quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Balanço pessoal e a infame lista de fim de ano

Fim de 2009, início do último ano da década. Minha piada favorita no momento e que repito ad nauseam para os meus pobres amigos é: "Apresse-se caso você ainda queira entrar na lista de melhores da década. Sobrou só mais um ano!"

O ano foi produtivo, um bom ano. Eu tenho há mais de uma década uma espécie de teoria-superstição pessoal, a de que os anos pares são geralmente bons anos e os anos ímpares são geralmente anos difíceis. Em algum momento da minha vida esse ciclo pareceu instituir-se em minha cabeça. Eu acreditava até mesmo ter provas empíricas, baseadas em alguma estatística psicológica estapafúrdia, que fazia os anos pares parecerem tranquilos e os ímpares turbulentos, por algum calendário mental de colheitas e geadas, enchentes e secas, uma vaca magra devorando uma vaca gorda, etc. Não foi à toa que num poema do livro Carta aos anfíbios eu escrevi:

O asfalto na Augusta
...............encharcado
nesta primavera estranha
de 07 de novembro
de 2003 (em anos ímpares
me convenço de que
a morte existe) as fronteiras
fechadas, as invasões
bárbaras às portas,
as disfunções do clima vêm
unir-se à sua intermitência.
........................Quando
tudo em mim conspira
pela constância?


(trecho do poema "Como um caule / exausto / sob copa teme- / rosa", in Carta aos anfíbios, 2005)


Você agora poderia me perguntar: 2009 foi mesmo um ano difícil? Eu seria um ingrato se o chamasse de ano ruim. Foi um ótimo ano. Difícil e ótimo. Uma das boas coisas de estar envelhecendo é perceber que a maioria de nossos problemas é criada por nós mesmos. Onde quer que estejamos postados, aí chegamos com nossas próprias pernas. Queimou o pé? Não pisasse em brasa. Nem corresse como um idiota onde até os anjos andam na ponta dos pés, como diz aquele ótimo ditado em inglês. Quem sabe eu me enfiarei em menos enrascadas em 2010?

Depois de 4 anos longe, pude voltar ao Brasil e rever amigos no Rio de Janeiro e São Paulo, além da família em Bebedouro. A viagem foi linda.

Meus três livros até agora foram publicados em anos ímpares: Carta aos anfíbios em 2005, a cadela sem Logos em 2007 e agora o Sons: Arranjo: Garganta em 2009.

Eu escrevi pouca poesia em 2009, mas gosto do que me foi dado produzir. O trabalho crítico na Modo de Usar & Co. tomou tempo, mas foi prazeroso e estimulante, obrigando-me a pesquisas que seriam em primeiro lugar frutíferas para mim mesmo. Publiquei o Sons: Arranjo: Garganta, sendo o primeiro poeta a abusar da generosidade de Carlito Azevedo e Augusto Massi e ter dois livros publicados pela coleção Ás de Colete das editoras Cosac Naify e 7Letras. Livro que estava "pronto" desde 2007, mas que ganhou muito nos dois anos de gaveta, com alterações que o melhoraram, iludo-me em crer. Forma agora uma espécie de "álbum duplo" com o a cadela sem Logos, gosto de brincar comigo mesmo dizendo que os dois livros são meu Kid A / Amnesiac. Publiquei também uma pequena plaqueta de poemas, intitulada Corpos e palanques, pelo projeto Dulcineia Catadora. Tive algumas experiências surpreendentes como poeta oral:

§ - participei do primeiro Festival Internacional de Poesia de Dubai, ao lado de gente como Wole Soyinka, Tomaž Šalamun e Rebecca Horn, entre outros;

§ - também do festival de poesia de Medana, na Eslovênia, onde conheci vários poetas jovens europeus muito bons, como o (excelente, realmente excelente) poeta russo Aleksandr Skidan, a jovem sueca Linn Hansén, o cipriano Mehmet Yashin e onde tive conversas muito estimulantes com o poeta e filósofo esloveno Gorazd Kocijančič, entre vários outros poetas muito bons. Foi um dos festivais com a melhor seleção que já vi;



§ - fiz minha primeira performance solo, no Espai d´Art Contemporani de Castelló, nos arredores de Valência, na Espanha.




O evento semanal que organizo às quartas-feiras no Berlimbo e que chamo de my own private Cabaret Voltaire chegou ao seu quinto ano. Algumas das noites mais impressionantes e que me deixaram mais feliz neste ano incluíram a performance do fundador do grupo de vanguarda berlinense Die Tödliche Doris, meu caro Wolfgang Müller; os israelenses do TV Buddhas; um show secreto da banda londrina Mystery Jets; a performance da jovem alemã Dillon; um set do francês Jackson Fourgeaud aka Jackson And His Computer Band; a festa do quarto aniversário com os meninos suecos do Lo-Fi-Fnk; a performance da guapísima La Prohibida, de Madri; o show da banda post-punk alemã Herpes; além de sets de amigos como Uli Buder aka Akia, entre tantas outras coisas.

Penso agora em matar o evento e começar algo novo.

Chegamos ao segundo número impresso da Modo de Usar & Co.. A franquia eletrônica esteve ativíssima durante o ano todo. Minha Hilda Magazine sofreu um pouco com meu excesso de atividades, mas espero retomá-la em 2010.

