quarta-feira, 25 de abril de 2018

Epístola dos dragões aos sãos


"São Jorge e o Dragão", Hans von Kulmbach (circa 1510).


Enviaram-nos,
os narradores e publicitários,
the spin doctors das doutrinas,
em expedição a uma guerra santa -
diziam pelos alto-falantes:
que se mate o dragão
ou se mate o soldado,
são generosas com seus Sãos
as milícias inanes da sanidade,
e nós, mamífero e réptil,
já não sabemos ao certo
o quem e o que,
desde então há só esse balé,
esse tango, esse quebra-nozes
de quebrados nós, essa paixão
de fogo e lança, queimaduras
de terceiro grau e penetração,
esse amor-ódio
entre mim e o dragão,
o medo mútuo e o terror recíproco
de vencer a batalha
e derrotar quem nos dá razão
de viver, e dessarte tornarmo-nos
supérfluos, sós ao sol,
virar efígie! balela de baleia branca,
romance de unicórnios
e pinóquios, moeda de troca,
não! não ser história
para boi e vaca e bezerro
dormirem se não dormimos
nós mesmos
há tanto tempo de martírio,
enrodilhados um no outro
já não sabemos
quem é quem,
São Dragão e Jorge!
quem, quem
ao contemplar nossa iconografia
poderá veramente dizer
se nos digladiamos
ou fazemos amor,
quando a esta baixeza
da civilização
risível desses que exigem de nós
que cumpramos nossos papeis na trama,
ninguém mais vê a diferença
entre as comédias românticas e os filmes de terror,
o amoroso garfo e o amoroso lança-chamas
aqui e acolá seguimos, abraçados
por metros de tela e litros de óleo
nessa batalha para edificação
da canalha, nessa cama sublunar
sofrendo a cada século
mais incisiva nossa crise de identidade
tão particular, meu nome, nosso nome,
que nome,
São Drão,
São Drorge,
São Jorgão,
mamífero e réptil,
homem e lagarto
sãos.

§

Berlim, abril de 2018.

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