quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Nós vivemos no inferno mas não o conhecemos por completo"

Publiquei cinco traduções minhas para poemas de Helmut Heissenbüttel (1921- 1996) na Modo de Usar & Co.

Heissenbüttel é um de meus poetas alemães favoritos no pós-guerra. Ainda quero um dia escrever algo sobre seu verso "Wir leben in der Hölle aber wir kennen sie nicht genau", ou "Nós vivemos no inferno mas não o conhecemos por completo". Na poesia germânica do pós-guerra, geralmente encontro referências mais fortes para o meu trabalho entre os austríacos, como H.C. Artmann e Friederike Mayröcker, poetas que tiveram seu impacto sobre minha escrita, assim como Peter Handke e Thomas Bernhard, mas creio que posso afirmar que Heissenbüttel estaria muitíssimo à vontade entre os poetas do Grupo de Viena. É dele um de meus poemas favoritos:

minha história bíblica começa com o cheiro do campo
.......em agosto
meu paleolítico chega apenas até minha própria infância
prosódia dos vagões ferroviários
do correr descontínuo do tempo
ontem foi há três semanas
cachos de dias penduram-se fora no passado
meu desassossego é a vista das águas que são
.......partidas pelos remos das canoas
meu desassossego é o barulho dos dados
.......que rolam sobre a tábua da mesa
Ângulos dobram-se tortos sobre minha cara

§

meine biblische Geschichte beginnt mit dem Geruch der Heide
.......im August
mein Paläolithikum reicht nur bis in meine eigene Kindheit
Prosodie der Eisenbahnwagen
der unkontinuierliche Ablauf der Zeit
gestern war vor drei Wochen
Trauben von Tagen hängen aussen an der Vergangenheit
meine Beunruhigung ist der Anblick des Wassers das von den
........Ruderbooten zerteilt wird
meine Beunruhigung ist das Geräusch der Würfel die über die
.......Schreibtischplatte rollen
Blickwinkel klappen schräag über mein Gesicht



As referências destes poetas todos estão ancoradas nas duas vanguardas históricas germânicas: o grupo em torno do Cabaret Voltaire, da revista DADA e das germinações metropolitanas múltiplas dos dadaístas (Hugo Ball, Hans Arp, Richard Huelsenbeck, Kurt Schwitters, Raoul Hausmann, Hannah Höch, etc), e também os expressionistas, como Georg Trakl, August Stramm, Gottfried Benn, Else Lasker-Schüler, Georg Heym ou Jakob van Hoddis. Mesmo Brecht, de certa forma, pelo menos o Brecht de Baal (1918).

Vivendo na Alemanha, sinto na pele o que significou para estes vários grupos as possibilidades da conjunção entre estética e ética. A discussão é infindável, como sempre. Os traumas desta discussão assumem características distintas no Brasil e na Alemanha. Quem conhece, por exemplo, o debate entre Ernst Bloch e Georg Lukács sobre os expressionistas, iniciado por um artigo de Lukács em 1934, em que este condena violentamente os poetas expressionistas, gerando a defesa apaixonada de Bloch, sabe quais os abismos que cercam este dilema.



Heissenbüttel lutou no front russo como soldado, aos 20 anos de idade, onde perdeu o braço esquerdo. Retorna para uma Alemanha às voltas com o processo de Entnazifizierung (desnazificação), reconstrução tanto das cidades como da própria democracia no país, a divisão do território entre os aliados, a hipocrisia do esquecimento de crimes. Trata-se de uma geração de poetas pouquíssimo conhecida no Brasil, de poetas como o próprio Helmut Heissenbüttel, além de Heiner Müller e de austríacos como Erich Fried e Ernst Jandl, ou poetas de fala germânica do Leste Europeu, como Paul Celan, o único mais discutido no Brasil. É a geração que daria ao Brasil poetas como João Cabral de Melo Neto, José Paulo Paes e autores como Clarice Lispector ou Dalton Trevisan. É, como de costume, difícil definir gerações. No caso desta, muitos poetas mais velhos, que chegaram a estrear em livro antes da Segunda Guerra, só no pós-guerra poderiam unir-se a uma comunidade poética e publicar mais ativamente, como é o caso de um poeta maravilhoso como Peter Huchel (1903- 1981) ou ainda de Günter Eich (1907 - 1972) e Rose Ausländer (1901 - 1988), contemporâneos de Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa e Carlos Drummond de Andrade.




