sábado, 31 de dezembro de 2016

Cadeira-de-balanço do fim-de-ano


Foi o ano em que todos nós morremos
um pouco, claro que pouco a pouco
morríamos todos e olhávamos
                    já com cuidado
   uns para os outros,
e passamos a perguntar:
                   “será você
o próximo?
                     serei eu?”

pela manhã contávamos os vivos
pois já era mais fácil do que contar os mortos,
tirávamos do caminho
                  uns dos outros
as pedras, as cascas de bananas,
apontávamos escadas íngremes e degraus longos
e nos agasalhávamos com um pouco mais de afinco

por estas épocas foi que começamos
a nos lembrar com nostalgia
de um tempo
                     mais simples
     quando não tínhamos
jamais usado palavras como vindima
ou verbos como devir,
              não sabíamos
o que era um Dalai Lama
e ambição era poder comprar colchão mole
em vez de duro no açougue,

todas as vacas e frangos e porcos eram felizes,

           rinocerontes havíamos visto
só por fotos
                     e extintos estavam só os fogos
na mata e os dinossauros,
        mas há tanto tempo
que não os contávamos mais
para a economia doméstica.

Tivemos afinal aquelas primeiras lições
                    da fauna caseira,
as lagartixas perambulando pelas paredes
enquanto a família ouvia Cid Moreira
           relatar as desgraças da República,
e pais e mães e filhos descansavam
de vez em quando a atenção das notícias
com a caça das lagartixas
aos mosquitos e às varejeiras.

Entendia-se a cadeia
                alimentar, a família
           torcia
pelos répteis como pelo Corinthians
e quando a lagartixa abocanhava a mosca
            sentiam alívio até as panelas na mesa:
o resto da janta esfriando na cozinha
podia ser requentado
sem sobressaltos para o almoço.

Mesmo assim assistia-se à matança
            com um pouco de inveja
ressentida das moscas, tinham asas,
        escapavam mais fácil
do que nós. Não era hierarquia
                        de classes,
alguns dos insetos
                         e alguns dos mamíferos
   da casa dividiam as colheitas,
com as formigas em marcha por cantos
e quinas firmara-se um tratado de paz
desde que não surrupiassem o açúcar
e mantivessem suas patas longe do mel,
tão caros,

e se aos camundongos
              reservava-se o veneno, convivia-se
com os grilos, e os bem-te-vis bicavam os abius
e as goiabas no quintal, os cães matavam, é verdade,
muitas minhocas em suas escavações arqueológicas
       mas sempre sobrava para os primatas
suficiente para vitamina, doce e suco.

      Nos domingos de chuva, alisava-se o cão e o gato,
guiava-se o sapo
até o bueiro com a mangueira,
               com a vassoura só se alguma briga
por dinheiro tivesse perturbado a paz das paredes
da casa com suas manchas, fazendo aflorar
nossa crueldade escrita nas espirais dos genes,
aquela que levava os meninos da rua
a saírem com varas de pescar no asfalto,
agitando-as rapidíssimas para confundir os radares
dos morcegos, matando-os.

     O macho-alfa dos primatas
era amado e respeitado por todos, ainda que também temido,
           mas generoso olhava o dilúvio
minúsculo das cidades do interior, mastigava
        seu macarrão.
Jesus estava vivo, Iemanjá doava o que podia,
                   estavam vivas as avós,
o Brasil era nosso,
eram puros e infindáveis o petróleo e a água.

            Tudo seguia uma lei e uma teia
de alianças, a fauna caseira aguava
                na estiagem a flora, os cães
dependiam dos primatas, atraíam as moscas
todos os bichos peludos da casa, da mãe ao cão,
e sempre torcia-se pelas lagartixas
         em caça às moscas e em fuga dos gatos.

Tudo dava cria:
os primatas, os cães, os gatos, os morcegos, os sapos, as lagartixas e as moscas

repondo o que se perdia numa sucessão que nos iludia,
idiotas da fartura eterna como se questão de tempo apenas
para que os mortos voltassem todos na pele de filhotes nossos,

    pois morria-se e matava-se aos poucos,
éramos todos felizes, não havia
    Dalai Lama, rinocerontes ou dinossauros
nas redondezas, nos espantávamos com fenômemos
simples como aquele dia em que uma legião
de tanajuras
invadiu o céu da cidade, havia vagalumes
            no campo
e pescar tinha uma coisa de vida ou morte,
cercados que éramos por sucuris e piranhas.

Respeitava-se a cadeia, não se tentava
a pirâmide a provar que era séria e eficiente.

Mas sabemos hoje que tínhamos passado os olhos
rápidos demais sobre os desastres da República,
 que Cid Moreria selecionava os lutos
     e custava muito às moscas alimentar
nossas lagartixas, o bife no prato sofrera
   do parto da vaca ao matadouro
     que a República
tinha sido desde o começo e antes
e que morrer e matar aos poucos
era já morrer e matar demais.

Hoje, depois,
        sabemos que sobre famílias
apropriado seria escrever a carvão,
garatujas sobre a pele esticada e ressequida
das vacas e frangos e porcos
        que cederam suas carnes
para a sucessão de almoços e jantas
que nutriram esta coletânea de fotos
       tão dignas de notas-de-rodapé
quanto a sucessão de presidentes e ministros.

Mas as alegrias continuaram em verdade simples
mesmo que nossos parâmetros nunca se convençam
entre elevar-se ou rebaixar-se, e no fundo as bolsas
             que temos medo que caiam
são apenas aquelas que podem revelar
            algum segredo pessoal ou familiar
nas calçadas da avenida ou do passeio público,

           e ouvimos por fim uma mulher
tão experiente nos desastres da República
    como Elza Soares
cantar que cantaria até o fim, então erguemos
                  as vozes roucas
e prometemos o mesmo, cantar até o fim

             e as baleias responderam longe, longe,
também elas cantarão até o fim,
    e as abelhas zuniram em sua queda populacional,
                       os pés de muitos sim machucados
na avenida, cães e primatas sem casa,
     os estandartes confundindo-se com faixas
porque o samba-enredo não muda, entra ano sai ano,
é um pedido confuso,

            dá-nos Jesus e dá-nos Barrabás

com os dois debateremos que antes de Deus e César
queríamos dar ao filho, ao amigo, ao vizinho,
rezando apenas que esta balança que pende sempre para um lado
    torne-se um balanço em que nos empurraríamos
                   uns aos outros
nos ares dum parque de diversões gigante
           e que Nero não precisa incendiar Roma
pois nós mesmos já estamos com os fósforos nas mãos
e batucamos na caixinha enquanto seguimos
      cantando até o fim do mundo
com as baleias e os cães
e nossos irmãos e nossos primos entre os primatas.

§

Berlim, 28 a 31 de dezembro de 2016

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