
5. c. Exclusivo para índices e apêndices.
5. d. Destinado a lubrificantes.
Se cortado ou perfurado, tende a tornar-se mais atento.
6. Massa de matérias e matéria de farrapos.
Dê-lhe água,
faça-o celeste.
7. a. Uma coletânea ou quantidade, como de material ou informação: a evidência de sua inflação.
VOCÊ ESTÁ AQUI
em um mapa.
8. Mobília confortável que requer manutenção.

§

(texto "original" em inglês)

body
Ricardo Domeneck

bod·y (bd)
n. pl. bod·ies. Of no
one. Mass
& weight
(not to be confused)
attached to surfaces
of binary code
aka male and female.
1. a. Geography of place taking. An area with definite boundaries; a portion of space dreaming of dictionaries.
1. b. The locus of focus on terror, the hocus pocus of logic within humid holes.
1. c. Carcass, "Back to Reality!".
It is said
the same air
can not
surround
two at the same
time.
2. a. Seemingly dangerous pattern for the mechanics of purity; the illusion of hygiene.
2. b. Not a tree.
Colors are ordered according to taste.
Delivery follows genetic manufacturing rules
. Redhaired
ones attached to a penis
are a delicacy.
3. a. Not to be trusted in a raincoat. Temporary and quick to sway. "I am coming!"
3. b. A group of errors and mistakes regarded as a sanity; an Incorporation S.A.
But the private
sphere
is also nightmarish.
4. A business establishment. For instructions, check the manual, the oral.
Sound known
as voice
glues it
to its definition.
5. Contraption which does not sweat on photographs:
5. a. Anal Tommy. The largest part of friction.
5. b. Machine for the production of liquids.
5. c. Exclusive of indexes or appendixes.
5. d. Destined to lubricants.
When cut or pierced, tends to become more attentive.
6. A mass of matters and masses of tatters.
Give it water,
make it celestial.
7. A collection or quantity, as of material or information: the evidence of its inflation.
YOU ARE HERE
on a map.
8. Comfortable furniture which requires maintenance.

§

Corps
tradução para o francês (a partir do texto em inglês)
de Frédérique Longrée (Bruxelas, Bélgica).


Cor ps
n. pl. Cor ps. De
personne. Masse
& poids
(à ne pas confondre)
Attachés aux surfaces
De code binaire
Aka mâle et femelle.
1. a. Géographie de la place prise. Une aire avec des limites définies ; une portion d’espace rêvant de dictionnaires.
1. b. Le locus du focus sur la terreur, le hocus pocus de la logique dans des trous humides.
1. c. Carcasse, « Retour à la Réalité ! »
Il est dit
Le même air
Ne peut pas en
Entourer
Deux en même
Temps.
2. a. Dangereux modèle en apparence pour la mécanique de la pureté ; l’illusion de l’hygiène.
2. b. Pas un arbre
Les couleurs sont agencées en fonction du goût.
L’accouchement suit des règles de fabrication génétiques.
Les roux
Attachés à un pénis
Sont une délicatesse.
3. a. N’est pas fiable dans un imperméable. Temporairement et facile à influencer. « J’arrive ! »
3. b. Un groupe d’erreurs et de fautes considérés comme une santé ; Incorporation S.A.
Mais la sphère
Privée
Est également cauchemardesque.
4. Une maison de commerce. Pour les instructions, consultez le manuel, l’oral.
Le son connu
Comme voix
Le colle
A sa définition.
5. Machin qui ne transpire pas sur les photographies :
5. a. Anal Tommy. La plus grande part de friction.
5. b. Machine pour la production de liquides.
5. c. Exclusif des indexes ou appendices
5. d. Destiné aux lubrifiants.
Quand coupé ou percé, a tendance à devenir plus attentif.
6. Une masse de matières et des masses de lambeaux.
Donnez-lui de l’eau
Rendez-le célèste.
7. Un assemblage ou quantité, comme pour un matériau ou une information : l’evidence de son inflation.
VOUS ETES ICI
Sur une carte
8. Meuble confortable qui nécessite une maintenance.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Edith Beale mãe e Edith Beale filha: Grey Gardens

Porque o mundo esconde criaturas fabulosas.



Há duas noites, eu jantava com meu amigo Heinz (que é também um de meus fotógrafos alemães favoritos, Heinz Peter Knes) e seu namorado Buck. Após a comida e o café, Heinz perguntou se queríamos ver um filme. Eu disse o que geralmente digo neste caso: "Claro! Mas depende do filme."

A lista de opções começou. Ele sugeriu Opening Night, do John Cassavetes, um dos meus filmes favoritos (Gena Rowlands perfeita, perfeita, perfeita), mas já vira o filme várias vezes. Após outros nomes, mais ou menos interessantes, Heinz disse: "Nós podíamos assistir Grey Gardens."

Eu respondi que não sabia do que se tratava. Heinz arregalou os olhos, esboçou o sorriso maroto de quem sabia que estava prestes a acrescentar um novo universo paralelo à cosmologia das minhas obsessões e apertou o PLAY.

Desde então, já pesquisei o que há sobre as duas Edies na rede, Big Edie - a mãe; e Little Edie, a filha: as criaturas Edith Bouvier Beale mãe e Edith Bouvier Beale filha, da família Bouvier, a de Jacqueline Kennedy, nascida Jacqueline Bouvier, mais tarde Kennedy e Onassis.

Big Edie e a maravilhosa Little Edie transformaram-se em figuras cult após o documentário dos irmãos Maysles, chamado Grey Gardens e lançado em 1975.


O documentário é realmente primoroso, apresenta as duas mulheres de maneira respeitosa, afetuosa e ao mesmo tempo é implacável. Algumas das frases de Little Edie não me saem da cabeça.


Eu pagaria qualquer coisa para ler os poemas que Edith Beale escreveu antes de morrer sozinha na Flórida em 2002 (sua mãe morrera em 1977, dois anos depois do documentário.) Seu corpo seria encontrado cinco dias depois.





Para mim, o documentário foi devastador. Esta foi a reação imediata. Terminei o filme muito triste, pensando em como criaturas fabulosas como estas terminam a vida desta maneira, esquecidas em uma casa tomada pelos ratos, gatos e racoons. Deixou-me num humor totalmente "eclesiastes", numa coisa meio "carpe diem" e "tempus fugit", inflando em minha mente um "Nasce o sol e não dura mais que um dia", um "Nothing golden stays", aquilo que me faz respeitar a moda como a tristeza camuflada do transitório, lembrei-me do que me levou a escrever o poema "Lembrete", que encerra meu primeiro livro, Carta aos anfíbios:

Lembrete

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
............e escamas.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a secobarbital.

Carlos Drummond de Andrade
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
...............................cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.


§

Trata-se de um lembrete para mim mesmo.

§

Ao mesmo tempo, há algo de luminoso nestas duas criaturas. Para descrever a alegria de descobrir este documentário e suas figuras, Big Edie e Little Edie, eu gostaria de citar a própria Little Edie: "I am pulverized by this latest thing."


Pode-se assistir ao documentário no YouTube, infelizmente em 11 partes, AAQQUUII - parte 1 de 11.

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