Como escrevi na Modo de Usar & Co., Helmut Heissenbüttel está entre os poetas de língua alemã que retomaram a pesquisa experimental destas duas vanguardas germânicas. Sua perspectiva experimental, porém, não se baseou em qualquer elefantíase semântica, desregramento ou atomização sintáticos. A antologia poética da qual foi retirado o texto abaixo intitula-se Das Sagbare sagen, ou seja: dizer o dizível. É inevitável aqui pensar na última proposição de Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922 - o anno mirabilis do modernismo internacional, como Marjorie Perloff chegou a dizer. A última proposição do Tractatus, como todos sabem, é a famosa e mui citada "Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen" / "Sobre o que não se pode falar, deve-se silenciar." Obviamente, já se usou e abusou desta proposição, em inúmeros contextos, em geral descontextualizando-a, na verdade. Não se pode esquecer da proposição que diz: "Os limites de minha língua são os limites do meu mundo", na qual Wittgenstein investiga uma possível "sutura" (ou apenas "analgésico"?) para o dilema poético do abismo/ferida que separaria da linguagem o mundo, algo que tanto ocupara a poesia moderna a partir do Romantismo, levando quase ao esfumaçamento da linguagem entre os simbolistas (basta pensarmos em um brasileiro como Cruz e Sousa, ou num alemão como Stefan George). Algo desta proposta talvez possa ser sentida já em Mallarmé, transformando a equação "Mundo X Linguagem" em "Linguagem = Mundo". Não sei se esta proposição já foi pensada a fundo na poesia brasileira. A concentração única na chamada "função poética" da linguagem (apesar da advertência de Jakobson), ou a noção de "materialidade da linguagem" praticada pelo grupo Noigandres, levando na maior parte dos casos a uma teatralização visual do signo, não me parecem realmente levar essa proposição às consequências mais profundas.



No entanto, é justamente a Haroldo de Campos que eu recorreria para discutir um dos aspectos dos poemas traduzidos abaixo. Pois o módulo de composição de Helmut Heissenbüttel, nestes poemas específicos e em muito de seu trabalho poético, assemelha-se ao que Haroldo de Campos viria a escrever sobre a composição poética de Murilo Mendes, ou seja, o que o poeta paulista viria a chamar no poeta mineiro de uma "espécie de gerador iterativo de sintagmas, que se escandem completos e acabados", seguindo para reiterar o que Manuel Bandeira já escrevera sobre Murilo Mendes, sobre sua articulação de uma "combinatória capaz de lobrigar a concórdia na discórdia". Não iria tão longe na comparação entre Helmut Heissenbüttel e Murilo Mendes, mas o alemão também parece compor um poema "de frases inteiras", não tanto com a "violência de arestas sucessivas, arrombando com a alavanca da imagem imprevista e impressível, a porta blindada do silogismo”, mas criando uma combinatória permutativa de significados instáveis, questionando de certa maneira a noção de objetividade baseada em um conceito como o de mot juste, do século XIX. Já insinuei em outros artigos uma oposição possível entre os grupos experimentais do pós-guerra, especialmente os que floresceram em metrópoles como São Paulo, Paris, Nova Iorque ou Viena, ou seja, entre os grupos que se basearam nas vanguardas construtivistas (como é o caso dos brasileiros da revista Noigandres) e os grupos que se basearam no trabalho dos poetas da revista DADA e do expressionismo (caso, por exemplo, do Grupo de Viena e da Escola de Nova Iorque). No caso destes últimos, a materialidade da linguagem busca atingir a não-transparência do signo sem teatralizar demais seu aspecto visual, e baseia-se mais na instabilidade dos referentes que na tentativa de precisão na relação significante/significado, sem no entanto desprezá-la.

o negro da água e o pontilhado das luzes
o negro da água e o ocasional dos reflexos
regiões e regiões e paisagens
paisagens que eu tingi e paisagens que eu
.......não tingi
o ocasional das sombras e a cromática da claridade
o negro da negrura e a cromática da clara mancha
amarelo vermelho amarelho e vermelho vermelho
regiões e paisagens e ou
ou e ou ou

die Schwärze des Wassers und das Punktuelle der Lichter
die Schwärze des Wassers und das Gelegentliche der Reflexe
Gegenden und Gegenden und Landschaften
Landschaften die ich gefärbt habe und Landschaften die ich
.......nicht gefärbt habe
das Gelegentliche der Schatten und die Chromatik des Hellen
die Schwärze des Schwarzen und die Chromatik der hellen Flecke
gelb rot rotgelb und rot rot rot
Gegenden und Landschaften und oder
oder und oder oder



