terça-feira, 14 de abril de 2009

Angélica Freitas em cores

Gravei este vídeo na leitura de Angélica Freitas em Berlim, em 2007, no Instituto Cervantes, durante o Festival Móvel de Poesia Latino-americana.




A esta altura, seu livro de estréia, Rilke shake, já havia sido lançado pela coleção "Ás de colete", dirigida por Carlito Azevedo para a Editora Cosac Naify, na mesma leva em que saíra meu segundo livro, a cadela sem Logos.

Fui apresentado à poeta de Pelotas em julho de 2005, durante o lançamento coletivo no Bar Balcão, em São Paulo, quando apresentei meu primeiro livro, Carta aos anfíbios. Mais tarde, em 2006, organizando uma leitura na Casa das Rosas, também em São Paulo, para receber os poetas argentinos Cristian De Nápoli e Lucía Bianco, foi-me sugerido convidar Ms. Freitas. Foi nesta noite que pude conhecê-la um pouco mais, assim como Cristian De Nápoli descobriria seu trabalho e viria a convidá-la para o Festival Latino-americano de Poesia de Buenos Aires, o Salida al mar, e viria também a traduzi-la para o castelhano, pois estava editando a antologia Cuatro Poetas Recientes del Brasil (que inclui poemas de Angélica Freitas, de Joca Reiners Terron, de Elisa Andrade Buzzo e meus). Esta noite na Casa das Rosas foi também a única ocasião em que os 4 editores da Modo de Usar & Co. (Marília Garcia, Fabiano Calixto, Angélica Freitas e eu) estivemos juntos sob o mesmo teto.

Já escrevi um pequeno artigo sobre o que penso do trabalho de Angélica Freitas, para a revista portuguesa Águas Furtadas, que apresentou em 2007 uma pequena seleção de seus poemas. Qualquer adjetivo usado para o trabalho de Angélica Freitas seria altamente polêmico. Usar, então, este adjetivo? Angélica Freitas, a mais polêmica poeta brasileira? É isso? Pois seu trabalho parece gerar em muitos uma opinião invariavelmente extrema, seja Joca Reiners Terron caminhando por sua cozinha e dizendo que Angélica Freitas lhe parece uma das melhores poetas brasileiras vivas; ou Douglas Diegues, escrevendo sobre a sua delicadeza, que "non es uma Delicadeza fingida. Ou una Delicadeza construída com el Intelecto. Ou uma delicadeza di Secretária Perfecta. Es uma Delicadeza visceral que nasceu com a poeta Angélica Freitas"; ou Dirceu Villa, falando sobre a linguagem saborosa da poeta, até mesmo para olhos cansados de especialista; imagino que Villa esteja se referindo ao desafio de Pound: de que o poema deveria deliciar a leigos e especialistas? Pound, que sempre alertou que não se esquecesse que a poesia nasceu, em primeiro lugar, to delight the heart of man. Não preciso mencionar os que se contorcem em discordância à menção do nome da poeta.

Na obsessão por filiação (historiografia crítico-literária que copia certos parâmetros patriarcais, em especial a obsessão por hereditariedade), é tentador alinhar o trabalho de Angélica Freitas aos dos marginais cariocas, tanto pelos que o admiram, como os que o deploram, geralmente pelos mesmos (em minha singela opinião) equívocos de referências. É claro que os equívocos surgem também pela maneira como aquele grupo de poetas é visto em bloco homogêneo, como se fossem todos iguais em suas est-É-ticas. A própria Freitas já elencou Ana Cristina César e Ledusha como leituras iniciais. Seu trabalho, no entanto, parece-me estar a anos-luz de alguém como Cacaso. Estou afirmando, obviamente, que Angélica Freitas é muitíssimo mais interessante que Cacaso, não o contrário.

O trabalho de Angélica, porém, parece-me realmente distante do que buscavam os tais de marginais. Em primeiro lugar, o conceito de "sinceridade", pregado por Cacaso, não se aplica ao trabalho da gaúcha, que demonstra desconfiança, em verdade, por qualquer noção de "naturalidade". Linguagem é construção e artifício em seu trabalho, como no dos que mais me interessam entre os de sua e minha idade, uma das grandes diferenças entre o trabalho dos poetas jovens de hoje e os jovens da década de 70.

Outro problema de recepção é a falta de compreensão para a pluralidade de propósitos poéticos de um determinado momento, ou de qualquer momento. Não, não estou me referindo ao ecletismo acrítico pregado pelos poetas da década de 90, escondidos sob o manto do "pós-utópico" e da "trans-historicidade", estes bibelôs desonestos. Trata-se do equívoco de julgar um poema por parâmetros que o poeta deliberadamente evitou. Ou, para ser mais preciso, o equívoco de quem lê um poema como "Na banheira com Gertrude Stein" e o critica como se acreditasse que Angélica Freitas estava tentando escrever, com ele, a décima-primeira elegia de Duíno. Orfeu não desce ao Hades toda segunda-feira. Mas será ingenuidade minha acreditar que mesmo um literato necrófilo deveria possuir o discernimento para apreciar o trabalho em poemas como "Sereia a sério", "O que é um baibai?" e "O livro rosa do coração dos trouxas"? Pois, no fim, todo ato crítico é um ato de discernimento, para poder exercer a escolha. Se não me engano, a etimologia viria ao meu socorro. Mas, é bem possível que eu esteja louco, o que já foi insinuado.