§

A lista infame

Devo dizer que, a princípio e por princípio, nada tenho contra a atividade divertida de fazer listas de favoritos do ano, desde que elas sejam isso: uma lista pessoal de favoritos, que pode servir de lista de dicas para amigos. Quando jornais tentam transformar esta atividade divertida em historiografia, a coisa já se torna mais nebulosa e inevitavelmente desonesta. Portanto, o que se segue quer-se apenas como isso: lista de coisas memoráveis de 2009, como dicas aos amigos e leitores deste espaço. Devo ainda avisar que minha cabeça tende a funcionar da seguinte maneira: as últimas impressões fortes tendem a sobrepor-se às mais antigas, ainda que igualmente fortes ou mesmo mais. Dito isso:

Cinema:

§- o filme que mais me impressionou este ano (creio que ainda não estreou no Brasil) foi o novo filme do austríaco Michael Haneke, Das weisse Band (A fita branca), que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Eu assisti ao filme na mesma semana em que assisti ao Antichrist de Lars Von Trier, e não pude evitar as comparações. O filme de Haneke é simplesmente magnífico e (arriscarei aqui o exercício divertido da polêmica) faz o filme de Lars Von Trier ficar parecendo o trote de um adolescente revoltado, com muitíssimo talento e inteligência, mas com uma maestria técnica que não o salva de seu simplismo político e est-É-tico. Alguém mais percebeu também o quanto este filme novo de Lars Von Trier deve a David Lynch? O filme novo de Pedro Almodóvar segue a linha dos filmes produzidos depois da trilogia espetacular (Carne trémula, Todo sobre mi madre e Hable con ella), ou seja, são os trabalhos de um mestre competentíssimo, que sabe muito bem como fazer bons filmes, mas eles não têm aquela tensão espiritual que faz daqueles três filmes mencionados coisas insuperáveis da década. O filme novo de Quentin Tarantino, Inglorious Basterds, foi o mais divertido do ano. A performance do ator alemão Christoph Waltz como "Coronel Hans Landa" já é uma das coisas mais impressionantes da década.



§

Música:

Esse foi o ano que viu Beth Ditto transformar-se de underground darling em pop icon. Mas o grande álbum do ano de 2009 é da banda que provavelmente ficará também como uma das grandes bandas da década: os moços americanos do Animal Collective. O álbum chama-se Merriweather Post Pavilion e está sendo eleito por todos os lados como o mais impressionante do ano.



Esse foi portanto um dos melhores e mais impressionantes álbuns do ano. Houve também o bonito Two suns da britânica Bat for Lashes, o novo álbum do Grizzly Bear, entre outros. Mas a canção, aquela favorita, a canção favorita em 2009 foi "Chrystalised", da banda britânica The XX.



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Shows:

Eu não costumo ir a shows, mas dos poucos em que estive este ano, o mais memorável foi o da Planningtorock na Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo), em Berlim.



Os outros dois shows favoritos foram: a austríaca Anja Plaschg aka Soap & Skin em Berlim e o insano Ariel Pink em Heidelberg.

§

Televisão:

Eu não assisto a televisão há pelo menos 10 anos, mas acompanho várias séries de TV quando são lançadas em DVD. Este ano decidi, finalmente, assistir a uma série que me recusara a ver quando ainda estava no ar. Recusava-me a vê-la porque me irritava a maneira como meus amigos falavam da série, como se fosse uma experiência quase religiosa assistir a ela. Falavam das personagens como se fossem amigos íntimos. Pareciam tias velhas falando da novela das oito. É por isso que, em 2003 e 2004, quando a série ainda estava no ar, recusei-me terminantemente a assistir à coisa.



Em algum momento do verão, alguém postou no Facebook uma cena engraçada do daydreaming autodepreciativo recorrente das personagens. Foi quando decidi assistir à série Six Feet Under, produzida pela HBO entre 2001 e 2005, e me tornei a mais fanática das tias velhas, fascinado que algo daquela qualidade pudesse ter passado na TV, com atores excelentes e episódios inteligentes, lidando com tabus ocidentais tão fortes. Não hesitaria em dizer que Six Feet Under foi uma das experiências mais poderosas de 2009. Assisti em poucas semanas às 5 temporadas e chorei como um condenado à morte no último episódio. Qualquer um deveria chorar exatamente como um condenado à morte naquele episódio. Posto abaixo exatamente a cena que me fez querer assistir à série:



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Encerro aqui a lista. Poesia e literatura, meus queridos, só no ano que vem.

Obrigado a todos que acompanharam os textos, debates e conversas neste espaço em 2009.

sinceramente,

Ricardo Domeneck

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4 comentários:

Lucas disse...

Que post bacana, Ricardo! Perfeitos os comentários sobre Almodóvar e etc.
Incrivelmente, eu concordo com sua tese pessoal: os anos ímpares são mesmos mais difíceis...
Se fizer algum post com coisas lamentáveis de 2009, inclua a não-continuidade do blog de angélica freitas, que era uma das coisas mais divertidas que se podia acompanhar nesse cibermundo, uma pena...

abraço

Ricardo Domeneck disse...

Oi, Lucas,

Olha lá no blog da Angélica, na verdade ela voltou a postar, mesmo que muito esporadicamente.

beijos

R

Paulo disse...

Assisti a Six Feet Under por causa de seu comentário. Realmente impressionante.

Ricardo Domeneck disse...

Caro Paulo,
bom ouvir isso. A série foi MUITO importante para mim quando a vi.
abraço
Ricardo

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