Esta perspectiva da "fala possível" evitaria também, por exemplo, o abuso que se pratica em resenhas de poesia no Brasil, o abuso do clichê que leva autores de artigos a descrever o trabalho de um poeta como sendo a "tentativa de dizer o indizível". Confesso que poucas expressões estimulam tanto meu reflexo faríngeo como esta. Questão de escolha. Talvez, para poetas do pós-guerra (especialmente no território realmente devastado pela Segunda Guerra), dizer o dizível parecia missão maior em termos est-É-ticos. Ouso dizer que o mesmo se aplica a Paul Celan, poeta sobre o qual usa-se com freqüência a descrição (a meu ver equivocada) do "dizer o indizível". A obra de Heissenbüttel é plural e variada. Quem se interessar, pode visitar minha postagem sobre ele na Modo de Usar & Co. , onde estão todos os poemas que traduzi.

AAQQUUII

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4 comentários:

ana rüsche disse...

esses poemas são incríveis...

Ricardo Domeneck disse...

Dona Rüsche!

Sim, eu gosto muito muito dessa criatura.

beijos

Domeneck

Felipe Moreira disse...

Olá, li e gostei do seu livro, A cadela sem logos. Também me interesso por Wittgenstein e pela poesia concreta. Acabei de encontrar o seu blog. Gostaria de ser cúmplice.

Publiquei um texto na Zunái:
http://www.revistazunai.com/contos/felipe_moreira_parque.htm

E tenho escrito nesse blog: http://amorfc.blogspot.com/search/label/The%20Plastic%20Blond%20Beast%20Company

Sample:

A MENINA ROBÔ

A MENINA ROBÔ precisa supra-sentir dor. A cena precisa fazer testes nela para ver se isso ocorre. Isso precisa exprimir o próprio pseudo-romantismo. Pseudo-romantismo = a MENINA ROBÔ pode amar. Dor = qualquer coisa que se sinta. Isso se dá assim: a MENINA ROBÔ está sentada numa cadeira no centro do palco. MENINA ROBÔ = todos os espectadores / leitores da cena. O palco está todo apagado. Luz somente nela. Ela precisa supra-sentir dor. A pretensão é fazer ela sentir mais que um humano sente. Precisa fazer testes de dor nela para que isso ocorra: 1. O seguinte verso de T.S Eliot: do I dare to eat a peach? (“ouso eu comer um pêssego?”) precisa ser colocado na frente dela. Banco de dados precisa ver se ela supra-sente o verso ou não, se isso é o caso ou não é o caso, 2. Entra MENINO. Ela dá um beijo na mão da MENINA ROBÔ. Banco de dados precisa ver se ela supra-sente o beijo ou não, se isso é o caso ou não é o caso, 3. Entra BESTA LÍRICA e dá um tapa na cara dela. Banco de dados precisa ver se ela supra-sente o tapa ou não, se isso é o caso ou não é o caso, 4. A Moreninha, ela precisa sentir A Moreninha e sofrer, ela precisa notar o papel interessante dos escravos nesse romance do século XIX: eles são coadjuvantes, tal como mesas ou vasos. Banco de dados precisa..., etc. Precisa fazer vários testes, nesse viés. A cena pode opcionalmente devir-cruel. Problema a ser considerado: novas metáforas com agulhas. A pretensão é supra-sentir. A pretensão é atingir o lírico / robótico. Provavelmente fazer você cantar: ela é a flor robô, ela é o meu amor. A cena pode opcionalmente fazer uma apologia às drogas. Pensar sobre a questão da heroína e de um vício artificialmente controlável ou robôs viciados em heroína. Imagem / poema gratuito:
robôs
viciados em heroína: hello junky!
andam
feito almas penadas flutuam
nas estações de metrô de Berlim
naquele tempo (precisa pensar na Bíblia)
MENINA ROBÔ
supra-sentia mais = paraíso além mundo
mais que tudo que havia

Abs, Felipe.

Ricardo Domeneck disse...

Felipe,

que bom que você gostou do livro. Mas sugiro que você não comente isso lá pelas bandas da Zunái, se quiser continuar publicando na revista.

Abraço,

Domeneck

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