Não se trata tampouco de "ironia" modernista o que vejo em seus textos, ainda que seja muito plausível falar, a respeito de alguns deles, de "iconoclastia". Eu mesmo escrevi sobre "relação não-autoritária com a tradição" no artigo para a revista portuguesa. Mas isso não explica muito, eu sei. Ajuda, no entanto, se lermos o trabalho de Angélica Freitas sob parâmetros e referências mais amplos. Não consigo encontrar muitos entre os brasileiros. Talvez Gregório de Matos em seus poemas satíricos, assim como Paulo Leminski, em sua "poesia-cicatriz", unindo os dualismos que entrincheiraram o debate poético brasileiro na década de 60 e 70.

Eu, pessoalmente, a leio sob o signo de Edward Lear e Christian Morgenstern, assim como pela religação empreendida pelos poetas ligados à revista DADA a práticas poéticas desprestigiadas no período (momento fértil para necrofilias neoclássicas) pós-Renascimento, como a das fatrasies medievais (ilumine-se clicando AAQQUUII).

§

às vezes nos reveses
penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses


§

Entre os dadaístas, penso especialmente em Hans Arp (ilumine-se clicando AAQQUUII), ao ler os poemas de Angélica Freitas, assim como ela estaria muito à vontade entre os poetas do Grupo de Viena (como H.C. Artmann (ilumine-se clicando AAQQUUII) ou Gerhard Rühm (ilumine-se clicando AAQQUUII)). Quem estiver familiarizado com estes poetas, assim como a prática das já mencionadas fatrasies medievais, Heinrich Heine, Gertrude Stein, Kurt Schwitters ou Susana Thénon, perceberá o que estou tentando argumentar.

§

o que é um baibai?
Angélica Freitas


baibai es un adiós
un farewell sin pañuelos
tem gente que escreve haikai,
três linhas à bashô
baibais também seguem modelos

quem escreve baibais sabe que acabou
-se o que era doce

§§

espancado na infância molha os pés no orinoco
debaixo d'água como soa a ocarina?
brbrlllbrrrr brbrlllbrrr

§§

esnobada na festa molha os pés no rio das antas
debaixo d'água como faz seu coração?
'sai da chuva' 'já para casa'

§§

sufragette sem rouge molha os pés no rio clyde
debaixo d'água como faz o seu cabelo?
esquerda.... direita.... esquerda..... direita....

§§

feia nas fotografias molha os pés no rio reno
debaixo d'água como faz seu celular?
'depois do bipe lorelei depois do bipe'




Eu procuro compreender os que têm calafrios diante deste "brbrlllbrrrr brbrlllbrrr", mas me pergunto se eles são os que esperam que todo poema seja uma excursão à "noche oscura del alma". Pergunto-me se eles vêem o humor extremamente telúrico em Catulo ou se o respeitam apenas porque seus ossos são pó há vinte séculos. Ou por aquela esfinge etérea, a ffoorrmmaa. Se eles compreendem a simplicidade e leveza tesas de Heine e Arp. Mesmo entre os que acreditam que "experimentar com a linguagem" significa empilhar e justapor polissílabas díspares como "parafuso" e "escaravelho". Não deixo de concordar que seria um tédio se todos passassem a escrever como Angélica Freitas, como foi um tédio a década de 90, quando tanta gente escrevia joãocabralinamente. Poeta nenhum pode ser eleito parâmetro para todos os outros. Poderia Homero, ou excluiríamos com isso muito do que encontramos melhor em Safo? Parâmetro poético único e "Grande Poeta Nacional" são coisas de província.

Mas, talvez eu esteja realmente louco e o poema a seguir nada de nada seja, ainda que eu veja nele tanto.

sereia a sério
Angélica Freitas

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado

a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia

não quero contar a história
depois de andersen & co
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa

em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do méditerranée

são duros os procedimentos

bípedes femininas se enganam
imputando a saltos altos
a dor mais acertada à altivez
pois
a sereia pisa em facas quando usa os pés

e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse

em vez do elefante dançando no cérebro
quando ela encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão

4 comentários:

Pádua disse...

Caro Domeneck,
que ideia curiosa - de onde veio? Angélica Freitas já é bem melhor do que Cacaso.
Abraços,
Pádua

Ricardo Domeneck disse...

Pádua, querido, a qual idéia você se refere?

Não ficou claro, sobre Cacaso e Freitas?

Foi exatamente o que quis dizer, que Angélica Freitas me parece muito melhor e muitíssimo mais interessante que Cacaso, por exemplo, dentre os poetas do Grupo do Mimeógrafo.

Sei que uma comparação como esta talvez atrapalhe, mas eu gosto de viver perigosamente.

Beijos berlinenses para você em terras paulistanas,

Domeneck

Pádua disse...

Desculpe, Domeneck. Fiquei fora do ar.
Referia-me à ideia de comparar Angélica Freitas com Cacaso; andaram tentando ver nexos entre os dois? Ou comparar o humor desses poetas?
Beijos,

Pádua

Ricardo Domeneck disse...

Pádua,

sim, eu sinto uma tentativa de filiá-la aos marginais cariocas, o que me parece não explicar muito sobre o trabalho de Ms. Freitas ou dos cariocas setentistas.

beijo

R.

Arquivo do blog